Atualizando os velhos camaradas e uma notícia estapafúrdia::

Estava eu inventando desculpas para não começar a trabalhar (não vivo do causa::, infelizmente, mas quem sabe um dia…), quando tive a idéia de visitar o ótimo blogue do Comandante James Bond (i.e. MBSantigo Jr), e tive a surpresa de descobrir que, mais uma vez, o Comandante mudou de endereço. Não tem problema – dentre os que conheço, ainda é o melhor redator de blogues: elegeu um objeto inusitado, os temas abordados são interessantes e sobretudo, os textos são muito bem escritos e complementados. O comandante Bond sempre gostou muito de falar de armamento, e fala bem, principalmente porque consegue a proeza de colocar bom humor num assunto que pode ser tudo, menos bem humorado. Esta característica sempre me desperta uma vontade danada de comentar os postos específicos, e, desta feita, encontrei dois deles. Não que discorde do conteúdo, mas porque fico achando que poderia, quem sabe, acrescentar alguma coisa (é inveja, mesmo  – quem quiser dar uma olhada, clique aqui e aqui, leia o texto e, em seguida, vá até os comentários). O fato é que, procurando dados para complementar meus comentários, acabei dando de cara com um que achei extremamente interessnte. Pois é – passo ao assunto, com o devido reconhecimento do comandante Bond::

É fato que a União Soviética foi, durante as décadas posteriores à 2ª GM, foi a maior produtora de armas do mundo. Os EUA ficavam em segundo lugar, mas não exatamente porque abominem as armas e amem a paz, mas porque seus aliados, notadamente Inglaterra (terceirona) e Alemanha (a partir dos anos 1960, quarta, com honras), as produziam em quantidades mais do que suficientes. A URSS, ao contrário: tinha de equipar seus mais de três milhões de militares e mais de um milhão de policiais militarizados, e suprir boa parte das necessidades dos cerca de dois milhões de militares de seus aliados do Pacto de Varsóvia.

A questão é que, desde antes da guerra, os planejadores soviéticos, seguindo as diretrizes emanadas da ditadura stalinista, colocaram muita ênfase na indústria militar. Não é por outro motivo que, em 1939, os soviéticos tinham mais tanques, peças de artilharia e aeronaves do que qualquer outro país, inclusive a Alemanha. Por sinal, a Alemanha não seria termo de comparação – as FFAA soviéticas eram três vezes maiores do que as alemãs.

Foi o planejamento centralizado, implantado no final dos anos 1920, que permitiu, através do direcionamento dos recursos disponíveis, fortalecer certos ramos da produção em detrimento de outros, e certas regiões, em detrimento de outras. Numa economia capitalista, as demandas do mercado indicam para onde se voltam os investimentos e a competição determina o dinamismo econômico; numa economia socialista, os investimentos são decididos de antemão, segundo o que seriam, na opinião dos planejadores, as necessidades da sociedade como um todo. A “coletivização da agricultura”, uma espécie de reforma agrária feita à ponta de baioneta, é um exemplo radical de como funcionou essa coisa. A reorganização da agricultura liberou, em cinco anos, recursos que se encontravam presos, de forma arcaica e improdutiva, nas inumeráveis propriedades pertencentes a milhões de camponesses, que não tinham sido atingidos pela Revolução de 1917 e ainda continuavam numa economia de base capitalista e especulativa. Isso significou que terras cultiváveis, gado, fontes de água, áreas potencialmente produtoras de madeira e minerios, foram desapropriadas, e a mão-de-obra excedente, desalojada pela racionalização da produção agrícola, extrativista e minerária, foi deslocada para outros setores da produção, notadamente a indústria. Esses recursos entraram no circuito econômico repentinamente, e permitiram um notável surto econômico. Por outro lado, e ao mesmo tempo, esse processo provocou uma verdadeira epidemia de fome em regiões que, apesar da miséria endêmica, não conheciam a escassez de comida. Os “Planos Quinquenais”, que aconteceram junto a esse processo, estabeleceram metas de produção, que eram pensadas paralelamente às metas econômicas.

Deu certo? Deu: em uma década, o PIB sovietico cresceu mais de cem por cento. O dinamismo soviético impressionou até mesmo grandes capitalistas norte-americanos e europeus. Por outro lado, o Estado determinava tudo (o que mais tarde revelou-se um problema), inclusive como seriam direcionados os investimentos públicos. A guerra enfrentada entre 1918 e 1920, que envolveu inclusive a participação de tropas estrangeiras, e vencida pelo recriado Exército Vermelho, organizado por Trotsky e por alguns oficiais militares convertidos ao socialismo, convenceu os novos governantes que, antes de qualquer coisa, a URSS precisaria de armas, e que não as conseguiria do exterior. Assim, desde antes da implantação dos “Planos Quinquenais”, foi posta grande ênfase naquilo que, hoje em dia, chamamos “indústria de defesa”. Depois da 2ª GM, a URSS, com grandes planos expansionistas, não chegou a desmobilizar suas enormes FFAA, até pelo contrário. O setor militar foi reforçado, e, em decorrência disto, também outros setores relacionados, particularmente a pesquisa básica, a pesquisa aplicada, as universidades e os laboratórios especializados. A vantagem inicial soviética na corrida espacial, por exemplo, deveu-se à pesquisa desenvolvida para conseguir vetores funcionais que levassem até o território norte-americano as bombas nucleares conseguidas no início dos anos 1950. Os lançamentos de satélites e de “cosmonaves” conduzindo animais e, pouco depois, homens, deveram-se aos testes com sistemas que permitissem calcular de modo eficaz as trajetórias e pontos de impacto dos vetores, bem como monitorá-los e influir nas diversas fases do vôo. Ou seja: a corrida espacial é um produto da corrida armamentista que caracterizou a Guerra Fria. A superioridade inicial dos soviéticos devia-se a necessidades militares prementes, as quais os norte-americanos, inicialmente, pensavam não ser preocupação.

O fato é que a sociedade soviética era, bem mais que as ocidentais, uma sociedade altamente centralizada e burocratizada – quer dizer, a aplicação das decisões implicava numa capilaridade perversa (a expressão é do teórico alemão oriental Rudolf Bahro, no livro Crítica ao Sorex – Socialismo Realmente Existente). Segundo esse teórico, que conseguiu a proeza de ser dissidente nas duas Alemanhas, numa ordem dominada pelo aparato do estado e do partido, que monopoliza todo o poder, e que sufoca a vitalidade da ordem econômica e social, por sufocar a prática política, a posse dos meios de produção significou, simplesmente, seu controle pela máquina do estado.  Dizendo de outra maneira, o planejamento centralizado poderia até ser eficiente para certos aspectos da organização econômica, mas não chegou a resolver certos nós da economia propriamente dita.

Um desses nós é que, no capitalismo, a competição determina o dinamismo econômico: as indústrias querem, em última análise, lucrar, e, independente das explicações teóricas, na prática isto só acontece se os produtos forem vendidos. A inovação acaba sendo fator determinante no processo como um todo, pois possibilita melhores produtos para enfrentar a competição. Na sociedade socialista, em princípio, o Estado seria o dono de tudo, o que tornaria quase desnecessária a competição. Existia, é claro, um “mercado socialista”, balizado – pelo menos segundo os teóricos socialistas – pelas reais necessidades da sociedade. Na prática, o que aconteceu, de fato, é que o “planejamento socialista” criou uma burocracia gigantesca, cuja função última era manter o poder político. Boa parte desse enorme conjunto de funcionários acabava por duplicar (quando pouco…) o trabalho das outras partes, e gerava, no processo, enorme ineficiência. Não é que faltasse recursos – estes existiam, até em boas quantidades, mas eram mal distribuídos ao paradoxo; não é que a mão de obra fosse de baixa qualidade – o problema era a política de “pleno emprego socialista”, que impedia o gerenciamento eficaz do trabalho; não é que os produtos fossem mal concebidos – o problema é que entre a prancheta e a fábrica, o processo era de tal forma complexo, confuso e desorganizado que acabava sendo mais simples colocar um satélite em órbita do que produzir bicicletas de boa qualidade.

Tudo acabava na dura realidade de que os países socialistas – URSS à frente – apesar dos feitos no campo social, não conseguiam nem chegar perto dos padrões econômicos do Ocidente, embora tivessem igualado e, em certos casos, até superado os ocidentais em áreas como a educação, as ciências puras, certos ramos da medicina, da produção agrícola, e por aí vai. Uma questão discutida até a exaustão entre os comunistas de todo o mundo era o motivo da União Soviética não conseguir igualar a qualidade de vida dos países capitalistas em coisas simples como, por exemplo, a distribuição de bens de consumo. As explicações por vezes chegavam a ser pueris – “na URSS as pessoas são mais conscientes da necessidade de  fazer sacrifícios” ou “na URSS todos tem suas necessidades resolvidas, de modo que não sobra muito para os gastos conspícuos e suntuários”. O fato que não podia ser amplamente debatido é que o ambiente de liberdade não apenas incentivava a competitividade como a criatividade. No Ocidente, não eram apenas os artistas que podiam fazer o que bem entendessem, mas também os pensadores e cientistas. Na URSS, a partir do stalinismo, o estado se metia a determinar até mesmo o que era “arte socialista”, e chegaram a absurdos como tentar estabelecer a existência de uma “biologia dialética”, em oposição à uma “biologia burguesa”. O fato é que nem todo mundo se dispunha a achar aceitável o horrível “realismo socialista” ou tentar encontrar a dialética na natureza, e daí, milhões de pessoas tornavam-se pouco confiáveis aos olhos dos detentores do poder. O resultado é que o estado desconfiava de tudo e a sociedade era estritamente vigiada. Após a desestalinização da era Khrushchev (1953-1964), certas bobagens, embora não admitidas oficialmente, passaram ser toleradas, como o contrabando de músicas dos Beatles – que eram extremamente populares entre a juventude soviética -, o uso de calças blue-jeans fabricadas a partir de macacões distribuídos aos operários e a leitura de histórias em quadrinhos francesas e alemãs. Mas os aspectos falhos do socialismo não podiam ser debatidos, pois perigava de se chegar até os nós do regime, tais como o excesso de centralismo, a burocracia como entrave ao planejamento e a má organização econômica como razão para a incapacidade distributiva. A ideologia, veiculada através do aparelho de estado acabava por explicar tudo. Claro que havia ideologia na sociedade ocidental, mas esta transitava dentro de limites bem mais estreitos que na União Soviética e o amplo debate, por vezes autofágico, tornava mais difícil o controle da opinião – e da criatividade.

A ineficiência soviética manifestava-se até mesmo nas áreas do mais alto interese do estado. Um dos ramos da indústria que, internamente, era menos ineficiente era a indústria de defesa. Durante a 2ª GM, a URSS deu uma demonstração de vontade coletiva e determinação que certamente será difícil de encontrar em outros eventos, ao longo da história. Por outro lado, é sempre preciso esclarecer que, não fosse o apoio dos aliados, notadamente dos EUA, a URSS provavelmente teria sucumbido. Mas o apoio aliado se deu principalmente em termos de alimentos, matérias primas e insumos (por exemplo, enorme quantidade de gasolina de aviação e lubrificantes de vários tipos, bem como produtos químicos diversos foram cedidos à União Soviética ao longo da guerra). Os equipamentos bélicos (tanques, aeronaves, armas pesadas e individuais, munição) e outros equipamentos foram fabricados pela indústria soviética, cuja eficiência e capacidade de improvisação tornaram-se quase lendários.  Terminada a guerra, as forças soviéticas tinham um efetivo de aproximadamente 15 milhões de homens e mulheres (e crianças, já que adolescentes de até 13 anos foram convocados), mas estavam também equipadas com 40.000 tanques, 80.000 veículos blindados de todos os tipos, 100.000 canhões de todos os tipos, 700.000 veículos não protegidos, cerca de 30.000 aeronaves de todos os tipos, aproximadamente 300 belonaves de primeira linha (dentre as quais 150 submarinos) e 2.000 outros navios de uso militar. Os especialistas concordam que oitenta por cento desta quantidade saiu de linhas de produção soviéticas. Outras fontes dizem que boa parte dos caminhões e outros veículos não protegidos foi também fornecida pelos EUA. O importante, no caso, é que quando as hostilidades se encerraram, praticamente os únicos setores da produção soviética que estavam plenamente organizados eram aqueles voltados para suprir as necessidades militares. Existiam instalações industriais gigantescas, organizadas segundo um processo semelhante ao fordismo, denominado “stakhanovismo“, capazes de produzir em escala comparável a do Ocidente.  Um exemplo espetacular é a cidade de Chelyabinsk, sítio de inúmeras indústrias metal-mecânicas e químicas instaladas nos anos 1930. A partir de 1941, a lugar começou a receber as plantas industriais responsáveis pela produção do tanque médio T34, e rapidamente as indústrias locais voltaram-se para atender exclusivamente ao fabrico do blindado, que, durante toda a guerra, chegou a números de quase 50.000 unidades.

Uma dessas fábricas gigantes é a IZH, também conhecida como “Izhmash”. Situada na cidade de Izhevsky, esta indústria metal-mecânica foi fundada em 1807 e estatizada em 1928. Sempre associada à fabricação de armas leves, Izhmash tornou-se, durante a 2ª GM, a principal fornecedora de armamento individual para os expercitos da URSS. na segunda metade dos anos 1940, com as submetralhadoras descontinuadas, a empresa voltou-se totalmente para a produção do fuzil de assalto Kalashnikov AK47 e todas as suas variantes. Calcula-se que, dos 80 milhões de AKs existentes (algumas fontes falam em 100 milhões), algo em torno de 55 milhões tenha saído das linhas da IZH. Desde a guerra do Vietnã, essa arma encontra-se nas mãos de praticamente todos os combatentes de guerrilha e milicianos do mundo, além, claro, de milhões de combatentes e policiais regulares (causa:: já publicou um longo estudo sobre essa venerável família de armas de infantaria).

Qual a razão da existência de tantos AKs? Segundo especialistas da própria Rússia, o temor perene de uma guerra com o Ocidente, principalmente a partir dos anos 1950, fez com que a URSS investisse na indústria de defesa enorme quantidade de recursos. Depois do fim da 2ª GM, enquanto o Ocidente, em particular a Europa, procurava desmobilizar rapidamente suas FFAA, a URSS manteve as dela, como forma inclusive de manter quietas as populações dos países, em sua esfera de influência, tornados socialistas. Desde o período stalinista, as forças armadas soviéticas, por qualquer padrão, eram, mesmo em tempo de paz, gigantescas. Em caso de guerra – guerra que, segundo as lideranças, era sempre iminente – o país deveria ser capaz de mobilizar rapidamente milhões de reservistas, o que significava dar-lhes armas e equipamentos muito rapidamente. Foi assim que a produção de equipamento bélico cresceu de modo exponencial. Um motivo que deu argumentos às lideranças comunistas foi a Guerra da Coréia. Embora os chineses tenham se saído bastante bem em garantir a sobrevivência do regime norte-coreano, pareceu claro que apenas uma grande quantidade de tropas mobilizadas rapidamente e se deslocando em alta velocidade poderia compensar a arrasadora superioridade aérea do Ocidente. Ainda assim, a vantagem chinesa, conseguida conseguida através da rápida intervenção de mais de 300.000 “voluntários” através da fronteira, dependeu de um fluxo constante de armas e munições, inclusive várias centenas de aeronaves inicialmente pilotadas por soviéticos depois, por chineses. A quase totalidade das armas era proveniente dos enormes estoques que tinham “sobrado” da “Grande Guerra Patriótica” (como o soviéticos chamavam a 2ª GM): submetralhadoras PPSh, tanques T34, canhões ZIS-3 de emprego geral, foguetes Katyusha montados em caminhões GAZ. Tal procedimento não deve provocar estranheza, porque os EUA fizeram exatamente a mesma coisa: lutaram com os estoques de armas estocadas desde a 2ª GM. Apenas a partir da metade do conflito algumas novidades foram sendo introduzidas. Só que as novidades soviéticas dificilmente chegavam aos seus aliados orientais, em função da desconfiança que sempre atravessou as relações sino-soviéticas.

Como já vimos aqui mesmo no causa::, o AK47 surgiu em 1947 mas levou pelo menos dez anos até chegar às mãos das forças regulares em números consideráveis. A partir de 1956, a produção começou a crescer, conforme a arma passou a equipar as FFAA dos países satélites, geralmente produzidas pela própria indústria local. Ainda assim, ao longo de trinta anos, uma quantidade astronômica saía da Izhmash, boa parte da qual acabou em depósitos. Esses depósitos foram parcialmente esvaziados ao longo da Guerra do Vietnã – ao contrário do que parece, a maioria das armas utilizadas pelo Vietnã do Norte era de origem soviética, e não chinesa. Bem antes de 1974, quando começou a difusão do AK74, as armas estocadas já eram distribuídas para exércitos de países do Terceiro Mundo, nos quais a URSS buscava influência. Assim, todas as nações do Oriente Médio receberam grandes quantidades do fuzil soviético e algumas delas, como o Egito se tornaram capazes de produzir cópias autóctones; a Índia recebeu enormes quantidades, e depois passou a fabricá-las localmente; Bangladesh poderia não ter lá muita comida para seus 140 milhões de habitantes, mas tinha muitos AKs fornecidos pela URSS e pela Índia; Iraque, Sudão, Nigéria, Angola, Moçambique, Rodésia, Iran, etc., etc., beberam todos nas enorme capacidade soviética de produzir AKs de todos os tipos. Os movimentos insurrecionais também, mas a maior parte das armas soviéticas que lhes chegavam era fornecida através de traficantes, que constituiam uma espécie de versão eficiente da tal “capilaridade perversa”.

Com a crise da URSS, o fim da política de disputa global com os EUA e a crise econômica que comprometeu todos os ramos do estado soviético, a Rússia já não tinha nem disposição nem recursos para financiar exércitos e movimentos insurrecionais pelo mundo. Ainda assim, os AK, fossem 47 ou 74 continuaram chegando em grandes quantidades aos interessados. Por outro lado, a incapacidade russa em subsidiar as vendas as fez cair notavelmente, isto somando-se ao fato de que o ex-bloco soviético também começou a desovar seus próprios estoques. Como a Izhmash não parou de produzir AK74 (o modelo 47 teve sua produção muito reduzida a partir dos anos 1980, mantida apenas uma linha voltada para exportação), a Rússia continuou a comprá-los. O que faz sentido, já que, na época, as armas de infantaria eram praticamente o único produto da IZH, que também produzia (e continua) outras armas militares, armas esportivas, carros e motocicletas. O fato é que a perda do mercado cativo da União Soviética criou enormes problemas para a empresa, e a Rússia continuou com os subsídios da época do comunismo.

O problema é que a Rússia não podia dar-se ao luxo de deixá-la falir ou ser comprada, a preço de banana, pela diretoria, como aconteceu por exemplo, com a indústria petrolífera e parte – a parte boa, lógico – da indústria química e da indústria mecânica). Izhmash, acredite se quiser, é agora praticamente a única fábrica de armas de infantaria da Rússia, pois as “filiais” que eram mantidas nas ex-repúblicas – por motivos exclusivamente políticos – passaram à propriedade dos novos governos. A ineficiência do processo mostrou, então, sua face real: não havia planejamento e  a direção da empresa insistia em manter a linha AK em produção sem levar em consideração a redução da demanda. A produção era mantida artificialmente alta, pois fossem quais fossem os números, as FFAA e as forças policiais as compravam, por determinação do governo.  Para piorar as coisas, o AK74 e suas variantes se mostravam ultrapassados desde os anos 1980. Diante da demanda das FFAA por uma nova arma, a empresa insistia em apresentar modelos que não passavam de variantes da família AK, que eram sistematicamente recusados pelas forças armadas.

No momento, a IZH está trabalhando em uma nova versão do AK, destinada a substituir todas as anteriores – esta seria denominada AK12. Segundo a empresa, os testes de campo, em unidades operacionais do exército de da marinha russos deverão se iniciar antes do fim do corrente ano. A questão é que Ministério da Defesa da Rússia tem mostrado muito pouco interesse pela nova arma, exatamente em função do fato de que se trata de uma maquiagem sobre o velho AK74 – a versão do AK para o cartucho 5.45X39 mm, que já acumula 38 anos de serviços. Embora a empresa – que atravessa sérias dificuldades desde os anos 1990 – afirme que se trata de um novo armamento, adaptado às demandas das modernas forças armadas e do moderno campo de batalha, projetada sem abandonar as qualidades que tornaram a família AK sinônimo de fuzil de assalto, especialistas têm dito que, de fato, se trata de um projeto muito parecido com o do AN94 Nikonov, um aperfeiçoamento do AK74 projetado nos anos 1980 por um engenheiro da própria IZH, e que acabou distribuído apenas para forças especiais. O que parecia eficiência era, um planejamento cronicamente ineficaz arraigado por todo o estado soviético. Além do “caso Nikonov”, houve também a maluquice do AEK.

Trata-se do fuzil de assalto AEK971, desenvolvido pela  empresa Usina de Fabricação de Máquinas Kovrov, ligada ao ateliê engenheiro S.I. Koksharov. A arma foi desenhada para participar do concurso “Abakan”, no final dos anos 1980, vencido pelo Nikonov. Apesar de ter sido desqualificado, o AEK971, que, de fato, já estava em produção, foi oferecido às forças policiais e para exportação. No início do século 21, pequenos lotes foram fabricados por encomenda do Ministério dos Negócios Interiores, que tinha suas próprias tropas, um grupo de forças especiais (Spetsnaz) especializadas em lidar com distúrbios civis, que teve importante papel em garantir o governo Gorbatshev, quando da tentativa de derruba-lo. A arma não “colou” de jeito nenhum, e quando a Krokov foi reestruturada, em 2006, deixando de fabricar produtos militares, o AEK acabou de vez, por não ter compradores nem usuários. Embora o governo tenha ordenado que o maquinário usado para a produção militar fosse transferido para outra empresa, na mesma cidade, a diretoria da AEK, tendo “adquirido” a fábrica, recusou-se a executar a transferência, sob a alegação que se tratava de patrimônio privado. O AEK, como não podeia deixar d ser, era outro clone maquiado do AK74.

O fato é que se fala cada vez mais, nos círculos profissionais de defesa da Rússia, na necessidade de um fuzil de assalto totalmente novo. Como o sistema Future soldier já está sendo discutido lá, tanto quanto nos EUA, França, Alemanha, Inglaterra e até mesmo no Brasil, a questão do armamento individual torna-se premente. Mas o que fazer com as quantidades oceânicas de AKs em depósito? Planejadores do Exército declararam, ano passado, que a quantidade de AK74 era “mais de dez vezes superior às necesidades das forças armadas e policiais pelos próximos anos”, citaram números  de 17 milhões de exemplares. Em função desse excesso, e do desenvolvimento, em curso de uma nova arma individual, que deverá substituir todo o armamento das FFAA russas, a aquisição de unidades novas de fábrica foi interrompida, por determinação do Chefe do estado Maior Geral das FFAA russas, general de exército Nikolai Makarov. Por enquanto, a “nova” arma é o AK200, que não passa de outra versão do AK74, com algumas novidades visando fazê-la parecer mais moderna, e já pensando na provável recusa do AK12::

O projeto FX: a mais longa novela já escrita no Brasil::parte 3::

O capítulo de hoje da novela, apresentará aos bloguespectadores fanáticos alguns coadjuvantes, que certamente trarão ação e emoção ao roteiro. Trarão, não. Já estão trazendo. Vamos ao capítulo 3, pois então::

Apesar de residir em Belo Horizonte faz alguns anos, eu continuo lendo, quase diariamente, jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Alguns diriam que se trata de exercício de uma personalidade masoquista, e eu tenderia a concordar, pois ler “O Globo” ou a “Folha de São Paulo” costuma a ser, seguramente,  meio caminho andado para uma bela azia. A implicância desses órgãos da imprensa escrita com o governo federal é notável, e já tivemos bons exemplos disso. Não é o caso de listá-los, e nem de querer que os nove ou dez assíduos concordem comigo – afinal, alguns desses me qualificam de “lulopetista” (seja lá o que for isto…) e não concordarão mesmo. Nessa lista de assuntos, um dos que tendo a acompanhar com maior atenção é a obra de Santa Engrácia que virou a aquisição de equipamento para a FAB. Claro que essa ação conecta-se com outras de espectro mais amplo: as posições que o governo brasileiro tem assumido em termos de política externa, posições que têm afastado nosso país do alinhamento automático com os EUA – ou seja, de um “ocidentalismo” que, mesmo indisfarçavelmente falacioso, parece enlouquecer nossas elites. Essas posições deixam indignados boa parte dos jornalistas desses órgãos, que as qualificam ora como como “maluquice”, ora como “demonstrações infantis de independência” (nas palavras, emitidas no último dia 12, por outra paladina do ocidentalismo pró-EUA, a jornalista Miriam Leitão).

Não adianta tentar discutir o fato de que talvez seja interessante manter certa distância crítica com relação ao governo dos EUA, mas, nem mesmo no que diz respeito à um assunto técnico como a aquisição de aeronaves, prevalece um mínimo de sensatez. Os jornalistas de nossa imprensa simplesmente não entendem o motivo pelo qual nossos militares e civis não assumem logo que devemos comprar o produto que nos é oferecido pelos americanos. Não faz a menor diferença os argumentos que possam ser levantados a respeito: deveríamos adquirir os F/A18 e ponto final.

Por outro lado, frequentemente a forçação de barra é de tal forma rasa de argumentos que mesmo um analista superficial contesta sem grande dificuldade.

Um desses forçadores de barra é – como não poderia deixar de ser – o inigualável Merval Pereira.

Uma coisa deve-se dizer a favor de Merval: ele consegue usar qualquer tema , mas qualquer mesmo, para falar mal do governo. Muitos dos assíduos certamente afirmarão que é implicância minha – e é, em grande parte. Mas o que realmente importa é o fato de que o antigovernismo de MP por vezes parece afetar-lhe o julgamento. (“Por vezes”?.. Bem… Serei condescendente para que os assíduos antigoverno não caiam em cima de mim…) Não me importa grande coisa quando ele sai dizendo que o pré-sal é um embuste do governo – cada um pode achar o que bem entender, inclusive eu. Mas quando ele sai comentando assuntos militares, aí minha azia vira uma tremenda queimação. Imaginem como ficou meu estômago com os comentários publicados no último dia 10 de fevereiro, sob o título “Desconfianças”. Claro, Merval tem feito do projeto FX2 um de seus cavalos de batalha, nos últimos tempos. Bem, eu também, só que por motivos diversos: MP simplemente encasquetou que os militares brasileiros “têm problemas” com os EUA. E que no centro dos “problemas” estaria “a crença de que os EUA não transferem tecnologia para outros países”. Merval afirma que essa crença seria um equívoco, e que a Boeing estaria disposta, para dirimir essa desconfiança, a abrir à participação brasileira o projeto “Global Super Hornet”. Resta saber o que vem a ser isto – visto que ele não explica. 

Explico eu, pois. Trata-se de uma tentativa de criar uma alternativa para o Lockheed-Martin  F35 “Joint Strike Fighter”, aeronave de quinta geração que deverá substituir o F16 e o F/A18 nos próximos dez anos. O problema é que o programa “Global Super Hornet” não existe objetivamente e não tem suporte financeiro ou político do governo dos EUA. De fato não se sabe se tal programa sairá do papel, pois até agora não têm interessados. Parece ter sido criado pela empresa para oferecer à Coréia do Sul uma opção atrativa ao multinacional europeu “Typhoon”, que está sendo apresentado ao programa KFX (uma espécie de FX coreano, claro, sem a enrolação). A Boeing conta também com o interesse da Índia, que promove um superconcurso para, dentro do programa Medium Multirole Combat Aircraft (MMRCA), a aquisição de aproximadamente 150 aeronaves nos próximos dez anos.  E ao Brasil, afinal, foi oferecido como canto de sereia, em função das tais desconfianças de que fala o MP. Desconfianças que, também para o vice-presidente da Boeing para a Europa, Israel e América, Joseph T. McAndrew, são infundadas: ele afirmou já ter as garantias do Congresso que a empresa poderia abrir ao Brasil tudo o que for necessário.

Entretanto, permitam-me falar de modo mais direto: o buraco é mais embaixo. O F/A18 “Super Hornet” teve sua história operacional cheia de problemas, inclusive de discordâncias internas nas FAs dos EUA (se você lê inglês, poderá saber de alguns aquiaqui); outros dizem que não tem futuro, visto já ter sido desenvolvido até o limite, por ser a versão muito melhorada de uma aeronave dos anos 1970. Sua sobrevivência na Marinha dos EUA deve-se exclusivamente aos sucessivos atrasos no programa JSF, com que as autoridades norte-americanas pareciam não contar (vale à pena ler o texto do excelente blogue Poder Aéreo; se você lê inglês, os dados desta matéria do LA Times são muito esclarecedores). Mas os atrasos do JSF não durarão para sempre: “Eu acredito que o programa está entrando nos trilhos. Este programa nunca foi tão conturbado como muitos críticos tem pensado. Eu acho que ele apenas progrediu de forma mais suave que outros programas de desenvolvimento de caças, com uma possível exceção do F-16”, diz o especialista norte-americano Loren Thompson. Se você lê inglês, será esclarecedor um texto desse tal de Thompson, que aponta os problemas atualmente enfrentados pela Boeing e as tentativas que esta empresa está fazendo para entrar pela porta dos fundos no programa JSF. Quanto à generosidade da Boeing, não se sabe com o governo norte-americano irá se posicionar, no fim das contas. Transferência de tecnologia crítica depende não de um, mas de uma série de acordos de construção extremamente complexa, e não basta o executivo “garantir” que Congresso dos EUA não colocará entraves.

Por mais delirante que eu seja (e não sou pouco…), não imagino que minhas fontes sobre o assunto sejam melhores do que as do MP – não são. MP certamente sabe de tudo o que foi posto acima, e até mais, dados os contatos que deve ter entre a imprensa estrangeira. Ele também  tem, certamente, todas as condições de ter uma descrição precisa do incidente envolvendo a venda de aeronaves AL-X “Super Tucano” à Venezuela, desnecessária demonstração de arrogância do governo dos EUA, acontecida em 2005 (aliás, bastaria uma pesquisa rápida na Internet). Ele saberia que em torno de 50 por cento dos componentes do excelente aviãozinho da Embraer são de tecnologia ou fabricação dos EUA. A começar pelo turbopropulsor Pratt & Whitney Canadá PT6A 68C, controlado por um sistema digital FADEC, todo o embarque de tecnologia tem origem norte-americana. A única coisa que não pode ter criado problemas é o radar… O Brasil tem tecnologia de radar aeromóvel? Não, mas até as pedras sabem que o Super Tucano não tem radar (uma descrição bastante detalhada do EMB314  aqui). Uma longa digressão de Merval sobre o aspecto formal da questão cai no campo da opinião. De qualquer maneira, me parece que uma afirmação por escrito da secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton sobre as “garantias” do Departamento de Estado para a transferência de “toda a informação relevante e a tecnologia necessária” é ambígua o suficiente para não significar nada. Merval parece achar o contrário, mas até aí, tudo bem: opinião e nariz, eu tenho, ele também. Mas a experiência é, neste caso, pedagógica: não foram poucas as vezes em que os EUA vetaram a compra de armamento atualizado pelo Brasil. É preciso lembrar que, nos anos 1930, o governo norte-americano relutou até onde pôde em apoiar a modernização das forças armadas brasileiras? E quando, após a guerra, a FAB pretendia adquirir jatos, os EUA recusaram-se a fornecê-los; vinte anos passados, novamente decidiu o “grande irmão” que não precisávamos de armamento atualizado, e que o ferro-velho cedido ao país através dos programas de ajuda militar (como os F80 e TF33, nos anos 1960, quando a FAB quis adquirir aeronaves modernas) seria suficiente para um país “pacífico”.

Assuntos militares são assuntos sumamente técnicos. Não se pode tratá-los em termos exclusivamente políticos – e se você não for especialista, tem de recorrer a um. Está certo que Merval não confie nas fontes nacionais, mas que elas existem, existem. Poderia, por exemplo, ter consultado algum jornalista especializado, como Ricardo Bonalume Neto, Nelson During (editor do ótimo site especializado DefesaNet) ou Claudio Lucchesi (editor da indispensável revista “Asas”); poderia ter ouvido alguém do Laboratório de Estudos do Tempo Presente, do professor Francisco Carlos Teixeira da Silva. Mas não: MP resolveu consultar o pesquisador Expedito Carlos Stephani Bastos “coordenador dos estudos de defesa da Universidade Federal de Juiz de Fora”. Certo – as universidades federais dedicam muita pesquisa, em nível avançado (pesquisadores seniores orientando teses de mestrado e doutorado), a temas militares, como desdobramento da História, Ciência Política e Relações Internacionais. Ao examinar o site do instituto da UFJF, o “Centro de Pesquisas Estratégicas Paulino Soares de Sousa”, que “tem por finalidade canalizar iniciativas no terreno das pesquisas”, observa-se que esse instituto não figura na área de pós-graduação da UFJF e tampouco tem pesquisas em andamento – o que, por sinal, faz sentido, visto que não tem doutores, doutorandos ou mestrandos. Trata-se de uma coletânea de artigos de autoria do próprio “coordenador”. Sem querer ser implicante, parece-me pouco.

Conheço bem o trabalho de Expedito Stephani, que, em minha opinião, é uma referência quando o assunto se trata de blindados no Exército Brasileiro, mas nunca soube que fosse especialista em aviação.  Então, ou o F/A18 é um tanque e eu não sabia, ou o Expedito saiu de seu campo e escorregou feio. De outra forma, fica difícil um pesquisador domingueiro como eu entender como um especialista em blindados arrumou expertise para afirmar, de forma peremptória, que “considera o F-18 da Boeing o melhor dos três que disputam a licitação … o mais próximo de nossa realidade…” E também afirma que “como estará em produção pelo menos até 2017 …  sem dúvida que terá grande facilidade em peças de reposição.” Não sendo um amador Expedito sabe que quando um país compra uma aeronave (ou qualquer tipo de armamento), entram no contrato pacotes de sobressalentes, inclusive motores completos, aviônicos e peças estruturais. Esse não seria o problema. Além do mais, pacotes desse tipo não são totalmente fechados, e o país tem certa liberdade de escolher parte dos equipamentos e armas da aeronave.

Reside aí uma vantagem adicional da tal transferência de tecnologia: permite que certas peças passem a ser fabricadas ou, principalmente, consertadas no país. Isso permite que todo o ciclo de manutenção seja executado internamente, sem que seja necessário recorrer ao fornecedor original nem a terceiros países. A Marinha passou anos sofrendo com a compra de “caixas pretas” norte-americanas e inglesas, até que resolveu apelar para os submarinos de projeto alemão. Ainda assim, partes do projeto não foram repassadas, e a manutenção é feita por técnicos alemães, principalmente de sistemas eletrônicos. Esse é o motivo pelo qual os projetos de modernização de meia vida de material flutuante incorporam produtos concebidos internamente, ainda que não sejam “estado da arte”.

É muito provável, então, que parte das declarações do pesquisador juiz-de-forano tenha sido truncada. Ele não pode ter afirmado, por exemplo, que os F/A18 por ser um avião naval, poderá também operar a partir do navio-aeródromo “São Paulo”. De onde Expedito Stephani terá tirado tal informação é uma boa pergunta, pois implica que ele conseguiu dados de engenharia sobre a capacidade estrutural do “São Paulo”, ex-“Foch” da Marinha francesa. Mesmo “domingueiros” como eu sabem que não basta estar um porta-aviões, tal como o barquinho de Roberto Menescal, a navegar, no macio azul do mar, para qualquer avião decolar dele ou pousar nele. Cerca de dois anos atrás, quando era dado como quase certo que o Brasil iria dar preferência aos Rafale, o blogue “Poder Naval” levantou a possibilidade do uso naval desse avião. Um ex-piloto da Força Aérea Francesa, representando a Dassault, citou testes realizados com o Rafale no então “Foch”, e desconversou: “Se no futuro a Dassault for contactada pela MB a companhia está disposta a iniciar entendimentos para a melhor adaptação do Rafale às condições do São Paulo”. Só por curiosidade: conveses de NAe´s são projetados para um estresse máximo, que é a “pancada” que a aeronave dá nele, durante o pouso. Como esses navios são projetados para duração de uns 40 anos, pelo menos, a tecnologia aeronáutica muda, e os ditos têm de ser reformados periodicamente. O peso máximo de decolagem do Rafale é de 24.500 kg, sendo que pouco mais da metade disso aí é “carga útil”, ou seja, o peso que não faz parte estrutural da aeronave; o de um F/A18, de 29.900 kg. Um Dassault-Breguet *Super-Etandart, caça naval que operou no “Foch”, pesa, na decolagem, 12500 kg; um Douglas A4K *Skyhawk (o tipo que atualmente equipa a aviação de asa fixa da Marinha Brasileira), 11.100 kg. A utilização de qualquer das novas aeronaves provavelmente exigiria reformas estruturais no convôo e substituição das catapultas do “São Paulo”. Os “Rafale” franceses e os F/A18 operam a partir de navios-aeródromos muito maiores do que o nosso, cujo deslocamento, carregado, é de pouco menos de 33.000 toneladas. O NAe nuclear francês Charles De Gaulle, que opera uma versão naval do Rafale desloca, totalmente carregado, cerca de 45000 toneladas. Os NAe nucleares norte-americanos têm deslocamento médio de 70.000 toneladas. É certo que a Marinha tem planos de, ainda nesta década, iniciar a construção de um novo NAe no próprio país (são especulações sobre as quais ainda não existem dados consistentes), mas certamente é cedo para determinar o tipo de aeronave a ser operada. Expedito Stephani tem razão quando diz que a unificação da cadeia logística é uma grande vantagem, tanto do ponto de vista operacional quanto logístico. Mas essa é uma tendência mundial, e sua implementação é possível seja lá qual o modelo de aeronave escolhida.

Outro ponto curioso das declarações do pesquisador é sobre não ter sido possível revitalizar os Mirage III. Para fazer tal afirmação, Expedito deve ter tido acesso a informações precisas sobre o assunto – eu nunca soube que tal ação tenha sido sequer considerada, visto que o problema real é que os Mirage tinham esgotado seu tempo de vida útil. Como os assíduos de causa:: já sabem, a própria França fez um projeto para revitalizar os Mirage pasquistaneses, que estão voando até hoje. Possível, então, era. Talvez não fosse economicamente viável, o que é outra história. A bem sucedida modernização dos F5E não aconteceu por serem aquelas aeronaves de origem norte-americana, mas por uma decisão política que também foi explicada aqui no blogue. Outra afirmação estapafúrdia é a de que a empresa norte-americana Sikorsky teria, nos anos 1980, “cedido” tecnologia de usinagem química a pedido do Ministério da Aeronáutica. A tecnologia de usinagem química, que permite a fabricação de peças em materiais compostos, não é nenhum segredo – transita de um país para outro, e foi provavelmente comprada da empresa norte-americana. O ponto de viragem da Embraer – é outra coisa que até as pedras sabem – foi o projeto do AMX, nos anos 1980. Graças à participação de engenheiros brasileiros, a Embraer absorveu conhecimentos sobre desenho de estruturas aeronáuticas que permitiram, posteriormente, desenvolver os jatos regionais EMB145 e a série dos E-Jets – e partes destes foram aproveitados de outros projetos. O processo de implantação de indústrias de alta tecnologia é sempre um processo cumulativo, ou seja, leva muitos anos e implica em acesso a dados de pesquisa teórica e aplicada, existência de um parque industrial consolidado, e por aí vai. Ao contrário do que afirma o pesquisador, o Brasil já possui “capacidade de absorção” (gostaria de saber do que isso se trata, exatamente…) para receber tecnologia avançada – não é à toa que nossos engenheiros estão na África do Sul trabalhando junto à Denel – suponho que “absorvendo tecnologia”. Resta saber quais dessas tecnologias os norte-americanos estarão realmente dispostos a nos deixar “absorver”.

Enfim, Merval parece ter procurado cuidadosamente alguém que dissesse o que ele queria ouvir – no todo ou em parte. O resultado de sua obsessão  antigoverno é que ou pagou mico ouvindo um exercício de “achologia” de alguém que não entende em profundidade do assunto ou fez um pesquisador sério pagar mico, truncando suas afirmações.

Para terminar logo esse capítulo, eu, sem ser pesquisador nem nada, e apenas “domingueiro” assumido, diria que o problema não é o Brasil adquirir produtos norte-americanos, franceses ou suecos. Se o produto norte-americano for o JSF, eu apoiarei totalmente a insistência do Merval. O problema é o Brasil ceder à pressão do lobby político dos EUA e comprar ferro-velho zero quilômetro, contribuindo para manter empregos de alta qualidade nos EUA. Querem tanto o Super Hornet? Pois bem: o tempo de vida do F/A18 tem prazo de validade. Porque, então, não esperar alguns anos e comprar a aeronave de segunda mão? Sairá, provavelmente, por menos da metade do preço e irá dar o mesmo. Claro, virá extripado dos aviônicos estado da arte, mas poderemos aplicar nele um programa de modernização, utilizando um projeto supimpa da Embraer com o apoio de Israel – acreditem, não estou sendo irônico. Melhor ainda: porque não começar em investir na fabricação de uma aeronave de combate nacional? Não seria difícil implementar o projeto do próprio F5MBR, de modo a construir um caça multifuncional de quarta geração, dotado de aviônicos e armamento no estado da arte. Se o Irã conseguiu fazer algo semelhante, com apoio chinês, nós teríamos condições de lavar a égua, e já construímos as parcerias certas. Ao contrário do que diz MP, não é uma questão de “desconfiança”, mas de confiança no futuro de nosso país::

Um rapaz (das Forças Especiais) às terças::

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Efetivos do 662a Equipe de Controle de Movimentação, 25° Batalhão, 501a Brigada de Apoio do Exército dos EUA supervisionam o desembarque de canhões autopropulsados M109A6 Paladin na base militar de Camp Casey, República da Coréia, em 2007, para participar de exercícios de rotina das Forças dos EUA na Coréia (USFK).

O mês da Coréia::Daewoo: carros feios, armas… Diga você::

Estávamos na “análise estratégica ampliada”. Acabou me ocorrendo que, em momento algum, cheguei a explicar o que, exatamente, significa “estratégia”. Não posso acusar ninguém de não distinguir “estratégia” de “tática”, se eu mesmo esqueço de explicar a diferença.

Suponho que muitas pessoas saibam. Esse conceito, ultimamente, deixou de ser de interesse exclusivamente do planejamento militar. Fala-se de estratégia em esportes, negócios, e até mesmo nas “estratégias de vida”. A palavra vem do termo grego stratègós (stratos, “exército”, e ago, “liderança”). Designava o líder, em época de guerra, na Grécia clássica. Strategicós, por sua vez, era um termo que designava “os assuntos do general”; já stratiá designava a expedição militar. O sentido atual da palavra na área militar, começou a ser estabelecido no século 17, com a difusão dos Estados nacionais centralizados, da arma de fogo e a ascensão da manobra como forma de evitar o tiro ou minimizar seus efeitos. Trata-se então, como Antoine Henry, barão de Jomini, militar suiço do século 19 (mais sobre Jomini nesse excelente blog, que considero primo do causa::) definiu: a ciência do movimento aplicado ao campo de batalha. Nessa visão, expressa em um livro chamado “Sumário da arte da guerra”, Jomini colocava a estratégia como a principal dentre as cinco divisões da “arte da guerra”. Pois de lá para cá, a noção ampliou-se, passando a envolver o planejamento da guerra como parte das atividades do Estado. O planejamento visa, em última análise, estabelecer objetivos políticos, que envolvem a sobrevivência do Estado a longo prazo e a expansão de suas possibilidades – inclusive de fazer a guerra.

Alguns especialistas chamam essa visão de “grande estratégia”, ou seja a mobilização de recursos nacionais. Caso tenham prestado atenção nas postagens anteriores, devem ter reparado que as duas Coréias não tem feito outra coisa nos últimos 50 anos que não seja planejar a sobrevivência de ambos os Estados, mobilizaondo seus recursos nacionais de modo a expandir suas possibilidades. Essa questão começou a ser discutida por Claus von Clausewitz, que considerava a guerra como ferramenta política. O objetivo em uma guerra seria desarmar o oponente, ou seja, destruir efetivamente a capacidade do oponente de guerrear. Aí é que entra o comprometimento em uma guerra. Quanto mais determinado o inimigo, mais difícil é de removê-lo do conflito. Para tanto, a estratégia aplica-se ao campo militar, mas a “grande estratégia” significa mobilizar tudo de quanto o Estado pode dispor – recursos materiais, humanos e espirituais. Alguns especialistas chamam isso de “política”.

Daí nos interessa falar um pouco do chaebol Daewoo, sobre o qual fiz uma piadinha na postagem anterior. Chaebol  (a palavra, que se pronuncia “tchêe:bêl”, significa “negócio familiar”) indica uma espécie de reunião de empresas, um conglomerado apoiado pelo governo. O termo é ambíguo, porque os principais chaeboi´l são mesmo empresas familiares, que, por motivos políticos mantinham boas relações com o governo. O termo também pode significar “monopólio”, o que significa uma concessão política que elimina a concorrência e  implica em vantagens econômicas. Já vimos, na postagem anterior, a origem dessa forma de organização industrial. Os  chaeboi´l foram capazes de crescer nas taxas astronômicas que observaram devido à essa proximidade com o governo. Deveriam ser capazes de aproveitar os influxos governamentais, de modo a cumprir quotas de expansão e de exportações; por seu lado, o governo garantia um fluxo de investimentos, negociados no exterior, e facilidades bancárias, na Coréia do Sul. A política de universalização da educação, em todos os níveis, o acesso à tecnologia de ponta e altos investimento em pesquisa, nas universidades e nos próprios chaeboi´l completaram o quadro, ao longo das décadas de 1960 e 1970. Mas o fator decisivo foi a relativa estabilidade interna que permitiu uma taxa de lucro maior do que seria possível em um regime de livre negociação. Esse crescimento só era possível graças a intervenção do governo no processo.

Dizendo de outra forma: o regime de organização econômica da Coréia do Sul teve uma ligação simbiótica com os governos ditatoriais iniciados em 1961. Nada tão estranho assim para nós brasileiros: o tipo de capitalismo intervencionista observado aqui se parecia muito com o modelo adotado na República da Coréia. A diferença é que o Estado tinha uma participação direta infinitamente menor do que aqui, e investiu pesadamente em um modelo de educação que privilegiava a formação técnica de mão-de-obra e a pesquisa aplicada. A falência veio exatamente porque o acordo social implicava em taxas de emprego e crescimento artificiais. Quando vieram os problemas, o regime rapidamente entrou em crise.

O que não significa que o modelo não fosse eficaz para os objetivos buscados pelo país, e os chaeboi´l continuaram sendo a forma de organização prevalecente na indústria de ponta, defesa, comércio internacional e, bem menos, no setor financeiro. No final da década de 1980, o modelo, depois de diversos ajustes, a partir do retorno do regime democrático, em 1987, continuou existindo e até ampliou-se. A retração do estado revelou aos próprios estrategistas dos “conglomerados” oportunidades de expansão e competição que a conivência com uma ditadura anticomunista não deixava antever.

O novo panorama criou uma nova especialização: as grandes empresas de produção para exportação migraram para países emergentes como a China, Malásia e Filipinas. Na Coréia foram mantidas as sedes, a estrutura de Pesquisa&Desenvolvimento e o setor de defesa. Neste panorama, a Daewoo Motor Industries pode não ser o maior chaebol coreano, (de fato, não aparece nem mesmo entre os 12 primeiros) mas certamente é um dos primeiros quando se fala no setor de defesa. Uma de suas filiais, a Daewoo Precision Industrial Co. foi estabelecida como empresa de equipamento de defesa em 1981, e em 1986 tornou-se fabricantes de peças de veículos para a matriz. O chaebol Daewoo, um dos maiores da Coréia do Sul, na época, acabou dividido, depois que o fundador e principal executivo Kim Woo-chung, se viu acusado de mentor de uma fraude bilionária. Desde 1999, a empresa foi dividida, e a área de defesa, uma das menores (em 1998 envolvia  4% da companhia) passou para o controle direto do governo.

Kim começou sua empresa em 1967, como uma pequena firma de exportação, batizada de Dae´Woo, (“grande universo”, em coreano).  Durante a Guerra da Coréia, acima da idade de convocação, Kim vendia jornais enquanto freqüentava a universidade, graduando-se em economia. A Daewoo, fundada em meados dos anos 1950, revendia produtos da indústria têxtil, que exportava para o Japão. Na segunda metade dos anos 1960, tinha estabelecido bons contatos em Nova Iorque com compradores de produtos têxteis, o que chamou a atenção do governo sul-coreano. O ditador Park Chung Hee, que mantinha laços de amizade com a família de Kim (espécie de relação muito significativa, no contexto cultural coreano), patrocinou a transformação da Daewoo em uma empresa de mecânica pesada, subsidiando a produção através de empréstimos governamentais a fundo perdido e compras por preços acima do mercado. Kim tornou a empresa lucrativa em cerca de dois anos, e, sempre com apoio do governo, incorporou a seu chaebol um estaleiro, uma fábrica de automóveis e uma fábrica de ferramentas de precisão que, posteriormente, deu origem à fábrica de armas. Nessa época, o favorecimento descarado do governo tornou a empresa o terceiro chaebol, em tamanho e rendimentos.

A experiência de Kim no comércio internacional e nas ante-salas dos governos o fez presença constante nos gabinetes dos EUA, França, Paquistão e em diversos países do Terceiro Mundo, notadamente os produtores de petróleo. A agressividade da empresa a levou a ter aproximadamente 320.000 funcionários, o que era um efetivo quase tão grande quanto o do exército da República.

Os problemas que acabaram com o chaebol, em meados dos anos 1990, relacionam-se com um projeto de expansão que visava tornar a empresa um dos grandes players do mercado mundial de automóveis. A resistência das empresas norte-americanas e européias jogou significativa quantidade de areia na máquina de Kim, numa época em que o apoio governamental já não era nem tão imediato nem tão incondicional quanto fora 20 anos antes.

De qualquer maneira, as encrencas de Kim Woo-chung não são importantes para nós. A questão que quero deixar clara é como, a partir de 1981, com o estabelecimento da estratégia de defesa da Coréia do Sul, a Daewoo viu aí um nicho para incorporar mais uma área a seu inventário empresarial. No final dos anos 1960, os EUA haviam fornecido ao exército coreano certa quantidade de rifles M16A1 (calcula-se que uns cem mil), do tipo empregado pela infantaria dos EUA no Vietnam. Em 1972 a Coréia do Sul retirou-se da Indochina, mas manteve o tipo como arma-padrão de seu exército. Por volta de 1976, o governo sul-coreano resolveu implementar uma indústria local de defesa, e acenou com a possibilidade de distribuir uma arma longa de fabricação local, embora sem a intenção inicial de substituir o M16, existente em grandes quantidades. Ficou estabelecido que uma arma de calibre 5.56X45 NATO seria projetada para substituir a submetralhadora M3 Grease Gun, arma da 2ª GM ainda padrão nas forças armadas da República. A empresa Daewoo Precision Industries Ltd foi formada para atender à demanda governamental. A *carabina de assalto K1 foi seu primeiro produto, cujo desenvolvimento concluiu-se por volta de 1982. O protótipo foi apresentado em 1980 e entrou em serviço em 1981. Os testes e o ciclo de serviço mostraram problemas sérios. A arma destinava-se às forças especiais, e portanto deveria ser silenciosa e discreta, O desenho do supressor de chama, entretanto, além de não resolver aqueles problemas, acabava por gerar forte recuo, que, por sua vez, tornava inadequada a coronha rebatível. Os problemas foram resolvidos através do redesenho da câmara e do supressor de chama. Essa nova versão foi denominada K1A. Essa arma conviveu com o M16A1, sendo distribuída para forças especiais, marinha e polícia, enquanto o rifle norte-americano foi mantido na infantaria.

Ainda em 1982, entretanto, o governo começou a considerar a padronização de todo o armamento. Uma *versão longa da carabina K1A começou a ser testada, com um cano de 46,5 cms e uma coronha convencional, em plástico de alto impacto. Os protótipos surgiram em 1983 e eram, de fato, um redesenho, com relação ao K1A. Este último era uma tentativa de fazer uma submetralhadora usando cartucho de fuzil: a chamada “ação direta de recuo”. Essa opção tornava o conjunto mais leve, mais barato, mas menos resistente. O sistema adotado para o K2 era o de operação por recuperação de gás (leia sobre o assunto no posto “A linhagem FAL”). O tiro é seletivo, alimentado por carregadores de plástico, de 20 ou 30 cargas, utilizando munição 5.56X45 NATO. Em 1987, o K2 começou a ser distribuído regularmente às forças armadas sul-coreanas, e pelo fim dos anos 1980, o M16A1 tinha sido totalmente recolhido.

Com aproximadamente 800.000 efetivos no total, as forças armadas e a policiais sul-coreanas eram uma reserva de mercado bastante promissora. Em função da adaptação das corporações à nova estratégia, lançada em 1979, a Coréia do Sul pretendia assumir parte considerável das responsabilidades de sua defesa nacional. Isso implicava numa completa reestruturação do exército, inclusive em seu rearmamento. Essa corporação tinha, em 1981, aproximadamente 400.000 efetivos. Dois terços eram conscritos convocados para dois anos de serviço ativo, aos 17 anos. Uma vez desmobilizados, esses homens permaneciam como “reserva de primeira linha” até os 34 anos, e podiam ser convocados periodicamente para curtos períodos de serviço ativo – em geral, por volta de duas a três semanas. A reserva somava, segundo estimativas dos EUA, em torno de 1200.000 efetivos potencialmente mobilizáveis. Não se sabe quanto tempo levaria a mobilização completa.  Esse sistema ainda persiste.

Atualmente, o exército mobiliza por volta de 550.000 efetivos, 10.000 dos quais são oficiais. O inventário soma 2.500 tanques, 3.000 veículos blindados de combate e 7.000 sistemas de artilharia de campanha auto-propelidos e auto-rebocados. Esses sistemas incluem grande quantidade de lançadores de foguetes.

Os blindados são, em grande parte, os já obsoletos M48A5K, de fabricação norte-americana, do final dos anos 1950, mas modernizados localmente, no final dos anos 1970. Uma quantidade estimada entre 30 e 50 T80U, de fabricação russa, foi incorporada em 2004/2005, em função de acordos de refinanciamento de dívidas da Rússia. Durante algum tempo, esses blindados foram os mais avançados existentes na península. Tentativas de produzir sob licença o alemão Kraus-Maffei Leopard 1 deram em nada, porque os sul-coreanos concluíram, acertadamente, que se tratava de um modelo prestes a se tornar obsoleto.

Nessa época, o governo militar sul-coreano concluiu que a melhor solução seria produzir um tanque autóctone, levando em consideração os aspectos da nova geração de projetos que surgia nos EUA, Rússia, Alemanha Ocidental e Inglaterra. A indústria local já tinha condições de suportar um projeto desses, mas não tinha experiência. Um projeto local levaria pelo menos dez anos para surgir, assim, os militares e planejadores civis consideraram que a solução seria comprar a licença de um produto estrangeiro. A escolha recaiu no XM1, protótipo do norte-americano M1 Abrahms, que começava a ser distribuído pelo ramo de defesa da Chrysler Motors Company. As negociações quase deram com os burros n´água, quando, no meio do processo a empresa foi vendida para a General Dynamics. Entretanto, os novos donos mantiveram o interesse, em função do incentivo do governo dos EUA. Técnicos sul-coreanos foram despachados para os EUA para conhecimento do projeto e treinamento na General Dynamics Land Systems.

Os dois blindados são similares, mas os projetos são bastante diferentes. O K1 pronto, deslocava 4 toneladas menos que as 55 do M1; a altura entretanto, é ligeiramente maior no K1: 237 cm contra 225 cm (o que, num tanque, faz a maior diferença). A planta de potência do K1 é a mesma do israelense Merkava 3, a Teledyne Continental AVCR-1790, de 1200 hps. A blindagem é do tipo composto metal-cerâmica, Cobham. Posteriormente, a relação peso-potência da alemã MTU MB Ka-501, versão compacta da MB-873 Ka-503 que equipa os tanques Leopard 2, revelou-se melhor, e essa planta de potência foi adotada. Isso levou a que uma transmissão e diversos outros componentes de origem alemã fossem adotados no K1, em sua versão A1. O canhão raiado de 105 mm norte-americano, depois produzido na Coréia do Sul sob a notação KM68, bem como o sistema de controle de fogo Hughes, foram mantidos.

Mas tecnologicamente, o K1A1 acabou se tornando até mais avançado do que o Abrahms, quando recebeu um sistema independente de visão panoramica, do qual o Abrahms não está dotado, por cortes de orçamento. Esse sistema comanda o armamento de forma integrada, através de sensores termais e de visão passiva, o que torna o K1A1 um verdadeiro sistema de armas.

O desenvolvimento do K1 completou-se em 1983 com um protótipo apresentado ao governo sul-coreano. O uso de um motor alemão acabarm por tornar o K1 mais parecido com o Leopard 2 do que com o Abrahms. A empresa escolhida para desenvolver o tanque para produção de série foi a Hyundai Precision, ligado ao chaebol Hyundai. Esse é um dos maiores grupos da Coréia do Sul, fundado em 1947 e, na atualidade, um dos 5 maiores produtores de veículos automores do mundo, bem como de aço, navios e produtos eletrônicos de alta tecnologia. Uma quantidade de 450 K1 foi adquirida, iniciando-se a distribuição em 1985, em alto segredo, e completando-se em 1987, quando o veículo foi revelado ao mundo.

No momento, a empresa está desenvolvendo o K2  Heukpyo (Pantera Negra) equipado com um canhão de 120 mm e 55 calibres, autocarregado. Não existem maiores informações sobre o sistema, mas tem circulado que será equipado com blindagem reativa (capaz de diminuir os danos de munição de carga oca), radar e sistemas de detecção a laser.

O objetivo deste texto não é, enfim, descrever com detalhes o moderno armamento à disposição das forças armadas sul-coreanas. O que quero mostrar é como o planejamento estratégico, a “grande estratégia” envolve mobilizar todos os recursos nacionais de forma coordenada. No caso sul-coreano, uma longa trajetória levou o país de uma nação subdesenvolvida, nos anos 1950 e 1960, para uma das grandes potências econômicas das últimas décadas do século passado e, nos últimos tempos, a um patamar de potência militar equivalente às maiores potências da Europa Ocidental (França, Alemanha e Grã-Bretanha, nessa ordem).  A escalada do país, nos anos 1960, para o lugar de potência industrial e, em seguida, para o de potência tecnológica pôde ocorrer devido ao lugar ocupado pelo país na Guerra Fria, como “primeira linha de contenção da expansão comunista”. Esse papel (o país provavelmente seria arrasado na eventualidade de uma guerra contra a China) levou a que fizesse por merecer certas concessões, que vieram sob a forma de influxos econômicos. Esses influxos, sob a forma de capitais que, nos anos 1960 estavam disponíveis em grande medida e precisavam ser reinvestidos. Mas esses capitais também estiveram disponíveis para o Brasil. A diferença, além do lugar geopolítico do Brasil (cujo papel estratégico nunca foi determinante), foi o tipo de projeto para a sociedade, projeto que a elite daqui nunca conseguiu fazer. Os sul-coreanos, desde os anos 1950, investiram pesadamente em educação, em todos os níveis, e em uma urbanização ordenada, que permitiu ao país montar uma base industrial altamente eficiente. Esses dois aspectos tornaram possível que a entrada de capitais e tecnologia dessem resultados, embora não de imediato::

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::707th SOF

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Certo, certo… Não é terça… Mas compenso com um time completo de atiradores de escol sul-coreanos. Trata-se da Batalhão 707 de Forças de Operações Especiais. A especialidade dessa unidade do Exército da República da Coréia é o contra-terrorismo e atividades de controle de retaguarda. São todos militares profissionais, selecionados em unidades de forças especiais e comandos, com pelo menos 5 anos de carreira e treinamento em armas, táticas e artes marciais. Também devem ser atiradores particularmente habilidosos. Esse grupo exibe o “fuzil de tiro especial” SSG 69 (Scharfschützengewehr 69), 7.62X51 NATO, de ferrolho, produzido pela empresa austríaca Steyr-Manlicher. Sinceramente… Esses caras parecem indefesos?::

O mês da Coréia::Um análise estratégica ampliada::

Parte 3 Então, já sabemos que a República Democrática do Povo da Coréia é uma potência militar média e tem uma quantidade enorme de artilharia de todos os tipos. Entretanto, é curioso como a imprensa trata a República da Coréia como uma pobre Guatemala indefesa diante de Hugo Chavez… Não é exatamente o caso. De fato, temos relativamente pouca informação sobre a Coréia do Sul, tirante, é claro, os carros Hyundai, televisões LG e monitores Samsung, mas isso, convenhamos, é pouco. 

Do fim da Guerra da Coréia até os anos 1990, a República da Coréia evoluiu, de um país totalmente dependente, para a própria defesa, de acordos bilaterais, para uma situação de desenvolvimento auto-sustentado e considerável capacidade militar. Ao contrário da República Democrática do Povo da Coréia, as indústrias civis sul-coreanas mantêm linhas de produtos militares como partes separadas e menos importantes de suas atividades corporativas, mas suficientes para manter suas forças armadas totalmente atualizadas com equipamento local de altíssima qualidade.

A independência econômica e militar da República da Coréia remonta à participação na Guerra do Vietnam. Em 1965, o ditador sul-coreano, general Park Chung-hee, decidiu aceitar o pedido de Washington por tropas para o teatro do SE Asiático. Inicialmente, foram despachadas unidades de combate de pequenas proporções, num total de 5.000 efetivos, em caráter experimental. Em fevereiro de 1966, os norte-americanos se comprometeram, através de um termo de compromisso denominado “Memorando Brown” (em função do embaixador dos EUA em Seul, Winthrop G. Brown), a financiar a modernização do exército da República da Coréia, em troca de um maior envolvimento dessa última na guerra indochinesa. O documento, de 14 pontos, não era muito claro em determinar as obrigações norte-americanas, mas especificava uma força sul-coreana que deveria alcançar, em três anos, aproximadamente 300.000 efetivos. Como resultado, os EUA cederam armamentos pesados e rifles M-16 para as tropas sul-coreanas, que funcionaram como cobertura de retaguarda para o exército dos EUA. Nesse meio tempo, começaram uma série de provocações norte-coreanas, culminando com uma tentativa de  tomar o palácio presidencial, em 21 de janeiro de 1968, e o ataque e aprisionamento do navio-espião Pueblo, da Marinha dos EUA. Uma série de incidentes ao longo da ZDC envolvendo tropas dos EUA em mais de uma oportunidade, atravessou todo o ano de 1969. Em abril, uma aeronave de contramedidas eletrônicas EC-121 acabou sendo derrubada sobre o Mar do Japão. Esse período passou a ser conhecido como “Segunda Guerra da Coréia”. O envolvimento sul-coreano no Vietnam, entretanto, tornou-se uma realidade, e em 1972, quando as unidades começaram a ser retiradas, estavam em operação por volta de 200.000 sul-coreanos. Mais de 5.000 deles morreram em combate.

Temendo o surgimento, na Coréia, de um novo Vietnam, o governo dos EUA resolveu atender os apelos dos parceiros sul-coreanos por maior articulação em termos da segurança local. Foi acordada maior colaboração militar com a República da Coréia, assim como assistência para implementar a economia local. Ainda assim, o ditador sul-coreano, antevendo uma possível futura crise, decidiu adotar uma postura mais ativa em relação à defesa nacional. O surgimento da “Doutrina Nixon”, na qual o governo dos EUA, atolado numa crise econômica, postulava que as nações aliadas assumissem maior participação na própria defesa, foi outro momento decisivo: em 1971 a retirada da península, de uma divisão do exército dos EUA pareceu confirmar a importância da estratégia nacional de Park.

Ainda assim, em setembro de 1971 o governo dos EUA assinou um plano no valor de 1,5 bilhões e dólares, destinado a prover, num período de cinco anos, a reestruturação e modernização das forças de defesa da República da Coréia. Esse plano foi visto como decorrência da diminuição radical do aparato militar norte-americano na região. Foi a primeira grande mudança nas forças armadas sul-coreanas desde a Guerra da Coréia.

A situação sul-coreana, na época, era no mínimo curiosa. Park Chung-hee, um general do exército que havia sido oficial do Exército Imperial Japonês e depois da guerra, militante do Partido dos Trabalhadores da Coréia (chegando a ser condenado à prisão perpétua, por traição, em 1949), tomou o poder em 1961, depois de um curto período de agitação política que se seguiu à tentativa de Singman Rhee em assumir um quarto mandato presidencial resultante de uma eleição claramente fraudada. Exilado Rhee, uma junta militar sob comando de Park assumiu e rapidamente fixou-se no poder, conquistando apoio da classe dirigente e da classe média através de um programa de “moralização da vida nacional”, que removeu da vida pública todos os funcionários civis e militares considerados corruptos. Um “Supremo Conselho para a Reconstrução Nacional, com 32 membros, era o principal órgão dirigente do país. O principal projeto da junta era a construção de uma economia próspera baseada em uma “grande revolução humana”. Uma das primeiras providências foi o fechamento da Assembléia Nacional e a substituição de funcionários civis por militares.

Tendo assumido o poder, Park começou uma série de manobras para manter-se no comando do governo, sob normas de exceção e uma aparência de democracia. Um de seus primeiros atos de governo, em junho de 1961, foi a criação de uma “Agência Central de Informações da Coréia” (KCIA, em inglês), com função de polícia política. A Agência estendeu, em 1962, seus poderes aos campos da economia e das relações internacionais, por inspiração do coronel Kim Chong-p’il. Parente da esposa de Park, o coronel revelou-se um planejador original e criativo conspirador político: acabou sendo um dos principais atores do golpe que, em 1979, acabou custando a vida do ditador.

Os planos da junta militar não deram resultados imediatos, o que começou a desgastar a imagem da junta militar. Para piorar, a KCIA envolveu-se em vários escândalos financeiros e políticos. Os militares respondiam prometendo preparar o retorno à normalidade civil – desde que os políticos ligados ao sistema anterior não participassem do processo. Em março de 1963, Park anunciou um referendo popular para decidir se a junta deveria permanecer no poder por mais quatro anos. A intensa oposição interna era esperada, mas a antipatia dos EUA foi um fator com que Park não contava. O referendo foi cancelado.

 Ao contrário de Rhee, que tentava fazer da Coréia do Sul uma potência regional, com o apoio dos EUA, em detrimento do Japão e da China Comunista, o general tentou adotar uma política pragmática: normalizou as relações com o Japão em 1965 e regularizou, no mesmo ano, a situação das forças norte-americanas na península como “convidadas”.

Park usou a aparente estabilidade e a posição estratégica da Coréia como moeda de troca para trazer investimentos externos para seu país. Interessados em estabelecer medidas de contenção para a expansão comunista na Ásia, os EUA autorizaram o Japão a fazer grandes investimentos na península, enquanto garantiam a segurança da área, investindo no desenvolvimento das forças armadas locais.  O governo de Park, entretanto, proibiu a presença de empresas japonesas em território nacional, estabelecendo a política dos chaebol, conglomerados industriais privados que recebiam empréstimos subsidiados do governo, desde que seguissem as regras econômicas e políticas vigentes. Algumas desses conglomerados tornaram-se empresas gigantes, atuando em toda a cadeia produtiva.

Uma reforma agrária foi promovida e, ao mesmo tempo, a classe média rural era incentivada a estabelecer residência em centros urbanos. Uma mão-de-obra qualificada, formada através de programas de educação universal e valorização da competência e o fluxo de investimentos japoneses, coordenado pelo governo, acabaram criando, na segunda metade dos anos 1970, um parque industrial impressionante, voltado para a exportação de produtos semi-acabados para o Japão e os EUA. Ao mesmo tempo, o governo militar incentivava a expansão de universidades locais e de programas de pós-graduação no exterior. O resultado foi a sofisticação da indústria local, que se tornou produtora de tecnologia de ponta. Nos anos 1980 e 1990, a Coréia do Sul tornou-se um dos maiores economias exportadoras do mundo.

Esse surto explosivo de desenvolvimento econômico e a urbanização acelerada acabaram criando tensões políticas, com forte influência de pequenos movimentos estudantis e sindicais extremamente combativos tentando conquistar espaço à força de reivindicações de democratização, que eram postergadas pelo governo sob a justificativa do “perigo interno e externo”. Em 1971, Park tentou uma grande jogada política: interessado em permanecer no poder, declarou “estado de emergência nacional”, em função de manifestações de estudantes e trabalhadores nas grandes cidades. Em julho do ano seguinte, em meio à crise política, anunciou, num espantoso comunicado conjunto com Kim Il-sung, ditador stalinista da Coréia do Norte, planos para a unificação da península. Foi um magnífico tiro no pé. Manifestações de todas as colorações explodiram por todo o país. O projeto foi abandonado rapidamente, em função da oposição dos EUA, e ao fato de que, aparentemente, Kim Il-sung não conseguiu apoio da URSS e da China para levar a proposta adiante.     

Em 19 de abril de 1973, o general Park, enquanto acompanhava exercícios militares, divulgou o propósito de estabelecer uma estratégia militar independente e desenvolver as forças militares. Os projetos decorrentes dessa diretiva, desenvolvidos pela Junta de Chefes de Estado Maior resultaram em Diretrizes para um Programa de Modernização do Equipamento Militar para cada umas das corporações militares, integrados e, um Plano de Defesa Nacional de Oito Anos (1974-1981), aprovado pelo chefe do governo em fevereiro de 1974.

Nessa época, a situação política do país tornava-se cada vez mais tensa. A situação econômica da Coréia do Sul era delicada, em função da crise mundial do petróleo, que tinha feito retrair os investimentos japoneses no país. A instabilidade criou brechas no sistema de governo, sem que os atores envolvidos chegassem a um consenso sobre o que fazer. Park governava através de sucessivas decretações de estados de emergência, mas a oposição não dava sinais de esmorecer. Em 1979, como a situação econômica só fizesse piorar, conselheiros próximos de Park Chung-hee o instavam a ceder a algumas das reivindicações do movimento de oposição estudantil e reduzir a repressão. A discordância entre as principais figuras do governo acabou resultando, por incrível que pareça em um tiroteio, acontecido durante uma reunião de cúpula no refeitório da sede da KCIA, em 26 de outubro de 1979. Nesse incidente, Park e o diretor da agência de informações perderam a vida. O desaparecimento do ditador e de parte de seu staff abriu um vácuo de poder, e o período posterior foi de competição entre setores dominantes, em meio a levantes estudantis, indisciplina militar e intranqüilidade social. Alguns anos se passariam até que a situação viesse a se estabilizar::

O mês da Coréia::Uma análise estratégica ampliada::

Parte 2 O grosso das forças terrestres da Coréia do Norte está posicionado na região imediatamente adjacente à ZDC, em posição de ameaçar o Comando das Forças Combinadas e a cidade de Seul. Especialistas ocidentais estimam que setenta por cento do efetivo total (700.000 soldados, 2.000 tanques e 8.000 sistemas de artilharia de todos os tipos) encontre-se à distância máxima de 150 quilômetros da linha de demarcação. Mesmo durante as conversações entre os dois países, o número de tropas não parou de crescer. Informes de inteligência dão conta de 4.000 instalações subterrâneas: depósitos, centros de comando e comunicação, alojamentos, hospitais e facilidades de manutenção; no país inteiro calcula-se que sejam mais de onze mil. Essas instalações, totalmente aprovisionadas, permitem um ataque quase de uma hora para outra.

Entretanto, a maioria do inventário à disposição de forças armadas norte-coreanas remonta aos meados dos anos 1950, quando o Exército Popular foi reconstruído. Por outro lado, a força terrestre não tem experiência de combate e não realiza manobras conjuntas nem mesmo com seu principal aliado, a China Comunista. Boa parte do equipamento, em alguns aspectos, se assemelha ao set de um filme de guerra antigo (talvez sobre a Guerra da Coréia…). O Exército Popular, em julho de 1953, era estimado em 263.000 efetivos. Informes de inteligência de 1968 davam conta de 350.000 ou mais, crescimento acompanhado por uma série de mudanças organizacionais. Foram formados cinco grupos de exército. Nessa época, observou-se forte aproximação com os soviéticos, o que resultou no surgimento de unidades de defesa anti-aérea dotadas de mísseis e canhões controlados por radar. Artilharia de campanha moderna começou a ser vista nos desfiles militares da data nacional. Tanques *T-54 e *JS-2/3 também foram reportados em maior número, além do surgimento de canhões autopropelidos *SU-76. Esse aumento no poder de fogo no EPRDPC foi atribuído ao envolvimento crescente dos EUA na região.

O Exército Popular foi reorganizado a partir dos anos 1980, de modo a adaptar-se, estratégica e taticamente, às novas circunstâncias políticas vividas na península e no mundo. Os anos 1970 observaram forte desenvolvimento econômico e tecnológico na Coréia do Sul, empurrado por investimentos maciços feitos principalmente pelo Japão; em termos tecnológicos, o país tornou-se vanguarda asiática, a partir de uma inteligente política de investimento em educação básica e formação de mão-de-obra de altíssima qualificação, combinados com um regime de dirigismo econômico suportado por uma ditadura militar pró-americana.  Nessa época, a Coréia do Sul começou a tornar-se um dos “Tigres Asiáticos”. Esses fatores possibilitaram a instalação de uma forte indústria local de alta tecnologia, e acabaram influenciando as forças armadas locais. Em meados dos anos 1980, a República da Coréia tornou-se capaz de suprir quase todas as suas necessidades de defesa com equipamento de ponta.

Esses fatores provavelmente explicam a enorme expansão das forças armadas norte-coreanas que, até o início dos anos 1970 montavam uns 400.000 efetivos. Do ponto de vista de comando e administração, a força terrestre foi completamente reorganizada. Com auxílio chinês e soviético, uma indústria local de armamento pesado foi organizada. O principal produto é uma versão simplificada do tanque soviético *T62. Os informes de inteligência mostravam também que os norte-coreanos faziam modificações notáveis no equipamento soviético e chinês, adaptando-os para as condições locais. A partir dos anos 1980, grande quantidade de veículos motorizados, artilharia auto-propulsada e transportes blindados de pessoal (APCs) começaram a aparecer. Em 1992 o país foi dividido em “corpos geográficos convencionais” e as grandes unidades blindadas e mecanizadas, compostas por brigadas de armas combinadas, foram posicionadas próximas de vias de deslocamento, de modo a possibilitar exploração e contra-ataques rápidos. Embora a força terrestre ainda continue sendo, em larga medida, uma força de infantaria, uma década de modernização e reorganização mostrou, no início dos anos 1990, seus efeitos: a mobilidade e o poder de fogo, bem como o treinamento e aprestamento do potencial humano são hoje considerados muito superiores aqueles observados durante a “Segunda Guerra da Coréia”, no final dos anos 1970.

Atualmente, a ordem de batalha identificada pela inteligência ocidental consiste em 153 divisões e brigadas, incluindo 60 divisões e brigadas de infantaria, 25 brigadas de infantaria mecanizada, 13 brigadas blindadas, 25 brigadas de operações especiais e 30 brigadas de artilharia. A Coréia do Norte  posiciona 10 corpos, com um efetivo de sessenta divisões e brigadas  numa área em formato de leque, ao sul da linha Pyongyang-Wonsan.

De 1996 em diante, as forças terrestres norte-coreanas são compostas por vinte comandos, que incluem  quarto corpos mecanizados e dois de artilharia, um Departamento de Instrução de Tanques, um comando de artilharia, e um Departamento de Instrução de Infantaria Ligeira, que controla as força de operações especiais. O equipamento inclui 3.800 tanques, dos quais 800 são do modelo indígena do T62. Aproximadamente 2.800 *BTRs (transportes blindados sobre lagartas, introduzido pelos soviéticos em 1973) estão à disposição das forças mecanizadas. A artilharia dispõe de cerca de 8.300 canhões calibres 76.2 mm, 100 mm, 122 mm, 130 mm, 152 mm e 170 mm, autopropelidos e auto-rebocados, complementados por  2.700 lançadores de foguetes de 107, 122, 132 e 240 mm. A artilharia anti-aérea alcança o número de 12.500 canhões, principalmente do tipo *ZSU23. A doutrina adotada é principalmente soviética, o que implica na utilização de movimentos massivos de tropas blindadas precedidos por grandes barragens de artilharia.

A indústria norte-coreana produz uma variedade de canhões auto-propulsados e rebocados (howitzers) embora, desde os anos 1980 a ênfase tenha sido colocada nos primeiros, inclusive com a montagem de tubos originalmente auto-rebocados em chassis sobre lagartas . A estratégia norte-coreana parece ser baseada no principio da ofensiva, refletindo provavelmente as experiências da Guerra da Coréia e o treinamento soviético. O poder de fogo superior e altamente concentrado permitiria uma maior possibilidade de defesa para as tropas terrestres em avanço.

Tudo isso pode parecer muito impressionante, à primeira vista. Entretanto, a Coréia do Norte não tem sido assim tão bem sucedida em seus esforços para se tornar uma potência militar de primeira linha. Manobras observadas por reconhecimento de satélite mostram que, apesar da modernização do armamento, este continua sendo baseado principalmente em tecnologia da época soviética. Os limitados avanços tecnológicos, que parecem ter dotado o exército de corpos de artilharia relativamente bem-equipados, provendo certa superioridade sobre os adversários do sul, não alcançaram outras áreas. Os anos 1990 parecem diminuir ainda mais as chances de que a Coréia do Norte alcance os padrões militares do Ocidente. O nível tecnológico da indústria local aponta para a crescente obsolescência do equipamento, principalmente a partir do momento em que a China não parece mais disposta a ceder tecnologia de ponta a um aliado que tem se mostrado bastante recalcitrante. Um exemplo dessa dificuldade está na área de defesa anti-aérea. Não há indicação de que sistemas móveis de mísseis ar-superfície (SAM) tenham sido introduzidos. Em paradas, *SA7 Strela 2 (Grail, para a OTAN, sistema “de ombro”, buscador de calor, distribuído a partir de 1970) e SA14/16 Strela 3 (Gremlin e Gimlet, aperfeiçoamentos do anterior, distribuídos a partir de 1974) têm sido vistos, o que sem dúvida aumenta a capacidade defensiva contra alvos próximos. Entretanto, os sistemas de defesa de ponto são ainda baseados principalmente em canhões, e as poucas baterias do obsoleto SA2 Guideline estão distribuídas em torno da capital.

A aviação também é totalmente obsoleta. Ao longo dos últimos anos, o país investiu a quase totalidade dos recursos materiais e humanos no aperfeiçoamento de vetores táticos e estratégicos para explosivo nuclear, com sucesso limitado. Não foram observados investimentos em outros ramos da indústria aeronáutica, o que tornou dramática, em relação ao Ocidente, a disparidade de meios aéreos, tanto em número quanto em tecnologia. Em 1992, a Força Aérea Popular da República Democrática da Coréia (FARDC) dispunha de aproximadamente 1,650 aeronaves de todos os tipos e 70.000 efetivos. Nessa época existiam três comandos de combate aéreo subordinados a um Comando Aéreo, sediado na cidade de Chunghwa; uma divisão aérea abrangia o nordeste do país e o Departamento de Aviação Civil, administrado pelo Conselho de Administração Civil, era considerado reserva de contingência da estrutura militar. Em meados dos anos 1980, uma forte reorganização, coincidindo com o recebimento de novas aeronaves e baterias de mísseis terra-ar, buscou integrar e reorganizar as divisões aéreas com o objetivo de descentralizar e dar maior autoridade e flexibilidade tática aos comandos regionais.

O equipamento, de origem soviética e chinesa, compreende tipos obsoletos, não-compatíveis com o moderno campo de batalha aéreo. Em números, o principal tipo é o MiG21 (Fishbed, para a OTAN, aeronave multifuncional ativa desde o final dos anos 1950), do qual existem cerca de 150 unidades, embora o estado de disponibilidade seja um incógnita. Nos anos 1980 a FARDC recebeu da então União Soviética um lote de caças-bombardeiros táticos MiG23P   e aeronaves de suporte aproximado MiG23ML (ambos derivados do MiG23S, Flogger A para a OTAN, caça multifuncional de geometria variável, surgido em 1969-70)  num total de umas 60 unidades. Da China vieram entre 40 e 150 Nanchang Q5 (Fantan para a OTAN, aperfeiçoamento chinês do MiG19) – o número correto nunca foi determinado exatamente. As principais aquisições foram, entretanto, 35 MiG29 e 35 MiG23, que foram estacionados nas proximidades de Pyongyang, em diversas pequenas bases aéreas.

Durante os anos 1980 também houve grande incremento no número de helicópteros disponíveis para a FARDC. Atualmente, calcula-se que existam aproximadamente 300, a maioria dos quais são Mi2 (Hoplite, na denominação da OTAN), Mi4 (Hound) e Mi8 (Hip), procedentes da URSS e da China. Em 1985, a FARDC conseguiu adquirir, por meio de empresas de fachada, 87 Hughes fabricados nos EUA, modelo Cayuse, que foram adaptados para ataque ao solo. Não se sabe o estado atual de disponibilidade dessas aeronaves, mas são as mais avançadas disponíveis na Coréia do Norte. Hoje em dia, a inteligência sul-coreana acredita que tenham sido disponibilizadas para as forças de infiltração norte-coreanas, pois a Coréia do Sul possui centenas desse modelo em seu inventário.

A Força Naval do Exército Popular da República Democrática do Povo da Coréia é a menos significativa dentre as três forças armadas é uma força naval costeira. Seus principais elementos são 3 fragatas, 10 contratorpedeiros, 23 submarinos costeiros e aproximadamente 100 barcos de patrulha, a maioria equipados com torpedos, e por volta de 340 barcos de apoio, inclusive submarinos-miniatura destinados a operar com as forças especiais do exército. O efetivo é calculado em algo em torno de 150.000 homens. Não existe infantaria naval nem aviação. A função da FNEP é, principalmente, a interdição das águas costeiras, num raio não maior do que 75 quilômetros a partir de suas bases. Os submarinos são a principal arma de ataque. Informes da Marinha dos EUA dão conta de 4 unidades da classe Whiskey, soviéticos, 22 da classe Romeo, chineses e talvez 5 de uma versão local da mesma classe. Esses submarinos são complementados por um número desconhecido de submarnos-minaturas, inclusive os da classe *Sang-O (“Tubarão”), de 277 toneladas, destinado a tarefas de infiltração de forças especiais no território da República da Coréia::