Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::MP40, a “arma do soldado nazista”::

parte1/2Como todo os oito ou nove leitores de causa:: estão cansados de saber,  a 2ª GM foi, por excelência, a guerra da “pistola-metralhadora”, como a 1ª GM foi a guerra da metralhadora. E os famosos “poucos” deste blogue também sabem que “pistola-metralhadora” é uma “arma longa” ou “portátil”, capaz de disparar, em modo plenamente automático, munição pré-preparada. A característica básica dessa “arma portátil” é o fato de utilizar munição de armas curtas (pistolas semi automáticas). Outra característica usual nos modelos mais antigos é o uso do sistema de “recuo direto simples” (em inglês, blowback recoil – mais sobre o tema, aqui) para o trancamento da culatra. 

Essa arma surgiu no final da 1ª GM, um dos desdobramentos da “perda do movimento”, a situação provocada pelo “empate estratégico” ocorrido a partir de dezembro de 1914, quando as forças do Exército do Kaiser foram detidas em seu avanço em direção à Paris. O que se sucedeu foi uma sangrento exercício no qual milhões de homens, armados com milhares de canhões, milhões de metralhadoras pesadas e leves e dezenas de milhões de armas pessoais, atiravam um nos outros sem que nenhum dos dois lados tivesse capacidade para romper a linha adversária. Em 1915 os alemães começaram a testar tropas especiais, destacadas dos efetivos das unidades de “pioneiros” (engenheiros de combate). No final de 1916, o chefe do Estado-maior alemão, general Erich Ludendorff, determinou que cada divisão fosse dotada de um batalhão dessas novas unidades – que, não se sabe exatamente quando, passaram a ser designadas de stosstrüppen (“tropas de choque”). O aperfeiçoamento decisivo deu-se, entretanto, em 1917, quando o coronel Georg Bruchmüller (se você lê inglês, uma ótima biografia desse oficial aqui) resolveu tentar integrar as  “tropas de choque” às táticas de artilharia” flexíveis” que vinha testando. Essas unidades foram empregadas dessa forma, pela primeira vez, na frente oriental. Em maio de 1917, a cidade de Riga foi tomada em menos de uma semana e o sucesso fez com que o Estado-maior Geral determinasse o emprego maciço dessas unidades na frente ocidental. A partir daí os alemães começaram a conceber uma série de táticas especiais, centradas em deslocamentos em velocidade, ao longo de determinados setores do teatro tático (setores onde ocorrem os combates). Durante esses deslocamentos, realizados imediatamente após barragens de artilharia rápidas e concentradas, pequenos grupos de soldados com treinamento e armamento especiais procuravam brechas por onde formações de infantaria convencional pudessem penetrar. As táticas “de infiltração” adotadas pelas “tropas de choque” lançavam mão da velocidade e da surpresa (grande parte das operações eram realizadas de madrugada), e precisavam de armas automáticas para o combate a curta distância. Ou seja, o armamento dessas formações devia ser diferenciado daquele usado pela infantaria convencional.

Ainda em 1917, o general-de-divisão Oskar von Hutier, uma espécie de patrono das novas formações, começou a examinr as armas disponíveis, e concluiu que quase todas eram pesadas e canhestras para o tipo de atuação planejada. Entre os tipos avaliados estavam as pistolas semi-automáticas *Mauser C96*Luger P08. A vantagem que ambas apresentavam era um acessório especial: uma peça de madeira que, fixada à empunhadura da arma, funcionava como coronha e transformava o conjunto em uma pequena carabina; retirada, servia de caixa de transporte. Tanto a C96 quanto a P08 tinham problemas: a primeira foi logo descartada por ser considerada muito frágil; a P08, embora muito suscetível à sujeira, estava disponível numa versão especial, reforçada. Esta se caracterizava pelo cano “pesado” (reforçado) de 200 mm, que aumentava a precisão do tiro, uma mira regulável até 600 metros e um adaptador que permitia disparos de três salvas. No meio da guerra foi desenvolvido um carregador tipo tambor, chamado de *“caracol”, com capacidade para 32 tiros. Foi esse acessório que, embora tendesse a emperrar com facilidade, chamou dos planejadores das “tropas de assalto” para a arma. A Luger “Artilharia” tinha sido originalmente destinada a soldados que estivessem impossibilitados de, em serviço, portar o fuzil regulamentar Mauser G98: artilheiros (daí o nome do modelo), motoristas, mensageiros, motociclistas, etc.

Mas a distribuição da P08 “Artilharia” era um “tapa-buraco”. Hutier buscava uma arma plenamente automática capaz de se deslocar junto com as seções de infantaria. Uma arma assim até já existia: a versão “aligeirada” da metralhadora pesada MG08, de notação *MGo8/15. Essa tinha sido projetada para dotar a infantaria de sufuciente poder de fogo para confrotar, no ataque, as posições defensivas das trincheiras inimigas. Só que a geringonça pesava, com bipé e um carregador preparado (ao invés das fitas de munição convencionais), mais de 18 quilos, e exigia equipagem de quatro homens. Ou seja, era muito canhestra para ser operada em condições de movimento. Em 1915, a Comissão Alemã para Teste de Fuzis decidiu lançar o requerimento para uma nova arma de conceito totalmente novo,  a começar pelo alcance útil – de 100 a 300 metros. Seu comprimento não devia ser maior que 90-100 centímetros – menos que a carabina regulamentar do exército –  e devia disparar, em modo automático, a munição-padrão de armas curtas, calibre 9 mm, pré-armazenada em um carregador  com pelo menos 30 cargas . E, principalmente, o peso não deveria ultrapassar 5 quilos, para permitir a operação individual. Inicialmente, os engenheiros pensaram em uma espécie de “super pistola”, mas os desenhos existentes se mostraram pouco adequadas à adaptação, visto que a alta cadência de tiro das armas automáticas rapidamente destruía o cano e o mecanismo de culatra. O jeito foi aumentar o comprimento e o peso, usando metal mais denso – e, por conseguinte, resistente. Mais importante, a cadência de fogo das metralhadoras convencionais (600-800 salvas por minuto) foi diminuída para algo em torno de 400-450 salvas. A menor intensidade da explosão, devido à munição menos potente, devia preservar a durabilidade do cano e do bloco de culatra; a menor  velocidade de boca aumentaria a durabilidade do cano. 

O projeto aprovado foi apresentado pela equipe do engenheiro Hugo Schmeisser, da empresa Bergmann Waffenfabrik. A *arma apresentada utilizava munição 9X19 Parabellum, e funcionou muito bem em todos os testes. Nesse período, um fato a mais mostrou-se promissor: a cadência menor permitia controlar a arma, durante o disparo, somente com as mãos, o que eliminava a necessidade de um bipé. Para a distribuição, o modelo recebeu a notação MP (Maschinenpistole) 18/I. É curioso que, até hoje, não se descobriu o que significava a letra “I”.

Essa arma foi a avó de todas as pistolas-metralhadoras (vamos passar a chamá-la de “submetralhadora”, que é como o Exército Brasileiro a denomina). Apesar se mostrar produto de alta qualidade, a MP18 foi muito pouco usada durante a 1ª GM, distribuída em números muito baixos (calcula-se que a produção não tenha passado de 10.000 unidades). Como a MG08/15, foi usada principalmente pelas “tropas de assalto”, que deveriam ter pelo menos três fuzileiros por pelotão armados com ela. Embora sua fabricação e uso militar tenham sido proibidos pelo Tratado de Versalhes, o uso policial foi permitido, e logo apareceram versões no calibre 7.65 mm. Quase imediatamente após o final da guerra, vários países começaram a fabricar *armas semelhantes, principalmente para uso policial. As características básicas de todas elas seguiam as da MP18.

Uma dessas características era a ergonomia. A Bergman manteve, no desenho, características de fuzil – a coronha, em madeira, estendia-se desde a parte da caixa de culatra que ficava sob o receptor; esta seção também servia de empunhadura dianteira. Finda a caixa de culatra, a coronha projeta-se para trás, compreendendo essa seção, na Bergman, cerca de um terço o comprimento total da arma (que era de pouco mais de 83 centímetros). Essa solução remonta, nos fuzis, ao final do século 16 e visa facilitar a pontaria. A coronha permite que a arma seja apoiada no ombro do atirador, e assim parte da energia produzida pela explosão da pólvora é absorvida pelo corpo (do coitado…) – que, a cada tiro, leva uma pancada (“coice”) que pode lhe quebrar o omoplata. A ergonomia de fuzil também se expressava, na MP18, numa característica distintiva: o carregador se alojava na lateral da caixa de culatra. Ao que parece, essa solução foi adotada para permitir que o usuário empunhasse a arma com a mão esquerda na frente, enquanto a extensão da coronha apoiava-se no ombro direito. Os desenhistas imaginaram que o uso da pistola-metralhadora seguiria o conceito de tiro de precisão (o atirador aponta diretamente para o alvo). Logo ficou demonstrado o equívoco: o pequeno alcance e a baixa precisão (comparados com os de fuzil) combinados ao fogo automático em condições de movimento mudavam a forma de uso. Já que a arma podia ser controlada apenas com as mãos, a tendência passou a ser o “tiro instintivo”: na altura da barriga, em ângulo com relação ao eixo vertical do corpo, a arma era posta na direção do alvo para o disparo de rajadas curtas (de dois a três segundos, quatro a seis salvas).  Na prática, o que acontecia é que o atirador ignorava o mecanismo de pontaria e o carregador lateral acabava funcionando como empunhadura dianteira, o que tornava o manejo mais confortável. O recuo relativamente suave tornava possível encostar a coronha na barriga ou no braço, coisa que seria impensável com um fuzil.

Essas hipóteses se comprovaram não apenas com a experiência das “tropas de assalto”, mas principalmente durante os distúrbios civis de 1919, na Alemanha, quando a *arma se revelou ideal para combate a curta distância.

Mas tanto quanto o exército do Kaiser, o ramo terrestre das reduzidas “Forças Armadas Nacionais” (Reichswehr) pós 1919 não mostrou lá muito interesse pela submetralhadora. Por volta de 1935, quando, já no governo nazista, se iniciou o rearmamento das forças armadas, a distribuição ampla desse tipo de arma, não foi, em princípio, planejada. Sua utilidade era vista apenas para funções secundárias, e não para tropas de combate. As lições da Guerra do Chaco e da Guerra Civil Espanhola apontavam a funcionalidade da arma, mas apenas em 1937 o Exército começou a procurar por um modelo que pudesse ser largamente distribuído. E, mesmo assim, em função das necessidades observadas no ambiente das forças altamente móveis que estavam sendo criadas, mecanizadas e aeroterrestres. Essas forças precisavam de uma arma leve, compacta e que permitisse ao soldado transportar maior quantidade de munição. Em 1936, uma requisição do Departamento de Armamento do Exército (Heeres Waffenamt) estabeleceu essas características para a nova versão, e ficou claro que a ergonomia de fuzil não servia mais. A empresa alemã Erfurter Maschinenfabrik Gmbh (Erma) iniciou o desenvolvimento de um modelo conformado às especificações apresentadas. 

O problema é que a doutrina alemã mudara pouco, no geral. Fora das forças blindadas, continuavam basicamente as mesmas da 1ª GM, ou seja – o combate de infantaria baseava-se no “peso de fogo”, ou seja, em muito infantes avançando coordenadamente e atirando de forma escalonada e coordenada, com armas que disparassem um projétil relativamente pesado numa distância útil alta com precisão razoável. Esse cartucho já existia: era o IS (Infanterie Spitz, ou Infantaria, Ponteado) em uso desde o final do século anterior, a partir do fuzil G98 e da carabina (fuzil encurtado) *KAR98K. A indústria alemã de armamentos, apesar dos grandes investimentos que recebeu, crescia lentamente e sua capacidade de desdobramento revelou-se limitada. Parecia às mentes cartesianas dos planejadores econômicos e militares um tanto absurdo mandar para o espaço as máquinas e gabaritos, bem como os processos industriais e treinamento dos operários. Não foi outro motivo que a Wehrmacht entrou na guerra usando o mesmíssimo armamento individual da guerra anterior. Nem mesmo um rifle semi-automático, do tipo dos utilizados pelos norte-americanos, foi cogitado::

Cultura material militar::Minié: a arma da Guerra do Paraguai::

Já que o redator parte do princípio de que conhecemos pouco nossa história, evidentemente que os inúmeros desdobramentos dela, conheceremos menos ainda. Assim, a história da técnica não será exatamente a especialidade mais conhecida mesmo entre interessados. Fanático por tecnologia, o redator resolveu dar uma espiada na cultura material militar do período da Guerra do Paraguai. O resultado foi que, ao contrário do que se possa imaginar, as forças armadas do Império do Brasil não estavam assim tão mal equipadas, durante aquele conflito. Embora as autoridades da época não tenham dado grande atenção ao Exército (a Marinha foi tratada um pouco melhor), a partir dos anos 1850, a seqüência de conflitos na região do Prata, ou seja, conflitos internacionais, fez com que o governo olhasse com maior cuidado para a capacidade de seus militares. Abaixo, examinaremos uma das armas revolucionárias que surgiram no século 19, revolução que alcançou os campos de batalha sul-americanos::  

parte 1Embora travada em um ambiente economicamente periférico e tecnologicamente insignificante, do ponto de vista da inovação, a Guerra do Paraguai incorporou, de ambos os lados, alguns avanços significativos, que ajudaram a tornar o conflito um dos mais mortíferos do século 19. Um desses avanços foi o fuzil Minié, distribuído em grandes números para o exército do Império. Essa foi uma das mais importantes inovações técnicas no campo de batalha do século 19. Surgiu em 1849 como conseqüência da invenção do projetil Minié, em 1847. A arma de Minié era, de fato, um conjunto de inovações adotadas em torno de um novo tipo de projétil. Em algum lugar do blogue das boas causas falamos de como uma das formas de melhorar a precisão do tiro seria raiar o cano da arma, de forma a imprimir ao projétil movimento giratório, de modo a estabilizar seu centro de gravidade e, por conseguinte, a trajetória de vôo. O problema é que, nas armas de antecarga (carregadas pela boca), os projéteis ou tinham de deslizar por dentro do cano, até a câmara da arma, ou tinham de ser forçadas até lá por uma haste, o que tornava o carregamento muito lento. Com o raiamento do cano, o processo se tornou ainda mais complicado, pois o projétil, ao moldar-se às raias, descia de maneira ainda mais lenta. Uma idéia que surgiu no final dos Setecentos foi usar projéteis cujo calibre, apenas ligeiramente inferiores ao diâmetro do cano da arma, se deformavam com a explosão do propelente, amoldando-se ao cano e, conseqüentemente, ao raiamento. O projétil de Minié foi uma idéia revolucionária, mas não surgiu da noite para o dia. Foi inventado pelo capitão do Exército Francês Claude Etienne Minié, mas teve a ajuda do colega Henri-Gustave Delvigne. Delvigne foi o inventor de um fuzil raiado eficiente, em 1826, utilizando um projétil de formato esférico que seria socado através da vareta contra uma superfície semi-esférica, adaptando-se assim ao raiamento do cano. O problema era que o método de carregamento deformava o projétil, comprometendo-lhe a eficiência. Delvigne teve então a idéia de introduzir na parte posterior do projétil de chumbo um pequeno taco de madeira. Essa peça deveria limitar a deformação do projétil, sem impedir que este se amoldasse aos sulcos do raiamento. A inovação mostrou-se bastante eficiente, e difundiu-se rapidamente em todos os exércitos. O raiamento tornava o disparo muito mais preciso e aumentava o alcance da arma sem exigir um notável aumento do tamanho do cano. Esse fator marcou a superioridade dos fuzis sobre as armas de alma lisa, então ainda muito comuns.

O fuzil Minié, assim como seu predecessor, o Delvigne, ainda eram, tecnicamente, mosquetes, mas isso não é ainda muito importante. O ponto de inflexão foi o ano de 1830, quando Delvigne iniciou o desenvolvimento dos projéteis cilíndrico-cônicos. Posteriormente, a introdução de ranhuras Tamisier (nome do inventor do processo, um oficial francês de artilharia) tornou os projéteis bem mais estáveis, embora tornassem o amoldamento às raias mais complicado. Na mesma época, outro oficial francês (era definitivamente a era dos franceses…) descobriu uma forma de controlar a deformação do projétil, introduzindo um pino no centro da câmara, bem mais longo do que essa parte e fixado à culatra da arma. Esse pino fazia o projétil deformar-se quando pressionado contra ele pela vareta, amoldando-se às raias. Só que, nesse processo, o projétil tomava um formato alongado e mais aerodinâmico. Essas inovações, que surgiram umas após as outras, desde o início dos oitocentos, convergiram no *projétil Minié: tratava-se de um projétil cilíndrico-cônico feito de uma liga macia de chumbo. O Minié era ligeiramente menor do que o diâmetro do cano, e tinha quatro ranhuras bem pronunciadas, que eram preenchidas com graxa, e o interior era oco desde a base, em formato cônico. A novidade é que o capitão Minié substituíra o taco de madeira por um pequeno tarugo de metal, acoplado de maneira folgada à parte inferior do interior oco, mas sem o preencher. O carregamento acontecia com o atirador deixando a pólvora negra escorrer para a câmara, e em seguida fazendo o projétil deslizar para sua posição, sobre a pólvora. Era necessária apenas uma pancada com a vareta, pois a graxa ajudava o projétil a deslizar. Acionado o gatilho, a explosão do propelente lançava o tarugo de metal para a parte vaia do espaço cônico dentro da bala, uma fração de segundo antes do início da trajetória desta através do cano. O resultado é que o tarugo, mais duro que o chumbo, fazia o projétil expandir-se o suficiente para amoldar-se ao raiamento, sem deformação notável, mas suficiente para obturar a câmara e potencializar a expansão dos gases gerados pela explosão. A graxa, derretida pelo súbito aquecimento, tornava mais fácil o trajeto.

Testes realizados em 1849 demonstraram que a potência de um disparo usando o sistema Minié era capaz de penetrar duas pranchas duplas de madeira-de-lei separadas por 50 centímetros, a uma distância de uns 15 metros; entre os soldados começou um falatório que dizia que, a mil metros, um disparo de Minié atravessava um homem e sua mochila, e ainda poderia derrubar o cara que estivesse atrás dele. Posteriormente, os boatos aumentaram: a mil metros, um disparo de Minié atravessava uma linha de 15 homens.

Mesmo assim, a distribuição do novo fuzil foi lenta, embora diversos exércitos o tenham testado. Durante a Guerra Civil Americana (1861-1865) tornou-se a principal arma de infantaria em ambos os lados. Os motivos que assustavam os combatentes eram os mesmos que tornaram a arma popular entre eles: a alta velocidade e o calibre aumentado pela deformação do projétil (em alguns casos, chegava a 18 mm) tornava qualquer ferimento incapacitante, se não mortal.

O fuzil Minié, do ponto de vista técnico, era uma arma de antecarga, com um fecho de percurssão que utilizava o sistema “de fulminante”. O calibre era de 18 mm (existiram versões em outros calibres), e o peso do projétil cilíndrico-cônico girava em torno de 32,4 g – a variação, quando acontecia, era mínima. O cano tinha o comprimento de 95.8 cm, para um comprimento total da arma de pouco mais de 140 cm. O peso era de cerca de 4,8 quilos. Seu alcance eficaz era de mais de 1000 metros, mas a precisão era bem razoável  a até 550 metros. Uma novidade bastante notável eram as novas alças de mira, capazes de apontar arma dentro das novas distâncias úteis.

Soldados negros do Exército da União armados com fuzis Minié. A revista Harper´s, criada em 1857, com base em Nova Iorque, notabilizou-se por enviar correspondentes de guerra que seguiam nos calcanhares das tropas em combate.

Um dado que deve ser levado em consideração é que o período em que surgiu o Minié foi o da Segunda Revolução Industrial. Essa segunda fase da Revolução Industrial teve grandes avanços na aplicação de conhecimentos científicos que resultaram em novas técnicas em siderurgia e metalurgia, bem como nos diversos ramos da indústria metal-mecânica. Esses desenvolvimentos afetaram todo o processo produtivo, permitindo a padronização confiável de peças mecânicas em metal. Essa padronização abriu a possibilidade de que uma arma robusta e precisa fosse distribuída em números razoáveis, afetando não apenas as doutrinas, mas também a logística dos exércitos.

O interesse gerado pela nova arma logo ultrapassou as fronteiras da França. Quase todos os países capazes de fabricar armas copiaram o projétil e *a arma (a da foto é um modelo fabricado na França para os japoneses, em 1866). O Brasil não era capaz de fabricar uma peça de tal complexidade, mas adquiriu uma pequena quantidade para testes, que foram realizados na Guerra contra Oribe e Rosas (1851); nessa campanha, outras armas de última geração também foram experimentadas, colocadas à disposição de pequenas frações de tropas. Por volta de 1860, (segundo informações levantadas por Adler Homero Castro), cerca de 2700 armas do sistema Minié, entre fuzis (armas de infantaria) e clavinas (armas mais curtas, de cavalaria), comprados na Bélgica, estavam em serviço. Em 1863, uma grande quantidade de armas desse modelo foi adquirida. Isso pode parecer que o Exército Imperial buscava padronizar seu equipamento, e isso talvez possa ser considerado correto. Mas é difícil promover qualquer processo de padronização num país sem infra-estrutura industrial. As compras são, geralmente de oportunidade, feitas segundo exista disponibilidade no mercado internacional. Com virtualmente todos os exércitos do mundo buscando adquirir a arma, nem sempre os fornecedores dispunham de estoques. Pouco depois dessa grande aquisição, outra foi feita, só que de armas que seguiam o modelo Enfield – fuzil-mosquete Enfield Pattern (Modelo) 1853, que a literatura especializada por vezes chama de P53 Enfield –, modificação da patente francesa feita na Real Fábrica de Armas Leves (RSAF, em inglês), situada em Enfield Lock, Grã-Bretanha.

Soldados confederados mortos em uma trincheira. Notar os fuzis P53, largados na cena.

O P53 era, basicamente, o fuzil Minié, mas disparava um projétil simplificado, sem as raias Tamisier. Nesse novo desenho, o tarugo de metal foi substituído por um de madeira ou argila. Posteriormente, o projétil deixou de ter um tarugo, pois se verificou que a explosão era suficiente para deformar o projétil e forçá-lo no raiamento sem provocar maiores problemas.

Em princípio, P53 e o Minié francês eram armas iguais, mas a decisão do governo brasileiro em adquirir lotes de ambas rapidamente causou grande número de problemas. Segundo Adler Homero, a alça de mira das primeiras Miniés, era regulada em braças (unidade de medida portuguesa usada no Brasil, até 1865), e a das P53 estavam em jardas (unidade do sistema de medidas britânico). O resultado é que, a partir de 1865, com a adoção do sistema métrico, a conversão tornou-se um problema. Mas isso nem era problema: em braças ou jardas, as armas disparavam. Mas a pequena diferença (0,14 mm – quatorze décimos de milímetro) entre o calibre das duas armas era outra coisa. Essa diferença pode até parecer insignificante, principalmente em armas de antecarga, mas o fato é que o projétil das armas belgas não entrava nas inglesas; já o projétil de calibre menor, usado nas armas belgas, acabava não provocando o forçamento adequado nas raias. O resultado é que o projétil perdia a estabilidade logo após no início do vôo.

A seguir, veremos algumas consequências do uso militar do sistema Minié, principalmente no Brasil::

Uma moça (em uniforme) às Terças::

Eis que a seção favorita dos oito leitores retorna, na madrugada de quarta-feira. Não era para ser terça? Tanto faz… E já que a semana é mesmo da linhagem AK…

Reservista do Exército Russo em treinamento de tiro de precisão com *AK-74M (na foto, com um lança-granadas GP-25 de 40 mm). Na primeira foto, a atiradora traça o alvo (geralmente a 100 metros/109,3 jardas de distância). A arma está travada em posição de segurança (no destaque, a posição da alavanca de armar, a janela de ejeção fechada e a chave de segurança  para cima). Na segunda foto, a moça pega o carregador e coloca na janela do receptor. E… Olha só: ela é bonita, benza´Deus (depois do fim do materialismo ateu, Deus na Rússia pode…)::

Um rapaz (das Forças Especiais) às Segundas::

O rapaz é bem conhecido. Gostemos ou não, temos de admitir – um tremendo organizador (também… aprendeu com os melhores – os norte-americanos). Ao fundo, sua arma favorita: AKS74U, versão do AK74 distribuída ao exército russo a partir dos anos 1990, facilmente reconhecível pelo freio de boca. Foi desenhada especialmente para forças especiais, com o alcance notavelmente menor do que o das versões convencionais, devido ao encurtamento do cano, que, nessa versão, tem apenas 210 mm. O desempenho geral em distâncias maiores que 200 metros é pobre, e a arma chega a ser considerada, por algumas fontes especializadas, como uma submetralhadora.

A linhagem AK::Os sucessores do AK::

parte3Em meados dos anos 1960, por diferentes motivos, tanto os EUA quanto diversos de seus aliados da OTAN questionavam o uso do cartucho 7.62X51 mm NATO. O Exército dos EUA adotara, desde 1957, um fuzil automático para essa minição, o *Springfield M14 (um excelente artigo sobre essa arma, em português, aqui), de fato uma versão aperfeiçoada do M1 Garand da 2ª GM. Em termos de desempenho, o M14 era excelente. Em termos de desenho, era pesado e longo, ainda muito assemelhado aos desenhos da 2ª GM (conhecidos, nos EUA, pela designação “fuzil de combate” ou battle rifle – se você lê inglês, mais informações aqui). Mas não era o único problema. Outro motivo residia no fato de que a munição 7.62X51 NATO é bastante pesada. Um cartucho dessa munição pesa cerca de 20 gramas (9,50 para o projétil), o que significa que 20 cartuchos pesarão por volta de 400 gramas, além do peso do carregador. Nessas condições, um carregador tipo “caixa” dificilmente comportaria mais do que 20 cargas sem tornar a arma excessivamente pesada.  O número de carregadores que um soldado poderia transportar, em situação de combate seria, pois limitado. Além do mais, a munição 7.62 NATO era, por projeto, bastante potente, o que provocava um alcance útil de uns 600 metros, bem maior do que os estudos mostravam necessário. Desde meados dos anos 1950 norte-americanos e europeus estudavam um cartucho de menores dimensões e menor potência. No caso norte-americano, a experiência inicial no Vietnam acabou por selar a sorte do M14. Os AK47, AKM, e as diversas variantes do “Tipo 56” chinês surpreenderam de tal maneira os norte-americanos que, em 1969, já não haviam quase fuzis M14 entre a infantaria dos EUA na Indochina.

Os soviéticos, por sua vez, sentiam o mesmo problema. Embora o cartucho M1943 fosse um pouco mais leve (o projétil pesava por volta de 8 gramas) e menos potente que seu equivalente ocidental, ainda assim, era pesado e potente. Não que não tivesse qualidades, mas também tinha defeitos de projeto. O principal era o desenho, chamado de *“popa de barco” (uma tradução livre de boat-tail), que melhorava desempenho aerodinâmico e tornava a trajetória muito tensa. Essa característica, combinada à dureza do material de que era fabricado o projétil, uma liga de chumbo e açoa recoberta por uma jaqueta de cobre de razoável espessura, criava um inconveniente: em distância de tiroteio (50 até 300 metros), a trajetória dificilmente se alterava quando encontrava obstáculos de baixa dureza (como madeira ou o corpo humano). Isso significava que, frequentemente, os ferimentos provocados não eram incapacitantes. Ao contrário, em proporção muito alta o tratamento era fácil e permitia que a baixa rapidamente voltasse à linha de frente. No final dos anos 1950, os chineses fizeram algumas modificações no cartucho que o tornaram um pouco mais eficiente. O material do corpo do projétil passou a ser o aço-carbono (muito mais dúctil do que a liga original) recoberto por uma jaqueta de cobre de menor espessura. O sucesso da combinação da linhagem AK (a maior parte de origem chinesa) com a munição produzida na China e Vietnam do Norte (com padrões chineses) provocaram avaliações equivocadas por parte da inteligência norte-americana. Já os soviéticos fizeram, desde o final dos anos 1950, avaliações exaustivas baseadas na observação das manobras anuais do Pacto de Varsóvia e das atividades militares de países fora de sua esfera direta de influência, como a Crise de Suez e das guerras dos Seis Dias e do Yom Kippur).

Os exercícios anuais do Pacto de Varsóvia eram particularmente importantes para essas avaliações. Embora o Pacto nunca tivesse tido grande importância na estratégia militar geral soviética e servisse mais como instrumento de controle dos aliados e de política externa, as manobras permitiam que o desempenho das forças armadas tanto soviéticas quanto dos outros países membros fosse examinado. A partir do final dos anos 1950, os soviéticos passaram a treinar um único objetivo geral: a invasão dos países ocidentais. A importância atribuída ao movimento e à mecanização, que sempre fora grande, aumentou. Na primeira metade dos anos 1960 se desenvolveu de um novo tipo de guerra móvel, com ênfase no assalto blindado, em ambiente nuclear. A distribuição de novos tipos de APC (do inglês Armoured Personnel Carrier), destinados a entregar as esquadras de infantaria diretamente no ponto de combate demonstrou a necessidade de maior cadência de fogo e, portanto, maior capacidade de transporte individual de munição preparada.  Uma observação interessante retirada do Vietnam é que um combatente a pé conseguia transportar de 6 a 8 dos carregadores curvos do AK47/AKM (eram basicamente iguais, pesando por volta de 450 gramas, com 30 cargas) sem ter sua mobilidade comprometida. A nova doutrina previa combatentes atirando diretamente dos veículos, através de escotilhas, antes mesmo de desembarcar – quando iria precisar de mais munição.

Um novo cartucho vinha sendo estudado desde o início dos anos 1960. O desenvolvimento foi acelerado conforme se observava a tendência, entre as principais potências do Ocidente, da adoção do calibre .223 (Remington)/5.56 (NATO) – que vinha sendo introduzido paulatinamente desde o Vietnam. O novo projétil, cujo modelo definitivo entrou em produção apenas em 1974, já estava disponível, para testes de campo, por volta de 1967. Recebeu a notação M74, e aos poucos deveria substituir o M1943. Isso levaria, claro, alguns anos – até porque não havia arma para ele.

O novo cartucho tinha características bastante diversas do M1943. O projétil, totalmente jaquetado, é bastante leve, pesando cerca de 3,2 gramas. Manteve a filosofia boat-tail, feito de aço, com uma curta seção frontal de chumbo, recoberto por uma jaqueta de cobre. Entretanto, o conjunto não alcança a ponta da jaqueta, de modo que uma pequena quantidade de ar fica presa naquele ponto.

Trata-se de um desenho muito pouco usual. A deformação da ponta oca da jaqueta, provocada pelo impacto do projétil contra o alvo, em teoria, desbalanceia o conjunto e o faz mudar de direção enquanto percorre a seção de trajetória dentro do alvo. No caso do corpo humano, isso potencializaria a capacidade de provocar ferimentos graves. Essa teoria nunca foi exatamente provada, e, segundo estudos realizados nos EUA e Inglaterra, o projétil 5.45 não produz ferimentos maiores do que seu equivalente ocidental, o 5.56 mm. A carga de pólvora química alojada no estojo de 39 mm, redesenho do M1943, de menor diâmetro, teve de ser diminuída, e provocava, ao ser detonada, uma quantidade de energia mais baixa, mas suficiente para imprimir ao projétil uma velocidade inicial de 900 m/s ao deixar o cano de 41,5 cms, mantendo um alcance eficaz de 300 a 350 metros.

O fuzil desenhado para usar o novo cartucho começou a ser distribuído em 1974,  embora os estudos de projeto tivessem começado, segundo a maior parte das fontes, em meados dos anos 1960. Os testes começaram no fim da década, e, curiosamente, o mais convencional dentre os avaliados era exatamente o apresentado pelo bureau de Kalashnikov. O protótipo, denominado A-3 é, basicamente, um AKM redesenhado para utilizar o cartucho de potência intermediária. A explicação parece simples: embora outros bureaus de projetos tivessem apresentado protótipos bem inovadores, e um desses tivesse sido considerado muito bom – o AS-006 Konstantinov – o A-3, sendo cópia redesenhada do AKM, não criaria problemas de produção industrial e poderia utilizar o ferramental já existente. Também foi levado em conta que o funcionamento do fuzil já era bem conhecido entre os mais de 3 milhões de militares soviéticos.

Inicialmente, o AK-74 foi distribuído para utilização pela infantaria motorizada da União Soviética. O *sistema de operação por recuperação de gás é idêntico ao da geração anterior, inclusive nos detalhes do pistão recuperador, ferrolho rotativo e ausência de válvulas de sangramento de gás. Embora guarde um alto nível de comunalidade com os AK da geração anterior, no que tange às peças, o AK-74 apresenta modificações significativas com relação a seus antecessores. A primeira e mais notável é o peso: vazio, o modelo padrão tem exatos 3 quilos, que aumentam para 3, 4 depois de receber o carregador (feito em fibra de vidro de alto impacto, com uma estranha coloração marrom-avermelhada) com 30 cargas de munição. 

O cano, cujo interior é cromado, foi redesenhado, e o raiamento, devido ao calibre e potência da munição, modificado, embora o giro continue sendo para a direita. Em função da potência da munição, o freio de boca aumentou de tamanho. Apresenta duas frestas à frente de três orifícos laterais, posicionados de modo que o sangramento de gás atue para evitar que a arma corcoveie em demasia. Essa *peça, rosqueada na parte anterior do cano, também cumpre o papel de supressor de chama. O sistema de pontaria foi modificado, com o redesenho da alça de mira. Sob o cano, um sistema de suportes combinando alças duplas e um trilho simples permite a instalação de uma baioneta- padrão tipo 6H4 (semelhante à usada no AKM) e lança-granadas de 40 mm BG-15 (o mesmo usado no AKM) ou GP-25.

Nas primeiras versões, a coronha e empunhadura posterior (“de pistola”) eram feitas em fibra de vidro de alta resistência. Uma versão destinada à distribuição entre tropas aerotransportadas surgiu quase imediatamente: o *AKS-74. É um AK-74 com uma coronha dobrável, embora de desenho diferente da anterior de arame de aço. O objetivo seria facilitar o transporte em aeronaves e em condição de salto. Essa versão tornou-se muito popular entre a infantaria blindada: dentro dos então quase onipresentes *BTR-60 e *70, onde se acotovelam até 14 combatentes, além dos três tripulantes, há muito pouco espaço disponível.

No geral, o AK-74 cumpriu sua função. Extensivamente testado na desastrosa guerra do Afganistão, diversas versões foram surgindo, acrescentando detalhes que tornavam a arma mais versátil, como diversos tipos de adaptadores para visores noturnos, novos materiais (polímeros) para a coronha e as empunhaduras, e pequenos redesenhos no freio de boca. Em 1979 uma versão encurtada, o AK-74U começou a ser distribuída, visando cumprir o papel de submetralhadora (experiências similares foram feitas pelos norte-americanos no Vietnam). O encurtamento radical do cano, reduzido à metade (210 mm) criou diversos problemas de tiro e acabou obrigando um redesenho com alteração do regime de torção do raiamento (o número de voltas que o projétil faz dentro do cano). O desenho e posição da alça de mira também foram modificados, em função do encurtamento da arma e de seu alcance.

No início dos anos 1990, a versão final, denominada *AK-74M (de Modernizirovanniy ou “modernizado”) se tornou padrão no exército russo e das nações da Comunidade de Estados Independentes. Essa versão incorporou grande número de peças em polímero, inclusive uma coronha dobrável que se tornou padrão. Um pouco depois, uma série conhecida pelos especialistas como “centurial”, por incluir o números da série 100 na notação, foi lançada, destinada principalmente à exportação: os AK-101, AK-102, AK-103, AK-104 e AK-105. Adotam diversos calibres e têm conseguido boa penetração no mercado internacional. Por sinal, dentre as diabruras que fazem de *Hugo Chavez o espantalho favorido de nossa vibrante imprensa, uma das maiores foi adquirir 100.000 unidades da versão AK-103, que utiliza a munição M1943. Parte da compra deverá ser produzida em uma fábrica local (na foto, o travesso empunha um AK103 de fabricação russa).

Como se vê, a linhagem AK está longe de terminar e mesmo na Rússia, sua “pátria-mãe”, diversas outras armas têm surgido e sido sistematicamente recudas pelas forças armadas nacionais::

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::Um AK de ouro::

Na foto aquele que é, possivelmente, um dos AKs mais famosos, dentre os mais de 50 milhões fabricados (de fato, um AKS da primeira versão, o que se pode notar em função da ausência de freio de boca e de rebites na caixa da culatra): o AK de ouro de Saddam Hussein. Foi encontrado durante a operação Endurance Freedom, depositado num museu saqueado pelos militares norte-americanos, na capital iraquiana. Existem diversas explicações para a origem da arma: a mais plausível diz que teria sido presente dos soviéticos. Faz sentido: Saddam foi um dos melhores clientes dos armamentos oferecidos pela URSS. Na empunhadura dianteira da arma pode-se ver uma chapa de prata com as armas iraquianas e a inscrição “Ao senhor presidente da República do Iraque”. Na realidade o fuzil é folheado a ouro por processo eletroquímico, e não poderia ser de outra forma. O ouro não serve como material para armas de fogo, já que derrete em uma temperatura relativamente baixa. De fato, o ditador iraquiano parecia a-do-rar armas de ouro; foram tantas as encontradas lá que os americanos puderam até presentear seus aliados com algumas delas::

Cultura material militar::A linhagem AK::

No posto anterior, que abriu o assunto, vimos alguns detalhes sobre a história do fuzil de assalto AK-47. Opa! AK-47? Não. Nada disso. Esse é um dos erros mais comuns, no que diz respeito a notação do Avtomat Kalashnikova modelo 1947: de fato, as forças armadas e policiais da antiga URSS denominam a arma de AK, simplesmente, e acrescentam mais uma ou duas letras que designam os diversos modelos. Portanto, os (mais ou menos…) oito leitores de causa:: ficam proi-bi-dos de chamar essa venerável peça de engenharia militar de AK-47. Como chamá-la? Bom, veremos adiante, na parte 2::

parte2O fuzil automático de Kalashnikov, modelo 1947 foi adotado no ano de 1947 (quanta inteligência aqui do redator, hein?..). Entretanto, isso não significa que, seis meses depois de tomada a decisão, cada militar soviético estivesse com um deles à bandoleira. Nos 15 meses seguintes foram tomadas providências políticas, organizativas e industriais para que a arma começasse a ser fabricada em massa. A distribuição para as tropas só começou na primeira metade de 1949, e mesmo assim em números bastante modestos – claro, para os padrões da gigantesca máquina militar soviética de então. A produção iniciou-se na enorme Fábrica de Máquinas deIzhevsky, conhecida como  Izhmash (embora enfrentando sérios problemas financeiros, ainda uma das principais instalações industriais de fabricação de armas da Rússia), mas logo se espalhou por diversas outras instalações industriais nas repúblicas soviéticas e nos países da esfera de influência de Moscou.

Tecnicamamente falando, todas as armas da linhagem AK são fuzis de assalto de fogo seletivo, operados por recuperação de gás. É feito principalmente em aço estampado e usinado (o cano e certas partes do bloco de culatra) e madeira laminada (a coronha, o punho de pistola e a empunhadura do cano). Isso resulta num conjunto que, sem a munição, pesa, vazio, 4.300 gramas; introduzidas as 30 cargas de munição M1943, o peso da arma sobe para 4.875 gramas. O comprimento total do conjunto é de 87 centímetros, sendo que o cano ocupa 41,5 centímetros. O alcance efetivo (distância em que o projétil ainda conserva energia para penetrar obstáculos de alguma dureza) é de cerca de 800 metros (dada a velocidade de saída do projetil, de 715 m/s); o alcance útil é de uns 400 metros em modo semi-automático, caindo para 300 se o seletor estiver em modo automático. 

O princípio de operação de toda a família AK é a recuperação de gás (veja aqui um excelente corte do AK, mostrando as peças internas)- por sinal, o mesmo princípio usado pelo fuzil de assalto alemão StuG-44 (observe, nesta foto, detalhes do fuzil de assalto alemão). Como todo leitor de causa:: já sabe na ponta da língua, uma arma de fogo funciona pela expansão violenta de gás resultante da explosão de um propelente – pólvora química, no caso. A expansão do gás impulsiona o projétil, mas boa parte dela se perde no recuo da arma e no “sangramento”, ou seja na perda resultante da saída através dos espaços abertos da arma. As armas automáticas e semi-automáticas funcionam todas por princípios que aproveitam parte dessa energia para rearmar o sistema (coisa que, em armas de repetição, é feita pelo próprio atirador). No caso da “recuperação de gás”, parte desse, que acompanha o projétil até a boca, entra por uma válvula situada na seção superior do cano. Essa válvula dá acesso à um tubo onde se encontra instalado um pistão, ligado por uma haste ao bloco da culatra. O recuo do pistão empurra o conjunto do bloco para trás, e aciona uma peça chamada “ferrolho”. Trata-se de um bloco de aço que, parado, é mantido no lugar pela pressão de uma mola, e mantém a câmara vedada por estar firmemente justaposto às paredes da caixa de culatra (em inglês, essa parte da arma é chamada receiver). Ao ser empurrado, para trás, o ferrolho expõe a câmara da arma, e retira o cartucho vazio (por meio de uma peça chamada “extrator”), que é ejetado através de uma janela que se abre na caixa de culatra. Outra carga é “puxada” para dentro da câmara pelo movimento do bloco e com a ajuda de uma mola instalada no carregador, para então ser empurrada para a posição pelo movimento contrário do bloco, que outra vez veda a câmara (quando da explosão da carga, a vedação é implementada pela deformação das paredes do cartucho). No caso do AK, o pistão tem um curso longo (também é o caso do StuG-44), pois ao longo do percurso a pressão do gás diminuí e, por consequência, o impacto do recuo também, além de mitigar o desgaste das peças. Existem diversos métodos de funcionamento do ferrolho. No caso do AK, trata-se do “ferrolho rotativo”: como diz o nome, uma peça de metal com função de abrir e fechar a câmara. Quando essa peça recua, faz um giro parcial sobre seu eixo; no retorno, o giro se dá no sentido inverso. Os “ciclos de tiro”, ou seja, a  quantidade de vezes que o sistema repete esses movimentos, permitem uma cadência máxima (em condições de laboratório) de 600 salvas por minuto, em modo automático; em modo semi-automático, um bom atirador consegue disparar até 90 salvas por minuto.  Para selecionar  os modos de fogo, basta que o atirador modifique a posição de uma alça situada do lado direito da arma, exatamente acima do gatilho. Essa alça é uma das características mais interessantes do AK – foi redesenhada a partir de uma arma de origem norte-americana. o Remington modelo 8. Quando deslocada para cima, interrompe a trajetória da alavanca de armar (que prepara a arma para o tiro); quando abaixada, a alça libera a alavanca e torna-se o seletor de modo. A pontaria, por sua vez, é feita através de uma alça de mira regulável, graduada de 100 até 800 metros, instalada na parte anterior da caixa da culatra.

Diversas peças do mecanismo do AK, assim como o cano, são cromadas. Essa providência destina-se a diminuir o desgaste provocado pelo gás da explosão da carga, altamente corrosivo. A cromagem também aumenta a durabilidade do conjunto por diminuir a necessidade de manutenção do equipamento. Outro ponto que ajuda é a distância entre as peças, calculada para diminuir o atrito e permitir melhor lubrificação. Todas essas características dão ao AK uma espantosa capacidade de  funcionar em condições adversas: fala-se em armas que, no Vietnam, passavam seis meses sem ser limpas.

A primeira produção do AK encontrou diversos problemas, principalmente relativos aos processos industriais. A fabricação das peças da caixa de culatra revelou-se muito problemática. A peça principal, que constituía o corpo da caixa era estampada, feita em prensas hidraulicas de alta pressão. Algumas peças internas (guias e trilhos que colocavam e mantinham o conjunto ferrolho-extrator no lugar)  tinham de ser soldadas, e o processo resultava mal-acabado. Muitas armas do primeiro lote simplesmente não funciovam e eram rejeitadas. A decisão de interromper a produção seria antes de tudo política, de responsabilidade do Comissariado para a Defesa do Povo, e poderia ter sérias consequências. A opção foi continuar a produção, usando peças de metal usinadas, processo que se mostrou complicado e caro. Entretanto, os engenheiros do arsenal Izhmash (talvez com medo de acabarem no gulag), tiveram uma idéia brilhante: aproveitar os métodos e máquinas-ferramentas usados na fabricação da caixa de culatra dos fuzis de repetição Mosin-Nagant, que tinha semelhanças técnicas com as peças do AK. A idéia funcionou (sorte deles – ainda era a época de Stalin…), a produção do fuzil foi acelerada, mas a distribuição estava comprometida: só iria alcançar números razoáveis a partir de 1956. O peso do conjunto  também aumentou consideravelmente, dadas as diferenças estruturais entre peças estampadas e usinadas.

A versão standart do AK foi logo seguida por outra, de notação AKS, o “S” significando Skladnoy, ou “dobrável”). Era o mesmo AK, mas dotado de uma conhonha rebatível, feita em arame de aço, que se recolhia ao longo da caixa de culatra e empunhadura do cano. Essa versão, que pesava quese um quilo a menos do que a de coronha fixa, destinava-se à distribuição para tropas paraquedistas e motorizadas, e teve os mesmos problemas que a outra versão.

O desenvolvimento do AK e sua distribuição revelaram diversos problemas não apenas com a arma, mas com os processos de fabricação. A partir da modificação dos processos industriais, que resultaram na melhoria de desempenho e permitiram a distribuição em grandes números, novos aperfeiçoamentos foram sendo introduzidos. Os métodos que corrigiram os defeitos de fabricação dos primeiros lotes, foram simplificados, e marcaram o início do redesenho da arma, iniciado em 1957 e aceito em 1959, como AKM (o “m” significando modernizirovanniy ou “modernizado”).

A primeira e mais marcante modificação foi a adoção do processo de estamparia para a fabricação da caixa da culatra. Essa providência destinou-se a diminuir o peso do AK, e foi muito bem sucedida: o peso do conjunto diminuiu em quase 1 quilo. Entretanto, os desenhistas temiam que a resistência da caixa diminuisse, de modo que uma seção tubular cruzada, destinada a reforçar a resistência estrutural. O principal ganho da adoção da caixa de culatra estampada foi a possibilidade de instalar as peças de fixação da mola e do cano através de rebites, enquanto no AK essas peças eram aparafusadas. O aperfeiçoamento de processos de solda elétrica sob pressão permitiram a instalação precisa das guias do ferrolho/ejetor. Diversas outras medidas para economia de peso foram tomadas, utilizando-se, onde fosse possível, materiais mais leves e peças de menor espessura. A coronha também recebeu um compartimento oco, destinado a diminuir o peso do conjunto. Outra inovação foi um freio de boca, destinado a aumentar a estabilidade da arma no momento do tiro.

Fora essas diferenças, o AKM e o AK eram iguais, tanto é que diversas peças eram intercambiáveis. A nova versão do fuzil tinha todas as qualidades da anterior, e tinha tido a maioria dos defeitos resolvidos. O AKM tornou-se arma padrão das forças armadas e policiais da URSS e rapidamente começou a ser distribuído para os países aliados. No caso da China, então em ótimas relações com os soviéticos, os planos do AK foram repassados ainda em 1956, razão da arma ser lá conhecida como “Fuzil automático Tipo 56”. Não se sabe exatamente quantos “Tipo 56” foram fabricados na China, mas parte considérável deles foi exportada para países do Terceiro Mundo. A maioria dos AK que surpreenderam os combatentes norte-americanos no Vietnam eram de origem chinesa. Uma diferença marcante entre o AK e o “Tipo 56” era a baioneta, que diferia, entre o original russo e a cópia chinesa: nesta, o equipamento era fixo, sendo girado para trás quando não em uso. Os chineses também logo passaram a produzir o AKS, que recebeu a notação “Tipo 56-I” Em meados dos anos 60, os chineses começaram a fabricar (sem auxílio nem permissão dos russos) uma versão semelhante ao AKM, de notação “Tipo 56-1”. Os três tipos produzidos na China podem ser vistos aqui. Note que o do meio é um “Tipo 56” original, que se reconhece pela ausência do freio de boca.

Calcula-se que, entre todas as unidades e versões fabricadas, existam mais de 50 milhões de AK e AKM espalhados pelo mundo, o que significa que um em cada três fuzis de assalto existentes sejam Kalashnikov. A arma ainda está em pleno uso, e provavelmente continuará, ainda por muito tempo. A eficácia dessa peça de engenharia mecânica e militar já foi mais que comprovada, e a torna uma das mais importantes armas já projetadas e fabricadas, em qualquer época. O que não impediu que o tempo a tornasse ultrapassada. O problema talvez nem seja propriamente a arma em si, mas o calibre: o cartucho M1943, apesar de sua eficácia e confiabilidade, é pesado e, apesar das características, ainda muito potente. Por volta de meados dos anos 1960, os soviéticos já estavam trabalhando no desenvolvimento de um cartucho de menor calibre. Mas falaremos nisso na parte3::