Já com vistas ao aniversário, um sistema de armas revisitado::Flak 36 “acht-acht” e suas variantes::

Ultimamente a imprensa só tem falado, em termos de “datas importantes, sobre 2014 e 2016. Nem vou dizer o que significam estas datas. Mas vou acrescentar que, em 2014, completam-se 150 anos de um evento que, pelo menos para mim (e, suponho, para as duas dúzias de assíduos do blogue das boas causas), tem muito maior significado. Não vou dizer qual, mas dou uma dica: a data correta é dezembro de 1864. Em 2015, por outro lado, fecham-se 70 anos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Não sei se as datas serão lembradas embora tenha certeza que nos meios militares e acadêmicos, certamente acontecerão eventos comemorativos, que envolverão rememoração e análise. A questão, para mim, é se a sociedade lembrará desses fatos com a intensidade que deveria.

De toda forma, tenho dedicado parte de meu tempo a recolher dados visando, quem sabe, um livro sobre a história da Segunda Guerra Mundial. Existem excelentes histórias da guerra, e atualmente tenho observado, em nosso país, um saudável interesse pela questão talvez empurrado pela emergência do Brasil na cena internacional, bem como pela consolidação, no meio acadêmico e científico, dos estudos de “relações internacionais”. O fato é que notei, anos atrás, que nenhum acadêmico, militar ou não, se interessou por abordar o tema. Vamos ver no que dá. Não sei se terei pernas para dar tal salto, mas, quando comecei a levantar material bruto, reparei que quase quarenta por cento do material publicado em causa:: diz respeito à “guerra mundial”. E, livro ou não, continuará sendo assim. E, mais ainda: o material publicado aqui tem, em alguns momentos, absoluta  originalidade, no que diz respeito aos temas, no âmbito da língua portuguesa “brasileira”. Não é novidade, dado o pouco interesse que o meio científico manifesta pelo assunto, no geral.

Quando comecei a fazer a estatística citada acima, encontrei alguns artigos que se remetem a temas que poderiam ser chamados “de domínio público” – já que quase todo mundo, do sexo masculino, pelo menos, acha que entende de guerra em geral e da Segunda Guerra, em particular. causa:: já abordou o capacete alemão, a submetralhadora ERMA e o tanque “Tigre”. Por motivos que têm relação com a propaganda aliada durante e depois da guerra, essas peças de equipamento são, ainda hoje, ícones da 2ª GM: toda vez que alguém põe os olhos ou ouve falar de uma delas, lembra imediatamente dos nazistas. Mas existe outro ícone da 2ª GM, mais “técnico”, digamos assim: o canhão antiaéreo Krupp 8,8 cm, conhecido de todos os especialistas como “oitenta e oito”. É uma das peças de equipamento militar mais bem sucedidas da história, e foi responsável, em diversas ocasiões, pela superioridade, ainda que temporária alcançada pela Wehrmacht. Pois causa:: já publicou, anos atrás, um artigo sobre essa peça de artilharia. Como o artigo ainda me parece bastante completo (diria eu, uma das melhores pesquisas que já fiz para o blogue), resolvi que seria boa providência uma reedição, revista e ampliada. A “primeira edição”, datada de agosto de 2007 será mantida, devido as imagens, que não serão reproduzidas. A “segunda edição” terá duas partes: a “primeira”, como sempre, “revista e aumentada”, e uma extensão publicada, como “parte 2”, conforme a metodologia já conhecida de todos. E é muito possível que, dentro de alguns anos, os assíduos encontrem o texto todo nas páginas do tal livro – se é que ele irá virar realidade. Portanto, divirtam-se e torçam para que minhas pernas sejam tão fortes quanto imagino…::

parte1/2O Fliegendabwehrkanonne 8,8 cm, mais conhecido entre as tropas da Wehrmacht como “acht-acht”( “oito-oito”, em alemão), e entre os aliados como “88”, surgiu em 1928, como Flak 18, desenhado pelas Usinas Krupp, de Essen, na Alemanha. A origem dessa arma remonta à Guerra Franco-Prussiana de 1870.

Durante o sítio de Paris, os franceses lançaram mão de alguns balões aerostáticos para observar o movimento das tropas prussianas, e, no final da campanha, para levar autoridades para fora da cidade. Na época, os prussianos não dispunham (e nem ninguém mais) de canhões capazes de disparar para o alto, já que os reparos de campanha dificilmente conseguiam elevar mais de 15°. Também não existiam fusos capazes de atuar eficientemente contra alvos da densidade de um balão, embora os fusos de tempo pudessem ser adaptados para fazer o projétil estourar nas proximidades de um alvo aéreo. Mas este nem era o maior problema. O exército imperial solicitou às Usinas Krupp que providenciassem uma arma eficaz contra o equipamento francês, e o resultado foi o BAK 37 (de Balone Abwehrkanonne, “canhão de defesa contra balões”). Tratava-se de uma peça de campanha de 3,7 cm, normalmente usada contra alvos levemente protegidos. Montada num reparo que perdeu as rodas e ganhou suportes cruciformes de madeira, teve o mecanismo de elevação modificado para permitir uma elevação de aproximadamente 60 graus. A coisa toda era montada numa carroça. Visto que o alcance do projétil não passada de 4000 metros, ainda por cima desenhado para uma trajetória quase tensa, a idéia era seguir o balão através de sua trajetória, até que o dito entrasse no alcance. O desempenho era pífio, dada a baixa cadência de tiro, mas o modelo continuou em atividade após o fim das hostilidades.

Em 1909, quando começaram a ser introduzidas na Alemanha as primeiras aeronaves de uso militar, o exército observou que, a uma altura de mais de 1500 metros (teto máximo das aeronaves daquela época), tanto o BAK 37 quanto as metralhadoras usando o cartucho IS 7,92 mm eram totalmente ineficazes. Nessa época foram introduzidos reparos capazes de receber tubos de 6,5 cm e 7,7 cm Krupp. Entretanto, aquela altura, as aeronaves não eram consideradas ameaça, de modo que, no início da Primeira Guerra Mundial, o exército alemão não dispunha de nenhuma arma genuinamente antiaérea.

O desenvolvimento da aviação militar durante a Grande Guerra foi notável. Todos os beligerantes perceberam a superioridade do avião sobre o balão, como meio de observação, e logo essas aeronaves começaram a ser caçadas tanto por aeronaves especialmente concebidas (os “caças”), quanto por salvas disparadas do chão. Ainda assim, o armamento antiaéreo que começou, então, a ser desenvolvido constituía-se de tubos de canhões de campanha de médio calibre montados sobre reparos adaptados para que permitir ampla elevação e maior estabilidade de tiro. Para aeronaves que voavam no máximo a 1000-1500 metros de altitude, isso parecia ser suficiente.

Entretanto, a partir de 1916 começaram a surgir aeronaves multimotores, capazes de alcançar um teto máximo de 4500 m a velocidades maiores que 120 km/h – eram os primeiros bombardeiros pesados. O problema é que a munição disponível, desenhada para os canhões de “tiro rápido”, cuja velocidade de saída dificilmente ultrapassava 600 m/s, era ineficaz contra os novos tipos de alvos aéreos. Para manter o projétil em vôo estável num ângulo aberto com relação a zero (o tubo paralelo ao chão), era necessária maior velocidade de saída. Isto significava não apenas uma carga de propelente maior como também aerodinâmica aperfeiçoada – ou seja: desenhos totalmente novos. Em vista dessa nova situação, em 1916 as Usinas Krupp adaptaram um calibre naval já existente, 8,8 cm, produzindo um tubo mais longo e com novo tipo de alma raiada. O conjunto foi colocado numa plataforma com rodas, própria para ser rebocada por um caminhão. Para ser colocada em “bateria” (posição de tiro) as rodas eram removidas e quatro braços dotados de macacos mantinham o conjunto em posição. A nova arma foi denominada Geschütze 8,8 Flak (Flug Abwehr Kanonne, “canhão de defesa contra vôo”). A munição foi redesenhada, para funcionar bem em trajetórias de vôo muito abertas em relação ao solo. Durante a guerra, o 8,8 chegou a ser utilizado na defesa dos parques industriais do Reno e do Rühr, e alguns foram instalados em Berlim.

A guerra acabou antes que o novo canhão estivesse totalmente desenvolvido. Como o Tratado de Versalhes, de 1919 proibiu a Alemanha de desenvolver e fabricar armas antiaéreas, os novos desenhos que estavam sendo concebidos foram abandonados.

A solução inventada para burlar o tratado de paz foi estabelecer um acordo com o governo da Suécia, que possibilitou as empresas alemãs utilizar instalações industriais suecas para desenvolver novos projetos de armas.

O intenso desenvolvido observado pela aviação militar durante o período entreguerras condicionou as requisições da Reichswehr, o exército nacional que havia sido organizado após a guerra. Os estudos realizados pelas áreas especializadas concluíram que havia necessidade de uma artilharia antiaérea pesada. Nos anos 1920 começaram a aparecer aeronaves que facilmente superavam a velocidade de 350 km/h alcançando um teto máximo de 6000 m. A velocidade de saída do projétil passou a ser crucial, para que a aceleração não fosse perdida muito rapidamente devido à força da gravidade. Os militares alemães concluíram que o menor calibre aceitável era o 7,5 cm, e uma arma começou a ser concebida na Suécia, junto com os arsenais Bofors.

O desempenho do 7,5 foi considerado insatisfatório. Na fase de protótipo, os engenheiros perceberam que o desenvolvimento desse projétil para maiores velocidades de boca seria problemático. O exército então solicitou um calibre maior, demanda atendida tanto pela Krupp quanto pela Rheinmetall. O calibre “oito-oito” da Krupp, com novo desenho, foi o vencedor. Essa nova munição tinha o projétil montado junto com o estojo, e pesava cerca de 9500 g, 2770 g no projétil de alto explosivo. A velocidade de boca inicial era de 785 m/s, e o desenho ogival alongado permitia um vôo estável até a altitude de 3850 m (a mesma peça, empregada como peça de artilharia de campanha, tinha alcance máximo de 8.000 m em trajetória tensa ou 14.800 m em trajetória elíptica aberta).

O sistema de armas criado em torno dessa munição foi denominado “Flak 18”, como forma de burlar as regras impostas pelo Tratado de Versalhes (o “F” mudado para Fliegende “equipamentos voadores”, ou “aeronave”; hoje em dia, a palavra “Flak” é uma espécie de gíria para “defesa anti-aérea”), e logo se revelou um sucesso. O tubo forjado em uma única peça, de 56 calibres ou seja, 4.938 cm de comprimento tinha o raiamento torcido para a direita, formado por 32 sulcos de profundidade decrescente, que aumentavam progressivamente o fechamento da hélice conforme aproximava-se a boca da arma, de modo a otimizar a pressão dos gases. A câmara, selada por bloco deslizante, de operação semi automática permitia a extração do estojo vazio e introdução de um novo independente da volta do conjunto à posição. Isto permitia uma cadência de fogo de 15 a 20 disparos por minuto, dependendo da habilidade da tripulação.

O conjunto era montado sobre um reparo cruciforme, que permitia conteira de 360 graus com uma elevação de 77 graus. Uma vez posto em bateria, ficava fixado sobre macacos reguláveis. Para transporte os braços laterais da “cruz” eram rebatidos e dois eixos de rodas, introduzidos. O peso do conjunto era de 4985 kg. Ficou pronto por volta de 1929.

A construção e testes dos protótipos deu-se na Suécia, cercada de segredo, visto que a remilitarização alemã ainda não tinha acontecido. Logo foi notado que o desgaste do cano era muito mais rápido do que o esperado e não se dava por igual. O motivo era a rapidez da cadência de fogo, que tornava o desgaste maior na região imediatamente anterior à boca. A enorme pressão aplicada ali pela alta velocidade de saída combinada com a alta taxa de giro axial do projétil e com o escape dos gases provocava atrito no raiamento, que acabava por perder a eficiência.  A fabricação em única peça, embora facilitasse o processo industrial, tornava o conjunto extremamente difícil de reparar, e muito dispendioso. Esse problema não foi corrigido imediatamente, pois a nova peça pareceu muito eficaz. Começou a ser distribuída em 1933, como Flak 18 8,8 cm.

Diversas modificações foram sendo introduzidas, conforme a peça ia sendo testada pelo exército. A principal delas consistiu na divisão do cano em três peças separadas: câmara, seção central e seção de boca, unidos por uma espécie de jaqueta. A divisão tornava a manutenção mais fácil e diminuía o custo do conjunto. Essa modificação teve de ser acompanhada por outras, no reparo, na plataforma e na carreta de transporte.

Testes de campo realizados entre 1935 e 1937 mostraram que a nova arma poderia ser empregada como canhão de apoio à infantaria, além de estabelecer a precisão e potência do projétil AAe. Embora o tubo continuasse o mesmo, diversas mudanças no reparo e na plataforma foram feitas, de modo a tornar o conjunto mais estável durante o tiro. Uma nova carreta de transporte for desenhada, na qual a posição das rodas foi abaixada e o mecanismo de fixação da plataforma na carreta, modificado, de modo que a altura do conjunto canhão/reparo-plataforma podia ser regulada antes da remoção da carreta. Essa nova plataforma, denominada Sonderanhänger 201 (“carreta especial 201”) se mostrou eficaz o suficiente para permitir o tiro em ângulos fechados de elevação, sem a remoção da plataforma da carreta, o que permitiu o uso do canhão contra alvos terrestres. Essa nova versão foi distribuída como Flak 36.

A Guerra Civil espanhola iria prover um vasto campo de testes para as novas armas alemãs. Hitler resolveu, por questões políticas, enviar um corpo de voluntários, que nada mais eram do que especialistas das forças armadas, cujo maior contingente pertencia à Luftwaffe. Como a artilharia antiaérea era responsabilidade desse ramo da Wehrmacht, alguns Flak 18 e 36 foram acrescentados ao inventário de armamentos levados para a Espanha.

Algumas modificações de projeto foram acrescentadas os novos canhões, em função da experiência espanhola. A carreta e a plataforma se tornaram ainda mais estáveis. Essas modificações não chegaram a resultar em uma nova versão, mas confirmaram as potencialidades do projetil 8,8, inclusive como munição antitanque. Na Espanha, o canhão foi utilizado nesta função em algumas oportunidades, mas o número de peças disponíveis era muito pequeno para possibilitar testes de campo efetivos, embora alguns tanques republicanos e pontos fortificados tenham sido destruídos através do chamado “tiro tenso”. Para essa função foi aperfeiçoado um mecanismo de pontaria baseado em um visor telescópico, que passou a ser distribuído em 1938.

O Flak acht-acht constituiu um autêntico sistema de armas. Ainda que o canhão (o sistema tubo-reparo-plataforma) tivesse atingido um ponto de razoável eficácia, o passo seguinte foi o aperfeiçoamento do sistema de pontaria integrado a um centro de controle de fogo. Este sistema, em sua primeira versão era conhecido como Kommandogerät 36 (“aparelho de comando modelo 1936”). Tinha como centro um aparelho denominado como Voraussichter (“preditor”), operado por um especialista e formado por duas peças principais: um computador eletro mecânico analógico integrado a um telêmetro ótico estereoscópico chamado Entfernungsmessgerät, de uns 4 m de largura. Este era constituído por diversos conjuntos de lentes e espelhos graduados. Os operadores moviam uma série de chaves fazendo coincidir a imagem da aeronave inimiga com as diversas graduações observáveis nos visores, obtendo assim dados constituídos por velocidade aproximada, altitude, direção e posição da aeronave inimiga com relação à posição da bateria AAe. Os dados eram fornecidos a outro aparelho, chamado Kommandohilfsgerät 35 (numa tradução livre, “aparelho de apoio ao comando” modelo 1935). Este era o computador propriamente dito, de fato uma calculadora mecânica que compilava os dados e os enviava, via um comutador denominado Übertragung 30 (“transportador” modelo 1930) para um conjunto de lâmpadas situado na plataforma das peças que constituíam a bateria (até quatro Flak 36). Acesas as lâmpadas, o operador da peça tinha então de mover ponteiros correspondentes, até que estes as cobrissem. O sistema, lançado no início dos anos 1930, se demonstrou inicialmente insatisfatório, e, em 1939 surgiu o “Transportador 39”, que introduzia motores elétricos sincronizados, operando um conjunto de ponteiros a partir de sinais elétricos enviados pelo “preditor”. Outro conjunto de ponteiros era ligado mecanicamente à plataforma. O apontador operava estes últimos por meio de rotores mecânicos, de modo que coincidissem com aqueles que indicavam os dados compilados pelo preditor. Os dados para ajuste de pontaria eram, então, transmitidos à plataforma, permitindo que o canhão fosse colocado em posição de disparo. Em 1937 esse novo sistema de controle de fogo foi introduzido experimentalmente, e a peça de artilharia assim adaptada foi denominada “Flak 37”. Este sistema começou a ser distribuído em 1938-1939, e constituiu o Kommandogerät 40, que também recebeu um telêmetro aperfeiçoado. Revelou-se extremamente preciso, e foi a base da defesa antiaérea da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Ao longo da guerra, aperfeiçoamentos consistindo na ligação do “preditor” com aparelhos de radar melhoraram consideravelmente a eficácia do sistema.

Em 1940, todas as versões do acht-acht instaladas em “Carretas especiais 201” receberam escudos para dar às tripulações alguma proteção, quando o canhão estivesse atuando como peça terrestre. O sistema do canhão era projetado para ser rebocado por diversos tipos de veículos, sendo os mais comuns o caminhão Opel de 3,6 t Blitz e o meia lagarta Sd.Kfz. 7. Também foram feitas tentativas de transformar a peça em automóvel, instalando um conjunto tipo Flak 37, chamado provisoriamente de Flak 37 Selbstfahrlafette auf 18 ton Zugkraftwagen. O sistema, projetado em 1940, visava prover unidades motorizadas de proteção antiaérea em campanha, mas revelou-se muito canhestro, e acabou sendo suspenso.

A partir de 1935, com a reorganização das forças armadas alemãs, a defesa antiaérea do Reich passou a ser controlada pela nova Luftwaffe,sugestão encaminhada pelo então general Kesselring.   Em 1938, o braço antiaéreo da the Luftwaffe empregava 6700 canhões leves, para defesa de baixo nível (2 cm e 3,7 cm) e uns 2700 canhões pesados, dentre os quais a maioria eram “oito-oito”. Uns poucos eram Flak 38 e 39, de 10,5 cm. Este era um canhão antiaéreo projetado para uso naval, que o complicado sistema de planejamento industrial nazista tentou “empurrar” para as forças armadas. Como se revelou muito pesado e canhestro para uso em campanha, acabou tendo uns duzentos exemplares instalados em posições fixas.

No início da guerra, a Luftwaffe previu a necessidade de contar com um Flak cujo teto de emprego fosse ainda maior, visto que os bombardeiros quadrimotores ingleses e norte-americanos podiam operar a 8000 metros de altura. Esse canhão precisaria, portanto, ter uma velocidade de boca inda maior, o que implicava num novo tubo e nova plataforma. A Rheinmetall-Borsig começou a estudar o projeto por volta do final de 1941, e os primeiros exemplares começaram a ser distribuídos no início de 1943, designados como Flak 41. A nova versão tinha peso total de 11240 kg e peso de combate de 7800 kg. O projétil também foi totalmente redesenhado, de modo a atingir uma velocidade de boca de cerca de 1000 m/s, o que o fazia alcançar 6336 m, com um projétil de 9200 g. Incorporava um mecanismo de disparo elétrico, operacional quando o canhão estivesse sendo usado contra alvos terrestres. Neste caso, seu alcance chegava a 15000 m, eficaz até 10000m, o que o tornava uma arma antitanque imbatível: o projétil perfurante podia penetrar blindagens de até 210 mm, com inclinação de 50 graus. Ou seja – era capaz de estourar qualquer coisa em qualquer frente::

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Os mísseis de Outubro::O lado menos falado::

Imagino que todos os assíduos de causa:: conheçam, ainda que por alto, a história da Crise dos Mísseis de Cuba. Trata-se de umaconfrontação de forças entre EUA e URSS ocorrida ao longo do mês de outubro de 1962, que não chegou a envolver combates, embora tenha seja considerada por alguns especialistas como o momento em que as duas potências nucleares chegaram mais perto de ir à guerra. No entanto, um exame dos fatos militares geralmente fica restrito a publicações especializadas, geralmente em inglês. Visto que agosto marca os 50 anos do início da crise, o blogue das boas causas irá, em duas partes, dar uma olhada no panorama militar deste que é um dos maiores eventos políticos do século passado::

Ligada ao contexto de tensão controlada da Guerra Fria, a Crise dos Mísseis de Cuba teve seus antecedentes, evidentemente, na vitória da revolução Cubana, em janeiro de 1959, e na declaração, por Fidel Castro, dois anos depois, do alinhamento do país ao bloco comunista. Foi um golpe na estratégia norte americana de “defesa hemisférica”, no qual a enorme máquina de inteligência constituída pelos EUA a partir da 2ª GM, literalmente comeu mosca. Ainda assim, os EUA optaram, já dentro da política do governo Kennedy de enfrentamento flexível da expansão comunista, em tentar minar o regime cubano por meio de bloqueio diplomático (o rompimento de relações diplomáticas, que ocorreu em janeiro de 1961, e posterior expulsão da OEA) e econômico e na montagem de “operações cobertas”. Estas se caracterizavam pelo apoio, do Exército dos EUA, da CIA e das agências de inteligência militar, às tentativas de grupos de exilados cubanos de extrema direita, instalados na Flórida, em derrubar o regime comunista pró-soviético. Tal opção de ação culminou com uma tentativa de invasão de Cuba por uma tropa de exilados armada e treinada pelos EUA. Esse episódio foi denominado, no Ocidente, como “Invasão da Baía dos Porcos”.

Vale à pena fazer um parágrafo para esse evento. Desde pelo menos o final do governo Eisenhower os EUA tinham optado por tentar ações indiretas contra o governo cubano, sob a coordenação da CIA e envolvendo as forças armadas e a inteligência militar. Os antecedentes do projeto datam dessa época, provocados por sucessivos fracassos em iniciar um movimento de guerrilha no interior de Cuba. A idéia central era colocar uma pequena unidade de infantaria, com força de regimento leve, em território cubano, pois se considerava que a notícia da invasão provocaria um levante geral contra o governo, e a força invasora poderia, caso não conseguisse derrotar rapidamente as forças do governo, começar atividades de guerrilha. Em 1960 a CIA começou a recrutar e treinar exilados cubanos, que passaram a receber treinamento de armas e táticas em bases situadas na Flórida, Lousiania, Guatemala e Porto Rico. Após algum debate, o desembarque foi designado para uma série de pequenas praias desertas situadas em um lugar conhecido por “Bahia de los Cochinos” (Baía dos Porcos), na província de Las Villas. A força de exilados foi denominada “Brigada de Asalto 2506”, e segundo foi divulgado posteriormente, havia sido criada sob os auspícios de um “Conselho Revolucionário Cubano” em Miami. Tratava-se de uma operação diversiva montada pela CIA, visto que tal órgão tinha sido montado cerca de um mês antes da invasão. A”Brigada 2506″ contava com pouco mais de 1400 efetivos. As operações foram abertas em 15 de abril, com bombardeiros B26 Invaders, pintados com as cores cubanas, atacando com foguetes e canhões três bases aéreas numa tentativa de incapacitar a força aérea de Cuba. As oito aeronaves encontraram forte oposição antiaérea, um deles foi derrubado e outro, muito danificado, conseguiu pousar em Key West, na Flórida. No dia seguinte, durante a cerimônia pública de sepultamento dos mortos nos ataques aéreos, Castro reafirmou a adesão do regime ao bloco soviético. A invasão seguia adiante, não sem inúmeros erros. Em 17 de abril, elementos paraquedistas da “Brigada 2506”, com força de companhia e transportados por aeronaves cargueiras C46 e C54 providenciados pela CIA, foram lançados na área da Baía dos Porcos. O objetivo era bloquear uma estrada que poderia ser usada pelos defensores. Esta missão também falhou, ao mesmo tempo que a força de uns 1200 efetivos era desembarcada na praia de Girón, com equipamento pesado e artilharia.  O desembarque não foi totalmente bem sucedido: boa parte do equipamento se perdeu devido as operações aéreas da Força Aérea Revolucionária. Os primeiros combates favoreceram os atacantes, mas as forças de defesa da ilha já estavam mobilizadas, e foram rapidamente  deslocadas para a cabeça de praia. Aos poucos, os invasores foram ficando sem munição e em menos de três dias foram totalmente derrotados. Uma tentativa feita pela Marinha dos EUA em resgatar pelo menos parte da força atacante foi abortada por ordem direta de Kennedy. Este também havia negado auxílio da Força Aérea dos EUA, pois achava que o projeto estava fadado ao fracasso desde o início.

No entanto, a invasão assustou Fidel Castro, pois parecia evidente que os norte-americanos mais cedo ou mais tarde encontrariam uma justificativa para intervir militarmente na ilha. Por volta volta de julho de 1962, Castro  anunciou seriam tomadas medidas políticas para que qualquer agressão direta dos EUA contra Cuba se transformasse em guerra mundial. As “medidas políticas” tomaram a forma de uma solicitação de assistência soviética para a defesa da ilha.

Era tudo que queriam os soviéticos. Até aquele momento, Moscou já vinha auxiliando os cubanos em assuntos econômicos e militares, mas a ajuda militar era bastante limitada pelo cuidado cubano em não provocar os EUA. Os soviéticos, por sua vez, se viam provocados pela insistência dos EUA, a partir de 1958, em constituir estoques de mísseis de alcance médio e intermediário (MRBMs e IRBMs) e respectivas ogivas na Europa, sob o guarda-chuva da OTAN. Os mísseis, instalados inicialmente na Grã Bretanha e Itália, sob controle das forças armadas locais, seriam alegadamente de uso tático, mas o fato é que eram capazes de atingir o território soviético. Essa iniciativa devia-se (pelo menos segundo os norte-americanos) aos esforços da URSS em alterar o balanço de capacidade nuclear, naquele momento amplamente favorável aos EUA. Tio Sam alegava que a superioridade nuclear contrabalançava a enorme superioridade soviética em forças convencionais. A capacidade convencional soviética era, de fato, uma desculpa mais do que aceitável. Por volta do final dos anos 1950, as forças armadas “do Pacto de Varsóvia” (entre aspas mesmo, já que o poderio militar dos aliados europeus da URSS era pífio) eram pelo menos duas vezes maiores do que as norte-americanas e européias (por volta de 1962, no total, uns três e meio milhões de efetivos, oitenta por cento deles dos EUA). A defesa da Europa Ocidental estava amplamente baseada na capacidade militar norte-americana instalada na Europa, e as nações européias relutavam em ampliar seus gastos com defesa. Se em época de bonança econômica, os custos ficavam pesados para os EUA, em épocas de crise, então, nem se fala. A manutenção de mísseis na Europa fazia parte da política de defesa do “mundo livre” do governo Eisenhower (1952-1960), difundida a partir de 1954 e denominada “New Look”, o que incluía o enfrentamento contra a expansão comunista. Essa política punha grande ênfase na “resposta nuclear”, considerada mais barata e efetiva do que a manutenção de forças convencionais capazes de contrabalançar a superioridade soviética. Com o governo Kennedy, o secretário de Defesa Robert McNamara estabeleceu uma nova doutrina, na qual a resposta a um ataque seria proporcional ao alcance e perigo que este envolvesse. O estoque de mísseis em território europeu foi, entretanto, mantido, visto que, em 1959, os planejadores militares dos EUA acreditavam que um ataque soviético a partir da Alemanha Oriental levaria na melhor das hipóteses, uns cinco dias para alcançar a o canal da Mancha e a fronteira franco-espanhola.

Os soviéticos viram na solicitação cubana uma oportunidade para contrabalançar o cerco nuclear montado pelos norte-americanos. Moscou já vinha trabalhando no projeto desde o mês de maio, em função da instalação, em bases localizadas na Turquia, de MRBMs PGM13 “Júpiter”. Com alcance de uns 2400 km, embora de baixa confiabilidade em termos de precisão, esses vetores colocavam Moscou ao alcance de um ataque dos EUA. A manobra foi considerada pelo governo soviético como inaceitável. Em meados de agosto de 1962 começou a transferência, para o Caribe, de algumas unidades de engenharia, que, uma vez na ilha, iniciaram a instalação de bases que deveriam receber os mísseis balísticos de alcance intermediário SS20.

Na próxima semana, alguns aspectos militares da “crise dos mísseis”, tanto do lado soviético quanto norte americano. Aguardem todos!::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Idéias absurdas que ajudaram a vencer a guerra2::Rosie the Riveter ou A mulher americana entra na guerra::

Rosie the Riveter, por Norman Rockwell. Trata-se da versão mais conhecida do icone da mulher norte-americana na guerra

Rosie The Riveter’ (“Rosinha, a Rebitadora”) nunca existiu. Ela foi inventada por diversos artistas e publicitáriosnorte-americanos, no momento em que idéias estapafúrdias eram mais do que necessárias para ajudar a tirar o país da maior encrenca em que já se vira metido (e não é de hoje que os EUA são criativos para se meterem em encrancas…): uma guerra mundial para qual não estavam preparados.

A idéia de ter mulheres em funções de combate hoje em dia não chega a despertar estranheza; a idéia de que mulheres trabalhem fora de casa, então, não chega a espantar qualquer pessoa. Mas nem sempre foi assim. Até o ataque japonês a Pearl Harbour, fato que lançou os EUA na 2ª GM, a quase totalidade da força de trabalho norte-americana era masculina. Até mesmo nas grandes cidades, era algo incomum encontrar mulheres em postos de trabalho remunerado. A partir dos anos 1920, alguns tipos de trabalho passaram a ser ocupados majoritariamente por mulheres, como, por exemplo, telefonistas, secretárias e professoras do ensino básico. Eram normalmente trabalhos adequados “à natureza feminina”: não exigiam força física (que, segundo se dizia, as mulheres não tinham) nem muita agilidade intelectual (idéia que até hoje surge por aí…) e lhes permitiam expressar a delicadeza e a “graciosidade”. De fato, o lugar reservado para as mulheres, na sociedade, era mesmo a família, cuidando de crianças e fazendo biscoitos…

Para que as mulheres deixassem tal posição, seria preciso uma crise grande o suficiente para que faltasse mão-de-obra no mercado de trabalho. Ao longo do século 19, as crises não chegaram a tal ponto: haviam homens suficientes para ocupar os postos de trabalho existentes sem que os salários aumentassem muito. O interessante é que, durante a segunda metade do século 19, conforme a economia se expandia com a Segunda Revolução Industrial, não houve guerras muito grandes e longas, que obrigassem a convocação de número considerável de homens adultos. A coisa mudou com a 1ª GM: a convocação maciça da porção masculina da sociedade, notadamente após 1916, chegou a obrigar alguns países europeus a lançar mão de grande número de mulheres jovens como força de trabalho industrial, embora tais números não tenham chegado a provocar uma inversão notável na composição da mão-de-obra. Nos EUA, a entrada tardia na guerra, e o número relativamente pequeno de efetivos enviados à Europa, a partir da segunda metade de 1917, não chegou a constituir problema sério para a constituição da força de trabalho. Nos anos posteriores ao fim do conflito, a expansão da economia criou postos de trabalho para todos aqueles que retornavam do front. A crise geral de 1929, por sua vez, expulsou do mercado de trabalho, nos EUA, cerca de vinte por cento do trabalhadores, e reduziu drasticamente o salário dos restantes. Nessa conjuntura, as mulheres permaneceram em casa enquanto os homens perambulavam pela rua a procura de uma ocupação.

O enfrentamento da crise econômica só seria encaminhado a partir de 1932, com a implementação do conjunto de políticas intervenconistas denominado “New Deal“. De início, as políticas de revitalização econômica através de fortes investimentos governamentais em obras públicas e assitência social não incluíram as forças armadas, cujo tamanho tinha sido drasticamente reduzido depois da 1ª GM. Além do mais, durante os anos 1930 a crise não deu sinais de que recuaria rapidamente, de modo que a eclosão da guerra na Europa encontrou a “grande depressão” apenas parcialmente resolvida. Isto explica, em parte, a conhecida relutância dos EUA em encarar uma possível participação no conflito, ainda que seus interesses nacionais no Pacífico estivessem fortemente ameaçados. Mas o país tinha sido tomado, após o fim da Grande Guerra, por forte mentalidade isolacionista, e o grosso da população, maltratada pela crise econômica, tendia a enxergar os problemas europeus como “problemas estrangeiros”. Ainda assim, a partir de 1940 o governo norte-americano passou a projetar uma participação “relativa” na guerra, com o presidente Franklin Delano Rooselvelt disposto a auxiliar os ingleses em sua luta contra o nazismo através de apoio econômico e industrial (concretizados na política de “Empréstimos e aluguel” – Lend-lease – concretizada no início de 1941). O potencial militar dos EUA (aquela altura, nada muito considerável) seria empenhado apenas na defesa hemisférica – defesa das águas domésticas no atlântico norte e apoio e liderança às políticas de defesa dos países latino-americanos.

Entretanto, a mobilização propriamente dita começou no final de 1939 e se acelerou no clima um tanto deprimente (para o governo Rooselvelt) dos sucessos militares alemães da primavera de 1940. Esta fase, uma transição ordenada prevista no plano de mobilização industrial de 1939, logo foi abandonada. De fato, os planos de mobilização industrial e militar já vinham sendo elaborados desde 1930 e examinaram detalhadamente a forma como o país organizaria a administração civil, as forças armadas e a indústria numa possível guerra generalizada. A base era a doutrina de que a gestão da economia e particularmente o controle da indústria nessa possível guerra seriam funções presidenciais por excelência. Essas funçôes seriam delegadas à agências executivas, em grande parte compostas por civis especializados e chefiadas por um staff de total confiança do chefe da nação. O planejamento antecipado foi uma boa solução: a idéia era de que o problema, quando e se surgisse, provavelmente seria maior do que qualquer serviço ou departamento, sozinho, poderia dar conta. Em 1940 a equipe presidencial convocada já dispunha de um projeto que previa os métodos e instrumentos de controle econômico em tempo de guerra, a partir de listas de necessidades e prioridades para instalações, indústrias e produtos, para o controle do comércio exterior, e até mesmo para o estabelecimento de empresas estatais de emergência, controle de preços e da opinião pública.

Em maio de 1940, o Roosevelt lançou, numa mensagem dirigida ao Congresso dos EUA, o desafio dos “50 mil aviões” (uma Força Aérea de 50.000 aeronaves e a produção de outras 50.000 a cada ano) e encaminhou um pedido de dotação orçamentária suplementar para a defesa. Paralelamente, montou, no gabinete presidencial, o “Escritório de Gerenciamento de Emergências”, que deveria coordenar o esforço de mobilização. A “Comissão Consultiva de Defesa Nacional”, mais ampla, avaliaria os problemas de mobilização de recursos e prepararia planos abrangentes para vários estágios do processo. Essa comissão se não durar um ano, e foi sucedida pelo “Escritório de Gestão da Produção”, também logo dissolvido. O clima político não foi lá muito receptivo a uma mobilização em escala industrial e a população também olhava a guerra como um problema europeu.

A mobilização propriamente dita começou no final de 1939 e se acelerou no clima um tanto deprimente (para o governo Rooselvelt) dos sucessos militares alemães da primavera de 1940. Esta fase, uma transição ordenada prevista no plano de mobilização industrial de 1939, logo foi abandonada. Se por um lado o ataque aéreo contra Pearl Harbour  mobilizou a população para a causa da guerra, por outro o problema mostrou-se ainda maior do que tinha sido imaginado: o teatro do Pacífico exigia intervenção imediata, os ingleses queriam mais do que ajuda econômica e os soviéticos, tornados aliados a partir de junho de 1941, passaram a clamar pela abertuda de uma “segunda frente”. A mobilização da sociedade passou a ter como objetivo aguentar o tranco até a montagem de forças armadas grandes o suficiente para intervir em todas essas frentes, mas seriam necessários, para começo de conversa, algo em torno de 1.o00.000 de efetivos no Exército, 50.000 na aviação e 300.000 na marinha,  e num prazo de aproximadamente seis meses.  É claro que as forças armadas precisariam de equipamentos e munições, e essas teriam de proceder das fábricas que as próprias forças armadas iriam esvaziar. Inicialmente, se pensou em uma convocação que preservaria as áreas mais sensíveis da produção. Foram precisos apenas poucos meses para que ficasse evidente: não ia dar certo. A sucessão de vitórias japonesas, ao longo da primeira metade de 1942, e a campanha dos submarinos alemães contra a navegação mercante na costa oriental dos EUA mostrou que a magnitude da convocação exigiria soluções radicais.

Pouco antes, o o governo começara a encarar seriamente a convocação de mulheres para ocupar os postos de trabalho que iriam vagar com a incorporação dos homens adultos às forças armadas. As pesadas baixas iniciais mostraram com clareza e crueza a crise em que o país se via mergulhado. Em função da propaganda, não seria difícil fazer com que as mulheres aderissem ao esforço de guerra, mas não se poderia esperar que elas o fizessem de forma absolutamente espontânea, como os homens estavam fazendo no que tange ao alistamento nas forças armadas. Seria preciso apelar ao sentimento patriótico das mães e esposas norte-americanas, e isto teria de ser feito através de grandes campanhas publicitárias.

O governo norte-americano passou a montar, a partir de 1942, com a assistência de grandes agências, sucessivas campanhas que conclamavam as mulheres a assumir,  na indústria, funções até então vistas como masculinas. Tais funções seriam indicadas tais funções como “postos de combate” de um “frente interna” (em inglês, Homefront) que exigiria a participação de todos. É interessante observar que a campanha We can do it!, lançada em fevereiro de 1942 – quer dizer, logo no início da guerra –, mostra uma mulher jovem, com o rosto determinado, fazendo um gesto tipicamente masculino. Era a  primeira cara de Rosie, the Riveter (“Rosinha, a rebitadora”), personagem que se tornou o símbolo da mulher norte-americana durante a 2ª GM.

A imagem foi criada pelo artista J. Howard Miller, por encomenda do Comitê de Coordenação da Produção de Guerra da empresa The Westinghouse Company, indústria eletroeletrônica produtora de peças para aeronaves de combate. A mais famosa dessas imagens foi baseada em uma fotografia feita numa fábrica da empresa em Michigan, e retratava uma trabalhadora de 27 anos de idade chamada Geraldine Doyle. Nessa época, a personagem não era chamada de “Rosie”, nome que, por incrível que pareça, só foi adotado no final dos anos 1970, ou seja, mais de quarenta anos depois do lançamento.

A campanha teve enorme sucesso e o objetivo inicial foi rapidamente cumprido: a indústria conquistou a força de trabalho feminina. O setor aeronáutico viu crescer de forma notável o número de mulheres em suas linhas de produção. Mais de 310.000 delas trabalhavam nessa indústria em 1943, representando mais de 65 por cento do total da força de trabalho dessa indústria. A magnitude desse porcentual não precisa ser frisada: em 1939, cerca de um por cento da mão de obra dessa indústria era composta por mulheres. A indústria de munições também passou a recrutar trabalhadoras em grande número.

O sucesso feminino nas novas atividades devia-se, em parte, às características do trabalho desenvolvido. De fato, fabricar aviões ou preparar cartuchos não exigia força física, já que a força propriamente dita era feita pela máquina. A indústria moderna, organizada no final do século 19, colocava os trabalhadores como operadores de máquinas, e o conjunto máquina-operador executava pequenas tarefas de forma mais ou menos automatizada e altamente repetitiva. O conjunto dessas tarefas resultava no produto acabado. Os movimentos realizados eram poucos e simples (apertar um gatilho ou acionar uma alavanca ou um pedal, por exemplo), em posições próximas uma das outras. O operário não precisava se deslocar, ou o fazia em extensões muito pequenas, visto que o objeto do trabalho é que se deslocava, ao longo de uma linha. Ferramental acionado por força eletromecânica, pneumática ou hidráulica tinha de ser deslocado até um ponto bastante preciso dentro de um objeto maior. Dessa forma, o operário não precisava entender plenamente o que estava fazendo, desde que seguisse a risca uma série de instruções. Caso tivesse dúvidas, remetia-se a um esquema gráfico que indicava por imagens ordenadas sucessivamente o que tinha de ser feito. Um operário desses precisava ter um grau de instrução relativamente baixo, e o treinamento era muito fácil, aprendido na própria linha de montagem. O decorrer do trabalho era supervisionado o tempo todo por capatazes – estes, em geral, do sexo masculino. E, apesar da admitida necessidade da força feminina para o esforço de guerra, isto não significou vantagens salariais: dificilmente uma operária ganhava mais do metade do ordenado pago a um operário. Os capatazes quase nunca eram mulheres, e os cargos de supervisores e gerentes eram virtualmente fechados ao sexo feminino.

Conforme as mulheres se juntavam às linhas de produção, as campanhas começaram a mostrar as qualidades que se esperava de uma “combatente da frente interna”: forte, disciplinada, dedicada. Masculinizada, mas sem perder certas características femininas. Essas campanhas começaram a apresentar, a partir de maio de 1943, a nova “Rosie”. Esse redesenho da personagem aparece com uma ilustração do artista gráfico Norman Rockwell, na capa da revista Saturday Evening Post. Rockwell é conhecido por seus desenhos altamente realistas do americano comum, apanhado em cenas cotidianas. Sua “Rosinha”, entretanto, incorpora todos os atributos geralmente atribuídos aos operários industriais, inclusive o macacão de zuarte (um tecido de mescla de algodão, juntando fios mais grossos e mais finos, muito parecido com os blue-jeans), que os fazia serem chamados de “colarinhos azuis”, em oposição aos “colarinhos brancos” da administração. Ela é mostrada na hora do almoço – um sanduiche, que pode ser consumido rapidamente nos vinte minutos de intervalo que as operárias tinham para almoçar. É interessante observar que a cena, um verdadeiro discurso patriótico feito com imagens, incorpora a “arma” da “combatente”: um rebitador, mas de proporções bem maiores do que aqueles usados na indústria de equipamento militar (que tinha aproximadamente as proporções de uma furadeira elétrica de impacto), uma enorme bandeira dos EUA e, debaixo dos pés de Rosinha, um exemplar do “Mein Kampf”, o panfleto de Hitler transformado em livro sagrado dos nazistas. O mais interessante nessa imagem são as proporções masculinas que Rockwell atribuiu à sua personagem, a começar pelos braços musculosos. Alguns intérpretes afirmam que essa imagem tem atributos das imagens religiosas compostas durante a Renascença, e que a composição teria sido intencional, feita para dar tons religiosos à mensagem patriótica buscada com a composição.

As campanhas publicitárias prosseguiram por toda a Guerra. As revistas ilustradas estampavam reportagens fotográficas com “Rosinhas da vida real”: uma rebitadora da General Motors na cidade de North Tarrytown, NY, que instalou 3.345 rebites em um bombardeiro Avenger, merecendo pelo feito uma carta de agredecimento do presidente Rooselvelt. Essas “mulheres da vida real” passaram a merecer atenção da imprensa não propriamente como trabalhadoras empenhadas em funções industriais regulares, mas como ocupantes de funções ”masculinas” num momento atípico em que os homens não estavam disponíveis::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Idéias absurdas que ajudaram a vencer a guerra1::Red Ball Express::

Pois é… Ano passado, pela primeira vez em alguns anos, deixei de comemorar o fim da Segunda Guerra Mundial. Essa primeira no evento fixo mais fixo que o blogue das boas causas observa chegou a me deixar um tantinho chateado, proque realmente penso que essa data devia merecer comemorações muito mais animadas do que merecem, atualmente. Principalmente agora, que recrudescem as idéias neonazistas, na Europa da crise financeira. Esta é, de fato, uma das maiores provas de que a humanidade tem memória de ameba e, como diz o bom Lulu Santos, caminha com passos de formiga. Assim, resolvi não perder a data, embora o timing tenha deixado a desejar, já que estamos com uma semana de atraso. Este ano, por motivos que nem eu mesmo sei explicar, resolvi abordar algumas idéias absurdas que ajudaram a ganhar a guerra. Não foram poucas, e algumas, de fato, mudaram o mundo inclusive depois de terminado o conflito. O artigo que se segue coloca um dos principais problemas que até hoje afligem as forças armadas dos EUA – o estilo perdulário de fazer a guerra, que se expressa sobretudo no vício em gasolina manifestado pelas forças armadas norte-americanas. Eu não tinha o assunto em mente, até descobri-lo meio por acaso. Poucos dias atrás, recebi de um amigo um filme feito em 1952, “Arrancada da Morte” (Red Ball Express), dirigido por Budd Boetticher, um diretor de westerns que incursionou raramente (ainda bem…) pelos filmes de guerra. Todo mundo que se interessa pela história militar e técnica da 2ª GM já ouviu falar do “Expresso Bola Vermelha”, mas eu nunca havia atribuído a ele maior importância – apenas mais uma proeza numa guerra em que a logística foi o aspecto predominante. O filme, por outro lado, é tão absurdo que tive curiosidade de checar alguns dos eventos descritos lá. E o pior é que é quase tudo verdade. Passei algum tempo fazendo uma grande-pequena pesquisa, e agora posso garantir que o assunto é interessante. Este será o primeiro artigo da comemoração. Outros se seguirão. Espero que se divirtam tanto quanto eu me diverti::

Em 6 de junho de 1944, tropas aliadas desembarcaram na Normandia. Era o primeiro passo na direção da libertação da França, ocupada desde 1940 pelos alemães. Ao longo de junho e julho, as tropas aliadas combateram duramente para ampliar a cabeça de praia estabelecida na primeira semana, mas não sem encontrar decidida resistência do adversário. Mais de um mês depois, em 25 de julho, forças americanas comandadas pelo general-de-divisão (tenente-general, na nomenclatura norte-americana; tanto no Exército dos EUA quanto no EB, general de três estrelas) Omar N. Bradley, envolvidas na “Operação Cobra” romperam as defesas alemãs na extremidade ocidental da cabeça de ponte e se lançaram através da brecha, conduzindo o restante do Terceiro Exército dos EUA. Esta grande unidade tinha sido colocada em operação em 1º de agosto, sob comando do notório general-de-divisão George S. Patton Jr.

Foi o início de uma das mais bem sucedidas campanhas do Exército dos EUA na 2ª GM. O Terceiro Exército percorreu um estreito corredor entre o Sétimo Exército alemão e o mar, desarticulou o flanco de toda a linha inimiga na Normandia e acabou por romper a retaguarda alemã. As forças de Patton avançaram em todas as quatro direções de forma coordenada. No sul, avançam em direlção ao rio Loire; a oeste buscaram a península da Bretanha; no norte, o objetivo era a junção com os britânicos nas proximidades de Falaise; a leste, lançaram-se em direção ao Sena, tendo Paris como objetivo.

Até então, as forças aliadas, acotoveladas em um estreito território, estavam engajadas em um típico combate de infantaria. Após 25 de julho, tendo diante de si o território francês pouco acidentado e servido por uma rede de estradas ainda relativamente intactas, as forças dos EUA puderam fazer valer sua arrasadora superioridade em meios, e a campanha tornou-se uma operação mecanizada. Um observador desavisado diria que a blitzkrieg era invenção americana, e não alemã: pontas de lança blindadas lideravam a infantaria, em boa parte montada em veículos de todos os tipos. No alto, caças-bombardeiros patrulhavam as estradas adiante, relatavam as condições do teatro e atacavam qualquer força alemã que tivesse a ousadia de expor-se à luz do dia. As forças alemãs na Normandia quase entraram em colapso e por pouco escaparam do pior pesadelo de um exército: cair num bolsão. Com o exército de Patton sempre nos calcanhares, recuaram desabaladamente na direção da Alemanha, sofrendo, no trajeto, baixas arrasadoras em efetivos e equipamentos. Em 15 de agosto, as forças aliadas invadiram o sul da França e se juntaram ao sistemático esmagamento da Wehrmacht. Com os restos de dois grupos do exército alemão em plena retirada, o Comandante Supremo Aliado, general-de-exército (coronel-general, na nomenclatura norte-americana; tanto no Exército dos EUA quanto no EB, general de quatro estrelas) Dwight D. Eisenhower, por natureza bastante comedido, deixou circular, no início de setembro, a notícia de que o exército alemão na França tinha sido derrotado.

Com o Terceiro Exército se aproximava da província francesa da Lorena (em francês, Loraine), na fronteira entre França e Alemanha, a inteligência do Terceiro Exército dos EUA, avaliando informações que chegavam de todos os setores sobre as condições da Wehrmacht, convenceu-se de que a guerra estava praticamente terminada. O alto comando aliado tendeu a concordar. Contrapostas tais informações com aquelas conseguidas através do sistema Ultra (conjunto de unidades de decodificação e análise de mensagens criptografadas do Exército Britânico), a conclusão foi que a fronteira franco-alemã podeia ser considerada praticamente aberta, e que levaria algum tempo (cerca de um mês, nas expectativas mais pessimistas) para que a situação fosse reorganizada. As informações das unidades motorizadas de reconhecimento davam conta de estar um longo trecho do rio Mosela praticamente desguarnecido, e Patton não viu motivos que impedissem suas tropas de tomar as cidades de Metz e Nancy, romper através da Lorena e invadir a Alemanha através do rio Reno, em Mannheim e Mainz.

Aquela altura, tanto comandantes quanto comandados acreditavam que a Lorena eram favas contadas – cairia rapidamente, e os tanques de Patton tomariam a Alemanha antes do final do ano. Todos se enganaram: as previsões se mostraram excessivamente otimistas e a batalha pela Lorena viria a durar três meses, e, ainda por cima, seria a mais sangrenta dentre as campanhas cumpridas pelo Terceiro Exército dos EUA.

Limitada a oeste pelo rio Mosela, a leste pelo Saar, ao norte pelo Luxemburgo e pela floresta das Ardenas, e ao sul pelos montes Vosges, a província da Lorena é o caminho mais direto entre França e Alemanha – exatamente por este motivo tem sido, por séculos, a rota de invasão mais tradicional entre as regiões leste e oeste da Europa Ocidental e alvo de disputa entre as formações políticas francesa e alemã ao longo de toda a Idade Média e Moderna. Desde 1766 considerada parte da França, a Lorena, juntamente com a Alsásia, passou ao Império Alemão Hohenzollern depois da derrota francesa na Guerra Franco Prussiana de 1870. A partir de 1919 voltou a fazer parte da França, e, após a derrota francesa de 1940, foi um dos poucos territórios da Europa Ocidental anexados à Alemanha.

Curiosamente, a grande estratégia aliada não considerava a província como rota primária para a invasão da Alemanha. Isto se explicaria pelo fato de que o SHAEF (alto comando aliado para o teatro europeu de operações) considerava o território como possuidor de poucos objetivos militares compensadores. Não se tratava da região mais populosa da Alemanha, e nem mesmo a área industrial do Sarre, embora significativa, se comparava a do Ruhr, mais ao norte, no esforço de guerra alemão. As cidades da região do Alto Reno que não eram mais as principais da Alemanha.

De fato, o plano básico para a campanha européia punha o maior esforço mais a norte, na zona do 21° Grupo de Exércitos, onde estavam os objetivos militares e industriais considerados vitais. Depois de atravessar a província e entrar na Alemanha o Terceiro Exército viu-se sem objetivos militares de primeira ordem e seu comando, sem ter como justificar as requisições de reposições e suprimentos. Após a conclusão da campanha, o próprio Patton teria declarado ao Departamento de Guerra dos EUA que, depois do fim do conflito a província deveria ser deixada aos alemães. Segundo o general, não poderia haver maior castigo, pois tratava-se de região sem atrativos, muito chuvosa e cuja maior riqueza constituia-se de “variadas pilhas de estrume”.

Além do mais, a Lorena mostrou-se, nas avaliações, difícil campo de manobra para atacantes. A ondulante paisagem rural era ponteada por bosques e charnecas, com inúmeras pequenas cidades e aldeias, algumas das quais tinham sido fortificadas ao longo dos séculos anteriores. O solo ondulado erguia-se de leste para oeste, e os atacantes se veriam encalacrados no sopé de colinas que tinham de ser transpostas. Os rios e riachos eram inúmeros, correndo geralmente do sul para o norte, direção oposta da penetração norte-americana (o que, dependendo do porte do curso d´água, dificultava a transposição), e a fronteira com a Alemanha opunha duas linhas de fortificações: a “Maginot”, praticamente desativada, e, já no solo alemão, a “Siegfried”, chamada pelos nazistas de “Westwall” (“Muralha Ocidental”). Segundo estimativas da inteligência, a “Muralha Ocidental” tinha sido melhorada, nos anos anteriores, com bastiões antitanques praticamente invulneráveis a ataques aéreos. A única vantagem que os aliados conseguiam antever era a falta crônica de efetivos treinados, observada na Wehrmacht depois da debacle francesa. Essa poderia, entretanto, ser contrabalançada pelo fim do apoio incondicional da população civil local, que lá era majoritariamente alemã e tinha recebido, durante a guerra, alguns acréscimos, dentro da política de redistribuição populacional dos nazistas.

Com tão poucos atrativos, o que fazia Patton preocupar-se com a Lorena? O motivo não vinha dele, mas de Eisenhower. O comandante supremo tinha em mente destruir tantas forças alemãs quanto possível, a  oeste do Reno, de modo a diminuir a capacidade inimiga em se opor na região do esforço principal.

O chefe de Patton, general Bradley, comandante do 12º Grupo de Exércitos dos EUA, concordava, e determinou que todos os exércitos aliados deveriam pressionar na mesmo sentido, um amplo arco na direção do centro da Alemanha. Com o portão da Lorena escancarado, Patton, ególatra incorrigível e embriagado pelo sucesso dos meses anteriores, não via motivo para não seguir em frente e levar tudo de roldão. Assim, uma série de fatores deixou de ser levada em consideração.

O principal deles era o fato de que a Lorena ficava a mais de 750 quilômetros de distância das praias normandas, início das linhas de suprimentos através das quais o Terceiro Exército obtinha a maior parte de seus suprimentos. Uma das coisas que os norte-americanos aprenderam durante a 2ª GM é que a guerra moderna, mecanizada por excelência, demanda quantidades oceânicas de combustível e suprimentos. Um estudo feito após a campanha da França calculou que cada efetivo em combate necessitava de aproximadamente 200 quilos de materiais os mais diversos, a cada dia. Trata-se de um cálculo estatístico muito complexo, que envolvia não apenas os suprimentos necessários para manutenção física do soldado (alimentos, roupas, produtos diversos, medicamentos, e por aí vai), mas também os diversos armamentos e equipamentos, munições diversas, combustíveis e lubrificantes de toda espécie, peças de reposição e outros itens utilizados diariamente na frente de combate e na retaguarda. Levando-se em consideração que haviam uns 800.000 norte americanos na frente de combate, basta multiplicar um número pelo outro para chegar a um número espantoso.

Não é o caso discutir aqui o fato de que o exército britânico era infinitamente menos perdulário, e o alemão, então, nem se fala. O fato é que o problema existia e provocou uma enorme crise, no segundo semestre de 1944. O combustível e a munição eram, de longe, o maior problema. Durante a corrida através da França, em agosto, o Terceiro consumira por volta de 1 milhão de litros de combustível por dia e mais de dois milhões de cartuchos de munição para armas de infantaria e, dependendo da operação, entre trinta e quarenta mil cargas de artilharia a cada 24 horas. O Primeiro Exército consumia mais ou menos a mesma coisa, talvez um pouco menos, visto que o general de divisão Courtney Hodges, o comandante, era um tanto menos perdulário do que Patton. Essa demanda foi suprida pelo Comando de Suprimentos através de uma proeza logística que recebeu o nome de “Red Ball Express”.

Tratava-se de uma linha sem escalas de caminhões que ligava os enormes depósitos armados na Normandia diretamente aos exércitos em campo. A idéia veio do primeiro-tenente John Bridener Guthrie Jr., oficial da reserva lotado numa unidade de  suprimentos. Guthrie, que chegou ao fim da guerra como major ad hoc e foi condecorado pelo feito, conseguiu organizar o plano em apenas 36 horas. Em sua época de maior atividade, o “Expresso Bola Vermelha” chegou a empregar, de uma vez, quase 6.000 caminhões que rodaram dia e noite, numa média de velocidade de 75 km/h, transportando mais de 12.300 toneladas de suprimentos, metade das quais constituída por combustíveis.

O plano foi lançado em 25 de agosto de1944. O nome vinha do fato de que o percurso era marcado por placas estampando enormes bolas vermelhas. As estradas marcadas com a “bola vermelha” eram interditadas a qualquer espécie de tráfego civil, inclusive de pedestres, e recebiam apenas viaturas de alta prioridade. Por volta de dezembro de 1944, a disponibilização do portos de Caen e Antuérpia, bem como a reorganização da rede ferroviária francesa permitiram que os caminhões fossem colocados novamente em seu regime normal de trabalho. Um sistema semelhante, em escala menor, foi acionado novamente durante a Batalha do Bulge (a contraofensiva das Ardenas).

A palavra “proeza” não é exagerada para descrever essa operação: três divisões de infantaria ficaram totalmente sem caminhões, requisitados pelo comando. Segundo depoimentos dados depois da guerra, o “Expreso Bola Vermelha” foi uma aposta arriscada. Impossibilitadas de se deslocar pela falta de transportes, as divisões de infantaria que ficaram sem caminhões talvez pudessem fazer falta, como unidades combatentes, nunca se sabia. Mas o problema é que as viaturas, os caminhões de três eixos, 6X6 capacidade de 2,5 toneladas (o principal deles era o GMC CCKW) iriam ser totalmente detonadas: rodavam sobrecarregadas, em velocidades superiores às razoáveis, dirigidas por motoristas inexperientes e intencionalmente não eram submetidas aos padrões usuais de manutenção do Exército dos EUA. O consumo de combustível aproximava-se de 1 milhão de litros diários – quase o mesmo que os exércitos em campanha que abastecia.

Além do mais, os motoristas eram em sua maioria negros convocados a partir da Guarda Nacional, num exército ainda totalmente segregado. As unidades de transporte eram comandadas por oficiais brancos, e os efetivos passavam por um treinamento especializado que durava, em média, três dias, além das seis semanas de treinamento básico de infantaria. Diante da alta média de acidentes, correu o boato de que os motoristas, por serem negros, não exergavam bem à noite. É muito provável que os inúmeros atropelamentos de civis e de gado, e os acidentes registrados se devessem mais ao baixo padrão de treinamento e à manutenção deficiente do que a qualquer dificuldade visual dos motoristas.

Dentre outros, a falta de sono era reconhecida como um problema. Os motoristas eram frequentemente obrigados a dirigir durante doze horas, à noite, sem intererrupção, em condições estressantes: comboios com excesso de veículos, iluminados apenas por luzes  de blecaute e em alta velocidade. Foram registrados alguns ataques realizados por caças bombardeiros da Luftwaffe, mas, aquela altura, esse era o menor dos problemas do “Expresso Bola Vermelha”. De toda maneira, unidades de artilharia antiaérea ligeira acompanhavam os comboios, embora fossem consideradas desnecessárias.

Ainda hoje se discute se o “Expresso Bola Vermelha” foi mesmo uma boa idéia, mas o fato é que a crise dos suprimentos exigia soluções radicais. O Exército dos EUA aprendeu muito com a operação dos comboios de transportes, e a organização de unidades dessa especialidade, na corporação, ganhou em eficiência após essa operação. E, sem dúvida, os milhares de motoristas e auxiliares que viviam praticamente dentro de seus caminhões e perderam noites de sono na estrada e dias preciosos da vida – quando não a própria vida – deram enorme contribuição para mandar o fascismo para a lata de lixo da história. Em seguida, um “videoclipe” que achei… Vocês sabem onde. A música é de autoria do cantor “country” Scott Miller. Admito que não é lá grande coisa, mas como eu gostaria de ver um de nossos grupos de rock, ou, quem sabe, o Antônio Nóbrega, fazendo uma música em homenagem a nossos pracinhas…::

Drops para o fim de semana::Declínio?.. Provavelmente…

Seção 8ª das Normas de uso do Pavilhão dos EUA: "O pavilhão nacional nunca deverá ser hasteado com o campo da união para baixo, a não ser em casos de séria desgraça ou em que as vidas e propriedades se encontrem sob grave ameaça."

O redator:: tem andado bastante assoberbado, de modo que o blogue das boas causas passa por mais um período de vacas magras. Entretanto, para não perder a simpatia dos oito ou nove leitores, causa:: publica um texto bastante interessante, pirateado (estamos na Grande Rede, afinal…) do Washington Post (quem manda eles disponibilizarem a edição completa?..). Foi publicado na coluna, assinada pelo jornalista Robert McCartney, no domingo, 4 de julho. Para quem não lembra, é o feriadão em que os norte-americanos comemoraram 244 anos da fundação do país, o Independence Day. O texto de McCartney chama atenção pelo pessimismo intrínseco, mas também pela dose de auto-indulgência que vaza por todas as letras. Por algum motivo, a conclusão lembrou ao redator:: a cena final do filme “O franco-atirador”, de Michael Cimino – um grande filme sobre a história recente dos EUA. O que uma coisa pode ter com a outra? Bem… Leiam o texto, vejam o filme. Para a parte, “leiam o texto”, aqui vai uma tradução (possivelmente capenga…) feita às pressas pelo próprio redator. causa:: pede, pois a indulgência de seus cultíssimos e cosmopolitas leitores::

O país está em declínio? Provavelmente, mas um salto adiante é possível.

O feriado nacional mais patriótico (o da independência) me trouxe uma pergunta: os EUA estão em declínio? Não estou sozinho nessa divagação. Gastaria uma semana para ler todos os livros e artigos sobre o tema, publicados nos últimos anos. Muitos comparam nossa sociedade ao Império Romano. O título de um livro expõe o tema de forma resumida: Nós somos Roma?” (Nota do redator:: – fui procurar esse livro e até pensei em comprar, mas… Tenho melhores usos para 32 dólares. Para quem tiver curiosidade – e paciência para ler em inglês, uma resenha aqui)

É uma situação incomum para os americanos. A história do país tem sido, em geral, de expansão e ascendênc. Após a Segunda Guerra Mundial, éramos uma superpotência; quando a URSS entrou em colapso, nos tornamos a única superpotência.

Três fatos explicam nosso tropeço. Um é a ascensão da China, vista como um concorrente para nos substituir no topo. Outro é a crise de 2008, que prejudicou a confiança no nosso modelo de economia de livre mercado. O terceiro é a percepção de que o país não é capaz de lidar com seus maires desafios: déficit orçametário, desemprego, vício em petróleo, imigração e deterioração da infraestrutura.

Para responder é necessário dividir a pergunta em duas partes. Estamos em declínio em relação a outros países? E estamos em declínio em termos absolutos?

Em força militar, por exemplo, os EUA estão inquestionavelmente no topo. Nossos gastos excedem o dos dez países que mais investem em defesa e nossa tecnologia não tem igual.

O governo Bush nos custou a boa vontade no exterior. Também complica quando uma instituição amerinana, Wall Street, era o principal acusado no pior desmoronamento financeiro global em sete décadas.

Pelo lado bom, Barack Obama é bem visto no exterior. A democracia e a liberdade americana ainda inspiram estrangeiros. A cultura popular americana, de Hollywood ao Facebook ainda é dominante.

Um campo em que perdemos espaço foi na economia. Em parte porque o restante do mundo, especialmente a Ásia, está nos alcançando. O problema é que a ecnomia global é desequilibrada. A globalização, que defendemos, levou à exportção de milhões de empregos americanos. Isso significa que estamos administrando déficits comerciais. O país está dividido entre duas escolhas dolorosas> Devemos gastar mais para combater o desemprego? Ou devemos conter o déficit do governo?

Essas incertezas levam à outra metade da da questão: estamos em declínio em termos absolutos? A nossa cultura política está tão emperrada qie somos incapazes de lidar com antigos problemas? As provas, no momento, sugerem que a resposta é “sim”. Considerando três problemas:

1. O vazamento no Golfo do Méxiconos fez lembrar de nossa dependência de petróleo, mas não há movimentos para substituir nossos hábitos energéticos.

2. Todos lamentam a violação das leis de imigração, mas nossos líderesnão chegam a um acordo que poderia fornecer a mistura de anistia gradual, sanções a empregadores e um programa de trabalhador visitante.

3. A infraestrutura está se deterioriando, de estradas a linhas de metrô. Mas a população não quer pagar mais para resolver o problema.

Na raiz do impasse está a profunda discordância entre progressistas e conservadores sobre o t amanho e o papel do governo. Para acabar com isso, é necessário um grande compromisso. Como condição para elevar os fundos públicos, os progressistas precisam mostrar que sabem usar o dinheiro sabiamente. Conservadores devem demonstrar que se preocupam com o bem comum.

Então, a resposta à pergunta: sim, os EUA estão em declínio, principalmente porque deixamos nossa economia e cultura política se deteriorarem. Mas ainda podemos reverter o quadro. Precisamos retomar a visão e a coragem do nosso primeiro governo nacional. Com isso, os EUA podem retomar a ascensão que têm experimentado desde 1776.

Muito bem… É um texto pessimista por apontar algumas questões que não têm volta. Talvez a parte política seja assunto mais do gosto de nosso colega NPTO – por sinal, o texto parece ao redator:: exemplo acabado de “na ´teoria a prática é outra”… Alguns pontos, entretanto, saltam à vista, e, já que causa:: tem bosquejado o assunto – grande estratégia – vejamos… Por exemplo, é fato que os EUA continuam a maior potência militar do planeta, e isso tão cedo não mudará. Por outro lado, desde a Segunda Guerra Mundial, não conseguem vencer guerrinhas bestas como a do Vietnam e do Afeganistão (que, se prestarmos atenção à mídia, está se configurando como mais um fiasco monumental). O estilo de guerra dos EUA é como o estilo de vida dos EUA: perdulário, dependente de combustível e pouco disposto ao sacrifício. Exércitos viciados em apoio aéreo e alta tecnologia que desaprenderam o verdadeiro espírito da guerra – quer se queira, quer não – de que falavam gente como Grant, Custer e Patton: “tripas e glória”. Parece que as “tripas” e a “glória” estão agora do outro lado, e a “alta tecnologia” serve apenas para massacrar civis, vez por outra. 

A Guerra Fria, diriam alguns… A Guerra Fria não conta. Não foi “guerra”, propriamente dita, mas um movimento de política internacional que levou os EUA ao início do ciclo de déficits que vêm até hoje, e que lhe tiraram a paz (para usar um trocadilho muito ao gosto de Wiston Churchill). A tendência à “desmaterialização” da econômia a que se refere o colunista foi um desses movimentos – tornar o capitalismo mais eficiente significou desmontar o estado de bem-estar social que vigorou nos EUA e na Europa Ocidental desde 1950. Ninguém pensou em buscar uma sociedade solidária e auto-sustentável, mas em criar condições para que o espírito de predação e autofagia pudesse novamente vigorar. O redator:: se pergunta se não estaria na capacidade do estado em suprir as necessidades de seus cidadãos, a verdadeira “força” do Ocidente, e não residiria aí sua capacidade de mobilização internacional. Explica-se, então, a incapacidade não apenas dos EUA, mas  da economia ocidental (afinal, a Europa também está virando geléia, não está?..) em lidar com o problema do modelo de expansão econômica, que implica em lidar com a questão do tal “mercado” (na verdade, o sindicato de parasitas que domina a cena política), do desemprego, das matrizes energéticas e da economia industrial. Certamente um monte de sábios resmungará, de forma complacente: não é assim tão simples. De fato, mas não significa que não hajam alternativas. Faltou, no texto incrivelmente auto-indulgente de MsCartney, pelo menos indicar que a verdadeira coragem talvez esteja em admitir que o tempo de “donos do mundo”, para os EUA, possivelmente acabou::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Drops para o fim de semana::

Tropas britânicas embarcando para evacuação, nos primeiros dias da "Operação Dínamo", Dunquerque (costa norte da França), maio, 1940: avaliação política equivocada ou erro militar crasso?..

Em 2006 caiu nas mãos do redator:: um livro fascinante: “As entrevistas de Nuremberg” (o livro pode ser consultado, com restrições, aqui). Não é preciso explicar a nenhum leitor assíduo ou eventual de causa:: o que foi o Tribunal Militar Internacional. Leitor de causa:: ou não, todo mundo sabe que o TMI, ao longo da ano de 1946, julgou os principais criminosos nazistas. Foram réus do, tribunal, instalado na cidade de Nuremberg, Hermann Göring, Rudolf Hess, Joachim von Ribbentrop, Robert Ley, Wilhelm Keitel, Ernst Kaltenbrunner, Alfred Rosemberg, Hans Frank, Wilhelm Frick, Julius Streicher, Wilhelm Funk, Hjalmar Sclacht, Gustav Krupp, Karl Dönitz, Erich Raeder, Baldur Von Schirach, Fritz Sauckel, Alfred Jodl, Martins Borman, Franz von Papen, Arthur Seyss-Inquart, Albert Speer, Constantin von Neurath e Hans Fritzche. Os vinte e três “grandes criminosos” foram indiciados por diversos crimes, sendo alguns deles responsabilizados por provocarem deliberadamente a Segunda Guerra Mundial (planejar uma guerra de agressão) e ter cometido atrocidades durante as operaações militares para a conquista de territórios estrangeiros (violação das leis e costumes da guerra), oprimindo e matando a população inocente (crimes contra a humanidade). As acusações específicas iam do assassínio político ao extermínio de etnias religiosas, passando por crimes militares, escravização e pilhagem. O Tribunal Militar Internacional não se encerrou no grande processo, mas continuou, em uma série de treze julgamentos realizados entre 1945 e 1949. Nesses processos foram acusados e julgados uma série de funcionários civis e militares, responsabilizados por crimes relacionados aos “grandes crimes”.

Durante o julgamento principal, um médico do Exército dos EUA, major Leon Nathaniel Goldensohn, especializado em psiquiatria, foi designado para monitorar a saúde mental dos acusados.  Seu trabalho era feito com base em entrevistas diárias que abrangiam dezenas de nazistas de primeira linha, entre os levados ao tribunal como réus e outros convocados como testemunhas. O trabalho durou até meados de 1946 e resultou em dentenas de páginas de anotações, que, após ser transferido, Goldenshn conservou em seu poder. O médico morreu  em 1961. Suas notas ficaram esquecidas, até seu irmão as recuperar e editar para publicação, em 2004. O livro foi lançado em nossa língua no ano seguinte.

As entrevistas, em si, não têm nada de surpreendente: todos os acusados tentam se safar, e, em geral, da maneira usual. Nenhum deles foi responsável por nada, tudo tinha sido culpa de Hitler, de Himmler, de Borman (mortos, claro…) ou dos outros envolvidos, presentes ou não. Interessante mesmo é o panorama da Alemanha pré-Hitler que vaza das falas dos entrevistados, assim como a trajetória  dos acusados até o poder – enfim, a visão de mundo daquela gente.

Baseado nas entrevistas de alguns líderes militares, o redator:: resolveu fazer a experiência de analisar uma grande operação da 2ª GM mesclando a fala de homens que tiveram indubitável importância na direção da guerra, e trechos que são esclarecedores sobre esses mesmos temas, recolhidos em outras excelentes publicações disponíveis em português.

Um dos entrevistados que fala de forma mais clara é o general-marechal-de-campo (em alemão, general feldmarshall) Ewald von Kleist. Este cavalariano clássico, que, quase por acaso se viu comandando tanques, teve uma carreira destacada durante a guerra. Na campanha da França, foi designado comandante de um grupo blindado, o “Panzergrüppe Kleist“, formado a partir do 22° Corpo de Exército. O “grupo blindado Kleist” (na 2ª GM, unidades assim designadas tinham a primeira letra do nome do comandante estampadas em todos os veículos) alcançou e cruzou o rio Meuse, nas proximidades de Sedan em 13 de maio, abrindo assim uma brecha em forças francesas muito superiores. Continuou avançando, tendo os especialistas Guderian e Reinhardt como pontas-de-lança, no melhor estilo “guerra-relâmpago”, até as margens do canal Aire-Saint Omer, alcançado três dias depois. Uma vez cumprido esse objetivo, recebeu a surpreendente ordem superior de deter suas forças, que estavam virtualmente intocadas (tinham sofrido 11 por cento de baixas) e dispunham de combustível suficiente. Kleist decidiu ordenar que alguns elementos de vanguarda cruzassem o canal explorando o caminho até a cidade de Hazebrouck, importante entrocamento ferroviário. O Oberkommando des Heeres (OKH, Alto comando do Exército, formado em 1936) entretanto, reforçou a ordem de alto e Kleist teve de retirar os dois regimentos que estavam às portas da cidade. Ao longo dos três dias seguintes, todo o grupo foi mantido em posição. Depois se descobriu que o alto-comando do Exército tinha desconfiado de uma armadilha, dada a facilidade com que os blindados estavam avançando por toda a França. Durante a segunda fase da campanha, Kleist recebeu o controle da 16ª Divisão Blindada e do 14° Corpo Motorizado. Seu grupo de combate atacou a partir de Amiens e conquistou uma cabeça-de-ponte sobre o rio Oiser. Dali até o porto de Dunquerque seria um pulo. Entretanto, em 24 de maio, Kleist novamente recebeu ordens de alto, desta vez no canal do rio Aa, à sudeste de Dunquerque. A tropa de Kleist terminou a campanha alguns dias depois, às portas de Lyon. O general soube, mais tarde, que a ordem tinha partido de Hitler, em pessoa.

Convocado pelo TMI como testemunha (posteriormente, foi julgado e condenado por crimes de guerra cometidos sob sua direção, na Iugoslávia, em seguida entregue aos soviéticos para novo julgamento), seu depoimento é um dos mais interessantes dentre os que aparecem no livro de Goldensohn. Sobre a surpreendente ordem de alto no canal do Aa, diz Kleist que…

“… os ingleses conseguiram escapar da armadilha em Dunquerque, tão cuidadosamente armada por mim, apenas com a ajuda pessoal de Hitler. Havia um canal de Arras a Dunqurque e eu já havia atravessado esse canal, e minhas tropas ocupavam que se projetavam sobre Flandres. Portanto, meu grupo de blindados tinham o controle de Dunquerque e da área onde os britânicos estavam imobilizados. O fato é que os ingleses não teriam conseguido chegar em Dunquerque porque estavam sob a minha mira. Aí Hitler ordenou pessoalmente que eu retirasse minhas tropas daquelas colinas.”

Essa situação tem muitas interpretações. Inúmeros historiadores costumam a dizer que talvez Hitler pretendesse dar um refresco aos britânicos, para que estes pudessem decidir o que fazer. Até então a intuição política de Hitler tinha funcionado bem, e ele possivelmente imaginava que os britânicos iriam acabar resolvendo negociar. Em uma excelente síntese publicada na Inglaterra em 1990 e no Brasil em 1993, o historiador canadense Martin Kitchen parece ter dúvidas exatamente nessa direção:

“Os motivos de Hitler continuam a ser uma espécie de mistério. Rundestedt afirmou … que Hitler permitiu deliberadamente que os britânicos escapassem, na esperança de chegar a um acordo político. No dia 17 de maio ele comunicara … sua intenção de dividir o mundo com os britânicos. … os britânicos tinham de … aceitar a dominação germânica no continente europeu e poderiam conservar a supremacia naval e o Império. No dia 21 de maio, Halder foi informado de que o governo alemão tinha esperança de chegar a um acordo com a Grã-Bretanha sobre a divisão do mundo. … no dia 2 de junho, Hitler declarou … que tinha confiança em que a Grã-Bretanha aceitaria uma ´paz razoável´, que o deixaria livre para dar prosseguimento à sua ‘missão realmente grande’ de esmagar a União Soviética. O Império Britânico, insistira, tinha um papel vital a desempenhar, em nome da raça branca.”

O historiador britânico Ian Kershaw pensa diferente. Falando sobre o incidente, no livro “1940-1941 – Dez decisões que mudaram o mundo“, ele coloca diretamente sua discordância:

“Quando Hitler visitou o quartel-general de seu comandante ocidental, coronel-general Gerd von Rundestedt, na manhã de 24 de maio, os panzers já estavam menos de 24 quilômetros ao sul de Dunquerque. Depois de avaliar a situação militar com Rundestedt, Hitler deu a ordem para o avanço ser interrompido naquele ponto e não prosseguir até Dunquerque. A decisão logo veio a ser vista como uma oportunidade crucial perdida de acabar com as forças derrotadas do Exército britânico. Tentando justificar um grande erro militar, Hitler posteriormente sugeriu que não quisera destruir o Exército britânico, a espinha dorsal do Império. Isso não passou de uma racionalização para salvar as aparências. Na verdade, ele estava apenas seguindo a recomendação militar de seu comandante de campo, Rundestedt, que quisera preservar suas unidades motorizadas para a investida final para o sul, para concluir a campanha. Longe de querer preservar o Exército britânico, Hitler foi levado por Göring, comandante-em-chefe da Aeronáutica alemã, a acreditar que a Luftwaffe acabaria com tudo.”

É provável que ambos os historiadores estejam corretos (Kitchen não descarta a hipótese do erro militar), mas o depoimento de von Kleist aponta para a análise de Kershaw:

“Hitler achou que era arriscado demais. Eram absurdas as ordens dele naquela época. Poderíamos ter aprisionado ou exterminado totalmente o exército britânico, não fosse a ordem estúpida de Hitler. A prova é que, três dias depois, os ingleses ocuparam as colinas, e fui obrigado a atacá-los de novo para tirá-los de lá. O grosso das tropas inglesas, porém, já havia atingido Dunquerque e estava fugindo em pequenos barcos. O triste disso é que eu poderia ter capturado o exército britânico, ou uma parte tão grande, que uma invasão da Inglaterra teria sido uma questão simples.”

Um outra questão, entretanto, são as divergências que haviam dentro do próprio exército alemão, entre os generais “de blindados” e os tradicionais – estes no comando. Rundestedt fazia parte da ala tradicional, que via limites nas possibilidades das forças motorizadas. Aristocrata prussiano, no exército desde 1892, oficial de estado-maior desde 1907, general-de-brigada em 1932, general-de-exército em 1938, Rudestedt expressava as mais arraigadas tradições da infantaria prussiana. De fato, emanava dele a preocupação com a distensão aparentemente excessiva dos blindados. Rudestedt era um infante que buscava a modernização da infantaria, tanto que, em 1934, juntou-se a um projeto que introduzia caminhões como transportes de tropas, ao invés das tradicionais carroças; também se interessou pelo uso de tanques como “artilharia móvel” nas divisões de infantaria. O general advogava a coordenação entre blindados e forças de infantaria, ainda que da forma tradicional. Mas, em geral, os analistas acham que ele, de fato, não acreditava nos blindados. Convocado da reserva para o serviço ativo, em 1939, durante a Campanha do Ocidente foi designado comandante do Grupo de Exércitos A. O Sichelschnitt (“Golpe de foice”), desbordamento através das Ardenas, idéia de Manstein, foi entusiasticamente advogado pelo velho comandante. Entretanto, também foi o militar que esteve no meio da “crise de Arras”.

Foi um momento de pânico no alto-comando, cuja origem esteve na facilidade, não prevista, do avanço das forças motorizadas através da França e da Bélgica. Quando, em 21 de maio, um contra-ataque britânico mostrou-se surpreendentemente bem sucedido, e quase resultou numa derrota da 7ª Divisão Blindada, a “Divisão Fantasma” de Rommel, na área de Arras, alguns comandantes alemães parecem ter perdido a calma. O comandante do 4° Exército suspendeu todos os movimentos das forças motorizadasaté que a situação fosse controlada, e o resultado é que o rápido avanço do Grupo Blindado Kleist foi também desacelerado. Rundstedt, reunido com Hitler, mostrou-se muito preocupado com a falta de coordenação entre tropas motorizadas e infantaria, que poderia deixar os blindados descobertos.  Em 23 de maio, ele sugeriu que as formações blindadas fossem detidas. Hitler mostrou-se favorável à medida, e desautorizou as ordens em contrário emitidas pelo OKH. A diminuição de velocidade transformou-se numa ordem de alto, que durou até 27 de maio. Foi nesse período que as tropas da Força Expedicionária Britânica escaparam através do Canal. Essa prudência excessiva seria apenas a expressão da personalidade de um comandante pouco afeito a assumir riscos. Sempre tinha sido assim, desde a execução do plano de Manstein. Segundo o historiador militar Earl F. Ziemke, autor de uma biografia militar de Rundestedt…

“No quartel-general do Grupo de Exércitos A, na tarde do dia 17, Hitler deu pleno apoio a uma avaliação na qual Rundestedt ‘enfatizava a situação delicada do flanco sul’, e acreditava que nada era mais importante para toda a operação do que uma prontidão defensiva, absolutamente segura no Aisne e no Somme. … preocupava-se com a possibilidade de seu flanco esquerdo ficar exposto com a travessia do Meuse que, esperava, estivesse fortemente defendido. Guderian ficou desolado ao descobrir que Rundestedt acreditava que divisões panzers e motorizadas não poderiam cruzar rios sem ajuda da infantaria.”

Von Brauchitsch e Halder discordaram, e tomaram a decisão – correta – de ordenar que o ataque prosseguisse, ainda que sem consultar Hitler. Esses dois também não confiavam totalmente nos tanques, mas acreditavam no que estavam vendo – o enorme sucesso do novo estilo de guerra. Segundo o historiador Andrew Roberts, no excelente “Hitler e Churchill: segredos da liderança”caso Rundestedt pudesse ter decidido, ainda assim seguiria as diretrizes de Hitler, que, durante toda a campanha do Ocidente, mostrou-se hesitante. Para ele, a blitzkrieg teria sido mais krieg e menos blitz. Em meio a essas hesitações que a Inglaterra pôde salvar-se, naquele momento.::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Uma data a ser escrita em ouro

Estejamos todos conscientes: escapamos de algo assim, ou talvez ainda pior.

Dia Oito de Maio de 1945 – assim mesmo: escrito em letras de ouro. Imagino que hoje, em diversos lugares do mundo, pessoas, jovens e idosas, estejam reunidas para comemorar o dia em que foi erradicada do mundo a praga do fascismo, em sua versão mais virulenta: o nacional-socialismo, desde então assombrando a todos nós sob a aglutinação nazismo. Não houve outro modo – tudo que pudesse ter sido lançado contra esse regime teria de ser lançado. A insistência no apaziguamento teria resultado num mundo sob influência fascista, e esse seria tenebroso. Seria um mundo de sombras, talvez de sombras nucleares. Mas certamente seria um mundo da pior desigualdade possível: a da escravização pela violência das armas.

De fato, o fascismo não morreu. Morreram suas possibilidades como forma de organização política. Pensando bem, talvez as únicas “guerras justas” dos últimos cem anos tenham sido as 1ª e 2ª Guerras Mundiais. Guerras contra as pretensões de opressão universal saídas das fantasias de homens de Estado, de governo e de seus seguidores, ensandecidos pela idéia de sociedades perfeitas.

Por “Utopias“. Como o nome diz, “não-lugar”, o “lugar nenhum”, a fantasia renascentista de uma sociedade totalmente equilibrada em suas contradições. Ouvimos muito falar do “fracasso das utopias” (se você ainda não ouviu falar, tudo bem, apure seus ouvidos aqui). A segunda metade do século 19 foi herdeira de mudanças sócio-econômicas revolucionárias, que praticamente libertaram o Ocidente das amarras e limitações impostas pela natureza. Os homens que lançaram, na segunda metade dos Oitocentos, as bases do socialismo e do fascismo não estavam mal-intencionados. Eram pensadores e políticos procurando entender as desigualdades extremas que se consolidaram entre seres aparentemente iguais uns diante dos outros. A resposta, em dado momento, pareceu brilhar em um “não-lugar” que poderia ser construído pela revolução. A ordem institucional equilibrada em seus contrários, baseada na justiça e na lei, vinha sendo construída paulatinamente. Se por um lado apresentava resultados aparentemente defeituosos – em grande medida mantendo e institucionalizando a desigualdade – por outro surgia de modo insuportavelmente lento para as massas que sofriam as consequências das novas tecnologias e da organização social e econômica decorrente. O século 19 foi um século de fábricas sombrias, cidades superlotadas, onde multidões trabalhavam sem recompensa e eram convocadas a lutar em guerras mortíferas que pareciam ter como finalidade aumentar a opressão. Em determinado momento, o rompimento da ordem institucional destinada, aparentemente, a manter tal estado de coisas pareceu a única forma de acelerar a velocidade da mudança. E “aceleração” foi, naquela época, quase um sinônimo de “modernidade”. A passagem do pensamento à ação, de objetos da História a sujeitos da História. Acelerar a caminhada até o “não-lugar”. Trazer a utopia para a realidade.

Não funcionou, e tivemos de passar por duas guerras declaradas e uma implícita, para perceber que a história tem seu próprio ritmo. A 2ª Guerra Mundial e a “Guerra Fria” que se seguiu, nas quatro décadas seguintes foram dois momentos semelhantes e diversos. Semelhantes porque foram o resultado das fantasias de homens de Estado dispostos a acelerar a História. Diversos porque a 2ª Guerra Mundial não teria resultado em uma “Guerra Fria”. A teoria e a prática políticas do nacional-socialismo só admitiam a violência como forma de interação, e a extinção do adversário como objetivo. Não havia meio-termo possível: ou você é como eu, ou está morto. Depois de 1945, as duas potências que, saídas dos escombros da guerra, pretendiam impor as visões de mundo de seus pensadores e governantes, admitiam debater. E uma delas até admitiu – não pacificamente, é verdade – que não tinha dado certo.

Assim, é opinião deste redator:: que o fim da 2ª Guerra Mundial continuará sendo comemorado e festejado, independente das mudanças por quais passe nosso mundo. E é assim que deve ser. O fim da União Soviética não é comemorado por ter sido apenas mais um movimento da História, e, como tal, de interesse da classe de cientistas que chamamos “historiadores”. E o socialismo, que viva, não como forma de organização política, mas como inspiração para a busca de uma sociedade se não justa, pelo menos menos injusta. O fim da 2ª GM e do fascismo, não. Será sempre data de interesse de toda a humanidade.

Pois bem, estamos entrando no mês da comemoração particular do redator:: Que usará de todos os subterfúgios que possa imaginar para convencer os oito leitores (ou já serão nove?..) de que Oito de Maio é uma data a ser escrita em letras de ouro::