Uma ótima sacada de um ótimo blogue::Economia de (ou “da”?..) verdade: (outras) considerações::

O redator:: gosta de pensar que os leitores de causa:: integram a nata da parte pensante da Grande Rede. Quanto a isso, não resta dúvidas. Assim, os comentários enviados sobre o posto relativo ao evento Wikileaks rendeu considerações sobre as considerações. Peço licença aos ditos comentantes para republicá-los, fora da área específica, com um pouco de edição. Os os textos são pertinentes e podem acrescentar muito ao debate que causa:: pretende implementar. Por favor, então: não processem este blogue…::

Tive o prazer de encontrar um longo comentário do excelente blogueiro Catatau, piloto do excelente blogue Catatau (está na lista os blogues do coração de causa::). Catatau corrigiu algumas de minhas observações. Em itálico, o texto redigido por ele. Os negritos são por conta do redator:: Por economia “de” verdade, tentamos lá no Catatau comentar sobre uma espécie de verdadeira, digamos, “gestão estratégica” das informações durante a guerra. Numa guerra como a que assistimos, repleta de nuances (desde o relato de âmbito militar comentado por você até as coberturas reality show chinfrim da Fox News), há muito em jogo. E nesse sentido não se trata apenas de ocultar ou não, mostrar mais ou não, desvelar ou não “a” verdade. O próprio jogo de mostrar “a” verdade ou não se envolve em outro jogo, muito mais sutil, de simplesmente mostrar verdade. Não se trata, propriamente, de constatar que vamos descobrir uma verdade mais verdadeira, enterrada por sobre os discursos jornalísticos e políticos, mas sim que a própria política e o jornalismo produzem, cada qual, verdades que figurarão como moeda de troca da opinião pública.

O conceito transmitido por Catatau, de que existe uma “gestão estratégica da informação” no decorrer de uma guerra, é pertinente. Merece, entretanto, uma ressalva: essa gestão é feita pelo Estado e por seus órgãos especializados, e não é compartilhada com a sociedade civil. A atuação dos meios de comunicação dos EUA deveria acontecer nos limites estabelecidos por essa gestão. Vou ao ponto: informação é arma. Isso foi constatado desde o século 17, embora desde sempre a análise de informaçao tenha sido parte integrante da atividade militar. Um bom exemplo é Júlio Cesar, o tribuno que acabou com a Répública romana e criou a possibilidade para o governo autocrático: ele escreveu um livro ainda hoje lido chamado “As guerras na Gália”, onde reunia e analisava informações recolhidas durante as operações que lá tiveram lugar. Essa prática se tornou comum entre os romanos, que escreviam longos textos destinados a abastecer de informação sobre o inimigo, o teatro, os meios, os comandantes de campanha. Também sempre foi comum plantar agentes no território inimigo, para observar de perto o que estaria tramando o adversário. A questão é que, por sua natureza, essas informações devem ficar ocultas, por certo tempo. A cobertura da imprensa, que se tornou uma atividade “glamurosa” a partir da 2ª GM, mas que se iniciou, como rotina, em meados do século 19, é sempre vista como um problema pelos militares, que a toleram por ordem superior. Por que essa cobertura é necessária? É simples – porque mobiliza a população. Essa questão ficou clara a partir das guerras da Revolução Francesa, e foi muito bem entendida por Napoleão. Assim, a observação de Catatau a própria política e o jornalismo produzem, cada qual, verdades que figurarão como moeda de troca da opinião pública é bastante pertinente, e cabe perfeitamente na avaliação em torno da “cobertura chinfrim” (eu diria sensacionalista…) feita pela imprensa dos EUA – que não diz nada.

Por outro lado, o doutor Bittencourt, que sei ser antigo oficial do Exército Brasileiro, compôs a seguinte consideração: Seria, para qualquer analista com acesso a essas informações,um exercício de formulações de possíveis consequências que iriam trazer essas informações divulgadas. Ou seja,o deslocamento de meios para fazer um aproveitamento do êxito com base nessas informações (e aqui não se discute tratarem-se de informes ou informações,esperando que os leitores desse comentário saibam a diferença entre um e outro) [o doutor aqui se refere, por “informes”, a comunicações trocadas no interior de um exército em campanha] e de qual forma as forças insurgentes iriam se preparar para reagir a esse desdobramento. Donde sou levado a pensar no seguinte: pode uma ação de Estado se sobrepor ao direito dos cidadãos componentes desse Estado,individualmente,terem acesso a essa informação? Creio que sim. Afinal, para isso são eleitos os membros desse governo numa democracia. … Ações de Estado, ainda mais as relativas a segurança nacional e emprego de meios militares, pressupõem rapidez, cadeias de comando anteriormente preparadas e ações efetivas que, absolutamente, demandam ingerências que poderiam colocar efetivos em risco, sejam eles humanos ou de meios.

O texto posto em que foi ressalvado aqui pelo redator:: é a chave de leitura para o posto anterior: do ponto de vista militar, a filtragem e limitação das informações que chegam a sociedade é crucial. É um aspecto técnico da guerra, mas também é assunto que diz respeito à sociedade e à prática da democracia – e é perfeitamente possível travar guerras sem arranhar o “estado de direito”. A sequência do texto esclarece a questão, e coloca na berlinda a ação do franco-atirador Assenge (o gestor – digamos assim – do site Wikileaks: a ação dessa pessoa e da organização a que se relaciona pode ser considerada, além de ilegal, imoral. Soldados em campanha não estão lá porque resolveram estar. Receberam ordens que não podem questionar. Curiosamente (crê este redator::, por outro lado, que mesmo o leigo em assuntos militares possa entender a afirmação que se segue…) a segurança das tropas em campanha também é responsabilidade do Estado e do governo que, por delegação da sociedade, o coordena. Assim, o sigilo se justifica. Se as tropas cometem excessos, cabe a esses mesmos Estado e governo avaliar, julgar e punir. Essa atuação do Estado e do governo, em última análise, irá estacar (no sentido de apoiar e assegurar) a legitimidade das decisões relativas à guerra e da própria guerra.  

Prossigamos com a observação de Catatau. Daí haver um jogo relativo, difícil de detectar, entre o que um “cidadão” pode fazer com sua cidadania, qual é o papel efetivo que ele tem de denunciar ou não injustiças e desmandos, enfim, como ele poderia, no contexto em questão, denunciar mentiras e falácias sobre uma guerra. É mais ou menos o que está em jogo no Wikileaks: ele não traz propriamente “a verdade a tona”. Em muitos casos, é verdade que ele desvela certos elementos “ocultos” na gestão das informações de guerra. Mas, além disso, ele acaba denunciando o próprio jogo de tornar coisas mais ou menos verdadeiras, mais ou menos visíveis, mais ou menos discutíveis, e assim por diante.

Embora as considerações de Catatau sejam bem formuladas, o problema é que se anulam. A guerra, se colocada dentro dos limites morais e jurídicos pertinentes a um estado de direito (causa:: prefere usas esta noção do que a de “democracia”, pura e simplesmente, pois esta última pode ser facilmente manipulada ), é legítima, e dentre as características do estado de direito estará estabelecer os tais limites. Se “cidadania” (vai aspeado pelo redator:: porque o foi aspeado pelo próprio Catatau) traduz uma responsabilidade comum, conformada pelos direitos e deveres à ela inerentes, então a segurança nacional – expressão que tem, entre nós (infelizmente) ganhou a sonoridade de um palavrão, mas não é… – está dentre essas responsabilidades. O papel do cidadão e das instituições da sociedade civil (consideremos que Weekleaks é uma delas…), deve ser relativizado nessa direção. O fato dos EUA estar envolvido em (mais uma) guerra não significa que a mesma (guerra) seja necessariamente  ilegítimas. Pode ser uma guerra burra – afinal, é uma guerra de George Walker – mas não necessariamente ilegítima…

Nesta direção, cabe mobilizar o cometário de um assíduo de causa:: (com o qual, vale dizer, nem sempre concorda o redator:: – e vice-versa), o Luiz Cândido. O Luiz resume perfeitamente a situação toda, e levanta a bola para o próximo posto de causa:: sobre o tema “Afeganistão”. Vamos ao Luiz: de fato, a agressão sofrida pelos EUA em 2001 não podia ficar sem resposta. Seus responsáveis tinham que ser caçados em qualquer parte do mundo e se o seu principal foco estava neste país, então era lá que os EUA tinham que agir. No entanto, após o sucesso inicial obtido praticamente sem envolvimento de tropas, somente com apoio tático, logístico e da força aérea, eles resolveram “ocupar o terreno”. Pronto, caíram na mesma armadilha dos ingleses, russos e tantos outros: entrar é fácil, o problema é sair::

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