Cultura material militar::Troféus, triunfos e o obuseiro “El Cristiano”:tudo a ver::

Pois é – temos de admitir: não conhecemos nossa própria história. Não a história dos cientistas, que enxerga por trás dos fatos, mas a história que nos cimenta como povo e nos consolida como Nação. Vivessemos em outro país, nunca um governo – qualquer governo – teria a ousadia de propor a devolução de um troféu de guerra. Em outro post, nesta série “O mês da Guerra do Paraguai”, falamos sobre “memória social” e “lugares de memória”. Troféus são “lugares de memória”, assim como são “monumentos”, ou seja, marcas que o presente, projetando-se no futuro como passado, tenta legar às gerações futuras. Nossa palavra “troféu” vem do francês antigo trophee, “presa de guerra”, que, por sua vez, vem do latim trophaeum, literalmente, “monumento a uma vitória”. A Coluna de Trajano, por exemplo, até hoje existente em Roma, é um trophaeum que chegou até nós e descreve a campanha da Dalmácia, desde sua organização até a vitória. A campanha na Dalmácia é detalhadamente descrita, e boa parte do que conhecemos sobre o exército e as tropas romanas veio do exame dos frisos daquele monumento. Na Grécia Clássica, objetos comemorativos eram feitos a partir de equipamentos (espadas, elmos, escudos, lanças, etc.) capturados ao inimigo, e se destinavam a homenagear a memória de um herói. Navios inteiros eram onservados, para lembrar uma vitória naval. Conta-se que o “Argos”, navio dos argonautas da lenda de Teseu, matador do Minotauro e conquistador do “velocino de ouro”, foi conservado em Atenas durante séculos. Geralmente, uma inscrição com a narrativa dos feitos memoráveis explicava a razão da homenagem.

Os romanos, por outro lado, não erguiam apenas grandes estátuas, grupos escultóricos ou até mesmo prédios, para lembrar suas vitórias militares ou o que consideravam grandes marcos de sua civilização. Artefatos utilitários, como armas e objetos notáveis de seus inimigos, tomados em combate ou saqueados, eram levados até a capital do império postos a desfilar em grandes paradas chamadas triumphus (a própria Coluna de Trajano representa, simbolicamente, um triumphus). Esses objetos depois ficavam depositados em templos, sendo que, na época do império, eram dedicados a Júpiter Capitolino e, por isso, expostos no templo do deus, na colina do Capitólio. Não é preciso chamar atenção de como os triunfos romanos lembram nossas atuais paradas militares, particularmente as “paradas da vitória” (em 1945, várias paradas comemorativas foram realizadas em várias grandes cidades do Ocidente, inclusive em Berlim e no Rio de Janeiro). E os estados modernos de certa forma seguiram o costume romano de depositar em templos seus troféus de guerra, mas o fazem em seus modernos templos cívicos, os museus. Ou em espaços de memória similares, memoriais e mausoléus.

Assim, o obuseiro “El Cristiano” foi parar, provavelmente depois de 1870, no Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro, onde ficava, originalmente, exposto junto ao portão principal da instalação militar, sobre um simulacro de reparo construído especialmente para ele, no próprio Arsenal, em 1875. O Arsenal era, então uma das poucas instalações fabris existentes no então Império do Brasil com capacidade para fundir grandes peças de metal. Provavelmente em algum momento em 1921 ou 1922, o enorme objeto foi deslocado para dentro do prédio, que estava sendo reformado para a Exposição Internacional Comemorativa do Centenário da Independência. Já fazia então mais de 50 anos que se encontrava lá, maciço testemunho da grande vitória conseguida pelas forças armadas brasileiras.

Tecnicamente, “El Cristiano” é um obus, ou “obuseiro”, ou seja, uma arma de fogo de grandes proporções, mas não um canhão. A diferença é que o canhão, geralmente, destina-se a disparar em trajetória tensa, ou seja, apontado para o alvo. Já o obuseiro dispara em trajetória parabólica, embora numa parábola não tão acentuada quanto a de um morteiro. Por sinal, o obuseiro tem o tubo-alma relativamente curto em relação ao calibre. Num tubo-obus, os munhões (peças cilíndricas que fazem parte do tubo, e que servem para fixar o conjunto no reparo) situam-se mais-ou-menos na metade do comprimento total. Em tempos mais antigos da artilharia, uma das características do obuseiro é não disparar projéteis sólidos, mas granadas ou metralha.

“El Cristiano” foi fundido nas instalações de Ybicuy e acabado no Arsenal do Estado, em Assunção, no Paraguai, provavelmente em 1866 ou 1867. As igrejas do país “doaram” seus sinos ao Estado, o que não é estranho, pois tdas as nações fazem coisas semelhantes, em tempo de guerra. Por esse motivo, uma inscrição nos munhões diz “El Cristiano”, e do outro lado, “a religião ao Estado”. Seu calibre é de 305 mm (12 polegadas), o que indica o comprimento do tudo em 8,3 calibres, ou seja, 294 centímetros (num canhão, a relação seria de mais de 25 calibres). O peso total da peça é dado em algumas fontes como em torno de 12 mil quilos. Acredita-se que o peso tenha sido determinado quando do transporte da peça, mas nunca chegou a ser confirmado.

Embora fabricado em um arsenal do estado, “El Cristiano” não representa capacidade industrial fora do comum. O processo de fundição é de péssima qualidade, inclusive porque a liga de bronze utilizada em sinos não é adequada à fabricação de peças de artilharia. Sinos utilizam liga de menor densidade o que, na hora da fundição, resultou num material muito poroso nas proximidades da boca. De fato, toda a peça é extremamente mal-acabada. O fato pode ser explicado porque, em peças de artilharia modernas, em que o processo de fundição industrial eliminou o acabamento artístico e a inserção de medalhões, cartelas e golfinhos (espécie de alças situadas na seção superior do tubo, que serviam para move-lo, passando-se cordas ou varais através delas) que eram verdadeiras esculturas, o acabamento era feito em grandes tornos movidos a vapor, e por processos químicos, destinados a aumentar a durabilidade da peça, protegendo o metal. O acabamento ruim tem duas possíveis explicações: a peça foi fundida às pressas, para atender as necessidades militares do exército paraguaio, ou o arsenal do estado não tinha tornos suficientemente possantes para girar peças daquele peso.

O obuseiro esteve inicialmente instalado no forte de Curupaiti, de onde foi retirado para ser reinstalado, provavelmente “a barbeta” (numa posição protegida, mas não acasamatada, onde as peças disparam sobre uma amurada), na fortaleza de Humaitá, na principal bateria, que merecia o nome de “Londres” (apesar de não ter nada a ver com a Grã-Bretanha), artilhada com mais de 180 peças de diversos calibres. A especulação sobre a posição dessa peça de artilharia deve-se à constatação (feita por Adler Homero Castro em suas pesquisas) de que dificilmente se conseguiria disparar dela um projétil sólido pesando cerca de 200 quilos sem faze-la rebentar. Assim, é mais provável que disparasse granadas de aproximadamente 80 quilos, cheias de pólvora e reguladas para explodir por fuso. Mas é muito provável que, de fato, “El Cristiano” nunca tenha sido disparado. Quando a fortaleza foi invadida pelas tropas brasileiras comandadas pelo marquês de Caxias, os paraguaios demoliram a bateria Londres e lançaram as bocas-de-fogo ao rio. Terminada a guerra, provavelmente em 1871, a Marinha Imperial, cujos encouraçados levaram muitos tiros disparados daquela posição fortificada, retiraram a peça da água e ela foi levada para o Rio de Janeiro. Outro canhão de grandes proporções, o Criollo, foi levado para a Argentina.

Algumas fotografias dessa peça de artilharia podem ser vistas aqui. Por sinal, não deixe de ler o texto de Adler Homero Castro. Um outro ponto de vista pode ser conferido aqui. É um contraditório bem menos razoável do que outros que têm aparecido na Grande Rede. Confiram os dois, e decidam por si::

Um fortificação, posto que é Segunda::O mês da Coréia::

 

Korean_dmz_map

A Zona Desmilitarizada Coreana (em inglês, DMZ) não é propriamente uma fortificação, mas um enorme conjunto de obras militares que se estendem ao longo de mais de 250 quilômetros, de costa à costa, na península coreana, com aproximadamente 4 quilômetros de largura, correspondente à linha de demarcação do armistício de1953.  No território adjacente aos dois lados da ZDC estão aquartelados aproximadamente dois milhões de soldados e centenas de milhares de peças de armamento de todos os tipos, o que faz daquela região a fronteira mais pesadamente fortificada da atualidade. Entretanto, por mais absurdo que possa parecer, o lado sul-coreano da ZDC tornou-se uma espécie de atração turística, recebendo, anualmente, milhares de visitantes. O lugar é cheio de monumentos (na *foto, a “Ponte da Liberdade, obra ferroviária atravessada por milhares de prisioneiros de guerra ocidentais devolvidos após o armistício; outra *foto mostra um ponto de observação usado pelos turististas para espiar a Coréia do Norte) que evocam aos sangrentos combates de meio século atrás. Por sinal, as fotografias foram recolhidas em blogs de turistas ocidentais que visitaram a região::

Uma fortificação, posto que é Segunda::Linha Gótica, 1944

Linha Gótica em agosto de 1944, imediatamente antes da chegada da FEB. O posto a ser ocupado pela tropa brasileira corresponde aproximadamente ao espaço entre a 1a Div. Blindada dos EUA e a Força-Tarefa 45.

Linha Gótica em agosto de 1944, imediatamente antes da chegada da FEB. O posto a ser ocupado pela tropa brasileira corresponde aproximadamente ao espaço entre a 1a Div. Blindada dos EUA e a Força-Tarefa 45.

Bem, não era propriamente uma fortificação, mas o teatro de operações em que a FEB esteve empenhada::

Depois da queda de Roma, em junho de 1944, os alemães retiraram-se de maneira organizada para estabelecer uma nova posição defensiva nos Montes Apeninos – essa posição recebeu o nome de “Linea Gotica” (em italiano).  Os Apeninos são uma cadeia de montanhas que atravessa a península italiana desde La Spezia, à oeste, até Pesaro, na costa italiana no Mar Adriático. O sistema defensivo alemão se estendia ao longo de quase 320 quilômetros. Constava de uma zona limitada, adiante, pelos rios Arno e Metauro, com um campo de defesa em profundidade que se alongava sobre a linha Viareggio-Chiesa-Lucca-Pescia-Pistóia-Dicomano-Consumma, até o Passo de Viamaggio; depois, pela esquerda do Foglia, até Pesaro. O limite posterior seguia a linha Massa, Altissimo, Pania della Choce, Borgo Mozzano, Abetone, Piastre, Collina, Vernio, La Futa, Giogo, Casaglia, San Godenzo, Monte Falterana, Passó Maridrioli, Verghereto e, por fim, atingia o Adriático em Rimini. A linha era constituída por fortificações de caráter semipermanente: trincheiras e obras de terra socada e madeira, com pouco uso de cimento e ferro. Foram construídas posições de artilharia, postos de fogo de infantaria, refúgios, depósitos de munição, abastecimentos e vias de comunicação. Campos minados e fossas antitanques reforçavam as posições. Nos extremos do sistema defensivo, na costa, existiam obras de concreto e aço. De fato, a extensão a defender era enorme e o tempo e os recursos, escassos. Assim, no início de agosto, quando a manobra foi considerada completada, muitas das obras defensivas não tinham sido concluídas. Os alemães dividiram a frente em duas zonas, com limite interno a leste da linha Florença-Bolonha. Dispunham, para a defesa, de dois exércitos, o 10o e 14o, que totalizavam 19 divisões: 14 na primeira linha, 2 empenhadas no litoral e nos flancos, e 3 em reserva, atrás da frente. Entretanto, esse número é enganoso, pois nessa época, os efetivos das divisões alemãs estavam reduzidos a dois terços da força original, o que significava que os alemães dispunham, na realidade, de cerca de aproximadamente 12 divisões, em efetivo.

Se você quiser examinar o excelente mapa acima em detalhes, clique aqui, e, em seguida, em “Map 1”. É possível ampliar as diversas áreas::

Uma fortificação, posto que é Segunda::Morro da Conceição

1181775164_forte2

Consta que o corsário francês René Duguay-Trouin, que ocupou a cidade do Rio de Janeiro durante quase três semanas, em setembro de 1711, instalou, no alto do morro da Conceição, uma bateria dominando a enseada da Prainha, diante de onde, hoje em dia, é o bairro da Saúde. Duguay-Trouin retirou-se com sua esquadra após o pagamento de vultoso resgate, mas a facilidade com que tinha superado as defesas da barra do Rio de Janeiro chamou a atenção para a fragilidade da cidade. Imediatamente após, a administração portuguesa ordenou que o anel de fortalezas da cidade fosse melhorado, através da reforma de algumas fortificações e construção de outras. A Fortaleza da Conceição foi erguida nesse contexto. A altura do morro permitia a observação ampla de todo o trecho sul da orla orla média da cidade, ou seja, aquela situada entre a praia do Valongo o cais do Paço. Sua construção iniciou-se em 1712 ou 1713, tendo ficado pronta em 1718. Dotada de muralhas de pedra com quatro bastiões (posições defensivas capazes de cobrir uma à outra), consta que era artilhada com 36 bocas-de-fogo de diversos calibres, podendo cobrir não apenas extenso trecho de mar como a retaguarda da cidade, onde, na mesma época, foram iniciadas obras defensivas permanentes na forma de uma muralha. Curiosamente, logo após sua inauguração, iniciou-se uma disputa com a Igreja. O bispo da cidade alegava que as salvas de artilharia abalavam as paredes do Palácio Episcopal e perturbavam os trabalhos espirituais de seus ocupantes. A Coroa portuguesa aceitou as alegações do bispo e proibiu exercícios naquele posto. A fortaleza também serviu como prisão militar, tendo recebido presos das Conjurações mineira (1789) e baiana (1798). Também lá estiveram instaladas, no final do século 18, as Oficinas da Conceição, estabelecimento metalúrgico subordinado ao Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro onde se fabricavam peças para armas de fogo portáteis. Essas oficinas funcionaram até o final do século XIX. Durante o governo de Floriano Peixoto, foi novamente usada como prisão militar. Ainda hoje é sede do serviço de cartografia do Exército.::

Uma fortificação, posto que é Segunda::Ehrenbreitstein::

fotogalerie_koblenz

A Fortaleza de Ehrenbreitstein (ao pé da letra, “a venerável rocha”) foi construída como pedra angular do sistema de fortificações de Coblença (Festung Koblentz), pelo governo real da Prússia, entre 1817 e 1832. O sítio era local de um castelo, pelo menos desde o século 11, com função de guardar a região do Médio Reno, área que permitia o acesso ao interior da atual Alemanha e tinha sido invadida por tropas francesas diversas vezes, até então. Sob a autoridade do arcebispo de Coblença, a fortaleza foi, no final do século 16, expandida. Ao longo dos séculos 17 e 18, sucessivos arcebispos se valeram de sua posição estratégica para influenciar as contendas políticas regionais, que geralmente envolviam França e Prússia. Em 1672, no início da Guerra entre França e o Brandenburgo, o chefe religioso recusou-se a atender ultimatos dos enviados tanto de Luís XIV quanto do embaixador de Brandenburgo, que exigiam permissão para que tropas cruzassem o Reno. Em 1794, tropas do governo francês revolucionário tomaram Coblença, depois de um cerco de quase um ano. As tropas francesas não tentaram, então, nenhuma ação ofensiva, mas apenas deixaram que a fome derrotasse os defensores. Em 1799, a fortaleza foi entregue à tropas francesas, que destruíram o castelo antes de partir, em 1801. Depois da derrota de Napoleão, o Congresso de Viena colocou a Renânia sob a autoridade da Prússia. Os prussianos consideravam a fortificação da área de Coblença como prioritária, devido à sua proximidade com a França, e por constituir um gargalo no acesso ao interior da região. Em torno da cidade foi construído, entre 1817 e 1834, um sistema de fortificações, que passou a ser chamado a “Fortaleza Coblença”. Ehrenbreitstein era parte desse sistema. A partir de então, difundiu-se a idéia que se tratava da maior fortaleza da Europa Ocidental. De fato, é um engano: as proporções da Festung Ehrenbreitstein são até um tanto modestas, a começar por sua guarnição, de 1200 homens. Apesar de sua importância e imponência, Ehrenbreitstein nunca foi atacada até sua desativação, como estrutura militar, em 1890. Durante a 2ª GM, serviu como depósito de documentos e obras de arte e posto de comando de bateriais anti-aéreas.::

Uma fortificação, posto que é Segunda::Forte do Leme::

1forte_duquecaxias2

Construído entre 1776 e 1779, por ordem do Vice-Rei, Marquês do Lavradio, o Forte do Vigia cruzava fogos com o Forte de Copacabana e terminava sua linha de defesa com um portão de cantaria até hoje existente na Ladeira do Leme. Reformado pelo engenheiro militar capitão Augusto Tasso Fragoso em 1895. Nessa época passou a ter o nome de “Forte do Leme”. Em 1913, foi determinado que, no local do antigo forte, uma moderna fortificação para a defesa da entrada da barra da baía de Guanabara fosse erguida. O projeto da nova instalação foi de novo entregue a Fragoso, então o maior engenheiro de fortificações brasileiro. Em 1915 o detalhamento do projeto foi entregue à Krupp, cujos técnicos propuseram o uso de peças de concreto pré-moldadas e o artilhamento com quatro obuses de 120 mm. Essas peças deveriam ser capazes de tal elevação que os disparos ultrapassariam as os morros da Urca e Pão de Açucar. Com a eclosão da 1ª GM, as obras ficaram inconclusas e o forte foi guarnecido provisoriamente pela 11ª Bateria do 4º Grupo de Artilharia de Costa (11a Bia/4° GACos). A dificuldade no transporte dos materiais alemães acabaram por atrasar a obra, que só seria concluída bem depois de terminada a guerra, em 1919. Entre 1922 e 1930, o forte viu considerável ação, levando tiros do forte de Copacabana em 1922 e atirando contra o couraçado “São Paulo” em 1924. Em 1935 recebeu o nome de “Forte Duque de Caxias”. Em 1943, durante a 2ª GM, depois do alarme dado por um vigia que observava o mar com binóculos, de que vários U-boats alemães tentavam forçar a barra do Rio, o comandante da praça, capitão Sadock de Sá, ordenou fogo. Seguiu-se forte canhoneio de todas as fortalezas da barra. Após alguns minutos de bombardeio, um avião verificou que se tratava de baleias (que, aparentemente, escaparam incólumes da artilharia de costa brasileira…). Em 1955, o forte abriu fogo contra o Cruzador “Tamandaré”, que forçara a barra na revolta civil-militar denominada Novembrada, com o objetivo de alcançar a cidade de Santos. Nenhum dos 11 disparos atingiu o alvo, ainda que a belonave estivesse sem munição embarcada e com sérios problemas nas máquinas. A diminuição da importância da artilharia de costa, nos anos 1960, fez com que o Exército Brasileiro desativasse a instalação em 1965.::

Uma fortificação, posto que é Segunda:: Forte Niagara::

fortniagara

O Forte Niagara começou a ser construído na segunda metade do século XVII, tendo como pano de fundo as guerras coloniais entre França e Inglaterra na fronteira entre a Nova França (Quebéc) e as Treze Colônias da América do Norte. Instalado na foz do rio Niagara, visava modo a controlar o acesso às rotas dos Grandes Lagos e  para o interior do continente. Ao longo de sua existência, o forte foi controlado sucessivamente pela França, Inglaterra e Estados Unidos. A França instalou baterias provisórias de madeira num terreno elevado, em 1679 , que permitia a vigilância tanto aos acessos do lago quanto dos acessos terrestres. A primeira construção era, de fato, uma paliçada (alta cerca de madeira) reforçada. O segundo forte, de 1687, embora obra bem mais complexa, ainda era feito de madeira. Alojamentos, cozinhas, depósitos e outras instalações eram cercadas por estacadas de madeira e obras defensivas (bastiões e fossos) de terra. Em 1726, a França eregiu uma instalação permanente, o “Castelo Francês”, situado dentro de muralhas de pedra compondo quatro bastiões, cuja linha externa era formada por paliçadas de madeira. A obra definitiva situava-se, provavelmente, no mesmo lugar que a anterior. A Grã-Bretanha conquistou o forte em 1759, controle que mantiveram mesmo durante a Revolução Americana. Mas, pelos termos do tratado de 1796, teve de cede-lo aos norte-americanos, retomando-o em 1813, durante a 2ª Guerra da Independência. Em 1815, o tratado de paz previa sua posse pelos EUA. Com a construção do canal do Erie, em 1825, o valor estratégico do forte diminuiu, embora persistindo como posto militar ativo. Durante a Guerra Civil, funcionou como quartel e centro de treinamento de tropas, função que conservou ao longo do século 20. Foi desativado em 1963.::

Uma fortificação, posto que é Segunda::Forte da Laje, Rio de Janeiro::

fortlaje_02

Oficialmente denominado “Forte Tamandaré”, o Forte da Laje encontra-se instalado na ilhota do mesmo nome. De fato se trata de um afloramento de rocha na baía de Guanabara, que na baixa-mar tem aproximadamente 100 metros de comprimento por 60 metros, em sua parte mais larga. A primeira referência ao lugar como sítio adequado à uma obra defensiva é da década de 80 do século 16. A iniciativa da contrução aconteceria 60 anos mais tarde, mas o surgimento da fortificação só iria se concretizar quase 150 anos depois. Apesar da posição estratégica, voltada para a entrada da baía, era considerada de pouca valia, por sua silhueta baixa e interior descoberto o que a tornava bastante vulnerável a tiros de artilharia embarcada -, artilhada com 20 peças de antecarga consideradas, em 1845, como obsoletas. Em 1863, em função da questão Christie, foi proposta a instalação de uma torre blidada, montando canhões de grosso calibre.  Logo após a proclamação da República, em 1892, sua guarnição, juntamente com a da Fortaleza de Santa Cruz, levantou-se contra o governo, incidente de curta duração que não teve conexão com a Revolta da Armada, no ano seguinte. Duramente bombardeada durante o levante de 1893, foi modernizada a partir de 1896. Em 1901 foi concluída a montagem de cúpulas de aço de procedência alemã e pouco depois, a artilharia foi melhorada, com a instalação de dois canhões de 240mm e dois de 150mm, em torres girantes, e dois de 75mm, acasamatados. A ilha foi dotada de instalação elétrica e as obras foram completadas em 1906. Ao longo do século, foi recebendo pequenas melhorias (como aperfeiçoamento do controle de fogo e instalações de renovação de ar). Em 1997 ainda era sede de uma bateria de artilharia de costa. Com a extinção desse ramo da artilharia no Exército Brasileiro, foi afinal desativada.

Uma fortificação, posto que é Segunda::Fort Drum, Filipinas::

Maquete do Fort Drum, conforme fotos, 1922-1941

Maquete do Fort Drum, conforme fotos, 1922-1941

Conhecido como “Encouraçado de Concreto”, essa curiosa fortificação tem o nome oficial de “Fort Drum”, em homenagem ao general Richard C. Drum. No local, a ilha El Fraile, na baía de Manila, já existia uma fortificação espanhola, antes de 1898. Depois da tomada das Filipinas pelos EUA, na curta guerra Hispano-Americana, em 1898, foram feitos planos para o estabelecimento de uma rede de fortificações, entre Bataan e Corrigidor. O forte a ser instalado na ilha El Fraile, poderosamente artilhado, deveria garantir o acesso sul da baía de Manilha. Entre 1909 e 1919, a ilha foi aplainada até pouco acima do nível do mar e coberta com uma espécie de cúpula de concreto, cujo formato lembrava um navio, com pouco menos de 110 metros de comprimento e 43 metros em seu ponto mais largo. O que seria a coberta principal ficava 12 metros acima da superfície do mar, e chegava a ter a espessura de 6 metros, em concreto e ferro. Instaladas sobre essa “coberta” estavam duas torres blindadas, cada uma delas montando dois canhões de 14 polegadas (350 mm), que constituíam a bateria principal. As baterias secundárias, instaladas nas muralhas laterais norte e sul (“bombordo” e “estibordo”), montavam quatro canhões de 6 polegadas (150 mm), em casamatas de aço. No que seria a “popa” do “navio”, os projetistas colocaram uma espécie de superestrutura e um “mastro”, onde estavam instaladas cabines de observação e levantamento de dados para controle de fogo. O apelido de “Encouraçado de Concreto” veio do fato de que, à distância, até mesmo marinheiros experientes costumavam confundir a instalação com um navio de guerra real. Em entre dezembro e abril de 1942, quando do ataque japonês contra as Filipinas, Fort Drum, cujos canhões eram usados para apoiar as tropas que lutavam em Bataan, foi alvo de cerca de um milhão de disparos, feitos por artilharia naval japonesa e bombas lançadas por aviões, sem que sua proteção fosse rompida. De fato, segundo o testemunho de membros da guarnição de quase 500 homens, aprisionados pelos japoneses em 6 de maio de 1942, a falta de fontes de água doce foi o que condenou a fortaleza. Em abril de 1945, elementos da 38a Divisão de Infantaria do Exército dos EUA empreenderam, juntamente com unidades da Marinha, uma campanha para anular Fort Drum, no qual se entrincheirava uma guarnição japonesa. Diversas ações se iniciaram no dia 11 e, pouco menos de uma semana depois, os norte-americanos voltavam a subir à bordo do “Encouraçado de Concreto”. 

Uma fortificação, posto que é segunda::Santa Cruz, Rio de Janeiro

stcruz_fort1

 

Embora suas origens remontem às tentativas de estabelecimento de franceses na baía de Guanabara, é certo que, em 1612, durante a União Ibérica, a bateria existente no local tenha sido melhorada, armando vinte peças de diversos calibres. Nessa época, passou a ser denominada Fortaleza de Santa Cruz da Barra. Também consta que, em 1614 ou 1615, D. Álvaro Silveira e Albuquerque, então governador da capitania do Rio de Janeiro, teria determinado a escavação de cinco celas na rocha viva. Essas celas foram usadas ao longo dos 200 anos seguintes como prisão militar. Em função da Questão Christie, foi reformada e modernizada, processo que só terminou em 1877. Em 1885 contava com  41 casamatas tipo Haxo, em dois níveis sobre o mar e uma bateria à barbeta, no nível superior. O armamento era relativamente moderno, contando com peças raiadas de antecarga.

Como quase todas as fortalezas brasileiras, embora ainda sob administração do Exército Brasileiro, atualmente é importante atração turística na Baía de Guanabara.