Um rapaz (das Forças Especiais) às Segundas::

O rapaz é bem conhecido. Gostemos ou não, temos de admitir – um tremendo organizador (também… aprendeu com os melhores – os norte-americanos). Ao fundo, sua arma favorita: AKS74U, versão do AK74 distribuída ao exército russo a partir dos anos 1990, facilmente reconhecível pelo freio de boca. Foi desenhada especialmente para forças especiais, com o alcance notavelmente menor do que o das versões convencionais, devido ao encurtamento do cano, que, nessa versão, tem apenas 210 mm. O desempenho geral em distâncias maiores que 200 metros é pobre, e a arma chega a ser considerada, por algumas fontes especializadas, como uma submetralhadora.

A linhagem AK::Os sucessores do AK::

parte3Em meados dos anos 1960, por diferentes motivos, tanto os EUA quanto diversos de seus aliados da OTAN questionavam o uso do cartucho 7.62X51 mm NATO. O Exército dos EUA adotara, desde 1957, um fuzil automático para essa minição, o *Springfield M14 (um excelente artigo sobre essa arma, em português, aqui), de fato uma versão aperfeiçoada do M1 Garand da 2ª GM. Em termos de desempenho, o M14 era excelente. Em termos de desenho, era pesado e longo, ainda muito assemelhado aos desenhos da 2ª GM (conhecidos, nos EUA, pela designação “fuzil de combate” ou battle rifle – se você lê inglês, mais informações aqui). Mas não era o único problema. Outro motivo residia no fato de que a munição 7.62X51 NATO é bastante pesada. Um cartucho dessa munição pesa cerca de 20 gramas (9,50 para o projétil), o que significa que 20 cartuchos pesarão por volta de 400 gramas, além do peso do carregador. Nessas condições, um carregador tipo “caixa” dificilmente comportaria mais do que 20 cargas sem tornar a arma excessivamente pesada.  O número de carregadores que um soldado poderia transportar, em situação de combate seria, pois limitado. Além do mais, a munição 7.62 NATO era, por projeto, bastante potente, o que provocava um alcance útil de uns 600 metros, bem maior do que os estudos mostravam necessário. Desde meados dos anos 1950 norte-americanos e europeus estudavam um cartucho de menores dimensões e menor potência. No caso norte-americano, a experiência inicial no Vietnam acabou por selar a sorte do M14. Os AK47, AKM, e as diversas variantes do “Tipo 56” chinês surpreenderam de tal maneira os norte-americanos que, em 1969, já não haviam quase fuzis M14 entre a infantaria dos EUA na Indochina.

Os soviéticos, por sua vez, sentiam o mesmo problema. Embora o cartucho M1943 fosse um pouco mais leve (o projétil pesava por volta de 8 gramas) e menos potente que seu equivalente ocidental, ainda assim, era pesado e potente. Não que não tivesse qualidades, mas também tinha defeitos de projeto. O principal era o desenho, chamado de *“popa de barco” (uma tradução livre de boat-tail), que melhorava desempenho aerodinâmico e tornava a trajetória muito tensa. Essa característica, combinada à dureza do material de que era fabricado o projétil, uma liga de chumbo e açoa recoberta por uma jaqueta de cobre de razoável espessura, criava um inconveniente: em distância de tiroteio (50 até 300 metros), a trajetória dificilmente se alterava quando encontrava obstáculos de baixa dureza (como madeira ou o corpo humano). Isso significava que, frequentemente, os ferimentos provocados não eram incapacitantes. Ao contrário, em proporção muito alta o tratamento era fácil e permitia que a baixa rapidamente voltasse à linha de frente. No final dos anos 1950, os chineses fizeram algumas modificações no cartucho que o tornaram um pouco mais eficiente. O material do corpo do projétil passou a ser o aço-carbono (muito mais dúctil do que a liga original) recoberto por uma jaqueta de cobre de menor espessura. O sucesso da combinação da linhagem AK (a maior parte de origem chinesa) com a munição produzida na China e Vietnam do Norte (com padrões chineses) provocaram avaliações equivocadas por parte da inteligência norte-americana. Já os soviéticos fizeram, desde o final dos anos 1950, avaliações exaustivas baseadas na observação das manobras anuais do Pacto de Varsóvia e das atividades militares de países fora de sua esfera direta de influência, como a Crise de Suez e das guerras dos Seis Dias e do Yom Kippur).

Os exercícios anuais do Pacto de Varsóvia eram particularmente importantes para essas avaliações. Embora o Pacto nunca tivesse tido grande importância na estratégia militar geral soviética e servisse mais como instrumento de controle dos aliados e de política externa, as manobras permitiam que o desempenho das forças armadas tanto soviéticas quanto dos outros países membros fosse examinado. A partir do final dos anos 1950, os soviéticos passaram a treinar um único objetivo geral: a invasão dos países ocidentais. A importância atribuída ao movimento e à mecanização, que sempre fora grande, aumentou. Na primeira metade dos anos 1960 se desenvolveu de um novo tipo de guerra móvel, com ênfase no assalto blindado, em ambiente nuclear. A distribuição de novos tipos de APC (do inglês Armoured Personnel Carrier), destinados a entregar as esquadras de infantaria diretamente no ponto de combate demonstrou a necessidade de maior cadência de fogo e, portanto, maior capacidade de transporte individual de munição preparada.  Uma observação interessante retirada do Vietnam é que um combatente a pé conseguia transportar de 6 a 8 dos carregadores curvos do AK47/AKM (eram basicamente iguais, pesando por volta de 450 gramas, com 30 cargas) sem ter sua mobilidade comprometida. A nova doutrina previa combatentes atirando diretamente dos veículos, através de escotilhas, antes mesmo de desembarcar – quando iria precisar de mais munição.

Um novo cartucho vinha sendo estudado desde o início dos anos 1960. O desenvolvimento foi acelerado conforme se observava a tendência, entre as principais potências do Ocidente, da adoção do calibre .223 (Remington)/5.56 (NATO) – que vinha sendo introduzido paulatinamente desde o Vietnam. O novo projétil, cujo modelo definitivo entrou em produção apenas em 1974, já estava disponível, para testes de campo, por volta de 1967. Recebeu a notação M74, e aos poucos deveria substituir o M1943. Isso levaria, claro, alguns anos – até porque não havia arma para ele.

O novo cartucho tinha características bastante diversas do M1943. O projétil, totalmente jaquetado, é bastante leve, pesando cerca de 3,2 gramas. Manteve a filosofia boat-tail, feito de aço, com uma curta seção frontal de chumbo, recoberto por uma jaqueta de cobre. Entretanto, o conjunto não alcança a ponta da jaqueta, de modo que uma pequena quantidade de ar fica presa naquele ponto.

Trata-se de um desenho muito pouco usual. A deformação da ponta oca da jaqueta, provocada pelo impacto do projétil contra o alvo, em teoria, desbalanceia o conjunto e o faz mudar de direção enquanto percorre a seção de trajetória dentro do alvo. No caso do corpo humano, isso potencializaria a capacidade de provocar ferimentos graves. Essa teoria nunca foi exatamente provada, e, segundo estudos realizados nos EUA e Inglaterra, o projétil 5.45 não produz ferimentos maiores do que seu equivalente ocidental, o 5.56 mm. A carga de pólvora química alojada no estojo de 39 mm, redesenho do M1943, de menor diâmetro, teve de ser diminuída, e provocava, ao ser detonada, uma quantidade de energia mais baixa, mas suficiente para imprimir ao projétil uma velocidade inicial de 900 m/s ao deixar o cano de 41,5 cms, mantendo um alcance eficaz de 300 a 350 metros.

O fuzil desenhado para usar o novo cartucho começou a ser distribuído em 1974,  embora os estudos de projeto tivessem começado, segundo a maior parte das fontes, em meados dos anos 1960. Os testes começaram no fim da década, e, curiosamente, o mais convencional dentre os avaliados era exatamente o apresentado pelo bureau de Kalashnikov. O protótipo, denominado A-3 é, basicamente, um AKM redesenhado para utilizar o cartucho de potência intermediária. A explicação parece simples: embora outros bureaus de projetos tivessem apresentado protótipos bem inovadores, e um desses tivesse sido considerado muito bom – o AS-006 Konstantinov – o A-3, sendo cópia redesenhada do AKM, não criaria problemas de produção industrial e poderia utilizar o ferramental já existente. Também foi levado em conta que o funcionamento do fuzil já era bem conhecido entre os mais de 3 milhões de militares soviéticos.

Inicialmente, o AK-74 foi distribuído para utilização pela infantaria motorizada da União Soviética. O *sistema de operação por recuperação de gás é idêntico ao da geração anterior, inclusive nos detalhes do pistão recuperador, ferrolho rotativo e ausência de válvulas de sangramento de gás. Embora guarde um alto nível de comunalidade com os AK da geração anterior, no que tange às peças, o AK-74 apresenta modificações significativas com relação a seus antecessores. A primeira e mais notável é o peso: vazio, o modelo padrão tem exatos 3 quilos, que aumentam para 3, 4 depois de receber o carregador (feito em fibra de vidro de alto impacto, com uma estranha coloração marrom-avermelhada) com 30 cargas de munição. 

O cano, cujo interior é cromado, foi redesenhado, e o raiamento, devido ao calibre e potência da munição, modificado, embora o giro continue sendo para a direita. Em função da potência da munição, o freio de boca aumentou de tamanho. Apresenta duas frestas à frente de três orifícos laterais, posicionados de modo que o sangramento de gás atue para evitar que a arma corcoveie em demasia. Essa *peça, rosqueada na parte anterior do cano, também cumpre o papel de supressor de chama. O sistema de pontaria foi modificado, com o redesenho da alça de mira. Sob o cano, um sistema de suportes combinando alças duplas e um trilho simples permite a instalação de uma baioneta- padrão tipo 6H4 (semelhante à usada no AKM) e lança-granadas de 40 mm BG-15 (o mesmo usado no AKM) ou GP-25.

Nas primeiras versões, a coronha e empunhadura posterior (“de pistola”) eram feitas em fibra de vidro de alta resistência. Uma versão destinada à distribuição entre tropas aerotransportadas surgiu quase imediatamente: o *AKS-74. É um AK-74 com uma coronha dobrável, embora de desenho diferente da anterior de arame de aço. O objetivo seria facilitar o transporte em aeronaves e em condição de salto. Essa versão tornou-se muito popular entre a infantaria blindada: dentro dos então quase onipresentes *BTR-60 e *70, onde se acotovelam até 14 combatentes, além dos três tripulantes, há muito pouco espaço disponível.

No geral, o AK-74 cumpriu sua função. Extensivamente testado na desastrosa guerra do Afganistão, diversas versões foram surgindo, acrescentando detalhes que tornavam a arma mais versátil, como diversos tipos de adaptadores para visores noturnos, novos materiais (polímeros) para a coronha e as empunhaduras, e pequenos redesenhos no freio de boca. Em 1979 uma versão encurtada, o AK-74U começou a ser distribuída, visando cumprir o papel de submetralhadora (experiências similares foram feitas pelos norte-americanos no Vietnam). O encurtamento radical do cano, reduzido à metade (210 mm) criou diversos problemas de tiro e acabou obrigando um redesenho com alteração do regime de torção do raiamento (o número de voltas que o projétil faz dentro do cano). O desenho e posição da alça de mira também foram modificados, em função do encurtamento da arma e de seu alcance.

No início dos anos 1990, a versão final, denominada *AK-74M (de Modernizirovanniy ou “modernizado”) se tornou padrão no exército russo e das nações da Comunidade de Estados Independentes. Essa versão incorporou grande número de peças em polímero, inclusive uma coronha dobrável que se tornou padrão. Um pouco depois, uma série conhecida pelos especialistas como “centurial”, por incluir o números da série 100 na notação, foi lançada, destinada principalmente à exportação: os AK-101, AK-102, AK-103, AK-104 e AK-105. Adotam diversos calibres e têm conseguido boa penetração no mercado internacional. Por sinal, dentre as diabruras que fazem de *Hugo Chavez o espantalho favorido de nossa vibrante imprensa, uma das maiores foi adquirir 100.000 unidades da versão AK-103, que utiliza a munição M1943. Parte da compra deverá ser produzida em uma fábrica local (na foto, o travesso empunha um AK103 de fabricação russa).

Como se vê, a linhagem AK está longe de terminar e mesmo na Rússia, sua “pátria-mãe”, diversas outras armas têm surgido e sido sistematicamente recudas pelas forças armadas nacionais::

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::Um AK de ouro::

Na foto aquele que é, possivelmente, um dos AKs mais famosos, dentre os mais de 50 milhões fabricados (de fato, um AKS da primeira versão, o que se pode notar em função da ausência de freio de boca e de rebites na caixa da culatra): o AK de ouro de Saddam Hussein. Foi encontrado durante a operação Endurance Freedom, depositado num museu saqueado pelos militares norte-americanos, na capital iraquiana. Existem diversas explicações para a origem da arma: a mais plausível diz que teria sido presente dos soviéticos. Faz sentido: Saddam foi um dos melhores clientes dos armamentos oferecidos pela URSS. Na empunhadura dianteira da arma pode-se ver uma chapa de prata com as armas iraquianas e a inscrição “Ao senhor presidente da República do Iraque”. Na realidade o fuzil é folheado a ouro por processo eletroquímico, e não poderia ser de outra forma. O ouro não serve como material para armas de fogo, já que derrete em uma temperatura relativamente baixa. De fato, o ditador iraquiano parecia a-do-rar armas de ouro; foram tantas as encontradas lá que os americanos puderam até presentear seus aliados com algumas delas::

Cultura material militar::A linhagem AK::

No posto anterior, que abriu o assunto, vimos alguns detalhes sobre a história do fuzil de assalto AK-47. Opa! AK-47? Não. Nada disso. Esse é um dos erros mais comuns, no que diz respeito a notação do Avtomat Kalashnikova modelo 1947: de fato, as forças armadas e policiais da antiga URSS denominam a arma de AK, simplesmente, e acrescentam mais uma ou duas letras que designam os diversos modelos. Portanto, os (mais ou menos…) oito leitores de causa:: ficam proi-bi-dos de chamar essa venerável peça de engenharia militar de AK-47. Como chamá-la? Bom, veremos adiante, na parte 2::

parte2O fuzil automático de Kalashnikov, modelo 1947 foi adotado no ano de 1947 (quanta inteligência aqui do redator, hein?..). Entretanto, isso não significa que, seis meses depois de tomada a decisão, cada militar soviético estivesse com um deles à bandoleira. Nos 15 meses seguintes foram tomadas providências políticas, organizativas e industriais para que a arma começasse a ser fabricada em massa. A distribuição para as tropas só começou na primeira metade de 1949, e mesmo assim em números bastante modestos – claro, para os padrões da gigantesca máquina militar soviética de então. A produção iniciou-se na enorme Fábrica de Máquinas deIzhevsky, conhecida como  Izhmash (embora enfrentando sérios problemas financeiros, ainda uma das principais instalações industriais de fabricação de armas da Rússia), mas logo se espalhou por diversas outras instalações industriais nas repúblicas soviéticas e nos países da esfera de influência de Moscou.

Tecnicamamente falando, todas as armas da linhagem AK são fuzis de assalto de fogo seletivo, operados por recuperação de gás. É feito principalmente em aço estampado e usinado (o cano e certas partes do bloco de culatra) e madeira laminada (a coronha, o punho de pistola e a empunhadura do cano). Isso resulta num conjunto que, sem a munição, pesa, vazio, 4.300 gramas; introduzidas as 30 cargas de munição M1943, o peso da arma sobe para 4.875 gramas. O comprimento total do conjunto é de 87 centímetros, sendo que o cano ocupa 41,5 centímetros. O alcance efetivo (distância em que o projétil ainda conserva energia para penetrar obstáculos de alguma dureza) é de cerca de 800 metros (dada a velocidade de saída do projetil, de 715 m/s); o alcance útil é de uns 400 metros em modo semi-automático, caindo para 300 se o seletor estiver em modo automático. 

O princípio de operação de toda a família AK é a recuperação de gás (veja aqui um excelente corte do AK, mostrando as peças internas)- por sinal, o mesmo princípio usado pelo fuzil de assalto alemão StuG-44 (observe, nesta foto, detalhes do fuzil de assalto alemão). Como todo leitor de causa:: já sabe na ponta da língua, uma arma de fogo funciona pela expansão violenta de gás resultante da explosão de um propelente – pólvora química, no caso. A expansão do gás impulsiona o projétil, mas boa parte dela se perde no recuo da arma e no “sangramento”, ou seja na perda resultante da saída através dos espaços abertos da arma. As armas automáticas e semi-automáticas funcionam todas por princípios que aproveitam parte dessa energia para rearmar o sistema (coisa que, em armas de repetição, é feita pelo próprio atirador). No caso da “recuperação de gás”, parte desse, que acompanha o projétil até a boca, entra por uma válvula situada na seção superior do cano. Essa válvula dá acesso à um tubo onde se encontra instalado um pistão, ligado por uma haste ao bloco da culatra. O recuo do pistão empurra o conjunto do bloco para trás, e aciona uma peça chamada “ferrolho”. Trata-se de um bloco de aço que, parado, é mantido no lugar pela pressão de uma mola, e mantém a câmara vedada por estar firmemente justaposto às paredes da caixa de culatra (em inglês, essa parte da arma é chamada receiver). Ao ser empurrado, para trás, o ferrolho expõe a câmara da arma, e retira o cartucho vazio (por meio de uma peça chamada “extrator”), que é ejetado através de uma janela que se abre na caixa de culatra. Outra carga é “puxada” para dentro da câmara pelo movimento do bloco e com a ajuda de uma mola instalada no carregador, para então ser empurrada para a posição pelo movimento contrário do bloco, que outra vez veda a câmara (quando da explosão da carga, a vedação é implementada pela deformação das paredes do cartucho). No caso do AK, o pistão tem um curso longo (também é o caso do StuG-44), pois ao longo do percurso a pressão do gás diminuí e, por consequência, o impacto do recuo também, além de mitigar o desgaste das peças. Existem diversos métodos de funcionamento do ferrolho. No caso do AK, trata-se do “ferrolho rotativo”: como diz o nome, uma peça de metal com função de abrir e fechar a câmara. Quando essa peça recua, faz um giro parcial sobre seu eixo; no retorno, o giro se dá no sentido inverso. Os “ciclos de tiro”, ou seja, a  quantidade de vezes que o sistema repete esses movimentos, permitem uma cadência máxima (em condições de laboratório) de 600 salvas por minuto, em modo automático; em modo semi-automático, um bom atirador consegue disparar até 90 salvas por minuto.  Para selecionar  os modos de fogo, basta que o atirador modifique a posição de uma alça situada do lado direito da arma, exatamente acima do gatilho. Essa alça é uma das características mais interessantes do AK – foi redesenhada a partir de uma arma de origem norte-americana. o Remington modelo 8. Quando deslocada para cima, interrompe a trajetória da alavanca de armar (que prepara a arma para o tiro); quando abaixada, a alça libera a alavanca e torna-se o seletor de modo. A pontaria, por sua vez, é feita através de uma alça de mira regulável, graduada de 100 até 800 metros, instalada na parte anterior da caixa da culatra.

Diversas peças do mecanismo do AK, assim como o cano, são cromadas. Essa providência destina-se a diminuir o desgaste provocado pelo gás da explosão da carga, altamente corrosivo. A cromagem também aumenta a durabilidade do conjunto por diminuir a necessidade de manutenção do equipamento. Outro ponto que ajuda é a distância entre as peças, calculada para diminuir o atrito e permitir melhor lubrificação. Todas essas características dão ao AK uma espantosa capacidade de  funcionar em condições adversas: fala-se em armas que, no Vietnam, passavam seis meses sem ser limpas.

A primeira produção do AK encontrou diversos problemas, principalmente relativos aos processos industriais. A fabricação das peças da caixa de culatra revelou-se muito problemática. A peça principal, que constituía o corpo da caixa era estampada, feita em prensas hidraulicas de alta pressão. Algumas peças internas (guias e trilhos que colocavam e mantinham o conjunto ferrolho-extrator no lugar)  tinham de ser soldadas, e o processo resultava mal-acabado. Muitas armas do primeiro lote simplesmente não funciovam e eram rejeitadas. A decisão de interromper a produção seria antes de tudo política, de responsabilidade do Comissariado para a Defesa do Povo, e poderia ter sérias consequências. A opção foi continuar a produção, usando peças de metal usinadas, processo que se mostrou complicado e caro. Entretanto, os engenheiros do arsenal Izhmash (talvez com medo de acabarem no gulag), tiveram uma idéia brilhante: aproveitar os métodos e máquinas-ferramentas usados na fabricação da caixa de culatra dos fuzis de repetição Mosin-Nagant, que tinha semelhanças técnicas com as peças do AK. A idéia funcionou (sorte deles – ainda era a época de Stalin…), a produção do fuzil foi acelerada, mas a distribuição estava comprometida: só iria alcançar números razoáveis a partir de 1956. O peso do conjunto  também aumentou consideravelmente, dadas as diferenças estruturais entre peças estampadas e usinadas.

A versão standart do AK foi logo seguida por outra, de notação AKS, o “S” significando Skladnoy, ou “dobrável”). Era o mesmo AK, mas dotado de uma conhonha rebatível, feita em arame de aço, que se recolhia ao longo da caixa de culatra e empunhadura do cano. Essa versão, que pesava quese um quilo a menos do que a de coronha fixa, destinava-se à distribuição para tropas paraquedistas e motorizadas, e teve os mesmos problemas que a outra versão.

O desenvolvimento do AK e sua distribuição revelaram diversos problemas não apenas com a arma, mas com os processos de fabricação. A partir da modificação dos processos industriais, que resultaram na melhoria de desempenho e permitiram a distribuição em grandes números, novos aperfeiçoamentos foram sendo introduzidos. Os métodos que corrigiram os defeitos de fabricação dos primeiros lotes, foram simplificados, e marcaram o início do redesenho da arma, iniciado em 1957 e aceito em 1959, como AKM (o “m” significando modernizirovanniy ou “modernizado”).

A primeira e mais marcante modificação foi a adoção do processo de estamparia para a fabricação da caixa da culatra. Essa providência destinou-se a diminuir o peso do AK, e foi muito bem sucedida: o peso do conjunto diminuiu em quase 1 quilo. Entretanto, os desenhistas temiam que a resistência da caixa diminuisse, de modo que uma seção tubular cruzada, destinada a reforçar a resistência estrutural. O principal ganho da adoção da caixa de culatra estampada foi a possibilidade de instalar as peças de fixação da mola e do cano através de rebites, enquanto no AK essas peças eram aparafusadas. O aperfeiçoamento de processos de solda elétrica sob pressão permitiram a instalação precisa das guias do ferrolho/ejetor. Diversas outras medidas para economia de peso foram tomadas, utilizando-se, onde fosse possível, materiais mais leves e peças de menor espessura. A coronha também recebeu um compartimento oco, destinado a diminuir o peso do conjunto. Outra inovação foi um freio de boca, destinado a aumentar a estabilidade da arma no momento do tiro.

Fora essas diferenças, o AKM e o AK eram iguais, tanto é que diversas peças eram intercambiáveis. A nova versão do fuzil tinha todas as qualidades da anterior, e tinha tido a maioria dos defeitos resolvidos. O AKM tornou-se arma padrão das forças armadas e policiais da URSS e rapidamente começou a ser distribuído para os países aliados. No caso da China, então em ótimas relações com os soviéticos, os planos do AK foram repassados ainda em 1956, razão da arma ser lá conhecida como “Fuzil automático Tipo 56”. Não se sabe exatamente quantos “Tipo 56” foram fabricados na China, mas parte considérável deles foi exportada para países do Terceiro Mundo. A maioria dos AK que surpreenderam os combatentes norte-americanos no Vietnam eram de origem chinesa. Uma diferença marcante entre o AK e o “Tipo 56” era a baioneta, que diferia, entre o original russo e a cópia chinesa: nesta, o equipamento era fixo, sendo girado para trás quando não em uso. Os chineses também logo passaram a produzir o AKS, que recebeu a notação “Tipo 56-I” Em meados dos anos 60, os chineses começaram a fabricar (sem auxílio nem permissão dos russos) uma versão semelhante ao AKM, de notação “Tipo 56-1”. Os três tipos produzidos na China podem ser vistos aqui. Note que o do meio é um “Tipo 56” original, que se reconhece pela ausência do freio de boca.

Calcula-se que, entre todas as unidades e versões fabricadas, existam mais de 50 milhões de AK e AKM espalhados pelo mundo, o que significa que um em cada três fuzis de assalto existentes sejam Kalashnikov. A arma ainda está em pleno uso, e provavelmente continuará, ainda por muito tempo. A eficácia dessa peça de engenharia mecânica e militar já foi mais que comprovada, e a torna uma das mais importantes armas já projetadas e fabricadas, em qualquer época. O que não impediu que o tempo a tornasse ultrapassada. O problema talvez nem seja propriamente a arma em si, mas o calibre: o cartucho M1943, apesar de sua eficácia e confiabilidade, é pesado e, apesar das características, ainda muito potente. Por volta de meados dos anos 1960, os soviéticos já estavam trabalhando no desenvolvimento de um cartucho de menor calibre. Mas falaremos nisso na parte3::

Cultura material militar::A linhagem AK::

Retôrno em grande estilo da seção favorita dos oito leitores… E por grande estilo, grande estilo mesmo: apresentaremos e destrincharemos a linhagem AK. Uma linhagem de grande tradição: “AK”, nas últimas décadas, quase virou sinônimo para “fuzil de assalto”, mesmo para aqueles que não sabem direito o significa a notação (se bem que quase todo mundo que o redator conhece consegue pronunciar calaxinicóvi…). Trata-se de uma das armas portáteis mais produzidas da história (se não a mais produzida…) – o que não é pouca coisa. Como se não bastasse, tem presença em quase todos os conflitos modernos, sejam esses convencionais ou assimétricos. Querem mais? Cinqüenta países produzem ou produziram alguma versão da linhagem AK. Querem ainda mais? Pois leiam o artigo – em 3 partes para que a diversão dure mais tempo!::

parte1O AK-47 (notação de Avtomat Kalashnikova) é um fuzil de assalto de fogo seletivo, mecanismo acionado por recuperação de gás, originalmente utilizando o cartucho *M1943 (7.62X39 mm). Sua primeira versão surgiu em 1947, na antiga URSS, embora sua adoção como arma-padrão do Exército Vermelho tenha levado mais de dez anos para se completar.

O projeto dessa arma começou a ser desenvolvido em 1944. Os leitores de causa:: já sabem que foram os alemães os primeiros a, na metade final da 2a GM, desenvolver o conceito de “fuzil de assalto”. Rememorando: a idéia de base é que, na guerra moderna, as trocas de tiros acontecem em distâncias curtas, em geral não maiores que 300 ou 400 metros. Por outro lado, a automatização do tiro em distâncias curtas indicava que a precisão podia ser posta em segundo plano, visto que a “cadência de tiro” (a quantidade de projetis lançados pela arma a cada liberação do mecanismo) tornava-se fator compensador. O infante moderno, segundo estudos realizados em 1948, pelo Exército dos EUA, atirava em movimento, com a arma a altura da cintura. Assim, os cartuchos de armas longas então em uso, tais como o .30-06 (7.62X63 mm) norte-americano ou o Mauser 7.92X57 mm IS alemão, com alcance útil de 800 metros, seriam excessivamente potentes, não permitindo o disparo em rajadas, a não ser em armas bastante pesadas e canhestras, como era o caso do *fuzil-metralhador BAR. Os alemães buscaram desenvolver um fuzil que incorporasse certas características das submetralhadoras, em uso desde os anos 1920: capacidade de disparar rajadas, carregadores de 30 até 35 cargas, fogo seletivo e alcance útil de 200 a 300 metros. A solução encontrada pelos alemães foi diminuir a carga e conseqüentemente, o comprimento do estojo do cartucho Mauser, o que levou ao surgimento da versão Kurtz (essa história está bem contada aqui mesmo em causa::).

De fato, a ideía alemã não era totalmente original (pelo menos a parte que diz respeito à automatização da repetição do disparo…), e seus antecedentes remontavam ao período anterior à 1a GM, quando na Itália, no Canadá e na Rússia surgiram fuzis capazes de disparar em rajadas ou em salvas simples, a partir de carregadores com certa quantidade de cargas. É muito citado como o avô dos fuzis de assalto a arma projetada pelo major italiano Amerigo Cei-Rigotti, no final do século 19. Essa arma utilizava um cartucho de 6.5 mm, o Carcano, de de média potência, e foi a primeira conhecida a usar o princípio de recuperação de gás. Entretanto, o Cei-Rigotti apresentou, ao longo de seu desenvolvimento, diversos problemas que não chegaram a ser resolvidos. Na mesma época, o ateliê austríaco Mannlicher chegou a projetar uma carabina automática em torno do calibre experimental 7,65X32 mm, de fato redesenho de um cartucho de pistola. Essa arma não passou do estágio de projeto. Outra arma a antecipar o conceito foi o fuzil russo *Federov, surgido em 1916, que chegou a ser colocado em campo, embora em pequenas quantidades. Projetado usando o sistema de “recuo curto”, o Federov disparava o cartucho japonês Arisaka 6.5X50 mm, a partir de um carregador tipo “caixa”, de 20 cargas.  

Alguns especialistas costumam a alegar que essas armas não podem ser consideradas “fuzis de assalto” por não lançarem mão do “cartucho curto”. De certo esse é um forte argumento, mas algumas características do futuro conceito já se encontravam presentes, como, por exemplo, a estabilidade do tiro através da diminuição do recuo, razão para que essas armas utilizassem cartuchos menos potentes (ainda que não “curtos”). Debates aparte, é inegável que o SturmGewehr 44 foi o primeiro fuzil de assalto real, e um dos argumentos em torno do qual os pesquisadores concordam é que os altos números de produção alcançados (calcula-se que entre 500 e 600 mil unidades tenham deixado as fábricas, entre o último trimestre de 1944 e o fim da guerra) permitiram avaliação plena de combate e disseminação de princípios de utilização pelas pequenas frações de tropa (esquadras, pelotões e companhias). Os especialistas também concordam que o surgimento do StuG 44 teve forte impacto em todos os beligerantes, mas foram os soviéticos que os primeiros a avaliar as potencialidades dessa nova arma de infantaria.

Ao ponto de se ter criado a lenda que o AK é simplesmente de um clone da arma alemã. Não é bem por aí: o desenvolvimento do AK começou antes, e de forma independente, do StuG44 – ainda que o disparo do processo tenha sido influenciado pelo surgimento do conceito alemão. Mas a ampla distribuição de armas automáticas entre as tropas soviéticas, que datava de antes da invasão nazista, levou a uma série de experiências, no início de 1943, com cartuchos com de menor potência, tanto norte-americanos quanto alemães. Segundo fontes da época, o Conselho Técnico do Comissariado do Povo para o Armamento ficou seriamente impressionado com o desempenho de alguns fuzis alemães *Haenel MKb42, capturados quando se encontravam em testes de campo. Os testes feitos pelos soviéticos concluíram que o projétil ogival em cartucho “curto” tinha desempenho balístico incomparavelmente superior ao dos cartuchos de pistola utilizados por submetralhadoras, e perdia pouco, em performance, para os cartuchos convencionais de fuzil. Segundo o Conselho, era urgente desenvolver um cartucho de potência reduzida, desenvolvimento que começou naquele mesmo ano. Por volta do final do ano, surgiram proptótipos de munições que lançavam mão do projétil do cartucho 7,62X54R convencional (fabricado desde 1891), mas com um estojo encurtado para 39 mm, e com um diâmetro menor do que o do padrão Kurz alemão. Nesse ponto toda a bibliografia é concordante: a originalidade do cartucho M1943 soviético.

O StuG 44 e o AK são, de fato, fisicamente, muito parecidos. Não é estranho que as equipes soviéticas que trabalhavam no projeto tenham tido acesso a muitos exemplares dentre os capturados na fase final da guerra (fontes norte-americanas dão conta de aproximadamente 40.000 unidades aprisionadas sem uso, em depósitos da Wehrmacht situados na área de ocupação ocidental da Alemanha). Entretanto, o mecanismo das duas armas guarda diferenças notáveis.

O projetista do AK foi Mikhail Kalashnikov, um sargento das forças blindadas soviéticas, que, em 1943, se recuperava de um ferimento em combate. Durante seu período no hospital, Kalashnikov projetou uma submetralhadora que, embora submetida às instâncias especializadas do Exército Vermelho, foi recusada por ser considerada cara e difícil de construir. Ainda assim, as autoridades soviéticas (segundo a lenda…) se surpreenderam com a capacidade do jovem sargento, e o designaram para Centro de Pesquisas e Testes de Armas Leves e Morteiros do Exército Vermelho, perto de Moscou. Kalashnikov continuou por lá depois do fim da guerra, e concebeu um fuzil semi-automático que, embora não aceito, serviu de base para outro projeto, esse em torno de uma arma totalmente automática. Essa última,, surgida em 1946, já incorporava os principais elementos do que, posteriormente, seria o AK-47: recuperação operada a gás usando um pistão de trajeto curto, instalado sobre o cano, bloco de culatra com ferrolho rotativo, e receptor (a parte da arma onde ficam instalados os mecanismos do percurssor, seletor e bloco de culatra) dividido em duas partes.

A adoção do AK, entretanto, não aconteceu imadiatamente. O Exército Vermelho estava promovendo uma competição  em vista a adotar uma nova arma. A batalha de Berlim, nas duas últimas semanas de 1945 tinha produzido nos comandantes soviéticos impressão, suponhamos, desagradável: defensores alemães grandemente inferiorizados, em números absolutos, (por vezes de 12 para 1), conseguiram conter as tropas de assalto durante muito mais tempo que o esperado. A vantagem foi atribuída ao uso, então já dissemidado, do StuG 44 (além da qualidade inegável das armas anticarro alemãs, mas esta é outra história…). Os militares soviéticos, por outro lado, estavam às voltas com um problema: a requisição por uma nova arma tinha gerado, por volta de meados de 1944, pelo menos dez protótipos, além de outro tanto de carabinas semi-automáticas. Uma primeira seleção atribuía grandes qualidades ao fuzil automático *AS-44, desenhado pelo engenheiro Sudaev, que foi distribuído e extensivamente testado em condições de combate na fase final da guerra. A principal qualidade do AS-44, segundo os relatórios de campo, era a precisão, quando em fogo semi-automático, muito maior do que a da submetralhadora PPSh. Por outro lado, os infantes soviéticos se viram às voltas com uma geringonça que, sem a munição, pesava mais de cinco quilos, além de ser muito difícil de transportar (os soldados alemães faziam a mesma reclamação, embora o StuG pesasse bem menos). Este motivo, segundo registros de arquivos examinados recentemente, foi o principal motivo para a recusa do AS-44, apesar dos relatórios favoráveis. A questão é que o AS tinha sido desenhado em torno do cartucho 7.62x41mm desenvolvido em 1943, na mesma época em que havia surgido o cartucho M1943. Esse cartucho, com um projetil ogival pesando oito gramas, exigia uma carga de pólvora química maior. Essa carga suplementar implicava em um estojo de latão mais comprido e de paredes mais espessas, o que, no fim das contas, tornava o conjunto de carregador mais 30 cargas consideravelmente mais pesado. A potência da munição acabava exigindo bloco de culatra mais resistente, o que implicava em mais peso, daí…  

A fase final da guerra deixou tudo em suspenso. Uma nova competição foi organizada em meados de 1946, e então o birô Kalashnikov apresentou um novo desenho: tratava-se de uma arma de operação a gás, cujo mecanismo de culatra era similar aquele apresentado em 1944. A arma incorporava uma característica aparentemente copiada dos fuzis de assalto alemães: o carregador curvo de 30 cargas. Os dois modelos apresentados, que receberam as notações AK-1 e *AK-2).

As duas armas se saíram muito bem nos testes, junto com outros desenhos. No final do ano, um dos assistentes de Kalashnikov propôs que algumas características da arma fossem repensadas, de forma a melhorar a confiabilidade do conjunto. Kalashnikov não gostou da idéia, e achava que dificilmente seu fuzil poderia ser melhorado. Ainda assim, aceitou as propostas formuladas por sua equipe e uma nova versão da arma surgiu, com a notação *AK-47. Esta se mostrou, de fato, mais simples e fácil de manter, em condições de campanha. Em 1949, após testes extensivos que tomaram todo o ano anterior, foi adotada oficialmente pelo Exército Vermelho. Isso não significa que, seis meses depois, cada infante soviético estivesse com um AK à bandoleira. Afinal, fazia menos de dois anos que a guerra tinha terminado e os estoques de armas remanescentes, notadamente as quase onipresentes PPSh, eram gigantescos::

Cultura material militar::As primeiras armas de fogo da infantaria::

As armas portáteis surgiram quase ao mesmo tempo que os primeiros canhões. Mas “portátil” era apenas maneira de dizer: lá pelo ano 1300 da era cristã, eram, de fato, pequenos canhões fixados na ponta de um forte bastão de madeira ou de ferro, que podiam ser transportados de um lado para outro com maior facilidade, principalmente nas muralhas dos castelos – tanto que aparecem, com freqüência, denominadas “canhões de muralha” ou “de parapeito”.

 De resto, não diferiam muito dos outros canhões:  carregados pela boca (de “antecarga”, no jargão dos especialistas), o interior do tubo era liso, o que tornava o tiro muito pouco preciso. A carga de pólvora era socada no interior do tubo, e sobre ela colocada um bucha de estopa, que se destinava a potencializar a explosão. Essas primitivas armas de fogo tinham um orifício perfurado na extremidade posterior, chamado “luz”, através do qual eram despejada certa quantidade de pólvora e, no momento do disparo, pressionado um bastão aceso, que incendiava a pólvora e iniciava a explosão. Com uma dose de sorte, o jato de gás lançava a bala – inicialmente feita de pedra e, pouco depois, de metal – na direção do alvo. Após o disparo, era necessário esperar certo tempo para que o interior do tubo esfriasse. Em função da baixa qualidade de pólvora, os tubos precisavam ser constantemente limpos, o que tinha de acontecer após no máximo uns dez disparos.

A partir de meados do século 15 começaram a surgir, na Europa Central, armas menores, mais leves, de antecarga, cujos longos canos de metal forjado eram fixados sobre uma armação de madeira.  O sistema de disparo, chamado “fecho”, surgiu conforme o tamanho e o peso da arma diminuíram o suficiente para permitir que o tiro fosse realizado a partir do ombro o atirador. Este tinha de “mirar” (em português, esse verbo vem do espanhol mirar, ou seja “olhar”) o alvo pressionando o rosto contra a extremidade anterior da armação de madeira sobre a qual o cano era fixado, ao mesmo tempo que pressionava o bastão incandescente no interior da “luz”. Essa armação de madeira tinha, inicialmente, forma semelhante a de uma bengala, com um gancho na extremidade posterior, em alemão hake. Sobre essa armação era montado o canhão, büchse. A contração das palavras deu origem ao substantivo hakenbüchse, que passou ao francês antigo como haquebuse, depois arquebuse, e se tornou a portuguesa “arcabuz” (em inglês, arquebus ou harkbus). Esses “canhões de arco” foram as primeiras armas de fogo realmente portáteis. Com o tempo, modificariam o campo de batalha de forma irreversível.

Arcabuz centro europeu (Suhl, atual Alemanha Central), final do século 16. O fecho de mecha é acionado por gatilho.

Tratava-se de uma arma baixa velocidade de boca, utilizada contra tropas equipadas com sistemas de proteção individual chamados “armaduras de infante”. Esse tipo de proteção, uma armadura mais leve e delgada, feita de aço e couro, começou a se tornar comum nos campos de batalha por volta do início do século 15. Beneficiando-se de novas técnicas de metalurgia e novas ligas de metal, esse tipo de armadura era totalmente capaz de parar um tiro de arcabuz, desde que a distância não fosse pequena. Nessa distância, a arma de fogo penetrava até mesmo as armaduras da cavalaria pesada, que, nessa época, já estava em decadência. O resultado foi que a armadura pesada (chamada “de placas”, pois cobria inteiramente o corpo do cavaleiro com placas de metal) começou a ser abandonada, tanto pela cavalaria quanto pela infantaria, até que, no final do século 17, quase não se viam mais armaduras em campo.

Essas primeiras armas de fogo ainda tinham muitas limitações. O mecanismo de disparo, o “fecho” (em inglês lock), era composto por uma peça em formato de “S” (por esse motivo chamada de “serpentina”) fixada na armação de madeira porum eixo móvel. Movida pelo atirador, essa peça aproximava a mecha (match) da luz. Uma novidade introduzida no final do século 14 era um ressalto, semelhante a uma pequena pia, que envolvia a “luz”. Essa peça passou a ser chamada de “caçoleta” (em inglês, flashpan). Dentro era colocada uma quantidade de pólvora chamada “escorva”. A mecha, nessas armas, era literalmente um pavio de algodão embebido em alguma substância de queima lenta que, por isso, não apagava, mas era suscetível à chuva e à umidade, além de, por motivos óbvios, ser muito visível à noite – situações que podiam deixar o atirador na mão. Além do mais, o choque da peça que mantinha o pavio no lugar com a “luz” geralmente apagava a brasa, que tinha de ser novamente acendida após o tiro. Em meados do século 15, sistemas de molas e travas passaram a permitir que um simples toque de dedo (bem, não tão simples – a coisa era muito dura) acionasse a peça e colocasse no lugar.

Pistola de origem singalesa, século 18. O fecho de mecha é perfeitamente visível, inclusive com a mecha em posição.

Esse aperfeiçoamento facilitou a pontaria da arma, uma vez que diminuiu o número de movimentos necessários para o disparo: o atirador não tinha mais de mover o braço. A caçoleta também acabou afetada pelo novo sistema: por volta do final do século 16, começaram a ser introduzidos nas armas uma espécie de “tampa” que mantinha a pólvora isolada da brasa até o momento do disparo. Conforme o atirador acionava o gatilho, a serpentina , liberada, era lançada para frente. A pancada empurrava a tampa e expunha a escorva. Essa foi a origem do “fecho de pressão” (snaplock), que seria aperfeiçoado e se manteria como processo dominante ao longo de mais de três séculos.

O problema é que levava um instante entre a ignição da escorva e a ignição da carga de pólvora no interior do cano. Esse intervalo de tempo comprometia a precisão do tiro e condicionava a tática, que, a partir do século 16, buscava a concentração de fogo. Levaria certo tempo para ser resolvido.

A partir de meados do século 16, começaram a aparecer novos mecanismos de fecho. O “fecho de rodete”, um mecanismo semelhante ao dos modernos isqueiros, mas muito mais complexo, foi um deles, e é notável. Um mecanismo de corda acionado pelo atiraador tracionava uma mola presa a uma roda de superfície áspera, na lateral da arma. Sobre a roda, uma pedra de pirita fixada em uma braçadeira móvel (que passou a ser chamada de “cão”, ou, em inglês, cock – “galo”talvez devido ao formato) era mantida sobre a roda, sem tocá-la. Quando o atirador acionava o gatilho, a roda começava a girar ao mesmo tempo que a braçadeira se soltava, colocando a pedra de pirita numa distância suficiente para ser friccionada pela roda. As fagulhas resultantes incendiavam a escorva e faziam a arma disparar. O sistema era eficaz, embora difícil de fazer, caro e muito sujeito a defeitos. Chegou a ser distribuído para tropas de cavalaria, ao longo do século 17, pois podia ser facilmente operado sobre um cavalo. Mas era uma arma de luxo, de fabricação cara e demorada.

Pistola alemã de fecho de rodete, provavelmente do final do século 16, estilo de arma de cavalaria (notável pelo desenho da coronha). Os detalhes do mecanismo são bem visiveis, embora a pedra de pirita não esteja no lugar.

O fecho de rodete, embora não tivesse tido vida longa, deu início a uma inovação que seria marcante: o uso da pederneira. Isso significa, genericamente, a utilização de uma pedra para gerar faíscas. De fato, o sistema de rodete não era verdadeiramente “de pederneira”, apesar de utilizar o princípio da fricção para gerar faíscas. Os sistemas de pederneira verdadeiros utilizavam o princípio do “fecho de pressão” (snaplock): o cão, que passou a ter forma de “meio S”, era mantido em posição após ser puxado para trás pelo atirador, por um sistema de molas e trava. Ficava preso ao “gatilho” (do espanhol gatillo – “pescoço longo”; em inglês, trigger), e quando este era pressionado, solvava uma mola de pressão que o lançava violentamente para frente. O resultado desse movimento era o choque com uma peça vertical, de metal rugoso, que integrava-se à tampa da caçoleta. Uma pedra presa ao cão produzia fagulhas, que incendiavam a escorva. Esse sistema começou a aparecer por volta de meados do século 16. O desenvolvimento iria levar algum tempo, e podemos dividi-lo em três sistemas distintos: chenapan, miquelete e flintlock. Todos utilizam o “fecho de pressão” e uma pedra de pederneira (silex pirômaco – em inglês, flint) para produzir as faíscas. Esses sim, são “de pederneira”.

O sistema chenapan foi o primeiro a surgir. A palavra chenapan, usada na Espanha, Itália e França, é uma variação de snaphance, que, segundo é aceito pela maioria dos especialistas, deriva do alemão schnapphahn, “galo bicador”. O funcionamento segue, com variações de desenho, o processo do “fecho de pressão”. As peças do sistema são mantidas no lugar por molas de pressão que ficam encaixadas no interior do fecho. A versão miquelete é basicamente igual, mas o mecanismo de molas ficava na parte exterior do fecho. O miquelete apareceu na Espanha, no final do século 16.

No final do século 16, a maioria dos exércitos nacionais e das forças armadas autorizadas estavam dotadas parcialmente com armas do tipo descrito acima. Embora centenas de variações sejam descritas, a partir de bibliografia e de artefatos conservados em museus, o sistema se manteria suas características básicas até a primeira metade do século 19.

O fecho de pederneira (flintlock, em inglês) propriamente dito, guarda semelhanças com os dois sistemas descritos acima. O aperfeiçoamento mais notável era no desenho da chapa seladora da caçoleta, que se tornou menor e mais eficiente na função de isolar a escorva do exterior. Esse novo desenho, característico dos mosquetes Brown Bess do exército inglês e do Charleville francês, evitava a perda de pólvora quando a arma estivesse em movimento.

Armas de pederneira eram geralmente de antecarga, embora, ao longo dos séculos 17 e 18 tenham surgido exemplares carregados pela culatra (de “retrocarga”). O baixo nível das técnicas metalúrgicas e de forjaria, entretanto, tornava a vedação da câmara um problema de difícil solução, tornando o tiro ainda mais ineficaz. Outro problema era a imprecisão. As armas disparavam projetis redondos, feitos de uma liga de chumbo e estanho. O alcance era pequeno, algo da ordem de 400 metros. Os problemas eram diversos, a começar pela baixa potência da pólvora negra. Os canos de alma lisa tornavam a trajetória imprevisível, com uma tendência à deflecção. Essas duas ordens de problemas só seriam resolvidas com a introdução de pólvoras químicas, que explodiam mais rapidamente e de forma mais estável. A estabilidade da trajetória já tinha uma solução proposta desde o final do século 15 – o raiamento do cano. A idéia parece que já tinha ocorrido a diversos armeiros centro-europeus, mas, outra vez, as técnicas de metalurgia tornavam o processo complicado e caro. Tudo isso teria de esperar até que a segunda fase da Revolução Industrial revolucionasse a indústria::

Um rapaz (das Forças Especiais)às Terças::Forças Especiais do Exército Brasileiro::

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Integrantes do 1 ° Batalhão de Forças Especiais do Exército Brasileiro. Em primeiro plano, um atirador de escol, vestindo “traje Ghillie“, carrega um Fuzil M964 7,62 dotado de mira telescópica OIP Belgio 3X6 (p´ra lá de obsoleta…).  Em segundo plano, elementos de Forças de infiltração portam o modelo-padrão. O FAL é uma boa arma para atiradores de escol (snipers, em inglês), devido à potência do cartucho e ao peso da arma, que a torna bastante estável durante o disparo. Como disse o leitor “Anônimo”, um dos famosos sete (contadinhos…) os “cabôco”  usam o padrão chamado Ragged Leaf Lizard Pattern, disruptivo de três cores: verde-escuro e castanho sobre fundo verde-claro. Apesar do nome (também aparece como Brazilian Army Lizard Pattern, segundo a terminologia adotada pelo International Camouflage Pattern Index), esse padrão foi desenvolvido por aqui mesmo, nos anos 1980, baseado no padrão M63 usado na Africa pelo exército colonial português. É considerado excelente para combate em ambiente tropical. Esses uniformes deixam no leigo incauto (como boa parte dos jornalistas da imprensa diária…) a impressão de desbotados, o que indicaria a indigência em que vivem as FA nacionais. É apenas parcialmente correto, e vale esclarecer que a aparência é proposital. O padrão busca inclusive simular o brilho provocado pelo excesso de luz característico das regiões equatoriais::

Cultura Material militar::A linhagem FAL::Parte 3::O FAL no Brasil

Faz alguns meses, publicamos uma série de posts denominada “A linhagem FAL“. Como tantas outras séries aqui no blogue das boas causas, essa também acabou atropelada por outros assuntos que então pareceram, ao redator um tanto atabalhoado, mais momentosos. Como a próxima semana será pesada, e o redator não terá tanto tempo disponível para divertir seus sete leitores (contadinhos…) quanto gostaria, segue a 3a parte, revista e ampliada. Por sinal, causa:: declara, com satisfação, que contou com a preciosa ajuda do historiador militar Adler Homero Castro e do coronel (QEMA-R1) José Paulo Lopes Lima. A maior parte das informações me foram repassadas por esses dois cientistas, porque faltam, em nosso país, fontes públicas confiáveis sobre a história e dinâmica de nossas Forças Armadas.  Podem agradecer, então, aos dois…::

PARTE3Em 1960, o Exército Brasileiro era uma força relativamente grande. Sua ordem de batalha podia colocar em campo uns 140.000 efetivos, dos quais talvez uns 40.000 pudessem ser considerados – por padrões algo lenientes… – tropas de primeira linha. No final dos anos 1950,  a força terrestre brasileira podia alinhar algo como um corpo blindado – uma divisão blindada e duas de infantaria motorizada, uma divisão convencional de cavalaria (com cavalos, acreditem ou não…) e cinco divisões de infantaria.

Desde a 2a GM, a intensa relação com o exército dos EUA tinha moldado o Exército Brasileiro à imagem do norte-americano.  As doutrinas francesas foram definitivamente abandonadas, e  a instrução era feita, em grande parte, por militares dos EUA, que ensinavam a seus colegas brasileiros as novas práticas desenvolvidas durante a 2a GM e, logo depois, na Guerra da Coréia. Entretanto, certas práticas norte-americanas eram de difícil assimilação em um país pobre e pouco industrializado.  

O armamento com que o Exército Brasileiro contava em seu inventário passou, em conseqüência da 2a GM, por um notável salto tecnológico. Entretanto, em termos de armamento individual o principal item do EB em 1945 era o fuzil de carregamento manual Mauser DWM calibre 7X57 mm, o “Mauser brasileiro“. A aquisição dessa arma se deu em 1908, em números que, segundo alguns especialistas, alcançavam 600.000 unidades  – o que é muito curioso, pois seria quantidade suficiente para dotar cada oficial, graduado e soldado com quatro ou cinco armas, e ainda sobrar um montão… Claro que, em tal volume, essas armas, mesmo depois de obsoletas, equiparam as tropas durante muito tempo. Assim, o jeito era tentar, vez por outra, modernizar o tal “mauser brasileiro” com pequenas modificações físicas. Por exemplo, em 1934, a arma foi encurtada para se equiparar à uma “carabina”, ou seja, uma arma geralmente disponível para as tropas de cavalaria. No jargão do Exército Brasileiro, esse item é denominada “mosquetão”, e tem o comprimento de cerca de 100 centímetros, enquanto o fuzil teria cerca de 120 centímetros.

Mas modernizações cosméticas não fazem milagres, e problema era que o calibre 7X57 mm se tornou obsoleto para uso militar antes da 2a GM. Assim, em diversos momentos, essas armas passaram por adaptações em arsenais nacionais para utilizar cartuchos mais modernos. Quando a FEB chegou à Itália, o armamento que seus efetivos receberam era padronizado com o dos norte-americanos, de modo que a arma distribuída aos pracinhas foi o US Rifle M903, calibre .30-06 (7,62X63 mm) Springfield. Isso teve conseqüências duradouras: depois da guerra, boa parte do armamento de infantaria disponível para o Exército Brasileiro usava calibres norte-americanos. O BAR (Browning Automatic Rifle, uma espécie de metralhadora ligeira usada como apoio da esquadra de infantaria), alguns rifles Springfield e *Garand e a metralhadora ligeira Browning M919, a pistola Colt M911, as submetralhadoras M3 e INA usavam, os primeiros, o calibres 7,62X63 mm e os três últimos, o .45 ACP. Essa munição passou a ser fabricada no país nos anos 1950.

Em função dessa disponibilidade de armamento norte-americano, no final dos anos 1940 houve uma tentativa de tornar o calibre .30-06 padrão das forças militares brasileiras. O resultado foi um mosquetão, baseado no “mauser brasileiro”, distribuído em pequenas quantidades a partir de 1949. Em 1951, nova tentativa geraria uma arma não muito diferente – ambas as experiências foram feitas no Arsenal de Itajubá, Minas Gerais. Mas ainda não era o que o Exército pretendia. Nessa época, já era evidente a tendência mundial para a adoção de armas automáticas e semi-automáticas. O acaso então entrou no jogo – só não se pode dizer se contra ou a favor do Brasil.

Por sinal, o acaso começou a conspirar no segundo semestre de 1945, quando a FEB voltou ao Brasil. Embora a tropa brasileira tenha deixado para trás todo seu equipamento, pôde conservar certa quantidade de canhões alemães e italianos de diversos tipos, várias peças de equipamento de campanha de nossos adversários, os arquivos da FEB e alguns documentos alemães e italianos. O item mais numeroso trazido para o Brasil eram armas portáteis capturadas aos alemães e seus aliados. Não se sabe exatamente quantas vieram, mas calcula-se um número de alguns milhares. Muitos desses itens eram exemplares do que os alemães tinham de mais moderno, inclusive os fuzis automáticos MP42 e StuG44 (que seriam a origem dos fuzis de assalto) e metralhadoras de uso geral MG42 (a “Lurdinha”). Também haviam alguns exemplares das duas versões do Gewehr 43 (Mauser e Walther), uma tentativa frustrada dos alemães em criar um fuzil semelhante ao Garand norte-americano.

As armas alemães foram examinadas pelas áreas técnicas do Exército e, em 1952, o arsenal de Itajubá recebeu ordens de fazer uma cópia do G43(M), o exemplar que, durante a guerra, tinha sido apresentado pelo escritório Mauser, de Berlim. O produto resultante, considerado por todos que o examinaram como extremamente tosco, foi denominado “Mosquetão M954”. Era um G43(M) adaptado para usar o cartucho Springfield.

Não se sabe exatamente porque as autoridades locais resolveram que copiar o G43(M) era uma boa idéia. Alguns pesquisadores especializados (que, no Brasil, são poucos, muito poucos) acreditam que dois fatores tenham se combinado para gerar o equívoco: a existência, em Itajubá, de máquinas-ferramentas de origem alemã, adquiridas em 1934, um, e dois, o fato de que a patente do G43(M) tinha perdido a validade, por ser este uma arma militar – as de armas civis e de polícia continuaram valendo. Outro fato relevante é que, embora faltasse Garand, em função da Guerra da Coréia, outras armas “calibre pontotrinta” foram generosamente distribuídas: o BAR, a metralhadora M1919 e boa quantidade de fuzis M903. Assim, era natural que a tentativa de uma arma indígena visasse o cartucho .30-06 (cuja patente fora cedida ao Exército a preço de banana), e que essa arma tentasse adaptar um Mauser, com o qual os militares brasileiros tinham intimidade de mais de 40 anos.

O terceiro e mais relevante ponto do equívoco: nessa época, as principais autoridades, aqui, acompanhavam o debate sobre o novo calibre de armas de infantaria, que se travava na Europa e nos EUA. A doutrina norte-americana, amplamente repassada aqui, privilegiava a concentração de fogo, de modo que, era esperado, os EUA acabariam mantendo a tradição de um cartucho mais potente. O que os militares brasileiros não sabiam é que o M1 era considerado excelente, mas, por volta de meados dos anos 1950 o insucesso das tentativas em torná-lo totalmente automático apontavam para sua substituição. Na Europa, a tendência era pela adoção do cartucho 7.62X51 NATO, e os europeus insistiam que toda a munição usada em armas de infantaria fosse padronizada. O resultado do debate – que foi uma disputa política – foi a adoção de uma versão do FN-FAL pela Inglaterra e Canadá e do Heckler-Koch G3 pela nova Bundeswehr. Os norte-americanos concordaram, afinal, em adotar o 7.62 NATO, desde que numa arma de desenho local – que foi o M14. Este era um produto excelente, mas que teve vida curta, atropelado pelo encontro, no Vietnam, com os fuzis de assalto AK47.  

Segundo Adler Homero Castro, talvez o maior pesquisador brasileiro no tema “cultura material militar”, o Exército Brasileiro sempre teve o azar de tomar decisões cruciais quando no contrapé. O caso  do calibre Springfield foi uma dessas decisões, e o Exército acabou ultrapassado pelo debate sobre as novas armas de infantaria. Ao que parece, as questões de política interna também contribuíram para engrossar o caldo. No final dos anos 1950, a Marinha, já envolvida na disputa pelo controle da aviação naval, adquiriu, sem consulta prévia às autoridades superiores (se é que havia alguma…), dois lotes de M14 e certa quantidade de munição. As armas deveriam equipar o Corpo de Fuzileiros Navais – que já contava com o Garand em seu inventário. É possível que o Exército, não querendo ter sua própria “disputa fraterna” com a Marinha, tenha sido compelido a decidir, de uma hora para outra, pela aquisição de um “pacote completo” de armamanto individual. A tendência mundial era, então, o 7.62X51 NATO – então esse acabou prevalecendo. A empresa belga FN Herstal, dona da patente, antecipou-se à concorrência e ofereceu a licença para a fabricação local de seu desenho. A contrapartida era o fornecimento do ferramental e o respeito ao projeto do fuzil. À primeira vista, parecia “mamão com açúcar”: uma arma moderna, de graça e sem necessidade de investimento em pesquisa; na prática, a longo prazo as forças armadas brasileiras se viram atreladas às decisões de um fornecedor externo.

Embora não existam ainda provas conclusivas, parece que a decisão belga foi motivada pelo exame, pelos militares brasileiros, do Heckler-Koch G3, fabricado na Alemanha com base no desenho espanhol CETME – era outro 7.62 NATO. Pouco depois (no início dos anos 1970) o HK acabou adquirido pela Aeronáutica, para sua infantaria de guarda. O fato de que, num espaço de uma década, três modelos de armamento tenham sido adquiridos no mínimo indica certa falta de planejamento no que diz respeito à questões de defesa, em nosso país.

Em 1967, a chegada dos novos fuzis automáticos, em números que alcançavam 30.000 exemplares, entre os primeiro (diretamente importado) e segundo (fabricado em Itajubá) lotes já tinha se completado. Foi então tomada uma decisão surpreendente: o Exército resolveu converter uns 10.000 Mauser 7X57 miliímetros em uma arma aparentada com o FAL, só que numa versão de carregamento manual. Essa nova arma, destinada ao treinamento de recrutas, foi denominada “Mosquetão M968 7.62“. O cano foi substitúído por uma versão idêntica à do FAL e a câmara, adaptada para o novo calibre. O conjunto era um pouco mais leve, tinha o cano mais curto e a alavanca de manejo, recurvada. O modelo foi fábricado em Itajubá e distribuído entre as unidades consideradas “de segunda linha”. O “Mosquefal”  empregava munição(inclusive granadas de bocal e munição especial para atiradores de escol), baioneta e material de manutenção de primeiro escalão iguais às do M964 (notação do FAL brasileiro). A arma era destinada ao adestramento básico de fuzileiros da infantaria, e também foi distribuída pelas polícias militares em todo o país.

No Brasil, o FAL gerou toda uma linhagem industrial. A atual IMBEL – empresa de economia mista pertencente ao Ministério da Defesa – fabricou três modelos da arma: o Fuzil Automático Leve (FAL), o Fuzil Automático Pesado (FAP – uma versão dotada de bipé, que só dispara em modo automático) – e a versão “Para-FAL”, com coronha rebatível, e cano encurtado, para emprego de unidades aerotransportadas, de selva e de forças especiais. A produção local começou no início de 1965 e continuou até 1983, subindo a mais de 200.000 unidades deste fuzil. Em 1997 foi apresentada uma versão local, denominada “MD97“, adaptada ao calibre 5.45 NATO. Hoje em dia, calcula-se que, entre todas as versões, as forças armadas e forças policiais brasileiras tenham por volta de 400.000 FAL em seus estoques – o que é uma quantidade surpreendentemente pequena, considerando que essas forças sobem – se computada a reserva de emprego imediato (reservistas com menos de cinco anos de baixa, sexo masculino e idade até 34 anos) – a mais de um milhão de efetivos::

O redator insiste: só parece guerra, mas não é – é incúria geral, mesmo::

PARA gáudio da imprensa diária carioca e brasileira, o “crime organizado” dos morros da Cidade Maravilhosa conseguiu, afinal “derrubar um helicópetero”. Um AS350B2 do Grupo Aéreo e Marítmo da Polícia Militar do Rio de Janeiro foi abatido no sábado com um tiro, provavelmente de arma automática. De lamentável, principalmente a morte de dois policiais militares. A comemorar, o sangue-frio, espírito de sacrifício e (last but not least – ou sera o contrário?..) treinamento de primeira, demonstrados pelo piloto, que conseguiu evitar uma tragédia ainda maior, que seria a queda da aeronave sobre as pobres moradias dos trabalhadores, estudantes e donas-de-casa que nada tem com a história.

Até o momento, nenhum resultado pericial indicou o que realmente aconteceu. A aposta aqui do redator é que um projetil 7.62X51 mm NATO perfurou o tanque de combustível ou algum ponto sensível da turbina (o modelo 350B2 tem apenas uma). A primeira hipótese é a mais provável, em função do rápido incêndio que que tomou a aeronave logo após o pouso. De qualquer maneira, perícia de acidentes aéreos é coisa para peritos, e, sobre isso o redator não irá palpitar.

Mas de tiro, causa:: entende. Foi um tiro ao acaso? Quase com certeza – nisso o redator não apenas palpita, como aposta. Dificilmente o “crime organizado” teria em seu poder armas anti-aéreas (os motivos já foram explicados aqui no blogue mesmo). As armas do tráfico têm de ser relativamente fáceis de transportar e esconder. Esse é apenas um dos motivos. Querem outro? Todos quanto tiverem prestado serviço militar ou, pelo menos, estado perto de um fuzil-metralhador, sabem que usar um negócio desses é uma pedreira. Uma arma assim não é feita para disparar salvas singelas, mas apenas rajadas, o que a torna difícil de manter estável. Tomemos como exemplo uma das armas citadas pela reportagem do “vibrante matutino” carioca “O Globo”, a FN Herstal “MINIMI” 5.56X45 mm (arma do padrão NATO , usada também pelos EUA): pesa 7,5 quilos sem a munição, tem quase 80 centímetros de comprimento é feita, principalmente, para disparo parado, com o atirador deitado e o conjunto apoiado num bipé. Não é sem razão: sua função, como a de todo fuzil-metralhador, é dar apoio de fogo à esquadra de infantaria, nas mãos de um atirador especializado, geralmente mais “parrudo” que o resto da tropa (no Exército dos EUA, por algum motivo, esses caras são chamados de “Pig“). Só que a “MINIMI” não é uma arma contra aeronaves. O cartucho 5.56 NATO é muito pouco potente para lidar contra coisas minimamente protegidas – aeronaves ou veículos militares de blindagem leve (como, por exemplo, um Urutu ou um MOWAG). As armas anti-aéreas leves continuam operando munição 7,62 NATO.

O Exército Brasileiro não opera, até o momento, qualquer versão da “MINIMI“. Os Fuzileiros Navais adotaram, já fazem pelo menos dez anos, o calibre 5.56X45 NATO, e tem o M16A2 mod. 705 como arma-padrão e  a *M249 como fuzil de apoio de fogo do Grupo de Combate FN. Mais acessível a “usuários” do tipo que temos em mente seria a *MAG M1971. Trata-se de uma metralhadora leve de uso geral, calibre 7,62X51 mm. Num tripé, ou dotada de um bipé e operada por um atirador relativamente treinado (e muito forte…), essa arma, de mais de 11 quilos e aproximadamente 125 centímetros de comprimento, com cadência de fogo de até 1000 salvas por minuto. Essa é extremamente letal, num ambiente restrito. Aí sim, é perfeitamente possível derrubar uma aeronave. Só que o redator continua apostando que os “irregulares” que as forças especiais da PMERJ costuma a enfrentar, nessas ocasiões, não teriam cacife para organizar a estrutura necessária para defesa de ponto contra aeronaves. Se tivessem uma tal infra, poderiam perfeitamente botar o BOPE para correr. E não põem – pelo contrário, a lista de baixas foi de 10X0. Placar que, por sí, dá a quem entenda um pouco do assunto, diversas informações.

Mas, como em agosto (e sempre…), novamente os redatores “especializados” continuam entendendo profundamente do assunto. Além da “MINIMI”, outra arma citada, por exemplo, é uma metralhadora “.30” “calibre 7.92X57” “fabricada na antigo República da Tchecoslováquia”, “com capacidade de tiro capaz de derrubar um helicóptero”. Pela madrugada! Certamente entre os seis leitores (contadinhos…) de causa:: não consta nenhum redator do “vibrante”. Vejamos:  a Lehky Kulomet ZB (de zbrojovka, “empresa“) vz 26 (modelo 1926) é uma metralhadora leve que se tornou um dos desenhos mais bem sucedidos do período entreguerras. Só que o calibre 7.92X57 nada tem com o “ponto trinta”: um é o antigo Mauser da Wehrmacht, o “IS” (Infanterie, Spitz), que, até onde se saiba, poderá ser conseguido em museus ou em fábricas de material bélico para colecionadores e re-enacters (que não deve ser a diversão preferida dos traficantes cariocas). Já o “ponto trinta”, o “.30-06” Springfield, no jargão do exército dos EUA, ou 7.62X63 mm, foi o calibre utilizado em armas de infantaria dos EUA a partir de 1906 até os anos 1950. Ainda existe e é fácil de conseguir, pois grande quantidade de armas militares usa essa munição, inclusive as mal-fadadas “metralhadoras .30”, de que tanto falam os redatores do “vibrante”. O curioso é que essas armas poderiam estar mesmo nas mãos do tráfico carioca. O redator chato encontrou na Grande Rede uma lista de armamentos desativados e preparados para destruição, pelo Exército. Lá estão relacionadas pelo menos 100 CZs convertidas para o calibre 7 mm (o calibre do Exército até  a conversão para o padrão norte-americano, no início dos anos 1940). Também estão relacionadas nessa lista mais de mil (é isso aí – um milhar) *metralhadoras Browning dos modelos 1919A4 e M1919A6 (este último, uma preciosidade). Seria perfeitamente possível disparar uma arma dessas contra um helicóptero ou pequeno avião,  e destruí-lo. Ainda assim, o redator continua duvidando dessa possibilidade, pelos mesmíssimos motivos.

Pois então, a posição de causa:: continua a mesma de agosto – o problema não será resolvido pela pura e simples militarização da questão, e nem com o sacrifício disfarçado do estado de direito tão duramente conquistado, de modo a criar dois países – o nosso e o deles. O “vibrante”, hoje (19 de outubro), faz uma cobertura que procura analisar apenas o confronto – como se uma briga de bandidos pés-rapados fosse a invasão israelense contra a Faixa de Gaza (e certamente ninguém será, no caso, levado ao Tribunal Penal Internacional): quem dispõe de que tipo de armamento.Questões mais sérias, citadas apenas tangencialmente pela reportagem, não são sequer propostas para debate por quem as levantou. A mais séria dessas é a que coloca a possibilidade da ação de invasão de uma comunidade favelada bem no coração da cidade do Rio de Janeiro ter sido planejada dentro de várias penitenciárias federais de segurança máxima. Neste ponto, é bom citar o comentário de um dos seis leitores (contadinhos…) do blogue, o Luiz Candido.  Diz o LC: Não há como evitar a conclusão: não se trata mais de criminosos comuns, assim como o seu tipo de associação não é mais devidamente classificado em nosso código penal. Os conceitos usuais e o aparato jurídico disponível simplesmente não são suficientes para tratar de uma situação deste tipo. Devo dizer que continuo discordando. O fato de nosso código penal não dar mais conta das demandas da atual sociedade brasileira é um problema político, e assim tem de ser resolvido. Não será enquanto reús dos mais diversos artigos puderem ser eleitos para todos os níveis do poder legislativo; não será enquanto a venerável Ordem dos Advogados do Brasil continuar exigindo privilégios para seus membros, privilégios que acabam por beneficiar justamente os “organizadores” do crime organizado; não será enquanto os policiais, agentes penitenciários, defensores e promotores públicos não tiverem melhoradas ao máximo possível suas condições de trabalho; não será enquanto os trabalhadores, as mães, os estudantes – enfim, o povo das comunidades faveladas – não passarem a ser tratados como cidadãos, ao invés de um problema a ser resolvido com “… a arma Metralhadora Leve de dotação do Exército Israelense até que este desenvolvesse a IMI NEGEV…” (nem cortar direito um texto besta da Internet essa gente sabe – ô raça…) e com o “… caveirão do ar, o ‘helicóptero Huey’ II…” E, claro, com acusações de negligência e descaso para com o Rio, insinuadas contra o Exército Brasileiro. Este que, muito sabiamente, não quer colocar sobre a parte mais frágil do Rio de Janeiro um helicóptero de assalto tripulado por homens que vivem em constante estado de estresse. 

Analisar armamento e pegar as bobagens alarmistas de nossa imprensa é fácil. Difícil é oferecer respostas que nos façam a todos acordar do pesadelo de sábado passado::

Um rapaz (das Forças Especiais) às Segundas::

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Segundas?.. Não seria às Terças?.. Tanto faz. E já que continuamos no assunto “marinha”, um membro do SEAL da Marinha norte-americana durante a invasão do Afeganistão. A carabina M4A1 calibre 5.56 mm NATO com visor telescópico Trijicon ACOG (Advanced Combat Optical Gunsight) 4X, retícula iluminada de fibra ótica, instalado em  RIS (Rail Interface SystemDaniel Defense Inc. tipo Picantinny e empunhadura de plástico de alto impacto, está com a coronha rebatida. A coloração da arma, aplicada com uma película plástica, destina-se a dificultar a visualização. Trata-se de uma arma especial para forças especiais, e é exatamente o que o *SEAL (acrônimo de Sea, Air and Land, que também quer dizer “foca” em inglês) é. Essa força foi criada em 1962, pela Marinha dos EUA. Em 1961 o Chefe de Operações Navais recomendou a formação de tropas especializadas em contra-guerrilha, capazes de operar a partir do mar, terra e ar. Não foi à-toa. A época era a do envolvimento norte-americano no Vietnam, em 1961-1962.  John Kennedy ficou muito impressionado com a atuação dos “boinas-verdes“, e imaginava poder vencer a guerra com tropas treinadas em táticas não-convencionais, altamente motivadas e politicamente engajadas. No caso do SEAL, os primeiros voluntários eram membros de Equipes de Demolição Submarina (UDT, em inglês), formadas durante a Segunda Guerra Mundial, conhecidos como Frogmen (“homens-rãs”).  O primeiro teatro de operações foi o Vietnam do Sul, fazendo levantamento subaquático, reconhecimento de áreas de desembarque e demolição, além de assessorar as forças especiais do Vietnam do Sul. Eventualmente, atendiam demandas da CIA em operações encobertas, mas essa é outra história::