Os mísseis de Outubro::O lado menos falado:: parte2

Semana passada, comecei um texto sobre a crise dos mísseis de 1962. Imagino que não seja um evento assim tão esquecido, e pensei que poderia ser original abordando os aspectos militares (o lado menos falado…). Acabei notando que, neste caso, não há como separar a política da estratégia e até da tática – afinal, esse episódio foi, antes de tudo, uma operação militar. Por sinal, não é que, em outros casos, dê para separar política, estratégia e tática (embora esta última tenha, no que diz respeito às operações de campo, certa autonomia. Os assíduos de causa::sabem disso muito bem, depois de anos de convivência com o blogue. Vale então passar os olhos pelo modo como os aspectos políticos se expressam através da estratégia e da tática. Agora, um esclarecimento: o texto que será lido foi feito com base num resumo resumidíssimo do excelente livro One Minute to Midnight: Kennedy, Khrushchev, and Castro on the Brink of Nuclear War,” do jornalista Michael Dobbs. Publicado em 2008, foi comprado num quiosque de aeroporto, nos EUA, e ficou esquecido, desde então. Existe uma versão eletrônica, atualmente, e eu garanto: é leitura de primeira. As informações retiradas de outras fontes estão indicadas da maneira usual. Talvez falemos mais do assunto em outra oportunidade. Divirtam-se, pois::

parte2Além dos mísseis balísticos que pretendiam instalar na ilha, apontados para os EUA, também foram transferidas para lá forças convencionais, pois as instalações de lançamento precisariam ser defendidas, caso o segredo da iniciativa gorasse e o governo dos EUA resolvesse partir para a ignorância. As primeiras unidades deslocadas incluíam um grupo aéreo de elite, o 32º GIAP (abreviatura, em russo, de “Regimento Aéreo de Caçadores da Guarda”). A importância dessa unidade era tal que fora a primeira da Força Aérea da URSS (em russo, VVS, abreviatura da expressão equivalente a “Forças Militares Aéreas”) a receber, em 1960, os caças a reação (então novíssimos) MiG21F e F13. As novas aeronaves, cujas primeiras unidades de produção foram entregues para testes de avaliação em 1959, passaram então a ser avaliadas em condições de operação militar. O 32º de “caçadores da Guarda”  – título atribuído a tropas de alto padrão de treinamento e desempenho, desde a época dos czares – era considerado dentre os melhores dos melhores da Força Aérea da URSS (essa unidade foi desativada nos anos 1990). Também foram destacados para Cuba elementos de defesa antiaérea, reunidos na 11ª Divisão de Defesa Aérea, equipada com os novos mísseis terra-ar S75N (SA2C Guideline, no jargão da OTAN), orientados por radar.

A operação, denominada pelos soviéticos de “Anadyr”, foi coberta por manobras diversivas, inclusive a mudança de número e até mesmo das insígnias das unidades envolvidas. A maior parte do equipamento e do pessoal do 32º GIAP foi transferida para o 213º Regimento Aéreo de Caçadores (abreviatura em russo, IAP), unidade recém constituída, operando a partir da base aérea de Kubinka, nas proximidades de Moscou. O restante do pessoal da nova unidade foi transferido de outra, sediada na Bielorussia. Uma vez ativado, o 213º foi imediatamente designado para uma “missão secreta”. As aeronaves, sem identificação, desmontadas, foram deslocadas por terra para uma base naval no Mar Negro e embarcadas em navios mercantes comuns. Segundo um interessante relato disponível na Internet, nem mesmo os oficiais do estado-maior da unidade sabiam para que destino estavam seguindo. Este só lhes foi informado quando o navio já se encontrava avançando pelo Atlântico. O mesmo aconteceu com todas as outras unidades soviéticas enviadas para Cuba – movimentaram-se em absoluto segredo, em navios mercantes e sem saber qual seria a missão.

A função dessas unidades (haviam também unidades de engenharia, manutenção e logística) seria “treinar as forças de defesa cubanas”. O 213º IAP, uma vez em Cuba, foi instalado na base aérea de Santa Clara. De fato, sua missão seria cobrir o espaço aéreo de Cuba, em função da presença dos mísseis. De forma complementar, sítios de defesa antiaérea foram espalhados por toda a ilha, formando um cordão, cada instalação afastada não de não mais de cem quilômetros uma da outra. Os pilotos do 213º, já que estavam em uma “missão de treinamento”, logo depois de se instalarem em Santa Clara, em meados de setembro de 1962, e terem seus aviões montados, começaram a voar, de modo a reconhecer os céus da região e treinar com o pessoal militar cubano. O treinamento e, principalmente, os testes para calibragem do equipamento de pontaria dos mísseis envolviam intensa atividade eletrônica, monitorada pela NSA (sigla de National Security Agency), que coordenava as atividades de SIGINT (acrônimo da expressão “SIGnal INTelligence” – “Inteligência de Sinais”, ou o rastreamento, monitoramento e interpretação de transmissões eletrônicas inimigas de toda espécie).  É certo que os russos soubessem que estavam sendo monitorados, já que os radares P12MA (“Spoon Rest A“, no jargão da OTAN) operavam na faixa VHF, cuja potência ia muito além do espaço aéreo cubano.

Até então, os norte-americanos tinham informações sobre a Força Aérea Revolucionária colhidas por informantes locais, na imprensa internacional, por reconhecimento aéreo e pelo monitoramento eletrônico. Sabiam que Cuba, desde 1960, tinha recebido aviões leves e de transporte para sua força aérea, e, depois da tentativa de invasão, também aeronaves MiG dos modelos 15 e 17, já bastante obsoletos. Tinham sido reportadas algumas aeronaves do tipo MiG19, que a inteligência dos EUA situava em número não maior do que 12 unidades. O “19” era um modelo mais capaz: birreator, voava desde 1953 e foi a primeira aeronave soviética supersônica. Armado com dois potentes canhões orgânicos Nudelman-Rikhter NR30, de 30 mm e até dois mísseis ar-ar buscadores de calor Vympel K13 (“Attol” no jargão da OTAN), também era considerado obsoleto diante dos caças norte americanos mais modernos. Para além, a FAR carecia de pessoal, instalações e equipamentos de apoio. Os pilotos e pessoal de terra disponíveis eram poucos, boa parte deles ainda remanescentes da época em que as forças armadas locais eram treinadas pelos EUA. Não era segredo que um programa de assistência militar estava sendo desenvolvido com base em equipamento e instrutores vindos da Tchecoslováquia.

E Cuba, na época, era prá lá de vigiada. Durante o mês de agosto, informações obtidas de fontes diplomáticas e de inteligência alertaram o governo dos EUA sobre a possibilidade de estarem os soviéticos instalando armamento estratégico na ilha. Informações obtidas pela NSA e  de reconhecimento fotográfico por aeronaves U2 mostraram, de forma muito clara, que sítios de mísseis ar-ar estavam sendo instalados, notícia que foi transmitida por Kennedy ao Congresso e ao público dos EUA no início do mês seguinte. Os vôos de reconhecimento foram intensificados, assim como as atividades SIGINT conduzidas pela NSA. A análise do material obtido passou a ser feita com extrema cautela. Era, de fato, uma guerra de informações e inteligência que, certamente, envolvia alguns riscos.

Mas não da Força Aérea Revolucionária, que era considerada, com razão, ninharia. Assim, dá para imaginar a surpresa dos tripulantes de dois reconhecedores McDonnell RF-101 “Voodoo” que, num vôo de exploração fotográfica cruzaram com um MiG21F pilotado por um soviético, armado com mísseis K13 ativos. A aeronave soviética não chegou a tentar se posicionar para o abate, e os norte ameicanos desengajaram sem dificuldade. Pouco tempo depois, outro MiG21, em missão de treinamento com aeronaves cubanas foi instruído a interceptar outro par de Voodoo que haviam invadido o espaço aéreo cubano. Desta vez a aeronave soviética deixou bem clara suas intenções e os norte americanos trataram de fugir em direção a Flórida (no incidente anterior, os aviões da USAF voavam sobre o mar). Curiosamente, desta vez o caça soviético levava apenas mísseis de exercício e não tinha o canhão orgânico carregado com munição real.

A análise de material fotográfico obtido a partir de uma missão especialmente planejada de um U2, em 14 de outubro, revelou que os soviéticos estavam instalando armamento estratégico em Cuba, informação que embasou os boatos que chegavam da ilha e da Europa. O Estado maior Conjunto das Forças Armadas dos EUA aconselhou, ainda no dia 14, que Kennedy ordenasse imediatamente um ataque aéreo contra as instalações soviéticas. Consultado o governo soviético, o ministro do exterior garantiu que a URSS não tinha intenções agressivas e que os assessores soviéticos em Cuba estavam na ilha como convidados do governo local, e ainda assim, devido às constantes agressões dos EUA ao “pacífico povo cubano”. Kennedy estava em entendimentos com o líder soviético Nikita Khrushchev desde a conferência de Viena, em novembro do ano anterior, embora sem resultados relevantes. A iniciativa soviética “melou” o que tinha sido, inicialmente, considerado um sucesso diplomático. De fato, alguns especialistas consideram que a decisão soviética baseou-se em uma avaliação equivocada sobre a personalidade do presidente norte-americano, feita a partir de Viena.

No dia 22 de outubro, diante de evidências de que os soviéticos continuavam deslocando equipamento para Cuba, e pressionado para ordenar ataques aéreos preventivos, Kennedy optou por impor um bloqueio naval. Em pronunciamento feito pela televisão, o presidente alertou o grande público norte americano sobre o que era considerado uma ameaça intolerável à segurança dos EUA: estavam quase completas as bases que receberiam mísseis capazes de atingir quase todas as maiores cidades dos país, inclusive a capital. Afirmou que os EUA não excluía a possibilidade de usar força militar contra o que chamou “uma ameaça clandestina e imprudente para a paz mundial”. Em função da cultura política dos EUA, foi um passo importante, pois abriu ao debate público a situação.

As forças norte-americanas em todo o mundo foram colocadas em DEFCON 3 (Defense Readiness Condition – Condição de Prontidão para a Defesa, nível 3), ou seja, condição de alerta geral. Todas as corporações envolvidas com assuntos de defesa (forças armadas, agências de defesa civil, Guarda Costeira, Guarda Nacional, agências de inteligência, dentre outras) são alertadas para se preparar para o estado de guerra. As férias e licenças são suspensas e as forças armadas são convocadas a se aquartelar. Só que, no dia seguinte, o Comando Aéreo Estratégico (SAC – departamento operado pela Força Aérea, mas ligado diretamente ao Ministério da Defesa dos EUA), que controla as forças estratégicas do país baseadas em terra (bombardeiros e mísseis nucleares), foi colocado individualmente em DEFCON 2, ou seja – estado de guerra. Foi o mais alto nível já atingido pelas forças de defesa dos EUA, e nunca igualado desde então. O próximo passo: guerra nuclear. Essa ameaça iria pairar sobre a cabeça da humanidade pelos seis dias seguintes.

A operação naval mobilizou 56 unidades de primeira linha, inclusive um navio-aeródromo da classe “Forrestal“, um cruzador e duas fragatas de ataque (“porta-mísseis”), e 22 contratorpedeiros. A missão era deter qualquer envio de equipamentos militares para Cuba, o que implicaria, caso necessário, em revistar navios em rota para a ilha, que passariam a ser interceptados numa linha a aproximadamente 500 milhas de distância da costa cubana. Em 23 de outubro, a Organização dos Estados Americanos aprovou o bloqueio a Cuba e os governos instruíram seus navios e aviões a se afastar da zona de exclusão. O bloqueio começaria a valer a partir das 10 horas da manhã do dia seguinte. Em 25 de outubro, foi dada permissão a um navio-tanque soviético para seguir viagem sem ser abordado – segundo a Marinha dos EUA, o reconhecimento aéreo não detectara carga suspeita e aquele tipo de navio não permitia a presença de outra carga que não combustíveis e outros líquidos. No dia seguinte, um cargueiro libanês foi abordado, revistado e liberado. O navio-escola brasileiro “Custódio de Mello”, um transporte de tropas adaptado para instruir guardas-marinha, em rota para Nova Iorque, foi instruído a mudar seu curso para evitar quaisquer constrangimentos.

Em meio à intensa movimentação política e militar, a cúpula política, que incluía o círculo interno da presidência, acionou os canais de comunicação entre governos, que vinham sendo construídos desde a conferência de Viena. Consultado pelo Procurador geral do governo (Robert Kennedy, irmão mais moço do presidente) em 24 de outubro, o embaixador soviético em Washington, então recém-indicado, Anatoly Dobrynin (que ocupou o posto até 1986 e declarava adorar o clima da capital norte-americana), afirmou que não seriam instalados mísseis em Cuba e o que havia sido detectado era equipamento eminentemente defensivo.

Segundo se conta, Khrushchev ficou furioso com a iniciativa norte americana, considerada um ato de guerra.  Entretanto, os soviéticos pouco podiam fazer: seus armamentos ofensivos não estavam ativados e os de defesa tinham capacidade limitada. Não havia possibilidade de enfrentar os EUA no mar: o controle marítimo e aéreo, no Atlântico, era completamente norte-americano. O premier soviético enviou uma mensagem ao presidente dos EUA na qual afirmava que todos os armamentos existentes em Cuba não tinham intenções ofensivas, e que não constituíam ameaça real para a segurança de qualquer nação nas Américas.

Na ilha, a situação era de nervosismo – o que faz sentido, pois se tratava do teatro de operações potencialmente mais quente da Guerra Fria. A falta de informações sobre a situação real, segundo alguns oficiais soviéticos na ilha era o pior aspecto da situação, visto que não permitia um planejamento antecipado da defesa contra um possível ataque dos EUA. Os pedidos de instruções dirigidos à Moscou obtinham respostas vagas. Sobre como lidar com as aeronaves norte americanas, a instrução era para somente reagir a um “ataque real”, embora ninguém tivesse definido claramente o que seria isto. Para o comando soviético em Moscou, um tal ataque teria de envolver uma grande formação de aeronaves, embora os russos soubessem que um ataque nuclear poderia ser realizado por duas ou três aeronaves tipo B58 Hustler, um bombardeiro estratégico supersônico não muito maior do que um avião de caça. As ordens eram claras: não atacar as aeronaves norte americanas que diariamente invadiam o espaço aéreo da ilha. Segundo depoimentos de alguns dos militares, dados após o fim da URSS, o pessoal soviético em Cuba temia os norte-americanos tanto – ou talvez até menos… – quanto a tendência soviética a ter prontos, em situações como aquela, os bode expiatórios que seriam usados caso as coisas dessem errado. Os comandantes que estavam numa frente situada a milhares de quilômetros do centro de decisão eram os ideais, pois sempre poderiam ser acusados de “não obedecer ordens diretas”, caso derrubassem um avião dos EUA. Se não derrubassem, e a força aérea norte americana incinerasse as bases soviéticas sem encontrar reação, a acusação seria de “não cumprir com o dever”, ou pior: “covardia diante do inimigo”.

Nessas circunstâncias, as defesas soviéticas, tomadas de paralisia, passaram a ser consideradas inoperantes pelos próprios cubanos. O governo do país, diante da relutância das unidades militares do aliado em lidar com as incursões aéreas norte americanas, deu ordens para que as próprias unidades antiaéreas abrissem fogo contra aeronaves não autorizadas no espaço aéreo cubano.

Não se sabe direito se a ordem do governo cubano acabou por empurrar os soviéticos a usar a cobertura antiaérea montada na ilha. O fato é que no dia 27 de outubro uma salva de três mísseis S75N derrubou uma aeronave de reconhecimento U2, nas proximidades da cidade de Banes, província do Oriente. O certo é que a ordem partiu do comando das forças armadas soviéticas, em Moscou, pois o comandante na ilha, general de exército Issa Pliyev, estava baixado a um hospital, com sérios problemas de saúde.

No governo e na imprensa de Cuba, a queda do U2 foi comemorada como “a primeira vitória do povo contra o imperialismo”. A notícia chegou a Washington durante uma reunião do presidente Kennedy sua assessoria. Desde o começo da crise, havia concordância, na equipe de Kennedy, de que a resposta adequada à derrubada de um avião dos EUA seria um ataque aéreo. Depois de alguma controvérsia, os norte-americanos concordaram que, como aquele ato contrariava o padrão de atuação dos soviéticos até aquele momento, a derrubada deveria ter sido um engano cometido por comandantes de campo. Assim, Kennedy foi capaz de resistir a ala de seu governo que queria partir para a retaliação. Um ataque norte americano, mesmo que limitado, provavelmente teria interrompido as negociações com os soviéticos e tornado exponencialmente maior o perigo de uma confrontação nuclear.

Se a derrubada do U2 (cujo piloto morreu na queda) foi dada como incidente isolado, o perigo da derrubada de outra aeronave dos EUA continuava, em função dos vôos de baixo nível de reconhecedores RF8 Crusader, da Marinha, e de RB47H Stratojet, estas usadas para atividades SIGINT, em altitudes médias, no litoral cubano. Os mísseis estavam sob controle direto dos militares soviéticos, mas as baterias antiaéreas estavam, em sua maioria, sob controle dos cubanos. Assim, no mesmo dia em que o U2 caiu, um RF8 voando em alta velocidade e baixo nível foi atacado por baterias de canhões AAe de 37 mm, orientadas por radar. A aeronave voltou à base, na Flórida, com poucos danos, de maneira que os norte-americanos, novamente, que valia à pena deixar barato.

Era o que queria o secretário de defesa de Kennedy, McNamara. Ao contrário, o general de exército Maxwell Taylor, chefe do estado maior conjunto das forças armadas dos EUA. Taylor, então um dos principais representantes de uma ala política conhecida como “falcões”, acreditava que o poder militar norte-americano deveria ser usado como forma de conter a expansão soviética de forma ativa.

A crise acabou sendo resolvida diplomaticamente, enfim, a partir da proposta soviética, feita em 26 de outubro, na qual, a URSS comprometia-se a retirar todos os armamentos ofensivos caso os EUa se comprometessem a não invadir a ilha. No dia seguinte, Khrushchev, pressionado por seus militares, acrescentou à proposta a retirada dos mísseis Júpiter da Turquia. A proposta foi apresentada a Robert Kennedy pelo embaixador soviético, com o qual ele continuava se encontrando informalmente. Informado das reclamações soviéticas, Kennedy apressou-se em se mostrar disposto a colocar os mísseis da Turquia nas negociações. A situação voltou a ficar tensa quando da derrubada do U2 sobre Cuba, a qual se juntou outra situação potencialmente desastrosa: a invasão do espaço aéreo soviético por outro U2, que embora não tenha dado em nada (o reconhecedor conseguiu evadir-se antes de ser interceptado), fez o secretário de defesa quase perder a cabeça.

Ainda no dia 27 chegou à Casa Branca uma carta do premier soviético na qual colocava a questão dos mísseis Júpiter. Kennedy mostrou-se disposto a aceitar a proposta, mas não podia fazê-lo publicamente, visto que a maioria de seus assessores – e dos políticos envolvidos na questão – não considerava que uma coisa tivesse relação com a outra.  A solução apresentada foi responder a primeira proposta de Khrushchev, e acrescentar um acordo secreto, no qual os norte-americanos concordariam em retirar os mísseis da Turquia, mas apenas alguns meses depois de os soviéticos retirarem os seus.  A contrapartida aberta oferecida por Kennedy era suspender o bloqueio e garantir, através das Nações Unidas, que não haveriam outras ações militares contra Cuba, no futuro. Essas declarações tinham sido acompanhadas por blefes cuidadosamente urdidos de que as forças norte americanas estariam preparadas para invadir Cuba nas próximas 48 horas. Ao que parece, os soviéticos caíram no golpe, e no dia 28 foi anunciada a resolução do conflito.  No mesmo dia, os vôos de reconhecimento foram suspensos, como gesto de boa vontade. No início de novembro, o equipamento ofensivo soviético começou a ser desmontado. No final de novembro começou a ser carregado de volta para a URSS. Os caças MiG21, parte dos mísseis e radares e do equipamento de terra ficaram, como compensação aos cubanos::

Os mísseis de Outubro::O lado menos falado::

Imagino que todos os assíduos de causa:: conheçam, ainda que por alto, a história da Crise dos Mísseis de Cuba. Trata-se de umaconfrontação de forças entre EUA e URSS ocorrida ao longo do mês de outubro de 1962, que não chegou a envolver combates, embora tenha seja considerada por alguns especialistas como o momento em que as duas potências nucleares chegaram mais perto de ir à guerra. No entanto, um exame dos fatos militares geralmente fica restrito a publicações especializadas, geralmente em inglês. Visto que agosto marca os 50 anos do início da crise, o blogue das boas causas irá, em duas partes, dar uma olhada no panorama militar deste que é um dos maiores eventos políticos do século passado::

Ligada ao contexto de tensão controlada da Guerra Fria, a Crise dos Mísseis de Cuba teve seus antecedentes, evidentemente, na vitória da revolução Cubana, em janeiro de 1959, e na declaração, por Fidel Castro, dois anos depois, do alinhamento do país ao bloco comunista. Foi um golpe na estratégia norte americana de “defesa hemisférica”, no qual a enorme máquina de inteligência constituída pelos EUA a partir da 2ª GM, literalmente comeu mosca. Ainda assim, os EUA optaram, já dentro da política do governo Kennedy de enfrentamento flexível da expansão comunista, em tentar minar o regime cubano por meio de bloqueio diplomático (o rompimento de relações diplomáticas, que ocorreu em janeiro de 1961, e posterior expulsão da OEA) e econômico e na montagem de “operações cobertas”. Estas se caracterizavam pelo apoio, do Exército dos EUA, da CIA e das agências de inteligência militar, às tentativas de grupos de exilados cubanos de extrema direita, instalados na Flórida, em derrubar o regime comunista pró-soviético. Tal opção de ação culminou com uma tentativa de invasão de Cuba por uma tropa de exilados armada e treinada pelos EUA. Esse episódio foi denominado, no Ocidente, como “Invasão da Baía dos Porcos”.

Vale à pena fazer um parágrafo para esse evento. Desde pelo menos o final do governo Eisenhower os EUA tinham optado por tentar ações indiretas contra o governo cubano, sob a coordenação da CIA e envolvendo as forças armadas e a inteligência militar. Os antecedentes do projeto datam dessa época, provocados por sucessivos fracassos em iniciar um movimento de guerrilha no interior de Cuba. A idéia central era colocar uma pequena unidade de infantaria, com força de regimento leve, em território cubano, pois se considerava que a notícia da invasão provocaria um levante geral contra o governo, e a força invasora poderia, caso não conseguisse derrotar rapidamente as forças do governo, começar atividades de guerrilha. Em 1960 a CIA começou a recrutar e treinar exilados cubanos, que passaram a receber treinamento de armas e táticas em bases situadas na Flórida, Lousiania, Guatemala e Porto Rico. Após algum debate, o desembarque foi designado para uma série de pequenas praias desertas situadas em um lugar conhecido por “Bahia de los Cochinos” (Baía dos Porcos), na província de Las Villas. A força de exilados foi denominada “Brigada de Asalto 2506”, e segundo foi divulgado posteriormente, havia sido criada sob os auspícios de um “Conselho Revolucionário Cubano” em Miami. Tratava-se de uma operação diversiva montada pela CIA, visto que tal órgão tinha sido montado cerca de um mês antes da invasão. A”Brigada 2506″ contava com pouco mais de 1400 efetivos. As operações foram abertas em 15 de abril, com bombardeiros B26 Invaders, pintados com as cores cubanas, atacando com foguetes e canhões três bases aéreas numa tentativa de incapacitar a força aérea de Cuba. As oito aeronaves encontraram forte oposição antiaérea, um deles foi derrubado e outro, muito danificado, conseguiu pousar em Key West, na Flórida. No dia seguinte, durante a cerimônia pública de sepultamento dos mortos nos ataques aéreos, Castro reafirmou a adesão do regime ao bloco soviético. A invasão seguia adiante, não sem inúmeros erros. Em 17 de abril, elementos paraquedistas da “Brigada 2506”, com força de companhia e transportados por aeronaves cargueiras C46 e C54 providenciados pela CIA, foram lançados na área da Baía dos Porcos. O objetivo era bloquear uma estrada que poderia ser usada pelos defensores. Esta missão também falhou, ao mesmo tempo que a força de uns 1200 efetivos era desembarcada na praia de Girón, com equipamento pesado e artilharia.  O desembarque não foi totalmente bem sucedido: boa parte do equipamento se perdeu devido as operações aéreas da Força Aérea Revolucionária. Os primeiros combates favoreceram os atacantes, mas as forças de defesa da ilha já estavam mobilizadas, e foram rapidamente  deslocadas para a cabeça de praia. Aos poucos, os invasores foram ficando sem munição e em menos de três dias foram totalmente derrotados. Uma tentativa feita pela Marinha dos EUA em resgatar pelo menos parte da força atacante foi abortada por ordem direta de Kennedy. Este também havia negado auxílio da Força Aérea dos EUA, pois achava que o projeto estava fadado ao fracasso desde o início.

No entanto, a invasão assustou Fidel Castro, pois parecia evidente que os norte-americanos mais cedo ou mais tarde encontrariam uma justificativa para intervir militarmente na ilha. Por volta volta de julho de 1962, Castro  anunciou seriam tomadas medidas políticas para que qualquer agressão direta dos EUA contra Cuba se transformasse em guerra mundial. As “medidas políticas” tomaram a forma de uma solicitação de assistência soviética para a defesa da ilha.

Era tudo que queriam os soviéticos. Até aquele momento, Moscou já vinha auxiliando os cubanos em assuntos econômicos e militares, mas a ajuda militar era bastante limitada pelo cuidado cubano em não provocar os EUA. Os soviéticos, por sua vez, se viam provocados pela insistência dos EUA, a partir de 1958, em constituir estoques de mísseis de alcance médio e intermediário (MRBMs e IRBMs) e respectivas ogivas na Europa, sob o guarda-chuva da OTAN. Os mísseis, instalados inicialmente na Grã Bretanha e Itália, sob controle das forças armadas locais, seriam alegadamente de uso tático, mas o fato é que eram capazes de atingir o território soviético. Essa iniciativa devia-se (pelo menos segundo os norte-americanos) aos esforços da URSS em alterar o balanço de capacidade nuclear, naquele momento amplamente favorável aos EUA. Tio Sam alegava que a superioridade nuclear contrabalançava a enorme superioridade soviética em forças convencionais. A capacidade convencional soviética era, de fato, uma desculpa mais do que aceitável. Por volta do final dos anos 1950, as forças armadas “do Pacto de Varsóvia” (entre aspas mesmo, já que o poderio militar dos aliados europeus da URSS era pífio) eram pelo menos duas vezes maiores do que as norte-americanas e européias (por volta de 1962, no total, uns três e meio milhões de efetivos, oitenta por cento deles dos EUA). A defesa da Europa Ocidental estava amplamente baseada na capacidade militar norte-americana instalada na Europa, e as nações européias relutavam em ampliar seus gastos com defesa. Se em época de bonança econômica, os custos ficavam pesados para os EUA, em épocas de crise, então, nem se fala. A manutenção de mísseis na Europa fazia parte da política de defesa do “mundo livre” do governo Eisenhower (1952-1960), difundida a partir de 1954 e denominada “New Look”, o que incluía o enfrentamento contra a expansão comunista. Essa política punha grande ênfase na “resposta nuclear”, considerada mais barata e efetiva do que a manutenção de forças convencionais capazes de contrabalançar a superioridade soviética. Com o governo Kennedy, o secretário de Defesa Robert McNamara estabeleceu uma nova doutrina, na qual a resposta a um ataque seria proporcional ao alcance e perigo que este envolvesse. O estoque de mísseis em território europeu foi, entretanto, mantido, visto que, em 1959, os planejadores militares dos EUA acreditavam que um ataque soviético a partir da Alemanha Oriental levaria na melhor das hipóteses, uns cinco dias para alcançar a o canal da Mancha e a fronteira franco-espanhola.

Os soviéticos viram na solicitação cubana uma oportunidade para contrabalançar o cerco nuclear montado pelos norte-americanos. Moscou já vinha trabalhando no projeto desde o mês de maio, em função da instalação, em bases localizadas na Turquia, de MRBMs PGM13 “Júpiter”. Com alcance de uns 2400 km, embora de baixa confiabilidade em termos de precisão, esses vetores colocavam Moscou ao alcance de um ataque dos EUA. A manobra foi considerada pelo governo soviético como inaceitável. Em meados de agosto de 1962 começou a transferência, para o Caribe, de algumas unidades de engenharia, que, uma vez na ilha, iniciaram a instalação de bases que deveriam receber os mísseis balísticos de alcance intermediário SS20.

Na próxima semana, alguns aspectos militares da “crise dos mísseis”, tanto do lado soviético quanto norte americano. Aguardem todos!::

Uma foto curiosa, um navio mais curioso ainda::

De fato, não se chegou a um acordo, até agora sobre a real nacionalidade do navio fotografado no Mar da China (embora alguns blogues refiram-se ao local como sendo o “Mar Amarelo”). O diretor da empresa de análise estratégica DigitalGlobe, dona da fotografia, Stephen Wood, disse estar certo de ter apanhado, em testes de mar, o navio-aeródromo de ataque (NAeA) Shi Lang, destinado a tornar-se capitânea da renovada e crescente esquadra da Marinha do Exército de Libertação do Povo (é este o curioso nome da marinha de guerra chinesa). O NAeA estaria conduzindo a segunda bateria de testes de mar, que duraram aproximadamente duas semanas, entre novembro e dezembro do ano passado. A análise da foto indica, pela intensidade da trilha de espuma, que deveria estar desenvolvendo dois terços de sua velocidade máxima, ou seja, uns 25 kts (a máxima seria de uns 33 kts). Depois do retorno às docas do Estaleiro Naval de Dalian, informes de inteligência dizem que começaram a ser instalados os cabos de parada, o que significa que os próximos testes serão de decolagem e pouso de aeronaves, embora seja impossível dizer ser esses testes já incluirão os pesados caças multifunção navais J15.

Este navio tem gerado crescente interesse por parte dos analistas ocidentais, pois é indicativo de que a China pretende, a médio prazo, tornar-se uma potência naval. Os  chineses tem estado, nos últimos dez anos, engajados num ambicioso programa de modernização naval. A Marinha do Exército de Libertação do Povo sempre foi uma força de grandes proporções, organizada com auxílio dos soviéticos a partir da vitória da Revolução Comunista, no Final dos anos 1940. Entretanto, oitenta por cento de seus navios, durante a Guerra Fria, eram barcos-patrulhas de pequeno porte e submarinos costeiros convencionais, cedidos pelos soviéticos ou construídos localmente, com base em tipos soviéticos da Segunda Guerra Mundial. Nos últimos anos, esses barcos estão sendo retirados de serviço e substuituídos por tipos modernos, desenhados por técnicos formados em univerisdades e estaleiros da Rússia, Ucrânia e Polônia. As novas aquisições incluem todos os tipos necessários para criar um grupo de batalha centrado em navios-aeródromos. Isso inclui contratorpedeiros porta-mísseis da nova classe 052C, Lanzhou e um tipo de fragata multitarefa, a classe Jiangkai II . Estão  também no foco dos planejadores chineses submarinos nucleares, mas parece que estes têm sido mais difíceis de desenvolver. A tecnologia naval não é algo que se consiga da noite para o  dia, e, em certos casos, tem de ser formada ao ongo de muito tempo… ou copiada. No caso de navios-aeródromos, é exatamente este o caso: são poucos os países que sabem construí-los e os que sabem hesitam em ensinar, visto que se trata de uma arma de dissuação estratégica “limpa”.

Temos, então, uma longa história. O navio começou a ser construído na época da antiga URSS. Suas origens remontam a 1981, quando o ministro da defesa soviético, marechal Dmitri Ustinov, visto como antipático a gastos com belonaves de grande porte, embarcou no “cruzador pesado porta-aviões e porta-mísseis” Kiev para assistir aos exercícios navais West 81, que reuniam os principais elementos da Esquadra Soviética do Atlântico Norte. Parece que, na ocasião, Ustinov convenceu-se da necessidade de dotar a esquadra soviética de uma arma aérea, com aviões de fato, e não apenas helicópteros e o espúrio Yakovlev Yak 38 “Forger”, um caça de decolagem vertical cujo desempenho era nada mais que pífio. Ainda em 1981 foi decidido que uma nova classe de “cruzadores pesados porta-aviões e porta-mísseis” seria desenhada pelo PKB (escritório de projetos navais) Nevsky, de Leningrado, e que a classe teria duas unidades: o Tsibili e o Riga. Contratados pouco depois, os dois navios foram construídos em estareiro ucraniano (a Ucrânia era então uma República Socialista Soviética). O Almirante Kuznetsov foi lançado ao mar em 1985 e somente tornou-se operacional em 1995, estando ainda em serviço na Marinha da Rússia. Por motivos políticos (após o fim da URSS, tanto Tsibili, na Georgia, quanto a letoniana Riga passaram a ser cidades estrangeiras com relação à Rússia) os nomes dos navios foram mudados para Almirante Kuznetsov (ministro da marinha durante a Segunda Guerra Mundial) e Varyag (“Varego”, um dos povos nórdicos conhecidos de forma genérica como vikings, que colonizaram porções do atual território europeu da Rússia).

Nessa mesma época, os soviéticos decidiram dotar sua marinha de um avião naval de verdade. A melhor opção pareceu criar uma versão navalizada da melhor aeronave multifunção então disponível, o Sukhoi Su27. A aeronave resultante foi o Su33 “Flanker D”, projetado a partir da primeira metade dos anos 1980, paralelamente à construção dos Kuznetsov. A característica interessante dessas aeronaves era que decolavam através de sky-jump, um curto ressalto de cerca de 7° positivos na porção de vante do convés de vôo dessas belonaves. Os ingleses também adotaram o mesmo desenho nos navios adaptados ao uso da versão navalizada da aeronave VTOL (Vertical Take-Off and Landing) Harrier (a que combateu nas Falklands/Malvinas). O sky-jump foi incorporado pelos russos aos “cruzadores etc.-etc” da classe Kiev, que usavam o Yak38, de peso bem menor que os SU33. Esse recurso tem a vantagem de dispensar a catapulta, mecanismo que pode aumentar o peso do navio em até 8 por cento, além de diminuir o estresse sobre a estrutura da aeronave. Por outro lado, uma aeronave convencional não consegue decolar a partir de um sky-jump com toda a carga útil, que, no caso do Su33 pode reduzir-se a pouco mais da metade. Os russos perceberam que uma das maneiras de implementar a performance da aeronave na decolagem seria acrescentar-lhe canards, pois estes ajudam a elevar o nariz, e tornam a superfície alar maior sem a necessidade de redesenhar radicalmente os aerofólios. A inserção dos canards também reduz substancialmente a velocidade de aterrissagem, devido ao aumento do arrasto aerodinâmico, além de aumentar a performance da aeronave em velocidade supersônica.

Os Su33 formariam os grupos aéreos dos novos “cruzadores pesados etc. – etc.”. O primeiro da classe, o Kuznetsov, entrou em serviço, ainda que meio aos trancos e barrancos, no prazo; o segundo da classe, o Varyag, teve um destino nada glamuroso. Começou a ser construído alguns meses depois de seu irmão mais velho, mas acabou sendo atingido em cheio pela crise da União Soviética, sofrendo diversos atrasos até ser abandonado em definitivo em 1992. O casco ficou encostado numa doca na cidade de portuária ucraniana de Nikolayev por anos, até ser vendido “no estado”, em 1998, para um “consórsio” de investidores chineses denominado Chinluck Holding, que para todos os efeitos, operava hotéis e parques aquáticos a partir de Hong Kong – embora não se soubesse do endereço dos hotéis e muito menos de alguém que tivesse dado um mergulho em suas piscinas. Entretanto, os “investidores” insistiam que pretendiam usar o casco enferrujado como “centro de diversões flutuante” na cidade de Macau, para onde a coisa foi rebocada, numa jornada rocambolesca de (acreditem ou não… ) mais de três anos. Para complicar, as autoridades de Macau, então ainda uma colônia portuguesa, recusaram-se a admitir o casco na baía da cidade, considerada muito rasa para as características daquele tipo de navio, de modo que o comboio foi desviado para a planta naval da cidade de Dalian, no nordeste da República Popular da China. Nada tão estranho: posteriormente foi revelado que o tal “consórsio” era uma empresa testa-de-ferro da Marinha do Exército de Libertação do Povo, e já tinha adquirido outros NAe desativados, inclusive o ex-HMAS Melbourne (NAeL – navio aeródromo ligeiro – da Marinha Real Australiana, da classe Majestic, igual ao brasileiro Minas Gerais) para estudos. A história acabou virando piada nos meios de inteligência, como “o segredo militar menos secreto da China”. Entretanto, e sabe-se lá o motivo, as autoridades do país guardaram silêncio sobre os planos para o navio, fotografado com frequência, por satélites de reconhecimento, sendo reformado. O tal “consórsio” chegou a distribuir notas sobre a inauguração do “cassino flutuante”.

Somente no ano passado a China admitiu estar construindo um navio aeródromo,  e que estavam sendo programados testes de mar para “muito breve”. Já que o Varyag tem um deslocamento de umas 65000 toneladas, estima-se que possa receber um grupo aéreo de umas 40 aeronaves, pelo menos. Ou seja, são bem menores do que os NAeA nucleares da classe Nimitz, de 100000 toneladas de deslocamento e com um complemento aéreo de 70 aeronaves de asa fixa. Por outro lado, é bem maior do que o NAe nuclear francês Charles DeGaulle e equivalente aos britânicos da classe Queen Elizabeth. É bem provável que o grupo aéreo do Shi Lang seja formado por caças navais J15 “Tubarão Voador”, uma cópia obtida por engenharia reversa do Sukhoi Su33. A China tentou comprar alguns SU33 novos de fábrica por volta de 2001, mas os russos já estavam desconfiados do interesse chinês em comprar pequenas quantidades de aeronaves prometendo comprar mais depois, e não fizeram a venda. Segundo consta, pouco depois os chineses conseguiram um protótipo incompleto da aeronave que tinha sido deixado na Ucrânia, e a completaram com propulssores e aviônicos produzidos localmente, de desempenho muito inferior aos dos originais russos.

A China tem tido problemas com a indústria aeronáutica russa desde que a empresa Shenyang Aircraft Corporation conseguiu copiar, sem permissão  o Su27SK, denominado lá J11B. A aquisição do Su27SK, foi feita no início dos anos 1990, diretamente da fábrica, e, em 2007, os chineses alegaram que tinham produzido uma “nova estrutura”, que “apenas se parecia” com a aeronave russa. Desde então, os dois países tem estado envolvidos numa disputa sobre quem tem razão. Não se sabe quantos J15 foram produzidos, mas certamente será esse avião que decolará do sky-jump do Shi Lang.

O fato é que a China parece empenhada em contituir uma marinha moderna, capaz de manter a superioridade sobre as águas proximas de seu litoral e sobre os acessos á essas águas. As águas próximas consideradas pela China como zonas de defesa estão cercadas por um arco de potências rivais que dispõem de alguma capacidade naval: Coréia do Sul, Taiwan e Japão. Mas a ameaça mais seriamente considerada é a base naval norte-americana de Yokosuka, a única fora dos EUA que tem um NAeA permanentemente estacionado, o USS Kitty Hawk. Em 2010, um exercício naval envolvendo uma força tarefa norte-americana liderada pelo NAeA nuclear George Washington, envolvendo dois cruzadores e dois contratorpedeiros e dez belonaves da bem organizada marinha sul-coreana foi considerado pelos chineses como uma afronta. O golpe foi ainda mais sentido pelo simples fato de que a China não possuí, por ora, meios para opôr-se eficazmente à presença de potências estrangeiras em “suas” águas. Se o Shi Lang já estivesse operacional, um força-tarefa liderada pelo NAeA chinês seria certamente enviada para “sombrear” o exercício dos EUA. E talvez tivesse feito diplomatas e militares norte-americanos considerarem se o risco de um incidente com a China valia à pena. Na época da Guerra Fria, era comum que tanto EUA quanto a URSS realizassem exercícios navais nas águas ribeirinhas (mar aberto adjacente à costa de um país) dos outros, mas nunca navios de um fizeram exercícos em frente à costa do outro. Para isso servem as FFAA – para “dissuadir”, como dizem os diplomatas.

Por isso analistas especializados têm afirmado que a China terá de criar uma força naval considerável, caso ambicione torna-se uma potência global. Esses analistas apostam que o Shi Lang  estará operacional por volta de 2015, e que nos proximos anos, os chineses irão construir pelo menos mais três desses navios. A corrida naval que parece se avizinhar envolve também a Índia, uma potência militar de bom porte, mas que se vê pressionada pela aparente disposição chinesa em estender sua presença até o Oceano Índico e a Costa Oriental Africana. A Índia tem ampliado seus gastos militares e se diz disposta a ampliá-los ainda mais, ao longo dos próximos dez anos. A Marinha Indiana deve contar, em 2016, com o primeiro de dois novos NAe’s (chamados lá de “navios de defesa aérea”) da classe Vikrant, de 40000 toneladas, construídos pela indústria local com forte apoio russo.

Tudo isso mostra como estava certo o ex-presidente norte-americano Bill Clinton, que durante uma visita ao USS Theodor Rooselvelt, afirmou que, “quando chega a Washington a notícia de uma crise, não é por acaso que a primeira pergunta que vem à boca de todo mundo é: onde está o porta-aviões mais próximo?::

causa:: volta ao ponto::Como poderá ser a política de Defesa do próximo governo?::parte2::

Como será a política de Defesa do próximo governo? Boa pergunta. Para responde-la, acho que temos de considerar, como feito na parte 1, que uma política de Defesa tem que se basear no que são considerados os interesses nacionais, num determinado momento, e como a visão desses interesses muda segundo uma série de fatores, e pode gerar equívocos de não-pequenas consequências. Em certo momento, “tudo que é bom para os EUA é bom para o Brasil”. Refletiram os assíduos sobre esta frase lapidar, emitida por um dos campeões da “Revolução” de 1964?  Vamos então à mais considerações sobre o tema…::

parte2A querela do Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, contra o pano-de-fundo de uma tentativa (frustrada) dos EUA se reinventarem como líder do “mundo livre” acabou mostrando que essa máxima estava desatualizada. Pareceu então claro, naquele momento, que os interesses nacionais brasileiros estavam em pólo oposto aos interesses nacionais dos EUA. Uma das heranças dessa disputa foi um programa nuclear civil, de resultados discutíveis e uma versão menor, militar, mantida, por razões óbvias, em segredo de estado. Objetivo? Óbvio – construir um artefato nuclear de pequena potência. Alvos para esse artefato? Não haviam propriamente alvos, porque, depois da Guerra da Coréia, ninguém pensa seriamente em detonar bombas atômicas (bem, tirante, talvez os iranianos, mas essa é outra história, que não cabe aqui). Os argentinos, que também chegaram a desenvolver um programa desses, e que tinham diferenças estratégicas consideráveis com o Brasil, eram vagamente citados. O fato é que a bomba brasileira era vista mais como possível instrumento político do que propriamente como arma militar – até porque uma coisa é construir um artefato nuclear e outra, muito diferente, é conseguir meios eficazes de lançá-lo. A bomba A é uma arma estratégica, por excelência. Só foi usada uma vez, como consequência de consideraões políticas e estratégicas. Na época (o decênio entre os meados anos 1970 e 1980), artefatos nucleares plantados no nariz dos ICBMs que os transportariam até os alvos eram parte de um jogo político pesado. Segundo alguns analistas, os militares brasileiros não queriam ter uma bomba, mas indicar ao mundo que podiam fazer uma.

O programa nuclear militar foi desmontado no governo Collor, sem que esse recuo tivesse significado alguma vantagem de fato para o país, na arena internacional. Em 1998, durante o governo FHC, a adesão brasileira ao Tratado de Não-proliferação Nuclear (TNP) é outra decisão considerada controversa, no sentido de se saber se foi uma decisão acertada, mesmo que se leve em conta a posição pacífica do país na arena internacional. A manutenção de programas bastante reduzidos de pesquisa nuclear visava prover o país de conhecimento científico capaz de prover certa autonomia, em caso de necessidade. A adesão ao TNP, embora deva ser considerada uma política legítima, pareceu ter visado, desde Collor, a busca por compensações econômicas (por exemplo, tratamento preferencial por parte do sistema financeiro internacional), e com FHC, aquilo que Celso Laffer chamou “autonomia pela participação”, ou seja, a inserção brasileira no sistema internacional de segurança, sob comando dos EUA (um bom artigo sobre o tema, aqui). Os críticos da decisão apontam para o fato de estar, a partir da 1998,  condicionado o país a não desenvolver armas nucleares, mas também a um grau bastante alto de ingerência externa em nossos assuntos – e essas críticas parecem fazer algum sentido, visto as pressões sofridas pelo programa de enriquecimento de urânio e de aperfeiçoamento de um reator naval. Os críticos chama a atenção para o fato de que o TNP é um acordo internacional que perpetua a assimetria, não apenas militar, mas científica e econômica, com o controle exercido sobre os países não-nucleares correspondendo aos interesses dos países do Conselho de Segurança da ONU – exatamente aqueles que, “legitimamente”, mantêm estoques de explosivo nuclear.

Por sinal, muitas das políticas conduzidas pelo governo FHC pareciam indicar uma opinião interna de que o país não precisava de forças armadas, e que essas deveriam funcionar mais como provedoras da manutenção da integridade territorial – sem que isso significasse capacitação de métodos e recursos.

O problema da FAB parece decorrer dessas política. Tomemos um dos programas de maior amplitude, vindo desde o governo FHC, como desdobramento de políticas de Estado originadas nos anos 1970 – o projeto SIVAM (acrônimo de “Sistema de Vigilância da Amazônia”). Trata-se de um história muito interessante, por mostrar que a falta de políticas consistentes pode acabar comprometendo todas as políticas, mesmo as que não existem ainda. Falamos agora do programa FX-2 (que, no andor do santo, periga virar FX-3).

Desde o governo FHC o reequipamento da FAB tem sido conduzido aos soluços, determinado por fatores um tanto difíceis de entender, mesmo diante da obsolescência de equipamentos considerados vitais – problema que, como veremos adiante, vem desde os anos 1980. De fato, sejamos justos – o problema se estende a todas as forças. No caso da Força Aérea, a coisa fica mais evidente em função do jogo pesado das grandes empresas, que dependem (talvez com a exceção dos EUA, da Alemanha e – por incrível que possa parecer – da Rússia) de vendas externas para consolidar a viabilidade de seus programas de defesa. A indústria aeroespacial implica em enorme aporte de investimentos, pois é atividade que agrega tecnologia de forma capilar, alcançando centenas de ramos altamente especializados da cadeia produtiva, com grau relativamente lento e baixo de retorno. Por exemplo: a pesquisa de materiais para a indústria aeroespacial implica em resultados que se aplicarão apenas à indústria aeroespacial (por exemplo, as “peles” de titânio e células cerâmicas usadas em aviões de combate servem, no máximo, para aeronaves orbitais e satélites). A indústria naval, em comparação à aeroespacial, ainda é uma indústria de aporte tecnológico baixo, cujos métodos remetem à primeira metade do século 20. Belonaves e os sistemas que vetoram evoluem mais lentamente – muito embora isto não queira dizer que se trate de tecnologia simples, barata ou fácil de conseguir – vide o caso dos submarinos (aqui, aqui e aqui… mesmo, no causa::).

Assim, os investimentos feitos na indústria aeronáutica, como, de modo geral, os investimentos em Defesa, são em boa parte, políticas de Estado (um ótimo exemplo dos resultados dessas políticas, quando bem planejadas e conduzidas, aqui). O Estado estabelece as prioridades, levanta e distribuí os recursos e supervisiona os resultados, pois a organização industrial de caráter capitalista tem cada vez menos capacidade de bancar sozinha o desenvolvimento continuado de tecnologias de ponta. Basta observar o projeto KC390: só decolou de fato quando o governo federal o comprou – literalmente – da EMBRAER. A partir dessa mudança de rumo, acontecida em abril de 2009, puderam ser negociadas, com maior desenvoltura e tranqüilidade parcerias internacionais que ampliaram as possibilidades de aporte de recursos e tecnologia ao projeto.

O projeto KC390 é uma iniciativa que colocará nossa indústria de defesa em novo patamar. Trata-se de um produto militar baseado na cadeia tecnológica e industrial iniciada a partir da decisão, tomada em meados dos anos 1970, de substituir as aeronaves de ataque disponíveis da FAB – os chamados “caças táticos” (um ótimo artigo sobre o tema, aqui). Pode-se dizer que as origens da pujante indústria aeroespacial brasileira atual se encontram nessa iniciativa, que foi ponto de convergência de diversas outras, tomadas desde os anos 1950.

É interessante observar como funcionavam os programas de reaparelhamento das FA, no período FHC – o mais próximo que pudemos encontrar de uma “política de defesa”. Ao invés de diretrizes conceituais gerais para cada uma das forças, com um orçamento proposto e projeção de realização de médio e longo prazos – metodologia herdada do período militar –, passaram a ser estabelecidos programas específicos a partir de um programa geral, com orçamentos “de fantasia” e prazos “estimados” – ou seja, com a realização lançada às calendas gregas. Na Marinha, discutia-se ora a adequação de projetar navios com base na aquisição e adaptação de projetos estrangeiros, ora em aquisições “de oportunidade” de navios de “segunda mão”; para o EB, debates intermináveis sobre “o caráter da guerra moderna” e do “papel das forças armadas num regime democrático” resultaram em discussões conceituais ridículas (como o uso dos efetivos do EB como polícia e o aumento da idade para passagem dos oficiais de carreira à reserva remunerada) e decepcionantes aquisições de equipamento desativado, baseadas em considerações estapafúrdias, como a compra simultânea de dois tipos de blindados pesados, ignorando totalmente os aspectos da cadeia operacional e logística.

Deve-se admitir que a situação já era meio confusa desde o final do governo Sarney – quando a crise econômica e o contexto internacional provocaram, dentre outras conseqüências, a quase extinção da indústria nacional de defesa. Tornou-se ainda mais confusa no governo Lula, com a interrupção “para exame e avaliação”, dos programas iniciados durante o período FHC.  No caso da FAB, o Programa de Reaparelhamento era uma versão atualizada de um programa elaborado em 1996 e denominado (de modo um tanto irônico) de “Fênix”.

Nesse plano, era prevista a aquisição de aernaves novas e principalmente (claro…), de segunda mão, que seriam modernizadas. Na prática, o “Fênix” ao invés de “reviver”, botou fogo nos projetos da FAB – apenas um contrato, já em andamento foi mantido: a atualização de algumas dos cargueiros Hércules para o padrão C-130H e aquisição de outras dez “células” de segunda mão (“mas em excelente estado de conservação”), da Itália. Os C-130, usados em transportes pesado não realizados pela aviação comercial, eram muito necessários em função das demandas geradas pelo programa “menina dos olhos” do governo FHC: o SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia), iniciado em 1997. Tratava-se de uma atualização, extremamente necessária, do sistema de controle do espaço aéreo, que, no Brasil, entrou na “idade moderna” com a implantação do projeto “DACTA” (Defesa Aérea e Controle do Tráfego Aéreo), implantado a partir de 1972 com base em equipamentos franceses (o chamado “CINDACTA” – sendo o “CIN” acrônimo de “controle integrado”). Esse projeto, extremamente ambicioso, visava, no período de 20 anos, colocar todo o espaço aéreo sob vigilância e controle, capaz monitorar todo o tráfego aéreo e acionar providências militares sempre que necessário, inclusive contra a violação do espaço aéreo nacional, aí incluídas as tais “águas territoriais” (sobre o tema, causa:: recomenda a leitura deste excelente artigo, publicado na não menos excelente revista da UNIFA). O problema é que os dois CINDACTAS projetados não cobriam a Amazônia, que, na época do regime militar, não era vista como prioridade estratégica. O CINDACTA I foi ativado em 1973, e abrangia apenas parte do espaço aéreo – um quadrilátero que abrangia partes das regiões Sudeste e Centro-Oeste; em 1985 foi ativado o CINDACTA II, abrangendo a Região Sul e em 1988, o CINDACTA III, com base em Recife, desdobramento de oportunidade do projeto do segundo sistema. A discussão sobre a importância estratégica, para o país, da região amazônica e das fronteiras internacionais correspondentes começou a tomar corpo a partir de 1980/85, quando se constatou que o espaço aéreo de uma área de três milhões de quilômetros quadrados era “um branco”. Tomou força com o aumento do interesse internacional sobre a região, motivado por questões ecológicas  – e, aparentemente, um “troll” alimentado pela imprensa internacional e entusiasticamente replicado pela imprensa nacional. Só que as correntes de opinião interna, aparte o fato de concordarem com a opinião geral sobre a importância da região, não pareciam saber direito o que fazer com ela.

Em 1986 apareceu o primeiro projeto para intervenção sobre a região, o “Calha Norte”. Este projeto destinava-se a controlar de forma mais ativa os cerca de 6.000 quilômetros de fronteiras do norte do país. A idéia era a intensificação da presença das FAs, da Funai e da Polícia Federal na região, tomando como base territorial os afluentes a norte dos rios Amazonas e Solimões (daí o nome “Calha Norte”).

O “Calha Norte” levou o EB a olhar com cuidado uma região que nunca tinha estado em seu horizonte operacional – embora já estivessem disponíveis, desde os anos 1960, doutrina, pessoal, recursos e equipamentos de guerra na selva, embora criados para fins de contra-insurgência. As primeiras providências, com a instalação de “Pelotões de Fronteira”, mostraram a profundidade do problema, mas o projeto “Calha Norte” e a colocação da Amazônia no centro do planejamento estratégico de Estado estão na origem da Estratégia de Defesa Nacional.

Já o SIVAM decorreu da constatação das enormes deficiências no que tange ao controle da região. Começou a ser concebido em 1990, sob responsabilidade da então Secretaria de Assuntos Estratégicos, e tornou-se operacional em 1997. A SAE, formada basicamente pelos recursos herdados do SNI, constatou a necessidade de um sistema continuado de vigilância e proteção territorial que marcasse a presença do Estado e de seus agentes na região. Mas, curiosamente, o exame de programas realizados até então de levantamento de dados levou também à constatação da baixa confiabilidade dos dados sobre a Amazônia. Baseado no que existia, até mesmo um planejamento de médio prazo era impossível, quanto mais de longo. O mais surpreendente (e até hoje se discute como isso aconteceu…) é que a própria Secretaria concluiu que o sistema não poderia ser exclusivamente militar, mas deveria integrar as agências que levantassem e utilizassem informações sobre a região. Sugeriu um projeto amplo, abrangendo os ministérios da Justiça, Meio Ambiente, Saúde, Transporte e Ciência e Tecnologia, além das FAs.

O projeto foi recebido com certo entusiasmo e muita controvérsia. Sua concepção final parecia não levar em conta o aspecto de integração intergovernamental levantado pela SAE nos anos anteriores. Não parecia considerar as demandas apresentadas e a dinâmica de trabalho apresentados pelos órgãos envolvidos, por adotar uma estratégia centralizadora e concentradora. Essa opção chegava a desconsiderar os resultados obtidos em duas décadas de programas realizados por diversas instituições brasileiras responsáveis por prover informações científicas e técnicas (tipo a Embrapa, o IBGE, a Sudam e o Ibama) pondo de lado como “ineficazes” as ferramentas de sensoriamento e computacionais para obtenção e tratamento da informação – como projeto RADAM (Radar da Amazônia).

A questão está dentro da concepção estratégica adotada pelo governo FHC, em sua decisão de fazer o país aderir ao “Ocidente”: as instituições nacionais abririam mão dos próprios recursos, tornando-se operadoras de sistemas exógenos (e pior – controlados do exterior) de processamento e armazenamento de dados, em certos casos recomeçando o que já estava sendo feito. Além disso, a concepção de infra-estrutura adotada pelo SIVAM trabalhava com “caixas pretas” de requisitos feitos por empresas européias e norte-americanas, a serem atendidos pelas instituições brasileiras, que passavam a ser tratadas como “usuários”. Ou seja: cientistas e engenheiros com conhecimentos discutíveis sobre a região e mesmo sobre o país, isolados nos EUA ou na França, desenvolveriam soluções que atendessem aos problemas estratégicos e ambientais da Amazônia. Por fim, um dos conceitos mais estapafúrdios: a pressuposição de que a tecnologia de sensoriamento e monitoramento responderia questões relativas a biodiversidade e poluição dos rios na região (por exemplo), quando estava sendo pensada apenas para resolver questões de caráter militar e de segurança – aquelas colocadas desde o planejamento inicial do Calha Norte.

Um dos pontos “interessantes” dessa história toda, e que coloca o SIVAM dentro da concepção política da época é o caso Raytheon – vale à pena das uma olhadinha nele.

A Raytheon é uma mega-empresa bem conhecida no ramo: “sistemas eletrônicos de defesa”. Em 1995 foi divulgada informação, pelo Parlamento Europeu, que empresas norte-americanas teriam se valido de recursos de espionagem industrial superar grupos europeus em concorrências. Entre essas empresas estava a Raytheon, considerada na ponta da disputa, com a francesa Thomson CSF. O objetivo? A infra-estrutura do SIVAM. O governo norte-americano teria colocodo recursos militares (satélites de reconhecimento e estações de escuta, capazes, em conjunto, de interceptar comunicações eletrônicas nacionais e internacionais). A denúncia foi reforçada pela imprensa, que divulgou gravações de conversas, feitas pela Polícia Federal, entre o representante da Raytheon no Brasil e um funcionário público brasileiro, supostamente encarregado de transferir informações privilegiadas para a empresa dos EUA. O episódio gerou a instalação de uma CPI, que acabou arquivada em junho de 2002 por “falta de provas”. O relatório do voto em separado do deputado petista Arlindo Chinaglia foi um primor: “Há questões que a CPI deixou de analisar, como os indícios de que o projeto não leva em conta os interesses nacionais”.

O fato é que a implantação do SIVAM mostrou as deficiências da FAB. A questão dos cargueiros militares é uma delas; a necessidade de aeronaves de comando e controle, outra; a inexistência de aeronaves adequadas a tarefas de interceptação de aeronaves não-autorizadas, mais outra; a necessidade de helicópteros militares para intervenções de deslocamento rápido, mais outra. Uma “amazônia de problemas”, dos quais o controle do espaço aéreo era apenas um aspecto. Continuaremos o assunto, que, à esta altura, já deve estar divertindo os assíduos…::

Historinhas de Natal de causa::

E quem disse que o espírito de Natal não existe? Pois existe, e se manifesta das formas mais esdrúxulas, e afeta as até mesmo as instituições menos natalinas que possamos imaginar. Querem uma? Fazem 50 anos que o NORAD (acrônimo de North American Aerospace Defense Command, Comando de Defesa Aérea e Espacial da América do Norte), coloca seus radares para monitorar a chegada de Papai Noel… Absurdo? Pois curtam a comemoração de Natal aqui de causa::.

Em 1955, um anúncio publicado nos jornais dos EUA, pela loja de departamentos Sears (que existiu aqui no Brasil, até o início dos anos 1990), convidava as crianças norte-americanas a fazer telefonemas para Papai Noel – e divulgou um número para contato. Tudo bem – se o telefone não estivesse miseravelmente errado. Aliás, diria o redator (e creio que os oito leitores concordarão…) que foi o número de telefone mais errado da história do telefone. De fato, o anúncio designava um aparelho que deveria tocar numa seção da cadeia de lojas, na cidade de Colorado Springs. Só que alguém no Departamento de Propaganda da Sears cometeu um baita de um engano. O número publicado era, de fato, da área de Colorado Springs, mas não o da loja. O pessoal que, na manhã do dia 24 de dezembro, foi encarregado de se fazer passar por “ajudantes de Papai Noel” e responder às chamadas das milhares de crianças, ficou à-toa.

Quem se viu no meio de uma tremenda roubada foi o Chefe de Operações do Comando Continetal de Defesa Aérea da Força Aérea (CONAD, Continental Air Defense Command, como era designada, então, a coordenação de defesa anti-aérea dos EUA), coronel Harry W. Shoup, cujo telefone ficava na base de Cheyenne Mountain, nas proximidades da cidade. O chefe do CONAD  não achou nada engraçado quando atendeu o primeiro telefonema. Uma vozinha infantil pedia, de presente, um foguete de brinquedo… Devia ser um trote. É provável que o militar tenha sentido vontade de mandar o interlocutor enfiar o foguete… Bem, vocês podem imaginar onde, em Papai Noel. Seja como for, conseguiu se controlar e desligou o  aparelho. Após vários telefonemas do mesmo teor, Shoup percebeu o que estava acontecendo e ordenou a cada membro desocupado de sua equipe que passasse a dar as coordenadas da “posição de Papai Noel” para toda criança que telefonasse para aquele número. A imprensa soube do acontecido, que recebeu ampla cobertura e foi considerado “show de bola” de relações públicas da Força Aérea. Na época do Natal, desde então, telefones são disponibilizados no centro de controle de Cheyenne Mountain e na base área de Peterson, no dia 24 de dezembro. Milhões de crianças fazem milhões de telefonemas, atendidos por centenas de militares voluntários. Nenhuma criança fica sem resposta, e a conversa com os “elfos” dura, em média, 30 segundos.

Em 1997, o NORAD passou a alimentar um sítio na Grande Rede, para alívio dos voluntários militares que passam, em média, duas horas conversando com as crianças. Entretanto, NORAD ainda mantém um Centro de Operações de Rastreamento de Papai Noel (TSOC – Tracks Santa Operations Center ) com linhas de telefone que entram em operação às 4:00 da manhã (hora local) em 24 de dezembro. causa::, prestando (para variar…) um serviço à paz mundial, coloca à disposição de seus leitores o número do telefone vermelho (ou será branco?..): 1-877-HI-NORAD (1-877-446-6723). Um membro da equipe do TSOC tentará explicar a exata localização de Papai Noel no espaço aéreo norte-americano, na hora do telefonema. Se o chegado de causa:: preferir um meio menos dispendioso (uma chamada de 1 minuto para Colorado Springs ficará em uns sete reais…), poderá, em 24 de dezembro, enviar um email (em inglês) para NORAD, e receberá de volta a última posição conhecida de Papai Noel.

O redator ficou imaginado se o momento ideal para um ataque nuclear contra o território norte-americano não seria a véspera de Natal…::

Acho que todos os leitores perceberam que o objetivo dessa historinha é dar ao redator a oportunidade de desejar a todos exatamente o contrário, e bem o contrário, do que costumamos a discutir e nos deleitar aqui no blogue – ou seja: fiquemos todos em paz, e que a paz seja, sempre, nossa maior e definitiva causa::

Datas de causa::7 de dezembro, 1941::

As datas de causa:: são comemoradas quando o redator lembra de alguma, relevante em termos dos temas abordados aqui no blogue. Pois é… Hoje de manhã, lendo a imprensa diária pela Internet (aquela imprensa não paga que agora os jornalões incompetentes querem cobrar), lembrei que, 68 anos trás, em 1941…::

Dia da Infâmia, ataque traiçoeiro, e tal. Mas, no ponto de vista de causa:: uma operação estratégica muito bem planejada, na qual o poder aéreo se consolidou como elemento integrante do poder naval. A fotografia, tirada no dia seguinte ao ataque, é simbólica: mostra dois contratorpedeiros, Downes e Cassin, da classe Mahan, e, ao fundo, o encouraçado USS Pennsylvania, danificado. Foram todos apanhados numa doca seca. O Downes foi atingido por uma bomba penetrante de blingagem destinada ao encouraçado, lançada por um bombardeiro de mergulho, e saiu do ataque tremendamente danificado; o Cassin sofreu menos. O Pennsylvania, com danos medianos, voltou para a Califórnia por seus próprios meios. Os norte-americanos sofreram uma tremenda pancada no saco e no ego, da qual levariam algum tempo para se recuperar. Mas para os japoneses foi pior: os navios-aeródromos de esquadra não estavam na base. O que ninguém (nem os japoneses) percebeu com clareza, é que encouraçados, dali por diante, não fariam muita diferença e, nos meses seguintes, e pelo resto da guerra, teriam muito pouca utilidade.::

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::

Tudo bem, ainda é segunda, mas o redator não resistiu esperar até amanhã… Caros sete leitores (ou oito, sei lá…), conheçam Yang Guoxigiang. Porque vocês devem conhecer um obscuro piloto da Força Aérea do Exército de Libertação do Povo da China? Boa pergunta… Leia para saber. A entrevista foi publicada na edição de janeiro de 2010 da Revista Air&Space Smithsonian, feita pelo repórter especializado Bob Bergin. A entrevista completa (e o redator tem certeza que os sete leitores vão querer ler) pode ser lida em www.airspacemag.com::

O piloto Yang Guoxing, da Força Aérea do Exército de Libertação do Povo da China, quando em treinamento, por volta de 1959. Em 1971, no período final da Revolução Cultural, os postos tinham sido abolidos das forças armadas chinesas, por serem "desvios burgueses". Haviam apenas "oficiais" e "soldados", o que não necessariamente traduzia uma cadeia hierárquica, pois as unidades eram "comandadas democraticamente" por assembléias populares (era esse exército que pretendeu entrar em combate contra a URSS, em 1968...). Yang era, então, um jovem oficial, mas sua competência estava acima de questão, pois o programa nuclear chinês foi mantido, de forma sensata, fora do alcance dos Conselhos Revolucionários e dos Guardas Vermelhos.

Nascido nas remotas montanhas da província de Yunnan, Yang teve de se esforçar muito para freqüentar a escola. Tornou-se guerrilheiro e depois soldado do Exército de Libertação do Povo. A carreira militar levou-o à função de piloto de ataque ao solo. Nos anos 1970, quando a China desenvolveu o caça tático supersônico Qiang 5, ele foi selecionado como piloto de teste, tendo tido papel fundamental no desenvolvimento da aeronave. Ele também foi selecionado para lançar uma bomba de hidrogênio em teste. A detonação bem sucedida colocou o armamento termonuclear chinês em status operacional.

Seu primeiro vôo de lançamento falhou. O que deu errado? Em 30 de dezembro de 1971 eu decolei e subi até a altitude de 300 metros, e então aproei em direção ao alvo em Lop Nor, a 300 quilômetros de distância. A cerca de 11 quilômetrosdo alvo, iniciei uma subida de 45 graus até alcançar o teto de 1200 metros, quando liberei a bomba. Nada aconteceu! Ela não se soltou do cabide onde estava presa (nota do editor:: – observem que o sujeito fala de uma bomba de hidrogênio como se fosse uma garrafa de limonada). Havia três mecanismos de liberação iguais, dois dos quais eram reservas. Nenhum deles funcionou. Segui os mesmos procedimentos na segunda passagem, mas outra vez nada aconteceu. A mesma coisa na terceira passagem. Eu estava ficando sem combustível. Poderia abandonar a aeronave e deixá-la cair na região próxima de Lop Nor, onde se espatifaria sem ferir ninguém. Ou poderia tentar levá-la de volta à base. Refleti sobre o tempo e esforço gastos no projeto da bomba-H, e o dinheiro que custara ao povo chinês, e tomei minha decisão. Quando notifiquei a torre de controle que estava retornando com a bomba, soaram as sirenes de evacuação. Todo mundo pôs máscaras de gás e correu para dentro dos abrigos.

Qual era sua maior preocupação, durante o retorno? Pendurada no cabide, a bomba ficaria a aproximadamente 10 centímetros acima da pista de pouso, e havia a possibilidade de que ela explodisse ao contato. Todo mundo naquela base ainda lembra meu nome: eu quase levei até eles o Juízo Final. Mas fiz um pouso perfeito. Quando cortei o motor, tudo estava em silêncio. Todo o pessoal estava nos abrigos. Eu não podia deixar a cabine: não havia escada que me permitisse sair do avião. Eu chamei a torre para pedir ajuda. O pessoal lá estava furioso, pois eu havia posto dez mil vidas em risco. Disseram-me que me arrastasse até a cauda e pulasse de lá. Como eu trouxera de volta, inesperadamente, a bomba-H de teste, não havia viaturas de serviço equipadas com escudos de segurança (antirradiação). Fiquei no campo de pouso por longo tempo.

O que causou o defeito? Os mecanismos de liberação do cabide estavam guardados em uma área aquecida, até poucos momentos antes de serem montados na aeronave. Depois da decolagem, da rápida subida e do choque com o ar frio, a súbita mudança de temperatura pode ter afetado as tolerâncias do material e emperrado o mecanismo.

E seu vôo seguinte? Em 7 de janeiro de 1972. Dessa vez, quando liberei a bomba, ela se separou do avião. Reverti o curso de forma a deixar a área de explosão, e ativei os escudos que me protegiam dentro da cabine. A 12 milhas da área de detonação, vi um grande clarão. A onda de choque sacudiu o avião como se fosse um barquinho no oceano, e então vi a nuvem em forma de cogumelo. Meu nome foi mantido em sigilo até que fui formalmente reconhecido, numa conferência comemorando os sucessos da bomba-A, da bomba-H e do primeiro satélite artificial, os mais importantes projetos desenvolvidos pelo Exército de Libertação do Povo, depois da fundação da República Popular da China::