causa::também tem saudades::Flakpanzer Gepard::Uma boa idéia?::

Em 2012 começaram a circular rumores de que se desenhava outra “compra de oportunidade” pelo EB. Desta vez, o objetivo seria parte das ações previstas no PEE DAAe (Projeto Estratégico do Exército Defesa Antiaérea), um dos projetos estratégicos de longo prazo do EB. O projeto foi apresentado recentemente como tendo concluída sua “primeira fase”, cujo objetivo geral é atualizar o Sistema de Defesa Antiaérea da Força Terrestre (SDAAe/FT). Os trabalhos começaram há mais de doze meses e foram produzidas cerca de quatro mil especificações  detalhando os sistemas que irão compor a Defesa Antiaérea, como, por exemplo, o de armamentos, equipamentos de comunicações e de logística . A proposta está no âmbito da Estratégia Nacional de Defesa, e tem orçamento previsto de R$ 2,3 bilhões (o que, sabemos muito bem nós, cristãos, poderia ser 23 ou 230 bilhões, pois isso não significa que o dinheiro vá, de fato, ser disponibilizado…). Caso sejam de fato incluídos no orçamento da República, os recursos servirão para financiar o planejamento e aquisição dos meios adequados a proteger estruturas consideradas estratégicas para o país: usinas hidrelétricas e nucleares, aeroportos, portos e instalações de comunicações.

Os rumores, ressoados histericamente na Internet, na ocasião foram amplificados pela necessidade criada em função da proximidade dos eventos internacionais de grande porte que o país tinha se comprometido a receber – os torneios de futebol de 2013 e 2014 e as Olimpíadas de 2016. A segurança desses eventos implica em criar uma espéciede “domo” sobre os locais de realização, e o fato é que nenhuma das “forças singulares” tem tal capacidade. No apagar das luzes do ano (mais exatamente em novembro) o EB anunciou ter fechado a aquisição de um lote de blindados Krauss-Maffei-Wegmann “Flakpanzer Gepard”, equipamento alemão baseado no chassi do Leopard 1 e com mais de trinta anos de serviço ativo no exército da República Federal da Alemanha.

Trata-se de um veículo bastante interessante, destinado a fornecer defesa aproximada para colunas blindadas e motorizadas em movimento, concentrações de tropas e pontos de interesse, dentro do conceito conhecido como SPAAG (acrônimo de Self Propelled Anti Air Gun, “canhão anti-aéreo autopropulsado”). Basicamente, é um canhão de pequeno calibre, automático, montado sobre uma plataforma móvel, capaz de disparar em movimento contra alvos aéreos voando a baixa altitude num raio relativamente pequeno com relação ao ponto de emprego. O conceito não é novo, ao contrario do que se pode pensar: já na 1ª GM, ingleses, franceses e alemães experimentaram montar canhões de pequeno e médio calibres na carroceria de caminhões. Na 2ª GM, SPAAGs montados sobre chassis de tanques dos quais a torreta havia sido retirada já eram conhecidos e também já era claro que plataformas montadas sobre esteiras eram mais efetivas do que os caminhões, em função do problema da estabilidade da plataforma no momento do tiro; outro motivo era a maior habilidade dos veículos sobre esteiras em negociar com terrenos acidentados. Ao longo da guerra, a tendência foi que os SPAAGS fossem concebidos em torno  de armas automáticas nos calibres 11,7 mm, 20 mm, 30 mm, 37 mm e 40 mm. Após a 2ª GM, se consolidaram os SPAAGs instalados em veículos sobre esteiras, assim como o uso de canhões automáticos bitubo ou quadritubo. O salto foi, de fato, nos sistemas de pontaria: os sistemas óticos de busca de alvos foram paulatinamente substituídos por sistemas baseados em radar. O Flakpanzer Gepard é tributário desse conjunto de desenvolvimentos, e também da consolidação da Alemanha Federal como parceiro político e militar do Ocidente no período da Gerra Fria contra a União Soviética.  

Após a reconstituição política da República Federal da Alemanha (RFA), em 1955, o recém formado Bundeswehr (“Forças Armadas da Federação”, em tradução livre: Bundesheer – “Exército da Federação”, Kriegsmarine – “Marinha de Guerra” e Bundesluftwaffe –“Arma Aérea da Federação” ) começou a ser equipado com material de procedência norte-americana, que se mostrou pouco adequado para o papel reservado a Alemanha na defesa da Europa Ocidental. Em 1956, os requisitos de um tanque pesado (em inglês Main Battle Tank – MBT) foram apresentados pelo Bundesheer. Em 1957 RFA e França assinaram um acordo para desenvolverem em conjunto um novo tanque pesado. Divergências entre os dois países fizeram com que o acordo tivesse o destino que tiveram vários outros: foi desfeito e cada pais seguiu o próprio projeto. A França desenvolveu o AMX-30; a Alemanha, o Leopard.  O projeto foi um marco para a  RFA: pela primeira vez desde a guerra uma iniciativa de grande porte, envolvendo diversas empresas era conduzida de forma totalmente independente. O novo veículo começou a ser distribuído em 1965.

Com o Leopard ainda em desenvolvimento, em 1963, a OTAN apresentou a requisição de um sistema de defesa anti-aérea de ponto de alta mobilidade para as forças armadas de seus países membros. Essa requisição deveu-se à constatação do crescimento do poderio aéreo soviético. As aeronaves e táticas vinham se mostrando capazes de realizar penetrações bem sucedidas em baixo nível. Logo ficou decidido que o sistema deveria ser desenhado em torno do canhão Oerlikon 35 mm/90 calibres KDA, concebido na segunda metade dos anos 1950 para combater incursões de perfil lo-lo-lo (de low-low-low, “baixo-baixo-baixo” – um tipo de perfil de missão em que a aeronave busca manter-se abaixo da cobertura do radar inimigo e só é percebida quando está quase sobre o alvo). Os alemães consideraram imediatamente a possibilidade de usar o chassi do Leopard. Embora o novo blindado tenha se saído muito bem nos testes ao longo do ano de 1964, o desenvolvimento da plataforma anti-aérea mostrou-se lento em função de problemas com o sistema diretor de tiro. O radar móvel suíço Superfledermaus foi posto em serviço em 1963 pela empresa Contraves, mas levou muito mais tempo que o esperado integra-lo ao veículo alemão. O resultado é que as primeiras unidades de linha só entraram em serviço na primeira metade dos anos setenta. Em 1976 e 1977, Bélgica e Holanda adquiriram o sistema. O belga era idêntico ao alemão; já o holandês foi equipado com sistemas locais de direção de tiro instalados em uma torre totalmente redesenhada.

Quando foi posto em operação, a principal função do Gepard tinha se tornado o enfrentamento contra helicópteros “canhoneiros” (gunships). Estes tinham se tornado “moda” depois da Guerra do Vietnam e, naquela época (entre 1973 e 1975) as forças armadas soviéticas estavam cheias deles, principalmente o “tanque voador” MI24 Hind, distribuído em sucessivas versões a partir de 1972. O campo de batalha, naquele momento estava ocupado por mísseis superficie-ar que passaram a ser a principal oposição contra aeronaves.

O Gepard, que em última análise pode ser considerado conceito resultante da soma do chassi do Leopard-1 A1 com o canhão Oerlikon KDA e o Diretor de Tiro Superfledermaus, foi considerado durante muitos anos o mais eficiente sistema de canhões antiaéreos móveis disponível no Ocidente. No final dos anos 1970, os norte-americanos tentaram reproduzir o conceito no sistema DIVAD (acrônimo de Division Air Defense) juntando o chassi de um tanque M-48 Patton, descontinuado pelo Exército, uma versão local do canhão Bofors de 40mm L/70 e um Diretor de Tiro extremamente complexo, baseado no radar aéreo Westinghouse AN/APG-66, além de um sistema de telêmetro optrônico. O projeto acabou cancelado por dificuldades de desenvolvimento e pelos custos astronômicos. Outro projeto semelhante, porém mais bem sucedido foi o sistema soviético anti-aéreo 9K22, cujo desenvolvimento se deu ao longo dos anos 1970. Montado sobre lagartas, o sistema combina um canhão automático bitubo 30 mm com mísseis superfície-ar, apontados ambos por radar e tendo as informações processadas por computador analógico. Conhecido pelo codinome Tunguska, o sistema teve sua formatação baseada na experiência recolhida pelos egípcios durante a Guerra do Yom Kippur, em 1973, e ainda se encontra em serviço, em versões aperfeiçoadas. O sistema Pantsir S-1, recentemente adquirido pelo Brasil, pode ser considerado uma versão muito aperfeiçoada do 9K22.

O armamento usado no Gepard é composto por um sistema bitubo de fogo rápido KDA (esta sigla significa que a arma é alimentada com munição montada em correias de elos de metal), de 35 mm/90 calibres. Utiliza um projétil de 35X228 mm, cuja velocidade de boca é algo em torno de 1400 m/s. Cada tubo corresponde a um canhão completo, operado por recuperação de gás – o bloco de culatra é rearmado aproveitando parte da energia do disparo, recuperada sob a forma de parte do gás gerado pela explosão do propelente, como qualquer arma automática). A cadência de tiro é de 550 salvas por minuto. Como os dois canhões são articulados eletricamente, a cadência do sistema é, teoricamente, de pelo menos 1100 tiros por minuto. O alcance máximo é de uns 5500 m, e o efetivo, contra alvos aéreos, utilizando em geral munição de fragmentação acionada por espoleta de proximidade, de 4000 m. Os tubos elevam-se até 92 graus com relação ao eixo do carro, e são acionados eletricamente por servomotores de alto desempenho.

O processo de modernização do Gepard, iniciado no final dos anos 1990 implicou numa mudança de conceito. Segundo estudos norte americanos realizados nos anos 1980, canhões bitubo ou quadritubo, embora continuassem a ser eficazes contra helicópteros, tinham se tornado perigosamente ineficazes contra aeronaves. Não seria suficiente, então, aperfeiçoar o radar Superfledermaus – aquela altura, já muito ultrapassado, visto que constituía-se num sistema analógico. O conjunto de sensores usados no Gepard foi atualizados. Foi introduzido um novo radar de busca operando na banda S, capaz de cobrir um cone invertido com 15 km de raio e até 7 km de altura. Determinada a altitude e direção do alvo, entra em funcionamento o radar de acompanhamento, montado a vante da torreta, entre os dois tubos. Operando na banda K, determina a velocidade do alvo. A operação dos sistemas é coordenada por um computador, que analisa em tempo real as informações obtidas através do princípio pulso Doppler. Com um alcance de 15 km, esse sistema recebeu o acrônimo (tipicamente alemão, por não formar nenhuma palavra pronunciável nem ter graça alguma) HFlaAFüSys, ou seja, Heeres FlugabwehrAufklarungsFührungSystem, algo como “Sistema de Direção e Reconhecimento Anti-aéreo do Exército”. A renovação incluiu capacidades de contramedidas eletrônicas, decodificador IFF (Identification of Friend oor Foe – “identificação de amigo ou inimigo”, uma emissão de rádio que, decodificado pelo atacante, caso reconhecido como “amigo”, alerta o piloto e trava temporariamente o armamento) e visor termal junto aos optrônicos.

O armamento teria de ser muito melhorado, ao ponto de ser realizada uma verdadeira mudança de conceito, baseada no exame do desempenho do sistema russo Tunguska.  O Tunguska utilizava (como hoje em dia utiliza o Pantsir S-1) uma configuração de canhões de fogo rápido e mísseis superfície-ar, que foi adotada pelos usuários do Gepard.  O armamento foi acrescido do sistema de mísseis Raytheon FIM-92D Stinger,montados em lançadores duplos junto dos canhões. O Stinger utilizado é uma versão aperfeiçoada, derivada do MANPADS que adquiriu fama contra helicópteros e aeronaves soviéticas no Afeganistão. Com alcance de uns 8 km, o modelo utilizado,  também conhecido como Stinger RMP (Reprogrammable Microprocessor) foi desenvolvido no final dos anos 1980 para corrigir falhas observadas nas versões anteriores. Introduzia a  capacidade de ser rapidamente reprogramado, conforme a missão designada (o que podia ser feito, dependendo do software empregado, em 10 minutos). Posteriormente, uma versão mais aperfeiçoada, a 92E POST (Passive Optical Seeker Technique – “técnica de buscador ótico passivo”) foi introduzida. Nesta, o míssil passou a ser apontado por um visor totalmente passivo, anulando medidas contra IR, o que diminuia a possibilidade de detecção do lançador. Estes mísseis possuem um alcance de 8 km.

O programa revelou-se complicado em função mais do contexto político pós-Guerra Fria, do que por dificuldades técnicas, e foi concluído em 2004-2005. Os cortes de orçamento que alcançaram todas as forças armadas européias fizeram com que apenas 110 Gepards, de um total de cerca de 300, fossem modernizados. As 45 unidades belgas tiveram completado apenas parte do projeto, e acabaram descontinuadas antes de estarem totalmente operacionais. Nesta época, os usuários já estavam cogitando se não seria mais barato substituí-lo de uma vez. Em 2009 a Bundeswehr resolveu desativar os três regimentos equipados com o Gepard, que será substituído por um sistema mais leve, mais moderno e mais barato. Pouco mais de cem unidades do Gepard “quase zero-bala” ficaram disponíveis.

O equipamento de um regimento completo – 36 carros revisados e modernizados – foi disponibilizado ao EB em 2011. O pacote oferecido incluiu peças sobressalentes, suporte técnico e treinamento de pessoal militar. O governo alemão liberou a KWM para dar suporte ao veículo durante pelo menos dez anos, bem como a  transferência de tecnologia visando a nacionalização de alguns itens, através da sede da empresa, localizada no Rio Grande do Sul. Um exemplar foi enviado ao Brasil em outubro de 2011, para ser testado durante exercício anual da artilharia AAe, no campo de instrução de Formosa, nas proximidades de Brasília. Segundo foi dito, os militares brasileiros ficaram impressionados com a capacidade do veículo.

Tem sido dito que a aquisição do sistema alemão trará grandes vantagens para a Força Terrestre brasileira, a começar por constituir um sistema ainda atualizado e de alta capacidade operacional. Alguns especialistas dizem que a unidade EDT desses veículos é capaz de “conversar” com as FILA operadas pelo EB. Alguns dos desenvolvimentos introduzidos anos atrás no produto brasileiro estão presentes no HflaAFüSys alemão, e este que poderia, eventualmente, servir como base para a modernização das unidades nacionais, bastante defasadas tecnologicamente. A virtude pode, por outro lado, ser um problema, visto que não se sabe como será o acordo de off set (transferência de tecnologia) assinado com os alemães, e estes não costumam a ser lá muito colaborativos, nesta direção. Evidentemente que muitos itens deverão passar a ser produzidos pela indústria nacional, sob pena de inviabilizar, a médio prazo, a operação dos veículos no Brasil: peças mecânicas, alguns dos itens relativos ao armamento e, quase certamente, a munição (segundo tem sido dito, apesar do armamento ser basicamente o mesmo que os GDF001 operados pelo EB, a comunalidade entre as munições utilizadas não é total).

Como vantagens, tem sido apresentados o alto índice de comunalidade com o Leopard 1 A5 e a relação já estabelecida com o fabricante alemão, a empresa KMW. Mecanicamente, o Gepard constitui com o “Leo” uma “familia de veículos” (FoV): utilizam o mesmo chassi, motor (da empresa Motoren und Turbinen Union –MTU – MB 838 de 10 cilindros, gerando 830 hp de potência), transmissão e sistema de tração. Também são comuns a blindagem. Este aspecto certamente facilitará a logística, visto que serão utilizadas as plantas de manutenção já existentes e os procesos, quanto à parte mecánica, são os mesmos.

Tudo isso posto, o que se pode dizer é que a aquisição do Gepard, apesar das vantagens que pode representar, em termos, inclusive, de melhoria da capacidade anti-aérea do EB, de forma alguma pode ser considerada isoladamente. É, no máximo, um passo. Outras providências têm de ser tomadas, como a aquisição de mísseis de médio alcance (o que foi feito, recentemente) e a melhoria do controle do espaço aéreo, no foco tático e estratégico (o que teria de incluir a aviação civil). O futuro próximo dirá se estamos diante de um salto ou de um mico. Eventualmente, voltaremos ao assunto::  

Os mísseis de Outubro::O lado menos falado:: parte2

Semana passada, comecei um texto sobre a crise dos mísseis de 1962. Imagino que não seja um evento assim tão esquecido, e pensei que poderia ser original abordando os aspectos militares (o lado menos falado…). Acabei notando que, neste caso, não há como separar a política da estratégia e até da tática – afinal, esse episódio foi, antes de tudo, uma operação militar. Por sinal, não é que, em outros casos, dê para separar política, estratégia e tática (embora esta última tenha, no que diz respeito às operações de campo, certa autonomia. Os assíduos de causa::sabem disso muito bem, depois de anos de convivência com o blogue. Vale então passar os olhos pelo modo como os aspectos políticos se expressam através da estratégia e da tática. Agora, um esclarecimento: o texto que será lido foi feito com base num resumo resumidíssimo do excelente livro One Minute to Midnight: Kennedy, Khrushchev, and Castro on the Brink of Nuclear War,” do jornalista Michael Dobbs. Publicado em 2008, foi comprado num quiosque de aeroporto, nos EUA, e ficou esquecido, desde então. Existe uma versão eletrônica, atualmente, e eu garanto: é leitura de primeira. As informações retiradas de outras fontes estão indicadas da maneira usual. Talvez falemos mais do assunto em outra oportunidade. Divirtam-se, pois::

parte2Além dos mísseis balísticos que pretendiam instalar na ilha, apontados para os EUA, também foram transferidas para lá forças convencionais, pois as instalações de lançamento precisariam ser defendidas, caso o segredo da iniciativa gorasse e o governo dos EUA resolvesse partir para a ignorância. As primeiras unidades deslocadas incluíam um grupo aéreo de elite, o 32º GIAP (abreviatura, em russo, de “Regimento Aéreo de Caçadores da Guarda”). A importância dessa unidade era tal que fora a primeira da Força Aérea da URSS (em russo, VVS, abreviatura da expressão equivalente a “Forças Militares Aéreas”) a receber, em 1960, os caças a reação (então novíssimos) MiG21F e F13. As novas aeronaves, cujas primeiras unidades de produção foram entregues para testes de avaliação em 1959, passaram então a ser avaliadas em condições de operação militar. O 32º de “caçadores da Guarda”  – título atribuído a tropas de alto padrão de treinamento e desempenho, desde a época dos czares – era considerado dentre os melhores dos melhores da Força Aérea da URSS (essa unidade foi desativada nos anos 1990). Também foram destacados para Cuba elementos de defesa antiaérea, reunidos na 11ª Divisão de Defesa Aérea, equipada com os novos mísseis terra-ar S75N (SA2C Guideline, no jargão da OTAN), orientados por radar.

A operação, denominada pelos soviéticos de “Anadyr”, foi coberta por manobras diversivas, inclusive a mudança de número e até mesmo das insígnias das unidades envolvidas. A maior parte do equipamento e do pessoal do 32º GIAP foi transferida para o 213º Regimento Aéreo de Caçadores (abreviatura em russo, IAP), unidade recém constituída, operando a partir da base aérea de Kubinka, nas proximidades de Moscou. O restante do pessoal da nova unidade foi transferido de outra, sediada na Bielorussia. Uma vez ativado, o 213º foi imediatamente designado para uma “missão secreta”. As aeronaves, sem identificação, desmontadas, foram deslocadas por terra para uma base naval no Mar Negro e embarcadas em navios mercantes comuns. Segundo um interessante relato disponível na Internet, nem mesmo os oficiais do estado-maior da unidade sabiam para que destino estavam seguindo. Este só lhes foi informado quando o navio já se encontrava avançando pelo Atlântico. O mesmo aconteceu com todas as outras unidades soviéticas enviadas para Cuba – movimentaram-se em absoluto segredo, em navios mercantes e sem saber qual seria a missão.

A função dessas unidades (haviam também unidades de engenharia, manutenção e logística) seria “treinar as forças de defesa cubanas”. O 213º IAP, uma vez em Cuba, foi instalado na base aérea de Santa Clara. De fato, sua missão seria cobrir o espaço aéreo de Cuba, em função da presença dos mísseis. De forma complementar, sítios de defesa antiaérea foram espalhados por toda a ilha, formando um cordão, cada instalação afastada não de não mais de cem quilômetros uma da outra. Os pilotos do 213º, já que estavam em uma “missão de treinamento”, logo depois de se instalarem em Santa Clara, em meados de setembro de 1962, e terem seus aviões montados, começaram a voar, de modo a reconhecer os céus da região e treinar com o pessoal militar cubano. O treinamento e, principalmente, os testes para calibragem do equipamento de pontaria dos mísseis envolviam intensa atividade eletrônica, monitorada pela NSA (sigla de National Security Agency), que coordenava as atividades de SIGINT (acrônimo da expressão “SIGnal INTelligence” – “Inteligência de Sinais”, ou o rastreamento, monitoramento e interpretação de transmissões eletrônicas inimigas de toda espécie).  É certo que os russos soubessem que estavam sendo monitorados, já que os radares P12MA (“Spoon Rest A“, no jargão da OTAN) operavam na faixa VHF, cuja potência ia muito além do espaço aéreo cubano.

Até então, os norte-americanos tinham informações sobre a Força Aérea Revolucionária colhidas por informantes locais, na imprensa internacional, por reconhecimento aéreo e pelo monitoramento eletrônico. Sabiam que Cuba, desde 1960, tinha recebido aviões leves e de transporte para sua força aérea, e, depois da tentativa de invasão, também aeronaves MiG dos modelos 15 e 17, já bastante obsoletos. Tinham sido reportadas algumas aeronaves do tipo MiG19, que a inteligência dos EUA situava em número não maior do que 12 unidades. O “19” era um modelo mais capaz: birreator, voava desde 1953 e foi a primeira aeronave soviética supersônica. Armado com dois potentes canhões orgânicos Nudelman-Rikhter NR30, de 30 mm e até dois mísseis ar-ar buscadores de calor Vympel K13 (“Attol” no jargão da OTAN), também era considerado obsoleto diante dos caças norte americanos mais modernos. Para além, a FAR carecia de pessoal, instalações e equipamentos de apoio. Os pilotos e pessoal de terra disponíveis eram poucos, boa parte deles ainda remanescentes da época em que as forças armadas locais eram treinadas pelos EUA. Não era segredo que um programa de assistência militar estava sendo desenvolvido com base em equipamento e instrutores vindos da Tchecoslováquia.

E Cuba, na época, era prá lá de vigiada. Durante o mês de agosto, informações obtidas de fontes diplomáticas e de inteligência alertaram o governo dos EUA sobre a possibilidade de estarem os soviéticos instalando armamento estratégico na ilha. Informações obtidas pela NSA e  de reconhecimento fotográfico por aeronaves U2 mostraram, de forma muito clara, que sítios de mísseis ar-ar estavam sendo instalados, notícia que foi transmitida por Kennedy ao Congresso e ao público dos EUA no início do mês seguinte. Os vôos de reconhecimento foram intensificados, assim como as atividades SIGINT conduzidas pela NSA. A análise do material obtido passou a ser feita com extrema cautela. Era, de fato, uma guerra de informações e inteligência que, certamente, envolvia alguns riscos.

Mas não da Força Aérea Revolucionária, que era considerada, com razão, ninharia. Assim, dá para imaginar a surpresa dos tripulantes de dois reconhecedores McDonnell RF-101 “Voodoo” que, num vôo de exploração fotográfica cruzaram com um MiG21F pilotado por um soviético, armado com mísseis K13 ativos. A aeronave soviética não chegou a tentar se posicionar para o abate, e os norte ameicanos desengajaram sem dificuldade. Pouco tempo depois, outro MiG21, em missão de treinamento com aeronaves cubanas foi instruído a interceptar outro par de Voodoo que haviam invadido o espaço aéreo cubano. Desta vez a aeronave soviética deixou bem clara suas intenções e os norte americanos trataram de fugir em direção a Flórida (no incidente anterior, os aviões da USAF voavam sobre o mar). Curiosamente, desta vez o caça soviético levava apenas mísseis de exercício e não tinha o canhão orgânico carregado com munição real.

A análise de material fotográfico obtido a partir de uma missão especialmente planejada de um U2, em 14 de outubro, revelou que os soviéticos estavam instalando armamento estratégico em Cuba, informação que embasou os boatos que chegavam da ilha e da Europa. O Estado maior Conjunto das Forças Armadas dos EUA aconselhou, ainda no dia 14, que Kennedy ordenasse imediatamente um ataque aéreo contra as instalações soviéticas. Consultado o governo soviético, o ministro do exterior garantiu que a URSS não tinha intenções agressivas e que os assessores soviéticos em Cuba estavam na ilha como convidados do governo local, e ainda assim, devido às constantes agressões dos EUA ao “pacífico povo cubano”. Kennedy estava em entendimentos com o líder soviético Nikita Khrushchev desde a conferência de Viena, em novembro do ano anterior, embora sem resultados relevantes. A iniciativa soviética “melou” o que tinha sido, inicialmente, considerado um sucesso diplomático. De fato, alguns especialistas consideram que a decisão soviética baseou-se em uma avaliação equivocada sobre a personalidade do presidente norte-americano, feita a partir de Viena.

No dia 22 de outubro, diante de evidências de que os soviéticos continuavam deslocando equipamento para Cuba, e pressionado para ordenar ataques aéreos preventivos, Kennedy optou por impor um bloqueio naval. Em pronunciamento feito pela televisão, o presidente alertou o grande público norte americano sobre o que era considerado uma ameaça intolerável à segurança dos EUA: estavam quase completas as bases que receberiam mísseis capazes de atingir quase todas as maiores cidades dos país, inclusive a capital. Afirmou que os EUA não excluía a possibilidade de usar força militar contra o que chamou “uma ameaça clandestina e imprudente para a paz mundial”. Em função da cultura política dos EUA, foi um passo importante, pois abriu ao debate público a situação.

As forças norte-americanas em todo o mundo foram colocadas em DEFCON 3 (Defense Readiness Condition – Condição de Prontidão para a Defesa, nível 3), ou seja, condição de alerta geral. Todas as corporações envolvidas com assuntos de defesa (forças armadas, agências de defesa civil, Guarda Costeira, Guarda Nacional, agências de inteligência, dentre outras) são alertadas para se preparar para o estado de guerra. As férias e licenças são suspensas e as forças armadas são convocadas a se aquartelar. Só que, no dia seguinte, o Comando Aéreo Estratégico (SAC – departamento operado pela Força Aérea, mas ligado diretamente ao Ministério da Defesa dos EUA), que controla as forças estratégicas do país baseadas em terra (bombardeiros e mísseis nucleares), foi colocado individualmente em DEFCON 2, ou seja – estado de guerra. Foi o mais alto nível já atingido pelas forças de defesa dos EUA, e nunca igualado desde então. O próximo passo: guerra nuclear. Essa ameaça iria pairar sobre a cabeça da humanidade pelos seis dias seguintes.

A operação naval mobilizou 56 unidades de primeira linha, inclusive um navio-aeródromo da classe “Forrestal“, um cruzador e duas fragatas de ataque (“porta-mísseis”), e 22 contratorpedeiros. A missão era deter qualquer envio de equipamentos militares para Cuba, o que implicaria, caso necessário, em revistar navios em rota para a ilha, que passariam a ser interceptados numa linha a aproximadamente 500 milhas de distância da costa cubana. Em 23 de outubro, a Organização dos Estados Americanos aprovou o bloqueio a Cuba e os governos instruíram seus navios e aviões a se afastar da zona de exclusão. O bloqueio começaria a valer a partir das 10 horas da manhã do dia seguinte. Em 25 de outubro, foi dada permissão a um navio-tanque soviético para seguir viagem sem ser abordado – segundo a Marinha dos EUA, o reconhecimento aéreo não detectara carga suspeita e aquele tipo de navio não permitia a presença de outra carga que não combustíveis e outros líquidos. No dia seguinte, um cargueiro libanês foi abordado, revistado e liberado. O navio-escola brasileiro “Custódio de Mello”, um transporte de tropas adaptado para instruir guardas-marinha, em rota para Nova Iorque, foi instruído a mudar seu curso para evitar quaisquer constrangimentos.

Em meio à intensa movimentação política e militar, a cúpula política, que incluía o círculo interno da presidência, acionou os canais de comunicação entre governos, que vinham sendo construídos desde a conferência de Viena. Consultado pelo Procurador geral do governo (Robert Kennedy, irmão mais moço do presidente) em 24 de outubro, o embaixador soviético em Washington, então recém-indicado, Anatoly Dobrynin (que ocupou o posto até 1986 e declarava adorar o clima da capital norte-americana), afirmou que não seriam instalados mísseis em Cuba e o que havia sido detectado era equipamento eminentemente defensivo.

Segundo se conta, Khrushchev ficou furioso com a iniciativa norte americana, considerada um ato de guerra.  Entretanto, os soviéticos pouco podiam fazer: seus armamentos ofensivos não estavam ativados e os de defesa tinham capacidade limitada. Não havia possibilidade de enfrentar os EUA no mar: o controle marítimo e aéreo, no Atlântico, era completamente norte-americano. O premier soviético enviou uma mensagem ao presidente dos EUA na qual afirmava que todos os armamentos existentes em Cuba não tinham intenções ofensivas, e que não constituíam ameaça real para a segurança de qualquer nação nas Américas.

Na ilha, a situação era de nervosismo – o que faz sentido, pois se tratava do teatro de operações potencialmente mais quente da Guerra Fria. A falta de informações sobre a situação real, segundo alguns oficiais soviéticos na ilha era o pior aspecto da situação, visto que não permitia um planejamento antecipado da defesa contra um possível ataque dos EUA. Os pedidos de instruções dirigidos à Moscou obtinham respostas vagas. Sobre como lidar com as aeronaves norte americanas, a instrução era para somente reagir a um “ataque real”, embora ninguém tivesse definido claramente o que seria isto. Para o comando soviético em Moscou, um tal ataque teria de envolver uma grande formação de aeronaves, embora os russos soubessem que um ataque nuclear poderia ser realizado por duas ou três aeronaves tipo B58 Hustler, um bombardeiro estratégico supersônico não muito maior do que um avião de caça. As ordens eram claras: não atacar as aeronaves norte americanas que diariamente invadiam o espaço aéreo da ilha. Segundo depoimentos de alguns dos militares, dados após o fim da URSS, o pessoal soviético em Cuba temia os norte-americanos tanto – ou talvez até menos… – quanto a tendência soviética a ter prontos, em situações como aquela, os bode expiatórios que seriam usados caso as coisas dessem errado. Os comandantes que estavam numa frente situada a milhares de quilômetros do centro de decisão eram os ideais, pois sempre poderiam ser acusados de “não obedecer ordens diretas”, caso derrubassem um avião dos EUA. Se não derrubassem, e a força aérea norte americana incinerasse as bases soviéticas sem encontrar reação, a acusação seria de “não cumprir com o dever”, ou pior: “covardia diante do inimigo”.

Nessas circunstâncias, as defesas soviéticas, tomadas de paralisia, passaram a ser consideradas inoperantes pelos próprios cubanos. O governo do país, diante da relutância das unidades militares do aliado em lidar com as incursões aéreas norte americanas, deu ordens para que as próprias unidades antiaéreas abrissem fogo contra aeronaves não autorizadas no espaço aéreo cubano.

Não se sabe direito se a ordem do governo cubano acabou por empurrar os soviéticos a usar a cobertura antiaérea montada na ilha. O fato é que no dia 27 de outubro uma salva de três mísseis S75N derrubou uma aeronave de reconhecimento U2, nas proximidades da cidade de Banes, província do Oriente. O certo é que a ordem partiu do comando das forças armadas soviéticas, em Moscou, pois o comandante na ilha, general de exército Issa Pliyev, estava baixado a um hospital, com sérios problemas de saúde.

No governo e na imprensa de Cuba, a queda do U2 foi comemorada como “a primeira vitória do povo contra o imperialismo”. A notícia chegou a Washington durante uma reunião do presidente Kennedy sua assessoria. Desde o começo da crise, havia concordância, na equipe de Kennedy, de que a resposta adequada à derrubada de um avião dos EUA seria um ataque aéreo. Depois de alguma controvérsia, os norte-americanos concordaram que, como aquele ato contrariava o padrão de atuação dos soviéticos até aquele momento, a derrubada deveria ter sido um engano cometido por comandantes de campo. Assim, Kennedy foi capaz de resistir a ala de seu governo que queria partir para a retaliação. Um ataque norte americano, mesmo que limitado, provavelmente teria interrompido as negociações com os soviéticos e tornado exponencialmente maior o perigo de uma confrontação nuclear.

Se a derrubada do U2 (cujo piloto morreu na queda) foi dada como incidente isolado, o perigo da derrubada de outra aeronave dos EUA continuava, em função dos vôos de baixo nível de reconhecedores RF8 Crusader, da Marinha, e de RB47H Stratojet, estas usadas para atividades SIGINT, em altitudes médias, no litoral cubano. Os mísseis estavam sob controle direto dos militares soviéticos, mas as baterias antiaéreas estavam, em sua maioria, sob controle dos cubanos. Assim, no mesmo dia em que o U2 caiu, um RF8 voando em alta velocidade e baixo nível foi atacado por baterias de canhões AAe de 37 mm, orientadas por radar. A aeronave voltou à base, na Flórida, com poucos danos, de maneira que os norte-americanos, novamente, que valia à pena deixar barato.

Era o que queria o secretário de defesa de Kennedy, McNamara. Ao contrário, o general de exército Maxwell Taylor, chefe do estado maior conjunto das forças armadas dos EUA. Taylor, então um dos principais representantes de uma ala política conhecida como “falcões”, acreditava que o poder militar norte-americano deveria ser usado como forma de conter a expansão soviética de forma ativa.

A crise acabou sendo resolvida diplomaticamente, enfim, a partir da proposta soviética, feita em 26 de outubro, na qual, a URSS comprometia-se a retirar todos os armamentos ofensivos caso os EUa se comprometessem a não invadir a ilha. No dia seguinte, Khrushchev, pressionado por seus militares, acrescentou à proposta a retirada dos mísseis Júpiter da Turquia. A proposta foi apresentada a Robert Kennedy pelo embaixador soviético, com o qual ele continuava se encontrando informalmente. Informado das reclamações soviéticas, Kennedy apressou-se em se mostrar disposto a colocar os mísseis da Turquia nas negociações. A situação voltou a ficar tensa quando da derrubada do U2 sobre Cuba, a qual se juntou outra situação potencialmente desastrosa: a invasão do espaço aéreo soviético por outro U2, que embora não tenha dado em nada (o reconhecedor conseguiu evadir-se antes de ser interceptado), fez o secretário de defesa quase perder a cabeça.

Ainda no dia 27 chegou à Casa Branca uma carta do premier soviético na qual colocava a questão dos mísseis Júpiter. Kennedy mostrou-se disposto a aceitar a proposta, mas não podia fazê-lo publicamente, visto que a maioria de seus assessores – e dos políticos envolvidos na questão – não considerava que uma coisa tivesse relação com a outra.  A solução apresentada foi responder a primeira proposta de Khrushchev, e acrescentar um acordo secreto, no qual os norte-americanos concordariam em retirar os mísseis da Turquia, mas apenas alguns meses depois de os soviéticos retirarem os seus.  A contrapartida aberta oferecida por Kennedy era suspender o bloqueio e garantir, através das Nações Unidas, que não haveriam outras ações militares contra Cuba, no futuro. Essas declarações tinham sido acompanhadas por blefes cuidadosamente urdidos de que as forças norte americanas estariam preparadas para invadir Cuba nas próximas 48 horas. Ao que parece, os soviéticos caíram no golpe, e no dia 28 foi anunciada a resolução do conflito.  No mesmo dia, os vôos de reconhecimento foram suspensos, como gesto de boa vontade. No início de novembro, o equipamento ofensivo soviético começou a ser desmontado. No final de novembro começou a ser carregado de volta para a URSS. Os caças MiG21, parte dos mísseis e radares e do equipamento de terra ficaram, como compensação aos cubanos::

Os mísseis de Outubro::O lado menos falado::

Imagino que todos os assíduos de causa:: conheçam, ainda que por alto, a história da Crise dos Mísseis de Cuba. Trata-se de umaconfrontação de forças entre EUA e URSS ocorrida ao longo do mês de outubro de 1962, que não chegou a envolver combates, embora tenha seja considerada por alguns especialistas como o momento em que as duas potências nucleares chegaram mais perto de ir à guerra. No entanto, um exame dos fatos militares geralmente fica restrito a publicações especializadas, geralmente em inglês. Visto que agosto marca os 50 anos do início da crise, o blogue das boas causas irá, em duas partes, dar uma olhada no panorama militar deste que é um dos maiores eventos políticos do século passado::

Ligada ao contexto de tensão controlada da Guerra Fria, a Crise dos Mísseis de Cuba teve seus antecedentes, evidentemente, na vitória da revolução Cubana, em janeiro de 1959, e na declaração, por Fidel Castro, dois anos depois, do alinhamento do país ao bloco comunista. Foi um golpe na estratégia norte americana de “defesa hemisférica”, no qual a enorme máquina de inteligência constituída pelos EUA a partir da 2ª GM, literalmente comeu mosca. Ainda assim, os EUA optaram, já dentro da política do governo Kennedy de enfrentamento flexível da expansão comunista, em tentar minar o regime cubano por meio de bloqueio diplomático (o rompimento de relações diplomáticas, que ocorreu em janeiro de 1961, e posterior expulsão da OEA) e econômico e na montagem de “operações cobertas”. Estas se caracterizavam pelo apoio, do Exército dos EUA, da CIA e das agências de inteligência militar, às tentativas de grupos de exilados cubanos de extrema direita, instalados na Flórida, em derrubar o regime comunista pró-soviético. Tal opção de ação culminou com uma tentativa de invasão de Cuba por uma tropa de exilados armada e treinada pelos EUA. Esse episódio foi denominado, no Ocidente, como “Invasão da Baía dos Porcos”.

Vale à pena fazer um parágrafo para esse evento. Desde pelo menos o final do governo Eisenhower os EUA tinham optado por tentar ações indiretas contra o governo cubano, sob a coordenação da CIA e envolvendo as forças armadas e a inteligência militar. Os antecedentes do projeto datam dessa época, provocados por sucessivos fracassos em iniciar um movimento de guerrilha no interior de Cuba. A idéia central era colocar uma pequena unidade de infantaria, com força de regimento leve, em território cubano, pois se considerava que a notícia da invasão provocaria um levante geral contra o governo, e a força invasora poderia, caso não conseguisse derrotar rapidamente as forças do governo, começar atividades de guerrilha. Em 1960 a CIA começou a recrutar e treinar exilados cubanos, que passaram a receber treinamento de armas e táticas em bases situadas na Flórida, Lousiania, Guatemala e Porto Rico. Após algum debate, o desembarque foi designado para uma série de pequenas praias desertas situadas em um lugar conhecido por “Bahia de los Cochinos” (Baía dos Porcos), na província de Las Villas. A força de exilados foi denominada “Brigada de Asalto 2506”, e segundo foi divulgado posteriormente, havia sido criada sob os auspícios de um “Conselho Revolucionário Cubano” em Miami. Tratava-se de uma operação diversiva montada pela CIA, visto que tal órgão tinha sido montado cerca de um mês antes da invasão. A”Brigada 2506″ contava com pouco mais de 1400 efetivos. As operações foram abertas em 15 de abril, com bombardeiros B26 Invaders, pintados com as cores cubanas, atacando com foguetes e canhões três bases aéreas numa tentativa de incapacitar a força aérea de Cuba. As oito aeronaves encontraram forte oposição antiaérea, um deles foi derrubado e outro, muito danificado, conseguiu pousar em Key West, na Flórida. No dia seguinte, durante a cerimônia pública de sepultamento dos mortos nos ataques aéreos, Castro reafirmou a adesão do regime ao bloco soviético. A invasão seguia adiante, não sem inúmeros erros. Em 17 de abril, elementos paraquedistas da “Brigada 2506”, com força de companhia e transportados por aeronaves cargueiras C46 e C54 providenciados pela CIA, foram lançados na área da Baía dos Porcos. O objetivo era bloquear uma estrada que poderia ser usada pelos defensores. Esta missão também falhou, ao mesmo tempo que a força de uns 1200 efetivos era desembarcada na praia de Girón, com equipamento pesado e artilharia.  O desembarque não foi totalmente bem sucedido: boa parte do equipamento se perdeu devido as operações aéreas da Força Aérea Revolucionária. Os primeiros combates favoreceram os atacantes, mas as forças de defesa da ilha já estavam mobilizadas, e foram rapidamente  deslocadas para a cabeça de praia. Aos poucos, os invasores foram ficando sem munição e em menos de três dias foram totalmente derrotados. Uma tentativa feita pela Marinha dos EUA em resgatar pelo menos parte da força atacante foi abortada por ordem direta de Kennedy. Este também havia negado auxílio da Força Aérea dos EUA, pois achava que o projeto estava fadado ao fracasso desde o início.

No entanto, a invasão assustou Fidel Castro, pois parecia evidente que os norte-americanos mais cedo ou mais tarde encontrariam uma justificativa para intervir militarmente na ilha. Por volta volta de julho de 1962, Castro  anunciou seriam tomadas medidas políticas para que qualquer agressão direta dos EUA contra Cuba se transformasse em guerra mundial. As “medidas políticas” tomaram a forma de uma solicitação de assistência soviética para a defesa da ilha.

Era tudo que queriam os soviéticos. Até aquele momento, Moscou já vinha auxiliando os cubanos em assuntos econômicos e militares, mas a ajuda militar era bastante limitada pelo cuidado cubano em não provocar os EUA. Os soviéticos, por sua vez, se viam provocados pela insistência dos EUA, a partir de 1958, em constituir estoques de mísseis de alcance médio e intermediário (MRBMs e IRBMs) e respectivas ogivas na Europa, sob o guarda-chuva da OTAN. Os mísseis, instalados inicialmente na Grã Bretanha e Itália, sob controle das forças armadas locais, seriam alegadamente de uso tático, mas o fato é que eram capazes de atingir o território soviético. Essa iniciativa devia-se (pelo menos segundo os norte-americanos) aos esforços da URSS em alterar o balanço de capacidade nuclear, naquele momento amplamente favorável aos EUA. Tio Sam alegava que a superioridade nuclear contrabalançava a enorme superioridade soviética em forças convencionais. A capacidade convencional soviética era, de fato, uma desculpa mais do que aceitável. Por volta do final dos anos 1950, as forças armadas “do Pacto de Varsóvia” (entre aspas mesmo, já que o poderio militar dos aliados europeus da URSS era pífio) eram pelo menos duas vezes maiores do que as norte-americanas e européias (por volta de 1962, no total, uns três e meio milhões de efetivos, oitenta por cento deles dos EUA). A defesa da Europa Ocidental estava amplamente baseada na capacidade militar norte-americana instalada na Europa, e as nações européias relutavam em ampliar seus gastos com defesa. Se em época de bonança econômica, os custos ficavam pesados para os EUA, em épocas de crise, então, nem se fala. A manutenção de mísseis na Europa fazia parte da política de defesa do “mundo livre” do governo Eisenhower (1952-1960), difundida a partir de 1954 e denominada “New Look”, o que incluía o enfrentamento contra a expansão comunista. Essa política punha grande ênfase na “resposta nuclear”, considerada mais barata e efetiva do que a manutenção de forças convencionais capazes de contrabalançar a superioridade soviética. Com o governo Kennedy, o secretário de Defesa Robert McNamara estabeleceu uma nova doutrina, na qual a resposta a um ataque seria proporcional ao alcance e perigo que este envolvesse. O estoque de mísseis em território europeu foi, entretanto, mantido, visto que, em 1959, os planejadores militares dos EUA acreditavam que um ataque soviético a partir da Alemanha Oriental levaria na melhor das hipóteses, uns cinco dias para alcançar a o canal da Mancha e a fronteira franco-espanhola.

Os soviéticos viram na solicitação cubana uma oportunidade para contrabalançar o cerco nuclear montado pelos norte-americanos. Moscou já vinha trabalhando no projeto desde o mês de maio, em função da instalação, em bases localizadas na Turquia, de MRBMs PGM13 “Júpiter”. Com alcance de uns 2400 km, embora de baixa confiabilidade em termos de precisão, esses vetores colocavam Moscou ao alcance de um ataque dos EUA. A manobra foi considerada pelo governo soviético como inaceitável. Em meados de agosto de 1962 começou a transferência, para o Caribe, de algumas unidades de engenharia, que, uma vez na ilha, iniciaram a instalação de bases que deveriam receber os mísseis balísticos de alcance intermediário SS20.

Na próxima semana, alguns aspectos militares da “crise dos mísseis”, tanto do lado soviético quanto norte americano. Aguardem todos!::

Algumas reflexões sobre o Exército Brasileiro::Direto a um tema polêmico::

O último post, ao que parece, deve ter provocado muitas reflexões em algumas pessoas, visto que o número de acessos ao blogue das boas causas aumentou de forma surpreendente. Posso então supor que  o tema deve ter tido alguma ressonância entre os leitores interessados nos assuntos abordados por aqui. Temas polêmicos sempre têm.

Exércitos estão entre as instituições das quais as nações mais se orgulham. Pergunte a um norte-americano o que ele acha dos “homens que os protegem” (boa parte da população civil dos EUA referem-se assim aos homens das fileiras); pergunte a um russo o que pensa do Exército Vermelho – “por eles , eles que nos salvaram”, disse certa vez o compositor Dmitri Shostakovich, quando lhe perguntaram porque compôs a Sinfonia Leningrado. Poderíamos continuar relacionando exemplos, e, quando chegar a vez do Brasil, não será diferente. Os brasileiros orgulham-se de seu Exército. Afinal, sempre que necessário, a instituição não fugiu à luta – exatamente como diz o Hino Nacional.

O que não implica que a instituição não tenha cometido erros, em sua longa trajetória. Os cometeu. Não foram poucos e, muitas vezes, não foram pequenos. Examiná-los é tarefa complicada, tanto para o militar quanto para o civil. Assim como os acertos também os erros só podem ser examinados tendo o contexto histórico como pano de fundo. O problema é que, para o exame de certos fatos, é preciso que o tempo crie certa distância entre o calor da hora e o presente. E certos fatos exigem distância muito maior – e difícil de percorrer.

Existe uma explicação razoavelmente simples para essa relatividade da distância e do espaço de tempo. Para começo de conversa, sejamos claros: estamos falando sobre o golpe militar de 1964. Quando se tenta refletir sobre fatos como os que se desenrolaram a partir de então, a reflexão envolve múltiplas dimensões, todas subordinadas a três, mais amplas: a política, a ideológica e a militar.

As duas primeiras são fáceis de entender, por mais que se observem discordâncias sobre a natureza delas com relação aos fatos examinados. Mas a terceira… Provavelmente muita gente discordará, com argumentos desdobrados a partir da idéia de que aqueles fatos não são de natureza militar, visto que não havia uma guerra. Historiadores, sociólogos, cientistas políticos, militares profissionais e outros membros da sociedade civil podem levantar diversos aspectos dessa questão. A este blogue, somente importa um desses muitos aspectos: houve ou não houve uma guerra?

Os militares são os primeiros a afirmar que sim – não uma guerra convencional, mas de outra natureza, a “guerra revolucionária”. O problema é que se trata de uma guerra travada entre fantasmagorias –aquelas plantadas pela ascensão das utopias do século 20 e outras, criadas pela reação às utopias. Em certos momentos, essas fantasmagorias criaram guerras muito reais, e levaram o mundo à beira do abismo. Em outros momentos, as guerras eram reais, mas menores. E em diversos momentos, foram guerras travadas de modo subterrâneo – muito reais, embora menos destrutivas. Nessas guerras não se usou armamento pesado, não houve bombardeios nem enfrentamentos entre exércitos. Ainda assim, algumas provocaram tantos mortos quanto uma guerra de verdade, e deixaram seqüelas tão profundas quanto as guerras de verdade.

Talvez até mais profundas, mas não impossíveis de serem aplainadas. Profundas porque muitas dessas guerras foram travadas dentro de países, entre grupos cujos projetos para a sociedade foram, em dado momento, irreconciliáveis. Nessas condições a ideologia assume o caráter de motor dos atos. O que está em disputa, tanto quanto nas guerras de verdade, é o futuro. E a guerra, mesmo subterrânea, se torna uma guerra total. A única vitória possível é a aniquilação do adversário – militar, política e mesmo física.

Os governos militares que se abriram em 1964 persistiram por duas décadas, até 1985. Durante pelo menos dez anos, os militares enxergavam-se numa dessas guerras, travada para “salvar o Brasil e seus valores” contra o ataque de uma “ideologia exótica”. A “pré-guerra” vinha desde os meados dos anos 1950, crise política após crise política. Em primeiro lugar, havia o fato de que, na visão dos militares, em particular, a Nação tinha de ser salva de si mesma. Em 1956, um pequeno grupo de oficiais da Força Aérea rebelou-se, num movimento quixotesto que beirava o ridículo, contra … o grupo que nunca teve o direito de [governar o país], como ficou cabalmente provado pela sua conduta à frente dos destinos da Nação, e que, aliás, foi a causa de sua queda. Era lógico, portanto, que não nos conformássemos com sua volta ao poder. A declaração, emitida por um tenente-coronel, tentava explicar um grave ato de insubordinação como motivado pela eleição de um grupo político impatriótico e oportunista, liderado pelo presidente eleito Juscelino Kubistchek de Oliveira. Os motivos alegados então eram os mesmos que continuam a ser alegados por parte dos militares e também dos civis – “o povo não sabe votar”, “não está preparado para a democracia”.

Kubistchek não era comunista, assim como não era seu sucessor, Jânio Quadros. O que não impediu que este último deflagrasse a “grande crise” – a amalucada renúncia de 1961. Já o vice de Jânio era outra história: os militares acreditavam que fosse pelo menos simpatizante. Em 29 de agosto de 1961, um “pronunciamento”, no melhor estilo latino americano, afirmava, em seu manifesto que…  João Goulart, quando Ministro do Trabalho, já demonstrava, claramente, sua tendência ideológica, ao encorajar e mesmo promover constante e sucessiva agitação na área sindical, com claros objetivos políticos que, na realidade, eram contra os interesses das classes trabalhadoras. Era também comprovada a grande infiltração de conhecidos agentes do Comunismo internacional, bem como de numerosos elementos esquerdistas, em vários setores do Ministério do Trabalho, inclusive em funções importantes na sua administração e nos sindicatos. Goulart era apenas um líder vacilante, cujo mandato foi marcado pela abertura um tanto desordenada às organizações da sociedade civil: estudantes, organização populares e de trabalhadores ganharam espaço, no contexto de uma situação internacional de confronto. Um presidente oportunista, outro louco e um terceiro fraco fizeram aquilo que os militares tanto temiam: transformaram o país em um dos campos de batalha da guerra global que se travava. Interesses estrangeiros queriam impor ao Brasil. Seus agentes constituíam um exército, disciplinado, bem treinado, disposto para a luta – e infiltrado. É preciso lembrar? O mundo vivia o auge da Guerra Fria. O golpe militar de 1964, que seu perpetradores inicialmente chamaram de “revolução” e que, em nossa época, tem sido chamado, pelos simpatizantes, de “contrarrevolução”.

Os fatos acima são de conhecimento de todo mundo que tenha um mínimo de informação sobre a história recente de nosso país. Mas é preciso citá-los como forma de voltar a questão que proponho que seja discutida: se é que teve algum, qual o valor militar da “guerra” travada a partir de 1964? Já levantamos dois pontos que podem ser trazidos a esta reflexão: se é que havia uma “guerra”, ela se travava no contexto de uma guerra maior, global (um) e (dois) o conceito atualmente adotado pelos simpatizantes do golpe de 1964, “contrarrevolução”, parece inserido em uma tentativa de dar legimidade militar ao ato de quebra da legalidade. Na medida em que sucessivos governos eleitos estavam tornando o país campo de batalha para as “forças inimigas”, a intervenção militar pode ser vista como forma de negar ao adversário o uso do terreno e da infra estrutura nele localizada – ou seja, uma ação militar transposta para o campo da política. Nesta visão, o golpe pode ser inserido numa sequência de manobras destinadas a tirar do adversário a vantagem estratégica.

A questão é que essa manobra tem lugar no contexto de uma “guerra irregular”, uma outra forma de guerra. Conforme a análise do general alemão ocidental von der Heydte, recuperada por um analista de extrema-direita contemporânea… A guerra irregular é não-convencional por natureza. É a guerra promovida fora dos quadros das “convenções“, na qual “leis e normas” criadas para a guerra ‘convencional’ não são aplicáveis ou só são aplicáveis a um nível periférico.

Ou seja, os atos dos agentes envolvidos na “guerra” se justificam visto que as “convenções”, os chamados “usos e costumes da guerra entre nações” não são aplicáveis numa “guerra irregular”. Não é uma guerra entre grandes unidades formais, mas entre pequenas frações, com alto grau de iniciativa. Ainda segundo o mesmo Von der Heydte… A guerra irregular é normalmente concebida como o conflito armado, no qual as partes não constituem grandes unidades, mas pequenos e muito pequenos grupos de ação, e cujo desfecho não é decidido em poucas e grandes batalhas; ao contrário, a decisão é buscada e afinal concretizada através de um número muito grande de pequenas operações individuais, roubos, atos, de terrorismo e sabotagem, bombardeios e incursões.

Ao que parece, o texto de von der Heydte serve como uma luva para justificar a atuação de agentes que estariam, no lado das forças do Estado, em posições intermediárias da cadeia de comando. O “inimigo” atua em pequenas frações, com alto grau de iniciativa, buscando a vantagem através de ações tipo “golpe de mão” (roubo, sabotagem, etc.), e são capazes de se ocultar no meio da população civil. Ou seja, pratica uma espécie de guerra de guerrilhas seja no ambiente urbano, seja no rural. Essa nova forma de guerra torna os procedimentos militares convencionais inúteis ou, para além, passíveis de releitura. É preciso que o “lado de cá” seja liberado do formalismo das guerras convencionais e do corolário de regras daí decorrente. Neste ponto justificam-se todos os atos de exceção, desde a suspensão das liberdades democráticas até a existência de agentes cuja liberdade de ação por vezes fazia supor que não estivessem submetidos a nenhuma cadeia de comando.

A existência desses agentes é também explicável pelo fato de que, se a guerra é não convencional, os métodos também tem de ser, de modo a aumentar a velocidade da reação. Segundo um analista, em artigo recenteNessas circunstancias, torturar para obter informações voltou a ser uma opcâo tentadora. E as grandes democracias ocidentais, as mesmas que promoveram o Julgamento de Nuremberg, caíram nos anos seguintes a Segunda Guerra Mundial, uma a uma, na mesma tentação de empregar métodos pelos quais condenaram os vencidos da véspera:os franceses na Indochina e na Argélia, os ingleses na Irlanda do Norte, os norte-americanos no Vietnã,e assim por diante.

O problema é que a “guerra” um dia acaba. Não sendo uma guerra convencional, parece que as normas aplicáveis às guerras convencionais em torno de vencedores e vencidos também não se aplicam. Afinal, foi uma guerra travada sob a superfície, com o Estado e seus agentes negando qualquer situação de exceção. Mas sempre acaba chegando o momento em que as regras mandadas para o espaço cobram seu preço.

A “paz” é conquistada pela submissão do inimigo. Só que, no caso, este não pode ser claramente declarado inimigo e os atos do Estado e de seus agentes passam a ser vistos como moralmente condenáveis ou, no limite, criminosos. Quando a “paz” volta, não há como purificar atos abomináveis apresentando-os como da ordem da situação de exceção que é uma guerra convencional.

Por exemplo: durante muitos anos, a vasta literatura que, no Ocidente, esmiuçou todos os detalhes da 2ª GM apresentava atrocidades contra civis e militares como existentes apenas do lado dos nazistas. Mais recentemente, a literatura especializada começou a apresentar situações em que atrocidades de toda ordem recaiam sobre militares ingleses e norte americanos. Tal literatura possibilita ao leitor um julgamento pessoal, apresentando-as como atos decorrentes da situação de guerra, ainda que moralmente condenáveis. Assim, massacres de prisioneiros, morte de civis colhidos entre dois fogos, o arrasamento desnecessário de cidades e mesmo da zona rural, no ETO (sigla em inglês de “Teatro Europeu de Operações”), inicialmente omitidos ou negados, foram sendo levantados ao longo da revisão das análises das operações, principalmente a partir da emergência de uma nova história militar, na Europa e nos EUA. Com o Vietnã foi mais ou menos a mesma coisa, uma revisão apressada pelo fato de que aquela campanha, que chegou a envolver seiscentos mil militares norte-americanos (calcula-se que dois e meio milhões de efetivos tenham estado envolvidos diretamente na guerra, entre 1961 e 1973), era vista como guerra injusta por boa parte da sociedade norte-americana. A revisão em ambos os casos, permitiu separar as ações militares das ações questionáveis e, curiosamente, até mesmo encontrar o valor das ações da Wehrmacht. É curioso como as publicações, hoje em dia, omitem o fato de que as Forças Armadas alemãs foram levadas ao banco dos réus, em Nuremberg…

Porque os militares brasileiros, então, não juntam forças com especialistas treinados para tentar uma revisão da “guerra não convencional” brasileira? Se houve uma guerra, então, que se admita claramente que foi uma guerra, na qual brasileiros “colocaram a própria vida em risco no combate ao terrorismo e à subversão”, como disse, certa vez, o general de exército Leônidas Pires Gonçalves, ministro do Exército no governo Sarney. Segundo os militares, por volta de cem brasileiros morreram em ações promovidas pelo “outro lado”, inclusive um “soldado inocente” (???).

Nunca houve tal proposta, nem por parte das áreas de história das FFAA, nem por parte de especialistas universitários vacilantemente simpáticos ao regime militar (com exceção de Olavo de Carvalho, não lembro de nenhum intelectual que se declare abertamente simpático à Redentora, mesmo durante as palestras feitas no Clube Militar…). Certamente um especialista poderia facilmente dar um nó de marinheiro – ou até algum mais complicado – em pingo d´água, com base nos escritos teóricos que, desde os anos 1950, procuram conceituar a tal “guerra não convencional”.

Seria, sem dúvida, uma experiência interessante. Mas o que se vê, de fato, são os chefes militares tentando negar os fatos. Durante os anos 1990, entrevistas com oficiais-generais das FFAA, promovidas por um projeto de documentação do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas, abriu o que teria sido uma “oportunidade de ouro” em fazer aquilo que um dos antigos chefes do CIE (Centro de Informações do Exército, junto com a EsNI – Escola Nacional de Informações – o mais ativo sanctu-sanctorum da “guerra não convencional”, dentro da Força Terrestre), general de divisão Agnaldo Del Nero Augusto, viria a propor, em 2001. Disse o general, em entrevista publicada na imprensa: Em toda ação de guerra, e eu acho que a Revolução errou muito por não ter expressado à população que vivíamos um estado de guerra, acontecem injustiças. Basta olhar, hoje, o Afeganistão. É possível se ter atingido inocentes, agora, existiam stalinistas, marxistas-leninistas, maoístas, fidelistas… Entretanto, aqueles que foram comandantes na “guerra” falaram sobre a luta, sobre os dissabores, sobre o “sacrifício”, mas sobre as ações subterrâneas, nada. Um dos entrevistados, general de brigada Adyr Fiuza de Castro, primeiro comandante do CIE, em 1967, chegou a chutar o balde, segundo um dos artigos que consultei: Guerra e guerra. […] Agora, não sou um homem mau, não me considero um homem mau. Mas não sou contra a tortura. Acho que ela e válida em certas circunstâncias – para adquirir informações. […] E todo mundo acha. Desde os esquimós até a China, todo mundo usa, quando necessário.

É mais ou menos o que achava o general de exército Jacques Massu, quando admitiu que a prática seria bastante comum, embora “não difundida nem institucionalizada”, durante a guerra colonial francesa na Argélia, da qual foi o comandante. De fato, a única justificativa que os militares parecem admitir para a tortura é a “obtenção de informações”. Entretanto, admitir a tortura seria o primeiro passo para admitir que o objetivo buscado pela corporação foi mesmo a eliminação, pura e simples, do adversário – fato que, apesar das “injustiças” do general Del Nero, dificilmente é admitido como objetivo aceitável para uma guerra.

Outro ponto que provavelmente teria de ser discutido é o que mostra que virtualmente todas as operações, mesmo as que poderiam ser vagamente admitidas como “campanhas militares” (por exemplo, a “guerrilha do Araguaia”), começaram, foram levadas e se concluíram com tortura e eliminação de adversários. Existe valor militar possível em operações assim? Podem ser erguidos monumentos aos vencedores de tais operações? Dificilmente. A honra militar admite enganos no calor do combate, como a execução sumária de civis franceses inocentes, confundidos com colaboradores por norte americanos e canadenses. Mas dificilmente pode admitir o assassinato premeditado de combatentes “do outro lado”, se este qual lado for. Ainda que a eliminação seja o destino do vencido, esta não pode ser posta claramente.

Ficou claro então que dificilmente poderá um especialista extrair valor militar da “guerra não convencional” brasileira sem uma operação revisionista de consequências imprevisíveis. Numa coisa estão certos os antigos chefes – as FFAA perderam a “guerra da memória”, embora esses chefes se vejam como “vencedores” da guerra de fato. Ações como a do famigerado “Orvil” (“livro”, escrito ao contrário, projeto engendrado pelo general Leônidas Pires Gonçalves), que pretenderam “desmistificar” as ações dos “subversivos” não deram em nada por tentar a tática, de difícil execução, de “culpar a vítima” (ou, diria eu, no caso, o “vencido”, que acaba responsável pela própria morte), sem admitir quais seriam, afinal as responsabilidades dos militares – ou melhor, de antemão negando todas.

Existem mais alguns tópicos a comentar, mas acho que este post está… muito longo. Não quero ser acusado de torturador…::

Algumas reflexões sobre o Exército Brasileiro::Colinas, cavernas, esqueletos::

Um mês atrás (ou talvez mais…) começamos a discutir algumas questões sobre o Exército Brasileiro, uma dentre as mais antigas instituições de estado de nosso país. O EB, para bem ou para mal – em geral as duas coisas – esteve envolvido em praticamente todos os grandes eventos históricos que marcam nossa trajetória como Nação. História é história, e nem tudo que está nela é brilhante. Mas, por vezes, tendo a concluir que nosso EB (ou “GEB”, como diz, de modo estudadamente irônico, meu amigo Adler Homero Castro – ganha um FAL com munição fora da data de validade quem adivinhar o que significa isto…) pensa diferente.. Por exemplo, essa questão da “Comissão Nacional da Verdade”.

Em teoria, a “Comissão” é um desdobramento da Lei do Acesso à Informação (que regulamenta o acesso a documentos públicos). Trata-se, em última análise, de uma lei bem chinfrim, pois buscará (se é que vai mesmo ser implantada…), levantar fatos obscuros ocorridos durante o regime militar e esclarece-los. Não irá apurar nem punir nada. O que, então, faz com que Exército (e as outras FFAA, deve-se pontuar) se feche em copas toda vez que o assunto é trazido à baila? Por que é tão complicado debater os fatos acontecidos durante a “guerra suja” brasileira? Por que alguns oficiais-generais da reserva se dispõem ao papel um tanto ridículo de tentar dar nó em pingo d´água e justificar certos atos militarmente injustificáveis?

O general de exército Rocha Paiva é um desses voluntários. Depois de sua entrevista à jornalista Miriam Leitão, virou um “popstar” dos blogues de extrema direita. Com um discurso intelectualmente pouco sofisticado, o general, na reserva há poucos anos, utiliza alguns truques retóricos rasteiros para tentar, dentre outras coisas, culpar as vítimas. Ele se diz “contra a Comissão Nacional da Verdade”, com o argumento de que será “parcial e maniqueísta”.

A manifestação do general Rocha Paiva poderia ser tratada com base no regulamento, visto que aos militares, sejam da ativa ou da reserva, não cabe assuntar sobre tema da estrita alçada do Legislativo e do Executivo. Por outro lado, as manifestações dos chamados “milicos de pijama” ou “síndicos da reserva” – o general ocupa, atualmente, um desses postos honoríficos – são interessantes por expressarem o pensamento de certos setores da sociedade, dos quais os militares fazem parte – alguns dos tais “setores médios urbanos da população brasileira”.

Não é difícil encontrar tais manifestações na Internet. Ao procurar informações sobre a tal “Comissão”, encontrei muitas delas, boa parte emitidas por anciãos respeitáveis (outros, nem tanto, é verdade…). Uma das  que me pareceu mais interessantes é a do general-de-divisão Francisco Batista Torres de Melo, de 87 anos, residente em Fortaleza, Ceará. Em uma “Carta ao Presidente das organizações Globo“, o general manifesta seu estupor em uma longa diatribe, aparentemente redigida no final de outubro do ano passado. O problema, lógico, é a “Comissão da Verdade”.

A carta do general, provavelmente fora da ativa já deve fazer mais de vinte anos, não é uma peça lá muito bem escrita. Tampouco é conceitualmente rigorosa ou historicamente precisa. Afinal, o general não é um literato, nem historiador, e muito menos filósofo político. É um homem de armas, naquilo que, em nosso país, a expressão significa. Exatamente por isso vale à pena examinar o texto: se o soubermos ler, encontraremos lá a expressão do pensamento de um militar profissional que viveu toda a sua carreira em meio às efervescências do século passado. Nasceu em um Brasil e morrerá em outro, que não consegue entender direito.

A primeira questão é o valor da democracia, para essas pessoas. Para alguns desses anciãos é difícil, se não impossivel, olhar o mundo atual com olhos que não sejam aqueles que, na juventude, viam na ordem-unida a solução para o país. Afinal, Luís Carlos Prestes, se vivo fosse, provavelmente também continuaria pensando que numa ditadura stalinista se encontraria a melhor solução para o mundo e, principalmente, para uma sociedade “tumultuária” como a nossa (a expressão é de Gustavo Barroso, político cearense, pensador integralista e historiador militar, morto em 1959). Certa vez um poeta escreveu que “na juventude, nossos ideais são colinas do alto das quais olhamos o mundo; na velhice, são cavernas no fundo das quais nos escondemos do mundo”. É totalmente compreensível que, depois de uma vida passada no mundo até certo ponto tranquilo dos quartéis, o general ache que o regime democrático não passe de desordem. Para além: tendo passado a vida numa instituição que só admite idéias unívocas, e que divide o mundo, de modo absolutamente cartesiano, entre vitoriosos e derrotados (e, no dicionário da tropa, “derrotar” é sinônimo de “subjugar”), um mundo no qual os derrotados estejam no poder só pode estar virado de ponta-cabeça. Diz o bom general, em sua “Carta”:

No dia 28, no Bom Dia Brasil, veio o atual senador Aloysio Nunes Ferreira pregar mentira, quando, deveria encontrar-se preso, por ser assaltante do trem pagador. Se ele fosse um pé-de-chinelo da vida estaria preso, mas, como é comunista e ladrão, e o nosso povo, em sua maioria, ainda não sabe eleger seus legisladores, acaba chegando a senador da república. Pobre Senado. Onde ele gastou o dinheiro roubado? Deve ter sido nos cabarés de PARIS para onde fugiu. Agora, vem dar uma de democrata, quando era motorista do senhor Carlos Marighella, autor da CARTILHA DO GUERRILHEIRO URBANO. Não leu? Só um pouco: “Este é o núcleo doutrinado e disciplinado com uma estratégia de longo alcance e uma visão tática consistente com a aplicação da teoria Marxista, dos desenvolvimentos do Leninismo e Castro—Guevaristas, aplicados às condições específicas da situação revolucionária. Este é o núcleo que dirigirá a rebelião à fase da guerra de guerrilha.” Este é um dos democratas da guerrilha que lutou contra a sociedade brasileira.

Nesse curto trecho é fácil notar que o general não consegue descolar a figura do senador do PSDB, paladino neoliberal, daquela do militante da ALN, guerrilheiro urbano com origem no movimento estudantil e na classe média paulista. O general continua vivendo uma guerra, a guerra contra os “subversivos”, na qual o povo brasileiro, ignorante, por não saber votar elege os derrotados que, agora disfarçados de democratas, chegaram ao poder. Povo de “boa índole” mas, mal-preparado, não sabe que aos derrotados resta danação perpétua, como foi feito com nazistas alemães e comunistas soviéticos, ambos derrotados em guerras e “guerras”, “contra a sociedade brasileira”.

A guerra desses homens é outra questão interessante. Por vezes parece espantoso como alguns militares da geração de 1964 afirmam ter estado em uma guerra, travada contra o “Movimento Comunista Internacional”. O general foi um dos combatentes. Ao longo de uma longa vida, foi disciplinado soldado em uma longa guerra – a Guerra Fria. A guerra dos blocos, na qual o Brasil posicionou-se do lado da “liberdade”. Embora eu não tenha levantado sua biografia, imagino que ele tenha saído aspirante a oficial em meados dos anos 1940, por volta do final da 2ª GM; viveu a redemocratização de 1946, a sucessão de eleições, de crises e de quarteladas, a transformação do país em uma sociedade urbana, múltipla em agentes e posições políticas – fato tido por muitos militares e por setores da sociedade civil como raiz da “desordem”. Destes setores esses anciãos fazem parte, e com um carma a mais que seus confrades civis da classe média: “injustiçados”. Afinal, são frequentemente acusados de responsáveis por parte da desordem que por aí campeia. Neste sentido, o general é muito claro. Em uma entrevista replicada em um bom blogue de assuntos militares, diz ele:

… os militares estavam sempre … ao lado dos governos. É muita injustiça, portanto, dizer que nós éramos contra o governo. O militar, normalmente, é sempre governo. … em 30 não foram os militares que fizeram a revolta que levou à queda de Washington Luis. Houve, de fato, militares que fizeram parte daquele movimento, mas, na verdade, quem fez a revolta foi Minas Gerais, foi o Rio Grande do Sul, foi a Paraíba, foram os políticos que revoltaram-se contra Washington Luis. Não foram os militares os responsáveis pela revolta de 32, em São Paulo, foram os políticos paulistas em reação ao … Getúlio Vargas, que era um ditador. Os militares não fizeram a revolta de 35, consequência da ação de pessoas de fora … o senhor sabe que a coisa nasce lá pela União Soviética … Em 45, quando o Getúlio caiu … não foram os militares que o derrubaram, foram os mineiros, lembremos do grande Manifesto Mineiro, que balançou o sistema político. Se o senhor for em 54, não foram os militares que mataram Getúlio, foram os elementos que o cercavam, o exploravam …. Eram elementos podres cercando-o e que levaram àquela explosão. No caso do Jânio, ele, na sua loucura, … largou o governo e foi embora, não fomos nós. Da mesma maneira que não fomos nós, militares, que botamos o João Goulart pra fora do governo. Ninguém fala, ninguém diz, todo mundo permanece calado, mas Magalhães Pinto, Carlos Lacerda, Meneghetti , no Rio Grande do Sul, Ney Braga, no Paraná…

Está aí um outra questão: a relação dos militares com a política. A culpa, então, é sempre dos políticos. Este era, por sinal, o discurso dos militares que, no final do século 19, resolveram meter-se na política que mantinha o país no atraso – e o atraso era representado pela monarquia; também era o discurso dos tenentes dos anos 1920, os que promoveram levantes dos mais diversos matizes políticos, mas tendo sempre no egoísmo e corrupção dos “casacas” a explicação de todos os males.

Temos, então, dois cenários que se cruzam: por um lado, a “guerra contra a sociedade brasileira”, que obrigou os militares a tantos sacrifícios;  por outro, a sociedade “tumultuária”, composta por um povo bom mas ignorante e por “casacas” mal-intencionados. A guerra não foi provocada pelos militares brasileiros – afinal, qualquer criança sabe da “índole pacífica” de nosso povo. A “guerra” foi iniciada pela União Soviética, “contra a sociedade brasileira”. Os atos que agora esses políticos querem atribuir aos militares foram necessários (um) e justificados (dois), e estiveram integrados ao único momento em que as classes armadas se manifestaram – cumprindo seu dever. Afinal, havia uma guerra contra a sociedade brasileira, guerra disfarçada de política. Assim, os desaparecidos nada mais foram que soldados do outro lado, “mortos em combate”. Não foram atos ignóbeis , pois mortos houveram dos dois lados. C´est la guerre... Por que, então, esclarecer apenas os de um lado? Coisa da esquerda, que, segundo o general, perdeu a guerra e …  precisa, até hoje, justificar a situação e investe na tese de que os militares não prestam, os militares são os causadores de tudo. No entanto, o senhor não vê, nessa confusão toda que está ai, nesses roubos todos, nenhum militar envolvido.

A “Comissão da Verdade” não irá resolver essas questões, pois elas são da ordem da ideologia. As posições dos militares podem ser explicadas, em parte, pelo espírito de corpo, ou seja, pelo apelo à uma tradição que alimenta a identidade e reforça a coesão de uma corporação, seja civil ou militar. Quando o general invoca o espírito progressista do militar brasileiro, que participou de todo o processo de evolução desse País, apela à uma tradição que remonta aos militares positivistas do últimos quartel do século 19. Partidários do progresso, os militares se vêem como essencialmente patriotas e amantes da paz. Como na “Canção do Exército”: “A paz, amamos com fervor, a guerra só nos causa dor. Porém se a Pátria amada for um dia ultrajada lutaremos sem temor”. Quase como se ecoasse a canção, diz o general… eles é que começaram a matar. Quem jogou a bomba no aeroporto de Guararapes? Fomos nós? Não! Lá, mataram um almirante reformado, mataram um jornalista e um pobre de um jogador de futebol, um grande jogador de futebol, perdeu uma perna. Se eles estavam na disposição de tomar o poder pela força, por isso criaram a Guerrilha do Araguaia, na certeza de que teriam um território livre para atuar. Como eles estavam na teoria da força, a reação só poderia se dar na base, também, da força.

Todo discurso ideológico tem fraturas e neste, o problema é que os fatos “militares” ocorridos durante o regime militar não se justificam militarmente – e os militares sabem disso. Em seu imaginário está outro tipo de guerra, como a do Paraguai ou da campanha da Itália. Nessas ecoam as canções, a “glória refulgente”. Mas o treinamento que os milicos receberam a partir dos anos 1950 foi para outro tipo de guerra. Nesta, o inimigo é insidioso, e não aceita a derrota. Os atos que deveriam ser comemorados viram esqueletos a serem escondidos.

Neste ponto é que, possivelmente, iniciativas como a “Comissão da Verdade” talvez abram a possibilidade de soldar a fratura. Os norte-americanos, na formação de seus militares, estudam a Guerra do Vietnã. Foi uma guerra tão suja quanto nossa miniatura, a “Guerrilha do Araguaia”. Gerou fatos abomináveis como o massacre de My Lay, e pobres figuras como o tenente William Calley e seu comandante, o tenente-coronel Frank Barker, que ordenou o massacre. Mas também foi a guerra em que uma doutrina, então ainda nascente, amadureceu – a das tropas aeromóveis. Foi lá que o helicóptero turbo-eixo começou a adquirir o papel que tem hoje em dia; foi lá que se inventou o helicóptero “canhoneiro”; foi lá que o apoio aéreo aproximado foi reinventado. Execrada nos anos 1960 e 1970, a guerra do Vietnã foi transformada num evento militar porque os fatos abomináveis foram separados dos fatos militares. Claro que ainda gera muita controvérsia, e claro que o Exército dos EUA não frisa os fatos abomináveis, e nem mesmo admite claramente que foram abomináveis. Quando da apuração do massacre de My Lai, o único condenado foi o segundo tenente Calley, quando até mesmo o general comandante da divisão (a 23ª Infantaria, a “Americal“, uma das mais tradicionais grandes unidades do Exército dos EUA) no episódio, meteu os pés pelas mãos.

Algum dia se poderá dizer, por aqui, que a “Guerrilha do Araguaia” foi uma campanha militar? Algum dia, não sei, mas tenho certeza que hoje não se pode, porque se é que a “Campanha do Araguaia” foi uma campanha militar, se é que deixou algum ensinamento militar, foi também uma campanha suja. Quaisquer que sejam seus aspectos militares, não poderão ser invocados, estudados ou lembrados (deixemos claro, aqui: nunca com a ressonância da campanha da Itália…) caso a sujeirada não militar, ainda que cometida por militares, não venha a ser esclarecida.

Muito bem – acham nosso militares que foi uma guerra? Então talvez o Exército Brasileiro devesse admitir que nas guerras também se cometem os piores erros, e que os militares, por serem militares, não estiveram imunes a comete-los. É uma desculpa um tanto capenga, mas é melhor do que tentar negar os fatos. Esclarecidos esses, talvez se possa dizer que os militares brasileiros não veneram figuras como a do tenente-coronel Rodrigues de Moura… E a “guerrilha do Araguaia” poderia virar uma campanha. Não tão comemorada quanto a da Itália, mas pelo menos lembrada, se pouco, nas salas de aula dos cursos de formação.

Pensando bem, talvez fosse o caso de invocar Golbery do Couto e Silva. General da reserva, figura ambigua da política brasileira, Golbery era favorável à apuração dos atos da “guerra suja”, particularmente os da era Médici. Dizia ele que caso se tirasse os equeletos do armário, eles ficariam em cima do tabete durante algum tempo, mas acabariam sendo enterrados de vez, mais cedo ou mais tarde. Entretanto, se forem mantidos no armário persistirão fedendo. E, digo eu, assombrando. A todos nós. Tirar os esqueletos do armário, através de iniciativas como a “Comissão da Verdade” permitirá devolve-los, finalmente, às suas famílias. Traze-los de volta para serem enterrados em casa. E também talvez possibilitasse aos últimos remanescentes de uma geração que se considera injustiçada sair de suas cavernas para morrer em paz no alto de suas colinas.

Voltaremos ao assunto, qualquer hora dessas::

Já ouviram a “Canção do Exército”? Pois aí está uma chance.

Atualizando os velhos camaradas e uma notícia estapafúrdia::

Estava eu inventando desculpas para não começar a trabalhar (não vivo do causa::, infelizmente, mas quem sabe um dia…), quando tive a idéia de visitar o ótimo blogue do Comandante James Bond (i.e. MBSantigo Jr), e tive a surpresa de descobrir que, mais uma vez, o Comandante mudou de endereço. Não tem problema – dentre os que conheço, ainda é o melhor redator de blogues: elegeu um objeto inusitado, os temas abordados são interessantes e sobretudo, os textos são muito bem escritos e complementados. O comandante Bond sempre gostou muito de falar de armamento, e fala bem, principalmente porque consegue a proeza de colocar bom humor num assunto que pode ser tudo, menos bem humorado. Esta característica sempre me desperta uma vontade danada de comentar os postos específicos, e, desta feita, encontrei dois deles. Não que discorde do conteúdo, mas porque fico achando que poderia, quem sabe, acrescentar alguma coisa (é inveja, mesmo  – quem quiser dar uma olhada, clique aqui e aqui, leia o texto e, em seguida, vá até os comentários). O fato é que, procurando dados para complementar meus comentários, acabei dando de cara com um que achei extremamente interessnte. Pois é – passo ao assunto, com o devido reconhecimento do comandante Bond::

É fato que a União Soviética foi, durante as décadas posteriores à 2ª GM, foi a maior produtora de armas do mundo. Os EUA ficavam em segundo lugar, mas não exatamente porque abominem as armas e amem a paz, mas porque seus aliados, notadamente Inglaterra (terceirona) e Alemanha (a partir dos anos 1960, quarta, com honras), as produziam em quantidades mais do que suficientes. A URSS, ao contrário: tinha de equipar seus mais de três milhões de militares e mais de um milhão de policiais militarizados, e suprir boa parte das necessidades dos cerca de dois milhões de militares de seus aliados do Pacto de Varsóvia.

A questão é que, desde antes da guerra, os planejadores soviéticos, seguindo as diretrizes emanadas da ditadura stalinista, colocaram muita ênfase na indústria militar. Não é por outro motivo que, em 1939, os soviéticos tinham mais tanques, peças de artilharia e aeronaves do que qualquer outro país, inclusive a Alemanha. Por sinal, a Alemanha não seria termo de comparação – as FFAA soviéticas eram três vezes maiores do que as alemãs.

Foi o planejamento centralizado, implantado no final dos anos 1920, que permitiu, através do direcionamento dos recursos disponíveis, fortalecer certos ramos da produção em detrimento de outros, e certas regiões, em detrimento de outras. Numa economia capitalista, as demandas do mercado indicam para onde se voltam os investimentos e a competição determina o dinamismo econômico; numa economia socialista, os investimentos são decididos de antemão, segundo o que seriam, na opinião dos planejadores, as necessidades da sociedade como um todo. A “coletivização da agricultura”, uma espécie de reforma agrária feita à ponta de baioneta, é um exemplo radical de como funcionou essa coisa. A reorganização da agricultura liberou, em cinco anos, recursos que se encontravam presos, de forma arcaica e improdutiva, nas inumeráveis propriedades pertencentes a milhões de camponesses, que não tinham sido atingidos pela Revolução de 1917 e ainda continuavam numa economia de base capitalista e especulativa. Isso significou que terras cultiváveis, gado, fontes de água, áreas potencialmente produtoras de madeira e minerios, foram desapropriadas, e a mão-de-obra excedente, desalojada pela racionalização da produção agrícola, extrativista e minerária, foi deslocada para outros setores da produção, notadamente a indústria. Esses recursos entraram no circuito econômico repentinamente, e permitiram um notável surto econômico. Por outro lado, e ao mesmo tempo, esse processo provocou uma verdadeira epidemia de fome em regiões que, apesar da miséria endêmica, não conheciam a escassez de comida. Os “Planos Quinquenais”, que aconteceram junto a esse processo, estabeleceram metas de produção, que eram pensadas paralelamente às metas econômicas.

Deu certo? Deu: em uma década, o PIB sovietico cresceu mais de cem por cento. O dinamismo soviético impressionou até mesmo grandes capitalistas norte-americanos e europeus. Por outro lado, o Estado determinava tudo (o que mais tarde revelou-se um problema), inclusive como seriam direcionados os investimentos públicos. A guerra enfrentada entre 1918 e 1920, que envolveu inclusive a participação de tropas estrangeiras, e vencida pelo recriado Exército Vermelho, organizado por Trotsky e por alguns oficiais militares convertidos ao socialismo, convenceu os novos governantes que, antes de qualquer coisa, a URSS precisaria de armas, e que não as conseguiria do exterior. Assim, desde antes da implantação dos “Planos Quinquenais”, foi posta grande ênfase naquilo que, hoje em dia, chamamos “indústria de defesa”. Depois da 2ª GM, a URSS, com grandes planos expansionistas, não chegou a desmobilizar suas enormes FFAA, até pelo contrário. O setor militar foi reforçado, e, em decorrência disto, também outros setores relacionados, particularmente a pesquisa básica, a pesquisa aplicada, as universidades e os laboratórios especializados. A vantagem inicial soviética na corrida espacial, por exemplo, deveu-se à pesquisa desenvolvida para conseguir vetores funcionais que levassem até o território norte-americano as bombas nucleares conseguidas no início dos anos 1950. Os lançamentos de satélites e de “cosmonaves” conduzindo animais e, pouco depois, homens, deveram-se aos testes com sistemas que permitissem calcular de modo eficaz as trajetórias e pontos de impacto dos vetores, bem como monitorá-los e influir nas diversas fases do vôo. Ou seja: a corrida espacial é um produto da corrida armamentista que caracterizou a Guerra Fria. A superioridade inicial dos soviéticos devia-se a necessidades militares prementes, as quais os norte-americanos, inicialmente, pensavam não ser preocupação.

O fato é que a sociedade soviética era, bem mais que as ocidentais, uma sociedade altamente centralizada e burocratizada – quer dizer, a aplicação das decisões implicava numa capilaridade perversa (a expressão é do teórico alemão oriental Rudolf Bahro, no livro Crítica ao Sorex – Socialismo Realmente Existente). Segundo esse teórico, que conseguiu a proeza de ser dissidente nas duas Alemanhas, numa ordem dominada pelo aparato do estado e do partido, que monopoliza todo o poder, e que sufoca a vitalidade da ordem econômica e social, por sufocar a prática política, a posse dos meios de produção significou, simplesmente, seu controle pela máquina do estado.  Dizendo de outra maneira, o planejamento centralizado poderia até ser eficiente para certos aspectos da organização econômica, mas não chegou a resolver certos nós da economia propriamente dita.

Um desses nós é que, no capitalismo, a competição determina o dinamismo econômico: as indústrias querem, em última análise, lucrar, e, independente das explicações teóricas, na prática isto só acontece se os produtos forem vendidos. A inovação acaba sendo fator determinante no processo como um todo, pois possibilita melhores produtos para enfrentar a competição. Na sociedade socialista, em princípio, o Estado seria o dono de tudo, o que tornaria quase desnecessária a competição. Existia, é claro, um “mercado socialista”, balizado – pelo menos segundo os teóricos socialistas – pelas reais necessidades da sociedade. Na prática, o que aconteceu, de fato, é que o “planejamento socialista” criou uma burocracia gigantesca, cuja função última era manter o poder político. Boa parte desse enorme conjunto de funcionários acabava por duplicar (quando pouco…) o trabalho das outras partes, e gerava, no processo, enorme ineficiência. Não é que faltasse recursos – estes existiam, até em boas quantidades, mas eram mal distribuídos ao paradoxo; não é que a mão de obra fosse de baixa qualidade – o problema era a política de “pleno emprego socialista”, que impedia o gerenciamento eficaz do trabalho; não é que os produtos fossem mal concebidos – o problema é que entre a prancheta e a fábrica, o processo era de tal forma complexo, confuso e desorganizado que acabava sendo mais simples colocar um satélite em órbita do que produzir bicicletas de boa qualidade.

Tudo acabava na dura realidade de que os países socialistas – URSS à frente – apesar dos feitos no campo social, não conseguiam nem chegar perto dos padrões econômicos do Ocidente, embora tivessem igualado e, em certos casos, até superado os ocidentais em áreas como a educação, as ciências puras, certos ramos da medicina, da produção agrícola, e por aí vai. Uma questão discutida até a exaustão entre os comunistas de todo o mundo era o motivo da União Soviética não conseguir igualar a qualidade de vida dos países capitalistas em coisas simples como, por exemplo, a distribuição de bens de consumo. As explicações por vezes chegavam a ser pueris – “na URSS as pessoas são mais conscientes da necessidade de  fazer sacrifícios” ou “na URSS todos tem suas necessidades resolvidas, de modo que não sobra muito para os gastos conspícuos e suntuários”. O fato que não podia ser amplamente debatido é que o ambiente de liberdade não apenas incentivava a competitividade como a criatividade. No Ocidente, não eram apenas os artistas que podiam fazer o que bem entendessem, mas também os pensadores e cientistas. Na URSS, a partir do stalinismo, o estado se metia a determinar até mesmo o que era “arte socialista”, e chegaram a absurdos como tentar estabelecer a existência de uma “biologia dialética”, em oposição à uma “biologia burguesa”. O fato é que nem todo mundo se dispunha a achar aceitável o horrível “realismo socialista” ou tentar encontrar a dialética na natureza, e daí, milhões de pessoas tornavam-se pouco confiáveis aos olhos dos detentores do poder. O resultado é que o estado desconfiava de tudo e a sociedade era estritamente vigiada. Após a desestalinização da era Khrushchev (1953-1964), certas bobagens, embora não admitidas oficialmente, passaram ser toleradas, como o contrabando de músicas dos Beatles – que eram extremamente populares entre a juventude soviética -, o uso de calças blue-jeans fabricadas a partir de macacões distribuídos aos operários e a leitura de histórias em quadrinhos francesas e alemãs. Mas os aspectos falhos do socialismo não podiam ser debatidos, pois perigava de se chegar até os nós do regime, tais como o excesso de centralismo, a burocracia como entrave ao planejamento e a má organização econômica como razão para a incapacidade distributiva. A ideologia, veiculada através do aparelho de estado acabava por explicar tudo. Claro que havia ideologia na sociedade ocidental, mas esta transitava dentro de limites bem mais estreitos que na União Soviética e o amplo debate, por vezes autofágico, tornava mais difícil o controle da opinião – e da criatividade.

A ineficiência soviética manifestava-se até mesmo nas áreas do mais alto interese do estado. Um dos ramos da indústria que, internamente, era menos ineficiente era a indústria de defesa. Durante a 2ª GM, a URSS deu uma demonstração de vontade coletiva e determinação que certamente será difícil de encontrar em outros eventos, ao longo da história. Por outro lado, é sempre preciso esclarecer que, não fosse o apoio dos aliados, notadamente dos EUA, a URSS provavelmente teria sucumbido. Mas o apoio aliado se deu principalmente em termos de alimentos, matérias primas e insumos (por exemplo, enorme quantidade de gasolina de aviação e lubrificantes de vários tipos, bem como produtos químicos diversos foram cedidos à União Soviética ao longo da guerra). Os equipamentos bélicos (tanques, aeronaves, armas pesadas e individuais, munição) e outros equipamentos foram fabricados pela indústria soviética, cuja eficiência e capacidade de improvisação tornaram-se quase lendários.  Terminada a guerra, as forças soviéticas tinham um efetivo de aproximadamente 15 milhões de homens e mulheres (e crianças, já que adolescentes de até 13 anos foram convocados), mas estavam também equipadas com 40.000 tanques, 80.000 veículos blindados de todos os tipos, 100.000 canhões de todos os tipos, 700.000 veículos não protegidos, cerca de 30.000 aeronaves de todos os tipos, aproximadamente 300 belonaves de primeira linha (dentre as quais 150 submarinos) e 2.000 outros navios de uso militar. Os especialistas concordam que oitenta por cento desta quantidade saiu de linhas de produção soviéticas. Outras fontes dizem que boa parte dos caminhões e outros veículos não protegidos foi também fornecida pelos EUA. O importante, no caso, é que quando as hostilidades se encerraram, praticamente os únicos setores da produção soviética que estavam plenamente organizados eram aqueles voltados para suprir as necessidades militares. Existiam instalações industriais gigantescas, organizadas segundo um processo semelhante ao fordismo, denominado “stakhanovismo“, capazes de produzir em escala comparável a do Ocidente.  Um exemplo espetacular é a cidade de Chelyabinsk, sítio de inúmeras indústrias metal-mecânicas e químicas instaladas nos anos 1930. A partir de 1941, a lugar começou a receber as plantas industriais responsáveis pela produção do tanque médio T34, e rapidamente as indústrias locais voltaram-se para atender exclusivamente ao fabrico do blindado, que, durante toda a guerra, chegou a números de quase 50.000 unidades.

Uma dessas fábricas gigantes é a IZH, também conhecida como “Izhmash”. Situada na cidade de Izhevsky, esta indústria metal-mecânica foi fundada em 1807 e estatizada em 1928. Sempre associada à fabricação de armas leves, Izhmash tornou-se, durante a 2ª GM, a principal fornecedora de armamento individual para os expercitos da URSS. na segunda metade dos anos 1940, com as submetralhadoras descontinuadas, a empresa voltou-se totalmente para a produção do fuzil de assalto Kalashnikov AK47 e todas as suas variantes. Calcula-se que, dos 80 milhões de AKs existentes (algumas fontes falam em 100 milhões), algo em torno de 55 milhões tenha saído das linhas da IZH. Desde a guerra do Vietnã, essa arma encontra-se nas mãos de praticamente todos os combatentes de guerrilha e milicianos do mundo, além, claro, de milhões de combatentes e policiais regulares (causa:: já publicou um longo estudo sobre essa venerável família de armas de infantaria).

Qual a razão da existência de tantos AKs? Segundo especialistas da própria Rússia, o temor perene de uma guerra com o Ocidente, principalmente a partir dos anos 1950, fez com que a URSS investisse na indústria de defesa enorme quantidade de recursos. Depois do fim da 2ª GM, enquanto o Ocidente, em particular a Europa, procurava desmobilizar rapidamente suas FFAA, a URSS manteve as dela, como forma inclusive de manter quietas as populações dos países, em sua esfera de influência, tornados socialistas. Desde o período stalinista, as forças armadas soviéticas, por qualquer padrão, eram, mesmo em tempo de paz, gigantescas. Em caso de guerra – guerra que, segundo as lideranças, era sempre iminente – o país deveria ser capaz de mobilizar rapidamente milhões de reservistas, o que significava dar-lhes armas e equipamentos muito rapidamente. Foi assim que a produção de equipamento bélico cresceu de modo exponencial. Um motivo que deu argumentos às lideranças comunistas foi a Guerra da Coréia. Embora os chineses tenham se saído bastante bem em garantir a sobrevivência do regime norte-coreano, pareceu claro que apenas uma grande quantidade de tropas mobilizadas rapidamente e se deslocando em alta velocidade poderia compensar a arrasadora superioridade aérea do Ocidente. Ainda assim, a vantagem chinesa, conseguida conseguida através da rápida intervenção de mais de 300.000 “voluntários” através da fronteira, dependeu de um fluxo constante de armas e munições, inclusive várias centenas de aeronaves inicialmente pilotadas por soviéticos depois, por chineses. A quase totalidade das armas era proveniente dos enormes estoques que tinham “sobrado” da “Grande Guerra Patriótica” (como o soviéticos chamavam a 2ª GM): submetralhadoras PPSh, tanques T34, canhões ZIS-3 de emprego geral, foguetes Katyusha montados em caminhões GAZ. Tal procedimento não deve provocar estranheza, porque os EUA fizeram exatamente a mesma coisa: lutaram com os estoques de armas estocadas desde a 2ª GM. Apenas a partir da metade do conflito algumas novidades foram sendo introduzidas. Só que as novidades soviéticas dificilmente chegavam aos seus aliados orientais, em função da desconfiança que sempre atravessou as relações sino-soviéticas.

Como já vimos aqui mesmo no causa::, o AK47 surgiu em 1947 mas levou pelo menos dez anos até chegar às mãos das forças regulares em números consideráveis. A partir de 1956, a produção começou a crescer, conforme a arma passou a equipar as FFAA dos países satélites, geralmente produzidas pela própria indústria local. Ainda assim, ao longo de trinta anos, uma quantidade astronômica saía da Izhmash, boa parte da qual acabou em depósitos. Esses depósitos foram parcialmente esvaziados ao longo da Guerra do Vietnã – ao contrário do que parece, a maioria das armas utilizadas pelo Vietnã do Norte era de origem soviética, e não chinesa. Bem antes de 1974, quando começou a difusão do AK74, as armas estocadas já eram distribuídas para exércitos de países do Terceiro Mundo, nos quais a URSS buscava influência. Assim, todas as nações do Oriente Médio receberam grandes quantidades do fuzil soviético e algumas delas, como o Egito se tornaram capazes de produzir cópias autóctones; a Índia recebeu enormes quantidades, e depois passou a fabricá-las localmente; Bangladesh poderia não ter lá muita comida para seus 140 milhões de habitantes, mas tinha muitos AKs fornecidos pela URSS e pela Índia; Iraque, Sudão, Nigéria, Angola, Moçambique, Rodésia, Iran, etc., etc., beberam todos nas enorme capacidade soviética de produzir AKs de todos os tipos. Os movimentos insurrecionais também, mas a maior parte das armas soviéticas que lhes chegavam era fornecida através de traficantes, que constituiam uma espécie de versão eficiente da tal “capilaridade perversa”.

Com a crise da URSS, o fim da política de disputa global com os EUA e a crise econômica que comprometeu todos os ramos do estado soviético, a Rússia já não tinha nem disposição nem recursos para financiar exércitos e movimentos insurrecionais pelo mundo. Ainda assim, os AK, fossem 47 ou 74 continuaram chegando em grandes quantidades aos interessados. Por outro lado, a incapacidade russa em subsidiar as vendas as fez cair notavelmente, isto somando-se ao fato de que o ex-bloco soviético também começou a desovar seus próprios estoques. Como a Izhmash não parou de produzir AK74 (o modelo 47 teve sua produção muito reduzida a partir dos anos 1980, mantida apenas uma linha voltada para exportação), a Rússia continuou a comprá-los. O que faz sentido, já que, na época, as armas de infantaria eram praticamente o único produto da IZH, que também produzia (e continua) outras armas militares, armas esportivas, carros e motocicletas. O fato é que a perda do mercado cativo da União Soviética criou enormes problemas para a empresa, e a Rússia continuou com os subsídios da época do comunismo.

O problema é que a Rússia não podia dar-se ao luxo de deixá-la falir ou ser comprada, a preço de banana, pela diretoria, como aconteceu por exemplo, com a indústria petrolífera e parte – a parte boa, lógico – da indústria química e da indústria mecânica). Izhmash, acredite se quiser, é agora praticamente a única fábrica de armas de infantaria da Rússia, pois as “filiais” que eram mantidas nas ex-repúblicas – por motivos exclusivamente políticos – passaram à propriedade dos novos governos. A ineficiência do processo mostrou, então, sua face real: não havia planejamento e  a direção da empresa insistia em manter a linha AK em produção sem levar em consideração a redução da demanda. A produção era mantida artificialmente alta, pois fossem quais fossem os números, as FFAA e as forças policiais as compravam, por determinação do governo.  Para piorar as coisas, o AK74 e suas variantes se mostravam ultrapassados desde os anos 1980. Diante da demanda das FFAA por uma nova arma, a empresa insistia em apresentar modelos que não passavam de variantes da família AK, que eram sistematicamente recusados pelas forças armadas.

No momento, a IZH está trabalhando em uma nova versão do AK, destinada a substituir todas as anteriores – esta seria denominada AK12. Segundo a empresa, os testes de campo, em unidades operacionais do exército de da marinha russos deverão se iniciar antes do fim do corrente ano. A questão é que Ministério da Defesa da Rússia tem mostrado muito pouco interesse pela nova arma, exatamente em função do fato de que se trata de uma maquiagem sobre o velho AK74 – a versão do AK para o cartucho 5.45X39 mm, que já acumula 38 anos de serviços. Embora a empresa – que atravessa sérias dificuldades desde os anos 1990 – afirme que se trata de um novo armamento, adaptado às demandas das modernas forças armadas e do moderno campo de batalha, projetada sem abandonar as qualidades que tornaram a família AK sinônimo de fuzil de assalto, especialistas têm dito que, de fato, se trata de um projeto muito parecido com o do AN94 Nikonov, um aperfeiçoamento do AK74 projetado nos anos 1980 por um engenheiro da própria IZH, e que acabou distribuído apenas para forças especiais. O que parecia eficiência era, um planejamento cronicamente ineficaz arraigado por todo o estado soviético. Além do “caso Nikonov”, houve também a maluquice do AEK.

Trata-se do fuzil de assalto AEK971, desenvolvido pela  empresa Usina de Fabricação de Máquinas Kovrov, ligada ao ateliê engenheiro S.I. Koksharov. A arma foi desenhada para participar do concurso “Abakan”, no final dos anos 1980, vencido pelo Nikonov. Apesar de ter sido desqualificado, o AEK971, que, de fato, já estava em produção, foi oferecido às forças policiais e para exportação. No início do século 21, pequenos lotes foram fabricados por encomenda do Ministério dos Negócios Interiores, que tinha suas próprias tropas, um grupo de forças especiais (Spetsnaz) especializadas em lidar com distúrbios civis, que teve importante papel em garantir o governo Gorbatshev, quando da tentativa de derruba-lo. A arma não “colou” de jeito nenhum, e quando a Krokov foi reestruturada, em 2006, deixando de fabricar produtos militares, o AEK acabou de vez, por não ter compradores nem usuários. Embora o governo tenha ordenado que o maquinário usado para a produção militar fosse transferido para outra empresa, na mesma cidade, a diretoria da AEK, tendo “adquirido” a fábrica, recusou-se a executar a transferência, sob a alegação que se tratava de patrimônio privado. O AEK, como não podeia deixar d ser, era outro clone maquiado do AK74.

O fato é que se fala cada vez mais, nos círculos profissionais de defesa da Rússia, na necessidade de um fuzil de assalto totalmente novo. Como o sistema Future soldier já está sendo discutido lá, tanto quanto nos EUA, França, Alemanha, Inglaterra e até mesmo no Brasil, a questão do armamento individual torna-se premente. Mas o que fazer com as quantidades oceânicas de AKs em depósito? Planejadores do Exército declararam, ano passado, que a quantidade de AK74 era “mais de dez vezes superior às necesidades das forças armadas e policiais pelos próximos anos”, citaram números  de 17 milhões de exemplares. Em função desse excesso, e do desenvolvimento, em curso de uma nova arma individual, que deverá substituir todo o armamento das FFAA russas, a aquisição de unidades novas de fábrica foi interrompida, por determinação do Chefe do estado Maior Geral das FFAA russas, general de exército Nikolai Makarov. Por enquanto, a “nova” arma é o AK200, que não passa de outra versão do AK74, com algumas novidades visando fazê-la parecer mais moderna, e já pensando na provável recusa do AK12::

Uma foto curiosa, um navio mais curioso ainda::

De fato, não se chegou a um acordo, até agora sobre a real nacionalidade do navio fotografado no Mar da China (embora alguns blogues refiram-se ao local como sendo o “Mar Amarelo”). O diretor da empresa de análise estratégica DigitalGlobe, dona da fotografia, Stephen Wood, disse estar certo de ter apanhado, em testes de mar, o navio-aeródromo de ataque (NAeA) Shi Lang, destinado a tornar-se capitânea da renovada e crescente esquadra da Marinha do Exército de Libertação do Povo (é este o curioso nome da marinha de guerra chinesa). O NAeA estaria conduzindo a segunda bateria de testes de mar, que duraram aproximadamente duas semanas, entre novembro e dezembro do ano passado. A análise da foto indica, pela intensidade da trilha de espuma, que deveria estar desenvolvendo dois terços de sua velocidade máxima, ou seja, uns 25 kts (a máxima seria de uns 33 kts). Depois do retorno às docas do Estaleiro Naval de Dalian, informes de inteligência dizem que começaram a ser instalados os cabos de parada, o que significa que os próximos testes serão de decolagem e pouso de aeronaves, embora seja impossível dizer ser esses testes já incluirão os pesados caças multifunção navais J15.

Este navio tem gerado crescente interesse por parte dos analistas ocidentais, pois é indicativo de que a China pretende, a médio prazo, tornar-se uma potência naval. Os  chineses tem estado, nos últimos dez anos, engajados num ambicioso programa de modernização naval. A Marinha do Exército de Libertação do Povo sempre foi uma força de grandes proporções, organizada com auxílio dos soviéticos a partir da vitória da Revolução Comunista, no Final dos anos 1940. Entretanto, oitenta por cento de seus navios, durante a Guerra Fria, eram barcos-patrulhas de pequeno porte e submarinos costeiros convencionais, cedidos pelos soviéticos ou construídos localmente, com base em tipos soviéticos da Segunda Guerra Mundial. Nos últimos anos, esses barcos estão sendo retirados de serviço e substuituídos por tipos modernos, desenhados por técnicos formados em univerisdades e estaleiros da Rússia, Ucrânia e Polônia. As novas aquisições incluem todos os tipos necessários para criar um grupo de batalha centrado em navios-aeródromos. Isso inclui contratorpedeiros porta-mísseis da nova classe 052C, Lanzhou e um tipo de fragata multitarefa, a classe Jiangkai II . Estão  também no foco dos planejadores chineses submarinos nucleares, mas parece que estes têm sido mais difíceis de desenvolver. A tecnologia naval não é algo que se consiga da noite para o  dia, e, em certos casos, tem de ser formada ao ongo de muito tempo… ou copiada. No caso de navios-aeródromos, é exatamente este o caso: são poucos os países que sabem construí-los e os que sabem hesitam em ensinar, visto que se trata de uma arma de dissuação estratégica “limpa”.

Temos, então, uma longa história. O navio começou a ser construído na época da antiga URSS. Suas origens remontam a 1981, quando o ministro da defesa soviético, marechal Dmitri Ustinov, visto como antipático a gastos com belonaves de grande porte, embarcou no “cruzador pesado porta-aviões e porta-mísseis” Kiev para assistir aos exercícios navais West 81, que reuniam os principais elementos da Esquadra Soviética do Atlântico Norte. Parece que, na ocasião, Ustinov convenceu-se da necessidade de dotar a esquadra soviética de uma arma aérea, com aviões de fato, e não apenas helicópteros e o espúrio Yakovlev Yak 38 “Forger”, um caça de decolagem vertical cujo desempenho era nada mais que pífio. Ainda em 1981 foi decidido que uma nova classe de “cruzadores pesados porta-aviões e porta-mísseis” seria desenhada pelo PKB (escritório de projetos navais) Nevsky, de Leningrado, e que a classe teria duas unidades: o Tsibili e o Riga. Contratados pouco depois, os dois navios foram construídos em estareiro ucraniano (a Ucrânia era então uma República Socialista Soviética). O Almirante Kuznetsov foi lançado ao mar em 1985 e somente tornou-se operacional em 1995, estando ainda em serviço na Marinha da Rússia. Por motivos políticos (após o fim da URSS, tanto Tsibili, na Georgia, quanto a letoniana Riga passaram a ser cidades estrangeiras com relação à Rússia) os nomes dos navios foram mudados para Almirante Kuznetsov (ministro da marinha durante a Segunda Guerra Mundial) e Varyag (“Varego”, um dos povos nórdicos conhecidos de forma genérica como vikings, que colonizaram porções do atual território europeu da Rússia).

Nessa mesma época, os soviéticos decidiram dotar sua marinha de um avião naval de verdade. A melhor opção pareceu criar uma versão navalizada da melhor aeronave multifunção então disponível, o Sukhoi Su27. A aeronave resultante foi o Su33 “Flanker D”, projetado a partir da primeira metade dos anos 1980, paralelamente à construção dos Kuznetsov. A característica interessante dessas aeronaves era que decolavam através de sky-jump, um curto ressalto de cerca de 7° positivos na porção de vante do convés de vôo dessas belonaves. Os ingleses também adotaram o mesmo desenho nos navios adaptados ao uso da versão navalizada da aeronave VTOL (Vertical Take-Off and Landing) Harrier (a que combateu nas Falklands/Malvinas). O sky-jump foi incorporado pelos russos aos “cruzadores etc.-etc” da classe Kiev, que usavam o Yak38, de peso bem menor que os SU33. Esse recurso tem a vantagem de dispensar a catapulta, mecanismo que pode aumentar o peso do navio em até 8 por cento, além de diminuir o estresse sobre a estrutura da aeronave. Por outro lado, uma aeronave convencional não consegue decolar a partir de um sky-jump com toda a carga útil, que, no caso do Su33 pode reduzir-se a pouco mais da metade. Os russos perceberam que uma das maneiras de implementar a performance da aeronave na decolagem seria acrescentar-lhe canards, pois estes ajudam a elevar o nariz, e tornam a superfície alar maior sem a necessidade de redesenhar radicalmente os aerofólios. A inserção dos canards também reduz substancialmente a velocidade de aterrissagem, devido ao aumento do arrasto aerodinâmico, além de aumentar a performance da aeronave em velocidade supersônica.

Os Su33 formariam os grupos aéreos dos novos “cruzadores pesados etc. – etc.”. O primeiro da classe, o Kuznetsov, entrou em serviço, ainda que meio aos trancos e barrancos, no prazo; o segundo da classe, o Varyag, teve um destino nada glamuroso. Começou a ser construído alguns meses depois de seu irmão mais velho, mas acabou sendo atingido em cheio pela crise da União Soviética, sofrendo diversos atrasos até ser abandonado em definitivo em 1992. O casco ficou encostado numa doca na cidade de portuária ucraniana de Nikolayev por anos, até ser vendido “no estado”, em 1998, para um “consórsio” de investidores chineses denominado Chinluck Holding, que para todos os efeitos, operava hotéis e parques aquáticos a partir de Hong Kong – embora não se soubesse do endereço dos hotéis e muito menos de alguém que tivesse dado um mergulho em suas piscinas. Entretanto, os “investidores” insistiam que pretendiam usar o casco enferrujado como “centro de diversões flutuante” na cidade de Macau, para onde a coisa foi rebocada, numa jornada rocambolesca de (acreditem ou não… ) mais de três anos. Para complicar, as autoridades de Macau, então ainda uma colônia portuguesa, recusaram-se a admitir o casco na baía da cidade, considerada muito rasa para as características daquele tipo de navio, de modo que o comboio foi desviado para a planta naval da cidade de Dalian, no nordeste da República Popular da China. Nada tão estranho: posteriormente foi revelado que o tal “consórsio” era uma empresa testa-de-ferro da Marinha do Exército de Libertação do Povo, e já tinha adquirido outros NAe desativados, inclusive o ex-HMAS Melbourne (NAeL – navio aeródromo ligeiro – da Marinha Real Australiana, da classe Majestic, igual ao brasileiro Minas Gerais) para estudos. A história acabou virando piada nos meios de inteligência, como “o segredo militar menos secreto da China”. Entretanto, e sabe-se lá o motivo, as autoridades do país guardaram silêncio sobre os planos para o navio, fotografado com frequência, por satélites de reconhecimento, sendo reformado. O tal “consórsio” chegou a distribuir notas sobre a inauguração do “cassino flutuante”.

Somente no ano passado a China admitiu estar construindo um navio aeródromo,  e que estavam sendo programados testes de mar para “muito breve”. Já que o Varyag tem um deslocamento de umas 65000 toneladas, estima-se que possa receber um grupo aéreo de umas 40 aeronaves, pelo menos. Ou seja, são bem menores do que os NAeA nucleares da classe Nimitz, de 100000 toneladas de deslocamento e com um complemento aéreo de 70 aeronaves de asa fixa. Por outro lado, é bem maior do que o NAe nuclear francês Charles DeGaulle e equivalente aos britânicos da classe Queen Elizabeth. É bem provável que o grupo aéreo do Shi Lang seja formado por caças navais J15 “Tubarão Voador”, uma cópia obtida por engenharia reversa do Sukhoi Su33. A China tentou comprar alguns SU33 novos de fábrica por volta de 2001, mas os russos já estavam desconfiados do interesse chinês em comprar pequenas quantidades de aeronaves prometendo comprar mais depois, e não fizeram a venda. Segundo consta, pouco depois os chineses conseguiram um protótipo incompleto da aeronave que tinha sido deixado na Ucrânia, e a completaram com propulssores e aviônicos produzidos localmente, de desempenho muito inferior aos dos originais russos.

A China tem tido problemas com a indústria aeronáutica russa desde que a empresa Shenyang Aircraft Corporation conseguiu copiar, sem permissão  o Su27SK, denominado lá J11B. A aquisição do Su27SK, foi feita no início dos anos 1990, diretamente da fábrica, e, em 2007, os chineses alegaram que tinham produzido uma “nova estrutura”, que “apenas se parecia” com a aeronave russa. Desde então, os dois países tem estado envolvidos numa disputa sobre quem tem razão. Não se sabe quantos J15 foram produzidos, mas certamente será esse avião que decolará do sky-jump do Shi Lang.

O fato é que a China parece empenhada em contituir uma marinha moderna, capaz de manter a superioridade sobre as águas proximas de seu litoral e sobre os acessos á essas águas. As águas próximas consideradas pela China como zonas de defesa estão cercadas por um arco de potências rivais que dispõem de alguma capacidade naval: Coréia do Sul, Taiwan e Japão. Mas a ameaça mais seriamente considerada é a base naval norte-americana de Yokosuka, a única fora dos EUA que tem um NAeA permanentemente estacionado, o USS Kitty Hawk. Em 2010, um exercício naval envolvendo uma força tarefa norte-americana liderada pelo NAeA nuclear George Washington, envolvendo dois cruzadores e dois contratorpedeiros e dez belonaves da bem organizada marinha sul-coreana foi considerado pelos chineses como uma afronta. O golpe foi ainda mais sentido pelo simples fato de que a China não possuí, por ora, meios para opôr-se eficazmente à presença de potências estrangeiras em “suas” águas. Se o Shi Lang já estivesse operacional, um força-tarefa liderada pelo NAeA chinês seria certamente enviada para “sombrear” o exercício dos EUA. E talvez tivesse feito diplomatas e militares norte-americanos considerarem se o risco de um incidente com a China valia à pena. Na época da Guerra Fria, era comum que tanto EUA quanto a URSS realizassem exercícios navais nas águas ribeirinhas (mar aberto adjacente à costa de um país) dos outros, mas nunca navios de um fizeram exercícos em frente à costa do outro. Para isso servem as FFAA – para “dissuadir”, como dizem os diplomatas.

Por isso analistas especializados têm afirmado que a China terá de criar uma força naval considerável, caso ambicione torna-se uma potência global. Esses analistas apostam que o Shi Lang  estará operacional por volta de 2015, e que nos proximos anos, os chineses irão construir pelo menos mais três desses navios. A corrida naval que parece se avizinhar envolve também a Índia, uma potência militar de bom porte, mas que se vê pressionada pela aparente disposição chinesa em estender sua presença até o Oceano Índico e a Costa Oriental Africana. A Índia tem ampliado seus gastos militares e se diz disposta a ampliá-los ainda mais, ao longo dos próximos dez anos. A Marinha Indiana deve contar, em 2016, com o primeiro de dois novos NAe’s (chamados lá de “navios de defesa aérea”) da classe Vikrant, de 40000 toneladas, construídos pela indústria local com forte apoio russo.

Tudo isso mostra como estava certo o ex-presidente norte-americano Bill Clinton, que durante uma visita ao USS Theodor Rooselvelt, afirmou que, “quando chega a Washington a notícia de uma crise, não é por acaso que a primeira pergunta que vem à boca de todo mundo é: onde está o porta-aviões mais próximo?::

Pensamentos de fim de semana::Ainda precisamos de forças armadas?::

Eis que abro o vibrante matutino carioca – O Globo, claro… – no último sábado (2 de julho) e dou de cara com um artigo de meia página e cinco colunas sobre o caça francês Rafale. O que me faz lembrar que o FX2 ainda existe, apesar de ninguém estar mais falando nele.

Se ninguém mais está, então por que a lembrança, logo no vibrante paladino da imprensa escrita? É que nós, meros mortais que não entendemos dessas coisas, podemos estar recebendo as informações que (na opinião de governo, jornalões e outros formadores de – nossa – opinião) precisamos, mas a campanha de marketing das empresas produtoras de armamento – atoladas até o pescoço na falta de demanda – continua ativa. Assim, parece que mais um bando de jornalistas viajou até a cidade de Bordeaux para uma visita à principal planta da empresa Dassault Aviation, candidata a vender 36 aeronaves dentre as que equiparão a FAB pelos próximos 40 anos. A matéria, assinada pelo jornalista Chico Otávio, não acrescenta nada que alguém, mesmo que apenas medianamente informado sobre assuntos militares, já não saiba. O redator, repórter de larga experiência em assuntos de política nacional, até que tentou fazer o dever de casa, para compensar o jabá de alguns dias na França, com tudo pago. Sem grande sucesso: Chico demonstra não entender do assunto, as informações sobre o projeto FX2 não esclarecem nada e, sobre a indústria aeronáutica francesa, dá a informação – estapafúrdia – de que a Dassault poderá “acabar” por causa do altíssimo aporte de tecnologia concentrado pelo Rafale.

Mas a cereja desse divertido bolo torna o quitute todo preocupante. Quase no fecho da “matéria” (que mais parece um press release), Chico, depois de manifestar sua admiração pela tecnologia francesa, afirma que o maior problema do Rafale é o preço – quase 80 milhões de dólares por unidade. E, diz ele: “O negócio todo, incluindo o armamento e o suporte técnico, chega a 8 bilhões de dólares, um desembolso considerável para um país cuja única guerra em andamento é contra a pobreza.”

Touché – diria eu, se fosse francês. É muito provável que seja esse o som da voz do dono. Ao longo dos últimos anos, quem quer que acompanhe o assunto tem pelo menos uma história de jornalistas que “acham melhor empregar esse dinheiro em cultura”, em “melhorar a saúde” em “educação de base”. Ainda que sem a hombridade de uma declaração aberta e franca, parece ser mais ou menos esta a opinião da autoridades governamentais de plantão – e já passa o quarto governo  desde que se começou a falar em FX. No caso em particular, governo e imprensa parecem estar de acordo.

Entende-se que jornalistas e outras categorias de leigos achem que “soberania nacional” e “defesa nacional” são conceitos vazios, numa época de “globalização”, e que seja possível uma participação ativa nos fóruns internacionais sem forças armadas ou indústria de defesa. De fato, o fim da Guerra Fria obrigou quase todas as nações da planeta a repensar suas políticas de defesa, organizações militares e indústria militar. Essas revisões em geral têm implicado em fortes cortes de orçamento e mesmo cortes físicos.

Na Grã–Bretanha, por exemplo, tornou-se realidade a “Revisão da Estratégia de Defesa e Segurança”, que significou, na prática, uma redução de 8% no total dos gastos militares, embora o governo conservador tenha afirmado que o limite do corte são os compromissos com a OTAN (o Tratado do Atlântico estipula que o orçamento militar alcance pelo menos 2% do PIB de cada país-membro). Como resultado dos cortes orçamentários, foram cancelados programas considerados ineficientes, dissolvidas unidades e fechadas bases e quartéis das três forças. Na RAF, o caça tático V/STOL (decolagem/aterrissagem curta ou vertical) Harrier, será desativado e retirado de serviço ainda em 2011. Os jatos de ataque Tornado GR.4 serão mantidos, embora em apenas dois esquadrões (eram seis). A RAF deverá fechar algumas bases e instalações consideradas “não-indispensáveis”. Por enquanto, os cortes atingem apenas os programas de transição para o conceito denominado Future Force 2020, que deverá, nos próximos dez anos, padronizar o equipamento. É intenção das autoridades que , por volta de 2022, os principais meios da RAF padronizados e reduzidos drasticamente, em função da eficiência: por volta de 130 unidades do caça multifuncional EF2000 Typhoon, e outras 150 do F-35, do Programa JSF (Joint Strike Fighter). O Airbus A400M (caríssimo e cheio de problemas) substituirá todos os transportes C-130 e C-17; o programa FSTA (Future Strategic Tanker Aircraft) programou a aquisição de 14 Airbus A330MRTT, que substituirão os aviões-tanques atualmente em serviço. Aeronaves de Inteligência Eletrônica, ligação e treinamento praticamente irão desaparecer, reduzidas em dois para cada três. A Marinha Real manteve os NAe classe Queen Elizabeth apenas porque o programa está muito adiantado para ser cancelado. Os dois navios serão terminados, mas um deles será imediatamente posto em reserva. Outros navios de primeira linha tiveram seus projetos cancelados, e fala-se numa redução total de até um terço da esquadra, que deverá ser reduzida a 120 unidades, sendo que cinquenta de primeira linha.

A situação é mais ou menos a mesma em toda a Europa. O problema é que as principais potências militares têm também parrudas indústrias de defesa, cujos principais clientes são sempre as forças armadas nacionais. Já os países pequenos, da periferia da OTAN, como Bélgica, Portugal e Islândia reduziram drasticamente suas forças armadas – que já não eram grande coisa. No caso da Grécia, compras de armas superdimensionadas, ao longo dos últimos dez anos foram, segundo especialistas, parcialmente responsáveis pelo tamanho da encrenca atualmente vivida por aquele país. Aquisições de sistemas de armas “estado da arte”, particularmente da Alemanha, dos EUA e da Rússia foram consideradas fora de propósito, levando-se em conta a diminuição da importância estratégica do país depois do fim da URSS e da retirada das forças soviéticas dos países vizinhos. Ainda assim, desde os anos 1990 a Grécia tornou-se o único país da esfera da NATO a expandir suas forças armadas: foi criado um sistema de defesa aérea considerado por especialistas como uma extravagância, equipado com sistemas norte-americanos (MIM104 Patriot 3 Advanced Capability), russos (S300, TOR M1e SA8) e franceses (Crotale NG/GR). A Marinha adquiriu submarinos alemães tipo IKL 214 e pretendia incorporar pelo menos duas fragatas classe FREMM (a mesma classe pretendida pela MB); o Exército pretendia, nos próximos dez anos, receber pelo menos 170 Leopard 2A6EX totalmente novos, numa versão fabricada localmente. E por aí vai. Mas agora, com a explosão da crise, é muito pouco provável que essas aquisições de armamento prossigam. Os fornecedores terão de mete-los em algum lugar, caso contrário a falta de encomendas significará, fatalmente, desemprego em seus países.

É claro que sempre existe a possibilidade de tentar empurrar equipamentos de última geração a preços módicos para países endinheirados do mundo “em desenvolvimento”. Mas existe uma inflação desses sistemas de armas modernos e falta de clientes interessados, principalmente após a crise de 2008. A Rússia é vendedora de sistemas de ótima qualidade em condições muito competitivas; a China parece querer desenvolver a própria indústria de defesa – o que significa que será um negociador duro; a Ìndia tem se mostrado o mercado mais promissor – fala-se em compras da ordem de 40 bilhões de dólares nos próximos dez anos. O Brasil…

As forças armadas nacionais têm sido tratadas, desde o fim do regime militar, a pão e banana. Mesmo durante os anos de chumbo, parecia não haver clareza sobre o papel a ser cumprido pelos militares profissionais. O fato de que a América Latina situa-se numa região estrategicamente secundária , depois da Segunda Guerra Mundial, não ajudou a aprofundar essa discussão. Durante a Guerra Fria, o papel reservado às nações dessa parte do globo, sem exceção subdesenvolvidas e cheias de problemas sociais e políticos foi quase o de polícias de si mesmas. Os inimigos projetados eram internos, sendo que a defesa hemisférica era dada como papel dos EUA, sendo reservado às forças militares locais um papel muito limitado.

Os arroubos de “potência” dos governantes militares, entretanto, provocaram certa expansão das forças armadas e a tentativa de estabelecer uma indústria nacional de defesa. Esses projetos sempre estiveram articulados à fonte doutrinária do pensamento militar, ao longo dos anos 1950-1970: as teorias geopolíticas – que também tiveram forte influência sobre o pensamento civil. As aquisições de armamentos realizadas entre o fim dos anos 1960 e o final da década seguinte – período que também coincidiu com um forte investimento na indústria de defesa, bem como o início da reestruturação das forças armadas – foram certamente influenciadas por uma vertente do pensamento militar cuja doutrina levava em consideração a defesa da integridade do território nacional, aí incluídos a Amazônia e a plataforma continental submarina. Entretanto, essa doutrina entrava em choque com a política de “segurança e desenvolvimento”, o braço mais musculoso da doutrina de “segurança nacional”. A luta contra o inimigo interno era constituída basicamente por operações de levantamento e análise de informações que concebiam e apoiavam operações policiais “cobertas” – se é que podemos usar esse eufemismo. O “desenvolvimento” era o outro aspecto da “segurança”: a médio e longo prazos, tiraria a população da miséria através da expansão da esfera econômica. Manter forças armadas capazes de atuar como polícia, com o suporte do enorme aparato policial formal, por outro lado, não exigia equipamento pesado nem de tecnologia particularmente avançada. Foram poucas as ocasiões em que as forças armadas foram mobilizadas como força militar – a maior delas contra a “Guerrilha do Araguaia”. Mesmo nessas ocasiões a mobilização de forças de primeira linha – paraquedistas e fuzileiros navais com treinamento de Forças Especiais e apoio de elementos aeromóveis da FAB – foi largamente secundada por forças policiais e de polícia política.

O fim do regime militar, coincidente com o fim da Guerra Fria, trouxe uma crise de identidade, expressa no debate, percebido ora com menos, ora com mais intensidade, nos meios civis: determinar qual o papel destinado às forças armadas na ordem política pós-militar. Segundo alguns especialistas (artigos bastante interessantes sobre o assunto aqui e aqui), existiria necessidade de reciclar as FAs de modo a capacitá-las a cumprir novos papéis. Segundo especialistas, os militares discutiam, internamente, as novas configurações da ordem mundial, pois embora não existisse perspectiva de agressão externa, não seria razoável confiar totalmente nos acordos internacionais e, principalmente, nos EUA. Por outro lado, o aspecto do debate sobre essa reciclagem que mais aparecia ao público leigo era mesmo a utilização do Exército como uma espécie de vanguarda da manutenção da ordem interna, assunto que também freqüenta, desde a Constituinte de 1988, a pauta das preocupações dos formuladores da estratégia de defesa brasileira.

Trata-se, por diversos motivos, de um debate equivocado com conseqüências potenciais sérias. O envolvimento de pequenos contingentes do CFN em recentes operações de reconstituição da autoridade do Estado sobre vilas populares ocupadas por marginais armados foi um exemplo de como essas intervenções devem ser – e, de forma alguma podem servir de argumento para que as FAs sejam afastadas de suas funções constitucionais.

Funções que são, basicamente, de defesa da soberania e dos interesses nacionais contra possíveis inimigos externos e em situações onde a autoridade do Estado sobre o território nacional sofra ameaça oriunda de fatores internos. O caso das favelas cariocas não chegava a ser exatamente esse, mas é o mais próximo que podemos citar que se encaixa em tal situação.

As ameaças externas, alegam largos setores da sociedade civil, não existem, e, se porventura acontecerem, podem ser enfrentadas na arena diplomática. Esses setores parecem esquecer que a “arena diplomática” é uma arena cujos limites são suportados pela presença de forças militares. Alguém poderia alegar: não existem exemplos recentes de uma situação que possa ser descrita assim. Pois se trata, então de falta de conhecimento de história.

Um exemplo acabado de uma situação assim é a Segunda Guerra Mundial. O ataque nazista contra nosso litoral pegou o país totalmente despreparado. A situação econômica era, desde os anos 1920, muito ruim, o país fora seriamente afetado pela crise de 1929 e, no início dos anos 1940, apenas começara a se recuperar – e também era outro país, de economia rural e parque industrial incipiente. As forças armadas de então, correspondiam a esse país: eram pequenas (em torno de 40.000 homens no Exército e 10.000 na Marinha) mal-equipadas e mal-aprestadas (as doutrinas ainda eram remanescentes da reformulação orientada, a partir de 1922, pela Missão Militar Francesa). Costumo a argumentar que a epopéia da FEB, nos oito meses da campanha italiana foi a parte mais visível, mas menos complexa, da participação brasileira. A preparação da FEB, vista como parte da preparação das FAs brasileiras para atuar de forma ativa na defesa nacional, esta sim, foi a parte difícil. Começou em 1941, antes mesmo da declaração de guerra, com a total reorganização da defesa do litoral brasileiro, sob comando norte-americano (por sinal, as FAs brasileiras foram colocadas, por determinação de Vargas, sob o comando de um oficial-general – vice-almirante – da Marinha dos EUA).

Havia um facilitador, naquela época- o interesse dos EUA pela adesão brasileira. Ao contrário da Argentina, o Brasil não poderia ter ficado neutro. As razões eram mais ou menos semelhantes aquelas que levaram os EUA a, até 1945, manter relações com os dois governos franceses: o governo-fantoche de Vichy e sua simpatia declarada pelos nazistas, e o de fancaria (pelo menos até 1944…) do general De Gaulle e seus arroubos de “líder da França Livre”. A razão estava nas colônias francesas do litoral atlântico africano, onde, de modo algum, os aliados gostariam de ver bases navais alemãs. De modo similar, a posição do saliente nordestino, a “cintura do Atlântico”, o “Trampolim”, tornava o Brasil um aliado crucial. Desde 1941, os norte-americanos se dispuseram a modernizar e equipar as FAs nacionais – particularmente a Marinha e a FAB, então recém criada. Embora seja sensato assinalar que a maior parte das forças que defendiam as rotas marítimas sul-atlânticas desde junho de 1941 eram forças navais e aéreas norte-americanas, estacionadas principalmente em Belém, Natal, Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Ainda assim, o Brasil saiu da guerra com forças armadas equipadas com material similar ao norte-americano, treinadas segundo as doutrinas desenvolvidas nos EUA e, principalmente, com larga experiência de combate.  

Não era pouca coisa. Os militares brasileiros saíram da guerra totalmente simpáticos às doutrinas e ao equipamento norte-americano. O problema foi que, pelo final dos anos 1950, o pensamento norte-americano sobre a defesa hemisférica tinha mudado, e com o aprofundamento da Guerra Fria, os EUA passaram a considerar as FAs latino-americanas como parte de um esquema de “defesa coletiva”, cujas tarefas estavam restritas à defesa local. Para o Brasil restara o papel de polícia do Atlântico Sul. Essas tarefas, na visão norte-americana, não demandavam equipamentos modernos nem excessivamente pesados. A renovação da Marinha, por exemplo, praticamente estagnou. A aquisição de um navio-aeródromo ligeiro (NAeL), requisito básico para a criação de um grupo de caça e destruição, teve de ser feita na Europa. Tratava-se de uma reivindicação da Marinha, atendida por Juscelino Kubistchek em 1957.

Outro momento que fez com que as FAs brasileiras refletissem sobre as próprias condições foi a Guerra das Malvinas, em 1982. A posição dos EUA diante da reação britânica à agressão argentina acentuou as desconfianças que os militares brasileiros tinham com relação aos EUA, e significou praticamente o fim dos tratados de assistência recíproca, que já tinham sido postos no congelador desde a segunda metade dos anos 1970, em função da política de implementação dos direitos humanos do governo Carter. Em 1982, o apoio à Grã-Bretanha por parte do governo de Ronald Reagan foi quase como uma pá de cal nos tratados implementados após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Mas também já tivemos um episódio em que a soberania nacional, ameaçada, teve de ser garantida pela Marinha, então já vivendo a obsolescência de seus meios. O motivo foi dos mais inusitados, mas o evento não deixa de merecer atenção. Falaremos dele no próximo posto::

Outro estranho caso: o do aviãozinho brasileiro (ou será italiano?..)::De como por vezes um equívoco pode dar (mais ou menos) certo::parte 2::

O ganhador de uma cópia dos requisitos do projeto FX3, conforme elaborados… por mim, é… Ninguém, pois o projeto FX3 também foi adiado e dará lugar, algum dia, ao programa FX4. Os dez assíduos acham que é brincadeira?.. Pois é, quem viver, verá, e isto parece significar um desejo meu de longa, mas longa mesmo, vida ao caros assíduos. Afinal, nossas elites, sem um projeto nacional claro e sem uma linha objetiva de política externa, acham realmente que um país “pacífico”, no qual a diplomacia resolve “pelo entendimento” as questões internacionais, não precisa de forças armadas, a não ser como “garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.” (absurdo constante do título 5, capítulo 2, artigo 142 da Constituição Federal, lá introduzido por lobby dos próprios militares). Mas este é um ponto que não discutiremos agora. Por ora, fiquemos com as atribulações do projeto AMX, e vejamos como as vicissitudes políticas da época tiveram forte influência no modo como este se configurou. E, ao fim e ao cabo, não foi assim tão inócuo para nosso país.  É fato que, graças ao AMX, a Embraer e várias outras empresas brasileiras puderam absorver conhecimentos em áreas nas quais o Brasil ainda patinava, no que diz respeito às ciências aeronáuticas. Alguns especialistas afirmam que projetos como os bem sucedidos “E-Jets” da Embraer só se tornaram possíveis graças ao AMX. Vamos, então, a este “estranho caso”…::

parte2O fato é que o parceiro que apareceu disposto a associar-se ao projeto foi o Brasil. Não se tratava de uma parceria tão estranha: desde o final dos anos 1960, necessitando substituir em bloco aeronaves totalmente ultrapassadas, e às voltas com a dificuldades colocadas pelos EUA para a cessão de equipamento atualizado, o Brasil adquiriu a licença para fabricação da versão GC do Aermacchi MB3261, que por aqui recebeu o nome de “Xavante”. Essa aeronave, da qual a FAB adquiriu, ao longo de dez anos, 182 unidades, embora apresentasse certa capacidade de ataque leve, era extremamente limitada nessa função. A aquisição, a partir de 1973, de 36 Northrop F5E “Tiger II” dos EUA não se destinou a resolver o problema que a força enfrentava. Os “Tiger”, apesar de alguma capacidade de interdição, não eram aeronaves de ataque ao solo. Esse problema se agravou com a “aposentadoria precoce” do único tipo “puro” de ataque da FAB: os B262.

Por outro lado, é impossível entender a origem do programa AMX, do lado brasileiro, de um ponto de vista estritamente técnico/militar. É preciso remeter ao projeto estratégico hemisférico dos EUA e ao papel destinado aos países periféricos situados fora da zona de contensão criada, a partir do final dos anos 1950, em torno da União Soviética. Essa zona era escorada, basicamente, pelo poder dissuatório nuclear dos EUA3, mas como também esta esperada uma guerra convencional, a estratégia norte-americana passou a dar ênfase a países europeus e asiáticos com fronteira com a URSS e sua área de influência. A América Latina ficava fora dessa zona, e recebeu tarefas militares extremamente limitadas – por exemplo, o patrulhamento de áreas marítimas próximas de suas costas, contra submarinos e navegação mercante. A partir de 1961-62, a reavaliação da revolução cubana levou à nova reformulação da estratégia norte-americana para a América Latina. Já existem muitos excelentes estudos acadêmicos sobre o assunto, de modo que causa::, consciente da qualidade intelectual dos dez assíduos, não irá se estender muito sobre o tema. Para nosso assunto, é bastante dizer que as dificuldades brasileiras em conseguir armamento atualizado, se não eram pequenas durante os anos 1950, dos anos 1960 em diante, se tornaram ainda maiores. Depois da revolução cubana, e particularmente depois da crise dos mísseis, em 1962, os EUA passaram a aplicar uma política de contenção, baseada em uma doutrina que considerava as tropas das nações latino-americanas como formações de contra-insurgência. O papel dos aliados locais na “defesa hemisférica” passou a ser bloquear pontualmente a “infiltração comunista”. Isso implicou em uma mudança de parâmetros que até hoje se reflete na organização das FAs brasileiras. O treinamento passou a ser, principalmente, treinamento em obtenção e análise de informações, contra insurgência e guerra revolucionária. Os cursos oferecidos passaram a ser, por um lado, os da “Escola das Américas”, instalada em Fort Amador, na Zona do Canal, e por outro, os de Fort Bragg, Carolina do Norte, onde veteranos do Vietnam “ensinavam” técnicas de contra insurgência e guerra contrarrevolucionária. A partir de então (a segunda metade dos anos 1960), os norte-americanos começaram a regular até mesmo o material obsoleto que, a partir dos meados dos anos 1950, tinha começado a ser destinado aos exércitos da América Latina. Por outro lado, os militares brasileiros, envolvidos numa relação pendular de amor e ódio com os EUA, vinham, desde os anos 1950, tentando estabelecer uma indústria autóctone de armamento, com base na tentativa, em alguns casos anterior à 2ª GM, de projetar e fabricar, no próprio país, equipamentos de menor complexidade. O problema é que o parque industrial nacional não conseguia sequer dar conta desse tipo de projeto4. A partir da década de 1970, acompanhando o desenvolvimento do parque industrial implementado pelos governos militares, a indústria de defesa brasileira, com forte apoio do estado e investindo em projetos relativamente simples, desenvolveu-se razoavelmente. Ainda assim, visto o fato de que os orçamentos eram limitados, os planejadores econômicos não chegavam a avalizar planos de rearmamento das FAs nacionais, e a indústria de defesa tinha de se virar com exportações para o Terceiro Mundo. O Brasil fabricava bons sistemas convencionais de armas – que as FAs brasileiras não tinham.

O desenvolvimento da indústria aeroespacial, tendo a EMBRAER como carro-chefe, seguiu este caminho. A empresa foi organizada a partir do projeto de um avião que pudesse dar conta, principalmente, do ambiente de total carência de infra estrutura aeroportuária e de apoio à navegação área do Brasil central. É interessante que a aeronave, o EMB110 Bandeirante, não era um projeto militar mas acabou tendo sua viabilidade garantida pela aquisição inicial de 80 unidades, quando ainda estava em fase de finalização. A versão militar foi classificada pela FAB como transporte médio, dotada de porta de carga lateral e capaz de transportar 1700 kg de carga ou 18 páraquedistas totalmente equipados, e referenciada como C95A. No início dos anos 1970, o governo obrigou algumas empresas aéreas (como a VASP) a adquirir unidades da versão civil e criar rotas aéreas para cidades situadas no interior do país – o que significou o nascimento da aviação regional brasileira.

Ainda assim, o projeto dessa aeronave relativamente simples envolveu problemas de difícil solução. O desenho da asa, que parecia, aos engenheiros locais, algo simples de resolver, revelou-se extremamente complicado. O início do processo só foi resolvido pela contratação de um projetista francês, que tinha um projeto pronto. Esse projetista acabou não ficando muito tempo no país (foi embora no ano seguinte), mas sua permanência mostrou que o problema não era a deficiência de conhecimento dos profissionais brasileiros, mas a falta de infra estrutura industrial. Não bastava produzir o protótipo, que, no caso, foi totalmente desenvolvido no IPD (Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento) do CTA. O entrave real era a falta de uma indústria aeronáutica moderna, pois a que existia no Brasil mal tinha passado da fase da madeira e tela, muito bem expressa pelo bem sucedido “Paulistinha” e pelo então (1965) recente treinador básico Neiva T25 “Universal”. Um avião de combate seria um projeto impossível de realizar, sem apoio de um país com tradição aeronáutica.

No início dos anos 1970, a FAB resolveu o problema das aeronaves de primeira linha adquirindo, depois de estudos feitos a partir do final dos anos 1960, 16 Mirage IIIE, como aeronaves de superioridade aérea, e, em 1973, de 42 F5B e F5E. Foi um salto tecnológico de proporções ainda por avaliar. Basta lembrar que a aquisição dos Mirage implicou também na aquisição de um sistema de defesa aérea que reformulou todo o controle de tráfego aéreo da região sudeste do país – o CINDACTA (Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo), que passou a controlar o chamado “quadrilátero” – Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Em termos de Brasil, a chegada do sistema DACTA foi um comparável aquele tal “gigantesco salto” da chegada à Lua. O DACTA estabeleceu, pela primeira vez, um sistema de defesa aérea: com a visão estendida pelos radares de origem francesa, os interceptadores da FAB poderiam ser eficazmente dirigidos até o alvo. Não era (e continua não sendo, apesar dos problemas…) pouca coisa.

Restava o problema do caça tático, coisa que, como foi visto, o Xavante não era. Estava funcionando como um “tapa-buracos”, mas nada além disso: não tinha radar, seus aviônicos eram muito limitados e não tinha previsão para armamento5.  E a segunda metade dos anos 1970 trouxe, com base nas experiências do Vietnam e das guerras entre árabes e israelenses, uma série de inovações que revolucionaram o combate aéreo: bombas inteligentes, mísseis ar-terra tipo “atire-e-esqueça”, chaffs e flares, comunicações em rede, só para citar algumas. Essas inovações foram avaliadas conceitualmente, no Brasil. No país não havia aeronave capaz de recebê-las.  

Por volta dessa época, a FAB estudava internamente o conceito AX (de “A”, “ataque” e “X” “experimental”). Esse estudo propunha o projeto de uma aeronave de ataque leve, baseada no “Xavante”, mas com desempenho muito superior. Se trataria de um monoposto, de raio de ação médio-longo e velocidade subsônica. Deveria ser capaz também de cumprir tarefas de reconhecimento e ter certa capacidade de autodefesa. Do ponto de vista doutrinário, os requisitos eram claramente planejados pensando na fronteira sul do país – a tradicional “hipótese AUP” (guerra contra a Argentina no teatro fronteiriço Argentina-Uruguai-Paraguai”), o que implicava em uma aeronave de ataque diferente do padrão adotado pelos europeus, que estavam diante de coisa muito mais pesada do que os argentinos. A FAB pretendia que a indústria nacional se encarregasse do projeto, com o suporte dos institutos de pesquisa aplicada em aeronáutica – o que, na época, era duvidoso. O anteprojeto que surgiu desse requerimento, denominado “EMB330” foi considerado inadequado pela FAB. O problema básico era a absoluta falta de capacidade da Embraer e dos institutos tecnológicos, incapazes de desenhar o que lhes era solicitado. Em 1976, a Aermacchi ofereceu ao governo brasileiro a possibilidade de, através da Embraer, participar do projeto MB340, uma iniciativa da empresa voltada para a substituição, então cogitada, do Aeritalia G91. Era uma aeronave leve-média, “asa alta” enflexada a 20° e estabilizadores configurados em “T”. Deveria ser capaz de entregar até 2.200 kg de carga bélica, em missões de perfil “LO- LO” (do inglês lowlow, ou seja, vôo em baixo nível, ataque sem alteração de altitude, escape em baixo nível) a distâncias de até 450 km, com uma velocidade média de 860 km/h).

Era mais ou menos o que a FAB queria. O problema, entretanto, não era o que a FAB queria, mas a AMI, à qual o projeto deveria também ser oferecido. Os requisitos desta previam uma aeronave que pudesse operar junto com o Tornado, só que em distâncias menores, com uma carga bélica muito maior do que a prevista pelos requisitos brasileiros. Outro ponto divergente era o fato de que a AMI pretendia que a nova aeronave fosse capaz de operar em pistas bastante danificadas, o que implicava em outra previsão de motorização – um motor mais potente, capaz de empurrar o avião para cima em uma distância muito curta. Essas especificações derivavam das configurações conceituais propostas pela OTAN para uma hipotética guerra defensiva contra o Pacto de Varsóvia6. De qualquer forma, as autoridades brasileiras chegaram a conclusão que o país, naquela época (1977) não teria condições de financiar o programa no termos propostos pelos italianos, de modo que a coisa toda foi posta “no congelador”, aguardando pelo governo seguinte. Na Itália, o projeto já existia, concebido pela Aeritalia: era o AM-X (assim mesmo, com tracinho). Compacto, manobrável e com alto índice de flexibilidade e aprestamento, o AM-X era um bom projeto, mas não totalmente isento de problemas. O exame mostra um avião concebido para um tipo específico de teatro: boa performance de decolagem e aterrisagem, alto desempenho em vôo de baixo nível, capacidade de penetração com alta carga bélica, e precisão de ataque à curta distância. Poderia também desempenhar missões de reconhecimento, recebendo “pods” de câmeras fotográficas de varredura ampla. O desempenho deveria ser, no nível mais alto, transônico, o que possibilitou o uso de turbojato sem pós-combustor, garantia de baixo consumo de combustível e aumento do alcance operacional. Os aviônicos previstos eram todos “estado-da-arte”, mas a aeronave tinha características que tornavam a operação independente de estruturas complexas (bases aéreas). Por sinal, a previsão para a instalação de APU (Auxiliary Power Unit, sistema auxiliar de geração de energia) torna a aeronave continuar capaz operando durante certo tempo quase sem apoio, visto que seus sistemas elétrico, hidráulico e aviônico eram redundantes (duplicados).

O governo brasileiro, provada a incapacidade do complexo aeroespacial autóctone em desenhar e produzir localmente uma aeronave, acompanhava o panorama italiano através da Aermacchi. A gigantesca (para os termos brasileiros) Aeritalia desenvolvia o projeto da nova aeronave tática sozinha e, em princípio, não precisava de sócios – locais ou externos. A alternativa – a diluição de custos – exigia a entrada de um parceiro estrangeiro na operação. Só que tal parceiro não apareceu, visto que os principais “sócios” da OTAN já tinham, na época, suas soluções prontas e operacionais. Em 1978, o governo italiano, por considerar o desenvolvimento paralelo de dois projetos bastante diversos como desperdício de recursos, determinou que as duas empresas passassem a trabalhar juntas. E a Aermacchi trouxe a Embraer a reboque.

A cooperação Brasil-Itália foi, assim, praticamente imposta à Aeritalia, e, no início de 1981, os governos dos dois países assinaram o acordo que previa o estudo conjunto dos requisitos da aeronave. Em julho de 1981 as três companhias assinaram o acordo de desenvolvimento do projeto. A divisão de custos era algo na base 70-30, para uma previsão de despesas em torno de 2,5 bilhões de dólares. Os italianos da Aeritalia achavam que os colegas brasileiros não tinham capacidade de opinar no projeto (então já quase pronto), e após diversas reuniões (segundo testemunhos brasileiros, muito tensas), a Embraer ficou responsável pela construção das asas, pilones, estabilizadores horizontais, tanques de combustível internos e externos, tomadas de ar e trens de pouso principais. Também caberia à EMBRAER a instalação do armamento especificado para a versão brasileira. A aeronave começou seus ensaios de vôo em 1984, com um atraso de quase dois anos. O preço do programa também se multiplicou de forma exponencial, o que, num ambiente de crise econômica geral, que afetava particularmente tanto a Itália quanto o Brasil, o projeto, se nunca chegou a ser suspenso (haviam garantias contratuais que impediram que o governo militar brasileiro, em seus estertores, desembarcasse do acordo), mas foi desacelerado.

A primeira leva de encomendas, estabelecida em 1981, previa inicialmente, 287 unidades para a AMI e 79 para a FAB. Em 1984, diante do estouro de custos do projeto, esses números acabaram diminuídos para 136 e 56, respectivamente, incluídas as versões biposto, de treinamento. Um acidente ocorrido com o protótipo, pouco depois do vôo inaugural, revelou falhas sérias de projeto e atrasou todo o desenvolvimento. O resultado é que o avião só se tornaria operacional em 1989, tanto para a AMI quanto para a FAB. Hoje em dia, os especialistas concordam que o maior problema do projeto foi a falta de verbas, somada, de modo perverso, a sucessivos estouros de orçamento. Embora italianos e brasileiros concordassem que a aeronave seria um caça tático leve, os italianos tinham a certeza de que a versão deles deveria secundar os “Tornado”; os brasileiros queriam uma aeronave com perfil de missões muito mais amplo. No mais, não havia concordância em nada. Como a época de entrega, aqui, coincidiu com a inflação galopante e a crise da dívida externa, o lote brasileiro entrou em serviço incompleto: não tinha radar (os italianos não permitiram a participação brasileira no projeto e na época não havia teconlogia nativa para desenvolver radares aerotransportados), armamento orgânico (os americanos não permitiram a instalação do M61a1 Vulcan na versão brasileira) nem mísseis ar-ar (o míssil brasileiro, desenvolvido pelo CTA/ITA sofreu sucessivos atrasos por falta de dinheiro).

Os italianos também não tinham total segurança sobre os aviônicos a serem integrados à aeronave, mas de qualquer forma estes teriam de ser compatíveis com os sistemas utilizados pela OTAN, o que tornaria a versão brasileira bastante diferente daquela entregue aos italianos. Um bom exemplo é a decisão italiana pelo sistema TACAN (Tactical Navigation System, ou “Sistema de Navegação Tática”), um sistema desenvolvido a partir do similar de uso civil, o VOR/DME (VHF Omnidectional Rangefinder, ou “Indicador de alcance Multidirecional VHF”/Distance Measuring Equipment, “Equipamento Medidor de Distância”), que, por sua vez, se baseia num tipo de aparelho de rádio denominado transponder, este desenvolvido durante a 2ª GM. O TACAN é um sistema exclusivamente militar, embora possa, em alguns casos, ser também utilizado por aeronaves civis. As comunicações baseadas nessa plataforma, em última análise, se destinam a orientar a aeronave até o alvo via ondas de rádio de alta freqüência, e incorporam certas funcionalidades que o VOR/DME não permite. Essas funcionalidades implicam na instalação de uma rede de transmissão recepção exclusiva, inclusive em navios de guerra, e totalmente separada do sistema civil.

Uma coisa assim não existia no Brasil, no qual o sistema de orientação à navegação aérea é constituído de vários tipos de redes, baseadas em outro tipo de rádio, o transceptor, instalado nos aeroportos e em pontos ao longo das rotas. O SINDACTA (que na época integrava menos de 20 por cento do território nacional) então com cerca de dez anos de funcionamento, fora elaborado, nos anos 1970, com auxílio da França, levando em conta o fato de que o país não dispunha de recursos suficientes para montar um sistema de controle do espaço aéreo civil e outro militar. O sistema brasileiro (que já era considerado muito eficiente) integrava a circulação de informações em diferentes funções. Embora a criptografia de sinal fosse mais complicada no sistema brasileiro, a integração de aeronaves usuárias era mais fácil, o que tornava a operação menos complexa. A versão brasileira do AMX recebeu o sistema VOR/DME, e visto que as projeções operacionais era totalmente diferentes, não poderia ser de outra maneira.

Outro problema, este menos “filosófico”, foi a adoção do armamento orgânico. Um caça tático teria de receber armas internas muito poderosas, capazes de rompimento de blindagens pesadas. Na época, melhor canhão para esse tipo de tarefa era o norte americano General Eletric M61A1 multicanos, calibre 20 mm, com uma cadência de fogo ideal de 6000 salvas por minuto. A versão, considerada muito eficiente, equipava todos os aviões militares norte-americanos. Os italianos acabaram por adotá-la, mas os norte-americanos não permitiram seu uso no avião brasileiro. A opção feita pela FAB foi pelo DEFA 30 mm, uma arma de origem francesa já então considerada obsoleta, em função do peso da munição. Entretanto, a FAB já tinha experiência com essa arma, que orgânica nos Mirage III7 , que acabou se mostrando um sucesso. Quanto ao restante da carga bélica, a versão italiana também diferia bastante da brasileira – mais uma vez, os norte-americanos não autorizaram a integração da última versão do míssil ar-ar Raytheon AIM9 Sidewinder, mas a versão italiana era mais avançada que a disponível no Brasil.

Mas qual foi o legado do projeto AMX? Essa será a última parte dessa longa e interessante história. Aguardem, ansiosos, pois::

Notas notáveis… sabem como é… São notáveis e longas, muito longas. Mas os assíduos gostam…

1. Construído pela Embraer sob licença da Aermacchi, o modelo MB326G, cuja versão local foi referenciada como EMB236GB (de Brasil), e batizada “Xavante”, com a notação AT26 na FAB. A origem dessa versátil aeronave remonta à primeira metade dos anos 1950, época em que as forças aéreas dos países europeus da Aliança Atlântica necessitavam de um jato para suas escolas de treinamento. A empresa italiana Aermacchi SpA apresentou seu projeto MB326, desenhado dentro do conceito da época em que uma única plataforma deveria poder ser utilizada como treinador básico e avançado, inclusive para a transição para aeronaves de combate.  Imaginava-se então que a economia feita na operação e em linha de manutenção compensaria a aquisição de três tipos de aeronaves. Esse conceito, que inspirou jatos puros como o Sud Aviation Air Fouga CM170 “Magister”, logo se revelou um tremendo equívoco, e aeronaves como o MB326 ficaram restritas ao treinamento avançado. De toda maneira, o projeto da Aermacchi, com a configuração de treinador (assentos situados lado a lado) acabou não passando pelos testes da OTAN. Diante das dificuldades por que passava a empresa, a AMI, após examinar o projeto, sugeriu diversas modificações e resolveu adotá-lo, em detrimento do modelo vencedor. Em 1956 foi autorizada a construção do protótipo, cujo primeiro vôo foi realizado no final do ano seguinte. Em 1958 a AMI recebeu autorização das autoridades italianas para uma compra inicial de 100 unidades. Nos anos posteriores, o MB326, com pequenas alterações, passou a contar com uma versão monoplace de ataque ao solo, fornecida a diversos países, principalmente a República Sul Africana, montado pela empresa local Atlas Aeronautics, sob o nome de “Impala”, que os utilizou em combate contra as recém-criadas repúblicas de Angola e Moçambique. Alguns exemplares também foram usados no conflito das Malvinas pela Marinha Argentina. No Brasil, a aeronave foi selecionada em função da necessidade, na segunda metade dos anos 1960, de substituição dos Lockheed F80/AT-33A, tipos fornecidos pelos EUA no final dos anos 1950, e então totalmente obsoletos. A Embraer examinou diversos tipos, e o MB326 foi selecionado em função das facilidades oferecidas pelos italianos na transferência de tecnologia. O contrato com a Macchi foi efetivado em 1970 e a Embraer foi encarregada de montar um lote inicial de 112 aeronaves para a FAB. A Embraer começou por adequar suas instalações de São José dos Campos, São Paulo, para a linha de montagem do novo produto. A produção da aeronave teve início em ritmo acelerado, sendo que em setembro de 1971 o primeiro avião montado no Brasil realizou o seu primeiro vôo. A longa carreira do tipo na FAB, onde cumpriu todas as tarefas de que seria capaz uma aeronave daquela classe, encerrou-se com a desativação, em 2010.

2. O Douglas A-26 “Invader” fez seu primeiro vôo em 1942. Seu projeto baseava-se num conceito inovador , um bombardeiro “de ataque”,  de alto desempenho e pilotado por um único tripulante. Os exemplares de produção apresentavam duas configurações: a “de ataque”, (A26B), com um nariz sólido, de fato uma espécie de “pod” capaz de alojar uma combinação de armamento pesado que ia desde metralhadoras .50, canhões de 37 mm, 20 mm e eventualmente, até  um 75 mm pack howitzer, usado contra navios; a versão “de bombardeio” (A26C) tinha um nariz envidraçado, no estava instalado uma mira de bombardeio Norden. Desde os primeiros testes, revelou-se uma aeronave de características extraordinárias, embora a potência excessiva dos enormes motores radiais fosse fonte de problemas, no que diz respeito à refrigeração e ao estresse provocado sobre o trem de pouso dianteiro. Após a guerra, os “Invader” receberam a notação B26 – não confundir com o Martin B26 “Marauder”, este um bombardeiro médio – e teve uma longa carreira que incluiu as guerras da Coréia (onde recebeu o apelido de “train buster”) e do Vietnam, até ser aposentado em 1975.  A FAB recebeu os B26 em 1957, em função de um acordo amplo com o governo dos EUA, procedentes dos estoques da USAF, destinados a substituir os B25 “Mitchell”. Em maio de 1967, os quase 40 B-26 ativos na FAB foram avaliados, e 15 aeronaves foram enviadas aos EUA para serem modernizadas em uma empresa no Arizona, sendo devolvidos em 1969, totalmente revisados e com aviônicos atualizados. No segundo semestre de 1972, durante exercícios no estande de tiro e bombardeio do “Gorilão”, nas proximidades de Planaltina, Goiás, a longarina da asa de um dos B-26 rompeu-se. Um exame superficial em todas as aeronaves, feito ainda em Brasília, demonstrou que o estado estrutural não inspirava confiança. Exames posteriores indicaram sério estado de fadiga de material, o que determinou a desativação definitiva da aeronave no Brasil, em 1973.

3. Essa estratégia desenvolveu-se durante os anos 1950, e se consolidou com o desenvolvimento, tanto pelos EUA quanto pela URSS, de bombardeiros de longo alcance capazes de serem reabastecidos em vôo e de mísseis balísticos viáveis, no que diz respeito ao sistema de navegação – que tiveram no programa espacial de ambos os países sua grande plataforma de testes. A nova classe de armamentos estratégicos passou a ser composta, no lado dos EUA, a partir do início dos anos 1960, por aeronaves estratégicas (os Boeing B52 “Stratofortress”), algumas centenas de mísseis balísticos intercontinentais e duas dezenas de submarinos nucleares de patrulha (SSBN, no jargão da Marinha dos EUA) transportando de oito a doze mísseis balísticos de alcance médio Lockheed-Aerojet UGM27 “Polaris”, tudo apontado para a potência comunista.

4. Por exemplo, o lançador múltiplo de foguetes M108R, desenvolvido pelo Instituto Militar de Engenharia. Tratava-se de um lançador múltiplo, de 16 tubos, baseado em exemplares de origem norte-americana, posicionados sobre o chassi de um scout car Greyhound M8. O foguete, o M108, tinha um projeto próprio, de combustível sólido, acionado eletricamente. Nos anos 1970, o Exército tentou, com certo sucesso, desenvolver foguetes tipo FROG (Free Rocket Over Ground, mísseis balísticos sem sistema de orientação em vôo) de maior alcance: os X20, X30 e X40, com alcances respectivamente, de 20, 30 e 40 quilômetros, capazes de entregar carga bélica de 200 quilos. Esses projetos não foram em frente, apesar de terem chegado ao estágio de protótipo. Boa parte dos resultados dessas pesquisas levavam muito tempo para serem efetivados e entrar em serviço, devido às limitações do parque industrial brasileiro. O foguete M108 foi projetado em 1952, e, a partir dos meados dos anos 1970, diversas unidades foram distribuídas ao EB, fabricadas pela Avibrás. Embora o artefato já estivesse disponível no início dos anos 1960, não havia, então, plantas industriais capazes de fabricá-los em escala razoável.

5. Uma historinha interessante. Em 2004, diante da vida útil quase esgotada dos Xavante e da impossibilidade de adquirir aeronaves novas, a FAB optou por comprar células usadas para utilizar como fontes de peças de reposição. Foi muito difícil encontrar unidades disponíveis do Aermacchi MB326 em bom estado, visto que a maioria dos usuários já havia desativado os seus. Foram então adquiridas 14 unidades do jato de ataque leve sul-africano Impala II, uma versão monoposto do projeto italiano, muito melhorada. A estrutura, entretanto, era quase igual à do Xavante, só que a aeronave sul-africana era fortemente armada e protegida, com dois canhões franceses DEFA de 30mm orgânicos, carga bélica de até 1500 quilos, dispositivos de contramedidas, dispensadores de chaff/flare, antenas RWR (Radar Warning Receiver – equipamento destinado a alertar a tripulação para o enquadramento da aeronave), blingagem para o assento do piloto e dos alguns dos sistemas e assento Martin-Backer Mk6 zero-zero (permite ejeção ao nível do solo). A questão é que, quando receberam as células, os militares brasileiros verificaram que estavam todas (incluindo os motores reserva) em muito melhor estado que os aviões brasileiros. Os Impala estavam revisados, com 2 mil a 3 mil horas de vôo, enquanto os Xavantes ainda disponíveis caminhavam para o limite de vida útil (cerca de 7 mil horas), a maioria com quase 35 anos de operação. Haviam diferenças entre as aeronaves, visto que o Xavante era basicamente um jato de treinamento e o Impala, de combate. Ainda assim, a compatibilização dos avionicos, não era difícil, e a FAB optou por incorporar 12 unidades a seu inventário. Essas células foram desativadas 4 anos depois, com a decisão da FAB de aposentar definitivamente o Xavante.

6. No final dos anos 1970, em função do aumento da tensão na Europa, surgiu uma curiosa moda de romances que, com base em informações muito precisas, tentavam estabelecer como seria o cenário de uma guerra convencional no continente. O primeiro deles (e até onde sei, único traduzido para o português brasileiro) foi “A Terceira Guerra Mundial – Agosto 1985”, peça cometida pelo general-de-divisão do Exército Britânico Sir John Hacke, em 1982. A descrição das origens do conflito é totalmente datada (envolve uma disputa em torno do alinhamento da então Iugoslávia) e um tanto hilariante (coloca os norte-americanos como caubóis bonzinhos, os europeus ocidentais como “pacíficos” mas “valentes” e os comunistas como (lógico…) comedores de criancinhas – e a China já é apresentada como a caminho de se tornar “uma versão sueca do Japão”. A parte da guerra convencional propriamente dita é muito interessante, e descreve com grande riqueza de detalhes como os planejadores da OTAN esperavam q fosse um ataque soviético e como deveria ser a resposta ocidental. Parece que se previa um enorme assalto blindado em um frente de uns 500 quilômetros de largura, tendo a fronteira da Alemanha Ocidental como centro de gravidade. A primeira fase – a resistência com muito pouco apoio dos EUA, envolvia combates aéreos em três “camadas”: interceptação dos ataques aéreos soviéticos por aeronaves equipadas principalmente com mísseis (por exemplo, os F15 norte-americanos e “Tornado” ADV), ataques de penetração em baixo nível e grande velocidade, e contenção dos blindados por helicópteros posicionados imediatamente atrás da frente de combate. No livro, o papel do Panavia “Tornado” é muito enfatizado, sendo que, na cabeça do general, até os norte-americanos rendiam-se à genialidade do projeto multinacional europeu.

7. Os norte-americanos nunca viram com bons olhos o desenvolvimento de uma indústria de defesa autóctone no Brasil. Por trás de afirmações um tanto tolas de que não iriam fomentar o armamentismo na região e  que (essa é boa…) muitas vezes as armas eram usadas contra o próprio povo local,  estava a preocupação não apenas com o autonomismo dos militares locais, exacerbado desde o acordo nuclear Brasil-Alemanha, de 1977 e o rompimento unilateral por parte do Brasil, do TIAR (Tratado Interamericano de Assistência Recíproca). Além do mais, a indústria de defesa brasileira ertava se tornando muito competitiva em alguns nichos (como os de blindados sobre rodas e veículos militares de uso geral) e começava a se mostrar capaz de avançar sobre outros, como o de munições. O desenvolvimento do AMX foi considerado muito preocupante, e existem informações (que não consegui confirmar) de que os EUA tentaram barrar a participação do Brasil no projeto. Verdade ou não, o fato é que o fornecimento da M61A1 foi barrado, sob a alegação de que era “tecnologia sensível” e que deveria ficar restrita ao âmbito da OTAN. Posta diante do problema, a FAB optou pelo DEFA, e estimulou o desenvolvimento de uma versão nacional da arma, adaptada para uso ar-terra. A versão brasileira do emprega munição 30 mm x 113 mm (produzida pela Companhia Brasileira de Cartuchos) e possui alcance útil de 2000 m; sua cadência de fogo é de 1500 salvas por minuto. O Centro de Tecnologia do Exército tem conseguido desenvolver melhorias no projeto original, como um mecanismo elétrico de acionamento remoto e uma versão para viaturas blindadas::

Outro estranho caso: o do aviãozinho brasileiro (ou será italiano?..)::De como por vezes um equívoco pode dar (mais ou menos) certo::

O assunto “absorção de tecnologia” mostrou-se interessante.  Andei, na falta de coisa melhor a fazer, e diante da sucessão de informações desencontradas sobre o projeto FX2 (por sinal, adiado mais uma vez… Em minha modesta opinião, o desenlace natural é que acabe virando “FX3” – e assim por diante), olhando os antecedentes da história da tecnologia aeronáutica no Brasil. Estamos ou não preparados , afinal, para entrar na era das aeronaves “geração 4.5”? O resposta é – sim e não. A chegada de qualquer novo avião da “geração” 4.5 é um tremendo salto tecnológico e operacional para a FAB, mas nada assim tão desafiador, para um país que tem um parque científico, tecnológico e industrial nada desprezível – para um país que tem, por exemplo, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica e a Embraer. A FAB foi capaz de, ao longo dos últimos anos, tomar decisões que se revelaram bastante acertadas, diante da realidade nada simples que, historicamente, a corporação tem vivido. Um panorama de dotações orçamentárias cronicamente insuficientes, políticas claudicantes e indefinição estratégica. Nos últimos anos, segundo a opinião de diversos especialistas, as duas “viradas amazônicas” (a “verde” e a “azul”), que caracterizam a nova Estratégia de Defesa Nacional, pelo menos colocam às FAs brasileiras novos problemas. O controle do espaço aéreo é um deles. Ao longo dos últimos dez anos, entre idas e vindas e muita indecisão, as autoridades brasileiras e seus agentes tentam implementar fórmulas que permitam pelo menos conceber a defesa das “duas Amazônias”. Não é preciso ser muito brilhante para perceber que os problemas da defesa nacional não estão concentrados apenas nessas duas vertentes, apesar do foco apontado para essas duas regiões. Entretanto, temos de admitir: já é um começo que se apontem prioridades. Por outro lado, estabelecer e seguir prioridades, mesmo que essas tenham equívocos como premissas, pode até chegar a dar certo – embora nem sempre. Vejamos um caso::

parte1A época era a da Guerra Fria. No final dos anos 1960, às voltas com os mais diversos problemas internos e externos, os membros europeus da Aliança Atlântica, a OTAN, tinham mais um, e dos grandes, com que se ocupar: o crescente poderio das forças reunidas no Pacto de Varsóvia. Numericamente, a superioridade das forças militares da aliança comunista era quase impossível de alcançar. A compensação se dava no aspecto tecnológico – neste, o Ocidente ainda levava clara vantagem, principalmente no que dizia respeito ao poderia aéreo. Mas mesmo essa vantagem parecia estar diminuindo. As manobras anuais da OTAN e a observação de exercícios do Pacto de Varsóvia apontavam para a urgência de novos tipos de aeronaves, capazes de vôo em altitudes muito baixas (chamado, em inglês “low flight mission profile”), de modo a penetrar as defesas adversárias, e também capazes de interceptar incursores inimigos. Diversas indústrias aeroespaciais, principalmente norte-americanas, começaram estudos conceituais que buscavam um modelo de aeronave com essas características, pensada para os anos 1980.

Examinar a aliança militar ocidental (a OTAN), nesta época, permite perceber três tipos de membros: o “presidente do clubinho”, os EUA; os “sócios maiores”, Inglaterra França e Alemanha Ocidental; e os “menores” – o resto. Dentre os “maiores”, Inglaterra e França tentavam manter certa independência política com relação aos EUA, em benefício de suas claudicantes economias e seus avançados parques tecnológicos e industriais, o que significava adquirir, tanto quanto possível, equipamentos de suas competentes indústrias militares; a Alemanha Ocidental, em meados dos anos 1960, começava sua corrida para o posto de terceira economia européia e – quizas… – do mundo, mas levaria algum tempo para se perceber como “anão político”, dentro da aliança ocidental (muito em função do pavor da França). Curiosamente, a Alemanha se colocava, neste quesito, entre o bloco dos “sócios menores”: usuários de equipamento militar oriundo dos EUA, junto com Holanda, Bélgica, Itália e Canadá (nem vale à pena falar, neste momento, de Portugal, Turquia, Grécia, Dinamarca e Noruega…). Esses países eram todos usuários do Lockheed F-104G1Starfighter“, variante do modelo F104C, que cumpria funções de interceptação e ataque ao solo. Por outro lado, começou a se desenhar um panorama em que diversas forças aéreas européias não usuárias do F-104 (por exemplo, a Inglaterra e a Espanha) também anteviam a necessidade, a médio prazo, de substituir seus vetores de ataque.

A Inglaterra pode nos servir de “case study” (causa:: também tem seu lado acadêmico…). Com grandes responsabilidades na estrutura da OTAN, os britânicos buscavam uma aeronave  de maior capacidade, que, inicialmente (nos meados dos anos 1960), foi identificada no General Dynamics F111. Entretanto, com o fracasso deste programa programa, cujos primeiros exemplares chegaram a ser recolhidos pela USAF do teatro do Vietnã, a RAF perdeu o interesse e começou a procurar por soluções européias. Esta surgiu na figura do consórcio Panavia, com sede na Alemanha, que, por volta de 1967 reunia Holanda e Itália2, e ao qual a Grã-Bretanha se reuniu.

O objetivo do consórcio era projetar uma aeronave multifuncional, capaz de cumprir tarefas de interceptação e defesa aérea,  ataque ao solo e penetração a baixa altitude. O projeto remontava a estudos realizados na Alemanha e na própria Inglaterra: o MCRA (Multi Role Combat Aircraft – “Aeronave de Combate Multifuncional”). Esse programa tomou corpo no início da década de 1970, sendo que o primeiro protótipo ficou pronto no segundo semestre de 1973. Diante do panorama da época – crise econômica que chegou ao auge depois da Guerra do Yom Kippur, com a crise do petróleo, e sucessivas crises políticas na Europa – não foi uma proeza de pequena monta.

Por volta dessa mesma época, as autoridades políticas e militares da Itália pensavam em substituir um dos principais vetores da força aérea nacional, o Aeritalia G913. Em 1977 foi lançado o requerimento de um caça tático que, embora pensado para funções de interdição, também pudesse cumprir, de forma limitada, outras tarefas. As principais empresas aeronáuticas italianas de então, a Aeritalia e a Aermacchi, já estavam desenvolvendo, internamente, projetos que atendiam, inicialmente, a tais especificações. Incentivadas pelo governo, entraram em acordo de forma a apresentar um projeto conjunto, como forma de reduzir custos e aumentar a eficiência. Os trabalhos de desenvolvimento se iniciaram no primeiro semestre de 1978.

A Bundes Luftwaffe (Força Aérea da Alemanha Ocidental), na primeira metade dos anos 1970, havia projetado uma solução autóctone para a sua aviação militar. Diante das pressões norte-americanas por maiores gastos nacionais com defesa por parte dos principais países da OTAN, os alemães estabeleceram que a aeronave multinacional MCRA substituiria os F104G e seria responsável pelas missões tipo “ataque em profundidade” e “interdição do teatro de combate”4. Os já obsoletos Aeritalia G91 dariam lugar a um modelo nacional, o Dornier “Alpha Jet”, que reuniria funções de ataque leve e treinamento avançado. Esse panorama tendia a se consolidar, na Europa Ocidental: as espinhas dorsais das forças aéreas seriam formadas por aeronaves multifuncionais, secundadas por aeronaves ligeiras em versões de ataque tático e treinamento avançado. Os alemães ocidentais, voltados diretamente para as forças do Pacto de Varsóvia, e tendo seu país como provável teatro de operações de uma guerra européia, eram os principais advogados dessa doutrina. A Inglaterra a via com menos entusiasmo, embora concordasse com a idéia de ataques em profundidade e de “contenção aérea”.

Quem não gostava nadinha da idéia eram as autoridades italianas. A idéia de unificar ao máximo os tipos de armamento adotados pelos membros europeus não era bem vista no país da bota. Na concepção doutrinária deste, o “Alpha Jet” não era o vetor adequado para missões de interdição de teatro, mas o Tornado, aeronave cara e complexa, também não era. Os italianos, “pobres” diante de seus vizinhos alemães (já na época, a Alemanha Ocidental era a quarta economia do mundo e primeira da Europa) e britânicos, achavam absurdo o emprego de uma aeronave caríssima e cheia de tecnologia de ponta em missões menos complexas, tipo “interdição tática”. Grosso modo, a visão doutrinária italiana aproximava-se da dos britânicos: enfrentando crescentes dificuldades financeiras, a Grã-Bretanha via no Tornado um vetor de defesa aérea e ataque em profundidade. Missões tipo “interdição de teatro”, na visão inglesa, seriam cumpridas por uma aeronave menos complexa que o Tornado, mas mais capaz que o Alpha Jet. Essa aeronave surgiu em 1973, na forma do SEPECAT “Jaguar”.

Esses debates ocultavam um problema de fundo. A integração da OTAN, nos anos 1950, se dera pela metade. Não havia propriamente um comando unificado, mas uma espécie de coordenação política, que não conseguia impedir que os membros vivessem às turras, entre si e com os EUA. Cada país membro, na prática, controlava suas forças armadas de forma totalmente independente, e desenvolvia a própria doutrina.

A Aeronautica Militare Italiana (AMI – Força Aérea Italiana) queria algo parecido com o “Jaguar”, que não estava no horizonte da indústria aeronáutica local: um caça tático mais simples, barato o suficiente para ser adquirido em maior número para, em prazo médio, substituir o restante dos F104G e toda a dotação de G91. Não era intenção da AMI adquirir esse tipo de aeronave no exterior. Pensavam os italianos que a experiência adquirida com o consórcio Panavia tinha capacitado a indústria local a projetar e desenvolver uma aeronave com as características especificadas. De fato, a tradição italiana em construir aeronaves de alto desempenho vinha de antes da Segunda Guerra Mundial, mas o ambiente econômico do período tornava interessante o estabelecimento de parcerias com outros países. Essas parcerias possibilitavam que os altos custos de pesquisa e desenvolvimento, bem como de administração da produção fossem diluídos.

Na verdade a empresa paraestatal italiana Aeritalia (empresa criada em 1969 com a fusão da privada FIAT Aeronautica com a estatal Aerfer), que tinha tido importante participação no programa MCRA, vinha estudando, desde 1973, as características de uma aeronave com o perfil “interdição tática” e “apoio aproximado”. Eram as missões dos F104G e G91, que deveriam ser integradas em uma única plataforma – algo na linha do “Jaguar” franco-britânico, então já totalmente operacional. Pouco tempo depois, por volta de 1975, a AMI examinou os documentos internos da Aeritalia e os usou como base para os requisitos de uma nova aeronave. A complexa estrutura econômica italiana, onde boa parte da indústria de defesa era estatal, controlada por um ente gigantesco denominado “IRI” (Istituto per la Ricostruzione Industriale, fundado em 1933), tornava complicado o trânsito entre as forças armadas e a indústria, e o resultado é que a AMI praticamente refez o estudo já pronto. Os requisitos básicos para um avião de ataque foram divulgado em meados de 1977: monoplace de pequeno porte, propulsão a jato, capaz de atuar em missões de “interdição aérea” e de “apoio aproximado”. O documento oficial falava da possibilidade de executar missões antinavio, de guerra eletrônica e servir como treinador avançado, o que era duplamente absurdo. O estudo da Aeritalia não chegava a tanto, pois esses perfis de missão exigiriam uma aeronave bem maior, biplace e tecnicamente mais complexa… que era o Tornado. Mas a interferência do governo não pararia por aí (quem disse que apenas no Brasil o governo se mete em tudo?..). Ainda em 1977, as autoridades resolveram que a empresa privada Aermacchi, fabricante de aeronaves militares de treinamento, se juntasse ao projeto. A “Macchi”, de longa tradição (durante a Segunda Guerra, fabricou os melhores caças italianos, o MC202 “Folgore” e o MC205 “Veltro”), era fabricante do MB326, uma aeronave de treinamento de grande sucesso. O estado italiano, por ter participação em quase todos os empreendimentos econômicos e um caráter socialista muito marcado, sentia-se livre para tentar aprofundar a “eficiência” dos projetos, interferindo de modo a forçar tal tipo de associação, e esperava o governo que o programa, configurado dessa forma, gastaria menos tempo e teria custos mais baixos – sendo este, talvez, o principal objetivo da “forçação de barra” para a “joint venture”. A estimativa de custo considerada razoável para cada unidade era de algo entre US$ 4 e 5 milhões de dólares, nos valores da época (um Jaguar saía por cerca de US$ 8 milhões). O fato é que no início de 1978, Aeritalia e Aermacchi assinaram um acordo de cooperação voltado para o desenvolvimento da aeronave italiana de interdição/apoio aproximado, que previa um protótipo voando em não mais que cinco anos e as primeiras entregas operacionais para os meados da década seguinte.

Com as restrições de custo colocadas como horizonte, o que seria possível era uma aeronave transônica (velocidade maior que mil quilômetros por hora e menos que a do som), asa fixa e baixo embarque de tecnologia. De cara, uma boa notícia: parte da engenharia já estava disponível, a partir do Tornado. Ainda assim, o custo total do projeto, no final da década dos setenta, subia a mais de 2 bilhões de dólares. Um parceiro externo seria desejável. O que não era fácil, pelo menos na OTAN: os países membros ou já tinham a própria solução (caso da Grã-Bretanha, França e Alemanha) ou estavam envolvidos em outros projetos5.  O único interessado que apareceu foi… Bem, divirtam-se tentando adivinhar, e quem acertar ganha uma cópia dos requisitos do projeto FX3, elaborada por mim…::

Notas notáveis… vocês já sabem…:: 

1. A história desse belo desenho, originário do estúdio de Clarence Johnson, coordenador do estúdio de projetos da Lockheed, o “Skunk Works”, é uma típica história da Guerra Fria e da forma como se estruturaram as relações entre os EUA e o resto da OTAN. De certa forma uma proeza tecnológica, o Starfighter (algo como “caçador de estrelas” ou “lutador das estrelas”) acabou afetado por suas qualidades potenciais. Sua origem remonta à constatação de que a insistência dos EUA, no início da Guerra Fria, em conceitos da Segunda Guerra Mundial, já ultrapassados, estava fazendo com que a URSS assumisse a vanguarda tecnológica aeronáutica. Já que a OTAN insistia em uma aeronave de superioridade aérea, que os EUA, fixados no combate aéreo estratégico, não tinham, Johnson começou, em 1952, a trabalhar num modelo de caça que fosse capaz de superar tudo que o adversário (e até os aliados…) pudesse colocar no ar. O resultado deveria ser menor, mais leve, mais manobrável e tecnologicamente mais avançado. O programa foi inicialmente desenvolvido como iniciativa da Lockheed, e encontrou diversos obstáculos. Estes acabaram fazendo com que o desenvolvimento do projeto levasse cinco anos. A USAF começou a receber os primeiros exemplares operacionais em meados de 1958. A partir de então, o caça tornou-se um “batedor de recordes”. Entretanto, a plataforma acabou afetada pela inconsistência doutrinária do período. Por exemplo, embora as versões iniciais, de interceptação, fossem dotadas de um canhão multicanos Vulcan de 20 mm, esse sistema de armas acabou sendo abandonado, dando lugar aos mísseis AIM7 “Sparrow”, AIM9 “Sidewinder” e “Aspide” (este um míssil italiano), que pareciam mais adequados à interceptação de grande altitude. Por outro lado, o avião não “caiu nas graças” dos pilotos da USAF, que o consideravam difícil de pilotar, e inseguro, apesar do registro de acidentes com o tipo não seja maior do que a média de outras aeronaves norte-americanas. Os esforços da Lockheed para fazer o F104 consolidar-se na USAF (o que nunca chegou a acontecer) acabaram fazendo com que diversar versões fossem sendo apresentadas, até o surgimento da versão “G”. Esta era, basicamente, uma aeronave multifuncional, capaz de receber diversos tipos de armamentos e cumprir missões tanto de superioridade aérea quanto de ataque ao solo. Nesta época (1959) a Luftwaffe procurava por uma aeronave de combate multifuncional, de origem estrangeira (a Alemanha Ocidental ainda estava proibida de projetar e fabricar equipamentos militares). O F104G foi apresentado, após ser convertido em um caça de qualquer tempo capaz de cumprir missões de superioridade aérea, ataque ao solo e reconhecimento. Uma vez adotado pela tecnologicamente avançada Luftwaffe, onde deveria estar articulado com um sistema de defesa aérea integrado, a aeronave atraiu a atenção de outros membros da OTAN. Para esses outros, o principal atrativo dessa nova-velha aeronave (na época já era um conceito de dez anos) era a possibilidade de ser financiada pelo “Programa de Ajuda Militar” (MAP – “Military Aid Program“), um programa de financiamento semelhante ao FMS oferecido ao Terceiro Mundo. A questão principal do MAP era manter, o máximo possível, as carcterísticas técnicas da aeronave, o que implicava em transferência limitada de tecnologia, embora houvesse a possibilidade de montar as células localmente. Em operação, o F104G foi torpedeado por um lado, pela revelação, no final dos anos sessenta, de diversos casos de suborno à autoridades locais; por outro, por certas questões técnicas mal-resolvidas, como o desgaste muito rápido das células, depois de postas em serviço, em função do estresse provocado pelo perfil muito amplo de missões.

2. O Tornado é um caça tático cujo projeto refletia a filosofia de tornar uma única plataforma capaz de cumprir diversas funções: apoio aéreo aproximado e interdição de campos de batalha, contra-ataque aéreo, ataque naval, reconhecimento e defesa e superioridade aéreas. Projetado para realizar incursões em baixo nível e alta velocidade, o “Panavia 200” refletiu estudos realizados nos EUA e na própria Europa, que indicavam que apenas aeronaves voando em altitudes ultrabaixas poderiam ter a expectativa de sobreviver a uma incursão num ambiente de defesa de alta densidade. Esse modo de vôo tornou-se básico na doutrina adotada pelas nações européias, de modo que se refletiu nos requerimentos lançados para praticamente todos os novos tipos, a partir a primeira metade dos anos 1970. A geometria variável é um dos principais desdobramentos dessa filosofia. Quando as forças aéreas das principais nações européias começaram a estabelecer as configurações ideiais do substituto do F104G “Starfighter”, já haviam em curso diversos projetos com essa característica. O principal era o anglo-francês AFVG (Anglo-French Variable Geometry Combat Aicraft), descontinuado em julho de 1967, com a saída da França. Os ingleses ainda tentaram prosseguir com recursos próprios e um projeto nacional: o British Aircraft Corporation Ad­vanced Combat Aircraft. Entretanto, a situação política e econômica nacional fez o projeto parecer fantasia e, passado menos de um ano, os ingleses desistiram. Na mesma época, alemães, italianos e holandeses desenhavam o consórcio Panavia, destinado a produzir, em parceria, o “Panavia 200”, ou MCRA (Multi Role Combat Aircraft). Tratava-se de um projeto extremamente ambicioso, que visava, em poucos anos, dotar os membros de uma aeronave extremamente avançada. Os ingleses juntaram-se ao consórcio em 1969, e em 1970 as definições de cada um dos parceiros do consórcio foram apresentadas, bem como orçamentos e responsabilidades de cada membro. Inicialmente, era projetada uma versão de um tripulante e outra de dois, por solicitação da Alemanha Ocidental, que logo desistiu, em função do alto custo de desenvolvimento simultâneo de duas versões. Após diversos atrasos, problemas econômicos e a desistência da Holanda, o MCRA tornou-se operacional em 1983, sob o nome de “Tornado” (palavra existente nas três línguas do projeto). Em torno de 600 unidades foram entregues – 324 para a Alemanha, 220 para a Inglaterra e 100 para a Itália, em três versões primárias: caça tático IDS (Interdictor/Strike – “Interdição/Ataque, notável pelos grandes pontos duros de fixação de armamento situados sob a fuselagem); interceptador ADV (Air Defence Variant –“Variante de Defesa Aérea”); plataforma de guerra eletrônica ECR (Electronic Combat/Reconnaissance – “Combate Eletrônico/Reconhecimento”) para supressão das defesas aéreas inimigas. Dotado de dois turbofans alemães Turbo-Union RB199-103, alcança a velocidade máxima de 2236 km/h e tem raio de ação em combate de uns 1300 km. Tripulado por um piloto (comandante da aeronave) e um Operador de Sistemas de Armas, o peso máximo do avião na decolagem é de uns 28000 kg, distribuídos entre combustível interno e externo e até 8000 kg de uma ampla suíte de armamentos. Esta vai de dois canhões de alta velocidade (o IWKA Mauser 27 mm, projetado especialmente para o modelo e ainda em pleno uso, sendo a arma orgânica do Eurofighter Typhoon) até mísseis, bombas de queda livre e armas inteligentes. Os aviônicos concentram-se, na versão ADV, em torno do radar Marconi Elliot/Ferranti AI24, capaz de rastrear alvos múltiplos em altas e baixas altitudes, a pelo menos 100 milhas de distância (por volta de 185 km). O equipamento também é capaz de assumir funções ECCM (Eletronic Counter-Counter Mesures, “Contra-Contra Medidas Eletrônicas”, defesa da aeronave, de seus equipamentos e de um grupo aéreo voando nas proximidades contra interferência eletrônica hostil), visto ser esta uma característica do campo de batalha aéreo. Entretanto, a suíte de aviônicos varia de modelo para modelo e de operador para operador. Embora o Tornado tenha se mostrado, como produto, um sucesso, o programa acabou comprometido pelo alto custo inicial e de operação da aeronave, que acabou inviabilizando a participação do consórcio em concorrências estrangeiras. A pressão dos EUA sobre os “sócios menores” da OTAN também acabou fazendo com que Espanha, Canadá e Grécia optassem por adquirir aeronaves fabricadas nos EUA. Apenas a Arábia Saudita adquiriu 96 unidades da versão IDS, parte dos quais passaram por processo de “modernização de meia vida” (MLU).

3. Em 1953, os 14 membros da OTAN lançaram uma requisição conjunta solicitando que diversas indústrias aeronáuticas européias apresentassem propostas para uma futura aeronave leve de ataque ao solo, que seria adquirida conjuntamente. Essa aeronave deveria ser simples, fácil de produzir e operar, de baixo custo e dotada de armamentos básicos. O problema doutrinário proposto é que se esperava que, no caso de uma guerra em ambiente nuclear, as forças táticas pudessem ser amplamente dispersas, de modo a garantir o máximo possível de capacidade de contra-ataque convencional. Assim, pequenos grupos deveriam ser dispersos por pequenas bases e até por setores de rodovia, com quase nenhuma capacidade de apoio terrestre. Outro motivo é que os membros “secundários” da NATO não tinham capacidade econômica para manter grandes frotas de aeronaves de primeira linha. Em 1956 foram selecionados os candidatos, dois franceses e o italiano G91, que passaram por quase dois anos de testes. Em 1958, os ministros de Defesa da OTAN apresentaram o vencedor: o modelo G.91. Claro que a decisão não foi anunciada sem grande controvérsia – os problemas militares há muito tinham deixado de ser apenas técnicos. Os governos da França e da Inglaterra, países com grande e sofisticada indústria aeronáutica encontraram justificativas para saltar do acordo; Bélgica, Holanda e Noruega nunca chegaram a se entusiasmar com a idéia. Os EUA, que deveriam financiar parte do projeto e pagar pelas unidades a ser compradas por Turquia e Portugal (através de uma versão do programa FMS), acabaram cedendo ao lobby da indústria local, que não via com bons olhos a fabricação sob licença de uma aeronave estrangeira. Na Itália, a produção foi iniciada no final de 1960 pela Aeritalia, filial da FIAT. Embora não tivesse conquistado totalmente o coração dos operadores, o G91 pode ser considerado uma boa aeronave para as missões das quais tem de se desempenhar: atacar alvos de valor tático no campo de batalha. Projetado para ser operado por um tripulante, seu único turbojato Bristol Siddeley Orpheus pode leva-lo a velocidade máxima de 1075 km/h, em mergulho suave, embora sua velocidade de cruzeiro se situe em torno de 700 km/h. O raio de combate fica em torno de 550 km, com um peso máximo na decolagem de 5500 kg. Os aviônicos são muito simples – não possui radar nem sistemas eletrônicos de navegação. A suíte de armamentos reflete essa simplicidade de concepção: até 4 metralhadoras Colt-Browning .50 (12.7 mm) ou (em modernização feita nos anos 1960) 2 canhões franceses DEFA de 30 mm, bombas de queda livre, quatro pontos duros sustentando casulos de foguetes de 68 mm ou 80 mm, casulos de canhões e bombas de queda livre. Embora fosse considerado além do razoável pelos operadores, em meados dos anos 1970, o G91 começou a mostrar-se obsolescente. A Alemanha retirou suas unidades de serviço a partir de 1980; a Itália, entre 1985 e 1995; Portugal descontinuou suas unidades em 1993. 

4. Grosso modo, as missões de ataque são divididas em: 1. “Interdição Aérea em Profundidade” – (em inglês, AI – Air Interdiction), ações aéreas em profundidade de caráter tático contra alvos terrestres de elevado valor, bem atrás das linhas inimigas – são também chamados de “ataques em profundidade” (DS – Deep Strike); muitos autores incluem nessa categoria as “Operações de Contenção Aérea” (em inglês, CAO – Counter Air Operations), ou seja, impedir que aeronaves adversárias cumpram suas funções, através de ataques contra bases aéreas e facilidades aeronáuticas (postos de controle, por exemplo, e SEAD); 2. A Interdição Aérea do Teatro de Combate (BAI – Battlefield Air Interdiction) inclui as operações de caráter tático que visão dificultar ou, idealmente, impedir que o inimigo alcance, por terra, a frente de combate: posicionar-se no campo de batalha, transportar reforços, suprimentos, reposicionar unidades em ação; 3. o “Apoio Aéreo Aproximado” (CAS – Close Air Support) são as ações que interferem diretamente no teatro de combate, visando incapacitar as forças terrestres inimigas engajadas em ação. Existem certas divergências em torno da primeira categoria, que autores europeus consideram como operações estratégicas, com o que não concordam diversos autores norte-americanos. Essa divergência decorre do fato de que, para os norte-americanos, as operações estratégicas podem ser conduzidas exclusivamente por forças com capacidade nuclear. Qualquer outra operação, independente da distância que ocorra da base, será classificada como “tática” (relacionada diretamente com o teatro de combate).

5. Em 1974, os governos de Bélgica, Holanda, Noruega e Dinamarca estabeleceram um acordo em que se comprometiam a adquirir aeronaves de origem norte-americana, desde que a USAF também as adotasse. Na época, os EUA estavam às voltas com o programa “Lightweight Fighter”, que deveria substituir, dentro da nova doutrina que resultara dos estudos feitos em torno da experiência no Vietnã e dos conflitos, então recentes, entre árabes e israelenses (1967 e 1973), as principais aeronaves em serviço, como os F4D e E “Phantom II” e F105 “Thunderchief”, nos dez anos seguintes. Esses quatro países eram usuários dos caças táticos F104G desde 1963, e, na primeira metade dos anos setenta, planejavam a substituição conjunta dessas aeronaves. Como se tratavam de “parceiros menores” da OTAN, a solução adotada levaria em conta custos de aquisição e manutenção, além do fato de que cumpririam funções de defesa aérea e ataque tático, o que provocaria grande estresse sobre as células individuais (por sinal, uma das decepções com o F104G). O concurso aberto teve cinco participantes inscritos: o Mirage F1M, o SEPECAT “Jaguar”, o SAAB J37 “Viggen/Eurofighter” e o Northrop P530 “Cobra”, além do F16, este em estágio mais avançado de projeto que seu concorrente no programa LWF. O acordo conjunto assinado no ano seguinte, durante a Feira Aeronáutica de Le Bourget, em Paris, estabelecia os termos para a aquisição conjunta de 348 aeronaves. Estas deveriam ser totalmente montadas pela indústria local, com grande porcentagem do conjunto fabricada pelos próprios usuários, o que implicava em considerável transferência de tecnologia. O contrato europeu, considerado, então, a “venda de armas do século”, levou em conta o fato de que a comunalidade de equipamentos diminuia ainda mais o custo final do F16, que já era bastante baixo (na época, em torno de US$S 14 milhões  por unidade, em comparação com os US$ 20 milhões do “Viggen”). As entregas começaram em janeiro de 1979 e se completaram em 1984. Uma compra adicional pela Holanda, aprovada em 1980, tornou a Koninklijke Luchtmacht (Real Força Aérea Holandesa) a maior operadora estrangeira de F16, com o invetário local alcançando, em 1987, 213 unidades.