Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Drops para o fim de semana::

Um dos livros que maior curiosidade despertou no redator:: até hoje, dentre tudo o que já leu sobre a 2ª GM, foi “Eichmann em Jerusalém”, da filósofa alemã Hannah Arendt. Arendt é *figura muito conhecida no universo da Filosofia e da Ciência Política, com uma obra notável e uma militância destacada – que quase a colocou, em 1933, num campo de concentração. Em 1961 foi enviada a Israel pela revista norte-americana New Yorker, para cobrir o julgamento do tenente-coronel SS Karl Adolf Eichmann, arquicriminoso de guerra nazista. Da reportagem, publicada em cinco partes (se você lê inglês, uma resenha excelente aqui, das próprias páginas da revista mais bem-pensante e pedante dos EUA…), resultou o livro (o pós escrito, de autoria da própria Arendt deve ser lido aqui). Nesse texto, Arendt cunhou a expressão “banalidade do mal”, hoje bastante difundida entre diversas áreas das Ciências Humanas e Sociais. Esse conceito expressa a tese que propõe enxergar sob outra perspectiva as pessoas que cometem crimes indiscritíveis, daqueles que em muito superam as possibilidades de qualquer relés Al Capone ou Fernandinho Beira-Mar. É o caso dos planejadores e administradores da máquina industrial de genocídio dos nazistas, entre 1941 e 1945. Essas pessoas não podem ser consideradas simplesmente fanáticos ensandecidos: na maioria dos casos, são gente comum. Essa gente simplesmente aceitou a premissa de que o Estado, entidade impessoal e onipresente, “sabe o que faz”, e a partir daí se dispôs a participar e empenhar o melhor de suas competências em realizar a tarefa – sem chegar a perguntar, em momento algum, sobre o que estava fazendo. Burocratas, em todos os sentidos, nem piores nem melhores do que os outros burocratas. O trabalho de Arendt insere-se numa crítica à modernidade iluminista que deu co´os burros n´água em duas guerras mundiais, muitas ditaduras assassinas e “lutas pela liberdade” , que no conjunto mataram sabe-se lá quantas dezenas de milhões de pessoas. Arendt, atenta para essa ordem de questão, refletia sobre a responsabilidade coletiva, ou seja, a responsabilidade, que, para bem ou para mal, que a dinâmica histórica aponta. Dizendo de outra maneira – não existe quem esteja isento. Mas, por outro lado, responsabilidades não podem ser consideradas inteiramente individuais. 

Quando Napoleão, ao tomar o poder na França depois da Revolução, disse ‘Assumo a responsabilidade por tudo o que a França já fez, de são Luís ao Comitê de Segurança Pública’, ele estava apenas formulando um tanto enfaticamente um dos fatos básicos de toda a vida política. Em termos gerais, significa pouco mais que afirmar que toda geração, em virtude de ter nascido num continuum histórico, recebe a carga dos pecados dos pais assim como é abençoada com os feitos dos ancestrais. Mas esse tipo de responsabilidade não é o que estamos discutindo aqui; não é pessoal, e só num sentido metafórico alguém pode dizer que sente culpa por aquilo que não ele, mas seu pai ou seu povo fizeram. (Moralmente falando, não é menos errado sentir culpa sem ter feito alguma coisa específica do que sentir-se livre de culpa tendo feito efetivamente alguma coisa.) É bastante concebível que certas responsabilidades políticas entre nações possam algum dia ser julgadas em uma corte internacional; o que é inconcebível é que tal corte venha a ser um tribunal criminal que declare a culpa ou a inocência de indivíduos” (aqui, o redator:: fará o que nunca fez até agora, neste blogue: insistir para a leitura do texto indicado acima, do qual essa citação foi retirada).

O redator vê essa problemático sob dois ângulos, complementares. E não vamos falar apenas dos nazistas. Aqueles doze anos foram o reinado do mal absoluto, um curto-circuito moral que apagou consciências no mundo inteiro – para dizer o mínimo, não foram poucos os países e indivíduos que se deixaram fascinar pelo formigueiro de ordem e trabalho em que a Alemanha pareceu se transformar. É certo que, ao fim e ao cabo, a luta contra o fascismo acabou por mobilizar as melhores energias de parte considerável da humanidade, considerada por indivíduos e instituições. 

Por outro lado, o nazismo tem servido como uma espécie de justificativa moral para boa parte dos absurdos cometidos ao longo dos cinquenta anos seguintes. Afinal, fala-se muito em “liberdade”, “justiça”, “democracia”, “prosperidade”, justificativas para ações injustificáveis como o Vietnam, o Afeganistão, o Iraque. E, em nome desses “princípios”, os estados sentem-se autorizados a tudo.

Fala-se na “pátria”; no “país”; no “sistema”. Figuras abstratas que metaforicamente expressam os interesses e aspirações do que seria “o povo”, a coletividade do país. “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer por seu país.” Essa pela construção de retórica esconde uma construção lógica nem tão bela assim. Cada indivíduo pode ser mobilizado por razões que, no fim, ele talvez desconheça. “Eu recebia ordens, não me cabia discuti-las”, disse Eichmann. Militares, cientistas, burocratas, envolvidos  com questões eufemisticamente chamadas “de defesa”, atrás de escrivaninhas, painéis de controle ou computadores, em uniformes ou trajes civis, recebem ordens. Por trás da competência e da impessoalidade, são seres humanos comuns, com sentimentos comuns. Esperam a hora de ir para casa; preocupam-se com filhos, parentes e amigos; têm passatempos que pouco praticam. O excesso de trabalho e de responsabilidades são a tônica de suas tarefas profissionais e carreiras. E mais: usam, constantemente, a expressão “apenas faço meu trabalho”, independente de qual seja esse. Tudo muito natural. Tudo parte da vida.

Assim, essas pessoas, pilotos de jato lançando bombas de fragmentação ou napalm sobre cidades indefesas, cientistas civis planejando mísseis, burocratas coordenando informações militares, não são, de forma alguma, criaturas odientas ou odiosas. São apenas “parte da máquina”, “fazem seu melhor”, “não inventaram o sistema”. Pois bem: em meio a essa vida esmagadoramente comum – banal, enfim – se infiltra o mal.

Em 1984,  gente comum assim ajudou a fazer o “Relógio do Juízo Final” chegar a dois minutos da meia-noite. 

“Fazer coisas terríveis de forma organizada e sistemática baseia-se na ‘naturalização’. Esse é um processo no qual atos feios, degradantes, criminosos e indizíveis tornam-se rotina, e são aceitos como ‘a maneira que as coisas são feitas’. Existe uma forma de dividir e racionalizar o impensável, com a brutalização e morte cometidas por um grupo de indivíduos, outros administrando a máquina (manutenção, suprimentos), e outros mais produzindo equipamentos de matança, ou trabalhando na melhoria da tecnologia (melhores crematórios, napalm aperfeiçoado, bombas de fragmentação cujos fragmentos sejam mais difíceis de localizar dentro do corpo…). É função dos intelectuais militares e outros especialistas, bem como da grande imprensa, naturalizar o impensável para o público em geral. No final de sua vida, Herman Kahn gastou muito tempo tentando tornar palatável a guerra nuclear (On Thermonuclear War: Thinking About the Unthinkable), e este Doutor Strangelove fajuto teve boa aceitação na imprensa. Num excelente artigo intitulado “Normalizing the unthinkable”, publicado no ‘Boletim dos cientistas atomicos’ (Bulletin of Atomic Scientists) de março de 1984, Lisa Peattie descreveu como nos campos de morte nazistas  o trabalho era ‘naturalizado’ para aquelas pessoas aprisionadas a longo tempo, bem como para o pessoal administrativo: ‘Os encanadores da prisão mantinham em bom estado a bomba d´água no crematório e os eletricistas trabalhavam nas cercas eletrificadas. Os gerentes do campo mantinham padrões e processos bem ordenados. Os faxineiros que limpavam o pátio do crematório em Auschwitz tinham de deixá-lo perfeitamente esfregado.’ Peattie foca-se no paralelo entre rotinização nos campos de morte e na preparations para a guerra nuclear, na qual o ‘impensável’ é organizado e preparado, numa divisão de trabalho na qual participam pessoas em muitos níveis. A distância da execução ajuda a obscurecer a resposabilidade. ‘Adolph Eichmann era um funcionário com responsabilidades, deacordo com seu entendimento de responsabilidade. Para ele, estava claro que os líderes do Estado tinham estabelecido as políticas. Sua função era implementá-las, e, afortunadamente, matar qualquer um nunca foi parte de seu trabalho’.” (Se o leitor se safa em inglês, pode ler a íntegra, em inglês,  num desses preciosos blogues perdidos na rede. A palavra “naturalizar” foi usada, aos invés de “normalizar”, que é a do original, visto que essa última tem, em nossa língua, um significado um tanto diverso do que parece ter sido pretendido pelo autor.)

O texto não está focado propriamente na matança industrial executada pelos nazistas, com o beneplácito da população alemã, mas nas diversas matanças, industriais ou não, que tiveram lugar no século 20. Essas, embora sem alcançar o azimute daquela perpetrada pelos nazistas, cabem na linha da reflexão de Arendt: como distribuir a culpa por crimes impensáveis? Até que ponto o estado deve ser chamado a dividir com seus burocratas, a culpa pelo impensável?

Napoleão assumiu a responsabilidade pelas culpas e benefícios da França. Era uma metáfora, claro, e se “a França” foi responsabilizada moralmente pela Argélia, o general Jacques Massu, o carrasco de Argel, agente do estado francês, morreu altamente condecorado e tranquilamente reformado. O estado nazista pôde ser criminalizado por ter sido eliminado em uma guerra. Assim, seus servidores foram co-responsabilizados (e continuam sendo) pelo papel que cumpriam no contexto mais amplo: são considerados cúmplices conscientes, mesmo os que não apertaram nenhum gatilho. Sem a ocorrência de guerras convencionais ou revoluções, essa atribuição-distribuição de responsabilidades fica bem mais difícil. Somente em situações nas quais tal rompimento ocorre, é possível a responsabilização de que fala Arendt, “… [é] bastante concebível que certas responsabilidades políticas entre nações possam algum dia ser julgadas em uma corte internacional; o que é inconcebível é que tal corte venha a ser um tribunal criminal que declare a culpa ou a inocência de indivíduos…”

Se tal criminalização só é possível com Estados derrotados por condições externas ou internas (e mesmo assim, nem sempre), como chamá-los à responsabilidade?  Ninguém jamais tomará a iniciativa de pedir a criminalização do regime stalinista, ainda que a União Soviética tenha desaparecido; o estado sérvio pós-Tito jamais chegou a ser diretamente acusado pelo genocídio acontecido durante as guerras de agressão que promoveu contra a Croávia, Bósnia e Kosovo. De fato, houve responsabilização, por parte do Tribunal Penal Internacional, de gente como Slobodan Milošević, Radovan Karadzic e Ratko Mladic (dentre outros), responsabilizados como indivíduos (alguns chefes militares croatas também foram levados a julgamento). O mesmo aconteceu com o premiê de Ruanda e de alguns outros indivíduos, acusados de crimes contra a humanidade e genocídio, e cujas penas foi consideradas geralmente insuficientes. O governo ruandês instalado após a queda do regime responsável pelo massacre tratou de executar mais de duzentas pessoas consideradas culpadas, após julgamentos sumários. Uma boa pergunta é o que mais poderia ser feito, visto que o TPI não tem os poderes que, de fato, seriam necessários para que as nações de que fala Arendt, fossem responsabilizadas. Por outro lado, um personagem ruandês, Paul Rusesabagina, responsável por salvar as vidas de 1.268 pessoas, em Kigali (capital de Ruanda) e que se tornou uma espécie de consciência nacional, exilado na Bélgica, fez duras declarações tanto contra o regime no poder quanto contra as instituições internacionais.

Nações latino-americanas que passaram por ditaduras homicidas tomaram caminhos diversos. Na Argentina, leis que beneficiavam militares de patente inferior com a impunibilidade por crimes no exercício de função foram revogadas por determinação judicial em 2004, durante o governo de Néstor Kirchner; no Uruguai foi tomada a mesma decisão, em 2008, pelo do governo do presidente Tabaré Vázquez. O conceito de “obediência devida”, invocado para justificar as ações de militares, foi revogado, e em ambos os países, um grande debate ainda tem lugar em torno do tema. “Se o comando superior decide dissolver o Parlamento, uma ordem inconstitucional e ilegal, não deveria ser cumprida pelas Forças Armadas”, declarou o ministro da defesa do Uruguai, José Bayardi. Por outro lado, Brasil e Chile optaram por iniciativas mais brandas.

Temos que admitir que cada caso é um caso. Na Argentina, o Estado de excessão dissolveu-se após uma série de trapalhadas que culminaram com a humilhação nacional do país, a derrota nas Malvinas; no Uruguai, erros sucessivos de administração do governo militar e a oposição popular que daí decorreu levaram à uma transição em que os militares abandonaram o governo sem nenhuma condição prévia; no Brasil e no Chile, saídas negociadas com os regimes implicaram em acordos até hoje contestados. Cada caso é um caso, mas caracterizou esses regimes de excessão s a enorme quantidade de crimes de estado cometidos por seus agentes. Nunca houve nenhum movimento para internacional para responsabilizar esses governos, ou mesmo suas lideranças individuais. Pode-se alegar que foram lutas de facções políticas no contexto da Guerra Fria, e que os EUA e a URSS também deveriam ser responsabilizados por coisas como o Vietnam e o Afeganistão, onde muito mais gente morreu. A idéia da “banalidade do mal” aplica-se à todas as situações descritas acima, e nem todos os servidores dessas ditaduras eram um Sérgio Paranhos Fleury (que dispensa apresentações), um Alfredo Astiz ou um Manuel Contreras. Agentes como esses podem perfeitamente ser comparados aos nazistas, mas outros achavam, sinceramente, estar “apenas cumprindo ordens”. Para os nazistas, essa desculpa não valeu. Mas e para os outros? 

Voltaremos ao assunto, quando os oito ou nove leitores tiverem tido tempo para digerir essas questões::

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Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Drops para o fim de semana::

Drops extraídos do excelente livro Alemanha, 1945: Da guerra à paz, de Richard Bessel (Companhia das Letras, 2009, 483 p.). O Doutor Bessel é conhecido nos arraiais especializados como dos pesquisador dos temas “fim da guerra”  e “pós-guerra”, e não apenas “pesquisador” (isto o redator:: aqui também é…), mas “bom pesquisador”. O tema é particularmente interessante pois as análises militares frequentemente desviam a atenção, mesmo quando o leitor é especialista, do fato de que, em 8 de maio de 1945 a Europa – incluindo aí os vencedores (claro, com excessão dos EUA) – estava arrasada. Enormes problemas políticos, sociais, econômicos  e humanitários se colocaram diante das potências que ocuparam a Alemanha. Embora tenha sido a base sobre a qual construiu-se a Europa moderna, particularmente sua metade ocidental, esse período traumático tem merecido pouca atenção. O ponto alto da pesquisa de Bessel é exatamente chamar atenção para o fato de que, em 8 de maio, o povo alemão, sem governo, com a instituições civis em colapso e o país em ruínas, mergulhou nas trevas. Também é interessante observar que, dentre as maiores preocupações dos Aliados – que tinham plena consciência dos problemas e da urgência em enfrentá-los -, no topo estava  a assim chamada “desnazificação”, objetivo associado à extirpação do “militarismo prussiano”. O professor Bessel, que leciona História do Século Vinte na Universidade de York, reconhece (e com ele, este redator::) que a desmontagem das estruturas cuja origem era muito anterior ao surgimento do nazismo, e  sobre as quais cresceu a asquerosa besta fascista foi o mais importante e durador produto da vitória. Tudo bem que os acordos entre as potências urdidos meio às pressas e com cada um querendo garantir sua parte do botim nos legaram um mundo injusto, desigual e problemático. E cheio de guerras, quentes e frias. Mas pelo menos a humanidade que vive sobre ele pode pensar em cuidar da vida sem armar, periodicamente, uma matança em escala global. Vale à pena lembrar de vez em quando, que talvez devamos nossas existências ao período que se abriu em 9 de maio daquele ano::

O povo alemão combina, da maneira mais letal, as qualidades do guerreiro e do escravo. Não valorizam a liberdade, e o espetáculo da liberdade alheia lhes parece odioso. Sempre que se tornam fortes buscam uma presa, e seguem com disciplina férrea qualquer um que os lidere nessa busca. O cerne da Alemanha é a Prússia. Ali está a fonte da recorrente pestilência. … A tirania nazista e o militarismo prussianosão os dois principais elementos da vida alemã que precisam ser inteiramente destruídos se a Europa e o mundo quiserem evitar um terceiro conflito ainda mais devastados. (Winston Churchill em discurso na Câmara dos Comuns, 21 de setembro de 1943  – grifo do redator::

É nosso objetivo inflexível destruir o militarismo e o nazismo alemães e garantir que a Alemanha nunca mais perturbe a paz no mundo. Estamos decididos a desarmar e dispersar as forças armadas alemãs; dissolvel para sempre o Estado-Maior alemão, que reiteradamente encontrou meios de fazer ressurgir o militarismo alemão; remover e destruir todos os equipamentos militares alemães; eliminar ou controlar toda a indústria alemã que possa ser usada para a produção militar; exterminar o Partido Nazista, as leis, organizações e instituições nazistas; extirpar todas as influências nazistas e militaristas da vida cultural e econômica do povo alemão; e tomar outras medidas necessárias para a paz e aa segurança do mundo. Não é nosso objetivo destruir o povo da Alemanha, mas só quando o nazismo e o militarismo forem extirpados haverá esperança de vida descente para os alemães e um lugar para eles na política de boa vizinhança das nações. Declaração final da Conferência de Ialta (4-11 de fevereiro de 1945) — grifo do redator::

Convencidos que a causa principal da mais terrível das guerras está na natureza predatória da economia capitalista, do imperialismo do capital financeiro e da consequente depravação moral e política do lumpenproletariat e da pequena burguesia, exigimos que a crise social seja resolvida por intermédio de uma economia socialista. A Alemanha só poderá ser reconstruída economicamente numa base socialista. Construir ou destruir cidades como empreendimento capitalista é tão impossível quanto a reconstrução da indústria com o dinheiro dos contribuintes. Trecho do “Manifesto de Buchenwald”, redigido pelo ativista social-democrata doutor Herman Brill (1895-1959), depois chefe da administração civil da cidade de Weimar, instalado no cargo pelo Exército dos EUA em maio de 1945. Brill vagou de prisão nazista em prisão nazista entre 1938 e 1945, até ser libertado pelos norte-americanos do KZ (campo de concentração) Buchenwald, na Turíngia. Em julho, quando a administração da região foi entregue aos soviéticos, Brill não durou 15 dias no cargo. Opositor da administração comunista instalada a partir de então, acabou se  transferindo para a zona ocidental no fim do ano. Em 1948, foi um dos fundadores do reconstruído SPD (Soziademocratische Partei Deutschlands).

Os horrores do fascismo podem ter ficado para trás, mas temos de aguentar juntos suas consequências catastróficas também no futuro, evitar pacificamente os distúrbios que já se verificam. A educação para a democracia, para a paz e para a liberdade continua sendo a tarefa comum de uma frente unida antifascista tão ampla quanto possível. Não sabemos quais e quantos partidos surgirão na zona francesa. Mas seja a União Democrata-Cristã, sejam os liberais democratas, sejam socialistas ou comunistas, todos hão de reconhecer que a cooperação e a união são a mais importante força-motriz da reconstrução de nossa economia e de nosso novo Estado. [Esta é] a garantia do cumprimento das resoluções dos Aliados em Potsdam, na verdade da existência da nação alemã. Pois nunca mais a velha Alemanha nazista, militarista, imperialista e reacionária deverá ressurgir dos mortos; uma nova Alemanha de trabalho, de democracia forte e de paz honesta deve ser construída. O bloco livre antifascista, formado por todas as forças democráticas, será sempre seu firme alicerce. Trecho do “Manifesto” da Frente Antifascista de Kontantz, publicado pelo jornal Südkurier, da cidade de Konztantz, zona de ocupação francesa.

O Terceiro Reich está praticamente esquecido, todos se opõem a ele, “sempre” se opuseram; e as pessoas têm as idéias mais absurdas sobre o futuro. Victor Klemperer (1881-1960), intelectual mischilinge, no livro To the bitter end: The diaries of Victor Kemplerer 1942-1945.

Quado chegamos à cidade industrial de Halle no fim da tarde, as casas não destruídas estavam ocupadas por tropas de combate. Procuramos um lugar para passar a noite, mas não havia nada. Uma moça russa dirigiu-se a mim num alemão estropiado e perguntou onde estava o Kommandantur. Ela acabara de chegar à cidade, depois de fugir da fazenda onde trabalhava como escrava, e procurava desesperadamente alguém que pudesse ajudá-la. Não tinha nada, só o que levava nas costas, e seus olhos estavam úmidos de choro. Quero ir para casa“, disse, soluçando. Por favor, me ajude a ir para casa. Tenho apenas dezessete anos.” Saul Padover (1905-1981), historiador e professor universitário norte-americano, capitão do Exército do EUA destacado para o Departamento de Serviços Estratégicos (OSS, na sigla em inglês), , abril de 1945.

É um bom dia para pensar::

O historiador P. D. Smith escreveu um livro que foi recentemente traduzido para nosso português, e tem sido a leitura de cabeceira do redator nos últimos dois meses: Os homens do fim do mundo. Leitura um tanto pesada, mas esclarecedora aobre as relações entre guerra e ciência. E também sobre as relações quase sempre ambíguas dos cientistas com os assuntos da guerra e da política. Sugiro uma olhada cuidadosa não só aos sete leitores (contadinhos…), mas a todos quanto estejam realmentei interessados em entender um pouco mais sobre os nós de nossa modernidade. Em seguida, uma pequena amostra, selecionada de modo a também comemorar o fim da primeira matança industrial da história, que pudemos comemorar dois dias atrás – 11 de novembro, 1918::

Nenhum tiro foi disparado … um número considerável de russos envenenados pelo gás … jaziam deitados ou retorcidos, em condição lamentável. Senti-me profundamente envergonhado e perturbado. Afinal de contas, também sou culpado por essa tragédia. Otto Hahn, citado por P. D. Smith, p. 112.

Nunca esquecerei o que vi em Ypres, depois do ataque a gás. Homens caídos ao longo de toda a estrada entre Poperinghe e Ypres, exaustos, ofegantes, limpando um muco amarelo de suas bocas, com os rostos azuis e atormentados. Era horroroso, e era tão pouco o que podíamos fazer por eles. Nenhum texto de nenhum livro que eu tenha visto descreve, ou sequer chega perto, do horror daquelas cenas. Você saía daquele lugar com vontade de ir imediatamente ao encontro dos alemães para esganá-los, para que eles pagassem de algum modo pela sua ação diabólica. Melhor a morte súbita do que aquela agonia horrível. G. W. G. Hughes, tenente-coronel, Corpo Médico do Exército Britânico, citado por P. D. Smith, p. 117.

Como se fosse sob um mar verde/ Nos meus sonhos, diante de minha vista impotente/ Ele me procura, engasgado, soluçando e se afogando. Wilfred Owen (poeta-soldado, morto em ação na batalha do rio Sambre, 4 de março de 1918) Dulce et Decorum est, citado por P. D. Smith, p. 115.

Primeiro surpresa; em seguida, medo; depois, quando os primeiros flocos da nuvem os envolveram, deixando-os asfixiados e em agonia por não poder respirar – pânico. Os que conseguiam mover-se tratavam de escapar e de afastar-se, em geral em vão, da nuvem que os seguia inexoravelmente. Samuel Auld, químico, major do exército britânico, autor de um livro clássico sobre armas químicas, descrevendo um ataque com gás de cloro, na Frente Ocidental, em 1915, citado por P. D. Smith, p. 115.

É um bom dia para pensar::

É, talvez seja um bom dia para pensar sobre os incidentes da semana passada::

O medo faz parte da profissão. Se eu não tiver, posso morrer. Mas tem de ser controlado. O medo descontrolado faz você morrer também.

Cabo PM Daniel da Cruz, ao jornal O Globo, em 19 de outubro de 2009

Um menino novo, que entrou par a polícia almejando uma carreira bonita e que acaba assim, por descaso do governo. Existe verba para Olimpíadas, Copa. Agora, para equipar a polícia, dar vida digna aos que estão trabalhando para a segurança do povo, não. Eles dão helicóptero sem ser blindado e mandam o policial dar a cara para morrer. Até quando? A marginalidade está se sobrepondo.

Rosa Maria Barbosa, tia do soldado PM Edney Canazaro de Oliveira, morto na queda do helicóptero Fênix 3, do GAM/PMRJ 19 de outubro de 2009

Porque a polícia vem aqui? Não sei. Tem vez que a gente tá ali no larguinho, e eles aparecem. Tem vez que eles só dão uma volta e olham feio, mas tem vez que começam a atirar. E ainda dizem pra gente não correr, porque se correr é pior, porque só corre quem deve.

Evaldo M. S., morador do Morro do Juramento, no Rio de Janeiro, 2 de fevereiro de 2008

 

A população do Terceiro Mundo está se tornando a maior população urbana da história: no ano 2000 a população total dos países em desenvolvimento será quase o dobro da dos países industrializados, uma estimativa que será quatro vezes maior pelo ano 2025. Um grande número de pessoas migra da zona rural para os centros urbanos  em busca de uma melhor qualidade de vida  para encontrar piores condições. Incapazes financeiramente de sustentarem moradias urbanas, esses migrantes habitam favelas ou cidades de palha erguidas nos arredores  dos grandes centros, criando solo fértil para crises, conflitos, terrorismo, revolta e outras formas de violência política. Contribuindo também para a violência está a proliferação irrestrita de armas leves nos países em desenvolvimento. De acordo com os analistas Jennifer Taw e Bruce Hoffman, os futuros campos de morte dos países em desenvolvimento não serão as florestas impenetráveis em áreas montanhosas remotas, onde tradicionalmente as guerras de guerrilha têm ocorrido, mas em áreas edificadas super-povoadas, no interior ou em torno de centros urbanos, cujos moradores se tornam um inextrincável emaranhado no conflito rebeldes-governo.

Henry H. Shelton, general do Exército dos EUA – Forças de Operações Especiais – visão futura.

É um bom dia para pensar::

O redator já percebeu que a coluna Duas frases para para pensar:: e sua sucessora, Duas frases: é um bom dia para pensar:: estão dentre as seções mais acessadas aqui do blog-recurso de pesquisa. Não resta, pois, dúvida que os famosos poucos (os aqui de causa::, não os de Winston Churchill) são altamente intelectualizados e vivem a procurar meios de massagear os cérebros. Assim, em homenagem a todos, mais uma vez a coluna muda de formato. Primeiro, passa a ter o nome aí em cima; segundo, os textos vão agora aparecer em três formatos: curtinhos, de uma ou duas frases; curtos, de um parágrafo; longos, que podem ter vários parágrafos. Sempre com origem em alguma coisa interessante que o redator suponha que seja pertinente ao assunto e aos interesses dos poucos. E divirtam-se::

E, antes que esqueça: o redator está tentado a abrir outro blog/recurso de pesquisa: livros::de::causa:: com resenhas quinzenais sobre os livros e outros blogs que formam a substância do causa:: Gostaria de opiniões e sugestões dos poucos. Seria lido, ou seria perda de tempo?..::

É preciso compreender que o maior dos males que pode oprimir os povos civilizados deriva das guerras, mas certamente não tanto das guerras atuais e passadas quanto do armamento constante, crescente e infindável para as guerras futuras. Todos os poderes das naçõesestão dedicados a isso, assim como todos os frutos da cultura que possam ser empregados para construir uma cultura ainda mais forte. Immanuel Kant. Começo especulativo da história humana (1786)

… a ficção e a imaginação popular muitas vezes agem em conjunto para difundir espontaneamente uma idéia, a fim de poder fazê-la passar do domínio da fantasia ao da realidade. A antevisão dos escritores de ficção foi reconhecida após os ataques terroristas às Torres Gêmeas e ao Pentágono, em 11 de setembro. Depois desse golpe audacioso, o FBI visitou Hollywood para conhecer os possíveis cenários terroristas que os roteiristas já teriam concebido para a nova era da “guerra assimétrica”. P. D. Smith. Os homens do fim do mundo.O verdadeiro Dr. Fantástico e o sonho da arma total (2008). Pág. 98

Duas frases: o dia é bom para pensar::

Mais até do que duas frases. Já que falamos no assunto… Uma longa observação de um historiador da ciência, e dois poemas escritos muito tempo atrás, mas que, como outros monumentos da cultura universal, abrem a todos nós uma janela sobre ampla paisagem. Com todo o respeito e esperança, o redator conta que sejam, de alguma forma, úteis::

Vejo-te com a fronte cingida pela tiara e armado com a maça e o disco, mas mal posso distinguir-te pois és por toda parte a meu redor uma massa luminosa de energia, imensurável, resplandescente como o fogo e como o Sol. Das manifestações de Shiva no Universo – Décimo Canto da epopéia Mahâbhârata, compilada na forma atual entre os séculos 5 e 1 a.C, de que faz parte o Bhagavad-Gîtâ.

A teoria atômica triunfou. Seus oponentes, até então numerosos, convenceram-se e abandonaram um após outro a posição cética por tanto tempo legítima e, sem dúvida, útil… Mas alcançando essa vitória, vemos perder-se todo o caráter categórico e definitivo da teoria original. Os átomos deixam de ser uma entidade indivisível eterna, fixando um limite para o possível através de sua simplicidade irredutível. Jean Perrin (1990) citado por William R. Everdell em seu livro Os primeiros modernos: As origens do pensamento do século XX. (Ed. Record, 2000).

Eu olhei para o futuro, o mais distante possível,/ E tive a visão do mundo: um formidável porvir;/ Vi os céus cheios de naves, frotas de mágicas velas,/ Pilotos do pôr-do-sol lançando terríveis cargas;/ Do céu ca´´ia, entre gritos, um orvalho horripilante/ Procedente dessas naves, manobrando no ar azul;/ Entre os murmúrios do mundo, na brisa do vento Sul,/ Os estandartes dos povos mergulhavam na tormenta;/ Até que os tambores calassem e as bandeiras caíssem/ Ante um novo Parlamento: a Federação do Mundo./ Onde, afinal, o bom senso domará a agitação,/ E a Terra terá descanso com a paz universal. Lord Tennyson – Locksley Hall (1830)::  

Duas frases: o dia é bom para pensar::

“Duas frases” é uma das seções mais populares aqui do causa:: Andei meio sem paciência para pesquisar e levantar frases . Mas visto que o pessoal continua abrindo o posto, toda sexta-feira, vou voltar com as frases, mas sem um dia fixo – final, todo dia é bom para pensar. E para provar isso, vamos começar com quatro frases.

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Existem mais de 550 milhões de armas no mundo, uma para cada 12 habitantes. Nosso problema é como armar os outros onze. Yuri Orlov, comerciante de armas, personagem do filme “O senhor da guerra” (2005)

É a arma perfeita para que esses tolos europeus consigam matar-se uns aos outros mais rapidamente. Hiram Stevens Maxim, inventor da metralhadora, falando sobre sua invenção em 1884.

Estimativas grosseiras dão conta de um número total de 500 milhões de armas em circulação no mundo, sem controle, das quais 100 milhões são fuzis de assalto. Acredita-se que grande parte dessas armas concentram-se em três sub-regiões: Sudeste da Ásia, América Central e algumas partes da África (Sul da África, África Oriental e Chifre da África). Jayantha Dhapala, Sub-secretário Geral para Assuntos de Desarmamento da ONU (1998)