Um rapaz das Forças Especiais::Regimento Sampaio::

Formatura comemorativa na passagem do 242° aniversário.

Como todos os oito ou nove leitores assíduos já devem ter percebido, toda vez que causa:: passa por um período de vacas magras (em função das 202 atividades que o redator:: mantém ao mesmo tempo…), no período seguinte, uma porção de textos desencontrados começam a ser postados. É quase como se todos os assíduos tivessem de ter seus  variados gostos em torno de história militar, estratégia, cultura material militar, curiosidades, etc., etc.,  satisfeitos. Assim, visto que ante-ontem foi publicado um texto mais “cabeça”, hoje o redator:: continuará dando vaza a sua insistência nessa coisa antiga e fora de moda chamada “tradição”, abominada por cada nove entre dez intelectuais moderninhos.

E para fazer com que essas pessoas (que não entenderam os objetivos do apelo de Dunga ao patriotismo – voltaremos a esse assunto, que dá muita liga…) torçam o nariz com ainda maior intensidade, vamos apresentar, hoje, a mais tradicional dentre as tradicionais unidades de “infantaria combatente” (como são chamadas, no EB as unidades de pronto emprego): o Primeiro Batalhão de Infantaria Motorizado (Escola), mais conhecido como “Regimento Sampaio”.

Como pesquisador amador de assuntos militares, o redator:: , embora entenda a importância da tradição como fator aglutinador de qualquer corporação, civil ou militar, não simpatiza com a genealogia de unidades militares que descobre origem de tropas blindadas brasileiras lá no Portugal manuelino. O contexto dos exércitos e da guerra no Antigo Regime torna impossível, na opinião aqui do blogue, traçar continuidades reais entre as unidades atuais e aquelas apontadas, trezentos ou quatrocentos anos atrás, como suas antecessoras. Assim, causa:: não irá buscar as origens do Regimento Sampaio no Terço do Rio de Janeiro (ou “Terço Velho“), tropa criada por ordem do governador-geral do Brasil, Mem de Sá, em 1567. O Terço Velho existiu de modo mais-ou-menos intermitente ao longo de todo o período colonial, e, em 1793, formou, com uma unidade trazida de Portugal em 1767, o Primeiro Regimento de Infantaria do Rio de Janeiro. Essa unidade foi depois incorporada ao exército da nação que se formou em 1822.

A Guerra do Paraguai, por outro lado, já permite traçar maiores continuidades com nossa época. Em 1864 a abertura das hostilidades do Paraguai contra Brasil e Argentina, encontra o “Primeiro de Infantaria” na região sul do continente, onde havia participado das guerras no Uruguai. Em 1865, o comandante do Exército Imperial na região do conflito, general Manuel Luís Osório, mandou criar uma nova unidade, a Terceira Divisão de Infantaria (3ª DI), que reuniu algumas unidades. Seu primeiro comandante foi o coronel Antônio de Sampaio. Dentro da genealogia militar que causa:: prefere levantar, este é o primeiro galho da árvore genealógica do Regimento Sampaio.

A 3ª DI, em função de ser lançada sempre na primeira linha, acabou recebendo dos soldados o apelido de “Divisão Encouraçada“. Seu comandante, pouco depois promovido a brigadeiro, sempre se destacava por “comer chumbo” junto com a tropa. Não é tão estranho: era um soldado de carreira, tendo iniciado sua trajetória militar em 1830, quando sentou praça no Exército Imperial. Seriamente ferido na batalha de Tuiuti, em 24 de maio de 1866 (curiosamente, data de seu aniversário…), morreu quando era evacuado para a retaguarda. Os restos do brigadeiro cumpriram um périplo que deve ter sido quase tão grande quanto as marchas que a “Encouraçada” cumpriu durante os mais de cinco anos da conflagração (o leitor que se interessar pelas andanças dos ossos do patrono da infantaria brasileira pode clicar aqui; um histórico da 3ª DI, aqui). O título honorífico de “Divisão Encouraçada” foi atribuído à 3ª Divisão de Exército, uma grande unidade de cavalaria mecanizada constituída em 1979, dentro da reorganização do Exército Brasileiro.

O segundo – e muito mais frondoso – “galho genealógico” do “Regimento Sampaio” cresce a partir da reorganização do Exército Brasileiro levada a efeito a partir de 1908, pelo ministro da Guerra marechal Hermes da Fonseca. A reorganização era reivindicação dos militares que vinha desde a segunda metade do século 19. Uma das principais proposições era a profissionalização do exército. A partir de 1905, o péssimo estado da força terrestre (e também da Marinha, mas as desventuras desta ficam para outra vez…) e as constantes questões de fronteiras, que poderiam exigir, eventualmente, intervenção militar, tornavam urgente uma completa reforma. Uma das providências foi a negociação do envio de uma “missão militar” à Alemanha. Entre 1908 e 1910, três grupos de oficiais militares brasileiros lá estagiaram, para observar as doutrinas e métodos utilizados naquele país. De volta ao Brasil, esses jovens oficiais tornaram-se alvo do interesse, principalmente, da jovem oficialidade, grupo que via com desconfiança os generais (“gordos e acomodados”) e, principalmente, os civis (os “casacas”, “egoístas e dissimulados”) . Um forte movimento de conotação política, disfarçado sob a égide de “profissionalização”, surgiu entre essa oficialidade, e seus integrantes foram apelidado, algo pejorativamente, de “jovens turcos”. O termo acabou sendo adotado pelo próprio movimento, pois os militares brasileiros simpatizavam com o espírito reformador dos oficiais turcos. Esses, aglutinados em um movimento militar liderado pelo major Mustafah Kemal Atatürk (“pai dos turcos”), reivindicavam a modernização da sociedade turca no início dos anos 1910. Durante a 1ª GM, Kemal revelou-se competente comandante de tropas, o que só fez aumentar sua popularidade entre os militares brasileiros (mais sobre os jovens turcos?.. Dê uma paradinha aqui).

Esses oficiais brasileiros criaram, em 1913, a revista “A Defesa Nacional“, a princípio destinada a veicular as idéias do grupo. Logo a publicação (que existe até hoje) se tornou veículo das idéias políticas da jovem oficialidade, e foi fator para o sucesso das reformas.

Um dos principais pontos da reorganização era a transferência das principais unidades militares para sítios situados fora das cidades. Muitos oficiais “tarimbeiros” (de tropa) reclamavam que, dispersa pela cidade do Rio de Janeiro, a corporação não tinha como realizar exercícios em nível maior que o de batalhão. Uma das propostas setoriais apresentadas e levadas a cabo foi a construção da Vila Militar (hoje em dia bairro de classe média na Zona Oeste da cidade). O lugar era, originalmente, uma grande fazenda, e, no início do século 20, gastava-se um dia de marcha para chegar até lá. A construção de quartéis e residências começou em meados de 1908, e correu paralela à reestruturação do exército, ficando pronta em 1915. A demora deveu-se, em parte, a dificuldades em se localizar um sítio que fosse adequado a grandes exercícios militares, e à necessidade de instalar uma via férrea que ligasse a capital aos quartéis.

A reforma do Exército também implicou na introdução de nova doutrina, que tornasse a força capaz adotar, pelo menos em parte, os procedimentos da guerra moderna que as potências  européias estavam praticando, desde meados do século 19. Esse novo estilo de guerra tinha ficado evidente no rápido conflito entre franceses e alemães: movimentos amplos e rapidamente executados, iniciativa e poder de fogo superior apontavam para a superioridade da organização militar alemã. Foram essas novas normas organizativas que a reforma de Hermes da Fonseca tentou implantar no Brasil – embora não houvesse comparação possível entre a formação social alemã e a brasileira. Dentro desse espírito, o Exército da República – que então não tinha completado ainda duas décadas – buscou se reinventar, e foi criado, em 1908, o Primeiro Regimento de Infantaria, depois de extinto o antigo, aquele criado no final do século 18. Como diversas outras criadas na época, a nova unidade baseava-se no modelo “ternário”, adotado pelo exército alemão. Isso quer dizer que era organizado em torno de três batalhões, cada um com aproximadamente 700 homens (três companhias mais tropas especializadas). Para a formação do “Primeiro”, foram reunidos três batalhões, que já existiam desde o Império: o Primeiro de Infantaria (cujo quartel ficava em São Cristóvão), o Sétimo de Infantaria e o Vigésimo de Infantaria, unidades que remontavam ao Império, com longa tradição militar e experiência de combate. Essas unidades foram reformadas e reunidas na nova unidade orgânica.

O “Primeiro de Infantaria” foi uma das primeiras unidades do EB a emigrar para a Vila Militar. A partir de então, esteve presente em diversos eventos de caráter político, como a Revolução de 1930, a Guerra Civil de São Paulo, em 1932, e a repressão à Intentona Comunista de 1935. Em 1940, seguindo a tendência do Estado Novo em valorizar a história como fonte da tradição e do espírito de corpo, que levou à adoção de diversos personagens militares como patronos das forças singulares, armas e especialidades militares, o então “Primeiro de Infantaria” recebeu a denominação de “Regimento Sampaio”. O próprio Sampaio foi guindado à condição de “patrono da arma de infantaria”. 

Em 1943, com o Brasil em guerra contra o Eixo e a criação da  FEB, o “Regimento Sampaio” foi designado para integrar a divisão de infantaria a ser formada. Um dos motivos (talvez o principal) é bastante prosaico: geralmente, os chefes políticos do Exército cumpriam seus períodos de oficiais inferiores (segundos- e primeiros-tenentes, capitães e majores) em regimentos aquartelados na Vila Militar, para ficarem perto do Rio de Janeiro; outro motivo é que o “Primeiro” sempre foi considerado unidade de elite, e não passava pela cabeça dos chefes do Exército deixá-lo de fora da FEB – ainda que o estado de aprestamento não fosse lá dos melhores. Como, diga-se de passagem não era em todo o Exército.

A formação da FEB incluiu também os regimentos 6º de Infantaria (de Caçapava, São Paulo, o “Regimento Ipiranga“) e 11° de Infantaria (de São João Del Rei, Minas Gerais, atualmente 11° Batalhão de Infantaria de Montanha, o “Regimento Tiradentes”, atualmente os “boinas cinzas”, unidade de Pronto Emprego). Claro que a inclusão dessas unidades visava premiar, politicamente, os principais estados da Federação, embora a incorporação de efetivos tenha sido feita em todo o Brasil. O país teria certa dificuldade (para sermos condescendentes…) em formar uma tropa capaz de combater em contexto moderno. A organização do Exército baseava-se ainda nos ensinamentos da Missão Militar Francesa, contratada depois da 1ª GM. A FEB teve de se adequar à organização adotada pelos norte-americanos, que, por sua vez, vinham reorganizando suas forças armadas desde o final dos anos 1930. Os EUA tinham adotado, a partir de 1939, uma estrutura orgânica e administrativa semelhante aquelas adotadas na Europa. Contando com um potencial humano superior ao da Alemanha (em 1940, tinha uma população de uns 170 milhões de habitantes, contra 90 milhões da Alemanha), os planejadores norte-americanos imaginaram que poderiam contornar certos problemas aumentando o tamanho das grandes unidades (as divisões).

Neste porto, vale um parentese para examinar exatamente o que constitui uma “divisão” – no caso que nos interessa, uma divisão no formato norte-americano, aquele que foi copiado pela FEB – e pelo “Primeiro de Infantaria”.

Os EUA mobilizaram sessenta e sete divisões de infantaria durante a 2ª GM, dentre as  quais em torno de quarenta eram consideradas “de primeira linha”. Quarenta e duas divisões serviram no ETO (Teatro de Operações Europeu) e no MTO (Teatro de Operações do Mediterrâneo); as restantes 23 foram alocadas no PTO (Teatro de Operações do Pacífico). Essas unidades eram baseadas em conceito relativamente novo – de fato, tinham sido formadas para a guerra que se avizinhava.

A primeira forma de organização divisional adotada pelos EUA surgiu durante a 1ª GM. Eram organizadas com base no modelo francês, mas, depois da Guerra esse modelo foi substituído por outro, híbrido, que adotava a organização “ternária” – cada divisão possuía três regimentos de infantaria e cada regimento era dotado de três batalhões. Completavam a unidade elementos de artilharia divisionária, formados por quatro batalhões; um esquadrão motorizado de reconhecimento com certa capacidade de choque; unidade de engenharia, serviços médicos e pessoal administrativo. O Estado-maior era único, atendendo a toda divisão, embora os regimentos tivessem os seus.  O comandante era um general de duas estrelas (no exército dos EUA, major-general), que podia ter um general de uma estrela (brigadeiro, posto inexistente no Exército Brasileiro) ou um coronel como assistentes. A artilharia era comandada por outro brigadeiro, os regimentos de infantaria, por coronéis, e tenente-coronéis comandavam os batalhões. Essa organização foi consolidada em 1940-1941. Por volta do início de 1943, com a estabilização da frente do Pacífico e o início dos preparativos para os desembarques no norte da África, a dificuldade de formar oficiais e, principalmente, encontrar oficiais para serem promovidos a generais fez com que os postos de comando intermediários fossem rebaixados. Os regimentos de menor efetivo (como os de cavalaria, ou seja, infantaria blindada) ou de segunda linha (como os de colored troops, unidades de negros comandadas por oficiais brancos da Guarda Nacional e de engenharia de contruções) passaram a ser comandados por tenentes-coronéis, e os batalhões de infantaria, por majores com experiência de tropa (mais tarde, de combate).

A dotação de pessoal e veículos das grandes unidades era constantemente aumentada, com base na experiência de combate. Em meados de 1944, chegou ao ponto de reunir pouco mais de 14.300 efetivos, uns cinqüenta canhões de campanha (três baterias de obuses 105 mm – em inglês, field howitzer , rebocados por caminhões, e uma bateria de obuses 155 mm); havia também uma bateria de canhões AT de 57 mm e cerca de 1400 veículos. As divisões de infantaria “de primeira” também dispunham de algo entre oito e doze aeronaves ligeiras de observação.

Os regimentos de infantaria reproduziam a organização da divisão, cada qual com três batalhões, cada um com três companhias; em cada batalhão, uma quarta companhia encarregava-se dos “petrechos pesados”, ou seja, metralhadoras pesadas – montadas em tripés e operadas por uma “seção” de quatro homens – e morteiros leves. Os batalhões dispunham de uma quarta companhia, “de comando e serviços”, que reunia Inteligência, Reconhecimento, Comunicações, Engenharia, Saúde e Administração, alcançando, quando completos, pouco mais de 900 efetivos, comandados por um tenente-coronel ou major. No total, um regimento de infantaria, comandado por um coronel, reunia cerca de 3.300 efetivos. Já as unidades “divisionárias”, que reuniam o pessoal da artilharia divisionária, comunicações, engenharia de combate, transportes, logística, saúde, administração, o Estado-maior e, em certos casos, infantaria de reserva, chegavam a 5.000 efetivos.

Em teoria, era um organização capaz de dar conta de um setor de frente de aproximadamente trinta quilômetros de largura e profundidade variável, conforme o terreno. A experiência de combate mostrou que a teoria, na prática, era outra, e de fato, bastavam algumas semanas em combate para que a frente se tornasse “porosa”, já que as baixas não eram repostas em tempo hábil. Esse era o problema que os alemães não tinham conseguido resolver, depois de 1943; os norte-americanos só vieram a senti-lo plenamente no final de 1944, com a inesperada contra-ofensiva das Ardenas.

A FEB foi organizada como um tropa norte-americana do tipo descrito acima, o que não foi feito sem bastante trabalho. A principal unidade era a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária que, com pequenas diferenças (por exemplo, não recebeu obuses 105 automóveis, que se tornaram comuns na época da chegada à Itália, não tinha artilharia anti-aérea e o principal armamento de infantaria era o fuzil M1903 Springfield), era igual às divisões de infantaria norte-americanas. O “Primeiro de Infataria” era o primeiro regimento da FEB. A organização da tropa começou com estágios de oficiais nos cursos regulares de infantaria e artilharia, em Fort Benning, Georgia e, mais tarde, com toda a tropa instruída no Brasil conforme os  padrões norte-americanas e complementando a instrução na Itália, nas diversas “Escolas Treinamento de Comando e Combate” (Leadership and Battle Training School). Valeu à pena – apesar das controvérsias que existem até hoje, no geral, a tropa brasileira se saiu bem. E graças ao período de quase nove meses integrado ao MTO, o Exército Brasileiro tomou contato com as doutrinas militares que iriam prevalecer nas seguintes três décadas, adquiriu experiência de combate e, principalmente, constituiu uma tradição de inestimável valor memorial. 

De volta ao Brasil, a FEB foi mantida como base para o que talvez tenha sido a maior reorganização pela qual o EB passou desde sua criação como corporação de estado, em 1822. Envolvidos na Guerra Fria, os norte-americanos queriam conquistar a fidelidade das forças armadas de seus aliados periféricos, cujas sociedades consideravam suscetíveis à “influência de Moscou”. Dentre outros, dois métodos se destacaram: oferecer o concurso de instrutores militares e disponibilizar a esses aliados certa quantidade de armamento relativamente moderno a preços subsidiados, através dos Acordos de Cooperação Militar e dos Programas de Vendas Estrangeiras (Foreign Military Sales) que decorreram deles, a partir de 1947. O resultado é que, dez anos após o final da 2ª GM, o Brasil estava entre os aliados mais confiáveis dos EUA e o Exército tinha alcançado o maior efetivo desde a Guerra do Paraguai, sendo o maior da América Latina, e talvez um dos três maiores do Hemisfério Sul. No início dos anos 1960, podia colocar em campo, caso necessário, um corpo blindado (uma divisão blindada e duas motorizadas) e cinco divisões de infantaria, com um complemento de umas 200 peças de artilharia de campanha dos mais variados calibres.

Embora a base da estrutura persistisse aquela adotada para a FEB e depois disseminada pelos instrutores norte-americanos, diversas reorganizações administrativas e orgânicas foram implementadas, ao longo da segunda metade do século 20. Um aspecto que, entretanto, ainda ligava o exército de então aquele reformado em 1908 era a Vila Militar, que, em 1960, era o maior aquartelamento de tropas terrestres da América Latina.

Do ponto de vista organizacional, algumas mudanças foram sendo implementadas nos anos 1950, de modo a aumentar a eficiência administrativa. Mas apenas nos anos 1970 o Exército passou por nova reestruturação, que viria a modificar a organização adotada nos anos imeditamente posteriores à Segunda Guerra Mundial. O novo formato começou a ser estudado no final dos anos 1960, e buscava dar à força terrestre maior flexibilidade, baseada sobretudo em padrões mais avançados de integração e mobilidade. As antigas grandes unidades de armas (divisões de cavalaria e infantaria e os regimentos de cavalaria mecanizada e blindada) foram reunidas em grandes unidades denominadas “Divisões de Exército”, formações de todas as armas, capazes de alto grau de iniciativa. As principais unidades orgânicas passaram a ser as brigadas, unidades de arma, de efetivo maior do que o dos antigos regimentos, organizadas em torno de tropas motorizadas, com complementos próprios de artilharia e engenharia. Essa nova proposta de organização levou, em 1971, à extinção do Primeiro Regimento de Infantaria e, em seu lugar foi criado o 1° Batalhão de Infantaria Motorizado (Escola), ou 1° BIMtz(Es). Essa unidade é concebida para ser referência do Exército Brasileiro, no que tange à aplicação de doutrinas e métodos, e foi integrado à uma nova grande unidade,  a 9ª Brigada de Infantaria Motorizada, núcleo do Grupamento de Unidades Escola do EB.

A 9ª BdaInfMtz, dentro da nova doutrina, que vem sendo implantada no Exército desde os anos 1980, é uma das unidades da Força de Deslocamento Rápido/Pronto Emprego. A idéia do Pronto Emprego firmou-se quando o Exército, a partir dos anos 1980, posto diante de sucessivos cortes de verba e da diminuição progressiva de seu orçamento, passou, na prática, a ser divido em dois (embora nenhum milico admita isso…): o Pronto Emprego e o resto. O Pronto Emprego – cujo conceito baseia-se em discussões realizadas, nos anos 1990, no âmbito da ONU – é parte do EB capaz de ser rapidamente mobilizada e colocada, em caso de necessidade, em condições de deslocamento, por terra, ar ou mar. Sob a essa designação estão unidades consideradas de elite, com dotação de pessoal, equipamentos e suprimentos mantidos, tanto quanto possível, próximos do ideal. A FDR está subordinada administrativamente à 1ª Divisão de Exército, e a 9ª Motorizada é considerada núcleo dessa força, juntamente com os pára-quedistas, os “boinas cinzas” e os aeromóveis – e também os Fuzileiros Navais. Suas principais unidades são o “Primeiro de Infantaria”, o “Segundo de Infantaria” (o tradicionalíssimo “Dois de Ouro”, que disputa com o “Sampaio” a honra de ser a mais antiga unidade do EB…), o 15° Regimento de Cavalaria Mecanizado (Escola), o também tradicional “ReCMec”, a primeira motorizada do Exército formada no espírito das novas doutrinas, em 1946 (vale à pena dar uma paradinha aqui), o Batalhão Escola de Engenharia, o tradicional (como não seria, devem estar se perguntando os oito ou nove leitores…) “Batalhão Villagran Cabrita”  e o Batalhão Escola de Comunicações. Outras unidades estão integradas à esta brigada, mas o “Primeiro de Infantaria” junto com as outras duas (o “Dois de Ouro” e o “ReCMec”), são as jóias da coroa, não só do GUES, mas do Exército Brasileiro::

O (segundo) mês da Guerra do Paraguai::O significado da “Guerra do Paraguai” na história do Brasil::

Revendo a papelada, o redator topou com uma preciosa velharia, guardada para a época de necessidade: uma palestra ministrada mais de 15 anos atrás por um dos grandes historiadores brasileiros, o professor Fernando Antônio Novais, da Universidade de Campinas. O professor Novais é responsável, com seu livro “Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808)” por uma das mais importantes linhas de reflexão sobre a formação da nação brasileira. Sua discussão sobre a Guerra do Paraguai coloca o conflito na dinâmica da crise do regime e do Estado brasileiros, no século 19. Por sinal, a reflexão do historiador é bastante atual, e aponta questões sobre a atualidade de nosso país. Nessa época em que autoridades e intelectuais parecem dispostos a esquecer o passado, ou pior, relativizá-lo… Cabe lê-la. E com atenção. Por sinal, cabe ler esta e todas as palestras que, em novembro de 1994, foram ministradas no simpósio “Guerra do Paraguai – 130 anos”, na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, e que depois surgiram em livro, atualmente esgotadíssimo (e que o redator tem a sorte de ter…)::

Cumpre refletir sobre o significado da Guerra do Paraguai na história do Brasil, sobretudo na história do Império, cuja análise tem sido bastante renovada, nos últimos tempos, pelos historiadores.

Joaquim Nabuco foi o primeiro a chamar a atenção para o significado mais profundo que teve, no transcurso da história, o fenômeno da Guerra da Tríplice Aliança. Ele disse que a Guerra do Paraguai foi ao mesmo tempo o apogeu do Império e o seu declínio. Os estudiosos da política do século passado no Brasil também insistem em que a Questão Militar surge logo depois da Guerra do Paraguai e vai-se aprofundando até a República. Qual a razão disso?

A sociedade escravista, uma sociedade em que a escravidão atinge uma expansão que ultrapassa o plano de uma simples instituição social – como era o caso do Império Brasileiro e da sociedade do Sul dos Estados Unidos –, é incompatível com a existência de um exército moderno, de forças armadas modernas. No limite, esta incompatibilidade inviabiliza o próprio Estado.

Na clássica definição de Max Weber, o Estado é o monopólio da violência legítima. Ora, numa sociedade escravista, o Estado não pode ter o monopólio da violência legítima, porque a sociedade organiza-se sobre a violência privada dos senhores contra seus escravos.

Por isso, na Independência do Brasil, ao se constituir um Estado soberano e ao se manter a escravidão, passou-se a viver um verdadeiro dilema. A manutenção da escravidão era uma das condições para a preservação da unidade nacional. Mas mantê-la significava inviabilizar o Estado, porque como escravidão não se constrói o monopólio da violência legítima.

Sabe-se que a Guarda Nacional foi criada durante a regência exatamente porque o Estado não confiava na tropa. Desta maneira, a sociedade escravista bloqueia os fundamentos do exército moderno, das modernas forças armadas. Esses fundamentos são basicamente dois: a universalidade do recrutamento e a hierarquia do oficialato baseada no mérito.

Uma sociedade escravista como a brasileira bloqueia o recrutamento de pelo menos metade da população, os escravos. Por sua vez, os que possuam escravos e, portanto, detinham uma parcela da violência legítima não queriam ingressar nas forças armadas, que tiveram de ser recrutadas nas camadas intermediárias da sociedade. Por outro lado, a hierarquia do exército define-se pelo mérito. Mas, no Império Brasileiro, ela definia-se pela própria estratificação da sociedade.

A Guerra do Paraguai exigiu a constituição de um exército. Na realidade, o Brasil não estava preparado para uma guerra, pois não dispunha de força armada moderna. Como o Paraguai tinha essa força armada constituída e moderna, tornou-se necessário que o Brasil montasse, pela primeira vez, um exército moderno, exército que vai para o Paraguai e faz a Guerra.

Não se monta impunemente, contudo, uma força armada moderna. Depois de tê-la formado, não se pode mais descartá-la. O que fazer com ela? A partir daí é que se instaura a Questão Militar, que iria progressivamente se aprofundando. E como não se pode desmontar a força armada, acaba-se por desmontar a própria Monarquia. Isso significa dizer que, para eliminar sua incompatibilidade visceral, a sociedade irá adequar-se à força armada moderna, e não a força armada moderna à sociedade. Este é o fundamento da Questão Militar.Outros aspectos menos importantes também devem ser considerados. A ideologia do Império Brasileiro sempre foi a de que a Monarquia era a civilização, enquanto a República era a barbárie.Esta foi, inclusive, a ideologia da diplomacia brasileira no século 19. Diplomacia que foi brilhante, exceto em alguns momentos, quando ela tinha de seguir as razões de Estado, como qualquer outra diplomacia.

Durante todo aquele período da primeira à segunda metade do século19, na ideologia do neo-imperialismo, Uruguai. Argentina e Paraguai eram países chamados barbaresques, em francês, mesmo que se estivesse falando no Parlamento inglês. O que se quer dizer com barbaresque? Barbaresque é um lugar que não só pode como deve ser invadido para ser civilizado. A opção da Monarquia brasileira era a seguinte: cabia provar que esta não era uma terra barbaresque.Era preciso provar que o Brasil não podia ser invadido, como o fora a Argélia, porque aqui havia um rei.

Costumo dizer que a Independência foi uma revolução conservadora no Brasil. A expressão pode parecer paradoxal, mas é a mais apropriada. É uma revolução porque uma colônia transforma-se em Estado soberano; mas é conservadora porque, com a vinda da Corte portuguesa, este fenômeno absolutamente extraordinário da história do Brasil, essa peculiaridade única da nossa história – a colônia colonizando a metrópole – a iniciativa da metrópole tinha ido tão longe que ultrapassou o ideário do senhoriato brasileiro, um senhoriato que estava realmente inventando uma nação.

A fórmula da Independência brasileira deixou-nos um legado da colonização sob a forma de um Império, que era uma garantia de continuidade. A idéia de Império era, portanto, uma idéia de preservação territorial e, até mais do que isso, era uma idéia expansionista, que se apresentou, desde o início, nas intervenções cisplatinas.

Mas o fato é que, com a guerra, a aliança com a Argentina e o Uruguai fez com que a afirmação segundo a Monarquia é a civilização e a República é a barbárie perdeu sua força, porque na Guerra, o Brasil teve que se aliar com duas repúblicas para lutar contra uma terceira.

Voltemos à nossa questão: como foi possível que, tendo uma estrutura incompatível com a existência de um exército moderno, o Império Brasileiro tenha se envolvido em uma guerra que exigia a montagem de modernas forças armadas? Essa questão relaciona-se com a forma pela qual o Brasil emerge como nação.

Não foi um erro de visão dos estadistas do Império do Brasil envolverem o país na Guerra do Paraguai. A guerra realmente comprometia a estrutura política e social do Império, porque criava um exército moderno incompatível com o escravismo. Mas, se a guerra não foi um erro, ela foi uma necessidade. O eixo da vida política brasileira no século 19 girava em torno dessa contradição.

Neste sentido, pode-se dizer que a grande vantagem que tivemos com a Guerra do Paraguai não foi vencer a guerra, mas participar dela, porque ela expôs as contradições, tornou pública a política brasileira da época, questão que se resolveu com a República, ou, pelo menos, começou  a se resolver a partir da República::

O (segundo) mês da Guerra do Paraguai::A guarda morre, mas não se rende::

A Guerra do Paraguai durou bem mais de dois meses – para sermos mais exatos, durou mais de 70 meses… O número de mortos, ninguém nunca irá calcular, já que naquela época, não existiam metodologias seguras de identificação e registro de baixas, em lugar nenhum do mundo. Já a frase posta como chamada, aí em cima é atribuída ao general francês Pierre -Jacques-Etienne Cambronne (La garde meurt mais ne se rend pas! – se você conseguiu ler isto, poderá ler a biografia do general, aqui) , comandante da Guarda Imperial, durante a batalha de Waterloo. O redator, apesar de reconhecer em si mesmo certa teatralidade (outros diriam “canastrice”…) não quer chegar a ser bombástico, mas o fato é que o governo federal continua empenhado em seu objetivo de devolver “El Cristiano” para o governo paraguaio, tendo encarregado o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) de tomar as providências para tanto. O interessante é que o canhão, do qual os oito leitores de causa:: já estão íntimos, está instalado num pátio interno do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, desde 1922, quando o prédio do antigo Arsenal de Guerra, então vazio, foi reformado para as festas do Centenário da Independência. O “Cristiano” já se encontrava lá desde 1871, pelo menos, como parte do acervo do Museu de Artilharia (não confundir com o museu português com o mesmo nome, existente até hoje). Com a transferência do Arsenal para novas instalações na ponta do Caju, o Exército tinha esvaziado o prédio, mas largou lá uma coleção de bocas-de-fogo considerada, hoje em dia, a mais importante existente na América Latina. Essa coleção foi um dos núcleos em torno dos quais formou-se o MHN (esta página contém um excelente documentário fotográfico sobre o MHN na atualidade – procure pelo item “Vistas do pátio interno onde existe uma exposição de canhões antigos e históricos“). Em 1972, quando o governo militar (por isso que este redator vive dizendo: militar serve para muita coisa, menos para ser governo…) permitiu que parte dos objetos capturados durante a guerra fosse devolvida ao Paraguai, “El Cristiano” se encontrava naquela lista, mas acabou ficando porque não se conseguiu encontrar uma forma de removê-lo da posição onde se encontrava (e ainda se encontra) sem detonar o prédio histórico. Pois muito bem: parece que as atuais autoridades não estão nem aí para o prédio, que terá de ser parcialmente demolido (a um custo altíssimo) para depois ser reconstruído. E o governo brasileiro ainda pretende que seja construído um memorial à paz com o Paraguai no lugar onde, por quase noventa anos, o canhão esteve instalado (!!!). Mas o que tem a frase da chamada com tudo isso? Aparte o fato de que o redator gosta de frases bombásticas, é para frisar que a posição de causa:: na questão, embora não faça diferença alguma, não mudou, e não mudará.

Ou seja…

Existem questões políticas que remetem ao interesse nacional, e que devem ser implementadas pelos governos, com o uso de todas as ferramentas que lhes estejam disponíveis, mas não em detrimento de valores que constituam parte da identidade nacional. As relações políticas e econômicas com a República do Paraguai são, sem dúvida, parte importante do conjunto de relações internacionais que o Brasil mantêm com seus vizinhos latino-americanos, e que, desde muito tempo, têm se pautado pela busca do entendimento. Esse objetivo, entretanto, não deve ser construído sobre o ocultamento da história. Museus e monumentos (dos quais os troféus de guerra são uma categoria) foram inventados para permitir que as gerações futuras cultivem os acertos e reflitam sobre os erros – para que relembrem, enfim que a história é dinâmica, e que o passado é apenas parte dela.

E, completando, o redator pede licença para lembrar as nossas autoridades de que existem troféus de guerra tomados aos brasileiros em mãos da República do Paraguai, inclusive um navio inteiro, a canhoneira Anhabahy. Não seria uma atitude razoável, então, solicitar, educadamente, que sejam enviados para nós, pelo menos como gesto de boa vontade?..::

Cultura material militar::Minié: a arma da Guerra do Paraguai::

Já que o redator parte do princípio de que conhecemos pouco nossa história, evidentemente que os inúmeros desdobramentos dela, conheceremos menos ainda. Assim, a história da técnica não será exatamente a especialidade mais conhecida mesmo entre interessados. Fanático por tecnologia, o redator resolveu dar uma espiada na cultura material militar do período da Guerra do Paraguai. O resultado foi que, ao contrário do que se possa imaginar, as forças armadas do Império do Brasil não estavam assim tão mal equipadas, durante aquele conflito. Embora as autoridades da época não tenham dado grande atenção ao Exército (a Marinha foi tratada um pouco melhor), a partir dos anos 1850, a seqüência de conflitos na região do Prata, ou seja, conflitos internacionais, fez com que o governo olhasse com maior cuidado para a capacidade de seus militares. Abaixo, examinaremos uma das armas revolucionárias que surgiram no século 19, revolução que alcançou os campos de batalha sul-americanos::  

parte 1Embora travada em um ambiente economicamente periférico e tecnologicamente insignificante, do ponto de vista da inovação, a Guerra do Paraguai incorporou, de ambos os lados, alguns avanços significativos, que ajudaram a tornar o conflito um dos mais mortíferos do século 19. Um desses avanços foi o fuzil Minié, distribuído em grandes números para o exército do Império. Essa foi uma das mais importantes inovações técnicas no campo de batalha do século 19. Surgiu em 1849 como conseqüência da invenção do projetil Minié, em 1847. A arma de Minié era, de fato, um conjunto de inovações adotadas em torno de um novo tipo de projétil. Em algum lugar do blogue das boas causas falamos de como uma das formas de melhorar a precisão do tiro seria raiar o cano da arma, de forma a imprimir ao projétil movimento giratório, de modo a estabilizar seu centro de gravidade e, por conseguinte, a trajetória de vôo. O problema é que, nas armas de antecarga (carregadas pela boca), os projéteis ou tinham de deslizar por dentro do cano, até a câmara da arma, ou tinham de ser forçadas até lá por uma haste, o que tornava o carregamento muito lento. Com o raiamento do cano, o processo se tornou ainda mais complicado, pois o projétil, ao moldar-se às raias, descia de maneira ainda mais lenta. Uma idéia que surgiu no final dos Setecentos foi usar projéteis cujo calibre, apenas ligeiramente inferiores ao diâmetro do cano da arma, se deformavam com a explosão do propelente, amoldando-se ao cano e, conseqüentemente, ao raiamento. O projétil de Minié foi uma idéia revolucionária, mas não surgiu da noite para o dia. Foi inventado pelo capitão do Exército Francês Claude Etienne Minié, mas teve a ajuda do colega Henri-Gustave Delvigne. Delvigne foi o inventor de um fuzil raiado eficiente, em 1826, utilizando um projétil de formato esférico que seria socado através da vareta contra uma superfície semi-esférica, adaptando-se assim ao raiamento do cano. O problema era que o método de carregamento deformava o projétil, comprometendo-lhe a eficiência. Delvigne teve então a idéia de introduzir na parte posterior do projétil de chumbo um pequeno taco de madeira. Essa peça deveria limitar a deformação do projétil, sem impedir que este se amoldasse aos sulcos do raiamento. A inovação mostrou-se bastante eficiente, e difundiu-se rapidamente em todos os exércitos. O raiamento tornava o disparo muito mais preciso e aumentava o alcance da arma sem exigir um notável aumento do tamanho do cano. Esse fator marcou a superioridade dos fuzis sobre as armas de alma lisa, então ainda muito comuns.

O fuzil Minié, assim como seu predecessor, o Delvigne, ainda eram, tecnicamente, mosquetes, mas isso não é ainda muito importante. O ponto de inflexão foi o ano de 1830, quando Delvigne iniciou o desenvolvimento dos projéteis cilíndrico-cônicos. Posteriormente, a introdução de ranhuras Tamisier (nome do inventor do processo, um oficial francês de artilharia) tornou os projéteis bem mais estáveis, embora tornassem o amoldamento às raias mais complicado. Na mesma época, outro oficial francês (era definitivamente a era dos franceses…) descobriu uma forma de controlar a deformação do projétil, introduzindo um pino no centro da câmara, bem mais longo do que essa parte e fixado à culatra da arma. Esse pino fazia o projétil deformar-se quando pressionado contra ele pela vareta, amoldando-se às raias. Só que, nesse processo, o projétil tomava um formato alongado e mais aerodinâmico. Essas inovações, que surgiram umas após as outras, desde o início dos oitocentos, convergiram no *projétil Minié: tratava-se de um projétil cilíndrico-cônico feito de uma liga macia de chumbo. O Minié era ligeiramente menor do que o diâmetro do cano, e tinha quatro ranhuras bem pronunciadas, que eram preenchidas com graxa, e o interior era oco desde a base, em formato cônico. A novidade é que o capitão Minié substituíra o taco de madeira por um pequeno tarugo de metal, acoplado de maneira folgada à parte inferior do interior oco, mas sem o preencher. O carregamento acontecia com o atirador deixando a pólvora negra escorrer para a câmara, e em seguida fazendo o projétil deslizar para sua posição, sobre a pólvora. Era necessária apenas uma pancada com a vareta, pois a graxa ajudava o projétil a deslizar. Acionado o gatilho, a explosão do propelente lançava o tarugo de metal para a parte vaia do espaço cônico dentro da bala, uma fração de segundo antes do início da trajetória desta através do cano. O resultado é que o tarugo, mais duro que o chumbo, fazia o projétil expandir-se o suficiente para amoldar-se ao raiamento, sem deformação notável, mas suficiente para obturar a câmara e potencializar a expansão dos gases gerados pela explosão. A graxa, derretida pelo súbito aquecimento, tornava mais fácil o trajeto.

Testes realizados em 1849 demonstraram que a potência de um disparo usando o sistema Minié era capaz de penetrar duas pranchas duplas de madeira-de-lei separadas por 50 centímetros, a uma distância de uns 15 metros; entre os soldados começou um falatório que dizia que, a mil metros, um disparo de Minié atravessava um homem e sua mochila, e ainda poderia derrubar o cara que estivesse atrás dele. Posteriormente, os boatos aumentaram: a mil metros, um disparo de Minié atravessava uma linha de 15 homens.

Mesmo assim, a distribuição do novo fuzil foi lenta, embora diversos exércitos o tenham testado. Durante a Guerra Civil Americana (1861-1865) tornou-se a principal arma de infantaria em ambos os lados. Os motivos que assustavam os combatentes eram os mesmos que tornaram a arma popular entre eles: a alta velocidade e o calibre aumentado pela deformação do projétil (em alguns casos, chegava a 18 mm) tornava qualquer ferimento incapacitante, se não mortal.

O fuzil Minié, do ponto de vista técnico, era uma arma de antecarga, com um fecho de percurssão que utilizava o sistema “de fulminante”. O calibre era de 18 mm (existiram versões em outros calibres), e o peso do projétil cilíndrico-cônico girava em torno de 32,4 g – a variação, quando acontecia, era mínima. O cano tinha o comprimento de 95.8 cm, para um comprimento total da arma de pouco mais de 140 cm. O peso era de cerca de 4,8 quilos. Seu alcance eficaz era de mais de 1000 metros, mas a precisão era bem razoável  a até 550 metros. Uma novidade bastante notável eram as novas alças de mira, capazes de apontar arma dentro das novas distâncias úteis.

Soldados negros do Exército da União armados com fuzis Minié. A revista Harper´s, criada em 1857, com base em Nova Iorque, notabilizou-se por enviar correspondentes de guerra que seguiam nos calcanhares das tropas em combate.

Um dado que deve ser levado em consideração é que o período em que surgiu o Minié foi o da Segunda Revolução Industrial. Essa segunda fase da Revolução Industrial teve grandes avanços na aplicação de conhecimentos científicos que resultaram em novas técnicas em siderurgia e metalurgia, bem como nos diversos ramos da indústria metal-mecânica. Esses desenvolvimentos afetaram todo o processo produtivo, permitindo a padronização confiável de peças mecânicas em metal. Essa padronização abriu a possibilidade de que uma arma robusta e precisa fosse distribuída em números razoáveis, afetando não apenas as doutrinas, mas também a logística dos exércitos.

O interesse gerado pela nova arma logo ultrapassou as fronteiras da França. Quase todos os países capazes de fabricar armas copiaram o projétil e *a arma (a da foto é um modelo fabricado na França para os japoneses, em 1866). O Brasil não era capaz de fabricar uma peça de tal complexidade, mas adquiriu uma pequena quantidade para testes, que foram realizados na Guerra contra Oribe e Rosas (1851); nessa campanha, outras armas de última geração também foram experimentadas, colocadas à disposição de pequenas frações de tropas. Por volta de 1860, (segundo informações levantadas por Adler Homero Castro), cerca de 2700 armas do sistema Minié, entre fuzis (armas de infantaria) e clavinas (armas mais curtas, de cavalaria), comprados na Bélgica, estavam em serviço. Em 1863, uma grande quantidade de armas desse modelo foi adquirida. Isso pode parecer que o Exército Imperial buscava padronizar seu equipamento, e isso talvez possa ser considerado correto. Mas é difícil promover qualquer processo de padronização num país sem infra-estrutura industrial. As compras são, geralmente de oportunidade, feitas segundo exista disponibilidade no mercado internacional. Com virtualmente todos os exércitos do mundo buscando adquirir a arma, nem sempre os fornecedores dispunham de estoques. Pouco depois dessa grande aquisição, outra foi feita, só que de armas que seguiam o modelo Enfield – fuzil-mosquete Enfield Pattern (Modelo) 1853, que a literatura especializada por vezes chama de P53 Enfield –, modificação da patente francesa feita na Real Fábrica de Armas Leves (RSAF, em inglês), situada em Enfield Lock, Grã-Bretanha.

Soldados confederados mortos em uma trincheira. Notar os fuzis P53, largados na cena.

O P53 era, basicamente, o fuzil Minié, mas disparava um projétil simplificado, sem as raias Tamisier. Nesse novo desenho, o tarugo de metal foi substituído por um de madeira ou argila. Posteriormente, o projétil deixou de ter um tarugo, pois se verificou que a explosão era suficiente para deformar o projétil e forçá-lo no raiamento sem provocar maiores problemas.

Em princípio, P53 e o Minié francês eram armas iguais, mas a decisão do governo brasileiro em adquirir lotes de ambas rapidamente causou grande número de problemas. Segundo Adler Homero, a alça de mira das primeiras Miniés, era regulada em braças (unidade de medida portuguesa usada no Brasil, até 1865), e a das P53 estavam em jardas (unidade do sistema de medidas britânico). O resultado é que, a partir de 1865, com a adoção do sistema métrico, a conversão tornou-se um problema. Mas isso nem era problema: em braças ou jardas, as armas disparavam. Mas a pequena diferença (0,14 mm – quatorze décimos de milímetro) entre o calibre das duas armas era outra coisa. Essa diferença pode até parecer insignificante, principalmente em armas de antecarga, mas o fato é que o projétil das armas belgas não entrava nas inglesas; já o projétil de calibre menor, usado nas armas belgas, acabava não provocando o forçamento adequado nas raias. O resultado é que o projétil perdia a estabilidade logo após no início do vôo.

A seguir, veremos algumas consequências do uso militar do sistema Minié, principalmente no Brasil::

Um rapaz da Forças Especiais::Luís Alves de Lima e Silva::

Precisa dizer mais?

Não, mas digamos assim mesmo. O Duque de Caxias nasceu Luís Alves de Lima e Silva, em 25 agosto de 1803, na Vila de Porto da Estrela, província do Rio de Janeiro (o lugar é hoje o pouco conhecido Parque Histórico Duque de Caxias, no município de Duque de Caxias). De uma linhagem de militares, seu pai, marechal-de-campo Francisco de Lima e Silva foi figura muito ligada ao Primeiro Reinado. Em 1808 o pequeno Luis Alves foi titulado Cadete de 1ª Classe – tinha então 5 anos de idade. Na época, isso não era nada de tão extraordinário, mas apenas uma forma da nobreza garantir vaga na carreira militar. O fato entrou para uma espécie de mirabilia militaris do futuro duque, forma de dizer – “nasceu para o exército”. Aos quinze anos, matriculou-se na Real Academia Militar, de onde saiu tenente, em 1821. Ao longo de sua carreira, mostrou-se tão hábil comandante militar quanto negociador político: participou ativamente das campanhas do Exército para pacificar a província do Maranhão, da qual foi presidente; em 1842 foi enviado com tropas do Império para as rebeladas província de São Paulo e de Minas Gerais, envolvidas na “Revolução Liberal”; foi chamado para pacificar a Região Sul do país, incendiada pela Revolta Farroupilha, a “Guerra dos Farrapos”. Em todos essas missões, mostrou-se negociador político sensato e sagaz: não humilhava os vencidos, visando sempre a conciliação, tendo em vista a unidade da formação política em construção, o Império do Brasil. Mas também era competente líder militar, que não hesitava em se colocar à frente de seus homens, como na batalha da Ponte de Itororó, em 6 de dezembro de 1868: “sigam-me os que forem brasileiros!”. Segundo Affonso de Carvalho, “…toda aquela massa que há pouco amolecera e se desfibrara sob a ação do pânico, readquire de súbito sua vitalidade e poder combativo…”; já Dionísio Cerqueira aponta: “…houve quem visse moribundos, quando ele passou, erguerem-se brandindo espadas ou carabinas para caírem mortos adiante…”. É claro, são exageros literários, mas a atitude de Caxias, que não era rara entre os militares de sua época, em todo o mundo, expressa a dedicação desses homens à carreira militar. Poderíamos falar muito sobre seu período no comando do exército em campanha no Paraguai, mas o talento do duque pode ser facilmente constatado em muitos livros e milhares de entradas na Internet.

Em sua homenagem, o dia de seu nascimento, 25 de agosto, passou a ser a data oficial do Dia do Soldado. Foi de Vargas a iniciativa de elevar Caxias à patrono do Exército, e colocá-lo a repousar, definitivamente, diante do quartel maior da força terrestre, desde sempre: o campo de Santana, no Rio de Janeiro. O fato é que a escolha foi tardia, e foi política, numa época em que Vargas procurava mobilizar símbolos da nacionalidade, e encontrou no duque uma expressão da unidade nacional. Até então, o “patrono informal de todos os soldados” era o marquês do Herval, Manuel Luís Osório, exemplo de soldado de carreira, cavalariano, homem do povo e liberal por profunda convicção. Caxias sempre foi homem do establishment conservador, último pilar do Império do Brasil, ao qual serviu dedicadamente por mais de 50 anos. Mas essa é outra história, e não denigre em nada a trajetória do marechal.

O visconde de Taunay,  major-engenheiro militar, autor do clássico “A Retirada da Laguna” descreveu os funerais do velho marechal, em 1880: “Carregaram o seu féretro seis soldados rasos; mas, senhores, esses soldados que circundam a gloriosa cova e a voz que se levanta para falar em nome deles, são o corpo e o espírito de todo o Exército Brasileiro. Representam o preito derradeiro de um reconhecimento inextinguível que nós militares, de norte a sul deste vasto Império, vimos render ao nosso velho Marechal, que nos guiou como General, como protetor, quase como pai durante 40 anos; soldados e orador, humildes todos em sua esfera, muito pequenos pela valia própria, mas grandes pela elevada homenagem e pela sinceridade da dor”.

O sociólogo Gilberto Freyre, tendo tido sua atenção chamada para o termo “caxias”, usado tanto por militares quanto por civis para definir alguém que não tergiversa diante de seus deveres, escreveu, sobre o assunto: “Caxiismo não é conjunto de virtudes apenas militares, mas de virtudes cívicas, comuns a militares e civis. Os “caxias” devem ser tanto paisanos como militares.” O jornalista Barbosa Lima Sobrinho encontrou no duque um  “Patrono da Anistia”, em função da sensibilidade política do marechal. O povo brasileiro ainda hoje continua usando a expressão no mesmo sentido analisado por Freyre. Uma coisa é certa: precisamos de mais “caxias” neste país::

Um rapaz das Forças Especiais às Terças::Alferes Pio Correia da Rocha, 1866

Alferes (segundo-tenente) de infantaria (o sabre distingue um oficial dessa arma) do 7° Batalhão de Voluntários da Pátria Pio Corrêa da Rocha, de Araraquara, na província de São Paulo. O alferes Pio morreu aos 22 anos, possivelmente em decorrência de ferimentos de combate sofridos na batalha de Curupaiti, em junho de 1866 (leia a história completa da batalha aqui, e a de Pio, aqui). Não se conhece maiores informações sobre a breve carreira militar do alferes Pio, apenas que teria sido um voluntário disciplinado, foi promovido a primeiro-tenente por merecimento e era portador de condecorações. O alferes é hoje nome de uma rua em São Paulo, e a cidade de Araraquara tenta preservar sua memória. Existem muitos monumentos à memória de generais, mas, até onde saiba esse redator, nenhum homenageia o soldado sem sepultura, pois, depois da guerra, o Império do Brasil não se importou em identificar cemiterios de campanha. Em Campos dos Goitacazes (RJ), desde 1947, o capitão de Voluntários da Pátria Manuel Teodoro Batista, morto em 1866 em um hospital de Buenos Aires, por ferimentos sofridos na Batalha de Tuiuti, descansa em um dos ângulos do “Monumento ao Soldado Brasileiro”; em Monte Alegre de Minas encontra-se o único cemitério identificado onde repousam mortos da Guerra do Paraguai; em Barra dos Bugres (MS), um monumento lembra os mortos sem rosto daqueles seis anos memoráveis.  Quem conhecer algum outro, manifeste-se…::

Cultura material militar::Troféus, triunfos e o obuseiro “El Cristiano”:tudo a ver::

Pois é – temos de admitir: não conhecemos nossa própria história. Não a história dos cientistas, que enxerga por trás dos fatos, mas a história que nos cimenta como povo e nos consolida como Nação. Vivessemos em outro país, nunca um governo – qualquer governo – teria a ousadia de propor a devolução de um troféu de guerra. Em outro post, nesta série “O mês da Guerra do Paraguai”, falamos sobre “memória social” e “lugares de memória”. Troféus são “lugares de memória”, assim como são “monumentos”, ou seja, marcas que o presente, projetando-se no futuro como passado, tenta legar às gerações futuras. Nossa palavra “troféu” vem do francês antigo trophee, “presa de guerra”, que, por sua vez, vem do latim trophaeum, literalmente, “monumento a uma vitória”. A Coluna de Trajano, por exemplo, até hoje existente em Roma, é um trophaeum que chegou até nós e descreve a campanha da Dalmácia, desde sua organização até a vitória. A campanha na Dalmácia é detalhadamente descrita, e boa parte do que conhecemos sobre o exército e as tropas romanas veio do exame dos frisos daquele monumento. Na Grécia Clássica, objetos comemorativos eram feitos a partir de equipamentos (espadas, elmos, escudos, lanças, etc.) capturados ao inimigo, e se destinavam a homenagear a memória de um herói. Navios inteiros eram onservados, para lembrar uma vitória naval. Conta-se que o “Argos”, navio dos argonautas da lenda de Teseu, matador do Minotauro e conquistador do “velocino de ouro”, foi conservado em Atenas durante séculos. Geralmente, uma inscrição com a narrativa dos feitos memoráveis explicava a razão da homenagem.

Os romanos, por outro lado, não erguiam apenas grandes estátuas, grupos escultóricos ou até mesmo prédios, para lembrar suas vitórias militares ou o que consideravam grandes marcos de sua civilização. Artefatos utilitários, como armas e objetos notáveis de seus inimigos, tomados em combate ou saqueados, eram levados até a capital do império postos a desfilar em grandes paradas chamadas triumphus (a própria Coluna de Trajano representa, simbolicamente, um triumphus). Esses objetos depois ficavam depositados em templos, sendo que, na época do império, eram dedicados a Júpiter Capitolino e, por isso, expostos no templo do deus, na colina do Capitólio. Não é preciso chamar atenção de como os triunfos romanos lembram nossas atuais paradas militares, particularmente as “paradas da vitória” (em 1945, várias paradas comemorativas foram realizadas em várias grandes cidades do Ocidente, inclusive em Berlim e no Rio de Janeiro). E os estados modernos de certa forma seguiram o costume romano de depositar em templos seus troféus de guerra, mas o fazem em seus modernos templos cívicos, os museus. Ou em espaços de memória similares, memoriais e mausoléus.

Assim, o obuseiro “El Cristiano” foi parar, provavelmente depois de 1870, no Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro, onde ficava, originalmente, exposto junto ao portão principal da instalação militar, sobre um simulacro de reparo construído especialmente para ele, no próprio Arsenal, em 1875. O Arsenal era, então uma das poucas instalações fabris existentes no então Império do Brasil com capacidade para fundir grandes peças de metal. Provavelmente em algum momento em 1921 ou 1922, o enorme objeto foi deslocado para dentro do prédio, que estava sendo reformado para a Exposição Internacional Comemorativa do Centenário da Independência. Já fazia então mais de 50 anos que se encontrava lá, maciço testemunho da grande vitória conseguida pelas forças armadas brasileiras.

Tecnicamente, “El Cristiano” é um obus, ou “obuseiro”, ou seja, uma arma de fogo de grandes proporções, mas não um canhão. A diferença é que o canhão, geralmente, destina-se a disparar em trajetória tensa, ou seja, apontado para o alvo. Já o obuseiro dispara em trajetória parabólica, embora numa parábola não tão acentuada quanto a de um morteiro. Por sinal, o obuseiro tem o tubo-alma relativamente curto em relação ao calibre. Num tubo-obus, os munhões (peças cilíndricas que fazem parte do tubo, e que servem para fixar o conjunto no reparo) situam-se mais-ou-menos na metade do comprimento total. Em tempos mais antigos da artilharia, uma das características do obuseiro é não disparar projéteis sólidos, mas granadas ou metralha.

“El Cristiano” foi fundido nas instalações de Ybicuy e acabado no Arsenal do Estado, em Assunção, no Paraguai, provavelmente em 1866 ou 1867. As igrejas do país “doaram” seus sinos ao Estado, o que não é estranho, pois tdas as nações fazem coisas semelhantes, em tempo de guerra. Por esse motivo, uma inscrição nos munhões diz “El Cristiano”, e do outro lado, “a religião ao Estado”. Seu calibre é de 305 mm (12 polegadas), o que indica o comprimento do tudo em 8,3 calibres, ou seja, 294 centímetros (num canhão, a relação seria de mais de 25 calibres). O peso total da peça é dado em algumas fontes como em torno de 12 mil quilos. Acredita-se que o peso tenha sido determinado quando do transporte da peça, mas nunca chegou a ser confirmado.

Embora fabricado em um arsenal do estado, “El Cristiano” não representa capacidade industrial fora do comum. O processo de fundição é de péssima qualidade, inclusive porque a liga de bronze utilizada em sinos não é adequada à fabricação de peças de artilharia. Sinos utilizam liga de menor densidade o que, na hora da fundição, resultou num material muito poroso nas proximidades da boca. De fato, toda a peça é extremamente mal-acabada. O fato pode ser explicado porque, em peças de artilharia modernas, em que o processo de fundição industrial eliminou o acabamento artístico e a inserção de medalhões, cartelas e golfinhos (espécie de alças situadas na seção superior do tubo, que serviam para move-lo, passando-se cordas ou varais através delas) que eram verdadeiras esculturas, o acabamento era feito em grandes tornos movidos a vapor, e por processos químicos, destinados a aumentar a durabilidade da peça, protegendo o metal. O acabamento ruim tem duas possíveis explicações: a peça foi fundida às pressas, para atender as necessidades militares do exército paraguaio, ou o arsenal do estado não tinha tornos suficientemente possantes para girar peças daquele peso.

O obuseiro esteve inicialmente instalado no forte de Curupaiti, de onde foi retirado para ser reinstalado, provavelmente “a barbeta” (numa posição protegida, mas não acasamatada, onde as peças disparam sobre uma amurada), na fortaleza de Humaitá, na principal bateria, que merecia o nome de “Londres” (apesar de não ter nada a ver com a Grã-Bretanha), artilhada com mais de 180 peças de diversos calibres. A especulação sobre a posição dessa peça de artilharia deve-se à constatação (feita por Adler Homero Castro em suas pesquisas) de que dificilmente se conseguiria disparar dela um projétil sólido pesando cerca de 200 quilos sem faze-la rebentar. Assim, é mais provável que disparasse granadas de aproximadamente 80 quilos, cheias de pólvora e reguladas para explodir por fuso. Mas é muito provável que, de fato, “El Cristiano” nunca tenha sido disparado. Quando a fortaleza foi invadida pelas tropas brasileiras comandadas pelo marquês de Caxias, os paraguaios demoliram a bateria Londres e lançaram as bocas-de-fogo ao rio. Terminada a guerra, provavelmente em 1871, a Marinha Imperial, cujos encouraçados levaram muitos tiros disparados daquela posição fortificada, retiraram a peça da água e ela foi levada para o Rio de Janeiro. Outro canhão de grandes proporções, o Criollo, foi levado para a Argentina.

Algumas fotografias dessa peça de artilharia podem ser vistas aqui. Por sinal, não deixe de ler o texto de Adler Homero Castro. Um outro ponto de vista pode ser conferido aqui. É um contraditório bem menos razoável do que outros que têm aparecido na Grande Rede. Confiram os dois, e decidam por si::

O mês da Guerra do Paraguai::A guerra, as patriotadas e a revisão científica::

Um dos oito assíduos leitores do blogue das boas causas, a Alba, dileta amiga da época do Weblog, enviou um contraditório de peso sobre a questão do obuseiro “El Cristiano”. Trata-se de um artigo, publicado na Folha de São Paulo pelo grande historiador Boris Fausto. Ora, uma opinião desse cientista não pode ser descartada, de modo que, com permissão da Alba e – espero… – dos editores da FSP, transcrevo na íntegra, para que os oito leitores possam comparar com meus próprios argumentos.

Aproveito para esclarecer, uma vez mais, que o redator aqui tem uma opinião formada, e não irá revê-la, ainda que seja voto vencido. Entretanto, isso não significa não admitir que é muito oportuna a revisão da história da guerra, por sinal, muito mal conhecida. Não só da guerra em si, mas de toda a dinâmica política e social que a produziu. Não desanimemos: a história militar brasileira começa a passar por ampla revisão, e a conectar-se com a história política e com a história social. Boris Fausto tem razão quando afirma que, até recentemente, a visão predominante tem sido a “patrioteira”, decorrente da apropriação por historiadores amadores (em geral militares de carreira) dos fatos que, dizem essas pessoas, são de exclusivo interesse das forças armadas. No extremo oposto, a partir dos anos 1970, um conjunto de “pesquisas” geralmente levadas a cabo por jornalistas buscou desqualificar os principais episódios militares brasileiros. Não foi apenas o jornalista Schiavenatto, com seu “Genocídio americano” (a editora, até onde lembro, foi a Brasiliense), mas também o global William Waack, com um livro sobre a FEB, no qual os oficiais brasileiros são apresentados como barnabés incompetentes e os pracinhas como uma trupe maltrapilha e indisciplinada. Na década de 1980, algumas pesquisas acadêmicas começaram a recolocar a questão militar, e alguns textos de extração jornalística apresentaram os fatos de modo menos tendencioso. O jornalista Ricardo Bonalume Neto publicou “A nossa Segunda Guerra Mundial“, uma visão bem mais equilibrada sobre a FEB. Mais até, formulou a tese de que pesquisas como a de Waack – e, digo eu, a de Schiavenatto – apenas expressavam a inevitável antipatia da sociedade civil pelas forças armadas, após 1964. Atualmente, essa implicância tem se dissipado, em função do retorno das FA às suas funções constitucionais, e a universidade tem olhado com mais interesse as questões militares, embora a produção historiográfica ainda seja tímida, e tenha alcançado menos a Guerra do Paraguai. Mas, como estamos vendo, alcançará, como mostra o artigo de Boris Fausto. Mas ainda fica devendo, por exemplo, uma história militar sobre a Guerra dos Trinta Anos no Brasil – na opinião deste redator, a maior guerra que nossa história registra. Por sinal… Alguém sabe do que fala este redator?..
Resta perguntar, entretanto, o motivo que torna a devolução do obuseiro “uma ato de justiça”. Como assim? Mesmo se não considerarmos o fato de que o então Império do Brasil foi atacado sem provocação (o que começou a guerra), a fortaleza de Humaitá foi tomada aos paraguaios depois de uma campanha longa e muito bem travada, um tipo de operação que é chamada pelos militares de “operação combinada”. O general Lima e Silva, depois duque de Caxias, no comando das operações mostrou notável visão estratégica, e, por essa atuação, qualificou-se como um dos grandes comandantes militares das Américas, no século 19.
“El Cristiano” foi retirado de lá e trazido (sabe-se lá a que esforço) para o Rio de Janeiro como tributo à memória dos 50 mil brasileiros que, como chama atenção o professor, deixaram suas vidas ao longo do curso do rio Paraguai. Assim, se for decidido que esse objeto deve ser devolvido, que seja, mas classifiquemos tal iniciativa corretamente: é um ato político, e, como todo ato político, deverá ser julgado pela História.
Esse redator espantado também não consegue não consegue atinar os motivos que levaram o general Gilberto Barbosa de Figueiredo a classificar a devolução de um troféu como “ato de grandeza”. Pode até ser, mas grandeza mesmo tiveram os dois povos, que souberam conviver, depois da guerra, e até hoje, em mútua tolerância::

O valor de um canhão
BORIS FAUSTO COLUNISTA DA FOLHA

Revisão histórica da Guerra do Paraguai afasta influência da Inglaterra no maior conflito bélico da América Latina

A pedido do vice-presidente do Paraguai, Federico Franco, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a decisão de devolver àquele país o canhão “Cristão”, fabricado pelos paraguaios a partir de sinos de igrejas, no curso da guerra com a Tríplice Aliança, formada pelo Brasil, a Argentina e o Uruguai, entre 1864 e 1870. A medida foi aplaudida pelo presidente do Clube Militar [general Gilberto Barbosa de Figueiredo], afirmando que “normalmente não se devolve troféu de guerra, mas o povo paraguaio merece; é um ato de grandeza”. Aplausos, com um pequeno adendo: mais do que um ato de grandeza, a devolução é um ato de justiça.“Guerra brasileira”
A Guerra do Paraguai foi o fato mais relevante da história latino-americana, na segunda metade do século 19. A luta contra aquele país, liderado por Francisco Solano López, que a princípio reuniu os três países citados, passou a ser, cada vez mais, uma “guerra brasileira”, seja pelos efetivos militares envolvidos, seja por sua repercussão interna. O episódio tem também muito interesse pelas controvérsias historiográficas que gerou. Até anos recentes, Solano López era considerado, no Paraguai, um herói nacional; no Brasil, foi pintado como um tirano sanguinário, que tivemos de esmagar, apesar de nossa vocação pacifista.
Nem tão herói assim. Essas visões mudaram nos dois lados, pois, se Solano continua a ser um herói da pátria para a maioria do povo paraguaio, vários historiadores daquele país promoveram a revisão para baixo de sua figura. Quanto ao Brasil, a Guerra do Paraguai foi descrita e analisada, por muitas décadas, a partir de uma versão patrioteira. Qualquer outra versão era considerada impatriótica e implicitamente perigosa. Uma reviravolta ocorreu a partir dos anos 1960 do século passado, no âmbito da voga do nacionalismo anti-imperialista, nos meios intelectuais da América Latina. Um dos pontos centrais da revisão diz respeito às causas da guerra, atribuída às maquinações do imperialismo britânico. Um livro típico daquela época, “Genocídio Americano – A Guerra do Paraguai”, do jornalista Julio José Chiavenato (1979, ed. Moderna, esgotado), teve imenso sucesso nas escolas brasileiras, incorporando a versão conspirativa. Segundo o autor, ao destruir o Paraguai, o imperialismo inglês manteve o status quo na América meridional e impediu a ascensão de seu único Estado economicamente livre. Hoje, a tese conspirativa está desacreditada, graças aos trabalhos de Francisco Doratioto, baseado em fontes brasileiras e paraguaias (“Maldita Guerra”, 2002, Cia. das Letras), e de outros historiadores, como Ricardo Salles [“Guerra do Paraguai – Escravidão e Cidadania na Formação do Exército”, Paz e Terra] e Vitor Izecksohn [“O Cerne da Discórdia – A Guerra do Paraguai e o Núcleo Profissional do Exército”, E-Papers]. Na verdade, aos ingleses interessava acima de tudo a estabilidade da região, como garantia de seus bons negócios, e não um conflito. É certo, que após estourar a guerra, bancos ingleses financiaram o Brasil, agravando aliás o problema de nossa dívida pública, mas isso é outra história. O conflito teve causas locais, embora nem sempre fáceis de discernir. ~
Morticínios De um lado, Solano López, que instaurara no Paraguai uma ditadura férrea e convertera o país numa grande fazenda pertencente ao Estado, pretendia romper o relativo isolamento paraguaio e abrir caminho para uma presença maior na bacia do [rio da] Prata. De outro lado, as pretensões paraguaias eram tidas como francamente expansionistas e vistas com suspeita pelos países da Tríplice Aliança. Se López não era um herói precursor do anti-imperialismo, o Brasil liberal, mas escravista, não ficava em boa posição na luta contra o ditador. Além disso, ao longo do conflito, as forças brasileiras perpetraram uma série de morticínios, assim como o saque de Assunção, quando a capital paraguaia foi ocupada, em janeiro de 1869. O que não quer dizer que as ações paraguaias não se caracterizassem também por muitas barbaridades. No terreno dos números, há uma total incerteza quanto às mortes do lado do Paraguai, variando as cifras entre 9% e 69% da população! O Brasil enviou para a guerra cerca de 139 mil homens, dos quais uns 50 mil morreram nos combates ou foram vítimas de doenças. Os contingentes incluíram, além do Exército, os “voluntários da pátria” -na verdade, gente enviada à força para a frente de combate, entre eles escravos que substituíram filhos da elite. Para qualificar o conflito numa frase, lembremos uma carta escrita pelo barão de Cotegipe para o barão de Penedo, em maio de 1866. Nela, há um trecho eloquente, lembrado por Doratioto: “Maldita guerra, atrasa-nos meio século!”. De fato, a guerra não nos atrasou meio século, como pensava o provecto barão, mas certamente mereceu o qualificativo de maldita.”
BORIS FAUSTO é historiador e preside o Conselho Acadêmico do Gacint (Grupo de Análise da Conjuntura Internacional), da USP. É autor de “A Revolução de 30″ (Companhia das Letras).

O mês da Guerra do Paraguai:: “El Cristiano”, a memória e o que podemos perder::

Semana passada, a coluna do Ancelmo Gois, no vibrante matutino carioca “O Globo” fez uma referência ao caso da devolução do obuseiro “El Cristiano”, troféu de guerra brasileiro depositado, desde 1870, no antigo Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro, prédio em que  funciona, até hoje, o Museu Histórico Nacional. Citou, claro, o Adler Homero (um dos que realmente entende do assunto, em nosso país…) e este redator; no lado contrário, Ancelmo mobiliza o arquiteto Carlos Fernando Andrade, superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no Rio de Janeiro. O distinto se posicionou favorável a volta do obuseiro ao Paraguai . Argumento: “Lutamos pelo repatriamento de todas as obras.”

Trata-se da declaração da autoridade responsável pela proteção legal e preservação do patrimônio histórico nacional no estado do Rio de Janeiro (por sinal, essa mesma autoridade criou um caso com a bandeira nacional em Cabo Frio). Não discutiremos a questão legal, que implica em destombar o bem. Isso é o mesmo que dizer que será necessário retirar de “El Cristiano” a cobertura do Decreto-Lei 25/1937, que instituiu a proteção do patrimônio cultural em nosso país. Essa questão é mais para juristas e advogados. De fato, existem diversas convenções internacionais que estabelecem a proteção de bens culturais em caso de conflito armado e também que determinam o retorno de bens que, por quaisquer motivos, tenham sido retirados de seus locais de origem. Essa discussão é intensa e interminável. Não vamos debater o fato de que essa regra é pensada com relação, principalmente, ao patrimônio roubado ou movido ilegalmente e a bens de origem arqueológica ou etnográfica, que, como todos sabemos, foram amplamente saqueados do mundo periférico, desde o século 19. O redator tem algum conhecimento desse movimento, amplamente incentivado pela UNESCO e seus conselhos específicos. É impossível não considerar justas as reivindicações feitas pela Grécia, Egito ou mesmo pelo Irã e Iraque, países que tiveram parte considerável de suas heranças patrimoniais dispersa pelo mundo. Supõe o redator que talvez o superintendente do IPHAN no Rio de Janeiro tenha essa preocupação em mente.

Outra questão a ponderar é quando o doutor Carlos Fernando se refere ao obuseiro como “obra”. Na medida em que “obra”, segundo a definição da maioria dos dicionários usuais, refere-se “aquilo que resulta de um trabalho, de uma ação”, ou ainda ao “resultado do conjunto do trabalho de um operário, artesão ou artista”, então, qualquer artefato é uma obra e, como tal, ligado a processos sociais, políticos, econômicos, tecnológicos, e por aí vai – enfim, a processos históricos e culturais. Se o obuseiro foi fundido no Paraguai e esteve instalado na fortaleza de Humaitá, então é de fato uma “obra” paraguaia, mas também está ligado a processos estritamente conectados com a história brasileira: trata-se de um troféu de guerra. Nosso argumento é que não pertence mais apenas ao Paraguai, mas principalmente ao Brasil. No Brasil, “El Cristiano” é um “lugar de memória” da Guerra do Paraguai e de tudo quanto ela significou e deveria significar.

Essa expressão vale um esclarecimento. Foi criada pelo historiador francês Pierre Nora.  Ele acreditava que, em nossa época, países e grupos sociais mudaram a relação que tradicionalmente mantêm com o passado. Assim, segundo esse especialista, uma das questões significativas da cultura contemporânea situa-se no entrecruzamento entre a relação com o passado (não importa se real ou construído) e o sentimento de pertencimento a um dado grupo; entre a consciência coletiva e individualidade; entre memória e identidade. Os “lugares de memória” seriam, pois, lugares sociais referentes a construção, sempre secular, das identidades e da memória dos países e das diversas comunidades que os formam.  O interessante é quando essa discussão foi lançada na França, no início dos anos 1980, foi considerada muito oportuna, pois se sentia urgência em refletir sobre esses processos, diante das avassaladoras e então ainda novas realidades da proposta da União Européia, da globalização e do multiculturalismo. O conceito tornou-se, desde então, uma das principais ferramentas de análise e reflexão de inúmeras categorias de cientistas sociais, e expandiu-se às preocupações políticas dos Estados.

Uma pergunta que não quer calar é o que pretendemos fazer com a memória da Guerra do Paraguai, processo que faz parte da dinâmica histórica da nação brasileira, mas deve ser visto em um contexto mais amplo e complexo. Alguns especialistas dizem que o Brasil tem uma sociedade fraca e um Estado forte, o que significa que, quando se coloca uma questão como a da devolução de um bem da significação de “El Cristiano”, tende-se a colocar os interesses do momento em detrimento da questão de fundo, que é a da memória histórica e a construção das identidades. Não é que pretenda o redator que o obuseiro deve ficar e acabou. O problema é que não acontece debate algum e o ponto de vista “forte” prevalece. Este blogue não tem a menor esperança de que ainda reste lembrança, mas em 1972 diversos objetos e documentos escritos tomados aos paraguaios foram devolvidos pelo governo militar, em função do acordo que estava sendo urdido para a construção de Itaipu (se os oito leitores tiverem paciência, chegaremos lá…). Esses objetos estão hoje expostos em Assunção, junto com restos de navios brasileiros capturados depois da retirada de Barroso do teatro operações de Riachuelo, onde os brasileiros venceram a memorável batalha naval.

A atual realidade é a da tentativa de construção de uma estrutura de integração política e econômica latino-americana, o Mercosul, mas também das relações bilaterais com o Paraguai. A demanda paraguaia pela revisão das relações políticas e econômicas se expressa na revisão do acordo de Itaipu, e o argumento de que esse tratado foi firmado por duas ditaduras tem sido invocado como razão para um possível reexame.

O general Alfredo Stroessner desde 1954 ditador do Paraguai assinou, em 1973, com o general Garrastazu Médici, o acordo que viabilizou juridicamente a construção da usina hidrelétrica de Itaipu, que firmou os entendimentos a respeito do aproveitamento compartilhado pelos dois países, do potencial hidrelétrico do rio Paraná. O tratado foi de importância estratégica, que se tornou ainda maior em função do afastamento observado entre os dois países, cujas relações foram, desde a Guerra da Tríplice Aliança, um tanto frias. Segundo alguns estudos, para o Brasil, as relações com o Paraguai tinham por objetivo expandir sua área de influência geopolítica na região do Prata. A posse da região de Sete Quedas, entretanto, transformou-se em uma questão conflituosa, que não poderia ser conduzida sem o envolvimento da Argentina. Brasil e Paraguai insistiam em conduzir o problema como bilateral; o governo argentino, à época também ditatorial, colocava a questão como de interesse de todos os demais ribeirinhos. Ao se entender com o Brasil, o Paraguai fez opção definitiva por entrar na esfera de influência geopolítica de nosso país, influência que se traduz num claro desequilíbrio nas relações econômicas.

O redator imagina que todos nós concordaríamos com o especialista Ronaldo Alexandre do Amaral e Silva, quando este afirma, em sua dissertação de mestrado, que “… Itaipu é fundamental para o Brasil pelos benefícios do fornecimento de energia e de atração do Paraguai para uma parceria de prazo indeterminado; e é mais fundamental ainda para o Paraguai, um país com limitados recursos naturais e que, ao mesmo tempo que se torna parceiro estratégico do Brasil, ganha poder de barganha nas relações com o vizinho. Por esse motivo, Itaipu é, indubitavelmente, outro grande marco na reaproximação brasileiro-paraguaia.” O que se deve discutir é se os marcos da memória histórica e social do Brasil devem ser sacrificados em função da resolução das dificuldades que se coloquem na relação entre os dois países.

O mês da Guerra do Paraguai::Algumas observações sobre as origens da guerra

Nos 140 anos que nos separam do fim da Guerra do Paraguai, a situação mudou bastante na região do Cone Sul do continente sul-americano. Embora as encrencas eventuais com nosso ex-inimigo e ex-aliados, o horizonte agora é de boa vontade mútua, embora ainda se note, vez por outra, alguma desconfiança da nação guarani com relação a seu enorme vizinho tupi – ou seja, nós mesmos.

O que não mudou é que os interesses brasileiros na região continuam muito grandes, embora tenham mudado um pouco de caráter. Agora, giram em torno da energia produzida pelo complexo de Itaipu, empresa administrada em parceria entre os dois países. Os interesses no Uruguai, por outro lado, agora são menores. Cento e quarenta anos atrás, a colônia brasileira no Uruguai equivalia a uns 50 mil brasileiros, população igual ou talvez maior do que a da acanhada cidade de Montevidéu. Os interesses dessa gente eram ligados pelos mais diversos laços, aqueles dos brasileiros residentes no Rio Grande do Sul.

A região, hoje pacífica, era então palco de conflitos armados constantes, de maior ou menor intensidade. Por ali, todo mundo tinha certa capacidade de mobilizar milícias. Região de “fronteira viva” por excelência, era habitada por gente que sabia montar (muito bem), sabia manejar lanças de cavalaria (afinal, eram muito parecidas com as que eram usadas para reunir o gado) e sabia atirar (geralmente mal). Esses grupos de milicianos tiveram sua maior expressão na “califórnia do Chico Pedro”, grupo de ginetes reunido, durante a Guerra dos Farrapos, por Francisco Pedro Buarque de Abreu. Chico Pedro é um exemplo do tipo de miliciano que proliferou na região. Estancieiro na fronteira com o Uruguai, criou uma força militar para defender os interesses dos fazendeiros rio-grandenses no Uruguai. Enfrentou os bandos de “orientales” (uruguaios) que incursionavam pelo território brasileiro e acabou combatendo contra a rebelião farroupilha. Liderou um grupo de uns 400 cavaleiros levemente armados e altamente móveis, que atuavam reunindo-se rapidamente e incursionando contra objetivos adversários, numa espécie de “guerrilha a cavalo”. Argentinos e uruguaios também conseguiam reunir esse tipo de forças, que não eram unidades militares e, em combate, eram muito pouco confiáveis devido ao baixo grau de disciplina. As tropas milicianas dificilmente contavam com infantaria e artilharia: normalmente, a proporção era de 5/8 cavaleiros para cada infante. Seus líderes, embora tivessem postos atribuídos pela Guarda Nacional, não tinham formação militar. Eram, de fato, chefes e sua autoridade decorria do poder político local que exerciam em suas regiões. Não eram comandantes, na acepção técnica da palavra. O Império tinha a vantagem de poder contar com um pequeno exército profissional, formado por oficiais e soldados de carreira, embora a força militar estivesse, desde 1831, limitada a cerca de 17.000 homens.

Outra vantagem, maior ainda, que tinha o Império do Brasil, era a posse de uma Marinha de Guerra. Esta existia desde 1822, tendo como base os oficiais e marinheiros portugueses que haviam aderido ao novo país de forma mais-ou-menos consensual. Também foram contratados oficiais e graduados britânicos, desempregados após o fim das Guerras Napoleônicas, que vagavam pela América do Sul como soldados da fortuna. A esse pessoal, já com bastante treinamento e experiência de guerra, juntaram-se marinheiros nacionais. A extensa costa brasileira e o sistema viário inexistente faziam do transporte marítimo a principal forma de ligação entre as diversas regiões. Toda essa gente foi guarnecer navios de guerra portugueses apanhados em portos brasileiros ou adquiridos em países estrangeiros. De qualquer forma, a Marinha Imperial teve destino diferente do Exército, cuja confiabilidade foi comprometida pelos surtos de indisciplina durante o Primeiro Reinado, que culminaram com a quase desmobilização, na década de 1830. A Marinha, devido ao tamanho da costa brasileira, teve papel estratégico na Guerra da Independência, pois impediu, pelo bloqueio naval, a articulação das regiões onde as juntas governativas mantinham-se politicamente fiéis a Portugal, entre si e com o Reino. É interessante observar que a criação da Marinha teve forte influência de José Bonifácio e de Caldeira Brant Pontes, ambos diplomatas e conselheiros do Imperador, e que, tendo prestado serviços à Coroa portuguesa, provavelmente tinham idéia sobre a importância do controle do mar. A Marinha continuou, após a independência, cumprindo o papel de garantir as comunicações entre as diversas partes do Império do Brasil e, ao contrário do Exército, não criou problemas políticos. Teve papel fundamental na repressão de revoltas locais, como a Confederação do Equador, em Pernambuco, e na defesa da posição brasileira na Guerra  da Cisplatina (1825-1828). Nessa época, a Marinha já dispunha de 96 navios de diversos tipos, o que a tornava a maior da região. O corpo principal, formado por dois navios-de-linha (naus), dez fragatas e vinte corvetas, montava quase 500 canhões. Daí por diante, a presença naval brasileira na região do Prata seria constante, visto que os conflitos naquela região não cessaram. Em 1851, com o Império mais uma vez em guerra contra as Províncias Unidas do Rio da Prata, uma esquadra brasileira de 16 navios, comandada pelo vice-almirante John Pascoe Grenfell foi enviada à região. Nessa ocasião, a esquadra brasileira conseguiu ultrapassar o forte de Tonelero, efetuando o desembarque de tropas trazidas do Rio Grande.  A importância da Marinha pode ser notada pela atenção que demonstra o governo imperial com a força.  Os programas de modernização e pela atualização que mostram os comandantes da força demonstram essa constante atenção, e já no final dos anos 1840, um programa de substituição de meios navais começou a introduzir o vapor na esquadra. Buenos Aires não dispunha de uma força naval com o nível de organização e estrutura da Marinha Imperial do Brasil, de modo que o domínio das águas do Prata era mantido sem maiores dificuldades. Em 1858, segundo os estudos do especialista almirante Max Justo Guedes, da Marinha Brasileira, estavam na região a fragata a vapor Amazonas, oito corvetas a vapor, vinte canhoneiras e oito transportes de tropas. O mesmo especialista afirma que, em 1860, às vésperas do início da Guerra do Paraguai, os principais navios da Marinha, embora novos (alguns com menos de dez anos de incorporados) já estavam em estado de obsolescência, devido aos progressos que as tecnologias metalúrgica, mecânica e química, acelerados pela Segunda Revolução Industrial, tinham introduzido nas maiores marinhas.

O problema é que, até então, as ações navais conduzidas no estuário do Prata eram ações de águas abertas, ou seja, os navios disponíveis atuavam no mar. O vapor dava-lhes enorme vantagem sobre os navios à vela, pois a propulsão à máquina tornara a manobra independente do vento. A busca da vantagem tática (a melhor posição para o tiro) passara a depender apenas da habilidade do comandante e do grau de adestramento da tripulação.

A entrada do Paraguai como ator na região, em busca de uma posição determinante viria a mudar a situação estratégica. Francisco Solano López que, em 1862 tinha herdado o governo paraguaio do pai, o moderado Carlos Antônio López, via na presença brasileira no Uruguai uma ameaça aos interesses paraguaios.

Que interesses eram esses? O Paraguai tinha se tornado independente em 1811, depois de recusar a integração com as Províncias Unidas. A partir de 1814, o governo de José Gaspar Rodriguez de Francia, que governou até 1840, manteve as fronteiras fechadas e o país afastado das querelas regionais. O ditador, bastante popular no país, entendia que a independência paraguaia só seria mantida caso o país se mantivesse estritamente neutro em assuntos de política externa. Embora considerasse a Argentina a maior ameaça à república, não procurou fazer movimentos em direção ao Brasil, depois de 1822. As relações com os dois países eram quase estritamente econômicas, e através delas, o Paraguai obtinha uma lista de bens considerados indispensáveis – principalmente armamento, obtido através do acesso às rotas marítimas oceânicas, que passavam pelo estuário do Prata e por Montevidéu. A política isolacionista revelou uma vantagem adicional – lançou as bases de uma pequena indústria local, que abastecia as necessidades do país, em termos de produtos básicos, como têxteis, peças de metal, carpintaria, pólvora e munições. Francia morreu em setembro de 1840, sem deixar sucessor indicado. Após um semestre de confusão política, o advogado Carlos Antonio López, um riquíssimo criador de gado e plantador de erva-mate, que, é claro, uma vez no governo, enriqueceu ainda mais. Ainda assim, mostrou-se administrador tão ou mais hábil  que Francia. Intensificou as relações comerciais com a Europa e, para tal, implementou a rede de estradas do país e implantou um sistema de comunicações telegráficas e uma estrada de ferro.  Incentivou também a produção de alimentos e as atividades manufatureiras, dentro das possibilidades de um país em que 80 por cento da população era constituído por analfabetos de origem indígena. Talvez por isso mesmo “El Excelentissimo” (como ele gostava de ser chamado) investiu fortemente na educação da população, construindo escolas e “importando” professores da Argentina e até da Espanha.

López implementou as atividades econômicas, importou médicos, engenheiros e técnicos da Europa e dos EUA, e, na direção contrária, enviou estudantes para aprender profissões técnicas, principalmente na Alemanha e nos EUA.

A política externa de López também foi marcada por mudanças notáveis de direção. “El Excelentissimo” começou a deixar a posição de neutralidade estabelecida por Francia e, com o incentivo brasileiro, passou a interferir na política argentina, chegando a declarar guerra contra o ditador argentino Rosas, em 1845. Esse ensaio de política externa agressiva acabou resultando num bloqueio naval que quase interrompeu as comunicações paraguaias com a Europa, onde se encontrava Francisco, o filho de López, brigadeiro-general encarregado de comprar armamentos para o Paraguai. Depois que Rosas deixou o governo, em função da derrota para uma coalizão de brasileiros e uruguaios, López começou a fomentar políticas de enfrentamento com seus vizinhos. Até então, a independência paraguaia servia às potências regionais como uma espécie de cunha que  uma imaginava meter nos interesses da outra, já que o país tinha disputas tanto com a Argentina como com o Brasil. O Paraguai funcionava como um tampão entre as desconfianças mútuas de pretensão expansionista, uma espécie de sub-imperialismo regional.

“El Excelentissimo” morreu em 1862, e Francisco assumiu o poder no Paraguai. López pai tinha, ao longo de 20 anos, se equilibrado entre dois perigosos inimigos, Brasil e Argentina; o filho logo deixou a prudência política para trás, revelando planos para transformar o Paraguai numa potência militar.

O fato é López largamente subestimou seus inimigos e superestimou a capacidade de seu próprio país, mediterrâneo, subdesenvolvido e com uma população de uns 450000 habitantes, relativamente pequena (o Império tinha, na época, em torno de 8 milhões de habitantes – incluídos os 3 milhões de escravos –, e a Argentina, algo em torno de 3 milhões). O maior erro de avaliação de López, entretanto, foi ter esperado que os dois adversários não conseguissem superar as diferenças que os separavam. Talvez o Paraguai tivesse tido uma chance caso as desavenças que mantinham Brasil e Argentina em perene estado de guerra, na bacia do Prata, tivessem continuado assim. Mas ambos rapidamente identificaram onde estava o perigo maior::