Não tinha pensado nisso::Quer entender o Islã moderno? Asabiyyah, então::

Não sei se é uma boa idéia (e o redator:: apela para essa figura apenas como exagero explicativo…), o mundo islâmico encontra-se, politicamente, num momento semelhante ao que passou a Europa, principalmente a Ocidental, no final da Idade Média, quando a Reforma protestante jogou lenha na fogueira da formação dos estados unificados politicamente. Essa trajetória acabou por resultar (nos séculos 18 e 19), nos estados nacionais. Desde os tempos dos debates com o Chesterton, o Mr X, o Dino, o Elias, e outros direitobas e esquerdobas, no velho e bom WebLog, o redator:: acreditava que, se dessem uns duzentos ou trezentos anos para o mundo islâmico, ele acabaria evoluindo, talvez não na direção da “democracia”, mas de alguma outra coisa… E desde então, causa:: tem procurado imaginar como será essa coisa… 

parte2/4Só que o ambiente hoje em dia não tem nada de parecido com o do século 15 na Cristandade, e os líderes políticos dessas formações são obrigados, ora a lutar contra, ora a fazer alianças com lideranças laicas e religiosas. Alguns são mais bem-sucedidos, como vimos (muito superficialmente…) por condições específicas; outros têm menos sucesso também por condições específicas. Não se trata de repressão pura e simples, como às vezes podemos crer.

De fato, talvez o momento histórico e político vivido pelas sociedades islâmicas (com a possível exceção do Irã, mas vamos deixar essa parte para depois…) possa ser explicado, como pretente o historiador Albert Hourani. Este faz uma interpretação monumental do pensamento do filósofo Ibn Khaldun (1332-1406), cuja teoria da “renovação cíclica” introduz o conceito de “asabiyyah“, que Hourani interpreta como “um espírito corporativo orientado para a obtenção e manutenção do poder”. Na teoria de Khaldoun, asabiyyah (uma definição bastante clara, mas, infelizmente em inglês, pode ser lida aqui) é a principal força que move a história. As primeiras sociedades humanas bem-sucedidas foram os povos das estepes e das montanhas, entre os quais a autoridade se formava a partir de laços de parentesco que estabeleciam a coesão social, um conceito chamado asabiyyah – “espírito de parentesco”. Os interesses do clã eram o interesse de cada um de seus membros (na biografia de Átila – um líder de povos das estepes –, escrita pelo bizantino Prisco, essa qualidade fica bem evidente). Um líder com asabiyyah estava em boas condições de fundar uma dinastia e poderia impor-se sobre a cidade, uma vez que os habitantes urbanos careciam dessa qualidade. Enquanto o domínio dinástico fosse próspero, gerando estabilidade e justiça, a vida da cidade floresceria. Mas ainda segundo Khaldun cada dinastia trazia consigo a semente de seu declínio, pois os governantes degeneravam em tiranos ou eram corrompidos pela vida fácil (as virtudes da vida simples dos líderes dos nômades das estepes também ficam evidentes na biografia de Átila). No tempo devido o poder acabaria passando para um novo grupo de governantes valentes, vigorosos, não-corrompidos, e vindos de alguma região periférica, onde a Fé no Islã ainda fosse pura e a Lei, aplicada.

De acordo com Hourani, a teoria de Khaldun ainda pode propiciar uma interessante base para a análise política das sociedades árabes modernas. Por sinal, agora os oito ou nove leitores devem ter entendido também porque o delirante redator:: fez a comparação delirante entre o mundo cristão do séculos 14 e 15 e o mundo árabe atual. Poderíamos mesmo falar em um choque cultural – também fazendo as devidas relativizações.   Lá, eram os príncipes norte-europeus, cortados em suas rendas pela Igreja e pelo regime de vassalagem, e mobilizados por um padre casado que dizia não ser pecado ler a Bíblia por conta própria; cá, foi o choque maciço sofrido pelo mundo muçulmano com a dominação européia e seu pensamento racional, que o aporrinhou a partir de 1830. Assim como a Cristandade defendeu-se como pôde diante do avanço do Protestantismo, o mundo islâmico também, tentando manter suas concepções culturais e políticas. O núcleo da sociedade islâmica manteve seus padrões sócio-culturais, adaptando ou simplesmente recusando as práticas ocidentais. O período pós-colonial encontrou formas híbridas, que moldaram os estados nacionais formados desde entre os meados da década de 1950 e o início dos anos 1960. Observou-se, desde então, pouca mudança na natureza geral da maioria dos regimes árabes: na Arábia Saudita, nos países do Golfo, na Jordânia, na Tunísia e no Marrocos, não houve mudança substancial por mais de uma geração; na Líbia, Síria e Iraque, onde os governantes originais foram apeados do poder, os grupos que os substituíram embora adotassem um discurso nacionalista e laico, não chegaram a propor mudanças estruturais, e mantiveram as práticas anteriores.

Mas haviam fatores de tensão que eram – e são – diversos. O contato com interesses econômicos e empresas ocidentais, que traziam recursos e tecnologias modernas indisponíveis nesses estados ampliou de forma exponencial as fontes de poder das elites tradicionais. Por outro lado, gerou instabilidade social em face da estrutura social tradicional e religiosa. Para essas tensões, as elites, laicas ou religiosas, não tinham resposta. O crescimento da população, em função da introdução, ainda que lenta e errática, de práticas alimentares e de saúde modernas, inclinou a balança demográfica para o lado da juventude; o ritmo da urbanização, provocado pela mudança econômica, a melhoria da educação e das comunicações, exigida pelas práticas administrativas herdadas dos governos coloniais despertaram grau de consciência sobre o local e o mundo até então desconhecidos. A cereja do bolo são os contínuos conflitos armados na região: do Saara ocidental à Palestina e ao Golfo Pérsico, a montagem de uma estrutura militar com base na tecnologia ocidental criou uma classe de funcionários públicos e militares relativamente educados e competentes, capaz de formular projetos alternativos para suas sociedades.

Qual a resposta oferecida à crise? Asabiyyah. A idéia de Khaldun/Hourani sugere que a estabilidade de um regime político dependia de uma combinação de três fatores. Era estável, primeiro, quando um grupo governante coeso conseguia ligar os interesses dos elementos poderosos da sociedade – inclusive os religiosos, que não podem ser ignorados –, aos seus (o que significa dizer “de seu clã”); segundo, quando essa aliança de interesses se expressasse numa idéia política, e, terceiro, que essa idéia política tornasse legítimo o poder dos governantes aos olhos de, no mínimo, boa parte da sociedade, ou seja, dos outros clãs.

Átila, o Huno, podia manter os líderes dos clãs de sua tribo sob suas vistas; Maomé comunicava as palavras do Profeta a seus parentes diretos, e esses repassavam aos próprios, que repassavam ao restante da tribo. Os regimes modernos não têm tal capacidade, porque suas alianças de clãs reúnem milhões de pessoas. Cria-se  instrumentos novos, como o culto à personalidade, a propaganda do regime e ubíquos serviços de informação e segurança. Paralelamente as formas novas, as tradicionais são mantidas, os conselhos de líderes de clã. Como a Loia Jirga, que se reúne periodicamente no Afeganistão e ao qual o “presidente” Hamid Karzai não ousa deixar de comparecer… Os líderes do passado tinham seus aliados políticos nas proximidades, e eram legitimados pela capacidade de cooptar as lideranças locais, através inclusive da ligação entre estado e religião, sendo que a religião levava a proposta política até as regiões mais remotas. Os líderes modernos mesclam formas novas e antigas, de forma a estender suas capacidade políticas.

Na maioria dos países, o poder do governo estende-se agora às partes mais remotas do interior, onde seu domínio era outrora, fraco, quase ignorado ou totalmente dependente de líderes locais. O que não significa que, na moderna política árabe, a asabiyyah do grupo governante não seja fator talvez crucial na aquisição e manutenção do poder. 

Por exemplo, Sadam Hussein. Ele deveria ter caído após o fracasso militar na guerra contra o Irã, entre 1980 a 1988. Não caiu, e, ao contrário, reforçou seu poder. A humilhação nacional imposta pela derrota diante da coalizão internacional, que resultou na Desert Storm, em 1991, comprometeu até mesmo a soberania do país sobre o que seria o território nacional. A imposição de zonas de interdição policiadas por forças americanas e britânicas, e do estabelecimento no nordeste do Iraque, do governo regional autônomo curdo, sob proteção da coalizão, entretanto, não chegou a abalar-lhe a posição. Ao contrário. A oposição iraquiana não foi capaz de formar um governo, nem mesmo na esteira dos tanques aliados. Onde estava a fonte da capacidade de Sadam em sustentar-se no poder? Asabiyyah. Seu clã, estabelecido na região de Tikrit, ao norte de Bagdá, controlava uma ampla rede de clãs e tribos com origens nessa área. Nessa região, de maioria sunita, era recrutada parte significativa dos oficiais e funcionários do regime defenestrado pelo golpe militar que levou Sadam ao poder, em 1968. Embora aderindo formalmente ao nacionalismo árabe-secular do baathismo, a asabiyyah do grupo revelou-se mais duradoura, por mais eficaz, do que sua orientação política. Manipulando lealdades e rivalidades dos clãs, Sadam montou um formidável sistema baseado não só na coerção e no medo, mas principalmente no clientelismo.

A distribuição das terras dos oponentes apeados do poder e os gastos da receita do petróleo, promovidos pelo ditador, estão no centro dessa teia de relações. Num estado moderno como o implantado no Iraque, desde 1920, numerosos outros benefícios podem ser mobilizados, além de petróleo e terras. No caso do Iraque baathista, foi montada uma estrutura civil e militar movida não apenas, e nem mesmo principalmente, pela preocupação geral de melhorar as condições econômicas do país, mas pela preocupação de criar redes de clientelismo que reforçariam a posição daqueles que estavam no poder.

A Guarda Republicana, dominada por gente de Tikrit, preservada por Sadam durante e após Desert Storm era um exemplo da asabiyyah de seu clã. Jamais chegou a ser afetada pelo espírito de revolta que se espalhou pelo país depois de 1991. Ao contrário, a prática sunita de seus integrantes atuou como fator a mais da ferocidade contra os levantes dos curdos, no norte, e dos xiitas na região meridional de Basra, Najaf e Karbala, de maioria xiita. Os mullahs sunitas convocavam os habitantes da região de Bagdá, que incluía Tikrit, a resistir contra o infiel, como tinham feito na guerra contra o Irã, conclamando a resistência contra os persas. A asabiyyah de Sadam permaneceu intocada, visto que ele usava os recursos obtidos com o contrabando de petróleo para manter privilégios de seus aliados laicos e também dos religiosos sunitas. Os interesses políticos nacionalistas e religiosos sunnis podem vir, inclusive, a explicar a simpatia observada na Jordânia e na Palestina, para onde Sadam enviava quantidades substanciais de dinheiro. Foi preciso uma operação política de desdobramentos imprevisíveis, em que foram falsificadas informações pelos serviços secretos norte-americanos e britânicos, com a conivência das lideranças desses países, para inventar uma desculpa para a operação militar que afinal removeu Sadam do poder. Funcionou para colocar os exércitos aliados lá, mas o líder da coalizão “pela liberdade” e seu principal aliado, perderam a paz, na medida em que, removido Sadam, afragilidade institucional do Iraque tornou-se evidente.

E a rede de asabiyyah manteve-se, intocada, no centro da teia de relações clientelistas que predomina na maior parte do mundo árabe-muçulmano. Outro exemplo acabado dessa eficácia – e de como o Ocidente não tem meios de lidar com ela – é a Arábia Saudita e seus “proprietários”, a família nobre al´Saud. Tendo conquistado o poder na década de 1920, com a conivência dos britânicos,  a família al Saud talvez nos proporcione lição ainda mais exemplar de como, no mundo muçulmano, a banda toca por outro compasso. Bom, a conversa sobre os al Saud e suas peripécias, que incluem um diabrete chamado Osama bin Laden, fica para depois… Morram de curiosidade…::

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Não tinha pensado nisso: planejamento estratégico fundamentalista::

O Oriente Médio não sai do foco. Ainda que não pretendamos pensar no caso (o redator:: bem que tentou, por bastante tempo…), aquele pedaço de terra volta ao campo de atençao. De fato, é difícil não pensar nele: nossa civilização nasceu lá, de fato, quando o povo judeu inventou o monoteísmo, depois um grupo de dissidentes (sempre eles) resolveu repensar a relação com o Céu; tempos depois, um judeu que recolhia impostos para os imperialistas da época descobriu que talvez fosse possível conciliar o inconciliável e, para completar a salada, passados mais alguns séculos, um jovem guardador de camelos saiu por aí (ou por lá, melhor dizendo) tentando – e conseguindo – convencer as pessoas que conversava com o único Deus.  E desde então, a humanidade, que adora pegar em armas, e o faz por qualquer causa::, não parou mais de se matar em nome dessas idéias.Examinemos algumas dessas questões – em partes, é claro, pois os ocupados frequentadores de causa:: não têm tempo para ler dez páginas de delírios do redator::

parte1/4É claro que o resumo acima é uma visão simplista que poderia ser entitulada “origens história mundial do ponto de vista das religiões”. Foi, entretanto, suficiente para colocar no espírito do redator:: uma idéia que, embora parecesse, de início, estapafúrdia, acabou mostrando-se bastante razoável: o fundamentalismo religioso pode ser fundamento de uma análise estratégica? 

Certamente foi, na época da expansão do Islã, entre o meio e o fim da Idade Média. Foi a época em que exércitos e navios saídos do Oriente Médio e da Turquia levaram as palavras do Profeta (aquele jovem guardador de camelos…) ao mundo, e legiões de novos fiéis foram convencidos – pelo brilho do Livro ou pelo excelente aço sarraceno. Posteriormente, a maioria das guerras européias da Idade Moderna, quando foram lançados alguns dos mais duradouros fundamentos da arte militar, tiveram parte de suas motivações baseadas na idéia de reformar a Cristandade, de modo a levar os homens de volta ao caminho de Deus – ou matar os que não concordassem em trilhá-lo. A mesma trajetória política que levou a 150 anos de guerras religiosas produziu, na Europa do século 18, a consolidação da separação entre Estado e religião. A idéia de que o bispo de Roma, chefe mundial da Igreja Católica, seria também preposto de um grande ditador onipresente e onisciente acabou relegada aos limites de uma praça-estado situada no meio de Roma. A direção dos estados – e de suas guerras – foi colocada sob a responsabilidade das lideranças formadas nesse espírito. Em prazo relativamente curto, essas lideranças empalmaram o poder de levar cidadãos, ou seja, todos aqueles vivendo sob um proclamado (e nem sempre praticado) “império da lei”, ao campo de batalha, quisessem estes ou não. A grande estratégia, ou seja, o modo como, modernamente, as nações mobilizam seus recursos de modo a alcançar seus objetivos políticos, deixou de levar a religião em consideração, embora esta continue a ser importante fator de mobilização ideológica.

Volta o redator:: ao ponto, para consideração dos oito ou nove leitores que aqui aparecem de vez em quando: a religião pode ser considerada aspecto de planejamento estratégico? Certamente, se a considerarmos fator de mobilização. Nos estados laicos criados pelo racionalismo e pelas revoluções burguesas do século 18, e que se consolidaram no século seguinte, a religião ainda hoje é fator de aglutinação das sociedades, em caso de guerra, real ou virtual. Não passamos 50 anos ouvindo que um dos motivos da Guerra Fria foi o ateísmo dos comunistas? Os soldados dos EUA não eram apresentados como a primeira linha de defesa da “civilização cristã-ocidental”? Pergunte a um cidadão médio norte-americano se ele não acredita que um dos motivos da superioridade conquistada pelos EUA é a disposição para o trabalho missionário, de “trazer almas para o Reino de Deus”. Os missonários sempre foram parte importante das frentes de expansão dos Estados ocidentais. Desde a “Companhia de Jesus”, criada no século 16 e estruturada em moldes militares (mas sem portar armas que não fossem a Cruz e a Bíblia), até os pregadores protestantes que percorriam a África na retaguarda (e – sejamos justos – muitas vezes na vanguarda) do exército britânico, a difusão da palavra de Deus abriu a porta para a penetração do “estilo ocidental”, seja ele lá qual for.

Embora se possa observar forte sinergia entre exércitos de missionários e de militares, na atualidade eles não se misturam, e isso é parte do “estilo ocidental”. Em última análise, prevalece a lei dos homens – ou do estado, por consenso dos cidadãos – sobre a lei de Deus. A lei do estado não pode ser desobedecida, sob pena de punição, enquanto a de Deus é seguida por decisão de “fôro íntimo”, como gostam de dizer os advogados. Ela não é fundamento para a imposição de obrigações civis, como a convocação militar. É, entretanto, fundamento para a “obrigação moral” de expandir a Palavra e lutar contra o ateísmo, por exemplo. Ou pela paz, ainda que a tiros. Por outro lado, a sinergia entre o “fôro civil” e o “fôro íntimo” observa-se quando o cidadão é chamado a lutar por seu modo de vida, que inclui a liberdade de praticar uma religião ou (pelo menos em teoria) o respeito à opção religiosa alheia. Boa parte da mobilização para a Primeira Guerra do Golfo (para não irmos muito longe no tempo) foi feita dentro de pequenos templos protestantes, nas cidadezinhas dos EUA. O próprio George Bush Sr. frequentou alguns cultos e falou neles sobre a necessidade de lutar pela liberdade no Oriente Médio.

Esse é o estilo ocidental. A idéia de um “reino” abrangente, governado pela lei e povoado por cidadãos “nascidos iguais” e governados com justiça, guarda fortes continuidade com as idéias cristãs surgidas no Oriente Médio. Sabemos, entretanto, que existem atualmente uma penca de estados estruturados em torno da lei de Deus: falamos, claro, dos estados islâmicos. A questão é como se dá a estruturação desses estados: o “Livro” (al´Koram) está na base do que chamaríamos de “sociedade civil” e regula as relações entre cidadãos. Se isso é bom ou ruim, não cabe ao redator:: (que não tem a menor vocação para Ali Kamel) estabelecer – sugere-se perguntar a um cidadão da República Islãmica do Iran, ou do Reino Saudita. 

É notável que, nos últimos setenta anos, desde meados do século passado, movimentos políticos laicos tentaram liderar um redesenho do estado. Os partidos nacionalistas nos estados islãmicos, dos quais o nacionalismo iraniano, os diversos “baathismos” e o “Fatah” são bons exemplos, talvez tenham fracassado em função de certa incapacidade de limitar a presença da religião e de suas lideranças na vida civil. Fracasso compreensível: a religião, nesses lugares, molda as instituições de um modo que, vivendo em sociedades laicas, torna-se difícil conceber. O sistema escolar, por exemplo, é totalmente organizado e ordenado por agentes religiosos. O exemplo mais acabado disto são a “madrassas” sunitas, escolas religiosas cuja função é ensinar a Palavra do Profeta para a vida e formar sábios (um excelente texto sobre o tema, no falecido Weblog de Pedro Dória). Madrassas formam Fiéis, homens dispostos a seguir com retidão o caminho da Fé – ou, como dizem eles, do “Coração” (tradução quase literal da palavra árabe Islan). Um desses princípios e a expansão da Fé – o que é conhecido como Jihad. O seguidor de Deus é um jihadista, ainda que nem saiba distinguir entre o cano e a coronha de um AK47. Entretanto, em alguns lugares, como o Paquistão, as madrassas formam ativistas que levam a religião como bandeira. Como o Islã é, antes de tudo, a luta pela Fé, essa luta começa no interior dos próprios estados islãmicos, de modo a não permitir qualquer desvio dos Fiéis, principalmente quando esses Fiéis meio perdidos estejam no governo e queiram adotar um modo de vida que não se paute pela Lei verdadeira – aquela do “Livro”.

Ou seja: os estados islâmicos são formas ainda híbridas entre uma estrutura política formada por séculos de organização da vida cotidiana e das relações sociais com base na religião, e um modelo de certa forma copiado a partir das relações assimétricas com estados ocidentais, estabelecidas no século 19. Após a 1ª GM, com a substituição do Império Otomano por mandatos coloniais europeus, abriu-se o caminho para a formação de partidos nacionalistas ao estilo europeu, que logo se mostraram uma dor de cabeça para as potências mandatárias. Também foi nesse período que se formaram monarquias que aceitaram dividir o poder com os religiosos, desde que estes não se metessem nos assuntos de estado. Exemplos disso são a Arábia Saudita, a Jordânia e o Iraque. De modo algo diferente, também a monarquia marroquina do rei Hassan II, menos falado porque bem mais comportado e sem petróleo (como Arábia Saudita e Iraque) ou posição estratégica chave (como a Jordânia).

Mesmo ditaduras laicas extremamente violentas como a Síria, a Líbia ou – last but not least – o Iraque baathista, são produto desse hibridismo.  Nesses casos, o modo de enfrentar a religião foi fazer acordos, por um lado, e encanar os dissidentes religiosos, por outro, o que significou dar vantagens e tomar funções. No caso da Líbia, o projeto foi mais bem-sucedido que no Iraque, visto que na lá – como na Argélia francesa, outro caso de “sucesso” – os colonizadores europeus conseguiram formar um núcleo consistente de sociedade europeizada nas regiões urbanizadas da costa mediterrânica. Nesses estados, após a independência (muito menos problemática na Líbia – colônia italiana – do que na Argélia – colônia francesa), assim como na Síria (colônia francesa fortemente influênciada pelos ingleses), os grupos políticos que receberam ou tomaram o poder após as independências, herdaram esses núcleos ocidentalizados, dentre os quais se encontrava o exército e boa parte do serviço público.  Na Líbia, Muammar el Ghadafi, líder (cuja a ambição secreta deve de ser fundar um fã-clube de Cauby Peixoto) produzido em uma disputa política de facções, após tomar o poder, manteve certos privilégios dos religiosos, mas ao mesmo tempo os reprimiu fortemente. Paralelamente, “ocidentalizou” a vida social (trata-se do estado árabe onde a religião menos influencia a vida cotidiana) e transformou o Ocidente em espantalho. Ghadafi era um nacionalista de origem militar, em um exército formado ao estilo ocidental – sem mullahs dentro dos quarteis ou califas no comando – coisa que o coronel Gamal ab´del Nasser também era. Nasser tentou, bem antes, “ocidentalizar” o Egito, só que com sucesso relativo, já que precisava dos religiosos para enfrentar Israel. E, pior, sempre que enfrentava, perdia, o que fornecia mais munição para o discurso religiosos, que afirmavam ser a derrota produto do desvio do caminho da Fé.

Outro ponto que merece atenção é o fato de que essas ditaduras nacionalistas laicas (ou quase) utilizaram-se da disputa ampla da Guerra Fria para consolidarem suas posições. Isso era mais fácil para aquelas que dispusessem de algum trunfo – o petróleo, no caso de algumas, a posição estratégica, em caso de outras (a União Soviética se interessava mais por posição estratégica do que por riquezas minerais, o que levou à aposta na parceria com o Egito e a Síria). De qualquer maneira, é inegável que Nasser, seu sucessor Anwar el Sadat, Gadafi, o sírio Haffez al Assad e claro, Sadam Hussein tentaram, até certo ponto um meio nacionalista e socialista que criou grandes tensões internas, solucionadas pela via da repressão, por um lado, e de concessões à população, geralmente em detrimento da religião – o que acabava por criar mais tensão. O sucessor de Nasser, general Sadat, percebeu mais cedo que a parceria com a União Soviética criava um problema a mais para a sobrevivência do regime, e acabou optando por negociações em separado com os EUA, sobre a questão de Israel. Isso criou novos problemas: por um lado, uma fratura no bloco nacionalista laico (a Síria e a Líbia quase chegaram à guerra contra o país) e, por outro, problemas internos com os religiosos, que viam na aceitação Israel uma traição que colocava as lideranças como passíveis de condenação. Para esses movimentos não importa onde está o inimigo, se dentro ou fora. Na visão religiosa, o Islã funciona como uma espécie de duplo terreno e imperfeito de uma formação celestial, governada pela Lei (Sharia). Este é o conjunto de normas que o Fiel deve observar, elaborado por estudiosos, sobre questões do cotidiano. A base dessas interpretações é o Corão, em primeiro lugar, e os Hadith (os “bons ditos”, conjunto de observações do Profeta sobre assuntos diversos, e que incluem sua biografia). A comunidade do Islã é formada pelo conjunto dos Fiéis, e não propriamente por cidadãos de estados nacionais. A Lei deve ser, pois, observada inclusive pelos governantes, que, se a transgridem, desautorizam a si mesmos diante de Deus – ou seja, da comunidade do Islã::

Datas relevantes de causa::O Irã dos aiatolás se torna balzaquiano::

O blogue das boas causas anda meio devagar, em função das muitas atividades que o redator cumpre, e que por vezes cobram seu preço, em tempo e concentração. Entretanto, não o blogue não podia deixar de acender umas velinhas (31, mais exatamente) para a passagem, em Primeiro de Fevereiro, de mais um aniversário da Revolução Islâmica no Irã. De fato, é uma data que também deveria ser comemorada nos EUA, mais particularmente nos salões de festas secretos da CIA e da menos votada Agência de Segurança Nacional (NSA, em inglês – responsável pelo monitoramento de comunicações eletrônicas e operações de inteligência eletrônica – ELINT/SIGINT).  Uma festa dessas certamente reuniria um monte de gente, viva e morta: Jimmy Carter e Zbigniew Brzezinski, Richard Helms (diretor da CIA nos governos Johnson e Nixon), Henry Kissinger, Saddam Hussein, os executivos das companhias de petróleo, e por aí vai.  É interessante observar que, se o mundo for justo (e sabemos que é…), o aiatolá Ruhollah Khomeini, sua trupe de radicais e até mesmo os atuais espantalhos-mores iranianos, o aiatolá Khamenei e o presidente iraniano Ahmedinejad também estariam lá, comendo bolo. Entretanto, como essa festa não vai acontecer, causa:: catou na Internet um excelente artigo publicado no blogue do jornalista especializado em relações internacionais Argemiro Ferreira. O blogue de Ferreira é parada obrigatória deste humilde redator, pela qualidade das análises que apresenta. Passemos à leitura.

O artigo começa interessante já no título – BLOWBACK. Este termo designa, em inglês, a ação do gás gerado pela detonação da carga de propelente de um cartucho ou foguete, que provoca o recuo da arma, no caso de um tiro, ou uma chama de expansão rapidíssima e extremamente quente, no caso de um foguete. Os oito leitores de causa:: talvez lembrem daquela língua de fogo que se sucede ao disparo de um RPG7/7B. Embora nunca tenha pensado no assunto, o redator imagina se a expressão também não teria o significado da nossa “tiro no pé”. Se não tem, deveria ter. É a mais adequada definição para os resultados da atuação norte-americana naquelas plagas.

Posteriormente, causa:: tecerá alguns comentários que são mais da praia que frequenta – a análise militar. Argemiro comete alguns deslizes, nesse campo, mas que nem chegam a arranhar a blindagem de sua erudição::

A Guerra dos Seis Dias::O início dos problemas?::Que vitória foi essa, afinal?::

parte2Até hoje é questão de debate entre historiadores e cientistas políticos, se a guerra era mesmo necessária. De fato, analistas israelenses admitem que, desde 1956, os judeus foram responsáveis por 80% dos incidentes de fronteira com a Síria (embora aleguem o contrário) e também que o serviço de informações de Israel, o Mossad sabiam que Nasser não tinha condições políticas nem militares de se lançar numa guerra. Embora o historiador israelense Tom Segev (autor de um ótimo estudo sobre a sociedade israelense do pós-guerra: Israel in 1967. And the land changed its visage) admita essas possibilidades, alega em seu livro que “os israelenses estavam convencidos que ele queria destruir Israel”. Era o que aparecia na imprensa estrangeira, alimentada pela Agência Judaica. Mas até então, a política agressiva de Israel tinha sido contraproducente, em termos de resultados.

Seguev também alega que a agressividade árabe fortaleceu, no governo de Israel, a idéia de uma “defesa preventiva”, baseada em dois princípios: ataques aéreos preemptivos e movimentos rápidos de tropas blindadas e motorizadas, criando zonas de defesa avançadas. Estrategicamente, a guerra foi um sucesso estrondoso: Israel atingiu todos os objetivos, e ainda se viu em posição de grande vantagem estratégica. A imagem de Davi derrotando Golias atraiu alguma simpatia para a nação judaica, da opinião pública internacional, e particularmente nos EUA.

Em seu livro, Segev lista o que considera as principais consequências da guerra: os judeus orientais, fortemente marginalizados na sociedade israelense, mas parte importante das FDI, tiveram seu papel reconhecido e foram plenamente integrados. Muitos desses israelenses, entretanto, acabaram reforçando o o nacionalismo de direita, que, antes minoritário, passou a ser visto como legítimo por boa parte da população. A ascensão política de Menachem Begin (em certa feita chamado de “nazista” por ben Gurion) começou então). Os israelenses descobriram os palestinos; Israel, até então um estado fundamentalmente laico, se abriu ao judaísmo, a religião.

Entretanto, a vitória parece ter desorientado mesmo a população de Israel. Nos anos seguintes, começou a ser observado um resultado curioso: uma parcela considerável, não apenas dos habitantes de lá, como dos judeus por todo o mundo, viu a vitória-relâmpago como um sinal de que o povo de Deus estava finalmente reconquistando a simpatia do Criador.

De início, parece que nem todos os os israelenses perderam a cabeça: depois da vitória, o general Moshe Dayan, foi à Mesquita Dourada de Jerusalém e tirou os sapatos, cumprindo o ritual muçulmano em sinal de respeito. Em junho de 1967, no início das operações militares, Dayan tinha dito que aquela não era “uma guerra de conquista”. O general, ao que parece, tinha consciência de que uma disputa militar e política não poderia se transformar numa guerra religiosa, visto que esta seria muito mais difícil de resolver. Essa idéia, aparentemente, não se sustentou por muito tempo e, já no fim daquele ano, o governo israelense tinha abandonado o projeto de devolução integral dos territórios árabes ocupados.
 
 A interpretação da vitória estimulou o judaísmo, gerando uma forma local de fundamentalismo. Seguev observa que, logo depois da guerra, a maioria dos israelenses acreditava que “a ocupação seria apenas temporária”, mas o próprio governo passou a estimular a idéia de uma guerra perpétua sem solução diplomática possível. Essa idéia fortaleceu setores de direita, que, por volta dos anos 1970, começaram a se entender com o movimento fundamentalista que, a partir dos EUA, ganhava força. Um dos melhores exemplos dessa ascensão foi o movimento do rabino ortodoxo Meir Kahane, que se tornou, tanto nos EUA quanto em Israel, conhecido por promover a idéia de uma “Grande Israel” que seria a expressão política da Israel Bíblica. O movimento de Kahane não era, entretanto, nem o único nem o mais barulhento. Movimentos nacionalistas deram força para o radicalismo que se recusava a discutir a devolução de Jerusalem, e passaram a falar na cidade unificada como capital do estado judeu.Esses movimentos condenam o acordo de paz entre palestinos e israelenses, que prevê a devolução dos territórios conquistados por Israel. Para eles, a entrega de terras bíblicas, como Hebron, Jericó e Nablus, na Cisjordânia, é uma afronta à vontade de Deus. Ela contraria a aspiração judaica do retorno a uma época similar à do do rei Davi, que por volta de 1000 a.C. pacificou a região e transformou Jerusalém em centro religioso. A efervescência dessas idéias levou ao assassinato, em 1995, do primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin, mentor do acordo de paz ao lado de Yasser Arafat. O culpado, Yigal Amir, era membro de um grupo fundamentalista, o Eyal, e justifica sua atitude afirmando que Rabin era um traidor do ideal judaico por devolver regiões ocupadas aos palestinos. 
Seguev considera que “o sionismo deu um tiro no pé quando o governo decidiu anexar o setor oriental de Jerusalém, sem consultar um jurista. Com este gesto, impediu qualquer possibilidade de paz. Seguiu-se a colonização”. Segev rejeita o argumento do historiador israelense Benny Morris, de lamentar hoje que Israel não tenha “concluído a tarefa”, expulsando os palestinos da Cisjordânia em 1967: “Essa questão é moralmente ilegítima… Seria um crime contra a humanidade”. Seguev também levanta a questão de que o sionismo usou a religião como argumento nacionalista de modo a consolidar a própria posição, e o fizeram antes de que árabes e palestinos descobrissem essa retórica. De toda forma, Morris tem contribuído para a revisão (ver a página 45 e as seguintes desse recurso de pesquisa, em espanhol) dos mitos fundadores do estado de Israel. Essa linha provavelmente ainda dará muito o que falar, agora que os historiadores dessa corrente – Avi Shlaim, Ilan Pappé, Simcha Flapan, além de Morris e Seguev,  promovem uma reescrita da história, se tornam mais conhecidos. Quem sabe, qualquer hora dessas, a Guerra dos Seis Dias também acabará revista, não como vitória militar, mas como origem dos problemas atuais da região::

A estratégia da guerra pós-clausewitziana::

(NYTimes.com)A jihad em imagens(15 de outubro)

Quando Osama Bin Laden divulgou mensagem de vídeo para o povo americano, mês passado, um jovem entusiasta da jihad ajudou a espalhar o conteúdo. “A América precisa ouvir o xeque Usaamah e levar sua mensagem a sério”, escreveu ele em seu blog.

O blogueiro é Samir Khan, um americano de 21 anos, morador na Carolina do Norte, onde montou uma espécie estação distribuidora para produções de grupos islâmicos radicais. Nos últimos dias, a estação de Samir distribuiu as “alegres notícias” sobre a morte de 31 soldados argelinos por um grupo radical do norte da África. Também pode ser baixado um tratado acadêmico que defende a jihad violenta, devidamente traduzido para o inglês. Também estão lá centenas de links para sites violentos contendo imagens da insurgência no Iraque. Nascido na Arábia Saudita e criado em Queens, Nova Iorque, Khan é um soldado do que a al Qaeda chama “mídia jihadista”.

Não há nada que sugira que Khan esteja agindo de forma coordenada com líderes radicais ou infringindo qualquer lei. Ele é parte de um grupo crescente de operadores de mídia que estão transmitindo a mensagem da al Qaeda e de outros grupos, uma mensagem que se dirige cada vez mais ao publico ocidental.

Especialistas em terrorismo da Academia Militar dos Estados Unidos dizem que há cerca de cem sites em inglês, que oferecem a visão de radicais islâmicos. Esses parecem estar criando um canal com jovens muçulmanos americanos e europeus ao jogarem com o ódio que a guerra no Iraque desperta e com a imagem de um Islã sob ataque.

Os textos originais árabes, longos e tediosos para os padrões ocidentais, são retrabalhados, usando técnicas de publicidade. Folhetos de recrutamento são distribuídos e encontra-se até novelas online, todas com temas sobre a jihad. Sites como o YouTube também tem servido como veículo para esse matarial.

A al Qaeda usa a Internet há anos, mas quem acompanha as novas produções concorda que o material melhorou muito em qualidade, e se tornou atraente para um público acostumado com a rapidez da Internet.

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Segundo Rohan Gunaratna, pesquisador-chefe do Centro Internacional de Pesquisa sobre Violência Política e Terrorismo da Universidade Técnica Nanyang, de Singapura, “a al Qaeda é uma organização essencialmente moderna”. É uma declaração surpreendente, embora saibamos que a organização já demonstrou grande habilidade no uso de meios de comunicação de massa e do sistema financeiro internacional da era da globalização. Mas, segundo Gunaratna, não são essas habilidades que demonstram o caráter moderno da al Qaeda, mas o fato de que a organização demonstrou entender perfeitamente que as guerras do século XXI tem na disseminação de imagens espetaculares em tempo real uma estratégia central. No ataque às Torres Gêmeas, a organização de Bin Laden mostrou uma capacidade surpreendente de conceber o uso da televisão via satélite para mobilizar o apoio dos países muçulmanos.

A modernidade da al Qaeda também fica patente conforme sua organização se mostra distante da estrutura centralizada e burocrática dos partidos revolucionários do século XX, e mais próxima da organização celular dos cartéis de distribuição de drogas e das redes planas das empresas virtuais. A al Qaeda assemelha-se à uma multinacional, sugere Gunaratna. Surgida na fase final da Guerra Fria, financiada pelos sauditas e com beneplácito dos EUA e dos governos europeus, terminada a guerra contra os soviéticos, tornou-se o primeiro praticante da guerra não convencional capaz de dar escala mundial às suas operações. “Em vez de resistir à globalização, suas forças estão sendo reunidas por grupos islâmicos contemporâneos, constantemente atrás de novas bases e novos alvos pelo mundo”, diz o pesquisador.

A guerra pós-clausewitziana parece que será travada por pequenas unidades com alto grau de iniciativa, dependendo essas unidades de sua capacidade utilizar localmente recursos levantados em escala global, inclusive comunicando-se através da Internet. Essa aparente flexibilidade, que lança mão tanto da motivação individual mobilizada pela ideologia quanto de recursos tecnológicos bastante sofisticados, mas, ao mesmo tempo, acessíveis a qualquer um com certo grau de conhecimento técnico, mostra sua face na capacidade dos pequenos grupos em colocar forças bem maiores em posição de defesa. O grau de iniciativa também fica patente na capacidade que a rede al Qaeda demonstra em sobreviver ao isolamento de seu líder.

Outra demonstração recente do caráter da guerra pós-clausewitziana foi dada durante a invasão de Israel ao sul do Líbano, com o objetivo de anular o grupo militante xiita Hezbolá. Israel declarou que a responsabilidade sobre as ações do grupo xiita era do governo do Líbano, que estaria permitindo o uso de seu território. Isso demonstrou uma curiosa incapacidade em entender o caráter assimétrico por excelência da guerra pós-clausewitziana. Após mais de 40 dias de operações que provocaram sérios danos à infra-estrutura civil do Líbano, as forças armadas de Israel se retiraram do Líbano sem alcançar nenhum dos objetivos a que haviam sido propostos.

A milícia do Hezbolá mostrou grau de treinamento e disciplina que surpreendeu os israelenses e a maioria dos analistas ocidentais. De fato, alguns falaram em uma vitória parcial do Hezbolá, enquanto outros apontaram uma espécie de “empate técnico”. Usando armas convencionais provavelmente fornecidas pelo Irã e pela Síria, os milicianos xiitas conseguiram ,em algumas ocasiões, interditar o terreno às unidades blindadas de Israel. A utilização de equipamentos como o lança-rojão RPG-29 e óculos de visão noturna mostraram um novo estilo de guerra assimétrica, na qual o lado mais fraco mostra-se capaz de colocar em xeque o lado mais forte. A vulnerabilidade israelense residia exatamente no uso de forças convencionais de difícil operação. Os milicianos, dispersos pelo território, dotados de uma perfeita consciência do terreno e armas adequadas, demonstraram capacidade de tomar decisões mais rapidamente que o exército de Israel.

O uso da população civil como escudo, embora seja bastante cruel, em sua essência, é extremamente eficaz, já que torna as ações militares, principalmente as que envolvem aviação, extremamente antipáticas, e obrigam o adversário a justificar-se perante seus aliados.

A guerra pós-clausewitziana pode significar um retorno à noção de estratégia indireta, teoria formalizada pelo analista inglês Basil Lidell-Hart. Essa idéia faz um certo sentido, diante da posição ocupada hoje pelos EUA, no panorama militar. Após a Segunda Guerra Mundia, a adesão ao princípio de “revolução em questões militares” deu aos EUA a supremacia inquestionável sobre o campo de batalha. Enfrentar uma estrutura assim organizada, diretamente, é impossível. Mas enfrentá-la indiretamente é possível, como temos visto em algumas situações, caso recorramos à história militar. Talvez outro aspecto da guerra pós-clausewitiziana seja exatamente o fato de que forças armadas convencionais estejam se encaminhando para o declínio – estruturas muito dispendiosas, em todos os sentidos, e inúteis, diante da assimetria de poder. Entretanto, não deixa de ser interessante pensar que, aquilo que a URSS não conseguiu (e desapareceu tentando…), bin Laden e seus ativistas têm conseguido. A al Qaeda é o futuro da guerra? Se for, talvez já estejamos vivendo o futuro.

A Guerra do Vietnam – Sobre boas e más analogias::

Ao que parece, Geoge W. resolveu extrapolar. Talvez tenha tido um dia pior dos que os habituais; talvez tenha se engasgado com algum pretzel. Engasgado, certamente ele está, com sua confusa “guerra contra o terror”. Tão engasgado que saiu-se com uma que dificilmente conseguirá superar: mexer com o vespeiro do Vietnam.

Porque o Vietnam, mesmo passados mais de 30 anos desde o fim da guerra, ainda é um vespeiro: um vespeiro do imaginário nacional norte-americano. Basta dizer que sucessivas presidências, republicanas e democratas, não conseguiram provar ao país o argumento de que foi uma causa nobre. Ao contrário da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coréia, últimos conflitos legais em que o país se envolveu, o Vietnam continua sendo a guerra injusta que os EUA perdeu.

Não é pouca coisa, visto que até mesmo o historiador Arthur Schlesinger Jr., modelo, nos anos 1960, de crítica liberal ao governo norte-americano, afirmava que os EUA nunca tinham perdido uma guerra. Schlesinger passou anos clamando pela necessidade de uma saída negociada para o envolvimento norte-americano no Vietnam, e se tornou, no final dos anos 60, um dos principais ativistas contra a guerra. Porque o Vietnam não era uma guerra justa.

A noção de “guerra justa” é muito forte entre os norte-americanos. Além do persistente mito de que “os EUA nunca começaram uma guerra” (veiculado desde o século XIX por políticos e historiadores acadêmicos, e tornado assunto público durante a campanha de Hearst pela intervenção em Cuba), é extremamente arraigada a idéia de que, representando os mais fortes valores do Ocidente e da cristandade, a nação norte-americana pega em armas sempre que esses valores estão ameaçados. Foi assim na Segunda Guerra; foi assim na Coréia, foi assim até mesmo na invasão do Kwait por Sadam.

O fato é que o uso de analogias, pelos governantes dos EUA não é novidade. Certamente George W., nisso, não está inovando em nada. Os políticos de lá invocam, com freqüência, as “lições da história”, como já explicou, de forma brilhante, o historiador Yuen Foong Khong, autor de um livro quase definitivo sobre o assunto. Khong argumenta que o levantamento de analogias tem mais do que a função de justificar políticas de difícil explicação pública. Trata-se de um processo mental destinado a facilitar o processamento cognitivo e informacional presente na tomada de decisões políticas. Assim, analogias com a Segunda Guerra Mundial, a Guerra da Coréia e a derrocada francesa na Indochina tiveram lugar fundamental na decisão norte-americana de intervir no Vietnam e, depois, não apenas na de permanecer, mas de escalar a intervenção. O uso da analogia entretanto, tende a resultar em uma argumentação pobre. Para ser eficaz, deveria levantar fatos de amplo transito entre aqueles que serão alcançados pela mensagem. Desta forma, nem sempre podem ser mobilizadas as melhores comparações, ou por não existirem ou por não apresentarem similaridades perfeitas com a situação que está posta em pauta.

Ou seja, a analogia faz parte de um processo mental normalmente presente na tomada de decisão dos políticos norte-americanos e pode virar uma enorme casca de banana. Aparentemente, foi exatamente nessa que George W. escorregou, embora não possa ser acusado de inventar um absurdo ou ser o primeiro a distorcer a história.

A armadilha fica bem clara na análise feita no dia 23 passado, no NY Times por Thom Shanker. Sumarizada em um de meus blogs do coração, por Thomas de Zengotita, a conversa de George W. com veteranos de guerra (outra importante figura do imaginário nacional norte-americano), mostra uma tentativa de “manipular o patriotismo nato [dos veteranos]”. Segundo Zengotita, “Shanker corretamente chama atenção para a ridícula afirmação de Bush de que a carnificina promovida pelo Khmer Vermelho no Camboja foi conseqüência da retirada Americana do Vietnam, quando, de fato, foi a invasão americana que, em primeiro lugar, inspirou a formação daquela quadrilha insana.” E nem mesmo os argumentos que levaram ao envolvimento norte-americano, que formavam a “teoria do dominó”, mostraram-se corretos, no fim. “Bush disse que nós tínhamos de vencer porque se falhássemos, os comunistas tomariam o poder na Indonésia e nas Filipinas, e quem sabe onde mais. Talvez no Havaí. Foi o que disseram na época. Eu estava lá. Eu lembro. De fato, quando nós finalmente nos retiramos, nada disso aconteceu. O que de fato ocorreu foi que as diferenças sino-soviéticas, postas artificialmente de lado por nossa invasão, explodiram. O que aconteceu foi que a China comunista evoluiu para o bizarro híbrido entre tirania e capitalismo que conhecemos hoje em dia e a União Soviética, para o auto-inflingido copapso.”

Parece que George W. buscava uma analogia que mobilizasse o patriotismo dos veteranos como uma espécie de expressão amplificada do patriotismo nacional, um valor absoluto que conteria a boa disposição do povo norte-americano para as “guerras justas”. Ainda segundo Zengotita, Bush contava com a ignorância sobre história, característica marcante da maioria da população dos EUA. Não acho que tenha sido apenas isso. O presidente ao tentar mobilizar uma analogia, não contava com o fato de que o Vietnam é um vespeiro imaginário. Para o resto da sociedade norte-americana, uma péssima analogia.

Mas, de fato, o que é o Vietnam? Para os norte-americanos, claro, uma lembrança amarga – uma guerra que não resultou em nada. Para George W. deveria ser uma lição de história política.

Pensando bem, talvez George W. leia esse blog… Ahnnnn… Vamos lhe oferecer, então, uma lição de história do Vietnam…

Em seguida::