causa:: volta ao ponto::Como poderá ser a política de Defesa do próximo governo?::parte3::

Concluiremos neste post a longa e desorganizada reflexão sobre a possível política de defesa do próximo governo. Vale lembrar que diversas ações já foram realizadas – a compra dos submarinos, o exame de sistemas anti-aéreos modernos e aquisição de helicópteros de ataque para a FAB e o EB. Mas, por si só, isto não constitui uma “política de defesa”. O condicionamento, pelo governo brasileiro, da compra de aeronaves à transferência de tecnologia, isto sim, já pode ser pensado como uma política de defesa::

parte3/3A Estratégia Nacional de Defesa, esta sim, é uma política de defesa. O presidente da República  assinou o decreto que oficializou a nova diretiva em 18 de dezembro de 2008, em Brasília. Desde então, as FAs e outros órgãos, federal e estaduais, devem colocar seus planejamentos e ações em sintonia com a END. O objetivo da END é modernizar a estrutura nacional de defesa atuando em três eixos que são chamados “estruturantes” (porque estruturam as políticas, conceitos e ações): reorganização das FAs, reestruturação da indústria brasileira de material de defesa e política de composição dos efetivos das Forças Armadas.

A END já veio tarde. A estratégia anterior era chamada de “Doutrina de Segurança Nacional”, (é interessante observar que “doutrina” pode significar “princípio”, “crença”, ou “conjunto de princípios ou crenças” que tem valor de verdade absoluta para os que o sustentam), mas nunca chegou a ser formalizada em nenhum instrumento específico. De fato, era mais do que uma estratégia de defesa: era um conjunto de diretrizes políticas formuladas para o Estado e a sociedade.

Formulada na Escola Superior de Guerra ao longo dos anos 1950, a DSN tinha por objetivo o planejamento e a direção da segurança nacional articulada ao contexto da Guerra Fria. A questão é que essa doutrina constituiu a base filosófica do golpe militar de 1964. Segundo suas diretrizes, a guerra era entre ideologias e sistemas políticos antagônicos e irreconciliáveis, e o teatro de guerra era transferido para o interior do país. Depois do golpe militar, as FAs foram praticamente transformadas em uma espécie de partido político, e, do ponto de vista das funções constitucionais, em organizações de contra-insurgência e defesa territorial. Pode-se dizer que esses dois aspectos condicionavam a estratégia de defesa nacional a partir do lugar que o país ocupava na “guerra entre as superpotências” de um sistema bipolar. Entretanto, o que se observa (quem não tiver observado ainda pode ler os posts anteriores…) é que o posicionamento em uma “guerra global” – que, dentre outras iniciativas, fez o país participar da invasão da República Dominicana, em 1965, apoiar irrestritamente o regime filofascista português e sua política colonial e o regime racista sul-africano – não eliminava pontos específicos de atrito com os interesses da superpotência dominante. Durante todo a duração do regime militar, a organização das FAs foi condicionada por essa contradição.

As transformações sofridas pelo Estado brasileiro, desde o período da redemocratização, em meados da década de 1980 não chegaram a incorporar um debate pró-ativo em torno da atribuição fundamental do Estado que é prover a segurança e defesa do território nacional, de seus cidadãos e dos interesses nacionais, seja onde tais ações de façam necessárias. Essa obrigação constitucional se coloca quando os meios ditos “pacíficos” se esgotam, ou diante de uma agressão que ameace a soberania ou integridade nacionais. Entretanto, com o fim do regime militar, a desativação paulatina da “Doutrina de Segurança Nacional” não correspondeu à uma política de defesa clara. É possível que o contexto de crise econômica e política quase permanentes, na época, possam explicar a inoperância e descaso dos atores políticos e da sociedade civil organizada. Em certos momentos, setores da sociedade chegavam a manifestar hostilidade mal-disfarçada diante das FAs, confundindo, de modo um tanto equivocado e frequentemente intencional, a instituição permanente, parte constituinte do Estado brasileiro desde sua criação em 1822, com as ações de setores militares historicamente contextualizados: os que tomaram o controle do processo político a partir de 1964.

A END pretende trazer a sociedade civil ao debate sobre a defesa nacional, o que implica em passar a considerar que esta esfera é responsabilidade coletiva, embora sua implementação fique a cargo de setores altamente especializados (as FAs, as forças auxiliares, as forças de reserva e a indústria de defesa, para citar alguns exemplos). Segundo os especialistas que, a partir do Ministério da Defesa, conceberam a END, as ações que incidam sobre a defesa nacional devem se alinhar os objetivos nacionais, o primeiro dos quais é o desenvolvimento harmônico e continuado do país e de sua sociedade. Isso implica que a capacidade do país em se defender liga-se à existência não apenas de setores altamente especializados, mas à uma crescente autonomia de meios e possibilidades, especialmente a geração de pesquisas científicas e tecnológicas que nos tornem independentes de fontes externas, científicas, técnicas e industriais, tanto em atividades civis quanto em militares.

A END não resultará, de imediato, em conjunto de forças armadas singulares das proporções esperadas para um país que aspira o papel de potência. Essa é uma primeira discussão que deveria ser amplamente travada nos setores especializados do Estado e da sociedade organizada: qual é o tamanho que devem ter as FAs brasileiras?

A questão acima é condicionada por outra, mais geral: armamento de ponta é coisa cara em todos os sentidos, e mantê-lo operacional, mais ainda. Implica no provimento contínuo de recursos humanos e infra-estrutura. A guerra atual embarca um monte de tecnologia – podemos dizer que ela é baseada na tecnologia. Um exame não muito atento das campanhas do Golfo e das intervenções multinacionais nos Balcãs, ao longo das duas década anteriores, mostra a futilidade de opor forças militares desprovidas de equipamento atualizado à forças que disponham deles. Mas não é só isto.

De outra forma: não é só uma questão de dinheiro. A guerra, hoje em dia, contempla aspectos cada vez mais complexos e difíceis de projetar e operacionalizar. Basta que citemos a tal “Guerra em Rede” de que tanto se fala. Se entendermos “rede” como um sistema de circulação de informações, que soma infra-estrutura, pessoal qualificado para operação e demandas de usuários, poderemos encontrar os antecedentes dessa forma de lutar na 2ª GM. Foi quando a extensão do teatro e a necessidade de coordenar estruturas gigantescas e multifacetadas adensou a utilização de comunicações em vários níveis, abrangendo desde o teatro tático até o teatro estratégico e ligando a retaguarda à frente de batalha. Desde então, esse adensamento não parou de aumentar. As características estratégicas que passaram a conformar o conflito, particularmente a partir da segunda metade dos anos 1950, exigem levantamento, análise e troca permanentes de informações mundiais. Hoje em dia, essa atividade acontece no chamado “tempo real”, e articula satélites, aeronaves tripuladas ou não, estações terrestres fixas e móveis, o armamento e seus vetores e equipamentos miniaturizados carregados pelos combatentes junto ao corpo. A guerra eletrônica é uma realidade e tornou abissal a diferença – e as possibilidades de sucesso – dos combatentes.

A última guerra convencional entre países de tradição ocidental – a Guerra das Malvinas – mostrou que a época da bravura suicida, tipo “danem-se os torpedos” realmente já era. Ficou no passado.

Como fica o Brasil nisso? A Guerra das Malvinas é um bom termo de comparação. A ditadura militar argentina, em crise, tentou criar um fato que soldasse a nação em torno de seu projeto político. Como tinha um viés militarista que não se observou no equivalente brasileiro, os generais assassinos do Prata fizeram generosas compras de armamento no EUA e na Europa. Tinham razões estratégicas para isto – problemas não resolvidos com o Chile e mal-resolvidos com o Brasil (na época, o principal era o caso de Itaipu, visto como iniciativa expansionista brasileira), além da própria pendência das Malvinas, esta secular. Mas, sobretudo, um tipo de formação histórica diversa da brasileira tornava a relação entre o governo e as forças armadas particular e bem diversa, se comparada ao Brasil, ainda que o país também estivesse posicionado na “guerra entre os sistemas antagônicos” e esta fosse a justificativa para o comportamento psicopata dos militares, na “frente interna”.

No aspecto militar, na época, uma comparação inicial entre meios disponíveis (equipamento e pessoal) colocaria os argentinos muito adiante do Brasil. Aprofundada essa comparação, podemos dizer que a diferença não seria assim tão grande: enfrentando uma potência militar média, nenhum dos dois países poderia vencer. A questão central não estava propriamente no volume militar, mas na diferença das capacidades das forças envolvidas. Um aspecto notável da campanha das Malvinas, que talvez não tenha sido notado pelo público em geral, mas o foi pelos militares, é que a força-tarefa britânica atuava a milhares de quilômetros de suas bases, e tendo de respeitar o fato de que se tratava de um conflito de baixa intensidade num momento em que, formalmente, não havia hostilidades abertas de grande porte. A falta de apoio à pendência argentina pelos EUA, foi compensado pelo apoio que recebeu da URSS (que monitorou a força naval britânica por meio de satélites de reconhecimento e repassou as informações ao comando argentino) e de países menores que tinham diferenças com os norte-americanos: boa parte dos mísseis que tanto fizeram sucesso durante a guerra foi cedida, graciosamente, pelo ditador radical da Líbia. E o Brasil não se recusou a emprestar aos “hermanos” um par de P-95, o “Bandeirulha”. E o que é esse equipamento de nome assim, digamos… esquisito?

Não precisamos nos aprofundar muito: é a versão do C-95 “Bandeirante” para patrulhamento marítimo. O “Bandeirulha” ocupou uma (das) lacuna(s) criada(s) na FAB nos anos 1970 – a desativação dos Neptune P-15. Equipado com aparelhagem de radar banda X, essa aeronave é capaz de cobrir cerca de cem milhas de mar em varredura circular de velocidade variável integrada a sistema de navegação inercial. Podia identificar e controlar tráfego marítimo e tinha certa capacidade de interdição, embora só tivesse capacidade de operar armamento “burro” – foguetes não-dirigidos e cargas de profundidade. Ou seja – não era perfeito, mas marcava uma diferença com relação à Argentina: a capacidade de desenvolver, adaptar e aperfeiçoar sistemas de armas relativamente modernos (um bom artigo sobre o assunto aqui).

De fato, a indústria brasileira, apoiada com recursos financeiros, e, principalmente, pelas universidades e laboratórios de pesquisa aplicada mantidos pelo governo, desenvolveu, de modo um tanto lento, mas seguro, desde os anos posteriores à 2ª GM, certa capacidade de projetar e produzir equipamentos de boa qualidade. A Embraer é o melhor exemplo dessa filosofia. A Empresa Brasileira de Aeronáutica S/A foi criada em 1969, durante o governo Costa e Silva. Suas origens remontam aos anos 1940, e se plantam nos projetos nacionalistas dos militares brasileiros, de constituir uma base industrial avançada no país, apoiada pelos institutos criados por iniciativa do governo, o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e o CTA (Centro Tecnológico da Aeronáutica), ambos no estado de São Paulo (um excelente artigo sobre a história da indústria aeronáutica brasileira, aqui).

Essa linha ainda é perfeitamente discernível no país, embora tenha tido avanços e recuos, ao longo do tempo. Funciona segundo uma política de manter “ilhas de excelência” (o ITA, o CTA, o IME, os institutos de física teórica e engenharia das universidades federais e estaduais e algumas indústrias subsidiadas pelo governo federal, como a EMBRAER, Mectron e Avibrás) capazes de conceituar e implementar projetos inovativos e desenvolver tais projetos para mercado. Essa política pode parecer ideal para um país de desenvolvimento tardio e dependente, mas tem a desvantagem de subordinar-se aos humores do Estado e estar à mercê das crises econômicas e políticas.

 Entretanto, nos últimos anos, desde a “privatização” da Embraer (entre aspas visto serem os donos da empresa, principalmente, fundos de pensão de grandes estatais), o ramo tem mostrado novo fôlego, voltado para o mercado internacional de aviação civil e para projetos que ofereçam certa segurança de encontrar mercado. Do ponto de vista econômico, não deixa de ser uma política sensata, dada a alta competitividade que caracteriza essa área, no mundo inteiro. Por outro lado, tal política compromete os projetos exclusivamente militares e talvez explique o fato de que, desde o fim dos governos militares e do projeto binacional AM-X, as autoridades parecem ter desistido de projetos militares avançados, já que o Tucano e seu derivado, o projeto AL-X (“aeronave de ataque leve”, o Super Tucano) não são aeronaves militares tecnologicamente “topo de linha” – e sua maior qualidade reside exatamente neste ponto.

Já os projetos para a força terrestre e para a marinha são ainda mais complicados, por dependerem quase exclusivamente de investimento estatal, inclusive no que diz respeito à indústria e ao mercado. Nos anos 1990, o Brasil desistiu da estratégia de ser um player no mercado internacional de armamento barato e rústico, adequado a cenários de baixa tecnologia e baixa intensidade. Depois de chegar, durante alguns anos, entre as décadas de 1970 e 1980, a ser um dos maiores exportadores de armamento do Ocidente, nosso país, surpreendentemente abriu mão dessa posição e deixou o parque industrial de defesa definhar até praticamente desaparecer.

Algum dia, alguém vai escrever um “livraço” (quem sabe eletrônico…) sobre essa fase da política de defesa de nosso país. Atualmente, algumas pistas podem ser encontradas dispersas pela Internet. E esse “livraço” certamente terá alguns capítulos dedicados à algumas empresas, dentre elas – e talvez principalmente –, a Engesa e a Avibrás. Foi uma fase em que a presença brasileira no mercado internacional de armas foi brilhante, e chegou a gerar alguns bilhões de dólares em recursos trazidos do mercado internacional, o que não é pouca coisa, diante do panorama de crise da época. Não deixa de ser interessante a observação (embora, em minha opinião, incompleta por ignorar o pano-de-fundo político) do engenheiro Reginaldo Bacchi: “Os prejuízos contabilizados com o final da história [da Engesa e do desenvolvimento do MBT EET1 “Osório”]foram irrecuperáveis. Uma empresa detentora de tecnologia de ponta e mão-de-obra de altíssimo nível, capaz de fazer um trabalho excepcional, como o Osório (no qual investiu tudo), acabaria liquidada. A indústria ainda chegou a receber ajuda financeira do governo, por conta de contractos que tinha com a Força Terrestre. Mas, nessa altura, o volume das suas dívidas era algo gigantesco e só um contrato como o pretendido com a Arábia Saudita a salvaria da falência. Com o fim da ENGESA, o Exército Brasileiro ficou sem um carro de combate nacional comparável aos melhores existentes lá fora. Havia, inclusive, entendimentos para um acréscimo de 10% no preço final do veículo para que, a cada dez unidades exportadas para os sauditas, uma pudesse ser financiada para o Brasil, hoje um país importador de blindados em segunda mão.” (a íntegra do artigo aqui). O que é notável, apesar do que diz Bacchi, um grande especialista no assunto, é a absoluta falta de apoio do governo, que se recusava inclusive a comprar os produtos da indústria nacional.  Talvez tenha sido este o motivo mais objetivo para a quebra do parque industrial de defesa, mas não só: a partir dos anos 1990, a um certo afã de conseguir lugar de agente ativo na comunidade de nações ocidentais também colaborou, e muito. Essa participação era buscada com a política de alinhamento, adotada desde o governo Collor, e que chegou ao ponto culminante com a “autonomia pela participação”, base da política externa do período FHC. Esse tipo de política implicava em que o país não faria nada que pudesse representar qualquer possibilidade de atrito com os EUA e com as nações do “Primeiro Mundo” – ainda que essa política representasse abrir mão de certos aspectos da soberania nacional (um artigo sobre o tema aqui mesmo, no causa::).

A reestruturação econômica iniciada no governo-tampão de Itamar Franco e levada ao limite durante os mandatos FHC também cobrou seu preço. E, para falar nesse assunto, nada melhor do que dar uma espiada no processo de renovação do equipamento da FAB.  Para começar, voltemos ao “projeto Fênix”. Trata-se de um programa bastante representativo sobre o que os intelectuais ligados aos governo FHC pensavam das FAs: muitas vezes, pareciam achar (e provavelmente achavam mesmo…) que o país não precisava delas.

Entretanto, o estado em que as forças militares se encontravam em meados dos anos 1980 (a época da redemocratização) não era propriamente produto de uma “conspiração contra os militares” ou do “revanchismo da esquerda”, coisas de que se falava com certa constância, mas que nada tinham com o assunto “defesa”. Dos motivos de fato, o principal era a aparentemente interminável crise econômica – num país tido como “pacífico”, com um povo “cordial”, forças e equipamentos militares parecem (ainda hoje) ter como única utilidade desfilar em paradas e, assim, são sempre relegados ao último plano; também ajudou a política de alinhamento automático com os EUA, da época da Guerra Fria, e que persistiu particularmente nos governos Collor e FHC. A falta de uma estratégia geral de defesa elaborada tendo em conta os objetivos nacionais parece ter decorrido daí. Por volta do ano 2000, um documento elaborado pela MB falava claramente que conflitos internacionais eram “pouco prováveis”. Esse estudo chegou a admitir que a MB não teria capacidade sequer para intervir com sucesso em um conflito regional convencional e teria dificuldades em um conflito limitado, como por exemplo, incursões extraterritoriais de pequena escala ou que envolvessem intervenções contra guerra de guerrilhas. O problema, para a MB, como para as outras forças singulares, era, como sempre, de custos (mais sobre o assunto, aqui).

O programa “Fênix” parecia ser influenciado por todos esses desvios, e a mais outros. Era milionário, envolvia saltos tecnológicos consideráveis, mas estava longe de resolver os problemas da FAB – parecia que sequer era levado muito a sério pelo governo e era ignorado pela sociedade. A projeção de orçamento da época gerou muita ironia: o então comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro-do-ar Carlos de Almeida Baptista, afirmou que a “sociedade” (o Palácio do Planalto – a frase tinha como motivo o fato de que o governo sempre respondia aos pedidos de verbas da corporação com a afirmação de que o assunto deveria ser debatido com “a sociedade”) deveria decidir logo se a FAB devia acabar de vez ou se modernizar. FHC respondeu de forma surpreendente (visto em retrospectiva, talvez nem tanto…): assinou um “Programa de Reaparelhamento da Força Aérea”, avaliado em 3,4 bilhões de dólares, para ser implementado ao longo de oito anos (2000-2007). No dia seguinte, comunicou ao Ministério da Defesa o valor sofreria cortes. Até mesmo o orçamento anual foi contingenciado.

A partir de então, programas setoriais começaram a ser implementados – e frequentemente sofriam descontinuidade: CL-X (aenonaves de transporte, completado com a aquisição de 12 unidades do excelente transporte tático CASA C-105 “Amazonas”), P-X (patrulhamento marítimo, que resultou na aquisição de 12 unidades do Lockheed P3, que até hoje gera controvérsias), F-X (este todo mundo sabe o que é… Um exercício interessante é tentar ler este artigo de causa:: e depois compará-lo com este excelente estudo especializado). Algum apoio à indústria nacional também era dado através da estatal financiadora FINEP. Entretanto, a obsolescência dos meios tornava-se uma ameaça concreta à capacidade da FAB em cumprir sua missão constitucional, como continua sendo. Mas de alguns anos para cá, já é possível observar algumas mudanças significativas de procedimento do governo.

A primeira e mais geral dessas mudanças tem relação com o advento da END, que cria um contexto potencialmente favorável para o desenvolvimento das FAs nacionais; também deve se levar em consideração que os tempos são diferentes, e o ambiente democrático consolidado coloca os militares em outro patamar de profissionalização e participação na vida do país. É neste sentido que a END fornece uma base doutrinária razoável, sobre a qual podem se desenvolver as matrizes estratégicas específicas e as ações necessárias.

Dessas matrizes, a parceria com a França está dentre as mais significativas. Primeiro porque os franceses nunca foram atores totalmente adaptados ao roteiro estabelecido pelos diretores norte-americanos, e já chegaram, nos anos 1960, a romper com a NATO. A França, desde os anos 1950, sempre deixou clara a intenção de colocar em primeiro lugar os interesses nacionais, em detrimento inclusive da aliança européia. Apesar do contexto atualmente diverso, a alta competitividade da indústria mundial de armamento, diante de um cenário internacional diverso daquele observado na Guerra Fria, colocam a necessidade de conquistar mercados a qualquer custo. Certamente a decisão brasileira, conduzida por Lula em iniciar negociações para comprar armamento – submarinos, navios de superfície, aeronaves e helicópteros – indica a tendência brasileira em não subordinar totalmente nossa posição política aos interesses norte-americanos. E Brasil e França, ao contrário do que possa parecer, têm interesses estratégicos comuns na América Latina (se você lê um pouco de francês, esse texto aqui dá uma interessante visão do assunto).

Lula parece disposto a tirar proveito desse quadro para conquistar algumas vantagens estratégicas, tendo em tela as diretrizes da END. A preferência pela compra aos franceses, deverá, finalmente, dotar a FAB de 36 aeronaves de primeira linha: os Dassault Rafale F-3.

A questão, que se arrasta desde o final da década de 1990, vai ter de ser resolvida no próximo ano, em função de questões políticas. As militares já são bem conhecidas: a defesa aérea brasileira baseia-se, no momento, em vetores totalmente defasados. Um número insuficiente de interceptadores Mirage 2000 C, comprados de segunda mão da França, cuja vida útil está no final, e aproximadamente 60 aeronaves F5E, que passaram, nos últimos anos, por um programa de modernização totalmente elaborado pela indústria aeronáutica nacional, com apoio da indústria israelense. Embora o programa, que gerou aeronaves que passaram a ser denominadas F5EMBR, tenha sido considerado muito bem sucedido, é uma solução de transição imaginada pelo comando da Aeronáutica ainda nos anos 1990, em função do estado dos meios da força.

O compromisso francês de transferência plena de tecnologia aeronáutica de ponta é, nesse sentido, um dos principais aspectos, senão o principal, do acordo. Este, se bem conduzido, pode tornar o Brasil praticamente autônomo na construção de aeronaves de última geração e uma espécie de sócio preferencial dos franceses na venda de produtos aeronáuticos para a América do Sul – embora dificilmente o país tenha condições de desenvolver um projeto próprio nos próximos 20 anos. Talvez a demora da resolução da negociação tenha como explicação o fato de que dificilmente a França transferiria toda a tecnologia, e as iniciativas brasileiras, uma vez fechado o acordo, têm de estar minimamente articulada aos interesses franceses .

A história é mais-ou-menos conhecida desde 2009, quando brasileiros e franceses fecharam a parceria para a construção dos submarinos (assunto amplamente discutido aqui no causa::). A venda dos caças é ainda mais importante, para consolidar a presença da aeronave francesa no mercado internacional. Em função deste objetivo, e para conquistar o mercado brasileiro (fala-se na aquisição, nos próximos dez anos, de outras 36 unidades – ou mais), é que o governo francês estaria disposto a autorizar a transferência de tecnologia. A Dassault se juntaria a uma empresa brasileira (certamente a EMBRAER, da qual é sócia minoritária) para capacitar a indústria local a fabricar algo em torno de sessenta por cento da aeronave. Parece pouco? Não é – no longo prazo, esse processo tornaria a indústria nacional apta a projetar aeronaves militares de alta tecnologia. 

Diante do pacote de bondades francês, o governo brasileiro aventou a possibilidade de que a preferência, no caso do programa FX-2, fosse dada também a eles. As outras empresas envolvidas na fase final da concorrência, a norte-americana Boeing e a sueca Saab reagiram.  A empresa de Seattle oferecia o Fa-18 Super Hornet, uma aeronave excelente e ainda por cima bem mais barata que o Rafale. O FA-18 tem a vantagem adicional de ser totalmente operacional e já com experiência de utilização em cenários de combate, inclusive no que diz respeito ao armamento e sistemas embarcados. O Rafale, apesar de estar em operação na Armée de l`Air (Força Aérea Francesa) e Aeronavale (Arma Aérea da Esquadra Francesa) , ainda se encontra  em desenvolvimento – o que pode ser uma vantagem, visto que é quase uma promessa de vida operacional prolongada.

Os americanos, diante de um contrato desse tamanho, cederiam tecnologia de ponta ao Brasil, que pinta como concorrente regional, nos próximos anos?  Meses atrás, o presidente da Boeing declarou à imprensa brasileira que o Congresso americano teria autorizado a transferência de tecnologia quase sem restrições. Os atritos recentes com o governo dos EUA e experiências anteriores fazem os brasileiros torcerem o nariz para as promessas dos EUA. No início de 2005, quando o programa F-X estava quase sendo arquivado pelo governo, e falava-se na aquisição de aeronaves usadas, circulou a notícia, nunca confirmada, de que o governo norte-americano teria oferecendo à Brasilia a aquisição de dezenas de caças F-16A usados, dos estoques da USAF, e um projeto de modernização de meia-vida (MLU), que lhes daria a configuração de um F-16C Block 50. Falou-se inclusive na montagem de uma planta industrial no Brasil, em associação com empresas nacionais. O problema teriam sido as restrições quanto a mísseis BVR (beyond visual range – de longo alcance), fornecimento de códigos-fonte dos softwares embarcados e restrições à incorporação de sistemas de outras origens que não os EUA.

Os suecos apresentavam o Gripen NG (de Next Generation), desenvolvimento do JAS-39 Gripen, aeronave projetada para o teatro norte-europeu (os suecos não se envolvem, por lei, em conflitos estrangeiros). Com as dificuldades em colocar a aeronave no mercado, uma versão pensada para outros cenários, muito melhorada, foi concebida. O problema é que boa parte dos sistemas – inclusive o radar multimodo – ainda está em desenvolvimento (o que, como foi dito, pode ser uma vantagem). Mas o Gripen apresenta uma dificuldade adicional: o projeto incorpora grande quantidade de componentes projetados pela indústria militar dos EUA, principalmente a planta de potência, o turbofan Volvo Aero RM12, versão fabricada sob licença do General Eletric F414-400. Os norte-americanos nunca foram pródigos em ceder tecnologia de uso militar a outros países, mesmo países europeus, o que significa que a tecnologia originada lá deve estar amarrada por acordos de restrição.

Em ambos os casos, existe então a grande possibilidade de que a FAB acabe tendo de comprar uma “caixa-preta”. Uma solução desse tipo não interessa em nada ao Brasil, e seria totalmente lesiva a nossos interesses. A FAB vem desenvolvendo, com recursos próprios e algum apoio israelense, um sistema de enlace de dados (datalink) tático denominado SISCENDA (Sistema de Comunicações por Enlaces Digitais da Aeronáutica), que será compatível, futuramente, com sistemas semelhantes da MB e do EB. Para adaptação aos padrões dos sistemas de origem estrangeira, é preciso que os códigos-fontes dos softwares dos sistemas de bordo sejam cedidos junto com a aeronave – e isso os norte-americanos não farão de jeito nenhum. A adaptação teria de ser feita por técnicos dos EUA – o que nos colocaria diante de outro “projeto SIVAM”, só que piorado. Também existe o míssil ar-ar que está sendo desenvolvido em parceria com a África do Sul, e que certamente terá de funcionar com o novo caça. Aí a situação talvez ficasse ainda pior, por envolver um terceiro país – é muito pouco provável que a África do Sul esteja disposta a entregar seus segredos industriais e militares aos EUA.

Este é o panorama geral. É muito provável que os pilotos brasileiros, considerados entre os melhores em atividade, estejam, por volta de 2014, pilotando uma aeronave topo de linha. É possível que, nessa época, ou pouco depois, o governo brasileiro se decida a comprar mais outro lote, principalmente se a capacitação da indústria brasileira de material aeronáutico funcionar a contento. Ao lado de outros equipamentos militares de ponta, e doutrinas adequadas ao uso, é possível que o país esteja, afinal, dotado de forças armadas capazes de enfrentar possíveis necessidades de defesa do território, do espaço aéreo e dos interesses nacionais. Parece que teremos, a curto prazo, um futuro excitante. Mas… Sabe-se lá…::

causa:: volta ao ponto::Como poderá ser a política de Defesa do próximo governo?::parte2::

Como será a política de Defesa do próximo governo? Boa pergunta. Para responde-la, acho que temos de considerar, como feito na parte 1, que uma política de Defesa tem que se basear no que são considerados os interesses nacionais, num determinado momento, e como a visão desses interesses muda segundo uma série de fatores, e pode gerar equívocos de não-pequenas consequências. Em certo momento, “tudo que é bom para os EUA é bom para o Brasil”. Refletiram os assíduos sobre esta frase lapidar, emitida por um dos campeões da “Revolução” de 1964?  Vamos então à mais considerações sobre o tema…::

parte2A querela do Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, contra o pano-de-fundo de uma tentativa (frustrada) dos EUA se reinventarem como líder do “mundo livre” acabou mostrando que essa máxima estava desatualizada. Pareceu então claro, naquele momento, que os interesses nacionais brasileiros estavam em pólo oposto aos interesses nacionais dos EUA. Uma das heranças dessa disputa foi um programa nuclear civil, de resultados discutíveis e uma versão menor, militar, mantida, por razões óbvias, em segredo de estado. Objetivo? Óbvio – construir um artefato nuclear de pequena potência. Alvos para esse artefato? Não haviam propriamente alvos, porque, depois da Guerra da Coréia, ninguém pensa seriamente em detonar bombas atômicas (bem, tirante, talvez os iranianos, mas essa é outra história, que não cabe aqui). Os argentinos, que também chegaram a desenvolver um programa desses, e que tinham diferenças estratégicas consideráveis com o Brasil, eram vagamente citados. O fato é que a bomba brasileira era vista mais como possível instrumento político do que propriamente como arma militar – até porque uma coisa é construir um artefato nuclear e outra, muito diferente, é conseguir meios eficazes de lançá-lo. A bomba A é uma arma estratégica, por excelência. Só foi usada uma vez, como consequência de consideraões políticas e estratégicas. Na época (o decênio entre os meados anos 1970 e 1980), artefatos nucleares plantados no nariz dos ICBMs que os transportariam até os alvos eram parte de um jogo político pesado. Segundo alguns analistas, os militares brasileiros não queriam ter uma bomba, mas indicar ao mundo que podiam fazer uma.

O programa nuclear militar foi desmontado no governo Collor, sem que esse recuo tivesse significado alguma vantagem de fato para o país, na arena internacional. Em 1998, durante o governo FHC, a adesão brasileira ao Tratado de Não-proliferação Nuclear (TNP) é outra decisão considerada controversa, no sentido de se saber se foi uma decisão acertada, mesmo que se leve em conta a posição pacífica do país na arena internacional. A manutenção de programas bastante reduzidos de pesquisa nuclear visava prover o país de conhecimento científico capaz de prover certa autonomia, em caso de necessidade. A adesão ao TNP, embora deva ser considerada uma política legítima, pareceu ter visado, desde Collor, a busca por compensações econômicas (por exemplo, tratamento preferencial por parte do sistema financeiro internacional), e com FHC, aquilo que Celso Laffer chamou “autonomia pela participação”, ou seja, a inserção brasileira no sistema internacional de segurança, sob comando dos EUA (um bom artigo sobre o tema, aqui). Os críticos da decisão apontam para o fato de estar, a partir da 1998,  condicionado o país a não desenvolver armas nucleares, mas também a um grau bastante alto de ingerência externa em nossos assuntos – e essas críticas parecem fazer algum sentido, visto as pressões sofridas pelo programa de enriquecimento de urânio e de aperfeiçoamento de um reator naval. Os críticos chama a atenção para o fato de que o TNP é um acordo internacional que perpetua a assimetria, não apenas militar, mas científica e econômica, com o controle exercido sobre os países não-nucleares correspondendo aos interesses dos países do Conselho de Segurança da ONU – exatamente aqueles que, “legitimamente”, mantêm estoques de explosivo nuclear.

Por sinal, muitas das políticas conduzidas pelo governo FHC pareciam indicar uma opinião interna de que o país não precisava de forças armadas, e que essas deveriam funcionar mais como provedoras da manutenção da integridade territorial – sem que isso significasse capacitação de métodos e recursos.

O problema da FAB parece decorrer dessas política. Tomemos um dos programas de maior amplitude, vindo desde o governo FHC, como desdobramento de políticas de Estado originadas nos anos 1970 – o projeto SIVAM (acrônimo de “Sistema de Vigilância da Amazônia”). Trata-se de um história muito interessante, por mostrar que a falta de políticas consistentes pode acabar comprometendo todas as políticas, mesmo as que não existem ainda. Falamos agora do programa FX-2 (que, no andor do santo, periga virar FX-3).

Desde o governo FHC o reequipamento da FAB tem sido conduzido aos soluços, determinado por fatores um tanto difíceis de entender, mesmo diante da obsolescência de equipamentos considerados vitais – problema que, como veremos adiante, vem desde os anos 1980. De fato, sejamos justos – o problema se estende a todas as forças. No caso da Força Aérea, a coisa fica mais evidente em função do jogo pesado das grandes empresas, que dependem (talvez com a exceção dos EUA, da Alemanha e – por incrível que possa parecer – da Rússia) de vendas externas para consolidar a viabilidade de seus programas de defesa. A indústria aeroespacial implica em enorme aporte de investimentos, pois é atividade que agrega tecnologia de forma capilar, alcançando centenas de ramos altamente especializados da cadeia produtiva, com grau relativamente lento e baixo de retorno. Por exemplo: a pesquisa de materiais para a indústria aeroespacial implica em resultados que se aplicarão apenas à indústria aeroespacial (por exemplo, as “peles” de titânio e células cerâmicas usadas em aviões de combate servem, no máximo, para aeronaves orbitais e satélites). A indústria naval, em comparação à aeroespacial, ainda é uma indústria de aporte tecnológico baixo, cujos métodos remetem à primeira metade do século 20. Belonaves e os sistemas que vetoram evoluem mais lentamente – muito embora isto não queira dizer que se trate de tecnologia simples, barata ou fácil de conseguir – vide o caso dos submarinos (aqui, aqui e aqui… mesmo, no causa::).

Assim, os investimentos feitos na indústria aeronáutica, como, de modo geral, os investimentos em Defesa, são em boa parte, políticas de Estado (um ótimo exemplo dos resultados dessas políticas, quando bem planejadas e conduzidas, aqui). O Estado estabelece as prioridades, levanta e distribuí os recursos e supervisiona os resultados, pois a organização industrial de caráter capitalista tem cada vez menos capacidade de bancar sozinha o desenvolvimento continuado de tecnologias de ponta. Basta observar o projeto KC390: só decolou de fato quando o governo federal o comprou – literalmente – da EMBRAER. A partir dessa mudança de rumo, acontecida em abril de 2009, puderam ser negociadas, com maior desenvoltura e tranqüilidade parcerias internacionais que ampliaram as possibilidades de aporte de recursos e tecnologia ao projeto.

O projeto KC390 é uma iniciativa que colocará nossa indústria de defesa em novo patamar. Trata-se de um produto militar baseado na cadeia tecnológica e industrial iniciada a partir da decisão, tomada em meados dos anos 1970, de substituir as aeronaves de ataque disponíveis da FAB – os chamados “caças táticos” (um ótimo artigo sobre o tema, aqui). Pode-se dizer que as origens da pujante indústria aeroespacial brasileira atual se encontram nessa iniciativa, que foi ponto de convergência de diversas outras, tomadas desde os anos 1950.

É interessante observar como funcionavam os programas de reaparelhamento das FA, no período FHC – o mais próximo que pudemos encontrar de uma “política de defesa”. Ao invés de diretrizes conceituais gerais para cada uma das forças, com um orçamento proposto e projeção de realização de médio e longo prazos – metodologia herdada do período militar –, passaram a ser estabelecidos programas específicos a partir de um programa geral, com orçamentos “de fantasia” e prazos “estimados” – ou seja, com a realização lançada às calendas gregas. Na Marinha, discutia-se ora a adequação de projetar navios com base na aquisição e adaptação de projetos estrangeiros, ora em aquisições “de oportunidade” de navios de “segunda mão”; para o EB, debates intermináveis sobre “o caráter da guerra moderna” e do “papel das forças armadas num regime democrático” resultaram em discussões conceituais ridículas (como o uso dos efetivos do EB como polícia e o aumento da idade para passagem dos oficiais de carreira à reserva remunerada) e decepcionantes aquisições de equipamento desativado, baseadas em considerações estapafúrdias, como a compra simultânea de dois tipos de blindados pesados, ignorando totalmente os aspectos da cadeia operacional e logística.

Deve-se admitir que a situação já era meio confusa desde o final do governo Sarney – quando a crise econômica e o contexto internacional provocaram, dentre outras conseqüências, a quase extinção da indústria nacional de defesa. Tornou-se ainda mais confusa no governo Lula, com a interrupção “para exame e avaliação”, dos programas iniciados durante o período FHC.  No caso da FAB, o Programa de Reaparelhamento era uma versão atualizada de um programa elaborado em 1996 e denominado (de modo um tanto irônico) de “Fênix”.

Nesse plano, era prevista a aquisição de aernaves novas e principalmente (claro…), de segunda mão, que seriam modernizadas. Na prática, o “Fênix” ao invés de “reviver”, botou fogo nos projetos da FAB – apenas um contrato, já em andamento foi mantido: a atualização de algumas dos cargueiros Hércules para o padrão C-130H e aquisição de outras dez “células” de segunda mão (“mas em excelente estado de conservação”), da Itália. Os C-130, usados em transportes pesado não realizados pela aviação comercial, eram muito necessários em função das demandas geradas pelo programa “menina dos olhos” do governo FHC: o SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia), iniciado em 1997. Tratava-se de uma atualização, extremamente necessária, do sistema de controle do espaço aéreo, que, no Brasil, entrou na “idade moderna” com a implantação do projeto “DACTA” (Defesa Aérea e Controle do Tráfego Aéreo), implantado a partir de 1972 com base em equipamentos franceses (o chamado “CINDACTA” – sendo o “CIN” acrônimo de “controle integrado”). Esse projeto, extremamente ambicioso, visava, no período de 20 anos, colocar todo o espaço aéreo sob vigilância e controle, capaz monitorar todo o tráfego aéreo e acionar providências militares sempre que necessário, inclusive contra a violação do espaço aéreo nacional, aí incluídas as tais “águas territoriais” (sobre o tema, causa:: recomenda a leitura deste excelente artigo, publicado na não menos excelente revista da UNIFA). O problema é que os dois CINDACTAS projetados não cobriam a Amazônia, que, na época do regime militar, não era vista como prioridade estratégica. O CINDACTA I foi ativado em 1973, e abrangia apenas parte do espaço aéreo – um quadrilátero que abrangia partes das regiões Sudeste e Centro-Oeste; em 1985 foi ativado o CINDACTA II, abrangendo a Região Sul e em 1988, o CINDACTA III, com base em Recife, desdobramento de oportunidade do projeto do segundo sistema. A discussão sobre a importância estratégica, para o país, da região amazônica e das fronteiras internacionais correspondentes começou a tomar corpo a partir de 1980/85, quando se constatou que o espaço aéreo de uma área de três milhões de quilômetros quadrados era “um branco”. Tomou força com o aumento do interesse internacional sobre a região, motivado por questões ecológicas  – e, aparentemente, um “troll” alimentado pela imprensa internacional e entusiasticamente replicado pela imprensa nacional. Só que as correntes de opinião interna, aparte o fato de concordarem com a opinião geral sobre a importância da região, não pareciam saber direito o que fazer com ela.

Em 1986 apareceu o primeiro projeto para intervenção sobre a região, o “Calha Norte”. Este projeto destinava-se a controlar de forma mais ativa os cerca de 6.000 quilômetros de fronteiras do norte do país. A idéia era a intensificação da presença das FAs, da Funai e da Polícia Federal na região, tomando como base territorial os afluentes a norte dos rios Amazonas e Solimões (daí o nome “Calha Norte”).

O “Calha Norte” levou o EB a olhar com cuidado uma região que nunca tinha estado em seu horizonte operacional – embora já estivessem disponíveis, desde os anos 1960, doutrina, pessoal, recursos e equipamentos de guerra na selva, embora criados para fins de contra-insurgência. As primeiras providências, com a instalação de “Pelotões de Fronteira”, mostraram a profundidade do problema, mas o projeto “Calha Norte” e a colocação da Amazônia no centro do planejamento estratégico de Estado estão na origem da Estratégia de Defesa Nacional.

Já o SIVAM decorreu da constatação das enormes deficiências no que tange ao controle da região. Começou a ser concebido em 1990, sob responsabilidade da então Secretaria de Assuntos Estratégicos, e tornou-se operacional em 1997. A SAE, formada basicamente pelos recursos herdados do SNI, constatou a necessidade de um sistema continuado de vigilância e proteção territorial que marcasse a presença do Estado e de seus agentes na região. Mas, curiosamente, o exame de programas realizados até então de levantamento de dados levou também à constatação da baixa confiabilidade dos dados sobre a Amazônia. Baseado no que existia, até mesmo um planejamento de médio prazo era impossível, quanto mais de longo. O mais surpreendente (e até hoje se discute como isso aconteceu…) é que a própria Secretaria concluiu que o sistema não poderia ser exclusivamente militar, mas deveria integrar as agências que levantassem e utilizassem informações sobre a região. Sugeriu um projeto amplo, abrangendo os ministérios da Justiça, Meio Ambiente, Saúde, Transporte e Ciência e Tecnologia, além das FAs.

O projeto foi recebido com certo entusiasmo e muita controvérsia. Sua concepção final parecia não levar em conta o aspecto de integração intergovernamental levantado pela SAE nos anos anteriores. Não parecia considerar as demandas apresentadas e a dinâmica de trabalho apresentados pelos órgãos envolvidos, por adotar uma estratégia centralizadora e concentradora. Essa opção chegava a desconsiderar os resultados obtidos em duas décadas de programas realizados por diversas instituições brasileiras responsáveis por prover informações científicas e técnicas (tipo a Embrapa, o IBGE, a Sudam e o Ibama) pondo de lado como “ineficazes” as ferramentas de sensoriamento e computacionais para obtenção e tratamento da informação – como projeto RADAM (Radar da Amazônia).

A questão está dentro da concepção estratégica adotada pelo governo FHC, em sua decisão de fazer o país aderir ao “Ocidente”: as instituições nacionais abririam mão dos próprios recursos, tornando-se operadoras de sistemas exógenos (e pior – controlados do exterior) de processamento e armazenamento de dados, em certos casos recomeçando o que já estava sendo feito. Além disso, a concepção de infra-estrutura adotada pelo SIVAM trabalhava com “caixas pretas” de requisitos feitos por empresas européias e norte-americanas, a serem atendidos pelas instituições brasileiras, que passavam a ser tratadas como “usuários”. Ou seja: cientistas e engenheiros com conhecimentos discutíveis sobre a região e mesmo sobre o país, isolados nos EUA ou na França, desenvolveriam soluções que atendessem aos problemas estratégicos e ambientais da Amazônia. Por fim, um dos conceitos mais estapafúrdios: a pressuposição de que a tecnologia de sensoriamento e monitoramento responderia questões relativas a biodiversidade e poluição dos rios na região (por exemplo), quando estava sendo pensada apenas para resolver questões de caráter militar e de segurança – aquelas colocadas desde o planejamento inicial do Calha Norte.

Um dos pontos “interessantes” dessa história toda, e que coloca o SIVAM dentro da concepção política da época é o caso Raytheon – vale à pena das uma olhadinha nele.

A Raytheon é uma mega-empresa bem conhecida no ramo: “sistemas eletrônicos de defesa”. Em 1995 foi divulgada informação, pelo Parlamento Europeu, que empresas norte-americanas teriam se valido de recursos de espionagem industrial superar grupos europeus em concorrências. Entre essas empresas estava a Raytheon, considerada na ponta da disputa, com a francesa Thomson CSF. O objetivo? A infra-estrutura do SIVAM. O governo norte-americano teria colocodo recursos militares (satélites de reconhecimento e estações de escuta, capazes, em conjunto, de interceptar comunicações eletrônicas nacionais e internacionais). A denúncia foi reforçada pela imprensa, que divulgou gravações de conversas, feitas pela Polícia Federal, entre o representante da Raytheon no Brasil e um funcionário público brasileiro, supostamente encarregado de transferir informações privilegiadas para a empresa dos EUA. O episódio gerou a instalação de uma CPI, que acabou arquivada em junho de 2002 por “falta de provas”. O relatório do voto em separado do deputado petista Arlindo Chinaglia foi um primor: “Há questões que a CPI deixou de analisar, como os indícios de que o projeto não leva em conta os interesses nacionais”.

O fato é que a implantação do SIVAM mostrou as deficiências da FAB. A questão dos cargueiros militares é uma delas; a necessidade de aeronaves de comando e controle, outra; a inexistência de aeronaves adequadas a tarefas de interceptação de aeronaves não-autorizadas, mais outra; a necessidade de helicópteros militares para intervenções de deslocamento rápido, mais outra. Uma “amazônia de problemas”, dos quais o controle do espaço aéreo era apenas um aspecto. Continuaremos o assunto, que, à esta altura, já deve estar divertindo os assíduos…::

Drops para o fim de semana::Declínio?.. Provavelmente…

Seção 8ª das Normas de uso do Pavilhão dos EUA: "O pavilhão nacional nunca deverá ser hasteado com o campo da união para baixo, a não ser em casos de séria desgraça ou em que as vidas e propriedades se encontrem sob grave ameaça."

O redator:: tem andado bastante assoberbado, de modo que o blogue das boas causas passa por mais um período de vacas magras. Entretanto, para não perder a simpatia dos oito ou nove leitores, causa:: publica um texto bastante interessante, pirateado (estamos na Grande Rede, afinal…) do Washington Post (quem manda eles disponibilizarem a edição completa?..). Foi publicado na coluna, assinada pelo jornalista Robert McCartney, no domingo, 4 de julho. Para quem não lembra, é o feriadão em que os norte-americanos comemoraram 244 anos da fundação do país, o Independence Day. O texto de McCartney chama atenção pelo pessimismo intrínseco, mas também pela dose de auto-indulgência que vaza por todas as letras. Por algum motivo, a conclusão lembrou ao redator:: a cena final do filme “O franco-atirador”, de Michael Cimino – um grande filme sobre a história recente dos EUA. O que uma coisa pode ter com a outra? Bem… Leiam o texto, vejam o filme. Para a parte, “leiam o texto”, aqui vai uma tradução (possivelmente capenga…) feita às pressas pelo próprio redator. causa:: pede, pois a indulgência de seus cultíssimos e cosmopolitas leitores::

O país está em declínio? Provavelmente, mas um salto adiante é possível.

O feriado nacional mais patriótico (o da independência) me trouxe uma pergunta: os EUA estão em declínio? Não estou sozinho nessa divagação. Gastaria uma semana para ler todos os livros e artigos sobre o tema, publicados nos últimos anos. Muitos comparam nossa sociedade ao Império Romano. O título de um livro expõe o tema de forma resumida: Nós somos Roma?” (Nota do redator:: – fui procurar esse livro e até pensei em comprar, mas… Tenho melhores usos para 32 dólares. Para quem tiver curiosidade – e paciência para ler em inglês, uma resenha aqui)

É uma situação incomum para os americanos. A história do país tem sido, em geral, de expansão e ascendênc. Após a Segunda Guerra Mundial, éramos uma superpotência; quando a URSS entrou em colapso, nos tornamos a única superpotência.

Três fatos explicam nosso tropeço. Um é a ascensão da China, vista como um concorrente para nos substituir no topo. Outro é a crise de 2008, que prejudicou a confiança no nosso modelo de economia de livre mercado. O terceiro é a percepção de que o país não é capaz de lidar com seus maires desafios: déficit orçametário, desemprego, vício em petróleo, imigração e deterioração da infraestrutura.

Para responder é necessário dividir a pergunta em duas partes. Estamos em declínio em relação a outros países? E estamos em declínio em termos absolutos?

Em força militar, por exemplo, os EUA estão inquestionavelmente no topo. Nossos gastos excedem o dos dez países que mais investem em defesa e nossa tecnologia não tem igual.

O governo Bush nos custou a boa vontade no exterior. Também complica quando uma instituição amerinana, Wall Street, era o principal acusado no pior desmoronamento financeiro global em sete décadas.

Pelo lado bom, Barack Obama é bem visto no exterior. A democracia e a liberdade americana ainda inspiram estrangeiros. A cultura popular americana, de Hollywood ao Facebook ainda é dominante.

Um campo em que perdemos espaço foi na economia. Em parte porque o restante do mundo, especialmente a Ásia, está nos alcançando. O problema é que a ecnomia global é desequilibrada. A globalização, que defendemos, levou à exportção de milhões de empregos americanos. Isso significa que estamos administrando déficits comerciais. O país está dividido entre duas escolhas dolorosas> Devemos gastar mais para combater o desemprego? Ou devemos conter o déficit do governo?

Essas incertezas levam à outra metade da da questão: estamos em declínio em termos absolutos? A nossa cultura política está tão emperrada qie somos incapazes de lidar com antigos problemas? As provas, no momento, sugerem que a resposta é “sim”. Considerando três problemas:

1. O vazamento no Golfo do Méxiconos fez lembrar de nossa dependência de petróleo, mas não há movimentos para substituir nossos hábitos energéticos.

2. Todos lamentam a violação das leis de imigração, mas nossos líderesnão chegam a um acordo que poderia fornecer a mistura de anistia gradual, sanções a empregadores e um programa de trabalhador visitante.

3. A infraestrutura está se deterioriando, de estradas a linhas de metrô. Mas a população não quer pagar mais para resolver o problema.

Na raiz do impasse está a profunda discordância entre progressistas e conservadores sobre o t amanho e o papel do governo. Para acabar com isso, é necessário um grande compromisso. Como condição para elevar os fundos públicos, os progressistas precisam mostrar que sabem usar o dinheiro sabiamente. Conservadores devem demonstrar que se preocupam com o bem comum.

Então, a resposta à pergunta: sim, os EUA estão em declínio, principalmente porque deixamos nossa economia e cultura política se deteriorarem. Mas ainda podemos reverter o quadro. Precisamos retomar a visão e a coragem do nosso primeiro governo nacional. Com isso, os EUA podem retomar a ascensão que têm experimentado desde 1776.

Muito bem… É um texto pessimista por apontar algumas questões que não têm volta. Talvez a parte política seja assunto mais do gosto de nosso colega NPTO – por sinal, o texto parece ao redator:: exemplo acabado de “na ´teoria a prática é outra”… Alguns pontos, entretanto, saltam à vista, e, já que causa:: tem bosquejado o assunto – grande estratégia – vejamos… Por exemplo, é fato que os EUA continuam a maior potência militar do planeta, e isso tão cedo não mudará. Por outro lado, desde a Segunda Guerra Mundial, não conseguem vencer guerrinhas bestas como a do Vietnam e do Afeganistão (que, se prestarmos atenção à mídia, está se configurando como mais um fiasco monumental). O estilo de guerra dos EUA é como o estilo de vida dos EUA: perdulário, dependente de combustível e pouco disposto ao sacrifício. Exércitos viciados em apoio aéreo e alta tecnologia que desaprenderam o verdadeiro espírito da guerra – quer se queira, quer não – de que falavam gente como Grant, Custer e Patton: “tripas e glória”. Parece que as “tripas” e a “glória” estão agora do outro lado, e a “alta tecnologia” serve apenas para massacrar civis, vez por outra. 

A Guerra Fria, diriam alguns… A Guerra Fria não conta. Não foi “guerra”, propriamente dita, mas um movimento de política internacional que levou os EUA ao início do ciclo de déficits que vêm até hoje, e que lhe tiraram a paz (para usar um trocadilho muito ao gosto de Wiston Churchill). A tendência à “desmaterialização” da econômia a que se refere o colunista foi um desses movimentos – tornar o capitalismo mais eficiente significou desmontar o estado de bem-estar social que vigorou nos EUA e na Europa Ocidental desde 1950. Ninguém pensou em buscar uma sociedade solidária e auto-sustentável, mas em criar condições para que o espírito de predação e autofagia pudesse novamente vigorar. O redator:: se pergunta se não estaria na capacidade do estado em suprir as necessidades de seus cidadãos, a verdadeira “força” do Ocidente, e não residiria aí sua capacidade de mobilização internacional. Explica-se, então, a incapacidade não apenas dos EUA, mas  da economia ocidental (afinal, a Europa também está virando geléia, não está?..) em lidar com o problema do modelo de expansão econômica, que implica em lidar com a questão do tal “mercado” (na verdade, o sindicato de parasitas que domina a cena política), do desemprego, das matrizes energéticas e da economia industrial. Certamente um monte de sábios resmungará, de forma complacente: não é assim tão simples. De fato, mas não significa que não hajam alternativas. Faltou, no texto incrivelmente auto-indulgente de MsCartney, pelo menos indicar que a verdadeira coragem talvez esteja em admitir que o tempo de “donos do mundo”, para os EUA, possivelmente acabou::

O mês da Coréia::Daewoo: carros feios, armas… Diga você::

Estávamos na “análise estratégica ampliada”. Acabou me ocorrendo que, em momento algum, cheguei a explicar o que, exatamente, significa “estratégia”. Não posso acusar ninguém de não distinguir “estratégia” de “tática”, se eu mesmo esqueço de explicar a diferença.

Suponho que muitas pessoas saibam. Esse conceito, ultimamente, deixou de ser de interesse exclusivamente do planejamento militar. Fala-se de estratégia em esportes, negócios, e até mesmo nas “estratégias de vida”. A palavra vem do termo grego stratègós (stratos, “exército”, e ago, “liderança”). Designava o líder, em época de guerra, na Grécia clássica. Strategicós, por sua vez, era um termo que designava “os assuntos do general”; já stratiá designava a expedição militar. O sentido atual da palavra na área militar, começou a ser estabelecido no século 17, com a difusão dos Estados nacionais centralizados, da arma de fogo e a ascensão da manobra como forma de evitar o tiro ou minimizar seus efeitos. Trata-se então, como Antoine Henry, barão de Jomini, militar suiço do século 19 (mais sobre Jomini nesse excelente blog, que considero primo do causa::) definiu: a ciência do movimento aplicado ao campo de batalha. Nessa visão, expressa em um livro chamado “Sumário da arte da guerra”, Jomini colocava a estratégia como a principal dentre as cinco divisões da “arte da guerra”. Pois de lá para cá, a noção ampliou-se, passando a envolver o planejamento da guerra como parte das atividades do Estado. O planejamento visa, em última análise, estabelecer objetivos políticos, que envolvem a sobrevivência do Estado a longo prazo e a expansão de suas possibilidades – inclusive de fazer a guerra.

Alguns especialistas chamam essa visão de “grande estratégia”, ou seja a mobilização de recursos nacionais. Caso tenham prestado atenção nas postagens anteriores, devem ter reparado que as duas Coréias não tem feito outra coisa nos últimos 50 anos que não seja planejar a sobrevivência de ambos os Estados, mobilizaondo seus recursos nacionais de modo a expandir suas possibilidades. Essa questão começou a ser discutida por Claus von Clausewitz, que considerava a guerra como ferramenta política. O objetivo em uma guerra seria desarmar o oponente, ou seja, destruir efetivamente a capacidade do oponente de guerrear. Aí é que entra o comprometimento em uma guerra. Quanto mais determinado o inimigo, mais difícil é de removê-lo do conflito. Para tanto, a estratégia aplica-se ao campo militar, mas a “grande estratégia” significa mobilizar tudo de quanto o Estado pode dispor – recursos materiais, humanos e espirituais. Alguns especialistas chamam isso de “política”.

Daí nos interessa falar um pouco do chaebol Daewoo, sobre o qual fiz uma piadinha na postagem anterior. Chaebol  (a palavra, que se pronuncia “tchêe:bêl”, significa “negócio familiar”) indica uma espécie de reunião de empresas, um conglomerado apoiado pelo governo. O termo é ambíguo, porque os principais chaeboi´l são mesmo empresas familiares, que, por motivos políticos mantinham boas relações com o governo. O termo também pode significar “monopólio”, o que significa uma concessão política que elimina a concorrência e  implica em vantagens econômicas. Já vimos, na postagem anterior, a origem dessa forma de organização industrial. Os  chaeboi´l foram capazes de crescer nas taxas astronômicas que observaram devido à essa proximidade com o governo. Deveriam ser capazes de aproveitar os influxos governamentais, de modo a cumprir quotas de expansão e de exportações; por seu lado, o governo garantia um fluxo de investimentos, negociados no exterior, e facilidades bancárias, na Coréia do Sul. A política de universalização da educação, em todos os níveis, o acesso à tecnologia de ponta e altos investimento em pesquisa, nas universidades e nos próprios chaeboi´l completaram o quadro, ao longo das décadas de 1960 e 1970. Mas o fator decisivo foi a relativa estabilidade interna que permitiu uma taxa de lucro maior do que seria possível em um regime de livre negociação. Esse crescimento só era possível graças a intervenção do governo no processo.

Dizendo de outra forma: o regime de organização econômica da Coréia do Sul teve uma ligação simbiótica com os governos ditatoriais iniciados em 1961. Nada tão estranho assim para nós brasileiros: o tipo de capitalismo intervencionista observado aqui se parecia muito com o modelo adotado na República da Coréia. A diferença é que o Estado tinha uma participação direta infinitamente menor do que aqui, e investiu pesadamente em um modelo de educação que privilegiava a formação técnica de mão-de-obra e a pesquisa aplicada. A falência veio exatamente porque o acordo social implicava em taxas de emprego e crescimento artificiais. Quando vieram os problemas, o regime rapidamente entrou em crise.

O que não significa que o modelo não fosse eficaz para os objetivos buscados pelo país, e os chaeboi´l continuaram sendo a forma de organização prevalecente na indústria de ponta, defesa, comércio internacional e, bem menos, no setor financeiro. No final da década de 1980, o modelo, depois de diversos ajustes, a partir do retorno do regime democrático, em 1987, continuou existindo e até ampliou-se. A retração do estado revelou aos próprios estrategistas dos “conglomerados” oportunidades de expansão e competição que a conivência com uma ditadura anticomunista não deixava antever.

O novo panorama criou uma nova especialização: as grandes empresas de produção para exportação migraram para países emergentes como a China, Malásia e Filipinas. Na Coréia foram mantidas as sedes, a estrutura de Pesquisa&Desenvolvimento e o setor de defesa. Neste panorama, a Daewoo Motor Industries pode não ser o maior chaebol coreano, (de fato, não aparece nem mesmo entre os 12 primeiros) mas certamente é um dos primeiros quando se fala no setor de defesa. Uma de suas filiais, a Daewoo Precision Industrial Co. foi estabelecida como empresa de equipamento de defesa em 1981, e em 1986 tornou-se fabricantes de peças de veículos para a matriz. O chaebol Daewoo, um dos maiores da Coréia do Sul, na época, acabou dividido, depois que o fundador e principal executivo Kim Woo-chung, se viu acusado de mentor de uma fraude bilionária. Desde 1999, a empresa foi dividida, e a área de defesa, uma das menores (em 1998 envolvia  4% da companhia) passou para o controle direto do governo.

Kim começou sua empresa em 1967, como uma pequena firma de exportação, batizada de Dae´Woo, (“grande universo”, em coreano).  Durante a Guerra da Coréia, acima da idade de convocação, Kim vendia jornais enquanto freqüentava a universidade, graduando-se em economia. A Daewoo, fundada em meados dos anos 1950, revendia produtos da indústria têxtil, que exportava para o Japão. Na segunda metade dos anos 1960, tinha estabelecido bons contatos em Nova Iorque com compradores de produtos têxteis, o que chamou a atenção do governo sul-coreano. O ditador Park Chung Hee, que mantinha laços de amizade com a família de Kim (espécie de relação muito significativa, no contexto cultural coreano), patrocinou a transformação da Daewoo em uma empresa de mecânica pesada, subsidiando a produção através de empréstimos governamentais a fundo perdido e compras por preços acima do mercado. Kim tornou a empresa lucrativa em cerca de dois anos, e, sempre com apoio do governo, incorporou a seu chaebol um estaleiro, uma fábrica de automóveis e uma fábrica de ferramentas de precisão que, posteriormente, deu origem à fábrica de armas. Nessa época, o favorecimento descarado do governo tornou a empresa o terceiro chaebol, em tamanho e rendimentos.

A experiência de Kim no comércio internacional e nas ante-salas dos governos o fez presença constante nos gabinetes dos EUA, França, Paquistão e em diversos países do Terceiro Mundo, notadamente os produtores de petróleo. A agressividade da empresa a levou a ter aproximadamente 320.000 funcionários, o que era um efetivo quase tão grande quanto o do exército da República.

Os problemas que acabaram com o chaebol, em meados dos anos 1990, relacionam-se com um projeto de expansão que visava tornar a empresa um dos grandes players do mercado mundial de automóveis. A resistência das empresas norte-americanas e européias jogou significativa quantidade de areia na máquina de Kim, numa época em que o apoio governamental já não era nem tão imediato nem tão incondicional quanto fora 20 anos antes.

De qualquer maneira, as encrencas de Kim Woo-chung não são importantes para nós. A questão que quero deixar clara é como, a partir de 1981, com o estabelecimento da estratégia de defesa da Coréia do Sul, a Daewoo viu aí um nicho para incorporar mais uma área a seu inventário empresarial. No final dos anos 1960, os EUA haviam fornecido ao exército coreano certa quantidade de rifles M16A1 (calcula-se que uns cem mil), do tipo empregado pela infantaria dos EUA no Vietnam. Em 1972 a Coréia do Sul retirou-se da Indochina, mas manteve o tipo como arma-padrão de seu exército. Por volta de 1976, o governo sul-coreano resolveu implementar uma indústria local de defesa, e acenou com a possibilidade de distribuir uma arma longa de fabricação local, embora sem a intenção inicial de substituir o M16, existente em grandes quantidades. Ficou estabelecido que uma arma de calibre 5.56X45 NATO seria projetada para substituir a submetralhadora M3 Grease Gun, arma da 2ª GM ainda padrão nas forças armadas da República. A empresa Daewoo Precision Industries Ltd foi formada para atender à demanda governamental. A *carabina de assalto K1 foi seu primeiro produto, cujo desenvolvimento concluiu-se por volta de 1982. O protótipo foi apresentado em 1980 e entrou em serviço em 1981. Os testes e o ciclo de serviço mostraram problemas sérios. A arma destinava-se às forças especiais, e portanto deveria ser silenciosa e discreta, O desenho do supressor de chama, entretanto, além de não resolver aqueles problemas, acabava por gerar forte recuo, que, por sua vez, tornava inadequada a coronha rebatível. Os problemas foram resolvidos através do redesenho da câmara e do supressor de chama. Essa nova versão foi denominada K1A. Essa arma conviveu com o M16A1, sendo distribuída para forças especiais, marinha e polícia, enquanto o rifle norte-americano foi mantido na infantaria.

Ainda em 1982, entretanto, o governo começou a considerar a padronização de todo o armamento. Uma *versão longa da carabina K1A começou a ser testada, com um cano de 46,5 cms e uma coronha convencional, em plástico de alto impacto. Os protótipos surgiram em 1983 e eram, de fato, um redesenho, com relação ao K1A. Este último era uma tentativa de fazer uma submetralhadora usando cartucho de fuzil: a chamada “ação direta de recuo”. Essa opção tornava o conjunto mais leve, mais barato, mas menos resistente. O sistema adotado para o K2 era o de operação por recuperação de gás (leia sobre o assunto no posto “A linhagem FAL”). O tiro é seletivo, alimentado por carregadores de plástico, de 20 ou 30 cargas, utilizando munição 5.56X45 NATO. Em 1987, o K2 começou a ser distribuído regularmente às forças armadas sul-coreanas, e pelo fim dos anos 1980, o M16A1 tinha sido totalmente recolhido.

Com aproximadamente 800.000 efetivos no total, as forças armadas e a policiais sul-coreanas eram uma reserva de mercado bastante promissora. Em função da adaptação das corporações à nova estratégia, lançada em 1979, a Coréia do Sul pretendia assumir parte considerável das responsabilidades de sua defesa nacional. Isso implicava numa completa reestruturação do exército, inclusive em seu rearmamento. Essa corporação tinha, em 1981, aproximadamente 400.000 efetivos. Dois terços eram conscritos convocados para dois anos de serviço ativo, aos 17 anos. Uma vez desmobilizados, esses homens permaneciam como “reserva de primeira linha” até os 34 anos, e podiam ser convocados periodicamente para curtos períodos de serviço ativo – em geral, por volta de duas a três semanas. A reserva somava, segundo estimativas dos EUA, em torno de 1200.000 efetivos potencialmente mobilizáveis. Não se sabe quanto tempo levaria a mobilização completa.  Esse sistema ainda persiste.

Atualmente, o exército mobiliza por volta de 550.000 efetivos, 10.000 dos quais são oficiais. O inventário soma 2.500 tanques, 3.000 veículos blindados de combate e 7.000 sistemas de artilharia de campanha auto-propelidos e auto-rebocados. Esses sistemas incluem grande quantidade de lançadores de foguetes.

Os blindados são, em grande parte, os já obsoletos M48A5K, de fabricação norte-americana, do final dos anos 1950, mas modernizados localmente, no final dos anos 1970. Uma quantidade estimada entre 30 e 50 T80U, de fabricação russa, foi incorporada em 2004/2005, em função de acordos de refinanciamento de dívidas da Rússia. Durante algum tempo, esses blindados foram os mais avançados existentes na península. Tentativas de produzir sob licença o alemão Kraus-Maffei Leopard 1 deram em nada, porque os sul-coreanos concluíram, acertadamente, que se tratava de um modelo prestes a se tornar obsoleto.

Nessa época, o governo militar sul-coreano concluiu que a melhor solução seria produzir um tanque autóctone, levando em consideração os aspectos da nova geração de projetos que surgia nos EUA, Rússia, Alemanha Ocidental e Inglaterra. A indústria local já tinha condições de suportar um projeto desses, mas não tinha experiência. Um projeto local levaria pelo menos dez anos para surgir, assim, os militares e planejadores civis consideraram que a solução seria comprar a licença de um produto estrangeiro. A escolha recaiu no XM1, protótipo do norte-americano M1 Abrahms, que começava a ser distribuído pelo ramo de defesa da Chrysler Motors Company. As negociações quase deram com os burros n´água, quando, no meio do processo a empresa foi vendida para a General Dynamics. Entretanto, os novos donos mantiveram o interesse, em função do incentivo do governo dos EUA. Técnicos sul-coreanos foram despachados para os EUA para conhecimento do projeto e treinamento na General Dynamics Land Systems.

Os dois blindados são similares, mas os projetos são bastante diferentes. O K1 pronto, deslocava 4 toneladas menos que as 55 do M1; a altura entretanto, é ligeiramente maior no K1: 237 cm contra 225 cm (o que, num tanque, faz a maior diferença). A planta de potência do K1 é a mesma do israelense Merkava 3, a Teledyne Continental AVCR-1790, de 1200 hps. A blindagem é do tipo composto metal-cerâmica, Cobham. Posteriormente, a relação peso-potência da alemã MTU MB Ka-501, versão compacta da MB-873 Ka-503 que equipa os tanques Leopard 2, revelou-se melhor, e essa planta de potência foi adotada. Isso levou a que uma transmissão e diversos outros componentes de origem alemã fossem adotados no K1, em sua versão A1. O canhão raiado de 105 mm norte-americano, depois produzido na Coréia do Sul sob a notação KM68, bem como o sistema de controle de fogo Hughes, foram mantidos.

Mas tecnologicamente, o K1A1 acabou se tornando até mais avançado do que o Abrahms, quando recebeu um sistema independente de visão panoramica, do qual o Abrahms não está dotado, por cortes de orçamento. Esse sistema comanda o armamento de forma integrada, através de sensores termais e de visão passiva, o que torna o K1A1 um verdadeiro sistema de armas.

O desenvolvimento do K1 completou-se em 1983 com um protótipo apresentado ao governo sul-coreano. O uso de um motor alemão acabarm por tornar o K1 mais parecido com o Leopard 2 do que com o Abrahms. A empresa escolhida para desenvolver o tanque para produção de série foi a Hyundai Precision, ligado ao chaebol Hyundai. Esse é um dos maiores grupos da Coréia do Sul, fundado em 1947 e, na atualidade, um dos 5 maiores produtores de veículos automores do mundo, bem como de aço, navios e produtos eletrônicos de alta tecnologia. Uma quantidade de 450 K1 foi adquirida, iniciando-se a distribuição em 1985, em alto segredo, e completando-se em 1987, quando o veículo foi revelado ao mundo.

No momento, a empresa está desenvolvendo o K2  Heukpyo (Pantera Negra) equipado com um canhão de 120 mm e 55 calibres, autocarregado. Não existem maiores informações sobre o sistema, mas tem circulado que será equipado com blindagem reativa (capaz de diminuir os danos de munição de carga oca), radar e sistemas de detecção a laser.

O objetivo deste texto não é, enfim, descrever com detalhes o moderno armamento à disposição das forças armadas sul-coreanas. O que quero mostrar é como o planejamento estratégico, a “grande estratégia” envolve mobilizar todos os recursos nacionais de forma coordenada. No caso sul-coreano, uma longa trajetória levou o país de uma nação subdesenvolvida, nos anos 1950 e 1960, para uma das grandes potências econômicas das últimas décadas do século passado e, nos últimos tempos, a um patamar de potência militar equivalente às maiores potências da Europa Ocidental (França, Alemanha e Grã-Bretanha, nessa ordem).  A escalada do país, nos anos 1960, para o lugar de potência industrial e, em seguida, para o de potência tecnológica pôde ocorrer devido ao lugar ocupado pelo país na Guerra Fria, como “primeira linha de contenção da expansão comunista”. Esse papel (o país provavelmente seria arrasado na eventualidade de uma guerra contra a China) levou a que fizesse por merecer certas concessões, que vieram sob a forma de influxos econômicos. Esses influxos, sob a forma de capitais que, nos anos 1960 estavam disponíveis em grande medida e precisavam ser reinvestidos. Mas esses capitais também estiveram disponíveis para o Brasil. A diferença, além do lugar geopolítico do Brasil (cujo papel estratégico nunca foi determinante), foi o tipo de projeto para a sociedade, projeto que a elite daqui nunca conseguiu fazer. Os sul-coreanos, desde os anos 1950, investiram pesadamente em educação, em todos os níveis, e em uma urbanização ordenada, que permitiu ao país montar uma base industrial altamente eficiente. Esses dois aspectos tornaram possível que a entrada de capitais e tecnologia dessem resultados, embora não de imediato::

O mês da Coréia::Um análise estratégica ampliada::

Parte 3 Então, já sabemos que a República Democrática do Povo da Coréia é uma potência militar média e tem uma quantidade enorme de artilharia de todos os tipos. Entretanto, é curioso como a imprensa trata a República da Coréia como uma pobre Guatemala indefesa diante de Hugo Chavez… Não é exatamente o caso. De fato, temos relativamente pouca informação sobre a Coréia do Sul, tirante, é claro, os carros Hyundai, televisões LG e monitores Samsung, mas isso, convenhamos, é pouco. 

Do fim da Guerra da Coréia até os anos 1990, a República da Coréia evoluiu, de um país totalmente dependente, para a própria defesa, de acordos bilaterais, para uma situação de desenvolvimento auto-sustentado e considerável capacidade militar. Ao contrário da República Democrática do Povo da Coréia, as indústrias civis sul-coreanas mantêm linhas de produtos militares como partes separadas e menos importantes de suas atividades corporativas, mas suficientes para manter suas forças armadas totalmente atualizadas com equipamento local de altíssima qualidade.

A independência econômica e militar da República da Coréia remonta à participação na Guerra do Vietnam. Em 1965, o ditador sul-coreano, general Park Chung-hee, decidiu aceitar o pedido de Washington por tropas para o teatro do SE Asiático. Inicialmente, foram despachadas unidades de combate de pequenas proporções, num total de 5.000 efetivos, em caráter experimental. Em fevereiro de 1966, os norte-americanos se comprometeram, através de um termo de compromisso denominado “Memorando Brown” (em função do embaixador dos EUA em Seul, Winthrop G. Brown), a financiar a modernização do exército da República da Coréia, em troca de um maior envolvimento dessa última na guerra indochinesa. O documento, de 14 pontos, não era muito claro em determinar as obrigações norte-americanas, mas especificava uma força sul-coreana que deveria alcançar, em três anos, aproximadamente 300.000 efetivos. Como resultado, os EUA cederam armamentos pesados e rifles M-16 para as tropas sul-coreanas, que funcionaram como cobertura de retaguarda para o exército dos EUA. Nesse meio tempo, começaram uma série de provocações norte-coreanas, culminando com uma tentativa de  tomar o palácio presidencial, em 21 de janeiro de 1968, e o ataque e aprisionamento do navio-espião Pueblo, da Marinha dos EUA. Uma série de incidentes ao longo da ZDC envolvendo tropas dos EUA em mais de uma oportunidade, atravessou todo o ano de 1969. Em abril, uma aeronave de contramedidas eletrônicas EC-121 acabou sendo derrubada sobre o Mar do Japão. Esse período passou a ser conhecido como “Segunda Guerra da Coréia”. O envolvimento sul-coreano no Vietnam, entretanto, tornou-se uma realidade, e em 1972, quando as unidades começaram a ser retiradas, estavam em operação por volta de 200.000 sul-coreanos. Mais de 5.000 deles morreram em combate.

Temendo o surgimento, na Coréia, de um novo Vietnam, o governo dos EUA resolveu atender os apelos dos parceiros sul-coreanos por maior articulação em termos da segurança local. Foi acordada maior colaboração militar com a República da Coréia, assim como assistência para implementar a economia local. Ainda assim, o ditador sul-coreano, antevendo uma possível futura crise, decidiu adotar uma postura mais ativa em relação à defesa nacional. O surgimento da “Doutrina Nixon”, na qual o governo dos EUA, atolado numa crise econômica, postulava que as nações aliadas assumissem maior participação na própria defesa, foi outro momento decisivo: em 1971 a retirada da península, de uma divisão do exército dos EUA pareceu confirmar a importância da estratégia nacional de Park.

Ainda assim, em setembro de 1971 o governo dos EUA assinou um plano no valor de 1,5 bilhões e dólares, destinado a prover, num período de cinco anos, a reestruturação e modernização das forças de defesa da República da Coréia. Esse plano foi visto como decorrência da diminuição radical do aparato militar norte-americano na região. Foi a primeira grande mudança nas forças armadas sul-coreanas desde a Guerra da Coréia.

A situação sul-coreana, na época, era no mínimo curiosa. Park Chung-hee, um general do exército que havia sido oficial do Exército Imperial Japonês e depois da guerra, militante do Partido dos Trabalhadores da Coréia (chegando a ser condenado à prisão perpétua, por traição, em 1949), tomou o poder em 1961, depois de um curto período de agitação política que se seguiu à tentativa de Singman Rhee em assumir um quarto mandato presidencial resultante de uma eleição claramente fraudada. Exilado Rhee, uma junta militar sob comando de Park assumiu e rapidamente fixou-se no poder, conquistando apoio da classe dirigente e da classe média através de um programa de “moralização da vida nacional”, que removeu da vida pública todos os funcionários civis e militares considerados corruptos. Um “Supremo Conselho para a Reconstrução Nacional, com 32 membros, era o principal órgão dirigente do país. O principal projeto da junta era a construção de uma economia próspera baseada em uma “grande revolução humana”. Uma das primeiras providências foi o fechamento da Assembléia Nacional e a substituição de funcionários civis por militares.

Tendo assumido o poder, Park começou uma série de manobras para manter-se no comando do governo, sob normas de exceção e uma aparência de democracia. Um de seus primeiros atos de governo, em junho de 1961, foi a criação de uma “Agência Central de Informações da Coréia” (KCIA, em inglês), com função de polícia política. A Agência estendeu, em 1962, seus poderes aos campos da economia e das relações internacionais, por inspiração do coronel Kim Chong-p’il. Parente da esposa de Park, o coronel revelou-se um planejador original e criativo conspirador político: acabou sendo um dos principais atores do golpe que, em 1979, acabou custando a vida do ditador.

Os planos da junta militar não deram resultados imediatos, o que começou a desgastar a imagem da junta militar. Para piorar, a KCIA envolveu-se em vários escândalos financeiros e políticos. Os militares respondiam prometendo preparar o retorno à normalidade civil – desde que os políticos ligados ao sistema anterior não participassem do processo. Em março de 1963, Park anunciou um referendo popular para decidir se a junta deveria permanecer no poder por mais quatro anos. A intensa oposição interna era esperada, mas a antipatia dos EUA foi um fator com que Park não contava. O referendo foi cancelado.

 Ao contrário de Rhee, que tentava fazer da Coréia do Sul uma potência regional, com o apoio dos EUA, em detrimento do Japão e da China Comunista, o general tentou adotar uma política pragmática: normalizou as relações com o Japão em 1965 e regularizou, no mesmo ano, a situação das forças norte-americanas na península como “convidadas”.

Park usou a aparente estabilidade e a posição estratégica da Coréia como moeda de troca para trazer investimentos externos para seu país. Interessados em estabelecer medidas de contenção para a expansão comunista na Ásia, os EUA autorizaram o Japão a fazer grandes investimentos na península, enquanto garantiam a segurança da área, investindo no desenvolvimento das forças armadas locais.  O governo de Park, entretanto, proibiu a presença de empresas japonesas em território nacional, estabelecendo a política dos chaebol, conglomerados industriais privados que recebiam empréstimos subsidiados do governo, desde que seguissem as regras econômicas e políticas vigentes. Algumas desses conglomerados tornaram-se empresas gigantes, atuando em toda a cadeia produtiva.

Uma reforma agrária foi promovida e, ao mesmo tempo, a classe média rural era incentivada a estabelecer residência em centros urbanos. Uma mão-de-obra qualificada, formada através de programas de educação universal e valorização da competência e o fluxo de investimentos japoneses, coordenado pelo governo, acabaram criando, na segunda metade dos anos 1970, um parque industrial impressionante, voltado para a exportação de produtos semi-acabados para o Japão e os EUA. Ao mesmo tempo, o governo militar incentivava a expansão de universidades locais e de programas de pós-graduação no exterior. O resultado foi a sofisticação da indústria local, que se tornou produtora de tecnologia de ponta. Nos anos 1980 e 1990, a Coréia do Sul tornou-se um dos maiores economias exportadoras do mundo.

Esse surto explosivo de desenvolvimento econômico e a urbanização acelerada acabaram criando tensões políticas, com forte influência de pequenos movimentos estudantis e sindicais extremamente combativos tentando conquistar espaço à força de reivindicações de democratização, que eram postergadas pelo governo sob a justificativa do “perigo interno e externo”. Em 1971, Park tentou uma grande jogada política: interessado em permanecer no poder, declarou “estado de emergência nacional”, em função de manifestações de estudantes e trabalhadores nas grandes cidades. Em julho do ano seguinte, em meio à crise política, anunciou, num espantoso comunicado conjunto com Kim Il-sung, ditador stalinista da Coréia do Norte, planos para a unificação da península. Foi um magnífico tiro no pé. Manifestações de todas as colorações explodiram por todo o país. O projeto foi abandonado rapidamente, em função da oposição dos EUA, e ao fato de que, aparentemente, Kim Il-sung não conseguiu apoio da URSS e da China para levar a proposta adiante.     

Em 19 de abril de 1973, o general Park, enquanto acompanhava exercícios militares, divulgou o propósito de estabelecer uma estratégia militar independente e desenvolver as forças militares. Os projetos decorrentes dessa diretiva, desenvolvidos pela Junta de Chefes de Estado Maior resultaram em Diretrizes para um Programa de Modernização do Equipamento Militar para cada umas das corporações militares, integrados e, um Plano de Defesa Nacional de Oito Anos (1974-1981), aprovado pelo chefe do governo em fevereiro de 1974.

Nessa época, a situação política do país tornava-se cada vez mais tensa. A situação econômica da Coréia do Sul era delicada, em função da crise mundial do petróleo, que tinha feito retrair os investimentos japoneses no país. A instabilidade criou brechas no sistema de governo, sem que os atores envolvidos chegassem a um consenso sobre o que fazer. Park governava através de sucessivas decretações de estados de emergência, mas a oposição não dava sinais de esmorecer. Em 1979, como a situação econômica só fizesse piorar, conselheiros próximos de Park Chung-hee o instavam a ceder a algumas das reivindicações do movimento de oposição estudantil e reduzir a repressão. A discordância entre as principais figuras do governo acabou resultando, por incrível que pareça em um tiroteio, acontecido durante uma reunião de cúpula no refeitório da sede da KCIA, em 26 de outubro de 1979. Nesse incidente, Park e o diretor da agência de informações perderam a vida. O desaparecimento do ditador e de parte de seu staff abriu um vácuo de poder, e o período posterior foi de competição entre setores dominantes, em meio a levantes estudantis, indisciplina militar e intranqüilidade social. Alguns anos se passariam até que a situação viesse a se estabilizar::

Duas frases para pensar::Afinal, é sexta-feira::

Bem, de fato, é sábado, mas compensarei com um volume bem grande de temas para pensar::

:: :: :: :: :: :: :: :: :: ::

Se, conforme Mrs. [Margaret] Tatcher – “não existe essa coisa de sociedade”, então, com o passar do tempo, as pessoas haveriam de perder o respeito por bens definidos socialmente. E essim ocorreu, pois a Grã-Bretanha no final da Era Tatcher começou a assumir algumas das piores características do modelo norte-americano que a Dama de Ferro tanto admirava. Os serviços que permaneciam ligados ao setor público ficavam à míngua, enquanto a riqueza se acumulava nos setores “emancipados” da economia … Os espaços públicos ficavam ao deus-dará. O índice de delitos e deliqüência cresceu na proporção do aumento da fatia da população relegada à pobreza permanente.

Tony Judt. Pós-Guerra. Uma história da Europa desde 1945, 2004. 

(Livro que o redator recomenda, entusiasticamente, para todos que pretendam entender o estado de coisas atual na Europa e… no Brasil.)

Especificamente, desde o princípio da Grande Depressão podemos ver claros presságios das catástrofes futuras olhando para o último ano de cada década. Entre 1929 e 1989 houve sete desses anos e nenhum deles se passou sem um acontecimento que marcasse época em algum lugar do planeta. A cada vez, uma revolução sangrenta, um fracasso econômico ou uma grande guerra  estourou para traumatizar o mundo na maior parte da década seguinte.

Ravi Batra. The crash of the millennium, 1999.

(Até ler esse livrinho – não todo, mas boa parte…-, desse pop-star acadêmico com certa vocação para profeta do apocalipse capitalista , o redator não acreditava em premonição…) 

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial (e ainda não chegou ao fim…)::Os custos econômicos da Segunda Guerra Mundial::

Quando se fala em Segunda Guerra Mundial, sempre se pensa – corretamente – que a derrota dos nazistas significou a eliminação de um enorme problema para toda a humanidade. De fato, essa visão é correta, mas o esforço mundial – talvez a única vez em que a humanidade realmente optou por escolher uma boa causa – teve custos. Os custos morais, conhecemos bem; os humanos, ninguém ignora. Mas e os custos econômicos? Todo mundo sabe que guerra é uma coisa cara, e quanto terá custado a Segunda Mundial?

Existem muitos estudos a respeito. Esse blogueiro fanático por tecnologia nunca foi chegado à economia – apenas o necessário pra poder ler jornal sem se sentir idiota. Entretanto, tentarei, nesse “post” – depois de um mês de férias – levantar algumas questões. Nada de muito complicado, pois se Guido Mantega certamente quebraria a cara caso tentasse falar de couraças sloop e esteiras de alto torque, o redator também pagará mico se tentar aprofundar-se demais.

Agradeço a sugestão do tema à Vânia Grosso, que, aparentemente, perde tempo lendo meus papers de “pesquisador de domingo”. Eu mesmo nunca tinha pensado em visitar esse assunto.

Então, obrigado, Vânia! E divirtam-se todos! Não deixem de visitar o blog, pois irei, como sempre faço, melhorando os recursos de pesquisa, ao longo da semana::

:: :: :: :: :: :: :: :: :: ::

Afinal, qual foram os custos econômicos da Segunda Guerra Mundial? Numa palavra, apenas? Imensos. Num número? Cinco trilhões de dólares.

Parece muito? E é. Foi calculado pela Universidade de Oxford, em 1986. Em números de 1940, dá uns 288 bilhões de dólares. Em qualquer língua, é um dinheirão.  Mas “enquanto muitos observadores falam sobre o estímulo econômico que resultaram dos gastos da guerra, e os aspectos que dizem respeito à formação do caráter militar de nosso tempo, muitos economistas vêem a guerra como um ônus insuperável para os participantes diretos, bem como os indiretos. Os custos indiretos da guerra envolvem os gastos dos estados envolvidos, dos materiais destruídos e danificados, e os custos sociais da perda de vidas. Ainda que reconheçam esses custos, os economistas, de longa data  têm também reconhecido os impactos adicionais e decorrentes que a guerra teve sobre a vida econômica de participantes e não-participantes.”

O texto acima, extrato de um artigo maior e bastante interessante, que apresenta esse aspecto da Segunda Guerra e levanta questões inusitadas sobre o assunto. Mas vejamos um tópico que todos podemos entender: pensemos nas fotografias e nos documentários. Até hoje, nunca se observou destruição igual (ainda bem!..). A infra-estrutura industrial e urbana da Europa sofreu danos da ordem de 65 por cento (algo como se, em cada cem casas, 65 tivessem sido destruídas ou sofrido algum estrago); no caso da União Soviética, é impossível calcular. Aproximadamente 40 milhões de pessoas perderam a vida, e uns 100 milhões sofreram ferimentos; dentre estes, cerca de 5 milhões ficaram inválidos, de alguma forma. Em resumo: a Europa Ocidental chegou em 8 de maio de 1945 quase falida; a Rússia européia, totalmente arruinada; o Japão, queimado quase até o nível do solo. O mundo tinha muitas feridas para lamber.

Havia também o problema de que a indústria, em todos os países, estava totalmente adaptada para a produção de guerra. As outras áreas, ditas “civis” ou “de tempo de paz” tinham sido reduzidas ao máximo. Basta ver que, nos EUA, entre 1941 e 1946, não foram produzidos automóveis para o mercado civil (apenas por encomenda do governo, para coisas tipo polícia, ambulâncias, ônibus e táxis); a produção de mobiliário ou roupas civis, em alguns países (a Alemanha e a União Soviética, por exemplo) reduziu-se em mais de 80 por cento. Isso tudo constituiu um problema, pois quando a guerra acaba, não se trata apenas de parar de produzir material militar, mas adaptar toda a indústria para um tipo de produção cuja lógica e organização são inteiramente diferentes daquelas adotadas até então. A indústria bélica lança mão de projetos, fabricação e controle de qualidade diferentes dos adotados pela indústria civil. Uma fábrica de eletrônicos (como a Philco, em Filadélfia, ou a Telefunken, de Berlim, vamos dizer) tem, por exemplo, preocupações com o acabamento do produto que a indústria militar não precisa ter. Essa última leva em conta, em seus produtos, principalmente a funcionalidade. O produto não precisa ser bonito, e sua ergonomia tem de estar totalmente articulada com a finalidade de uso. Em tempos de guerra, a indústria bélica também não precisa se preocupar em disputar mercado. Os governos compram tudo; financiamento da produção, cobrança e pagamento de impostos também mudam completamente. Veja-se, por exemplo, os acordos lend-lease (“empréstimo e arrendamento”), inventados por Rooselvelt em 1940, para ajudar a Inglaterra: tudo quanto é tipo de equipamento militar passou a ser entregue aos britânicos com descontos de até 80 por cento no preço final – e financiado. Uma boa parte desses descontos era obtida através da redução nos impostos normalmente cobrados à indústria. Só isso, entretanto, não bastava: os governos tinham de financiar a indústria, e se financiavam emitindo títulos de várias espécies (os mais conhecidos eram os “bônus de guerra”, pagáveis após o fim da guerra  – até o governo brasileiro fez isso…). Isso significa que, depois da guerra, a dívida terá de ser paga. Ou seja: muitos governos (o Reino Unido, por exemplo), acabaram a guerra quebrados.

Este foi um dos motivos (não o único) que levou o Partido Conservador de Churchill a perder a eleição geral de 1945. O que a oposição lá começou a se perguntar é como o Estado cumpriria as promessas feitas à população quando a mobilização geral começou, em 1940 (a tal “finest hour” do verão de 1940). Segundo o governo conservador, depois da guerra aconteceria o advento de um verdadeiro paraíso para as classes trabalhadoras. Na Inglaterra, as promessas do governo colocaram em movimento mudanças sociais profundas, liberando as reinvindicações da sociedade. Essas possibilidades foram sistematizadas em 1941, num documento chamado “Relatório Beveridge” (de William Beveridge, um economista conservador a serviço do Partido Trabalhista). Esse documento analisava as mudanças que teriam de ser implementadas pelo governo, depois da guerra, nos serviços sociais, e concluía que o objetivo dos governantes – independente da coloração política – teria de ser manter o pleno emprego como forma de expandir a economia e financiar a coisa toda. O problema é que, já a partir de 1943, ficou claro que não haveria dinheiro para pagar essas mudanças. John Bull estava com os bolsos vazios.

Se era assim na Grã-Bretanha, imagine-se no resto do mundo. Poucos países ganharam com a guerra, exceto os Estados Unidos. Estes entraram na guerra quando a situação militar estava mais-ou-menos consolidada – a Alemanha tinha sido contida (já tinha perdido a Batalha da Inglaterra e sido detida diante de Moscou) e o Japão, apesar do arranque inicial, era, de fato, um adversário de segunda categoria. A mobilização da sociedade norte-americana já tinha começado, paulatinamente, desde 1939. A conversão da indústria foi feita por via de uma articulação através de comissões de alto nível armadas pela administração Rooselvelt. Foram convocados líderes de classe, tanto capitalistas quanto trabalhadores, e a sociedade foi chamada à luta por via das organizações civis – imprensa, igrejas, escolas, agências de seviços – acenando o governo com o final definitivo da Depressão.

Além disso, os EUA não foram atingidos pelos combates (o que, na guerra moderna, faz enorme diferença) e teve apenas danos periféricos em sua infra-estrutura, como perda de navios mercantes e instalações no ultramar. Uma vantagem pouco conhecida foi o fato de que, como os EUA se mantiveram neutros após o início das hostilidades na Europa, os capitalistas norte-americanos não retiraram seus investimentos da Alemanha imediatamente, e puderam faze-lo de forma planejada. Em muitos casos a retirada foi feita com a anuência dos nazistas. E esses investimentos não eram pequenos.

Um exemplo desse processo é interessante: o gigantesco trust General Motors Co. era dono de 100 por cento da empresa Opel, de Hamburgo. Essa empresa, produtora de veículos civis e máquinas industriais, passou, a partir de 1937, a produzir o caminhão médio “Blitz S“, que se tornou, em 1938, o principal veículo de transporte não-protegido da Wehrmacht (Forças Armadas Alemãs). Em 1939, o governo nazista propôs a aquisição, a médio prazo, de 20000 desses veículos. No ano seguinte, acabou propondo a aquisição do controle da empresa, encerrando a participação dos norte-americanos e a produção de veículos civis. A GM pode, assim, retirar seus capitais da Alemanha antes que os dois países se tornassem inimigos. Aconteceu a mesma coisa com diversas outras empresas – inclusive algumas fábricas de armamento.

Outro ponto crucial foi o fato de que, a partir de 1940, a “City” londrina deixou de ser o ponto de convergência dos capitais excedentes do mundo. Em termos simples, isso quer dizer que o dinheiro gerado pelos investimentos produtivos britânicos era reinvestido e redirecionado por bancos situados em Londres. Essa situação já estava mudando desde a Primeira Guerra Mundial, com Nova Iorque se convertendo no ponto de cruzamento do capital financeiro internacional. Depois de 1940, essa situação mudou em definitivo, e Wall Street transformou-se na “esquina mundial” do dinheiro. Talvez tenha sido esse o grande ganho dos EUA com a guerra: a grana do planeta passou a ter seu pouso em Nova Iorque. Isso significou que, a médio prazo, as fontes de financiamento da economia produtiva em todo o mundo passavam a depender de banqueiros dos EUA. Passou a valer a máxima de que “quem parte e reparte e não fica com a maior parte ou é bobo ou não tem arte” – e todos sabemos que “arte” nunca faltou ao grande capital norte-americano…

Claro que uma situação assim não teria sido possível sem um total acordo das autoridades políticas e econômicas dos EUA, e a anuência – ainda que forçada – dos britânicos e dos “governos no exílio” instalados em Londres (que, na prática, não mandavam nada, mas eram mantidos cuidadosamente com vistas ao pós-guerra). A partir de 1942, quando a vitória dos Aliados tornou-se questão de tempo, Rooselvelt começou a sonhar com o  “mundo de paz” após a guerra, e seus planejadores receberam ordens de pensar em como funcionaria esse mundo. A principal idéia foi que as potências – na época, imaginava-se EUA, Reino Unido (o que incluía Canadá e Austrália) URSS e China – constituiriam uma espécie de “supervisão geral” para a manutenção da paz e dos meios da paz. A base dessa “supervisão” seria as Nações Unidas e seu Conselho de Segurança. Claro que a idéia estava fadada ao fracasso, mas o projeto teve alguns resultados eficazes: um dos principais foi a conferência de Bretton Woods (bucólica cidadezinha no estado norte-americano de New Hampshire), realizada em julho de 1944. Essa conferência (na verdade, foram diversas, realizadas simultaneamente, com a presença de mais de 700 delegados de 44 países) estabeleceu um sistema de gerenciamento econômico internacional, que modelou regras para as relações comerciais e financeiras entre os países centrais e entre estes e periferia econômica do mundo. O resultado foi uma ordem monetária totalmente negociada – e melhor, chancelada por acordos diplomáticos entre Estados teoricamente soberanos. As resoluções do acordo final de Bretton Woods, estabeleceram, debaixo do guarda-chuva da ONU, a criação do Fundo Monetário Internacional (nosso FMI “velho de guerra”) e do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (o BIRD do “faça como eu digo”).

Bretton Woods não foi pouca coisa. Em meados de 1944, estava claro que um dos resultados da guerra era a criação de um enorme excedente de capital, produzido pela atividade econômica ampliada, nos EUA, Canadá e Austrália, e em regiões periféricas (como o Brasil, a Argentina e a África do Sul), e pela retração sem precedentes, nos anos anteriores, do comércio internacional regular. Esse excedente poderia provocar um enorme surto inflacionário, queda da produção e desemprego – este possivelmente agravado pela desmobilização de 25 milhões de combatentes, em todo o Ocidente. No conjunto, algo semelhante à Grande Depressão de 1929. Mas a experiência da Depressão tinha sido bem absorvida, à essa altura.

Na época em que o desastre econômico de 1929 se espalhava, as nações, aferradas ao sistema liberal, imaginaram que a instituição de controles e barreiras comerciais e de medidas gerenciais internas restritivas, tudo somado às “leis naturais do mercado”, acabariam resolvendo a crise. Não resolveram, e trouxeram, adicionalmente, o perigo de rompimento estrutural do sistema. A idéia geral levada a Bretton Woods (relativamente bem-intencionada) pelos economistas e pensadores reformistas, era evitar a repetição da situação observada entre 1930 e 1939. Nesse período, a retração do comércio internacional minou o sistema internacional de pagamentos, aprofundando a crise e criando um círculo vicioso. A política das maiores economias foi “safar-se empobrecendo o vizinho mais fraco”: aumentar tarifas alfandegárias de modo a implementar a competitividade das próprias economias e assim reduzir déficits da balança de pagamentos. Isso teve efeito contrário, a diminuição generalizada do comércio, não só mundial, mas também interno e, por conseqüência, da produção. O desemprego foi massivo. Em 1944, a idéia era que um sistema monetário mundial unificado preveniria uma nova crise.

Outro problema, articulado ao anterior, era a “aterrissagem” da economia de guerra. Em 1919, a reconversão da indústria tinha provocado uma enorme confusão, atenuada pela relativa prosperidade mundial. Não era o caso, então. A destruição generalizada e a situação de agitação social na Europa exigiria investimentos de emergência, o que dificultaria a readaptação do parque industrial.

Dois eventos indicaram o caminho a ser seguido: a Guerra Fria e o Plano Marshall.

A Guerra Fria, iniciada já em 1948, com o bloqueio de Berlim, mostrou que os EUA deveriam continuar no papel de “arsenal da democracia”, apenas reduzindo a escala. Ou seja: em vez de 350.000 aeronaves, 2.500.000 veículos de todos os tipos (inclusive 1.000.000 de caminhões) e 50.000 navios (inclusive 30.000 navios mercantes), passariam a produzir uns 20 por cento disso. Os investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento, principalmente na área de tecnologia e processos não diminuiriam – muito pelo contrário. Os EUA se tornariam o “laboratório do mundo”, tornando-se a “esquina da ciência e da tecnologia”, ao mesmo tempo que a “esquina do dinheiro”. Diversas guerras periféricas, surgidas a partir de 1946, como a Revolução Chinesa, a Coréia, o Oriente Médio e as diversas guerras de descolonização mostraram que seria fértil do jardim da indústria bélica.

O segundo evento foi o Plano Marshall. Trata-se de desdobramento da Doutrina Truman – basicamente, o conjunto de iniciativas dos EUA para conter a expansão do comunismo soviético e das agitações sociais. Oficialmente chamado “Programa de Recuperação Européia”, foi o principal plano dos EUA para a reconstrução dos aliados europeus, inclusive a Grã-Bretanha. O nome extra-oficial vem de George C. Marshall, comandante das Forças Armadas dos EUA durante a guerra e então Secretário de Estado dos Estados Unidos.

O plano de reconstrução foi desenvolvido em uma conferência das nações européias, em julho de 1947. Inicialmente, era previsto que a URSS e seus aliados também seriam convidados, mas o governo soviético avaliou que os acordos propostos pelos EUA significariam um retrocesso nas vantagens obtidas durante a guerra (a URSS teve um enorme desenvolvimento econômico durante o conflito, além de consolidar politicamente, o sistema comunista). Assim, Stalin determinou que nenhum país da esfera soviética estaria presente. O plano permaneceu em operação por quatro anos, a partir da assinatura do protocolo de intenções dos governos. Durante esse período, algo em torno de 13 bilhões de dólares em assistência financeira, técnica e econômica (equivalentes, hoje em dia a uns 150 bilhões de dólares) foram oferecidos aos aliados. A contrapartida foi a criação da Organização Européia de Cooperação e Desenvolvimento, sob supervisão da ONU, e a adesão incondicional ao métodos norte-americanos de organização e gerência.

Esse dinheiro era uma gota no oceano calculado em 1,5 trilhão de dólares, que foi o rendimento, calculado no início dos anos 1950, obtido diretamente pelo sistema econômico dos EUA, com a guerra. O Japão e a Alemanha perderam o status de potências militares, sendo o primeiro ocupado pelos EUA e o segundo dividido em dois Estados, Alemanhas Ocidental e Oriental. A Inglaterra e a França, simplesmente falidas, perderam seus impérios coloniais, e, com estes, foi-se a ordem econômica internacional pré-guerra. Teria início então uma nova fase, com o mundo dividido entre o capitalismo e o comunismo, num embate ideólogico e econômico entre americanos e soviéticos, que persistiria por mais de quatro décadas.

Tangencialmente, Canadá e Austrália também ganharam com a guerra, visto que boa parte do que restava do capital disponível em circulação no Império Britânico foi transferida para esses países. É bem conhecida a “mudança de endereço” dos ativos do Banco da Inglaterra para o Canadá, em 1940, e suas conseqüências. Esse país, formalmente membro da Comunidade Britânica, saiu da guerra como a quarta potência econômica do mundo, recebendo inclusive parte das indústrias e trabalhadores especializados que não puderam permanecer na Inglaterra, em função da luta contra a Alemanha.

Em menor escala, a Austrália também foi afetada positivamente, embora fortemente afetada pela interrupção das comunicações com a Europa (o mesmo se deu com a Nova Zelândia) e pela guerra no Pacífico, contra o Japão. Esses dois países passaram, a partir de 1942, a constituir uma das duas retaguardas das operações contra o Império Nipônico, o que significou que passaram a ser amplamente subsidiados pelos EUA. Embora tenham contribuído com o esforço de guerra de maneira considerável, como o Canadá, não chegaram a ter grandes prejuízos, pois os combates ficaram longe de seus territórios. O problema é que foram todos bastante afetados pela participação no esforço de guerra britânico, já que, em teoria, constituíam um único organismo político, e estavam obrigados por acordos que remontavam ao final do século XIX, a colaborar ativamente na defesa das Ilhas Britânicas e do Império. Basta dizer que um terço dos efetivos das forças armadas britânicas era constituído por naturais do Canadá. Ainda assim, a economia canadense, muito afetada pela Grande Depressão – era fornecedora de matérias-primas, alimentos e insumos para a Grã-Bretanha – recuperou-se com a guerra, embora tenha se tornado, no processo, ainda mais dependente dos EUA do que era da “velha Albion”.

A periferia, para variar, não ganhou nada com a guerra. Países como Argentina, Uruguai, Brasil e África do Sul acumularam enormes créditos com os países centrais – inclusive os EUA -, dinheiro que poderia ter sido aplicados no desenvolvimento sócio-econômico dessas regiões. A Argentina tinha aproximadamente 2 bilhões de dólares em ativos, e a enorme vantagem de que esses ativos estavam, em grande parte, disponíveis, pois o país conseguiu ficar neutro durante quase toda a guerra, vendendo matérias-primas e alimentos tanto para os EUA quanto para a Grã-Bretanha, e recebendo investimentos e “dinheiro fugido” da Alemanha. Um plano de desenvolvimento mal-elaborado e a megalomania de Juan Domingo Perón, que pretendia tornar o país uma potência regional, acabaram com grana em menos de vinte anos (o que confirma outra máxima: “o tolo e seu dinheiro logo se separam”). Perón e seus sucessores tiveram a fantasia de estabelecer uma indústria local de armamento, e contrataram engenheiros alemães, nazistas irrecuperáveis, que não se mostravam dispostos a trabalhar nem mesmo para o Ocidente. No caso do Brasil, pode-se dizer, com certeza, que o país foi vergonhasamente tungado por seu aliado. “O tratamento com o Brasil, no pós-guerra, foi muito injusto. Não tivemos ressarcimento dos ônus impostos pela guerra por termos sido excluídos da Conferência de Reparações de Guerra, em Paris, conforme nos estava assegurado pelos Acordos de YALTA e POTSDAM.O alinhamento automático aos EUA, a partir de 1947, representado pela adesão incondicional ao “sistema panamericano” (outro desdobramento da “doutrina Truman”), viria a render mais problemas que vantagens. Não recebemos bens de capital para o nosso desenvolvimento, a fim de sair da economia de guerra para a de paz sem grande descompasso.” Mais do que isso, fomos chamados a “colaborar” na reconstrução da Europa (!!!), gastando nossos créditos em bens de consumo da renascida indústria deles (automóveis Citroën, Renault “rabo-quente” e Morris, relógios e máquinas fotográficas feitas na Alemanha Ocidental e máquinas de costura italianas) e bugigangas, muitas bugigangas de “matéria plástica”, que pelo menos renderam muita gozação.

__________________________________________

Por agora, é isso aí. Caso alguém mostre interesse, voltamos ao assunto. Se ninguém mostrar, voltamos também. De qualquer forma, aproveitem: minha comemoração não deve ultrapassar agosto. Em setembro, vou comemorar outra coisa… :c))