A DAAe do EB chega ao presente::Uma geringonça de primeira linha no inventário, afinal::

parte1Não se trata de notícia nova – até pelo contrário: em fevereiro último, o governo brasileiro decidiu pela aquisição, em um primeiro momento, de cinco baterias AAe de origem russa. Duas são do tipo Igla-S, de defesa de ponto (curto alcance) e três são do tipo Pantsir S-1.

A “carta de intenções” entre brasileiros e russos foi assinada em fevereiro, e é apenas o começo da discussão visando estabelecer o preço final da aquisição e conseguir maiores vantagens da parte dos russos. A assinatura do contrato definitivo deve acontecer em julho e as primeiras entregas, dezoito meses depois. O produto pode ser customizado segundo exigências pontuais do comprador: no caso brasileiro podem ser adotados alguns componentes fabricados por aqui, como as carretas blindadas, que têm um equivalente nacional, fabricado pela Avibrás para o sistema Astros-2. Já a adoção do radar nacional Saber 200, citada em alguns informes da imprensa, parece muito pouco provável pois implicaria em modificações de sistema que dificilmente os russos (ou qualquer outro fabricante) estariam dispostos a fazer. De toda forma, estimativas especializadas colocam o valor do pacote completo em pelo menos US$ 1 bilhão.

São ambos sistemas antiaéreos “estado da arte”. Pode-se dizer que o Igla já existe por aqui, e é conhecido tanto pelo EB quanto pela FAB – numa versão considerada ultrapassada, embora ainda eficaz, e que desperta um bocado de controvérsia (causa:: falou do assunto recentemente). A linhagem Igla faz parte dos sistemas conhecidos genericamente como MANPADS (acrônimo, em inglês de MAN Portable Air Defense  System – “Sistema de Defesa Antiaérea Portável por Homem”). O conceito surgiu como desdobramento da ideia, datada da 2ª GM, de armamentos de infantaria operados por pequenas equipes (dois ou três elementos), apontados a partir do ombro de um deles. O alcance dessas armas é “visual” – o operador tem de colocar o lançador mais ou menos na direção do alvo –, e o elemento-vetor é um foguete ou míssil de pequeno porte (no máximo dois metros de comprimento e 12-15 kg de peso).

O MANPADS típico é dividido em duas partes. Uma peça chamada, em inglês, handgrip (“empunhadura”) é considerada por alguns especialistas como o armamento, de fato: contém os sistemas de pontaria e (dependendo do modelo) guiagem, os sistemas eletrônicos e mecânicos que acionam a “munição” (em seguida explico por que as aspas), a bateria e a unidade “esfriadora” (no caso dos “buscadores de calor”); nesta peça, que pesa entre seis e dez quilos, dependendo do modelo considerado, é alojada a “munição”, um míssil auto ou teleguiado a combustível sólido, com uma cabeça de guerra de alto explosivo pesando entre um e três quilos. O míssil, pesando entre 8 e 12 quilos, é contido num tubo descartável, que, em alguns casos, pode ser reutilizado. Parte da literatura técnica considera a bateria e a “unidade esfriadora” como uma “terceira parte” do conjunto, pois têm de ser trocadas após certo tempo, ou após o disparo de uma “carga de munição”. Aqui no causa::, tendo a considerar a geringonça toda como um “sistema de armas”, visto que um não serve para nada sem o outro.

A quase totalidade dos MANPADS adota um entre dois tipos de sistema de guiagem: o primeiro, mais comum, é chamado “guiagem passiva” (passive homing em inglês): não emitem ondas eletromagnéticas de qualquer tipo, mas captam emissões dessas por alguma fonte externa relativamente próxima. Esses sistemas são colocados no próprio míssil, de modo que o operador, depois do lançamento, não tem mais controle sobre a trajetória. Estes sistemas de armas são os mais comuns: setenta por cento dos que estão ativos, o adotam. O segundo é menos comum: numa tradução livre, podemos chama-los de “guiagem de comando” (em inglês, command guidance). A trajetória do míssil é determinada por uma fonte externa, comandada pelo operador e captada por um receptor instalado no míssil. Um terceiro sistema é bem mais raro nesse tipo de arma: guiagem semi-ativa (semi-active homing, em inglês). Nesta, uma fonte externa “ilumina” o alvo através de uma fonte emissora de ondas, e míssil “percebe” a posição da interferência.

Os Igla são a terceira geração dos sistemas de guiagem passiva. Estes sistemas de armas se tornaram possíveis a partir do desenvolvimento, durante os anos 1950, de aparelhos de guiagem “buscadores de calor” (tradução livre da expressão heat-seekers). São equipamentos “passivos” porque não emitem ondas eletromagnéticas de qualquer tipo, mas captam emissões dessas por alguma fonte externa relativamente próxima. No caso, radiação do espectro eletromagnético em amplitudes de ondas que geram calor, mas são invisíveis aos olhos, conhecidas como “infravermelhas” (IR, do inglês infrared). O princípio é relativamente simples: a impulsão proporcionada por motores à reação baseia-se na emissão de jatos de gás em alta velocidade, numa única direção. O atrito provocado pelo movimento do gás gera “calor”, ou seja, uma súbita emissão de micro-ondas que se concentra em grande quantidade junto à cauda da aeronave, antes de se dispersar (por sinal, muitos corpos físicos têm essa propriedade de emitir, concentrar e dispersar calor). A cabeça de guiagem “buscadora de calor” possuí pequena quantidade de uma substância semicondutora (na primeira geração, sulfeto de chumbo II – PbS –, ou “galena”; nos mais modernos, antimoneto de índio – InSb – ou mercúrio-cádmio-telurídio – HdCdTe), todos elementos minerais com a propriedade de “medir” emissões de fótons em sequência (fotocorrente ou corrente fotelétrica). Essas emissões causam alteração no comportamento físico da substância, alteração que gera energia suficiente ser repassada a uma unidade de comando e controle eletrônica. Na primeira geração e em alguns tipos da segunda, essas unidades de controle eram analógicas; em partes da segunda e na terceira geração, digitais. A unidade de comando e controle interpreta os dados e aciona controles mecânicos dos aerofólios móveis, que mudam a direção de vôo do míssil.

Esse processo foi aplicado pela primeira vez no míssil ar-ar AIM9 Sidewinder, que começou a ser desenvolvido em 1949 e entrou em serviço em 1956. Nos final dos anos 1950 o sistema foi diminuído o suficiente para ser colocado em uma arma portátil, no caso o FIM- 43 Redeye, da empresa Convair (depois General Dynamics), que entrou em serviço em 1965, abrindo a primeira geração de MANPADS. Pouco depois, apareceu uma versão soviética, o sistema 9K32, desenvolvido pelo escritório de projetos (em russo, OKB) 134, dirigido pelo engenheiro Turopov nas proximidades da cidade de Tushino. Estreou em 1968, apelidado pelos soviéticos Strela e foi referenciado pela OTAN como SA-7 Grail. O SA-7 é geralmente tratado pela bibliografia especializada como cópia do Redeye obtida através de engenharia reversa, embora a história nunca tenha sido definitivamente provada.

Um problema dos MANPADS que não existia nos armamentos de ombro até então era o jato de chamas gerado pelo propelente do míssil, que poderia torrar o operador. A solução imaginada foi introduzir uma carga menos potente, chamada “de ejeção”, situada na extremidade posterior do míssil. Esta serve apenas para fazer o vetor deixar o tubo de lançamento, gerando um bocado de fumaça, inócua para o operador. Alguns segundos após o acionamento da “carga de ejeção” é acionado o “motor de vôo”, um motor-foguete que rapidamente acelera o vetor até velocidades que podem chegar até 1200 m/s, nos modelos mais modernos (para uma visão geral dos sistemas MANPADS, clique aqui).

Os MANPADS da primeira geração não eram lá muito eficientes: tinham de ser colocados pelo operador diretamente na direção da fonte de calor, ou seja, da cauda da aeronave e, ainda assim, o tempo de reação do míssil era geralmente menor do que a velocidade da aeronave, de modo que eram plenamente eficazes apenas contra helicópteros ou aeronaves voando em velocidades relativamente baixas, ou que passassem diretamente sobre a posição do míssil. Ainda por cima, as primeiras cabeças de guiagem não conseguiam distinguir faixas muitos amplas do espectro de micro-ondas, de modo que podiam ser “enganadas” por outras fontes próximas. Assim, não demorou a aparecerem contramedidas altamente eficazes, conhecidas como flares – uma cápsula ejetada por uma aeronave que, ao ser ativada gera, por reação química e sem explosão, uma grande quantidade de luz e calor durante um período que varia entre cinco e dez segundos.

A estreia em combate real do MANPADS deu-se na Guerra do Yom Kippur (1973), em grande estilo: a vantagem inicial egípcia deveu-se, em grande parte, à anulação da eficiente aviação israelense por sistemas de defesa AAe repassados às forças árabes pela União Soviética. A tática israelense de voar baixo com caças-bombardeiros A-4 Skyhawk, de modo a evitar a vigilância de radar foi anulada pela presença de 2000 SA-7 Strela-2, responsáveis pela derrubada de doze aeronaves, e por danos incapacitantes em outros dezoito (algumas fontes elevam este número para 45 baixas). A presença desse armamento acabou obrigando os israelenses a mudarem parcialmente suas táticas, passando a voar em altitudes médias, e assim entrando na faixa de alcance dos sistemas Tunguska (o avô do Pantsir S-1, mas disso a gente fala depois…) e dos SAMs convencionais. O melhor treinamento dos pilotos egípcios de caça (dentre os quais o mal fadado Hosni Mubarak) fez o resto, de forma que a guerra aérea, naquele conflito, pode ser considerada quese um empate.

As segunda e terceira gerações de MANPADS têm seus principais representantes no Stinger dos EUA, no SA-14 Strela-3 soviético, FN-6 chinês, Mistral francês e Blowpipe, da Grã Bretanha. O uso de cabeças de guiagem baseadas em antimoneto de índio e mercúrio-cádmio-telurídio aumentou a eficiência da leitura do espectro de cores IR, e as mais atualizadas conseguem distinguir faixas do espectro ultravioleta (UV), o que possibilitou que os mísseis passassem a distinguir entre o emissor primário e os secundários e, desta forma, adquirissem o alvo de forma correta, evitando interferência. Um aspecto decisivo que aumentou exponencialmente a eficácia dos MANPADS da segunda geração foi a introdução de “baterias termais”, unidades geradoras de eletricidade de maior eficiência, e “unidades resfriadoras de bateria” (em inglês, BCU – battery coolant unity), também conhecidas  como. Essas unidades abaixam a temperatura do buscador IR até cerca de -200°, aumentando a sensibilidade do semicondutor da cabeça de guiagem e, por consequência, a eficácia do sistema.

Entretanto, a partir da segunda geração começaram a surgir – ou ser retomados – métodos de guiagem ativa, a tal ”guiagem de comando”. Em última análise, é a releitura de um sistema usado na 2ª GM, pelos alemães, em bombas planadoras e mísseis antiaéreos. O operador dirige o vetor utilizando a combinação de um visor e um pequeno manche (em inglês, joystick). É o sistema utilizado pelo MANPADS britânico Blowpipe (“zarabatana”). Este adota uma variação do sistema denominado MCLOS (abreviatura, em inglês, de Manual Command Line Of Sight, ou “Comando Manual por Linha de Visada”).  Através de emissões de rádio estimuladas pelo movimento do joystick, a trajetória do vetor é corrigida até alcançar o alvo. O operador tem de colocar o míssil na direção do alvo, dispara-lo e, após três segundos, passa a dirigir a trajetória movimentando um pequeno joystick com o polegar, até conseguir o impacto. Parece fácil? Tente faze-lo com uma geringonça de sete quilos apoiada no ombro. Tratava-se de um processo complexo, que exigia equipes muito bem treinadas e conhecedoras do sistema, o que rompia a filosofia básica do conceito MANPADS. Em 1985 a arma foi descontinuada pelos britânicos. Umas cinquenta unidades foram vendidas aos argentinos no final dos anos 1970, de modo que, durante a Guerra das Falklands, ironicamente, os dois lados estavam armados com o produto britânico. Os britânicos afirmam ter derrubado nove aeronaves argentinas por meio dessa arma e os argentinos dizem ter abatido dois helicópteros e uma aeronave VSTOL Harrier.

Também foi nos anos 1980 que a entrega, pela CIA, de 1000 FIM-92 Stinger aos guerrilheiros afegãos fez deste sistema de armas um verdadeiro astro da guerra de guerrilha contra os soviéticos. Segundo informações distribuídas pela agência de inteligência norte-americana, entre 400 e 500 aeronaves soviéticas e afegãs, aviões e helicópteros foram abatidos em pouco mais de cinco anos. No Afeganistão, o conceito de MANPADS chegou à maturidade e tornou-se motivo para que tanto soviéticos quanto, posteriormente, os próprios norte-americanos mudassem, suas táticas de apoio aéreo aproximado, passando a evitar perfis de ataque muito próximos do solo. A eficiência dos MANPADS contra aeronaves voando em altitudes ultrabaixas, em solo acidentado, as tornava alvos fáceis para irregulares com baixo nível de treinamento, alta consciência do terreno e altamente motivados. Em função do curto alcance dos mísseis “buscadores de calor”, as incursões soviéticas passaram a ser feitas de altitudes médias e altas, que, dada a alta mobilidade das unidades de guerrilheiros, eram muito pouco efetivas. Posteriormente, em sua guerra afegã “contra o terrorismo”, os norte-americanos passaram a usar ataques de uma única aeronave em grande altitude e usando armamento inteligente – também sem grande eficiência e com alto número de baixas colaterais.

Desde meados dos anos 1990, o Brasil tem adquirido alguns lotes do SA-18 Grouse. Os SA-18 são a versão anterior do sistema de armas adquirido agora, este referenciado pela OTAN como SA-24 Grinch (um tipo de duende que rouba motivos de satisfação alheia – no caso, dos pilotos de aeronaves…) e apresentado pelos fabricantes em 2008. Com relação à versão usada pelas FFAA brasileiras, o SA-24 tem maior alcance (6 km contra 4,5 km) e maior eficiência noturna. Esta é provida pela combinação de um rastreador de alvos baseado em amplificador de luz passivo (instalado na empunhadura), que se combina ao tradicional, baseado no buscador de emissões IR. Segundo os fabricantes, é plenamente eficaz contra alvos em vôo em altitudes de até 3500 m, mas ainda se destina-se principalmente a opor alvos em velocidade subsônica: helicópteros, mísseis de cruzeiro e aeronaves não tripuladas. Contra aeronaves em velocidades transônicas, sua eficácia decai exponencialmente. Ainda assim, o Igla-S é bastante versátil, podendo ser adaptado para vários tipos de plataformas estáticas, em navios e em helicópteros.

A aquisição de duas baterias faz sentido em função do fato de uma complementar a outra.  Os Igla-S, instalados em lançadores duplos operados por um único homem, podem ser rapidamente transportados e postos em bateria, em locais bastante discretos, como topo de prédios ou mesmo em pequenos veículos do porte de um pequeno caminhão. A outra parte da compra, o Pantsir S-1, é bem mais complexa, e constitui um sistema pelo menos em princípio mais eficiente, voltado para a aquisição de alvos em distâncias médias. Combina mísseis e armamento de tubo, orientados por radar. Falaremos deste em outra hora, para termos uma visão ampla da aquisição brasileira, suas possíveis vantagens e desvantagens::

Atualizando os velhos camaradas e uma notícia estapafúrdia::

Estava eu inventando desculpas para não começar a trabalhar (não vivo do causa::, infelizmente, mas quem sabe um dia…), quando tive a idéia de visitar o ótimo blogue do Comandante James Bond (i.e. MBSantigo Jr), e tive a surpresa de descobrir que, mais uma vez, o Comandante mudou de endereço. Não tem problema – dentre os que conheço, ainda é o melhor redator de blogues: elegeu um objeto inusitado, os temas abordados são interessantes e sobretudo, os textos são muito bem escritos e complementados. O comandante Bond sempre gostou muito de falar de armamento, e fala bem, principalmente porque consegue a proeza de colocar bom humor num assunto que pode ser tudo, menos bem humorado. Esta característica sempre me desperta uma vontade danada de comentar os postos específicos, e, desta feita, encontrei dois deles. Não que discorde do conteúdo, mas porque fico achando que poderia, quem sabe, acrescentar alguma coisa (é inveja, mesmo  – quem quiser dar uma olhada, clique aqui e aqui, leia o texto e, em seguida, vá até os comentários). O fato é que, procurando dados para complementar meus comentários, acabei dando de cara com um que achei extremamente interessnte. Pois é – passo ao assunto, com o devido reconhecimento do comandante Bond::

É fato que a União Soviética foi, durante as décadas posteriores à 2ª GM, foi a maior produtora de armas do mundo. Os EUA ficavam em segundo lugar, mas não exatamente porque abominem as armas e amem a paz, mas porque seus aliados, notadamente Inglaterra (terceirona) e Alemanha (a partir dos anos 1960, quarta, com honras), as produziam em quantidades mais do que suficientes. A URSS, ao contrário: tinha de equipar seus mais de três milhões de militares e mais de um milhão de policiais militarizados, e suprir boa parte das necessidades dos cerca de dois milhões de militares de seus aliados do Pacto de Varsóvia.

A questão é que, desde antes da guerra, os planejadores soviéticos, seguindo as diretrizes emanadas da ditadura stalinista, colocaram muita ênfase na indústria militar. Não é por outro motivo que, em 1939, os soviéticos tinham mais tanques, peças de artilharia e aeronaves do que qualquer outro país, inclusive a Alemanha. Por sinal, a Alemanha não seria termo de comparação – as FFAA soviéticas eram três vezes maiores do que as alemãs.

Foi o planejamento centralizado, implantado no final dos anos 1920, que permitiu, através do direcionamento dos recursos disponíveis, fortalecer certos ramos da produção em detrimento de outros, e certas regiões, em detrimento de outras. Numa economia capitalista, as demandas do mercado indicam para onde se voltam os investimentos e a competição determina o dinamismo econômico; numa economia socialista, os investimentos são decididos de antemão, segundo o que seriam, na opinião dos planejadores, as necessidades da sociedade como um todo. A “coletivização da agricultura”, uma espécie de reforma agrária feita à ponta de baioneta, é um exemplo radical de como funcionou essa coisa. A reorganização da agricultura liberou, em cinco anos, recursos que se encontravam presos, de forma arcaica e improdutiva, nas inumeráveis propriedades pertencentes a milhões de camponesses, que não tinham sido atingidos pela Revolução de 1917 e ainda continuavam numa economia de base capitalista e especulativa. Isso significou que terras cultiváveis, gado, fontes de água, áreas potencialmente produtoras de madeira e minerios, foram desapropriadas, e a mão-de-obra excedente, desalojada pela racionalização da produção agrícola, extrativista e minerária, foi deslocada para outros setores da produção, notadamente a indústria. Esses recursos entraram no circuito econômico repentinamente, e permitiram um notável surto econômico. Por outro lado, e ao mesmo tempo, esse processo provocou uma verdadeira epidemia de fome em regiões que, apesar da miséria endêmica, não conheciam a escassez de comida. Os “Planos Quinquenais”, que aconteceram junto a esse processo, estabeleceram metas de produção, que eram pensadas paralelamente às metas econômicas.

Deu certo? Deu: em uma década, o PIB sovietico cresceu mais de cem por cento. O dinamismo soviético impressionou até mesmo grandes capitalistas norte-americanos e europeus. Por outro lado, o Estado determinava tudo (o que mais tarde revelou-se um problema), inclusive como seriam direcionados os investimentos públicos. A guerra enfrentada entre 1918 e 1920, que envolveu inclusive a participação de tropas estrangeiras, e vencida pelo recriado Exército Vermelho, organizado por Trotsky e por alguns oficiais militares convertidos ao socialismo, convenceu os novos governantes que, antes de qualquer coisa, a URSS precisaria de armas, e que não as conseguiria do exterior. Assim, desde antes da implantação dos “Planos Quinquenais”, foi posta grande ênfase naquilo que, hoje em dia, chamamos “indústria de defesa”. Depois da 2ª GM, a URSS, com grandes planos expansionistas, não chegou a desmobilizar suas enormes FFAA, até pelo contrário. O setor militar foi reforçado, e, em decorrência disto, também outros setores relacionados, particularmente a pesquisa básica, a pesquisa aplicada, as universidades e os laboratórios especializados. A vantagem inicial soviética na corrida espacial, por exemplo, deveu-se à pesquisa desenvolvida para conseguir vetores funcionais que levassem até o território norte-americano as bombas nucleares conseguidas no início dos anos 1950. Os lançamentos de satélites e de “cosmonaves” conduzindo animais e, pouco depois, homens, deveram-se aos testes com sistemas que permitissem calcular de modo eficaz as trajetórias e pontos de impacto dos vetores, bem como monitorá-los e influir nas diversas fases do vôo. Ou seja: a corrida espacial é um produto da corrida armamentista que caracterizou a Guerra Fria. A superioridade inicial dos soviéticos devia-se a necessidades militares prementes, as quais os norte-americanos, inicialmente, pensavam não ser preocupação.

O fato é que a sociedade soviética era, bem mais que as ocidentais, uma sociedade altamente centralizada e burocratizada – quer dizer, a aplicação das decisões implicava numa capilaridade perversa (a expressão é do teórico alemão oriental Rudolf Bahro, no livro Crítica ao Sorex – Socialismo Realmente Existente). Segundo esse teórico, que conseguiu a proeza de ser dissidente nas duas Alemanhas, numa ordem dominada pelo aparato do estado e do partido, que monopoliza todo o poder, e que sufoca a vitalidade da ordem econômica e social, por sufocar a prática política, a posse dos meios de produção significou, simplesmente, seu controle pela máquina do estado.  Dizendo de outra maneira, o planejamento centralizado poderia até ser eficiente para certos aspectos da organização econômica, mas não chegou a resolver certos nós da economia propriamente dita.

Um desses nós é que, no capitalismo, a competição determina o dinamismo econômico: as indústrias querem, em última análise, lucrar, e, independente das explicações teóricas, na prática isto só acontece se os produtos forem vendidos. A inovação acaba sendo fator determinante no processo como um todo, pois possibilita melhores produtos para enfrentar a competição. Na sociedade socialista, em princípio, o Estado seria o dono de tudo, o que tornaria quase desnecessária a competição. Existia, é claro, um “mercado socialista”, balizado – pelo menos segundo os teóricos socialistas – pelas reais necessidades da sociedade. Na prática, o que aconteceu, de fato, é que o “planejamento socialista” criou uma burocracia gigantesca, cuja função última era manter o poder político. Boa parte desse enorme conjunto de funcionários acabava por duplicar (quando pouco…) o trabalho das outras partes, e gerava, no processo, enorme ineficiência. Não é que faltasse recursos – estes existiam, até em boas quantidades, mas eram mal distribuídos ao paradoxo; não é que a mão de obra fosse de baixa qualidade – o problema era a política de “pleno emprego socialista”, que impedia o gerenciamento eficaz do trabalho; não é que os produtos fossem mal concebidos – o problema é que entre a prancheta e a fábrica, o processo era de tal forma complexo, confuso e desorganizado que acabava sendo mais simples colocar um satélite em órbita do que produzir bicicletas de boa qualidade.

Tudo acabava na dura realidade de que os países socialistas – URSS à frente – apesar dos feitos no campo social, não conseguiam nem chegar perto dos padrões econômicos do Ocidente, embora tivessem igualado e, em certos casos, até superado os ocidentais em áreas como a educação, as ciências puras, certos ramos da medicina, da produção agrícola, e por aí vai. Uma questão discutida até a exaustão entre os comunistas de todo o mundo era o motivo da União Soviética não conseguir igualar a qualidade de vida dos países capitalistas em coisas simples como, por exemplo, a distribuição de bens de consumo. As explicações por vezes chegavam a ser pueris – “na URSS as pessoas são mais conscientes da necessidade de  fazer sacrifícios” ou “na URSS todos tem suas necessidades resolvidas, de modo que não sobra muito para os gastos conspícuos e suntuários”. O fato que não podia ser amplamente debatido é que o ambiente de liberdade não apenas incentivava a competitividade como a criatividade. No Ocidente, não eram apenas os artistas que podiam fazer o que bem entendessem, mas também os pensadores e cientistas. Na URSS, a partir do stalinismo, o estado se metia a determinar até mesmo o que era “arte socialista”, e chegaram a absurdos como tentar estabelecer a existência de uma “biologia dialética”, em oposição à uma “biologia burguesa”. O fato é que nem todo mundo se dispunha a achar aceitável o horrível “realismo socialista” ou tentar encontrar a dialética na natureza, e daí, milhões de pessoas tornavam-se pouco confiáveis aos olhos dos detentores do poder. O resultado é que o estado desconfiava de tudo e a sociedade era estritamente vigiada. Após a desestalinização da era Khrushchev (1953-1964), certas bobagens, embora não admitidas oficialmente, passaram ser toleradas, como o contrabando de músicas dos Beatles – que eram extremamente populares entre a juventude soviética -, o uso de calças blue-jeans fabricadas a partir de macacões distribuídos aos operários e a leitura de histórias em quadrinhos francesas e alemãs. Mas os aspectos falhos do socialismo não podiam ser debatidos, pois perigava de se chegar até os nós do regime, tais como o excesso de centralismo, a burocracia como entrave ao planejamento e a má organização econômica como razão para a incapacidade distributiva. A ideologia, veiculada através do aparelho de estado acabava por explicar tudo. Claro que havia ideologia na sociedade ocidental, mas esta transitava dentro de limites bem mais estreitos que na União Soviética e o amplo debate, por vezes autofágico, tornava mais difícil o controle da opinião – e da criatividade.

A ineficiência soviética manifestava-se até mesmo nas áreas do mais alto interese do estado. Um dos ramos da indústria que, internamente, era menos ineficiente era a indústria de defesa. Durante a 2ª GM, a URSS deu uma demonstração de vontade coletiva e determinação que certamente será difícil de encontrar em outros eventos, ao longo da história. Por outro lado, é sempre preciso esclarecer que, não fosse o apoio dos aliados, notadamente dos EUA, a URSS provavelmente teria sucumbido. Mas o apoio aliado se deu principalmente em termos de alimentos, matérias primas e insumos (por exemplo, enorme quantidade de gasolina de aviação e lubrificantes de vários tipos, bem como produtos químicos diversos foram cedidos à União Soviética ao longo da guerra). Os equipamentos bélicos (tanques, aeronaves, armas pesadas e individuais, munição) e outros equipamentos foram fabricados pela indústria soviética, cuja eficiência e capacidade de improvisação tornaram-se quase lendários.  Terminada a guerra, as forças soviéticas tinham um efetivo de aproximadamente 15 milhões de homens e mulheres (e crianças, já que adolescentes de até 13 anos foram convocados), mas estavam também equipadas com 40.000 tanques, 80.000 veículos blindados de todos os tipos, 100.000 canhões de todos os tipos, 700.000 veículos não protegidos, cerca de 30.000 aeronaves de todos os tipos, aproximadamente 300 belonaves de primeira linha (dentre as quais 150 submarinos) e 2.000 outros navios de uso militar. Os especialistas concordam que oitenta por cento desta quantidade saiu de linhas de produção soviéticas. Outras fontes dizem que boa parte dos caminhões e outros veículos não protegidos foi também fornecida pelos EUA. O importante, no caso, é que quando as hostilidades se encerraram, praticamente os únicos setores da produção soviética que estavam plenamente organizados eram aqueles voltados para suprir as necessidades militares. Existiam instalações industriais gigantescas, organizadas segundo um processo semelhante ao fordismo, denominado “stakhanovismo“, capazes de produzir em escala comparável a do Ocidente.  Um exemplo espetacular é a cidade de Chelyabinsk, sítio de inúmeras indústrias metal-mecânicas e químicas instaladas nos anos 1930. A partir de 1941, a lugar começou a receber as plantas industriais responsáveis pela produção do tanque médio T34, e rapidamente as indústrias locais voltaram-se para atender exclusivamente ao fabrico do blindado, que, durante toda a guerra, chegou a números de quase 50.000 unidades.

Uma dessas fábricas gigantes é a IZH, também conhecida como “Izhmash”. Situada na cidade de Izhevsky, esta indústria metal-mecânica foi fundada em 1807 e estatizada em 1928. Sempre associada à fabricação de armas leves, Izhmash tornou-se, durante a 2ª GM, a principal fornecedora de armamento individual para os expercitos da URSS. na segunda metade dos anos 1940, com as submetralhadoras descontinuadas, a empresa voltou-se totalmente para a produção do fuzil de assalto Kalashnikov AK47 e todas as suas variantes. Calcula-se que, dos 80 milhões de AKs existentes (algumas fontes falam em 100 milhões), algo em torno de 55 milhões tenha saído das linhas da IZH. Desde a guerra do Vietnã, essa arma encontra-se nas mãos de praticamente todos os combatentes de guerrilha e milicianos do mundo, além, claro, de milhões de combatentes e policiais regulares (causa:: já publicou um longo estudo sobre essa venerável família de armas de infantaria).

Qual a razão da existência de tantos AKs? Segundo especialistas da própria Rússia, o temor perene de uma guerra com o Ocidente, principalmente a partir dos anos 1950, fez com que a URSS investisse na indústria de defesa enorme quantidade de recursos. Depois do fim da 2ª GM, enquanto o Ocidente, em particular a Europa, procurava desmobilizar rapidamente suas FFAA, a URSS manteve as dela, como forma inclusive de manter quietas as populações dos países, em sua esfera de influência, tornados socialistas. Desde o período stalinista, as forças armadas soviéticas, por qualquer padrão, eram, mesmo em tempo de paz, gigantescas. Em caso de guerra – guerra que, segundo as lideranças, era sempre iminente – o país deveria ser capaz de mobilizar rapidamente milhões de reservistas, o que significava dar-lhes armas e equipamentos muito rapidamente. Foi assim que a produção de equipamento bélico cresceu de modo exponencial. Um motivo que deu argumentos às lideranças comunistas foi a Guerra da Coréia. Embora os chineses tenham se saído bastante bem em garantir a sobrevivência do regime norte-coreano, pareceu claro que apenas uma grande quantidade de tropas mobilizadas rapidamente e se deslocando em alta velocidade poderia compensar a arrasadora superioridade aérea do Ocidente. Ainda assim, a vantagem chinesa, conseguida conseguida através da rápida intervenção de mais de 300.000 “voluntários” através da fronteira, dependeu de um fluxo constante de armas e munições, inclusive várias centenas de aeronaves inicialmente pilotadas por soviéticos depois, por chineses. A quase totalidade das armas era proveniente dos enormes estoques que tinham “sobrado” da “Grande Guerra Patriótica” (como o soviéticos chamavam a 2ª GM): submetralhadoras PPSh, tanques T34, canhões ZIS-3 de emprego geral, foguetes Katyusha montados em caminhões GAZ. Tal procedimento não deve provocar estranheza, porque os EUA fizeram exatamente a mesma coisa: lutaram com os estoques de armas estocadas desde a 2ª GM. Apenas a partir da metade do conflito algumas novidades foram sendo introduzidas. Só que as novidades soviéticas dificilmente chegavam aos seus aliados orientais, em função da desconfiança que sempre atravessou as relações sino-soviéticas.

Como já vimos aqui mesmo no causa::, o AK47 surgiu em 1947 mas levou pelo menos dez anos até chegar às mãos das forças regulares em números consideráveis. A partir de 1956, a produção começou a crescer, conforme a arma passou a equipar as FFAA dos países satélites, geralmente produzidas pela própria indústria local. Ainda assim, ao longo de trinta anos, uma quantidade astronômica saía da Izhmash, boa parte da qual acabou em depósitos. Esses depósitos foram parcialmente esvaziados ao longo da Guerra do Vietnã – ao contrário do que parece, a maioria das armas utilizadas pelo Vietnã do Norte era de origem soviética, e não chinesa. Bem antes de 1974, quando começou a difusão do AK74, as armas estocadas já eram distribuídas para exércitos de países do Terceiro Mundo, nos quais a URSS buscava influência. Assim, todas as nações do Oriente Médio receberam grandes quantidades do fuzil soviético e algumas delas, como o Egito se tornaram capazes de produzir cópias autóctones; a Índia recebeu enormes quantidades, e depois passou a fabricá-las localmente; Bangladesh poderia não ter lá muita comida para seus 140 milhões de habitantes, mas tinha muitos AKs fornecidos pela URSS e pela Índia; Iraque, Sudão, Nigéria, Angola, Moçambique, Rodésia, Iran, etc., etc., beberam todos nas enorme capacidade soviética de produzir AKs de todos os tipos. Os movimentos insurrecionais também, mas a maior parte das armas soviéticas que lhes chegavam era fornecida através de traficantes, que constituiam uma espécie de versão eficiente da tal “capilaridade perversa”.

Com a crise da URSS, o fim da política de disputa global com os EUA e a crise econômica que comprometeu todos os ramos do estado soviético, a Rússia já não tinha nem disposição nem recursos para financiar exércitos e movimentos insurrecionais pelo mundo. Ainda assim, os AK, fossem 47 ou 74 continuaram chegando em grandes quantidades aos interessados. Por outro lado, a incapacidade russa em subsidiar as vendas as fez cair notavelmente, isto somando-se ao fato de que o ex-bloco soviético também começou a desovar seus próprios estoques. Como a Izhmash não parou de produzir AK74 (o modelo 47 teve sua produção muito reduzida a partir dos anos 1980, mantida apenas uma linha voltada para exportação), a Rússia continuou a comprá-los. O que faz sentido, já que, na época, as armas de infantaria eram praticamente o único produto da IZH, que também produzia (e continua) outras armas militares, armas esportivas, carros e motocicletas. O fato é que a perda do mercado cativo da União Soviética criou enormes problemas para a empresa, e a Rússia continuou com os subsídios da época do comunismo.

O problema é que a Rússia não podia dar-se ao luxo de deixá-la falir ou ser comprada, a preço de banana, pela diretoria, como aconteceu por exemplo, com a indústria petrolífera e parte – a parte boa, lógico – da indústria química e da indústria mecânica). Izhmash, acredite se quiser, é agora praticamente a única fábrica de armas de infantaria da Rússia, pois as “filiais” que eram mantidas nas ex-repúblicas – por motivos exclusivamente políticos – passaram à propriedade dos novos governos. A ineficiência do processo mostrou, então, sua face real: não havia planejamento e  a direção da empresa insistia em manter a linha AK em produção sem levar em consideração a redução da demanda. A produção era mantida artificialmente alta, pois fossem quais fossem os números, as FFAA e as forças policiais as compravam, por determinação do governo.  Para piorar as coisas, o AK74 e suas variantes se mostravam ultrapassados desde os anos 1980. Diante da demanda das FFAA por uma nova arma, a empresa insistia em apresentar modelos que não passavam de variantes da família AK, que eram sistematicamente recusados pelas forças armadas.

No momento, a IZH está trabalhando em uma nova versão do AK, destinada a substituir todas as anteriores – esta seria denominada AK12. Segundo a empresa, os testes de campo, em unidades operacionais do exército de da marinha russos deverão se iniciar antes do fim do corrente ano. A questão é que Ministério da Defesa da Rússia tem mostrado muito pouco interesse pela nova arma, exatamente em função do fato de que se trata de uma maquiagem sobre o velho AK74 – a versão do AK para o cartucho 5.45X39 mm, que já acumula 38 anos de serviços. Embora a empresa – que atravessa sérias dificuldades desde os anos 1990 – afirme que se trata de um novo armamento, adaptado às demandas das modernas forças armadas e do moderno campo de batalha, projetada sem abandonar as qualidades que tornaram a família AK sinônimo de fuzil de assalto, especialistas têm dito que, de fato, se trata de um projeto muito parecido com o do AN94 Nikonov, um aperfeiçoamento do AK74 projetado nos anos 1980 por um engenheiro da própria IZH, e que acabou distribuído apenas para forças especiais. O que parecia eficiência era, um planejamento cronicamente ineficaz arraigado por todo o estado soviético. Além do “caso Nikonov”, houve também a maluquice do AEK.

Trata-se do fuzil de assalto AEK971, desenvolvido pela  empresa Usina de Fabricação de Máquinas Kovrov, ligada ao ateliê engenheiro S.I. Koksharov. A arma foi desenhada para participar do concurso “Abakan”, no final dos anos 1980, vencido pelo Nikonov. Apesar de ter sido desqualificado, o AEK971, que, de fato, já estava em produção, foi oferecido às forças policiais e para exportação. No início do século 21, pequenos lotes foram fabricados por encomenda do Ministério dos Negócios Interiores, que tinha suas próprias tropas, um grupo de forças especiais (Spetsnaz) especializadas em lidar com distúrbios civis, que teve importante papel em garantir o governo Gorbatshev, quando da tentativa de derruba-lo. A arma não “colou” de jeito nenhum, e quando a Krokov foi reestruturada, em 2006, deixando de fabricar produtos militares, o AEK acabou de vez, por não ter compradores nem usuários. Embora o governo tenha ordenado que o maquinário usado para a produção militar fosse transferido para outra empresa, na mesma cidade, a diretoria da AEK, tendo “adquirido” a fábrica, recusou-se a executar a transferência, sob a alegação que se tratava de patrimônio privado. O AEK, como não podeia deixar d ser, era outro clone maquiado do AK74.

O fato é que se fala cada vez mais, nos círculos profissionais de defesa da Rússia, na necessidade de um fuzil de assalto totalmente novo. Como o sistema Future soldier já está sendo discutido lá, tanto quanto nos EUA, França, Alemanha, Inglaterra e até mesmo no Brasil, a questão do armamento individual torna-se premente. Mas o que fazer com as quantidades oceânicas de AKs em depósito? Planejadores do Exército declararam, ano passado, que a quantidade de AK74 era “mais de dez vezes superior às necesidades das forças armadas e policiais pelos próximos anos”, citaram números  de 17 milhões de exemplares. Em função desse excesso, e do desenvolvimento, em curso de uma nova arma individual, que deverá substituir todo o armamento das FFAA russas, a aquisição de unidades novas de fábrica foi interrompida, por determinação do Chefe do estado Maior Geral das FFAA russas, general de exército Nikolai Makarov. Por enquanto, a “nova” arma é o AK200, que não passa de outra versão do AK74, com algumas novidades visando fazê-la parecer mais moderna, e já pensando na provável recusa do AK12::

Cultura material militar::Melhores projéteis fazem melhores armas::

Já faz algum tempo, examinamos alguns tópicos relativos à teoria e história do tiro e das armas de fogo. Imagino que os assíduos (será que ainda existem?..) talvez ainda lembrem, à esta altura, que o tiro por arma de fogo começou a se desenvolver no final da Idade Média, depois da introdução, no Ocidente, da pólvora negra e das primeiras armas de fogo. Essas tinham diversas limitações, que foram sendo resolvidas conforme a tecnologia, em diversos campos, avançava. A ciência do tiro, de início, era empírica, ou seja, ia se desenvolvendo por uma série de experiências de acerto e erro. Os maiores problemas eram decorrentes da baixa confiabilidade da pólvora, das limitações da metalurgia e dos escassos conhecimentos de física. O tiro é influenciado por diversas variáveis que têm de  ser calculadas a partir de questões matematicamente formuladas. Por sinal, sejamos mais precisos: o tiro é uma questão de matemática e de física. A precisão só pode ser implementada conforme a física se desenvolve e a matemática consegue traduzir, naquela estranha e fascinante linguagem, as questões colocadas pelos artilheiros e atiradores. Dizendo de outra forma: o problema era possibilitar ao atirador certo controle sobre a trajetória do projetil. Esse problema estava ligado à diversas condicionantes.

Por exemplo: qual a carga de pólvora necessária para fazer o projetil voar? Uma quantidade muito pequena tornava o tiro inocuo; muito grande, rebentava a arma. Ferramentas matemáticas (equações) que permitissem calcular a potência da explosão só surgiram no século 18. Até então, era tudo um exercício de experimentação. As quantidades de pólvora iam sendo reguladas, e, após determinadas, passavam a constar de manuais que ensinavam os soldados quais as quantidades corretas. O atirador conduzia, desde o final do século 15, diversas unidades de uma espécie de bisnaga, chamada polvorinho, com as quantidades adequadas de pólvora. Para carregar a arma, esta era posta com a coronha no chão (o “cabo” da “bengala” do tal “canhão-bengala”, harckenbuchse, ou “arcabuz”) e a pólvora despejada lá dentro. Um pouco de estopa era socada, por intermédio de uma vareta, sobre a pólvora e, em seguida, o atirador deixava a bala rolar através do cano, e socava tudo mais uma vez. O passo seguinte era expor a caçoleta e colocar nela um pouco de pólvora de escorva, uma pólvora mais fina destinada a servir de “pavio”. A escorva ficava em outro recipiente, de modo que é possível calcular o número de operações necessárias para carregar um arma, dessa maneira. Era tudo carregado separadamente. Em seguida, o atirador puxava o cão para trás, até que ficasse preso com a mola distendida. Para o disparo, a arma era apoiada numa forquilha (uma coisa dessas podia pesar até vinte quilos…) e o disparo feito. Entre a ignição da escorva e a da carga, ocorria certo tempo, visto que a pólvora negra era de queima lenta. Isso significava que o atirador deveria ficar firme, no momento da primeira explosão, esperando que a carga explodisse – e a primeira explosão gerava um monte e fumaça quente e fagulhas, bem próximo do rosto do coitado… Que Deus protegesse esses primeiros atiradores – até porque eles deviam viver rezando, já que as principais guerras do período eram por motivos religiososos. Nessas guerras, talvez para matar mais rápido a cavalaria católica, o campeão da causa protestante, o Rei Gustavo Adolfo, da Suécia,  durante a Guerra dos Trinta Anos, inventou uma série de importantes inovações teóricas e técnicas, todas relativas à implementação do tiro em combate. Uma dessas foi a introdução do “cartucho”, que não passava de uma carga preparada para uso, na qual eram embrulhados em papel, o projétil, a carga de pólvora e a escorva, levados pelo atirador em um embornal. Esse truque economizava operações e torna o tiro muito mais rápido.

A questão é que, além das armas serem de alma lisa, ou seja, sem raiamento, o projetil ficava meio solto lá dentro. A folga entre a parede interna do cano e o projetil decorria do fato de que ele tinha de deslizar para dentro com alguma facilidade. Só que essa folga tornava o tiro bastante impreciso, uma vez que a pressão exercida pelo gás gerado pela explosão da pólvora acabava sendo desigualmente distribuída, e fazia com que o projetil fosse ricocheteando na parede interna do cano. As consequências resultantes dessa situação acabavam fazendo com que a trajetória final do projetil não pudesse ser minimamente controlada (dependendo da seção do cano da arma com que o projetil se chocasse por último, ele podia iniciar o vôo mais para cima, para baixo ou para os lados). Além do mais, o projetil deixava o cano “trambolhando”, ou seja, numa rotação axial aleatória, que não era suficiente para vencer a resistência do ar de modo uniforme.

Inicialmente, a solução foi colocar os infantes bem juntos, um dos outros, atirando ao mesmo tempo contra uma tropa adversária colocada a uns trezentos ou quatrocentos metros de distância e organizada mais ou menos da mesma forma. A cavalaria atacava pelos lados, tentando desorganizar as fileiras (chamadas “ordens”) adversárias. Quem acertasse mais, vencia. Claro, esta é uma simplificação, mas imaginem a cena.

Ou seja, melhorar o tiro era mais uma questão técnica que militar. Os dois principais problemas que acompanharam o tiro desde sua origem foram (um) a quantidade de energia imprimida ao projétil e (dois) a estabilização do vôo, de modo que a trajetória possa ser controlada. O problema da quantidade de energia começou a ser resolvido com a invenção da pólvora negra; o da estabilização demoraria mais.

A idéia de fazer o projetil girar em torno do próprio eixo (esse movimento é chamado “hélice”, uma linha à qual é imprimida torção constante e proporcional à curvatura) ao longo da trajetória não era nova. De fato, era aplicada, desde a Antiguidade, a projéteis de formato alongado, tais como flechas e dardos, de modo a compensar a resistência do ar. Em sistemas mecânicos de lançamento, imprimir ao projetil um movimento de rotação, ainda que instável, não era difícil. Em flechas, uma carenagem constituída por penas ou qualquer elemento que oponha suficiente resistência à passagem do ar, situada na extremidade posterior do corpo, era suficiente para provocar um movimento giratório. Como o ar é um fluído, a resistência a penetração de um corpo (chamada de “arrasto”) é inversamente proporcional à capacidade desse corpo em rompê-la, ou seja, à diferença entre a quantidade de energia imprimida a ele e a existente no elemento de oposição. O problema seria, então, a quantidade de energia. A invenção da pólvora negra colocou à disposição dos projetistas de armas um processo de geração de energia que resolveu o entrave da quantidade, embora tenha criado outros. Um deles, talvez o principal, foi o descrito mais acima, diretamente relacionado com o formato desses primeiros projetis.

Começou a ser ultrapassado com a invenção do processo chamado “raiamento” (em inglês, rifling, daí a expressão rifle). Tratava-se de escavar, no interior do cano, uma série de sulcos muito rasos, que lhe percorriam o comprimento em um movimento de hélice. O projétil, ao ser violentamente tirado da inércia pela expansão dos gases, passava a correr por esses sulcos e começava a girar sobre si mesmo. O efeito giroscópico da rotação axial estabilizava o vôo, tornando a trajetória mais precisa e previsível.Esse processo foi inventado na segunda metade do século 15, na Europa Central. É provável que, inicialmente, o raiamento tenha visado aproveitar melhor a pressão gerada pelos gases da explosão, visto que as primeiras raias eram retas, e foram aplicadas em armas de caça, de alto luxo. Geralmente, um par de raias dividia o interior do cano em duas seções. (O Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, possui um exemplar desse tipo de arma em suas coleções). Havia, entretanto, o problema da dificuldade do carregamento, que ficava mais lento. Pressionar o projétil ao longo do cano, por meio da vareta, o amoldava às raias e fazia o processo funcionar, mas exigia força e certo cuidado. Em armas de caça, isso não era problema; em armas de combate carregadas pela boca, essa operação tinha de ser rápida, e, como já vimos, o projétil simplesmente “escorria” pelo cano, empurrado suavemente até alcançar a câmara. Os especialistas dizem que, em meados do século 18, um soldado dotado de cartuchos conseguia carregar um mosquete Brown Bess em cerca de vinte segundos; já um rifle de caça tomava do atirador cerca de um minuto para um tiro cuja precisão (caso fosse um bom atirador) podia alcançar 400 metros. Determinados rifles, armas de caça de pederneira feitas nos EUA por armeiros de origem alemã, também se distinguiam pelos longos canos, forma de potencializar a expansão dos gases. Ainda no século 18, a habilidade de civis que lidavam com armas de caça, particularmente na Europa Central, levou à criação de tropas especializadas, formadas por homens que sabiam lidar com “canos raiados”: Jägern, Chasseurs, Cazadores.eram os nomes que receberam essas tropas, uma espécie de infantaria ligeira que se deslocava buscando melhores posições para o tiro. Nos último quartel do século 18, a eficiente participação de caçadores civis nas milícias que combateram os ingleses durante a Guerra da Independência dos EUA, e depois nas guerras contra a França, levaram ao estudo, pelos ingleses, de novas táticas baseadas no tiro de precisão, e a formação de tropas especiais, os Corpos de Rifles. No caso, “rifle” designa um soldado equipado com esse tipo de arma. O Departamento de Armamento (em inglês, Board of Ordnance) foi então autorizado a encomendar certa quantidade de rifles de caça fabricados na Prússia, para testes. Uma série de equívocos, ao longo do processo, despertou certa implicância com a nova arma, e atrasou sua adoção. O grosso das tropas de infantaria continuou equipado com mosquetes e o Board começou a buscar, na indústria local, uma arma semelhante.

O modelo escolhido (embora não se saiba exatamente o motivo) foi o Rifle Baker, produzido pela oficina do armeiro Ezequiel Baker, que baseou seu produto numa arma de produção prussiana, utilizada pelas Tropas de Caçadores daquele reino. A arma apresentada tinha muitas características comuns com os mosquetes do exército, os Brown Bess, a começar pelo calibre .75 (19,05 mm), e o cano de 32 polegadas (81,3 cm), se bem que, posteriormente, algumas modificações foram feitas, para adequar a nova arma ao uso da cavalaria. Os rifles eram carregados pela boca e podiam ser equipados com um enorme sabre-baioneta, cuja lâmina media 61 centímetros.

Entretanto, se o raiamento melhorava o rendimento do tiro, não resolvia todos os problemas e ainda criava alguns novos. Um deles era, exatamente, a dificuldade do carregamento. Um manual da época indicava o seguinte procedimento: “O soldado, por seu lado esquerdo, coloca o rifle no chão, com o cano para cima, deixando-o deslizar através da mão esquerda, com cuidado, mantendo-a perto da boca da arma, o polegar esticado ao longo do suporte de madeira do cano, e a coronha apoiada entre os calcanhares. O cano fica entre os joelhos, que devem estar dobrados para a tarefa; o cartucho é posto dentro do cano e a vareta, posicionada entre o indicador e o polegar da mão direita. A vareta, agarrada com a esquerda, e colocada em posição, forçada cerca de três e meio centímetros dentro do cano. O cartucho é então empurrado até cerca de 9 centímetros; o soldado se coloca em posição ereta novamente, retira a vareta com a mão direita e a coloca no suporte.” Um atirador muito bem treinado levaria uns 40 segundos para completar toda a operação.

Apesar dos problemas, o Baker se tornou o primeiro rifle a ser distribuído em grandes números entre as tropas inglesas, a partir de 1801. Conforme a guerra contra Napoleão se desenrolava, novos modelos foram sendo introduzidos, inclusive uma versão mais curta e leve, destinada à cavalaria.

Custaria certo tempo até que os rifles se tornassem comuns. O processo de raiar canos ainda era complexo embora a tecnologia da Revolução Industrial Inglesa tivesse melhorado os materiais disponíveis. O processo continuou a ser feito com ferramentas manuais e envolvia um grau bastante alto de imprecisão, o que não impedia a melhora da qualidade do tiro. Entretanto, passaria ainda algum tempo até que armeiros e atiradores percebessem que ainda havia um terceiro elemento envolvido no processo: o desenho do projétil. Pela comparação com flechas e outros projéteis alongados, os armeiros perceberam que o formato funcionava melhor, em vôo, quando em giro axial. Um outro detalhe que eles perceberam é que, ao ser forçada através do cano, a bala adquiria um formato alongado. Daí até a idéia de dar-lhes o formato cilindro-ogival ou cônico, o passo não foi imediato, mas também não demorou tanto tempo assim. Esse tipo de inovação começou a tornar-se comum em meados do século 19. O que não é estranho, e tem mais relação com a história da ciência do que com a história militar.

Os séculos 18 e 19 foram, sem sombra de dúvida, os séculos da ciência. A pressão exercida pela expansão do sistema econômico sobre o conjunto da sociedade levou a que a atividade científica se tornasse parte integrante do processo produtivo. De observadores e intérpretes da natureza, em busca de um conhecimento racional sobre a realidade, os cientistas se tornaram elementos de uma cadeia cujo objetivo era ampliar a capacidade de produção da indústria. O século 19 se tornaria o século do vapor e do metal, da produção mecanizada e da padronização. Os processos laboratoriais de experimentação foram incluídos na estrutura da indústria, assim como a produção de conhecimento relativa. Isso significa que estava terminando a época do erudito amador, generalista interessado em todas as ciências, foi deixada para trás, com século 18. Os novos métodos permitiam medições que tornavam os resultados das experiências mais precisos.

O século 19 foi o século da industrialização da guerra. As guerras napoleônicas foram as últimas travadas com tropas formadas e equipadas segundo a lógica pré-industrial, lutadas por soldados com equipamentos produzidos em oficinas que ainda usavam métodos artesanais. Os novos projéteis são produtos dessa nova organização social. Entretanto, não demoraria muito para que a reorganização do processo produtivo colocasse nas mãos dos soldados armas fabricadas de modo a que as peças fossem o mais parecidas possíveis umas com as outras, de modo que pudessem ser trocadas rapidamente, facilitando tanto a produção quanto a manutenção. Máquinas-ferramentas, movidas a vapor, feitas de melhores materiais, permitiram que medidas mais precisas (os “gabaritos”) tornassem a peças cópias exatas umas das outras. Esses processos foram aplicados tanto às armas grandes, os canhões, quanto às armas portáteis da infantaria. Era uma nova guerra que se avizinhava. Na segunda metade do século 19, operários e soldados se tornavam cada vez mais parecidos, uns com os outros e entre si. Como as armas com que se matavam.::

FO, FAL, IA, TAVOR e outras histórias sobre armas de infantaria no Brasil::

Corre na Internet a notícia de que o Exército Brasileiro decidiu, depois de anos discutindo o assunto, substituir o Fz M964 (para os milhares de militares que não têm como não ter uma relação de amor e ódio com essa peça clássica de equipamento, simplesmente o FAL). Segundo consta, o escolhido foi o fuzil IMBEL IA2. Ao longo de 2010 surgiram rumores (não consegui confirmar nenhum deles) que o EB havia adquirido, de uma vez, 180.000 unidades dessa nova arma (não, você não leu, nem eu escrevi, errado: cento e oitenta mil). Ao longo dos próximos anos, se destinaria substituir também os HK G33 e SIG SAUER da Infantaria da Aeronáutica e os M16A2 do CFN. Em duas versões, 7,62X51 mm e 5,56X45 mm (o que significa que são duas armas diferentes…), o novo tipo foi, de fato, apresentado na LAAD 2011, realizada no Rio de Janeiro em abril último e já teria passado pelos testes de campo do EB, realizados no polígono de provas da Marambaia, zona Oeste do Rio de Janeiro. De fato, não é uma arma propriamente diferente em relação ao FAL ou aos fuzis de assalto convencionais que adotam o calibre 5,56. A versão calibre 7,62 continua usando a munição NATO, o que significa que a mecânica da arma não deve ter sido alterada. Significativo, entretanto, é o encurtamento do cano, notável nas fotografias divulgadas, e a adoção de partes manufaturadas em polímero de alto impacto, o que deve significar uma diminuição considerável no peso do conjunto.

Algum tempo antes, foi divulgada a notícia de que as Forjas Taurus, empresa privada do Rio Grande do Sul, teria fechado acordo com a empresa IWI (Israel Military Industries – surgida depois da privatização da estatal IDF – Israel Defense Industries) para produzir, sob licença, o modelo israelense TAVOR TAR 21, fuzil do tipo bullpup. (Para quem estranhar, trata-se de uma configuração em que o receptor e o ferrolho estão localizados atrás do gatilho/punho de pistola, resultando daí um conjunto apenas um pouco mais longo e pesado do que uma submetralhadora.) A negociação, ao que parece, foi iniciativa de risco da Taurus, e nada indica que vá resultar em aquisições significativas pelo EB (se é que resultará em alguma…), pois essa empresa gaúcha, embora seja uma das grandes exportadoras mundiais de armas curtas para o mercado civil e policial, tem pouca tradição em armas militares. Entretanto, tais iniciativas são indicativas da existência real do debate, no interior do Exército. 

Mas o fato é que a tropa continua portando o FAL. Esta arma, por bem e por mal, já entrou para a história do Brasil, e, por este motivo, em 2009 causa:: publicou uma série de postos denominada “A linhagem FAL“. Essa série completou-se com um texto que levou o título de “O FAL no Brasil”, texto que, como todos os que faço, teve partes boas e partes ruins. Sempre tive a intenção de publicar uma revisão, principalmente para incorporar as correções feitas pelo leitor (não sei se assíduo, mas certamente entendido) Carlos Quáglio, o “General de Pijama”, cujo blogue, embora inativo, ainda é uma ótima leitura para interessados. Essa revisão, ampliada, mantém as preciosas observações do historiador militar Adler Homero Castro e do coronel (QEMA-R1) José Paulo Lopes Lima. Devo a estes dois cientistas as informações sobre o “causo” do fuzil semi-automático M954 e sobre a ordem de batalha do Exército Brasileiro no fim dos anos 1950. Faltam, em nosso país, fontes públicas confiáveis sobre a história e dinâmica de nossas Forças Armadas, assunto que não parece interessar ninguém. A documentação do próprio Exército não é facilmente acessível, e as pesquisas acadêmicas sobre o tema embora não sejam mais tão ralas quanto há trinta anos, ainda não são, propriamente, pesquisas de história militar, mas de história social da guerra e de história política das forças armadas. Na Internet, embora se encontrem alguns bons recursos de pesquisa, estes dificilmente passam dos temas da atualidade. O tema ainda é, enfim, campo virgem. Mas vamos ao texto, então::

Em 1960, o Exército Brasileiro era uma força relativamente grande. Sua ordem de batalha podia colocar em campo uns 140.000 efetivos, dos quais talvez uns 40.000 pudessem ser considerados – por padrões algo lenientes… – tropas de primeira linha. No final dos anos 1950,  a força terrestre brasileira podia alinhar algo como um corpo blindado – uma divisão blindada e duas de infantaria motorizada, uma divisão convencional de cavalaria (com cavalos, acreditem ou não…) e cinco divisões de infantaria. Em torno destas, as tropas especializadas convencionais: unidades logísticas, de comunicação, de armamentos, de engenharia, corpos de saúde, seções de formação e administrativas.

Desde a 2ª GM, a intensa relação com o exército dos EUA tinha moldado o Exército Brasileiro, pelo menos do ponto de vista estritamente técnico, à imagem do norte-americano. As doutrinas francesas foram definitivamente abandonadas e  a instrução era feita, em grande parte, por militares dos EUA, que ensinavam a seus colegas brasileiros as doutrinas e práticas desenvolvidas durante a guerra e, logo depois, na Guerra da Coréia. Entretanto, certas práticas norte-americanas eram de difícil assimilação em um país pobre e pouco industrializado.  

O armamento com que o Exército Brasileiro contava em seu inventário passou, em conseqüência da 2ª GM, por um notável salto tecnológico, visto que, nas unidades “de elite” (de fato, as unidades aquarteladas na capital da República, no Rio Grande do Sul e em algumas das principais cidades) tiveram, a partir da entrada na guerra, e, principalmente, do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (O “Tratado do Rio de Janeiro”, assinado em 1947), seu armamento parcialmente padronizado com o armamento norte-americano. Parte considerável  do armamento individual ainda continuou a ser, depois de 1945,  o fuzil de carregamento manual Mauser DWM calibre 7X57 mm, o “Mauser brasileiro“. O armamento de infantaria – além do Mauser, por exemplo, a metralhadora Madsen – era todo adaptado para o calibre 7 mm. Continuaria a ser, durante um bom tempo.

A aquisição do DWM 7 mm se deu em 1908, em números que, segundo alguns especialistas, alcançavam dezenas de milhares de unidades. Ao longo da primeira metade do século 20, em função dos conflitos que frequentemente fechavam as fontes de armas, o FO (“Fuzil Ordinário”, no jargão militar) 1908 continuou a ser a principal arma de infantaria do Exército, e providenciou-se para que uma versão indígena, desenvolvida pelo própria força, começasse a ser fabricada na recém-inaugurada fábrica de Itajubá, Minas Gerais. Essa versão, denominada “Modelo 1908/34” foi uma tentativa de modernizar o tal “mauser brasileiro”: a arma foi encurtada para se equiparar a uma “carabina”, ou seja, equipamento geralmente disponível para as tropas de cavalaria. No jargão do Exército Brasileiro, esse item é denominado “mosquetão”, e tem o comprimento de cerca de 100 centímetros, enquanto o fuzil teria cerca de 120 centímetros.

Tais tentativas não encobriam o problema de que o calibre 7X57 mm se tornou obsoleto para uso militar antes da 2ª GM. Assim, em diversos momentos, essas armas passaram por adaptações em arsenais nacionais para utilizar cartuchos mais modernos. O envio de uma tropa para combater no Teatro Europeu do Mediterrâneo, por outro lado, catapultou o EB para a modernidade. Na Itália, organizada a FEB como uma divisão de infantaria norte-americana, o armamento que seus efetivos receberam era padronizado. A arma distribuída aos pracinhas foi o US Rifle M903, calibre .30-06 (7,62X63 mm) “Springfield”. Isso teve conseqüências duradouras: depois da guerra, boa parte do armamento de infantaria disponível para o EB usava calibres norte-americanos. O BAR (Browning Automatic Rifle, uma espécie de metralhadora ligeira usada como apoio da esquadra de infantaria), alguns rifles Springfield e *Garand e a metralhadora ligeira Browning M919, o .30-06; a pistola Colt M911, as submetralhadoras M3 e INA o .45 ACP. Essas munições passaram a ser fabricadas no país no início dos anos 1950.

Em função dessa disponibilidade de armamento norte-americano, no final dos anos 1940 houve uma tentativa de tornar o calibre .30-06 padrão das forças militares brasileiras. O resultado foi um mosquetão, baseado no “mauser brasileiro”, distribuído em pequenas quantidades a partir de 1949. Em 1951, nova tentativa geraria uma arma não muito diferente – ambas as experiências foram feitas no Arsenal de Itajubá. Mas ainda não era o que o Exército pretendia. Nessa época, já era evidente a tendência mundial para a adoção de armas automáticas e semi-automáticas. O acaso então entrou no jogo – só não se pode dizer se contra ou a favor do Brasil.

Por sinal, o acaso começou a conspirar no segundo semestre de 1945, quando a FEB foi repatriada. Embora a tropa brasileira tenha deixado para trás todo seu equipamento, pôde conservar certa quantidade de canhões alemães e italianos de diversos tipos, várias peças de equipamento de campanha de nossos adversários, os arquivos da FEB e alguns documentos alemães e italianos. O item mais numeroso trazido para o Brasil eram armas portáteis capturadas aos alemães e seus aliados. Não se sabe exatamente quantas vieram, mas calcula-se um número de alguns milhares. Muitos desses itens eram exemplares do que os alemães tinham de mais moderno, inclusive os fuzis automáticos MKb42 e StuG44 (que seriam a origem dos fuzis de assalto) e metralhadoras de uso geral MG42 (a “Lurdinha”). Também haviam alguns exemplares das duas versões do Gewehr 43 (versões Mauser e Walther), uma tentativa frustrada dos alemães em criar um fuzil semelhante ao Garand norte-americano.

As armas alemãs foram examinadas pelas áreas técnicas do Exército e, em 1952, o arsenal de Itajubá recebeu ordens de fazer uma cópia do G43(M), o exemplar que, durante a guerra, tinha sido apresentado pelo escritório de projetos Mauser, de Berlim. O produto resultante, considerado por todos que o examinaram como extremamente tosco, foi denominado “Mosquetão M954”. Era um G43(M) adaptado para usar o cartucho Springfield.

Não se sabe exatamente porque as autoridades locais resolveram que copiar o G43(M) era uma boa idéia. Acredita-se que dois fatores tenham se combinado para gerar o equívoco: a existência, em Itajubá, de máquinas-ferramentas de origem alemã, adquiridas em 1934, um, e dois, o fato de que a patente do G43(M) tivesse perdido a validade, por ser arma militar – as de armas civis e de polícia continuaram valendo. Outro fato relevante é que, embora faltasse Garand, em função da Guerra da Coréia, outras armas “calibre pontotrinta” foram generosamente distribuídas: o BAR, a metralhadora M1919 e boa quantidade de fuzis M903. Assim, era natural que a tentativa de uma arma indígena visasse o cartucho .30-06 (cuja patente fora cedida ao Exército, pelos norte-americanos, a preço de banana), e que essa arma tentasse adaptar um Mauser, com o qual os militares brasileiros tinham intimidade de mais de 40 anos.

O terceiro e mais relevante ponto do equívoco: nessa época, as principais autoridades, aqui, acompanhavam o debate sobre o novo calibre de armas de infantaria, que se travava na Europa e nos EUA. A doutrina norte-americana, amplamente repassada aqui, privilegiava a concentração de fogo em detrimento do tiro individual, de modo que, era esperado, os EUA acabariam mantendo a tradição de um cartucho mais potente. O que os militares brasileiros pareciam não saber é que o M1, mesmo considerado excelente, por volta do início dos anos 1950, já era considerável passível de substituição – falaremos mais do assunto mais abaixo. A substituição foi atrasada pela Guerra da Coréia e pelo debate, na Europa, sobre a adoção do cartucho 7.62X51 NATO, já que os europeus insistiam que toda a munição usada em armas de infantaria fosse padronizada. 

O Corpo de Fuzileiros Navais parece ter estado mais seguro em suas decisões. Em 1954, foi comprado um lote de aproximadamente 5000 unidades do SAFN-49, adquirido diretamente do arsenal Herstal. Um dos prováveis motivos para a aquisição desse modelo era o uso do calibre .30-06, embora a arma em si fosse muito diferente do Garand norte-americano; outro possível motivo talvez tenha sido a aquisição da mesma arma pela Armada Argentina, em 1953. O modelo remontava a um projeto dos anos 1930 e antecipava muitas das características que depois seriam as do FAL, particularmente o ferrolho basculante.

Na época, a discussão sobre o “calibre NATO” estava comendo solta.. Acho que as autoridades militares brasileiras estavam apostando que os EUA manteriam o calibre .30-06 e conseguiriam produzir uma versão automática do M-1, que tinha se saído muito bem na Guerra da Coréia. A questão é que os acordos da NATO implicavam em certo grau de padronização, e um dos pontos em que insistiam os europeus era a adoção do cartucho 7.62 NATO. Outro ponto interessante (e aí é especulação minha) é porque foram adquiridas as armas belgas. Suponho que tenha sido porque essas estavam disponíveis para pronta-entrega. A Guerra da Coréia tinha acabado em 1951, e deixou os americanos totalmente “curtos” de material para entregar aos aliados. O fato do Brasil ter recebido a licença para produzir uma cópia local do cartucho 30-06 indica que havia certa concordância de que as FAs brasileiras receberiam equipamento dos EUA, mas o problema é que, na primeira metade dos anos 1950, a arma a ser adotada lá ainda estava em testes – ou seja: não havia alternativa a oferecer. O problema foi empurrado com a barriga ao longo do resto da década, com o exame de diversos tipos de armas que estavam sendo lançadas no mercado, inclusive o FAL, que teve um pequeno lote adquirido para avaliação em 1954. A tendência mundial apontava para o 7.62X51 NATO, e o FAL FN, no final dos anos 1950, já era adotado pelas forças armadas da Bélgica, Grã-Bretanha, República Federal da Alemanha, Canadá e Áustria. Em 1955, a Argentina anunciou a adoção do modelo e a intenção de fabricá-lo localmente. A empresa belga FN Herstal, dona da patente, antecipou-se à concorrência e ofereceu a licença para a fabricação de seu desenho também no Brasil. A contrapartida era o fornecimento do ferramental e o respeito ao projeto do fuzil. À primeira vista, parecia “mamão com açúcar”: uma arma moderna, de graça e sem necessidade de investimento em pesquisa; na prática, a longo prazo as forças armadas brasileiras se viram novamente atreladas às decisões de um fornecedor externo.

Embora não existam ainda provas conclusivas, é possível que a decisão belga tenha sido motivada pelo exame, pelos militares brasileiros, do Heckler-Koch G3, fabricado na Alemanha com base no desenho espanhol CETME – era outro 7.62 NATO. Pouco depois (no início dos anos 1970) o HK acabou adquirido pela Aeronáutica, para sua infantaria de guarda. O fato de que, num espaço de uma década, três modelos de armamento tenham sido adquiridos no mínimo indica certa falta de planejamento no que diz respeito à questões de defesa, em nosso país.

Em 1967, a chegada dos novos fuzis automáticos, em números que alcançavam 30.000 exemplares, entre os primeiro (diretamente importado) e segundo (fabricado em Itajubá) lotes já tinha se completado. Foi então tomada uma decisão surpreendente: o Exército resolveu converter uns 10.000 Mauser calibre .30 em uma arma aparentada com o FAL, só que numa versão de ferrolho. Essa nova arma, destinada ao treinamento de recrutas, foi denominada ”Mosquetão M968 7.62“. O cano foi substituído por uma versão idêntica à do FAL e a câmara, adaptada para o novo calibre. O conjunto era um pouco mais leve, tinha o cano mais curto e a alavanca de manejo, recurvada. O modelo foi fabricado em Itajubá e distribuído entre as unidades consideradas “de segunda linha”. O “Mosquefal”  empregava munição (inclusive granadas de bocal e munição especial para atiradores de escol), baioneta e material de manutenção de primeiro escalão iguais às do M964 (notação do FAL brasileiro). A arma era destinada ao adestramento básico de fuzileiros da infantaria, e também foi distribuída pelas polícias militares em todo o país.

Outro fuzil de assalto que surgiu por aqui foi o norte-americano M-14. Trata-se de outro clássico, bem conhecido entre os interessados no assunto, cujo surgimento resultou da experiência das tropas norte-americanas com o excelente M-1. No entanto, essa arma também tinha problemas, em particular o sistema de alimentação, centrado num clip de oito cargas, que tinha de ser esvaziado para que a arma pudesse ser recarregada. Os Gis também reclamavam do comprimento e peso da arma, ambos considerados excessivos. O cartucho .30-06, passada a guerra, começou a ser considerado muito longo e muito pesado, o que limitava gravemente a quantidade de munição que cada soldado podia transportar. Na fase final da guerra, foram feitas algumas tentativas de melhorar o M-1, inclusive a adaptação da arma para usar o carregador de 20 cargas do fuzil metralhador BAR.  Esse modelo, denominado T-20, também ganhou a capacidade de disparar em rajadas. O movimento seguinte gerou o T-36, um T-20 adaptado para utilizar um novo carregador, baseado naquele do BAR, mas mais fácil de produzir e mais leve. O problema do peso da munição, entretanto, persistia, e os projetistas tiveram a idéia de aplicar ao 30-06 a solução utilizada pelo alemães: encurtar o .30-06. Os projetistas norte-americanos esperavam que o novo cartucho mantivesse a potência do .30-06, mas com um menor peso e maior economia de material , além, é claro, de diminuir o peso da arma. Paralelamente, um série de modificações no T-36 gerou o T-37. No entanto, os militares não gostaram da idéia,  e, em meados dos anos 1950, uma arma totalmente nova foi apresentada para testes: o T-44. Nesta, o sistema de acionamento operado por recuperação de gás tinha sido completamente redesenhado, utilizando um cilindro de trajeto encurtado, o que diminuiu de forma significativa o comprimento do conjunto. A arma foi projetada em torno do cartucho T-65, que tinha sido adotado pela OTAN como 7.62X51 mm NATO. O T-44 ainda apresentava uma vantagem que acabou se mostrando decisiva: sua fabricação lançava mão de quase os mesmos processos e ferramental que o Garand. Em 1957, essa arma foi adotada pelo Exército dos EUA sob a notação M-14.

Embora ainda seja considerado uma arma excelente, surgiu na época em que já estava sendo debatido o problema do peso da munição e das armas. O problema foi o fato de que o 7,62X51 ainda era um cartucho muito pesado e muito potente, que espelhava, basicamente, a doutrina norte-americana: o fogo contínuo deveria ser provido por uma arma de esquadra, com características de metralhadora ligeira; os fuzileiros deveriam continuar atirando em modo semi-automático, para poder (pelo menos em teoria) apontar a arma e aumentar a precisão do tiro. A experiência no Vietnam mostrou que tal doutrina era passível de crítica, visto que a arma-padrão disponível era muito pesada, longa e difícil de usar em movimento. Operações em que o soldado tivesse de ser lançado sobre o objetivo (como, por exemplo, assalto a partir de transportes blindados) se tornavam quase inviáveis com uma arma com as características do M-14.

A produção desse equipamento durou entre 1957 e 1964, quando o governo dos EUA decidiu investir no desenvovimento do M-16 da Colt Firearms. Os estoques de M-14 foram sendo relegados a funções secundárias ou especializadas. Durante certo tempo, muitos deles foram repassados à Marinha dos EUA, como armamento da dotação orgânica de navios de guerra.

A Marinha Brasileira recebeu entre 1968 e 1973, lotes sucessivos de contratorpedeiross das classes Fletcher, Allen M. Sumner e Gearing (acho q foram 11, no total), e cada um deles vinha com uns 60 FAs M-14. Também vieram, em quantidades menores, com os NDCC, Garcia D´Ávila e Duque de Caxias, Suponho que no total, tenham chegado umas 1000 dessas armas, o que não seria problema, visto que o Brasil já usava, nessa época, o calibre M1964, que é o 7.62NATO fabricado aqui. Como essas armas foram substituídas, nos meados dos anos 1970, pelo IMBEL M1964, os M-14 acabaram no paiol da Escola Naval, como arma de parada. Na segunda metade dos anos 1980 ainda estavam em uso, assim como pela Polícia Naval do AMRJ.

No Brasil, o FAL gerou toda uma linhagem industrial. A atual IMBEL – empresa de economia mista pertencente ao Ministério da Defesa – fabricou três modelos da arma: o Fuzil Automático Leve (FAL), o Fuzil Automático Pesado (FAP – uma versão dotada de bipé, que só dispara em modo automático) – e a versão ”Para-FAL”, com coronha rebatível, e cano encurtado, para emprego de unidades aerotransportadas, de selva e de forças especiais. A produção local começou no início de 1965 e continuou até 1983, subindo a mais de 200.000 unidades deste fuzil. Em 1997 foi apresentada uma versão local, denominada “MD97“, adaptada ao calibre 5.45 NATO. Hoje em dia, calcula-se que, entre todas as versões, as forças armadas e forças policiais brasileiras tenham por volta de 400.000 FAL em seus estoques – o que é uma quantidade surpreendentemente pequena, considerando que essas forças sobem – se computada a reserva de emprego imediato (reservistas com menos de cinco anos de baixa, sexo masculino e idade até 34 anos) – a mais de um milhão de efetivos::

Diário de viagem das férias de causa::Sobre democracia, crises e bombeiros::

Pois é… Ninguém ainda reclamou que causa:: está de férias já vão mais de dois meses. O que não significa que, neste período, eu não tenha visitado o blogue com frequência: alguns de meus próprios recursos de pesquisa estão plantados nele. Um de meus objetivos sempre foi esse: compor, para meu próprio benefício, uma pequena enciclopédia, facilmente acessível, de assuntos aleatórios em torno de temas militares, estratégia, e seus desdobramentos. E, nessas visitas, não tive como não ficar que feliz e algo pimpão ao verificar que o número de visitas diárias manteve-se constante. Com satisfação, noto que o benefício migrou para outras pessoas, que continuam a ver interesse no conjunto de postagens e, possivelmente, nas indicações de recursos de pesquisa. Tive, recentemente, duas demonstrações desse palpite – um tanto egocêntrico, reconheço: artigos do blogue foram citados por um catálogo de museu e durante um simpósio acadêmico.

Assim, sinto-me animado a continuar, apesar de uma curiosa falta de assunto que me assola – e o interessante é que assuntos não faltam. As revoltas populares no Oriente Médio, os dilemas da OTAN, que parece cada vez mais sem função; a special op meio bufa, que resultou na morte de Osama bin Laden; o estado de guerra entre Líbia e as potências (atualmente nem tão potências assim…) européias; a postura cada vez mais “assertiva” da China, cujas forças armadas crescem de maneira notável – e dentre esse crescimento, o mais notável é o da Marinha (os gastos chineses em defesa mais do que dobraram), coisa que pode indicar pretensões de projeção estratégica de poder. Também poderíamos dizer que a crise econômica européia, com a recente bancarrota da Irlanda, Grécia e Portugal, que logo podem ser seguidas por Espanha e Itália, é assunto de interesse estratégico e militar, pois já está provocando contração nos gastos militares locais. Essa contração – por sinal, observada em todo o mundo – poderá significar que logo teremos generosos oferecimentos das indústrias militares européias, de sistemas de armas modernos em condições de pai para filho. O que isso poderá significar, para nosso país? Sabe-se lá. As principais pendências das forças armadas brasileiras continuam em suspenso: não se fala mais nos caças, nem nos navios de superfície. De positivo, a aquisição, pelo Exército, de uma nova linha de VBTPs (“Viatura Blindada de Transporte de Pessoal”) – o “Guarani”, a ser fabricada pela IVECO, em Minas Gerais. Fala-se da incorporação, nos próximos 15 anos,  de algo em torno de dois e meio milhares de unidades; também anda sendo discutida a substituição do FAL como arma padrão da força terrestre.  Também poderia ser um bom assunto a aquisição, pela MB, de oito aeronaves C1Trader, dos estoques na Marinha dos EUA. Trata-se de um modelo adequado às funções de COD (Cargo Onboard Delivery, ou seja, “Abastecimento direto a bordo”) e REVO (“Reabastecimento em vôo”). São aeronaves obsoletas, mas passarão por programas de modernização, nos EUA. O que isto pode significar? Que, a médio prazo, a MB tem planos de adquirir um outro navio-aeródromo, de maior porte, e talvez ampliar a aviação naval. Ao que parece, estamos às vésperas de uma significativa reestruturação da Marinha, que se seguirá à que vem sendo feita, desde os anos 1980, nas outras forças singulares. As principais unidades da Força Terrestre tem sido retiradas das grandes cidades e transferidas para as fronteiras; a FAB começa a reposicionar seus principais meios. No caso do EB, a tendência é que nos grandes centros fiquem as organizações de ensino e treinamento, administrativas e de referência; a FAB pretende voltar parte de sua atenção para o “vazio amazônico” e para as “fronteiras verdes” onde o EB já se encontra, com seus “Pelotões de Fronteiras”, suas excelentes unidades de infantaria de selva e parte das unidades aeromóveis. A integração terá de ser considerada visto que a FAB deverá oferecer ao EB e às polícias capacidade de vigilância aérea avançada (Early Air Warning) e apoio aéreo. É claro que, em termos de Brasil, nunca se sabe, visto que os políticos daqui, independente da coloração e de serem governo ou oposição, parecem achar que o país não precisa de forças armadas (temos de admitir que a excessão foi o governo Lula, e isto os próprios militares reconhecem).

Mas o assunto militar que me pareceu mais interessante não diz respeito propriamente às forças armadas, mas à uma das “forças auxiliares” – como são chamadas, eufemisticamente, algumas das corporações policiais brasileiras: a greve do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro.

Por que? Alguns dos assíduos devem lembrar que causa::andou mexendo no assunto. Emboran ninguém pareça lembrar que os bombeiros fazem parte das corporações militares estaduais, os “soldados do fogo”, militarizados desde o final do século 19, são parte  das pequenas forças militares com que, no início do século passado, foram dotados os governos estaduais. Essas forças tinham por função manter a ordem interna (que dizer: o poder nas mãos certas), tornando mais difícil a intervenção do governo federal nos assuntos locais. De toda forma, PMs e bombeiros são corporações militares, reguladas por regras diversas daquelas que regem as categorias civis da sociedade.

E é esse o “xis” da questão: até onde eu saiba, militares não podem fazer greve. Esta é uma característica estritas dessas corporações, em todo o mundo, em função de terem sua base plantada sobre os princípios da disciplina e da hierarquia.

As corporações militares não são democracias. Isto é o mesmo que dizer que, num estado de direito, estão subordinadas aos poderes civis, e são diretamente comandadas pelo chefe do estado, visto que as FAs fazem parte da estrutura permanente do estado. Por outro lado, as regras que regem e dirimem conflitos em outras categorias da sociedade civil não têm efeito no cotidiano militar.  Vale dizer: num estado de direito, a sociedade civil é caracterizada pelo respeito à lei, pluralidade de idéias e pelo conflito mediado. Nas FAs, em última análise, o conflito não existe e as ordens e determinações de comandantes designados independente de consulta pública devem ser obedecidas sem questionamento – e ponto final. Existem mecanismos que possibilitam a um subordinado reclamar de uma ordem injusta ou de um comportamento considerado inaceitável, por parte de um comandante, mas esses mecanismos são constituídos por canais estritos, e não se assemelham aqueles vigentes na sociedade civil. Se a tropa tem reivindicações, estas devem estar de acordo com o regulamento (por exemplo: não é possível reivindicar a mudança do modelo de uniforme ou da saudação militar) e devem subir seguindo a cadeia de comando, até onde se encontre um agente autorizado a examiná-las – sempre dentro do regulamento. Pressupõe-se, entretanto, que certas questões, por serem de juízo superior, não podem ser discutidas e muito menos postas em dúvida. Questões salariais são uma dessas.

Um soldado, ou grupo deles, que se recuse a cumprir o regulamento estará comentendo uma violação gravíssima: rompendo a cadeia de comando. Em qualquer país do mundo, democrático ou não, isto tem um nome: insubordinação. Assim, “greve” numa corporação militar não passa de motim; passeata de militares, abandono não autorizado de posto. Motim não é justificável: o militar amotinado é excluído e penalizado. O abandono de posto até pode ser eventualmente justificado, mas depois de ser o transgressor preso e submetido a procedimento disciplinar. 

Assim, em primeiro lugar, a “greve” do CBMRJ é gravíssimo caso de indisciplina militar, e como tal deve ser tratado. Mas é também um angu de caroço político, dados os fatores que o cozinharam e o temperam, a começar pelo fato de que os bombeiros são muito mal pagos, e a população civil é amplamente simpática à corporação e a seus membros. Os bombeiros estão dentre as poucas categorias profissionais amadas pela sociedade (de forma mais-ou-menos semelhante, só consigo lembrar dos professores primários e de ensino médio, que os governos também vem maltratando, sistematicamente, há mais de trinta anos…). É interessante observar que até mesmo a imprensa, que não passa dia sem falar no “excesso de gastos com o serviço público” (e frequentemente acusa grevistas: causam problemas e atrapalham tudo, do trânsito à vida dos homens bons) tem colocado como “justas” as reivindicações dos soldados do fogo. A invasão do Quartel Central, no Rio tornou a situação ainda mais complicada, visto que a atitude do governador – que, em princípio, não poderia ter sido outra – de ordenar o uso da força para retomada das instalações daquela organização militar e a prisão de 429 efetivos envolvidos, catalisou a simpatia da população da cidade. Talvez facilite um pouco imaginar os soldados do BOPE entrando em greve e invadindo  o quartel da Rua Campo Belo, e logo depois, os “caveiras” promovendo uma passeata na Avenida Atlântica. É muito pouco provável que os moradores das redondezas estendessem panos negros nas janelas, como fizeram no dia do evento.

Toda essa situação foi precipitada pelo estado de penúria em que vivem  esses profissionais e, por extensão, suas famílias. Afinal, a profunda cisão que existe na sociedade brasileira, com elites gozando de todos os privilégios e a grande massa popular vivendo com dificuldades, repete-se nas forças armadas. O uso que vinha sendo feito pelo governo do estado do Funesbom, formado pela arrecadação da “taxa de incêndio”, é prova acabada do modo perverso como tais vicissitudes batem continência nas corporações militares. Tal situação tornou-se mais perceptível na medida em que, nos últimos anos, o desenvolvimento econômico do país, que possibilitou maiores chances de progresso pessoal e social a profisionais com qualificação técnica, também colocou em evidência a má situação social e econômica das categorias militares. O “oba-oba” do governo com relação ao sucesso econômico (culminando com a conversa do “pibão”, no início do ano) teve como efeito colateral evidenciar o fato de que esse mesmo governo (considerando todas os níveis), tem deixado seus servidores como última prioridade. As autoridades pedem “sacrifícios” e “paciência” a categorias que não fazem outra coisa – e no caso das categorias militares, sem instrumento algum de negociação.

A panela de pressão apitou, como se dizia em meu tempo de estudante. O apito, em minha opinião, avisa que a “questão militar” tem de ser tratada pelas autoridades com maior seriedade, e não com a tática de empurrar com a barriga e tentar jogar a opinião pública contra elas – tática por sinal usada com todo o serviço público. O governador do Rio de Janeiro, pelo modo como enfrentou a crise, parecia não dispor de informações completas sobre o problema. Quando teve de se manifestar sobre o evento do Quartel Central, o fez de meneira totalmente inepta. Pouco tempo atrás, Cabral tomou a atitude inédita – podemos dizer, histórica – de restabelecer a autoridade civil e a ordem sobre um enclave controlado por marginais armados. Naquele episódio, agiu com ponderação notável; já neste… Deveria ter chamado a atenção do público para a questão da hierarquia e da disciplina, e colocadado a questão salarial de forma honesta e direta. Preferiu invocar histórias chorosas e não comprovadas sobre “criancinhas postas em risco por baderneiros e inocentes úteis” e tentar uma saída pela tangente: oferecer gratificações que não resolveriam nada.

A mesma coisa, certamente, não acontecerá com a outra força militar estadual: a PMERJ – esta muito mais perigosa do que os simpáticos bombeiros. E é altamente improvável que aconteça nas forças armadas regulares, onde a disciplina estrita mantém tais situações sob controle. Claro que sempre pode aparecer um maluco do tipo do capitão paraquedista Jair Bolsonaro, que, em 1987, mostrou-se disposto a usar seus conhecimentos técnicos como forma de protesto contra os baixos salários que tornavam os oficiais militares reféns de administradoras de imóveis e agiotas. É muito mais provável que oficiais da FAB cada vez mais peçam dispensa muito antes do tempo para usar o excelente treinamento como pilotos de asa fixa e asa rotativa – pago com meu-seu-nosso dinheirinho – em empresas de taxi aéreo; e que oficiais e graduados da Marinha dêem baixa para ocupar lugar nos passadiçoes e casas-de-máquinas dos supply vessels que abastecem as plataformas oceânicas que logo irão tornar nosso país o terceiro ou quarto maior produtor de petróleo do mundo… Essa situação, além de deixar bem claro o uso irracional feito do dinheiro público por nossas autoridades, torna o país potencialmente refém de qualquer potência média que venha a nos atacar. Mas… Somos um país pacífico, não é o que dizem?..::

A batalha do Rio de Janeiro::Observações depois da ocupação::

Passada a novidade da “batalha do Rio de Janeiro”, ou “Segunda Batalha de Itararé” (como o blogue prefere chamar tão grandioso evento), a vida no Complexo vai voltando à normalidade. Sábado passado um pequeno grupo de turistas apareceu por lá, liderados por uma artista plástica do Espírito Santo. Bom sinal – parece que as pessoas estão passando a ver o Complexo como mais outro lugar. Aliás, a semana passada foi repleta de bons sinais, visto que o Estado parece ter chegado ao local para não mais sair – e conta com a confiança da população local. Então é tempo de convocar os planejadores: senhores, chegou a hora do planejamento – das ações de médio e longo prazo. De qualquer forma, tão simbólico quanto a bandeira nacional drapejando no local mais alto da região, foi a implantação de placas de rua e códigos de CEP, o que significa que  a enorme área, que reune quase oito por cento da população da cidade, foi finalmente incorporada ao município. Algum tempo atrás, eu tinha dito, aqui mesmo no causa:: que a região precisava de um “banho de política”. Uma coisa exatamente assim. Aliás, um banho dado inclusive pela COMLURB, que parece que não tinha permissão de entrar lá…

Surge também o projeto de uma “Força de Paz” (FPaz – milico adora essas siglas…), visando colocar a presença do Exército em apoio às ações policiais, até a instalação da UPP local. A doutrina seria baseada na grande experiência do EB e da Marinha em forças internacionais de emergência, como a que atualmente está aquartelada no Haiti. A idéia é controversa por vários motivos. Dois são os principais.

Intelectuais locais, ligados às ONGs de fomento à cidadania e às universidades, não vêem com bons olhos o engajamento do EB em missões de segurança interna. Não deixam de ter certa doze de razão. Rubem Césas Fernandes, um dos coordenadores da superong “Viva Rio”, atualmente instalada em Port-au-Prince, diz que à atuação dos militares precisa corresponder uma forte supervisão civil. Segundo ele, no Haiti a presença de organizações internacionais fortemente apoiadas pelos governos de seus países de origem e pela ONU é um contrapeso à atuação militar, que frequentemente extrapola. Segundo Fernandes, no Rio de Janeiro a maioria dos formadores de opinião tende a achar que defender direitos humanos é defender bandidos, então a tal supervisão tenderia a ser menos incisiva. Chego a concordar com esse antropólogo. As atitudes militares não poucas vezes acolhem comportamentos que deveriam ser encarados como desvios comportamentais – veja-se, por exemplo, o sargento que, sem motivo algum atirou em um civil, num aparente acesso de fúria motivado pela simples presença, à vista de um quartel, de um homossexual; uns dois anos atrás, um segundo-tenente temporário, aparentemente para mostrar autoridade, entregou um grupo de adolescentes a um traficante de drogas, que prontamente os executou. Dias depois, chorando copiosamente, o oficial declarou “não saber por que tinha feito aquilo”. Não que os cidadãos pobres estranhem a violência em seu cotidiano, e boa parte dos desmandos da Polícia Militar deve-se à uma ideologia de que todo pobre é um bandido em potencial. As PMs, pelo Brasil todo, têm poucos oficiais e as frações (o policiamento é feito por pequenos grupos de homens) são geralmente comandadas por graduados. Os oficiais saem pouco dos quarteis, não andam junto com a tropa e fazem política de baixo nível num grau incomparavelmente mais alto do que nas FAs. 

Talvez oficiais superiores, em campo, pudessem manter a tropa sob controle estrito, mas resta saber se majores e tenentes-coronéis estariam dispostos a comer poeira e deitar suor nas vielas do Alemão… Por outro lado, os comandantes militares têm manifestado preocupação com a extensão do tempo da presença militar no local, dada a possibilidade de contaminação dos efetivos do EB e da Marinha pelo contato com policiais corruptos – e embora não tenha sido dito, inclusive (e talvez principalmente) da oficialidade. Essas preocupações não parecem totamente infundadas: a Polícia Civil do Rio começou, afinal, ontem (4 de dezembro) a investigar a denúncia de que o traficante “Polegar” (ex-chefe do tráfico no Morro da Mangueira, que estava refugiado no Complexo do Alemão) foi retirado (ou “extraído”, no jargão militar) do local num carro descaracterizado da Polícia Civil. As notas publicadas nos jornais não deixam muito claro como a coisa aconteceu, mas a Corregedoria da Polícia do Rio de Janeiro apressou-se em desmentir a informação. A questão é: até que ponto as FAs estarão imunes à corrupção?

A convivência promíscua entre polícia e criminosos não é novidade e nem característica do Rio de Janeiro. No mundo inteiro, policiais lançam mão de contatos que fazem no submundo para obter informações que lhes permitam antecipar os movimentos do crime. O recurso aos informantes – alcaguetes, “caguetes”, “x-noves”, “orelhões”, como são chamados na gíria policial – é parte da atividade policial em todos os países do mundo, e implica desde pequenas recompensas a esses criminosos até a chantagem. O problema é quando setores da polícia começam a se aliar a setores do crime organizado, e a situação se inverte: policiais corrompidos começam a informar o crime organizado sobre os movimentos da polícia.

É interessante observar que, na operação da Vila Cruzeiro, os traficantes devem ter recebido informações internas, visto que tiveram tempo de preparar o terreno para reter as unidades especiais da PMERJ, e chegaram a conseguir inutilizar um dos “Caveirões” do BOPE. Está certo que o *”Caveirão” não é um veículo militar, mas uma espécie de carro-forte adaptado para transportar um “grupo de ações táticas”, nome que, no BOPE, recebem as esquadras de policiais militares especialmente treinados e equipados. Mas é uma improvisação. O “outro lado”, ou seja, o tráfico, também conta com alguns elementos que receberam o excelente treinamento das unidades elite das FAs brasileiras: páraquedistas e fuzileiros navais. Esses militares são, em muitos casos, moradores de comunidades carentes, tentam conseguir uma carreira profissional estável nas FAs. Acabam dispensados, na maior parte dos casos, depois de 4 anos de serviço ativo, caso não conseguir passar num concurso interno para cabo ou num concurso aberto para graduado. Os jovens soldados, sem emprego e sem o suporte moral da corporação (que faz enorme diferença), ficam totalmente vulneráveis ao canto de sereia do dinheiro fácil.

Assim se justifica a preocupação das autoridades militares. “Recrutados” pelo crime organizado, ex-militares das tropas pára-quesdistas cuidam da segurança dos chefes e dos locais onde acontece o “movimento”. Não são incomuns as informações sobre apreensões de cadernos com esquemas de táticas de retardamento e retração organizada, bem como de montagem de armadilhas e instruções para o uso de armamento. Esses cadernos são escritos por pessoal militar “recrutado” pelo tráfico, e é assim que os criminosos aprendem como lidar com as forças de intervenção da polícia militar. Pode parecer muito impressionante, mas não é (a não ser para o sensacionalismo da imprensa): o que normalmente acontece é que os “soldados” do crime organizado postos à disposição dos “instrutores” não são sequer milicianos. Carecem de qualquer idéia de disciplina e não têm nenhuma cadeia de comando. São apenas marginais armados, e o treinamento deles limita-se a como municiar e disparar uma arma.

A não-contaminação das FAs e dos setores superiores das forças de segurança fica meio evidente (para nosso alívio) no fato de que os criminosos não pareciam esperar a intervenção das VBTP do Corpo de Fuzileiros Navais. A intervenção foi resultado de uma negociação, em plena crise, entre o governo estadual e o Comando da Marinha Brasileira, na qual o governador interviu pessoalmente. A negociação foi rápida e a Marinha respondeu com rapidez, lançando mão das guarnições que, em qualquer quartel militar, ficam sempre em serviço. Seis M113A3, dois *Carros-lagarta Anfibios (CLAnf, no jargão da MB) de 25 toneladas e três VtrBldEsp SR 8X8 MOWAG “Piranha IIIC“, com as respectivas guarnições e equipes de apoio, integrantes da Divisão Anfíbia (principal unidade do CFN/MB, com escala de brigada reforçada) foram transportados de seu quartel na Ilha do Governador e lançados diretamente no “teatro”. A surpresa observada entre os criminosos indica que estes não contavam com a intervenção militar, não sabiam como confrontá-la e nem tinham armamento adequado. Os militares tinham instruções para não intervir na operação da PMERJ, a não ser que a integridade das viaturas fosse diretamente ameaçada. O armamento orgânico das viaturas M113 e CLAnf, a *metralhadora Browning M2 .50 (12,7 mm) é considerado capaz de opor qualquer viatura militar não protegida, com proteção leve e pequenas aeronaves; no caso dos “Piranha”, a arma orgânica  é uma metralhadora FN Herstal 7.62.

A utilização dos blindados correspondeu à doutrina de lançamento de esquadra de infantaria em teatro tático. Entre nove e onze policiais militares do BOPE (um grupamento de ações táticas), com armamento completo foram conduzidos até o ponto focal e lá desembarcaram. Durante a busca por posições de fogo, se beneficiaram da massa do blindado como proteção. A VBTP permanecia durante alguns instantes no local e em seguida se retirava, para dar passagem a outra, trazendo um novo “grupo tático”. Uma vez consolidada a posição, os blindados retornavam ao ponto de reunião para lançar grupos táticos em novas posições. Em ação de deslocamento, os blindados se lançaram contra obstáculos deixados pelos “combatentes adversários” (vamos chamá-los assim, com alguma condescendência…). Depoimento de militares do CFN dão conta de que, em pelo menos três oportunidades, pequenos veículos foram esmagados pelo peso das viaturas. Um dos motoristas declarou que em momento algum houve oposição que pudesse ser considerada relevante, e os criminosos eram vistos fugindo pelas vielas, em muitos casos abandonando armas e pertences pessoais, além, claro, das enormes quantidades de drogas que não puderam ser deslocadas em função do volume. Os policiais militares, uma vez desembarcados, não tinham nenhuma dificuldade em consolidar posição e progrediam de maneira escalonada pelo terreno (grupos de 3 elementos avançavam, cobertos por um atirador que buscava a melhor posição de fogo), usando os próprios meios.

Os traficantes teriam alguma forma de oposição eficaz? A resposta é um redondo “não”. Segundo depoimento de militares das tripulações das viaturas, disparos de armas leves atingiam a chapa frontal das VBTPs M113, e pelo menos três granadas de mão foram lançadas, mas apenas uma chegou a explodir. As “bazucas” encontradas pela polícia não eram ameaça, de fato. Por sinal,  “bazuca” é uma denominação inapropriada para indicar o armamento encontrado. O que foi mostrado são duas categorias de armas bem diversas. A primeira é um lança-rojão , ao que parece  modelo M67 de 90 mm (é possível comparar as duas fotos). A reportagem da TV Globo, para variar, dá um monte de informações disparatadas e sensacionalistas, comparando essa arma a um canhão de 90 mm (são coisas completamente diferentes). Esse tipo de lança-rojão já foi descontinuado no EB, substituído por um modelo mais moderno, de origem sueca. É muito pouco provável que houvesse munição para ele (os tais “rojões”, um foguete chamado, pelos especialistas, “de carga oca”) e, mesmo que houvesse, provavelmente estaria fora de validade, visto que tem de ser armazenada em condições altamente controladas. E mesmo se a munição estivesse válida, é muito provável que a arma na hora do “vamuvê” negasse fogo: o disparo de um lança-rojão depende de um pulso elétrico obtido de uma bateria (um tipo de pilha); caso essa bateria não esteja instalada ou esteja descarregada, o disparo não acontece nem por vontade divina. A *segunda arma é um *M72 LAW (Light Anti-tank Weapon), armamento já retirado de serviço no Exército dos EUA, e que nunca fez parte do inventário das FAs brasileiras. Pelo que é possível entender da foto, a arma não deve ter mais o rojão, pois caso ele estivesse lá dentro, o risco de disparo acidental pelo policial que a demonstra seria muito grande (observe o diagrama – o PM está com a coisa armada). Como se trata de um “pacote descartável” (pode ser lançado fora depois de usado, embora seja possível recarregá-lo), é provável que tenha sido roubado ou comprado de um colecionador.

Entretanto, as fotos do armamento apreendido após a ocupação do Complexo do Alemão são *realmente preocupantes. Isso porque boa parte dos fuzis automáticos visíveis (em meio a muita porcaria, como armas de colecionador, armas claramente danificadas e peças de armas) são, na maioria, os FAL FN Herstal, arma padrão do Exército Brasileiro.  Parece que também foi apreendido um HK G3, arma da infantaria da aeronáutica. São pouco notáveis (eu, pelo menos, contei quatro) os AK47, e também se conta algumas carabinas Colt AR15. Digo “preocupente”, e muito, pois os FAL devem estar saindo dos quarteis militares, roubados ou comprados de efetivos do EB e da própria polícia (nos últimos anos, milhares dessas armas foram transferidas das FAs para as polícias militares e civis). 

É preciso que essas coleções de armamento apresado sejam estudado (e deve estar sendo)  com cuidado pela inteligência policial e das FAs, e que se apure a procedência, o que irá determinar se o contrabando é realmente considerável. Eu apostaria que talvez ainda seja para armas curtas. Mas também apostaria que a maior parte desses itens deve vir mesmo das indústrias locais, Taurus e Rossi, que fabricam excelentes pistolas semi-automáticas e revólveres, que podem ser desviados ou roubados aos magotes. O controle da distribuição de armas é realmente uma necessidade, apesar da controvérsia que sempre desperta, e as campanhas de “entrega voluntária” devem continuar::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::MP40, a “arma do soldado nazista”::

parte2/2Mas havia um problema: a doutrina que estava sendo estudada para as nova “tropas blindadas” (em alemão, Panzertrüppen) implicava em maior poder de fogo individual. As unidades a serem empregadas (regimentos e batalhões) em combate seriam necessariamente menores do que as das forças convencionais, em função da disponibilidade de veículos motorizados em cada grande unidade (divisão). Os planejadores esperavam que as frações (companhias, pelotões e esquadras), transportadas em veículos protegidos especiais ou em caminhões convencionais, pudessem compensar a diminuição dos efetivos combinando velocidade e poder de fogo. As frações de “infantaria blindada” (panzergrenadieren, em alemão) deveriam ser lançadas diretamente nos setores de combate a partir dos transportes motorizados que seguiriam os “carros blindados” (panzerwagen, em alemão),o que tornava o potente cartucho convencional (o IS 7.92) dispensável, já que o tiro não seria disparado de grande distância. Melhor seria uma arma com grande cadência de fogo – e que o combatente pudesse transportar maior quantidade de munição preparada. A submetralhadora pareceu a solução ideal, simplesmente por existir. 

As experiências com armas pesadas especiais (os tanques), tropas blindadas, motorizadas e mesmo pára-quedistas remontavam ao final dos anos 1920 e início dos 1930. Os oficiais que conceituaram essas tropas eram todos de patente intermediária (majores e tenentes-coronéis), ou seja, não mandavam nada, e o Estado-maior geral desprezava armas automáticas e veículos motorizados. A subida dos nazistas ao poder mudou o panorama. Hitler interessou-se por um manual que apresentava a teoria do assunto, e tornou-se uma espécie de advogado das forças blindadas.

Foi nessa época (1934) que as forças blindadas começaram a “pegar”, em função de exercícios teóricos e simulações de campo bem-sucedidos. Ainda assim, o apego dos generais aos conceitos tradicionais persistiu: mesmo com o sucesso das novas experiências, a doutrina alemã não chegou a mudar. O tiro individual a longa distância continuou a ser enfatizado. Vários infantes disparando ao mesmo tempo, apoiados por uma ou mais metralhadoras, criariam o peso de fogo necessário para superar o adversário.

Assim, podemos dizer que o Exército Alemão de 1939 dispunha de duas categorias de tropas bem diferenciadas: as forças blindadas e o resto do exército. As primeiras, compostas por dez divisões blindadas, sete divisões de infantaria motorizada e três divisões “ligeiras” (divisões blindadas com um efetivo menor de tanques e veículos motorizados), representavam apenas sete por cento do efetivo total – no início da guerra, uns 130.000 militares (o Exército todo montava pouco mais de 1.800.000 efetivos, nessa época). Mas era “outro exército”, com a introdução dos blindados sobre lagartas, transportes de tropas e apoio logístico motorizado, comunicações por rádio e aplicação de interdição e apoio aéreo aproximado. Essas tropas receberam uma quantidade maior de submetralhadoras: uma em cada quatro armas. A outras três continuaram a ser os fuzis de repetição convencionais. No exército “comum”, menos de dez por cento da dotação total de armas de infantaria era composta por submetralhadoras.

Esse “exército comum” era formado basicamente de divisões de infantaria do tipo clássico. Eram transportadas para a frente em trens, deslocavam-se a pé na última parte do trajeto ou, quando necessário, em veículos tirados a cavalo. Nessas unidades, o armamento continuou a ser o convencional, com a diferença de que a esquadra de combate passou a ser equipada com uma metralhadora ligeira fazendo o papel de fuzil-metralhador (a partir de 1934, a excelente MG34 passou a ser distribuída em grandes números). 

Pouco antes da guerra, as possibilidades das forças blindadas foram confirmadas na prática, em 12 de março de 1938, no rápido deslocamento para a ocupação da Áustria. Por volta dessa época, chegou a ser discutida a distribuição de submetralhadoras para todo o exército, em função de informações sobre o exército russo. Mas os métodos de atuação continuaram virtualmente os mesmos da guerra anterior, apesar de algumas modificações introduzidas em função da distribuição de metralhadoras ligeiras. Aí também interferiu a questão econômica. No início dos anos 1930, os estoques de carabinas KAR98K, herdadas da 1ª GM ainda eram enormes. Na confusão do pós-guerra anterior, quando a Alemanha não foi propriamente desarmada, depósitos militares tinham sido preservados pelas tropas francas que proliferaram pelo país. Em 1935, com a retomada da conscrição universal, o aumento repentino do tamanho do exército exigiu grande quantidade de equipamento individual. As armas herdadas da Grande Guerra foram distribuídas às tropas, e as fábricas continuaram a produzi-las utilizando tecnologia, gabaritos e ferramental já disponíveis. Muitos dos industriais e engenheiros alegavam que não haveria tempo para desenhar e colocar em produção uma nova arma-padrão. Estudos de um fuzil semi-automático foram postergados.

E o Exército não dispunha nem mesmo de grande quantidade de submetralhadoras. Essa arma tinha tido sua fabricação, em calibres superiores a 7.65, proibida pelo Tratado de Versalhes. O resultado é que uma variedade de tipos teve que ser adquirida para as tropas especializadas que necessitavam delas: Bergmans e Ermas do tipo das forças policiais foram encomendadas. Ainda assim, Departamento de Armamento do Exército (em alemão, Heeres Waffenamt- HWA), reestruturação do Departamento Nacional de Armamento (em alemão, Reichsswaffen Amt) resolveu que um novo modelo era necessário e lançou a requisição. A companhia Erfurter Maschinenfabrik (ERMA), fábrica de máquinas estabelecida em 1922, foi escolhida em 1936 para desenhar a nova arma. O resultado foi a Maschinepistole Modell 1936 – ou, simplesmente, MP36.

Essa arma, considerada pelos especialistas como um modelo de teste de conceito, era projeto do engenheiro Heinrich Vollmer, que, em 1925, apresentou para testes a Vollmer Maschinenpistole VMP 1925. Com o receptor colocado abaixo da caixa de culatra e o carregador em posição vertical, a VMP 1925 disparava apenas em modo automático, não tinha chave de segurança e sua alça de mira contava apenas três posições: branco, cem e duzentos metros. Embora a arma tenha sido reprovada nos testes, o IWG (Inspektion für Waffen und Gerät, Inspetoria para Armamentos e Equipamento, seção do RWA) resolveu apoiar o desenvolvimento do protótipo. 

Em 1926 Vollmer modificou o carregador de seu projeto, adotando um desenho de 30 cargas escalonadas, tipo caixa, que foi considerado muito fácil de usar. O receptor voltou à posição lateral, do lado esquerdo da caixa de culatra.  A nova versão foi designada VMP 1928 e Vollmer continuou trabalhando em seu desenvolvimento. Em 1930, uma nova versão foi apresentada, a VMP 1930.

Essa versão era externamente muito similar ao modelo anterior. A principal modificação era interna: um tubo telescópico que continha a mola recuperadora e a mantinha permanentemente ligada ao ferrolho. Essa peça aumentou a confiabilidade da arma, além de ter tornado mais fácil a desmontagem em campo, por diminuir o número de peças que a compunham, reduzidas a apenas quatro: cano e receptor, ferrolho e mola recuperadora, caixa de culatra e coronha. Foram fabricadas umas 400 VMP 1930 até que o IWG cortou o financiamento de Vollmer. Embora o Exército tenha alegado problemas técnicos não satisfatoriamente resolvidos (mais exatamente, uma cadência de fogo excessivamente alta), é mais provável que tenha sido mesmo a recessão de 1929, que, em 1930, atingiu duramente a Alemanha.

Vollmer não conseguiu recursos para fabricar a arma e acabou vendendo a patente para a ERMA em 1931. O projeto, ligeiramente modificado, virou a EMP (ERMA Maschinepistole), nos calibres 7.65X22 mm Luger, 7.63X25 Mauser e 9X19 mm Parabellum, e se tornou um sucesso de vendas. Tirante as inovações mecânicas, as EMP não eram diferentes das outras armas do tipo: o sistema era o recuo direto a partir da culatra aberta, o tiro era seletivo e a ergonomia, ainda a de fuzil. Em 1936, com a requisição do Exército, a ERMA apresentou uma  versão da EMP, redenhada pelo próprio Vollmer. A principal novidade foi uma mudança radical da ergonomia. O desenho da coronha de fuzil foi mudado para empunhadura de madeira dotada de um punho de pistola na extremidade. A coronha fixa foi substituída por uma peça feita em arame de aço, que podia ser rebatida em 180 graus, para baixo da caixa de culatra, sendo que a placa de apoio girava até ficar totalmente alojada atrás do receptor. Mesmo com muitas peças, como a caixa de culatra e o receptor, fabricadas em metal usinado, era um pouco mais leve do que suas antecessoras, devido ao redesenho.

O surgimento desse desenho pode ser creditado aos estudos dos planejadores das tropas motorizadas e dos pára-quedistas (fällschrimjägern),  e de requisições feitas diretamente ao HWA. Parece claro que o objetivo inicial com essa nova submetralhadora era dotar as novas tropas de uma arma adequada à doutrina. O Exército “comum” nunca mostrou interesse por armas longas automáticas, como já vimos. O novo desenho foi ainda pior recebido, pois a doutrina da infantaria convencional colocava que uma forte coronha de madeira era necessária não apenas em função do tiro, mas também, porque, em situação de combate próximo, essa poderia ser usada como porrete. Uma submetralhadora “de infantaria” teria, pois, de ter coronha convencional. O impasse só foi resolvido por Hitler, em pessoa. Ainda assim, o Exército não chegou a testar a arma, e poucos exemplares (calcula-se que não mais de 500 unidades) foram fabricados.  

Em 1938, o Departamento de Armamento do Exército lançou nova requisição para submetralhadora. A ERMA apresentou uma nova versão da MP36, com alguns detalhes redesenhados. A empunhadura passou a ser de baquelite (um tipo de resina sintética), o seletor de fogo foi eliminado e as peças de metal usinado foram simplificadas, o que resultou na mudança da posição do receptor – na MP36, este era ligeiramente inclinado para a frente. Em agosto de 1938, a arma foi aprovada e começou a ser distribuída quase imediatamente. Recebeu a notação *MP38. Com a coronha rebatida, media 63 centímetros de comprimento, sendo que 25,1 centímetros correspondiam ao cano; com a  coronha em posição, o comprimento total aumentava para 83 centímetros. O peso era de pouco mais de 4100 gramas. A cadência de fogo subia a 450-500 salvas por minuto, com uma velocidade de saída do projétil de aproximadamente 380 m/s. Isso tornava o alcance útil não maior do que 200 metros. A baixa cadência de fogo possibilitava uma precisão um pouco maior do que de modelos como a M1928 norte-americana (a Thompson), com cadência de 600 salvas – a MP38 sequer tinha compensador de boca. Também não possuía seletor de tiro, sendo somente possível disparar em rajadas. Essas características tornaram as miras graduáveis usadas até então totalmente inúteis, e essas foram substituida por um sistema de placas rebatíveis com uma fenda no centro, reguladas para distâncias de 100 e 200 metros, articuladas a um visor tipo *grão de centeio. A arma podia ser transportada pelo usuário em diversas posições, conforme as necessidades das forças motorizadas e aeroterrestres: tinha características estudadas para facilitar o uso em veículos motorizados, principalmente os transportes blindados meia-lagarta SdKfz 250/51, dotados de escotilhas laterais que permitiam o tiro em movimento. Abaixo do cano, logo atrás da boca, um ressalto foi projetado para manter o cano em posição, impedindo a arma de, quando utilizada por soldados embarcados, atirar para dentro da cabine do veículo.

Durante a campanha da Polônia, uma série de problemas da MP38 foram apontados. O pior era a tendência a disparar sem intervenção do atirador. Com um tranco relativamente fraco, mesmo se a alavanca de armar se encontrasse em posição de segurança, o ferrolho saltava da posição (um corte na parte superior traseira da caixa de culatra) e ia violentamente para a frente, fazendo o disparo. Esse problema foi corrigido com o redesenho da mola recuperadora (cuja tensão foi reduzida) e do percussor, mas principalmente com um novo dispositivo de segurança. Na MP38 (aqui, uma vista em corte da arma e de suas principais peças, que eram desmontadas em campo – “1° escalão de manutenção”) a alavanca de armar era fixa; na nova versão, passou a ser trancada pelo atirador na posição de segurança: na posição “culatra aberta” (o bloco de culatra puxado para trás), a alavanca era fixada no ressalto de segurança e rebatida para cima. Tinha de ser destrancada antes de ser colocada em posição “armada” (puxado o bloco totalmente para trás). A versão de transição, chamada de MP38/40, distribuída em 1940, recebeu esse dispositivo. Outro defeito era a mola do carregador. Feita em metal barato, rapidamente perdia a elasticidade, e fazia a arma travar, quando as 32 cargas eram colocadas lá. Os soldados contornavam o problema colocando apenas 30 ou 31 cartuchos (na *foto, granadeiro blindado com uma MP38 da versão original. Note que, para evitar disparo acidental, o soldado retirou o carregador da arma).

Mas o principal problema não era de operação: a fabricação era difícil e, sobretudo, muito cara. As peças usinadas eram difíceis de produzir e tornavam o tempo de fabricação e a razão homens/hora bastante altos. No início de 1940, visando a distribuição massiva, o Exército ordenou modificações no projeto e nos métodos de produção. Por volta dos meados daquele ano, uma nova arma começou a ser distribuída, externamente semelhante, porém menos dispendiosa e complexa de fabricar do que a anterior. Essa versão, considerada intermédia (MP38/40), serviu de base para a produção da versão definitiva, a *MP40.

A MP40 passou a usar largamente a estamparia em aço laminado de baixo nível de carbono, que permitia o uso de solda elétrica por pontos; muito pouco aço de liga de alta qualidade aparece em suas especificações, nas poucas peças usinadas que foram mantidas. A caixa de culatra e o receptor foram as principais peças modificadas, sendo que esta última passou a ser feita através do esticamento e recorte de uma folha de aço-carbono de 1,5 mm de espessura. Essas novas características permitiam que as peças pudessem ser fabricadas em pequenas metalúrgicas usando o método de prensagem. Este sistema permitiu a fabricação da arma em diferentes locais, por equipes menores de operários.

O desenho básico da MP40 não viria a sofrer modificações durante o resto da guerra. É hoje reconhecida pelos historiadores como a origem da segunda geração de submetralhadoras, e abriu uma tendência amplamente seguida mesmo pelos adversários.

A MP40 era, em geral, superior às armas semelhantes, como a Sten britânica e a PPSh41 soviética, embora esta tivesse como vantagem o carregador tipo “tambor”, de 71 cargas. O peso menor do cartucho 7.62 tornava possível a maior carga de munição. Tentando compensar essa desvantagem, em 1943 um carregador duplo foi apresentado pela fábrica austríaca Steyr, mas era canhestro e não chegou a aprovar. O fato é que, depois de 1941, as enormes quantidades de PPSh capturadas tornaram essa arma popular entre os soldados da Wehrmacht, que tendiam a utilizar as submetralhadoras soviéticas, embora essas não apresentassem nenhuma qualidade intrinsicamente superior à arma alemã.

Mais de um milhão de MP40 foram fabricadas durante a guerra, o que perfaz quase a metade dos dois milhões de submetralhadoras fabricadas pela Alemanha. Ainda assim, a distribuição nunca chegou a alcançar sequer o nível de um em cada dez efetivos. Geralmente a arma era distribuída a líderes de pelotão e graduados. Em algumas unidades motorizadas de elite, como as 1ª, 2ª e 3ª divisões blindadas Waffen SS (“SS Armadas”, uma espécie de SS militarizada, totalmente separada da estrutura da SS Geral), Panzer Lehr e Gross Deutschland, a quantidade de armas automáticas era substancialmente maior, mesmo assim sem alcançar todo o efetivo. 

Um dado curioso é o fato de que ingleses e norte-americanos se referiam à ERMA como “Schmeisser”, embora os irmãos engenheiros, projetistas de diversas armas usadas pela Wehrmacht nunca tenham estado envolvidos com o projeto ou suas adaptações. É possível que o equívoco se devesse ao fato de que algumas das primeiras MP38 de série tenham sido produzidos na Haenel, fábrica da qual Schmeisser era projetista chefe. Lá ele participou ativamente dos projetos da MP41 (uma submetralhadora que visava equipar tropas de infantaria) e do StuG44. O fato é que a origem dessa confusão, observada principalmente entre os norte-americanos, nunca chegou a ser esclarecida. Em diversas ocasiões, depoimentos de prisioneiros alemães mostravam que estes frequentemente se espantavam com a insistência, até mesmo dos oficiais dos EUA, em usar a nomenclatura errada::