O caso da concorrência indiana::Um festival de sandices do mau perdedor::

O “rafalista juramentado” continua soltando foguetes pela escolha do Rafale, em primeira instância, na concorrência MMRCA. Digo “em primeira instância” porque, por enquanto, o Rafale foi escolhido em função de qualidades técnicas, amplitude do pacote de armamentos e vantagens da oferta financeira. O concurso pode dar para trás? Pode, pois, na Índia, como cá, o relatório técnico pode ser posto de lado em função de questões políticas. Mas dificilmente a Grã-Bretanha poderá oferecer um pacote financeiro mais atraente do que o pacote francês, principalmente porque este implica em preços definitivos, o que não acontece com relação ao concorrente. Essa questão surge, junto com outras, nas entrelinhas de um artigo assinado pelo jornalista britânico Andrew Gilligan, publicado ontem pelo blogue do matutino “The Sunday Telegraph”. O ótimo blogue “Plano Brasil” publicou uma tradução da matéria, um tanto descuidada, ontem mesmo. Mas vamos dar um desconto pr´o pessoal do Edilson M. Pinto: sabemos bem o que é manter um blogue informativo diário como é o PBr. Assim, independente da qualidade da tradução (que deve ter sido feita com auxílio do Google Translator), vale á pena ler, para quem acompanha o assunto. E também vale à pena ler os comentários que vamos fazer, adiante (como eu sempre disse, causa:: é um blogue modesto…). Por sinal, sempre modestamente, deixemos claro – este posto vai ilustrado, abaixo, com a belíssima foto do melhor caça de 4ª geração da atualidade… Que os assíduos certamente já sabem qual é…::

Parece que os britânicos, principais interessados na concorrência MMRCA, estão perdendo o tradicional elan, e começam a comer seus chapéus-côcos e guardas-chuvas.  O artigo apresentado pelo Plano Brasil é, antes de mais nada, um festival de sandices, arrogância e wishful thinking (eles parecem convencidos que, no final, a decisão indiana será mudada). No quesito “arrogância”, acho que podemos dar logo nota dez para os descendentes de John Bull: David Cameron, primeiro-ministro conservador e adepto de cortes financeiros, só faltou dizer que os indianos teriam a obrigação de adquirir o produto multinacional por causa da Inglaterra. Por sinal, o ministro britânico do Desenvolvimento, Andrew Mitchell, perdeu a fleuma e disse isso mesmo: segundo ele, o auxílio britânico dirigido à Índia, voltado para atender problemas sociais locais e ultimamente ampliado para mais de US$ 2 bilhões, devia-se ao fato de que a Grã-Bretanha esperava que, como demonstração de agradecimento, a ex-colônia comprasse o produto da ex-metrópole – o que levou um irado ministro indiano a dizer – segundo o mesmo “The Telegraph”, que “a Índia não quer a ajuda britânica”. No quesito marquetingue, os britânicos também enfiaram o pé na jaca. Apesar dos “laços históricos” entre os países e suas forças aéreas (segundo o texto, a Força Aérea Indiana é quase uma cópia da RAF…), mandaram, para os testes, aeronaves alemãs, com equipamento alemão e pilotos alemães. Que, se eu conheço os alemães, devem ter passado o tempo todo reclamando da comida e da “falta de higîene”.

Essa é a parte engraçada da história. Por outro lado, fica patente que os próprios britânicos estão reconhecendo que o Typhoon é inferior ao Rafale em todos os pontos, talvez excetuando-se a velocidade final e manobrabilidade. No restante dos quesitos, a aeronave multinacional teria sido prejudicada, conforme apurou o jornalista britânico, pela crença conservadora de que, em época de crise, cortes de verba resolvem desde lumbago até desemprego e problemas sociais. Claro que faz todo sentido que os britânicos acreditem em seu produto, mas o fato é que, até onde pude entender do material que tenho acompanhado, os indianos não querem uma aeronave de superioridade aérea – para isso eles já tem mais de 200 Su30 MKI, que dentro em breve começaram a passar por extenso programa de modernização de meia vida (MLU). Este incluirá um radar categoria AESA e um conceito ainda em fase de testes denominado Smart Skin, ou Active Neural Membrane (seja lá o que for isto, deve ser muito complicado…). O projeto também prevê pods conformais para armamento e aviônicos e um novo propulsor. Os melhoramentos, combinados, converterão o Su30 MKI (e, certamente, também as diversas variantes russas do Su27) em uma aeronave Stealthy. Certamente, quem viver, verá, mas se os próprios norte-americanos dizem que os Sukhoi são as melhores aeronaves de 4ª geração em atividade, quem sou eu para dizer o contrário?..

Os ingleses dizem. Mais exatamente, quem disse foi o editor de defesa de uma revista chamada Arabian Aerospace (da qual eu nunca ouvi falar…). A revista pode ser sobre assuntos árabes, mas o editor não deixa de mostrar suas origens: para começar a conversa, declarou que os indianos tomaram uma decisão “claramente maluca, dados os laços históricos que mantêm com a Grã-Bretanha” (!!!). Também afiirmou que o Rafale pode ser superior ao inventário paquistanês, mas se o adversário forem os chineses, então eles estarão dependentes do Su30 MKI pelos próximos trinta anos, pois a Força Aérea do Exército de Libertação do Povo dispõe da mesma aeronave – o que é errado: os chineses dispõem de uma versão anterior, o Su27SK. Trata-se da versão de exportação do Su27 Flanker. E, para completar, boa parte dessas aeronaves são, de fato, o Shenyang J11, um clone local da aeronave russa. Os chineses também dispõe de uma versão referenciada como Su30MKK, que é semelhante às aeronaves indianas, em números que não excedem 50 unidades. Mas, independente dos números, quais os testes que estabeleceram a superioridade do Typhoon (e, sejamos justos, do Rafale) sobre o Su30?

A questão básica é o fato de que, com a crise econômica, parece que a EADS, empresa multinacional de aeronáutica e espaço que está por trás da Eurofighter, estava esperando que a encomenda indiana, a maior compra de armamento de todos os tempos, pagasse o desenvolvimento do caça europeu. Segundo o “Telegraph”, especialistas em aviação militar disseram que os cortes britânicos no orçamento de defesa desempenharam papel fundamental na opção francesa dos indianos. Embora esses especialistas mantenham alguma esperança de que o jogo possa ser virado no médio prazo (o contrato ainda não foi fechado), a maior parte deles parece meio desanimada. O problema é que o Typhoon, tanto quanto o Rafale, é uma aeronave ainda em desenvolvimento. No Typhoon, este desenvolvimento está claramente atrasado em função da crise econômica européia. Esses especialistas, inclusive o tal Jon Lake, vêem no multieuropeu maiores potencialidades do que enxergam no Rafale (talvez estejam usando óculos como esses aqui para olhar a situação…), mas a aeronave européia, para atingir seu máximo potencial, terá de ser dotada de armamentos e equipamentos cujo aperfeiçoamento dependerá de investimentos razoáveis – investimentos que a Inglaterra não quer fazer.

Os indianos pretendem adquirir um pacote completo, inclusive com um radar AESA e a suíte de armamentos o mais completa possível, itens que, no Rafale, já estão plenamente operacionais. Como nós já sabemos, aqui no causa::, a aeronave francesa opera um set de armas inteligentes que inclui mísseis de cruzeiro, antinavio, e até mesmo capacidade de entrega de armamento nuclear (não podemos esquecer que a Índia dispõe de um pequeno arsenal nuclear). Armas, como dissemos, operacionais e, ainda por cima com o selo “combat proven”, sonho dourado de qualquer fabricante de armas: é bem provável que todo o arsenal já tenha sido testado em combate, tanto no Afeganistão quanto na Líbia. O pacote do Rafale também incluí vários tipos de pods especializados e a suíte de autodefesa SPECTRA – que, aparentemente, é superior a qualquer coisa atualmente disponível.

O Typhoon não tem nada disso, e não por culpa de qualquer incompetência da empresa que o projetou. Dos quatro países que tocam o empreendimento, apenas a Alemanha ainda está firme sobre as próprias pernas. A Grã-Bretanha vai se aguentando e, quanto à Espanha e Itália… Isso significa que os investimentos no avião estão minguados. Segundo a reportagem, só falta a RAF implorar para que o míssil de cruzeiro Storm Shadow, o antitanque Brimstone sejam integrados à aeronave, o que talvez obrigue o desenvolvimento da versão AESA do radar CAPTOR e de pods de reconhecimento e iluminação de alvo. De fato, tirando-se o radar, que não existe, esses recursos já estão integrados ao Tornado ADF, são plenamente operacionais e foram usados nas patrulhas da Líbia. Só que precisam ser integrados ao Typhoon, coisa que o governo adiou, devido aos amplos cortes realizados, ano passado, no orçamento de defesa. Sejamos mais exatos: o que o governo pretende fazer é descontinuar os Tornado e Harrier (depois que este se mostrou extremamente eficaz no teatro afegão – deve significar alguma coisa…). Os britânicos teriam dito aos indianos que, em 2018, o Typhoon fará tudo que o Rafale faz, e mais um pouco. Só o wishful thinking britânico deve tê-los feito imaginar que essa afirmação convenceria alguém, mas, como esclarece o jornalista, “parece que os indianos não acreditaram, pois o histórico de atrasos e estouros de orçamento falam por si.” Segundo o editor da revista (esta eu conheço muito bem…) Jane’s Defence Weekly, Tim Ripley, se os britânicos argumentarem que os indianos deveriam optar pelo Typhoon, esses poderiam retrucar perguntando porque deveriam comprar uma suíte de armamento e aviônicos que os ingleses não parecem ter a menor intenção de usar. Por sinal, este é um problema que a indústria de defesa brasileira conhece bem – como se vende armamento para terceiros, se o próprio governo do país fabricante não o adquire para suas forças armadas?::

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