Não tinha pensado nisso: planejamento estratégico fundamentalista::

O Oriente Médio não sai do foco. Ainda que não pretendamos pensar no caso (o redator:: bem que tentou, por bastante tempo…), aquele pedaço de terra volta ao campo de atençao. De fato, é difícil não pensar nele: nossa civilização nasceu lá, de fato, quando o povo judeu inventou o monoteísmo, depois um grupo de dissidentes (sempre eles) resolveu repensar a relação com o Céu; tempos depois, um judeu que recolhia impostos para os imperialistas da época descobriu que talvez fosse possível conciliar o inconciliável e, para completar a salada, passados mais alguns séculos, um jovem guardador de camelos saiu por aí (ou por lá, melhor dizendo) tentando – e conseguindo – convencer as pessoas que conversava com o único Deus.  E desde então, a humanidade, que adora pegar em armas, e o faz por qualquer causa::, não parou mais de se matar em nome dessas idéias.Examinemos algumas dessas questões – em partes, é claro, pois os ocupados frequentadores de causa:: não têm tempo para ler dez páginas de delírios do redator::

parte1/4É claro que o resumo acima é uma visão simplista que poderia ser entitulada “origens história mundial do ponto de vista das religiões”. Foi, entretanto, suficiente para colocar no espírito do redator:: uma idéia que, embora parecesse, de início, estapafúrdia, acabou mostrando-se bastante razoável: o fundamentalismo religioso pode ser fundamento de uma análise estratégica? 

Certamente foi, na época da expansão do Islã, entre o meio e o fim da Idade Média. Foi a época em que exércitos e navios saídos do Oriente Médio e da Turquia levaram as palavras do Profeta (aquele jovem guardador de camelos…) ao mundo, e legiões de novos fiéis foram convencidos – pelo brilho do Livro ou pelo excelente aço sarraceno. Posteriormente, a maioria das guerras européias da Idade Moderna, quando foram lançados alguns dos mais duradouros fundamentos da arte militar, tiveram parte de suas motivações baseadas na idéia de reformar a Cristandade, de modo a levar os homens de volta ao caminho de Deus – ou matar os que não concordassem em trilhá-lo. A mesma trajetória política que levou a 150 anos de guerras religiosas produziu, na Europa do século 18, a consolidação da separação entre Estado e religião. A idéia de que o bispo de Roma, chefe mundial da Igreja Católica, seria também preposto de um grande ditador onipresente e onisciente acabou relegada aos limites de uma praça-estado situada no meio de Roma. A direção dos estados – e de suas guerras – foi colocada sob a responsabilidade das lideranças formadas nesse espírito. Em prazo relativamente curto, essas lideranças empalmaram o poder de levar cidadãos, ou seja, todos aqueles vivendo sob um proclamado (e nem sempre praticado) “império da lei”, ao campo de batalha, quisessem estes ou não. A grande estratégia, ou seja, o modo como, modernamente, as nações mobilizam seus recursos de modo a alcançar seus objetivos políticos, deixou de levar a religião em consideração, embora esta continue a ser importante fator de mobilização ideológica.

Volta o redator:: ao ponto, para consideração dos oito ou nove leitores que aqui aparecem de vez em quando: a religião pode ser considerada aspecto de planejamento estratégico? Certamente, se a considerarmos fator de mobilização. Nos estados laicos criados pelo racionalismo e pelas revoluções burguesas do século 18, e que se consolidaram no século seguinte, a religião ainda hoje é fator de aglutinação das sociedades, em caso de guerra, real ou virtual. Não passamos 50 anos ouvindo que um dos motivos da Guerra Fria foi o ateísmo dos comunistas? Os soldados dos EUA não eram apresentados como a primeira linha de defesa da “civilização cristã-ocidental”? Pergunte a um cidadão médio norte-americano se ele não acredita que um dos motivos da superioridade conquistada pelos EUA é a disposição para o trabalho missionário, de “trazer almas para o Reino de Deus”. Os missonários sempre foram parte importante das frentes de expansão dos Estados ocidentais. Desde a “Companhia de Jesus”, criada no século 16 e estruturada em moldes militares (mas sem portar armas que não fossem a Cruz e a Bíblia), até os pregadores protestantes que percorriam a África na retaguarda (e – sejamos justos – muitas vezes na vanguarda) do exército britânico, a difusão da palavra de Deus abriu a porta para a penetração do “estilo ocidental”, seja ele lá qual for.

Embora se possa observar forte sinergia entre exércitos de missionários e de militares, na atualidade eles não se misturam, e isso é parte do “estilo ocidental”. Em última análise, prevalece a lei dos homens – ou do estado, por consenso dos cidadãos – sobre a lei de Deus. A lei do estado não pode ser desobedecida, sob pena de punição, enquanto a de Deus é seguida por decisão de “fôro íntimo”, como gostam de dizer os advogados. Ela não é fundamento para a imposição de obrigações civis, como a convocação militar. É, entretanto, fundamento para a “obrigação moral” de expandir a Palavra e lutar contra o ateísmo, por exemplo. Ou pela paz, ainda que a tiros. Por outro lado, a sinergia entre o “fôro civil” e o “fôro íntimo” observa-se quando o cidadão é chamado a lutar por seu modo de vida, que inclui a liberdade de praticar uma religião ou (pelo menos em teoria) o respeito à opção religiosa alheia. Boa parte da mobilização para a Primeira Guerra do Golfo (para não irmos muito longe no tempo) foi feita dentro de pequenos templos protestantes, nas cidadezinhas dos EUA. O próprio George Bush Sr. frequentou alguns cultos e falou neles sobre a necessidade de lutar pela liberdade no Oriente Médio.

Esse é o estilo ocidental. A idéia de um “reino” abrangente, governado pela lei e povoado por cidadãos “nascidos iguais” e governados com justiça, guarda fortes continuidade com as idéias cristãs surgidas no Oriente Médio. Sabemos, entretanto, que existem atualmente uma penca de estados estruturados em torno da lei de Deus: falamos, claro, dos estados islâmicos. A questão é como se dá a estruturação desses estados: o “Livro” (al´Koram) está na base do que chamaríamos de “sociedade civil” e regula as relações entre cidadãos. Se isso é bom ou ruim, não cabe ao redator:: (que não tem a menor vocação para Ali Kamel) estabelecer – sugere-se perguntar a um cidadão da República Islãmica do Iran, ou do Reino Saudita. 

É notável que, nos últimos setenta anos, desde meados do século passado, movimentos políticos laicos tentaram liderar um redesenho do estado. Os partidos nacionalistas nos estados islãmicos, dos quais o nacionalismo iraniano, os diversos “baathismos” e o “Fatah” são bons exemplos, talvez tenham fracassado em função de certa incapacidade de limitar a presença da religião e de suas lideranças na vida civil. Fracasso compreensível: a religião, nesses lugares, molda as instituições de um modo que, vivendo em sociedades laicas, torna-se difícil conceber. O sistema escolar, por exemplo, é totalmente organizado e ordenado por agentes religiosos. O exemplo mais acabado disto são a “madrassas” sunitas, escolas religiosas cuja função é ensinar a Palavra do Profeta para a vida e formar sábios (um excelente texto sobre o tema, no falecido Weblog de Pedro Dória). Madrassas formam Fiéis, homens dispostos a seguir com retidão o caminho da Fé – ou, como dizem eles, do “Coração” (tradução quase literal da palavra árabe Islan). Um desses princípios e a expansão da Fé – o que é conhecido como Jihad. O seguidor de Deus é um jihadista, ainda que nem saiba distinguir entre o cano e a coronha de um AK47. Entretanto, em alguns lugares, como o Paquistão, as madrassas formam ativistas que levam a religião como bandeira. Como o Islã é, antes de tudo, a luta pela Fé, essa luta começa no interior dos próprios estados islãmicos, de modo a não permitir qualquer desvio dos Fiéis, principalmente quando esses Fiéis meio perdidos estejam no governo e queiram adotar um modo de vida que não se paute pela Lei verdadeira – aquela do “Livro”.

Ou seja: os estados islâmicos são formas ainda híbridas entre uma estrutura política formada por séculos de organização da vida cotidiana e das relações sociais com base na religião, e um modelo de certa forma copiado a partir das relações assimétricas com estados ocidentais, estabelecidas no século 19. Após a 1ª GM, com a substituição do Império Otomano por mandatos coloniais europeus, abriu-se o caminho para a formação de partidos nacionalistas ao estilo europeu, que logo se mostraram uma dor de cabeça para as potências mandatárias. Também foi nesse período que se formaram monarquias que aceitaram dividir o poder com os religiosos, desde que estes não se metessem nos assuntos de estado. Exemplos disso são a Arábia Saudita, a Jordânia e o Iraque. De modo algo diferente, também a monarquia marroquina do rei Hassan II, menos falado porque bem mais comportado e sem petróleo (como Arábia Saudita e Iraque) ou posição estratégica chave (como a Jordânia).

Mesmo ditaduras laicas extremamente violentas como a Síria, a Líbia ou – last but not least – o Iraque baathista, são produto desse hibridismo.  Nesses casos, o modo de enfrentar a religião foi fazer acordos, por um lado, e encanar os dissidentes religiosos, por outro, o que significou dar vantagens e tomar funções. No caso da Líbia, o projeto foi mais bem-sucedido que no Iraque, visto que na lá – como na Argélia francesa, outro caso de “sucesso” – os colonizadores europeus conseguiram formar um núcleo consistente de sociedade europeizada nas regiões urbanizadas da costa mediterrânica. Nesses estados, após a independência (muito menos problemática na Líbia – colônia italiana – do que na Argélia – colônia francesa), assim como na Síria (colônia francesa fortemente influênciada pelos ingleses), os grupos políticos que receberam ou tomaram o poder após as independências, herdaram esses núcleos ocidentalizados, dentre os quais se encontrava o exército e boa parte do serviço público.  Na Líbia, Muammar el Ghadafi, líder (cuja a ambição secreta deve de ser fundar um fã-clube de Cauby Peixoto) produzido em uma disputa política de facções, após tomar o poder, manteve certos privilégios dos religiosos, mas ao mesmo tempo os reprimiu fortemente. Paralelamente, “ocidentalizou” a vida social (trata-se do estado árabe onde a religião menos influencia a vida cotidiana) e transformou o Ocidente em espantalho. Ghadafi era um nacionalista de origem militar, em um exército formado ao estilo ocidental – sem mullahs dentro dos quarteis ou califas no comando – coisa que o coronel Gamal ab´del Nasser também era. Nasser tentou, bem antes, “ocidentalizar” o Egito, só que com sucesso relativo, já que precisava dos religiosos para enfrentar Israel. E, pior, sempre que enfrentava, perdia, o que fornecia mais munição para o discurso religiosos, que afirmavam ser a derrota produto do desvio do caminho da Fé.

Outro ponto que merece atenção é o fato de que essas ditaduras nacionalistas laicas (ou quase) utilizaram-se da disputa ampla da Guerra Fria para consolidarem suas posições. Isso era mais fácil para aquelas que dispusessem de algum trunfo – o petróleo, no caso de algumas, a posição estratégica, em caso de outras (a União Soviética se interessava mais por posição estratégica do que por riquezas minerais, o que levou à aposta na parceria com o Egito e a Síria). De qualquer maneira, é inegável que Nasser, seu sucessor Anwar el Sadat, Gadafi, o sírio Haffez al Assad e claro, Sadam Hussein tentaram, até certo ponto um meio nacionalista e socialista que criou grandes tensões internas, solucionadas pela via da repressão, por um lado, e de concessões à população, geralmente em detrimento da religião – o que acabava por criar mais tensão. O sucessor de Nasser, general Sadat, percebeu mais cedo que a parceria com a União Soviética criava um problema a mais para a sobrevivência do regime, e acabou optando por negociações em separado com os EUA, sobre a questão de Israel. Isso criou novos problemas: por um lado, uma fratura no bloco nacionalista laico (a Síria e a Líbia quase chegaram à guerra contra o país) e, por outro, problemas internos com os religiosos, que viam na aceitação Israel uma traição que colocava as lideranças como passíveis de condenação. Para esses movimentos não importa onde está o inimigo, se dentro ou fora. Na visão religiosa, o Islã funciona como uma espécie de duplo terreno e imperfeito de uma formação celestial, governada pela Lei (Sharia). Este é o conjunto de normas que o Fiel deve observar, elaborado por estudiosos, sobre questões do cotidiano. A base dessas interpretações é o Corão, em primeiro lugar, e os Hadith (os “bons ditos”, conjunto de observações do Profeta sobre assuntos diversos, e que incluem sua biografia). A comunidade do Islã é formada pelo conjunto dos Fiéis, e não propriamente por cidadãos de estados nacionais. A Lei deve ser, pois, observada inclusive pelos governantes, que, se a transgridem, desautorizam a si mesmos diante de Deus – ou seja, da comunidade do Islã::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Drops para o fim de semana::

Um dos livros que maior curiosidade despertou no redator:: até hoje, dentre tudo o que já leu sobre a 2ª GM, foi “Eichmann em Jerusalém”, da filósofa alemã Hannah Arendt. Arendt é *figura muito conhecida no universo da Filosofia e da Ciência Política, com uma obra notável e uma militância destacada – que quase a colocou, em 1933, num campo de concentração. Em 1961 foi enviada a Israel pela revista norte-americana New Yorker, para cobrir o julgamento do tenente-coronel SS Karl Adolf Eichmann, arquicriminoso de guerra nazista. Da reportagem, publicada em cinco partes (se você lê inglês, uma resenha excelente aqui, das próprias páginas da revista mais bem-pensante e pedante dos EUA…), resultou o livro (o pós escrito, de autoria da própria Arendt deve ser lido aqui). Nesse texto, Arendt cunhou a expressão “banalidade do mal”, hoje bastante difundida entre diversas áreas das Ciências Humanas e Sociais. Esse conceito expressa a tese que propõe enxergar sob outra perspectiva as pessoas que cometem crimes indiscritíveis, daqueles que em muito superam as possibilidades de qualquer relés Al Capone ou Fernandinho Beira-Mar. É o caso dos planejadores e administradores da máquina industrial de genocídio dos nazistas, entre 1941 e 1945. Essas pessoas não podem ser consideradas simplesmente fanáticos ensandecidos: na maioria dos casos, são gente comum. Essa gente simplesmente aceitou a premissa de que o Estado, entidade impessoal e onipresente, “sabe o que faz”, e a partir daí se dispôs a participar e empenhar o melhor de suas competências em realizar a tarefa – sem chegar a perguntar, em momento algum, sobre o que estava fazendo. Burocratas, em todos os sentidos, nem piores nem melhores do que os outros burocratas. O trabalho de Arendt insere-se numa crítica à modernidade iluminista que deu co´os burros n´água em duas guerras mundiais, muitas ditaduras assassinas e “lutas pela liberdade” , que no conjunto mataram sabe-se lá quantas dezenas de milhões de pessoas. Arendt, atenta para essa ordem de questão, refletia sobre a responsabilidade coletiva, ou seja, a responsabilidade, que, para bem ou para mal, que a dinâmica histórica aponta. Dizendo de outra maneira – não existe quem esteja isento. Mas, por outro lado, responsabilidades não podem ser consideradas inteiramente individuais. 

Quando Napoleão, ao tomar o poder na França depois da Revolução, disse ‘Assumo a responsabilidade por tudo o que a França já fez, de são Luís ao Comitê de Segurança Pública’, ele estava apenas formulando um tanto enfaticamente um dos fatos básicos de toda a vida política. Em termos gerais, significa pouco mais que afirmar que toda geração, em virtude de ter nascido num continuum histórico, recebe a carga dos pecados dos pais assim como é abençoada com os feitos dos ancestrais. Mas esse tipo de responsabilidade não é o que estamos discutindo aqui; não é pessoal, e só num sentido metafórico alguém pode dizer que sente culpa por aquilo que não ele, mas seu pai ou seu povo fizeram. (Moralmente falando, não é menos errado sentir culpa sem ter feito alguma coisa específica do que sentir-se livre de culpa tendo feito efetivamente alguma coisa.) É bastante concebível que certas responsabilidades políticas entre nações possam algum dia ser julgadas em uma corte internacional; o que é inconcebível é que tal corte venha a ser um tribunal criminal que declare a culpa ou a inocência de indivíduos” (aqui, o redator:: fará o que nunca fez até agora, neste blogue: insistir para a leitura do texto indicado acima, do qual essa citação foi retirada).

O redator vê essa problemático sob dois ângulos, complementares. E não vamos falar apenas dos nazistas. Aqueles doze anos foram o reinado do mal absoluto, um curto-circuito moral que apagou consciências no mundo inteiro – para dizer o mínimo, não foram poucos os países e indivíduos que se deixaram fascinar pelo formigueiro de ordem e trabalho em que a Alemanha pareceu se transformar. É certo que, ao fim e ao cabo, a luta contra o fascismo acabou por mobilizar as melhores energias de parte considerável da humanidade, considerada por indivíduos e instituições. 

Por outro lado, o nazismo tem servido como uma espécie de justificativa moral para boa parte dos absurdos cometidos ao longo dos cinquenta anos seguintes. Afinal, fala-se muito em “liberdade”, “justiça”, “democracia”, “prosperidade”, justificativas para ações injustificáveis como o Vietnam, o Afeganistão, o Iraque. E, em nome desses “princípios”, os estados sentem-se autorizados a tudo.

Fala-se na “pátria”; no “país”; no “sistema”. Figuras abstratas que metaforicamente expressam os interesses e aspirações do que seria “o povo”, a coletividade do país. “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer por seu país.” Essa pela construção de retórica esconde uma construção lógica nem tão bela assim. Cada indivíduo pode ser mobilizado por razões que, no fim, ele talvez desconheça. “Eu recebia ordens, não me cabia discuti-las”, disse Eichmann. Militares, cientistas, burocratas, envolvidos  com questões eufemisticamente chamadas “de defesa”, atrás de escrivaninhas, painéis de controle ou computadores, em uniformes ou trajes civis, recebem ordens. Por trás da competência e da impessoalidade, são seres humanos comuns, com sentimentos comuns. Esperam a hora de ir para casa; preocupam-se com filhos, parentes e amigos; têm passatempos que pouco praticam. O excesso de trabalho e de responsabilidades são a tônica de suas tarefas profissionais e carreiras. E mais: usam, constantemente, a expressão “apenas faço meu trabalho”, independente de qual seja esse. Tudo muito natural. Tudo parte da vida.

Assim, essas pessoas, pilotos de jato lançando bombas de fragmentação ou napalm sobre cidades indefesas, cientistas civis planejando mísseis, burocratas coordenando informações militares, não são, de forma alguma, criaturas odientas ou odiosas. São apenas “parte da máquina”, “fazem seu melhor”, “não inventaram o sistema”. Pois bem: em meio a essa vida esmagadoramente comum – banal, enfim – se infiltra o mal.

Em 1984,  gente comum assim ajudou a fazer o “Relógio do Juízo Final” chegar a dois minutos da meia-noite. 

“Fazer coisas terríveis de forma organizada e sistemática baseia-se na ‘naturalização’. Esse é um processo no qual atos feios, degradantes, criminosos e indizíveis tornam-se rotina, e são aceitos como ‘a maneira que as coisas são feitas’. Existe uma forma de dividir e racionalizar o impensável, com a brutalização e morte cometidas por um grupo de indivíduos, outros administrando a máquina (manutenção, suprimentos), e outros mais produzindo equipamentos de matança, ou trabalhando na melhoria da tecnologia (melhores crematórios, napalm aperfeiçoado, bombas de fragmentação cujos fragmentos sejam mais difíceis de localizar dentro do corpo…). É função dos intelectuais militares e outros especialistas, bem como da grande imprensa, naturalizar o impensável para o público em geral. No final de sua vida, Herman Kahn gastou muito tempo tentando tornar palatável a guerra nuclear (On Thermonuclear War: Thinking About the Unthinkable), e este Doutor Strangelove fajuto teve boa aceitação na imprensa. Num excelente artigo intitulado “Normalizing the unthinkable”, publicado no ‘Boletim dos cientistas atomicos’ (Bulletin of Atomic Scientists) de março de 1984, Lisa Peattie descreveu como nos campos de morte nazistas  o trabalho era ‘naturalizado’ para aquelas pessoas aprisionadas a longo tempo, bem como para o pessoal administrativo: ‘Os encanadores da prisão mantinham em bom estado a bomba d´água no crematório e os eletricistas trabalhavam nas cercas eletrificadas. Os gerentes do campo mantinham padrões e processos bem ordenados. Os faxineiros que limpavam o pátio do crematório em Auschwitz tinham de deixá-lo perfeitamente esfregado.’ Peattie foca-se no paralelo entre rotinização nos campos de morte e na preparations para a guerra nuclear, na qual o ‘impensável’ é organizado e preparado, numa divisão de trabalho na qual participam pessoas em muitos níveis. A distância da execução ajuda a obscurecer a resposabilidade. ‘Adolph Eichmann era um funcionário com responsabilidades, deacordo com seu entendimento de responsabilidade. Para ele, estava claro que os líderes do Estado tinham estabelecido as políticas. Sua função era implementá-las, e, afortunadamente, matar qualquer um nunca foi parte de seu trabalho’.” (Se o leitor se safa em inglês, pode ler a íntegra, em inglês,  num desses preciosos blogues perdidos na rede. A palavra “naturalizar” foi usada, aos invés de “normalizar”, que é a do original, visto que essa última tem, em nossa língua, um significado um tanto diverso do que parece ter sido pretendido pelo autor.)

O texto não está focado propriamente na matança industrial executada pelos nazistas, com o beneplácito da população alemã, mas nas diversas matanças, industriais ou não, que tiveram lugar no século 20. Essas, embora sem alcançar o azimute daquela perpetrada pelos nazistas, cabem na linha da reflexão de Arendt: como distribuir a culpa por crimes impensáveis? Até que ponto o estado deve ser chamado a dividir com seus burocratas, a culpa pelo impensável?

Napoleão assumiu a responsabilidade pelas culpas e benefícios da França. Era uma metáfora, claro, e se “a França” foi responsabilizada moralmente pela Argélia, o general Jacques Massu, o carrasco de Argel, agente do estado francês, morreu altamente condecorado e tranquilamente reformado. O estado nazista pôde ser criminalizado por ter sido eliminado em uma guerra. Assim, seus servidores foram co-responsabilizados (e continuam sendo) pelo papel que cumpriam no contexto mais amplo: são considerados cúmplices conscientes, mesmo os que não apertaram nenhum gatilho. Sem a ocorrência de guerras convencionais ou revoluções, essa atribuição-distribuição de responsabilidades fica bem mais difícil. Somente em situações nas quais tal rompimento ocorre, é possível a responsabilização de que fala Arendt, “… [é] bastante concebível que certas responsabilidades políticas entre nações possam algum dia ser julgadas em uma corte internacional; o que é inconcebível é que tal corte venha a ser um tribunal criminal que declare a culpa ou a inocência de indivíduos…”

Se tal criminalização só é possível com Estados derrotados por condições externas ou internas (e mesmo assim, nem sempre), como chamá-los à responsabilidade?  Ninguém jamais tomará a iniciativa de pedir a criminalização do regime stalinista, ainda que a União Soviética tenha desaparecido; o estado sérvio pós-Tito jamais chegou a ser diretamente acusado pelo genocídio acontecido durante as guerras de agressão que promoveu contra a Croávia, Bósnia e Kosovo. De fato, houve responsabilização, por parte do Tribunal Penal Internacional, de gente como Slobodan Milošević, Radovan Karadzic e Ratko Mladic (dentre outros), responsabilizados como indivíduos (alguns chefes militares croatas também foram levados a julgamento). O mesmo aconteceu com o premiê de Ruanda e de alguns outros indivíduos, acusados de crimes contra a humanidade e genocídio, e cujas penas foi consideradas geralmente insuficientes. O governo ruandês instalado após a queda do regime responsável pelo massacre tratou de executar mais de duzentas pessoas consideradas culpadas, após julgamentos sumários. Uma boa pergunta é o que mais poderia ser feito, visto que o TPI não tem os poderes que, de fato, seriam necessários para que as nações de que fala Arendt, fossem responsabilizadas. Por outro lado, um personagem ruandês, Paul Rusesabagina, responsável por salvar as vidas de 1.268 pessoas, em Kigali (capital de Ruanda) e que se tornou uma espécie de consciência nacional, exilado na Bélgica, fez duras declarações tanto contra o regime no poder quanto contra as instituições internacionais.

Nações latino-americanas que passaram por ditaduras homicidas tomaram caminhos diversos. Na Argentina, leis que beneficiavam militares de patente inferior com a impunibilidade por crimes no exercício de função foram revogadas por determinação judicial em 2004, durante o governo de Néstor Kirchner; no Uruguai foi tomada a mesma decisão, em 2008, pelo do governo do presidente Tabaré Vázquez. O conceito de “obediência devida”, invocado para justificar as ações de militares, foi revogado, e em ambos os países, um grande debate ainda tem lugar em torno do tema. “Se o comando superior decide dissolver o Parlamento, uma ordem inconstitucional e ilegal, não deveria ser cumprida pelas Forças Armadas”, declarou o ministro da defesa do Uruguai, José Bayardi. Por outro lado, Brasil e Chile optaram por iniciativas mais brandas.

Temos que admitir que cada caso é um caso. Na Argentina, o Estado de excessão dissolveu-se após uma série de trapalhadas que culminaram com a humilhação nacional do país, a derrota nas Malvinas; no Uruguai, erros sucessivos de administração do governo militar e a oposição popular que daí decorreu levaram à uma transição em que os militares abandonaram o governo sem nenhuma condição prévia; no Brasil e no Chile, saídas negociadas com os regimes implicaram em acordos até hoje contestados. Cada caso é um caso, mas caracterizou esses regimes de excessão s a enorme quantidade de crimes de estado cometidos por seus agentes. Nunca houve nenhum movimento para internacional para responsabilizar esses governos, ou mesmo suas lideranças individuais. Pode-se alegar que foram lutas de facções políticas no contexto da Guerra Fria, e que os EUA e a URSS também deveriam ser responsabilizados por coisas como o Vietnam e o Afeganistão, onde muito mais gente morreu. A idéia da “banalidade do mal” aplica-se à todas as situações descritas acima, e nem todos os servidores dessas ditaduras eram um Sérgio Paranhos Fleury (que dispensa apresentações), um Alfredo Astiz ou um Manuel Contreras. Agentes como esses podem perfeitamente ser comparados aos nazistas, mas outros achavam, sinceramente, estar “apenas cumprindo ordens”. Para os nazistas, essa desculpa não valeu. Mas e para os outros? 

Voltaremos ao assunto, quando os oito ou nove leitores tiverem tido tempo para digerir essas questões::

Historinhas de Natal de causa::

E quem disse que o espírito de Natal não existe? Pois existe, e se manifesta das formas mais esdrúxulas, e afeta as até mesmo as instituições menos natalinas que possamos imaginar. Querem uma? Fazem 50 anos que o NORAD (acrônimo de North American Aerospace Defense Command, Comando de Defesa Aérea e Espacial da América do Norte), coloca seus radares para monitorar a chegada de Papai Noel… Absurdo? Pois curtam a comemoração de Natal aqui de causa::.

Em 1955, um anúncio publicado nos jornais dos EUA, pela loja de departamentos Sears (que existiu aqui no Brasil, até o início dos anos 1990), convidava as crianças norte-americanas a fazer telefonemas para Papai Noel – e divulgou um número para contato. Tudo bem – se o telefone não estivesse miseravelmente errado. Aliás, diria o redator (e creio que os oito leitores concordarão…) que foi o número de telefone mais errado da história do telefone. De fato, o anúncio designava um aparelho que deveria tocar numa seção da cadeia de lojas, na cidade de Colorado Springs. Só que alguém no Departamento de Propaganda da Sears cometeu um baita de um engano. O número publicado era, de fato, da área de Colorado Springs, mas não o da loja. O pessoal que, na manhã do dia 24 de dezembro, foi encarregado de se fazer passar por “ajudantes de Papai Noel” e responder às chamadas das milhares de crianças, ficou à-toa.

Quem se viu no meio de uma tremenda roubada foi o Chefe de Operações do Comando Continetal de Defesa Aérea da Força Aérea (CONAD, Continental Air Defense Command, como era designada, então, a coordenação de defesa anti-aérea dos EUA), coronel Harry W. Shoup, cujo telefone ficava na base de Cheyenne Mountain, nas proximidades da cidade. O chefe do CONAD  não achou nada engraçado quando atendeu o primeiro telefonema. Uma vozinha infantil pedia, de presente, um foguete de brinquedo… Devia ser um trote. É provável que o militar tenha sentido vontade de mandar o interlocutor enfiar o foguete… Bem, vocês podem imaginar onde, em Papai Noel. Seja como for, conseguiu se controlar e desligou o  aparelho. Após vários telefonemas do mesmo teor, Shoup percebeu o que estava acontecendo e ordenou a cada membro desocupado de sua equipe que passasse a dar as coordenadas da “posição de Papai Noel” para toda criança que telefonasse para aquele número. A imprensa soube do acontecido, que recebeu ampla cobertura e foi considerado “show de bola” de relações públicas da Força Aérea. Na época do Natal, desde então, telefones são disponibilizados no centro de controle de Cheyenne Mountain e na base área de Peterson, no dia 24 de dezembro. Milhões de crianças fazem milhões de telefonemas, atendidos por centenas de militares voluntários. Nenhuma criança fica sem resposta, e a conversa com os “elfos” dura, em média, 30 segundos.

Em 1997, o NORAD passou a alimentar um sítio na Grande Rede, para alívio dos voluntários militares que passam, em média, duas horas conversando com as crianças. Entretanto, NORAD ainda mantém um Centro de Operações de Rastreamento de Papai Noel (TSOC – Tracks Santa Operations Center ) com linhas de telefone que entram em operação às 4:00 da manhã (hora local) em 24 de dezembro. causa::, prestando (para variar…) um serviço à paz mundial, coloca à disposição de seus leitores o número do telefone vermelho (ou será branco?..): 1-877-HI-NORAD (1-877-446-6723). Um membro da equipe do TSOC tentará explicar a exata localização de Papai Noel no espaço aéreo norte-americano, na hora do telefonema. Se o chegado de causa:: preferir um meio menos dispendioso (uma chamada de 1 minuto para Colorado Springs ficará em uns sete reais…), poderá, em 24 de dezembro, enviar um email (em inglês) para NORAD, e receberá de volta a última posição conhecida de Papai Noel.

O redator ficou imaginado se o momento ideal para um ataque nuclear contra o território norte-americano não seria a véspera de Natal…::

Acho que todos os leitores perceberam que o objetivo dessa historinha é dar ao redator a oportunidade de desejar a todos exatamente o contrário, e bem o contrário, do que costumamos a discutir e nos deleitar aqui no blogue – ou seja: fiquemos todos em paz, e que a paz seja, sempre, nossa maior e definitiva causa::

Direto da Guerra Fria::SSN classe Akula

Ainda estamos no mês dos submarinos brasileiros – e a polêmica não diminuiu em nada, pelo contrário, aumentou, com a colocação política da França como pole-position para fornecer aeronaves de 5a geração apra a FAB. Mas Segunda-feira é dia de “rapaz”, mas o redator encontrou algo que, no momento, parece mais interessante: uma relíquia da Guerra Fria, mas que talvez possa enriquecer um pouco mais a “cultura submarinística” dos agora seis leitores  (contadinhos…) de causa:: Senhores, conheçam o mais espetacular submarino de ataque jamais construído: a classe “Schucka” (“pique”, uma longa lança usada no fim da Idade Média por tropas a pé, que revolucionou a arte da guerra), nome-código para a OTAN, “Akula” (“Tubarão”, em russo). Não se deve confundir essas  naves com a classe “Tufão”, essa composta por submarinos de patrulha:: 

Os “Akula” surgiram em 1986. A classe é dividida em três subtipos (dados gerais para os “Akula II” aqui), e não são submarinos de patrulha, ou seja, plataformas de lançamento de mísseis balísticos (SSBN, no jargão na Marinha dos EUA), mas *submarinos de ataque (SSN, no jargão na Marinha dos EUA). Sua função principal seria caçar submarinos de patrulha dos EUA; secundariamente, teriam por função atacar vasos de guerra de alta velocidade. Somente em condições especiais seriam lançados contra a navegação mercante. Deslocando mais de 7500 toneladas na superfície e 9100 quando em mergulho, a classe incorporou um sistema de casco duplo composto por um casco interno de pressão e um casco externo mais leve. Esse sistema, o mesmo adotado pelos SSBN da classe “Tufão”, tornou possível aos projetistas desenhar o casco exterior (o casco de imersão) como uma carenagem, de maneira a torna-lo mais hidrodinâmico, o que resultou numa nave muito veloz e extremamente manobrável, quando submersa. Já foram reportados submarinos dessa classe deslocando-se a cerca de 36 nós sob a água.

Submarino nuclear de ataque classe "Akula II", fotografado nas proximidades das Ilhas Sakhalina. O desempenho, em termos de manobrabilidade e velocidade, dessa classe de naves, é superior sob a água do que na superfície.

Submarino nuclear de ataque classe "Akula II", fotografado nas proximidades das Ilhas Sakhalina. O desempenho, em termos de manobrabilidade e velocidade, dessa classe de naves, é superior sob a água do que na superfície.

O principal armamento dessa classe de naves são 4 tubos de 533 mm e 4 de 650 mm. O inventário de vetores  varia de torpedos Tipo 53, de 533 mm, torpedos *Tipo 65, de 650 mm, mísseis superfície-superfície Novator RPK2 Viyugo (SS-N-15 “Starfish”, no jargão da OTAN, com alcance de aproximadamente 45 quilômetros) e Novator *RPK-6 Vodopei (SS-N-16 “Stallion”), ambos mísseis de cruzeiro anti-navio com capacidade de transportar ogivas de explosivo nuclear. Os torpedos anti-navio e anti-submarino, com alcance de até 100 quilômetros, são disparado pelos tubos de 650 mm. Já os de 533 mm são de menor alcance. Mísseis superfície-ar podem ser disparados através dos tubos de 533mm.

As classes “Akula Reforçado” e “Akula II” receberam mais 6 tubos de  533 mm montados no casco externo, que não podiam ser recarregados depois de usados. A baixa disponibilidade dos torpedos Tipo 65 fez com que os soviéticos acrescentassem aos tubos de 650 mm um equipamento que capacitava essas plataformas a utilizar armamento fabricado para os tubos menores. Os tubos de 650 mm também podiam ser usados para lançar minas.

Um dos aspectos distintivos dos “Akula” é o enorme bulbo situado à ré do casco, na posição do leme. Essa estrutura contém um sonar que, lançado a reboque, pode aumentar o grau de varredura e fazer diminuir a interferência dos ruídos de deslocamento do próprio barco, quando em alta velocidade.

Outra vista de um "Akula II" na superfície. Note a estrutura do sonar rebocado, tipo de "abertura sintética".

Outra vista de um "Akula II" na superfície. Note a estrutura do sonar rebocado, tipo de "abertura sintética".

O subtipo “Akula Reforçado” era, de fato, uma melhoria dos “Akula I”, que recebeu sistemas eletrônicos mais modernos, notadamente um sonar de abertura sintética. Mas o subtipo “Akula II”, surgido no início dos anos 1990 era, de fato, uma nova classe, cuja principal novidade era um sistema de diminuição de ruídos. Um novo tipo de sonar foi incorporado, totalmente gerenciado por processadores, e considerado como tendo a mesma performance dos equivalentes norte-americanos. Um outro ponto que, na época, deixou muito apreensivos os planejadores navais do Ocidente foi o fato de que os “Akula II”, submersos, eram mais silenciosos do que seus equivalentes norte-americanos da classe “Los Angeles”. Embora uma série de teorias conspiratórias atribuam os avanços soviéticos à uma suposta colaboração involuntária dos japoneses, ao vender à URSS, no início dos anos 1990, sistemas de desenho computadorizado (CAD) de última geração, de fato a Marinha da URSS vinha se desenvolvendo de modo notável desde os anos 1960. Foi a época em que o almirante-de-esquadra SergeyGorshkov revelou-se um dos maiores pensadores navais surgidos no pós-guerra.  Alçado ao comando da força por Nikita Khrushchev, logrou, a paratir de então, convencer as lideranças soviéticos a fazer pesados investimentos em todos os tipos de equipamento e infra-estrutura. Essa política de longo alcance tornou a URSS, no fim dos anos 1960, uma potência naval global. Assim, os avanços soviéticos na técnica de abafamento de sons subaquáticos explica-se no contexto do desenvolvimento geral da tecnologia naval naquele país.

Depois do fim da União Soviética e da crise econômica que se seguiu, um acordo entre EUA e Rússia implicou na desativação dos submarinos de patrulha da classe *“Tufão”. Os “Akula I” também foram desativados, mas os “Akula Reforçados” e “Akula II” não só continuaram em serviço como foram melhorados.

Em 2008, naves da classe “Akula” se tornaram os únicos submarinos nucleares já exportados. A ìndia arrendou um “Akula II” por período de 10 anos, com opção, ao término, para compra de duas unidades. Informes divulgados no Ocidente dão conta de que o submarino deverá ser entregue no final deste ano. Os indianos estão desenvolvendo o próprio submarino nuclear, mas o projeto tem sofrido sucesivos atrasos, de modo que o arrendamento foi considerado uma solução aceitável. A China também estuda a aquisição de duas unidades::

Recordar é viver::Anos 70:Deténte, SALT e outros quetais::

Parte 2/2:: Não parece fazer sentido, mas fazia, na conjuntura da época. Significava admitir, por via transversa, a afirmação feita, muitos anos antes, por Winston Churchill, de que “uma nação não tem amigos, tem interesses”, e que a busca desses acaba por criar tensão. Pragmaticamente, as nações poderiam viver em tensão permanente, desde que fossem criados e aperfeiçoados mecanismos para que esse estado de coisas fosse mantido sob controle.

Para definir essa visão política, a tal pessoa de 1968 poderia usar uma expressão criada algum tempo depois pela diplomacia brasileira: “pragmatismo responsável”. A comparação faz todo o sentido. O projeto brasileiro, na época, de “potência emergente”, recusava mecanismos que implicassem na aceitação a priori das estruturas do

poder em nível internacional – embora visasse sua reprodução, tanto quanto possível, no interior do país. Defendia a diplomacia brasileira que o Brasil tivesse reconhecidos seus interesses. Nesse sentido, uma das linhas prioritárias da política exterior foi a “correção de rumos” nas relações com os EUA, visando a colocá-las em bases vistas como “mais realistas”. Os conflitos que fatalmente surgiriam deveriam ser encarados como decorrência do relacionamento entre estados soberanos na defesa de seus interesses nacionais. De fato, esse “pragmatismo” era o mesmo que os arquitetos do sistema de poder internacional admitiam como inerente às relações entre as grandes potências. A política internacional não deveria ser excessivamente pragmática a ponto de deixar-se dirigir pelo cinismo, mas também não deveria ser ditada pelo moralismo, sob pena de tornar-se ineficaz ou mesmo temerária. Por outro lado, reações como a do Brasil, na época sob regime autoritário de extrema direita, freqüentemente aplaudido pelos EUA, indicavam as tensões que poderiam resultar dessa linha pragmática de relações internacionais.

Havia, claro, motivos que podem ser considerados, mais do que pragmáticos, práticos, para que fosse adotada uma política de busca da estabilização. No início dos anos 1970, o panorama econômico já não era tão favorável, para os EUA. O longo ciclo de prosperidade apontava o próprio fim. O horizonte internacional não é feito apenas de silhuetas de tanques, aeronaves e mísseis balísticos. É feito também de fábricas, minas, entrepostos de comércio e casas bancárias. A fase excepcional pós 2ª GM, a “Era do Ouro” da visão anglo-americana começava a perder o brilho. Os 25 anos anteriores a 1970 tinham sido estupendos, até mesmo para a URSS e seus parceiros.

O surto de crescimento econômico parecia mundial – embora não fosse. Durante algum tempo, pareceu até mesmo que, economicamente, os regimes socialistas estariam levando vantagem. Nos anos 1950, a URSS e a Europa Oriental cresciam mais rapidamente do que o Ocidente. Até mesmo o Terceiro Mundo colheu rebarbas desse surto: nos 20 anos entre 1950 e 1970, a fome continuou endêmica na África e em certas partes da Ásia, mas diminuiu; a população do Terceiro Mundo dobrou, e na América Latina, mais do que isso; a expectativa de vida aumentou, em média, 7 anos – em certas regiões, 10 anos ou mais. Entretanto, a “Era do Ouro” foi, sobretudo, enganosa, até mesmo para os observadores mais argutos. Aquela pessoa de que falo, se pertencesse à emergente classe média brasileira, teria chances que seus pais jamais teriam sonhado: acesso amplo è educação, um sistema de saúde pública relativamente estruturado, pleno emprego e subsídios à mancheias. Cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro eram, de certa forma, miniaturas em crescimento da economia mundial. Essa pessoa certamente não saberia que os EUA estavam crescendo menos do que seus parceiros europeus e japoneses, e que URSS e seus clientes industrializavam-se rapidamente sem que a industrialização significasse melhorias visíveis de padrão de vida. No mundo socialista, cidadãos bem formados e saudáveis olhavam com inveja para a liberdade e afluência de suas contrapartes ocidentais. Já no Ocidente, os cidadãos dirigiam-se para suas residências subsidiadas, cheias de bens de consumo financiados, em automóveis movidos a combustível excepcionalmente barato. Ouviam rock no rádio e, em casa, se revoltavam diante das notícias sobre as ditaduras latino-americanas e asiáticas, fossem de direita ou de esquerda. Entretanto, nenhum deles duvidava que, dentro de dez anos, a vida seria a mesma. E que, dentro de dez anos, ainda estariam debaixo do guarda-chuva nuclear norte-americano, desfrutando da vantagem adicional de orçamentos de defesa ridiculamente reduzidos em relação ao tamanho que tinham alcançado as economias de seus países.

O fato é que, durante a Guerra Fria, as superpotências assumiram o ônus da defesa de suas esferas de influência. Em ambos os lados, a expansão do chamado “complexo industrial-militar” foi exponencial, mesmo diante do notável crescimento econômico geral. Ainda que os estados ocidentais tenham desviado mais recursos para o buraco estéril dos gastos militares, não o fizeram na proporção de EUA e URSS. No longo prazo, essa opção, decorrência da opção pela estabilidade, seria fatal para a URSS e teria conseqüências notáveis para os EUA: estes trocaram força militar superior por enfraquecimento econômico crescente, frente aos aliados que se viam na obrigação de defender.

Mas não foram esses os motivos que levaram os líderes mundiais a uma improvável mesa de negociações, no início dos anos 1970. De um lado, o dos EUA, foi a condução do problema de como continuar a Guerra Fria quando esta “guerra sem barulho” deixasse, na frente interna, de ser popular – e ela era popular exatamente porque não tinha barulho, nem mortos. Passou a ter no final da década, em função de um conflito localizado, do tipo que deveria ser mantido “empacotado” pela busca da estabilidade. Em 1968, esse brasileiro da classe média que estou imaginando saberia exatamente de que guerra se tratava: o Vietnam.  

No lado soviético, foi o problema de como lidar com o fato de que o bloco comunista, desde meados da década de 1960, já não apresentava a unidade que a “justeza da causa proletária no mundo” deveria solidificar. Ao contrário, as duas potências do bloco socialista tinham deixado de se entender muito antes, em função de diferenças ideológicas e da recusa chinesa em alinhar-se aos interesses soviéticos. Comunistas russos e comunistas chineses andaram, em 1969, se estranhando, ao longo da enorme fronteira entre os dois países. Dois exércitos “vermelhos” foram postos frente a frente, o que até então parecia inimaginável. Mais inimaginável ainda foi o perigo de que a briga por uma ilhota fluvial insignificante degenerasse e um confronto nuclear. Certamente a China não era páreo para a URSS, apesar de dispor de certa quantidade de armas estratégicas. Em 1968, em torno de 300 dos 2000 ICBMs disponíveis pela URSS tinham sido programados para voar em direção à China, e um exército soviético de quase um milhão de efetivos, dispondo de capacidade nuclear tática estava posicionado nas fronteiras sino-soviéticas. Segundo análises da época, o Exército da República Popular da China era mal-treinado, mal-equipado e pior comandado; não dispunha de artilharia e blindados suficientes nem de apoio aéreo, e sua logística era baseada em animais de tração, e, por mais incrível que possa parecer, em braços humanos.

É provável que fosse verdade, e talvez a realidade fosse até pior. Anos antes, o próprio Mao Tsé-tung, o “presidente Mao”, “Grande Timoneiro” da revolução socialista, tinha deslanchado a “grande revolução cultural proletária”, golpe político destinado a compensar a perda de poder observada em função do fracasso do “grande salto para a frente” (eufemismo para a coletivização da agricultura) de 1958-1961. A Revolução Cultural revelou-se uma maluquice tenebrosa, e desorganizou a sociedade chinesa e suas instituições, inclusive o exército. Em 1951, as disciplinadas forças chineses, armadas e treinadas pelos soviéticos desequilibraram a guerra da Coréia, obrigando o Exército e o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA a uma humilhante retirada que quase degenerou em confronto nuclear; em 1968, jovens soldados agitando um livrinho vermelho e disparando para cima suas armas, o “Exército do Povo”, não admitiam a supremacia dos oficiais e impunham “decisões democráticas”. A hierarquia militar, “desvio burguês inaceitável”, foi quase abolida, e os comandantes até o nível de regimento eram escolhidos pela tropa; as grandes unidades e corpos de exército continuavam tendo seus comandantes designados, o que na prática não significava nada, visto que as decisões eram tomadas em “conselhos populares”.

O problema soviético não era, pois, a China, mas o partido que os adversários norte-americanos tomariam, no caso de um confronto entre as duas potências comunistas. Os EUA seriam um aliado desejável, embora a situação da “frente interna” também não era nada fácil. Estavam atolados até o pescoço em uma guerra que deveria ter sido resolvida “em alguns meses, no máximo em um ano”, segundo o general comandante – e, em 1969, isso já fazia mais de 4 anos. Todos os dias a televisão colocava dentro dos lares americanos um vasto cardápio de revolta e contestação, das universidades ao guetos urbanos, dos festivais de rock às Olimpíadas. A juventude ocidental, inclusive – por incrível que pareça, até mesmo a norte-americana – mostrava-se seduzida por líderes como Mao Tsé-tung e Ernesto “Che” Guevara.

Se o problema da URSS não era a China, mas a perspectiva de problemas com os EUA, o da China era estar cercada por dois inimigos poderosos e agressivos – a URSS e a Índia – e um imprevisível – o Japão (nos quais os chineses nunca confiaram).

E, naquela altura, China e EUA tinham alguns pontos em comum. O primeiro deles era a preocupação com a União Soviética, aos olhos de ambos cada vez mais ameaçadora. Em 1968, a rápida mobilização e deslocamento de tropas motorizadas e aerotransportadas contra a Tchecoslováquia lançara uma sombra de preocupação sobre a Europa Ocidental. A invasão fora o primeiro movimento da “doutrina de Brejnev: os países socialistas da Europa (leia-se URSS) teriam direito de intervir em qualquer país que se julgasse no direito de romper o compromisso “democrático” e “político” com o marxismo-leninismo. Em 1967, a União Soviética tinha alcançado a paridade com os EUA, em termos de armas estratégicas. Embora os EUA ainda tivessem alguma vantagem em ogivas múltiplas e mísseis lançados se submarinos, os soviéticos dispunham de mais mísseis, com ogivas de maior poder destrutivo (por exemplo, ogivas termonucleares de 40 megatons, enquanto as dos EUA eram, na maioria, de 2 a 5 megatons).

O Vietnam era outro interesse comum. Aos governantes e ao establishmenth militar norte-americanos aquela se tornaram uma guerra infeliz, na qual aproximadamente 800.000 militares das três corporações lutavam contra fantasmas, ao custo de 40 bilhões de dólares e 12.000 mortos somente em 1968. Nixon queria sair dela, mas não de maneira humilhante. Para os chineses, a “guerra de libertação” do Vietnam e das guerrilhas comunistas já não parecia um ganho político, diante da ameaça soviética. Além do mais, os Guardas Vermelhos tinham, apenas uns dois anos antes, desorganizado o país e obrigado Mao a intervir para deter o caos que se espalhava pelo país.

Assim, EUA e China tinham pontos que os aproximavam, e restaurar a ordem interna era o primeiro deles. Sair do Vietnam, para os norte-americanos significa apaziguar a frente interna; para a China, garantir uma posição favorável diante da URSS.

O caminho estava aberto. Em 1971, Henry Kissinger realizou uma visita secreta a Pequim, na qual ouviu de Chu En-lai que a China faria o que fosse possível para ter Nixon numa visita ao país.

E teria. Cerca de um ano depois. E o mundo não seria mais o mesmo…::

O mês da Coréia::Um análise estratégica ampliada::

Parte 3 Então, já sabemos que a República Democrática do Povo da Coréia é uma potência militar média e tem uma quantidade enorme de artilharia de todos os tipos. Entretanto, é curioso como a imprensa trata a República da Coréia como uma pobre Guatemala indefesa diante de Hugo Chavez… Não é exatamente o caso. De fato, temos relativamente pouca informação sobre a Coréia do Sul, tirante, é claro, os carros Hyundai, televisões LG e monitores Samsung, mas isso, convenhamos, é pouco. 

Do fim da Guerra da Coréia até os anos 1990, a República da Coréia evoluiu, de um país totalmente dependente, para a própria defesa, de acordos bilaterais, para uma situação de desenvolvimento auto-sustentado e considerável capacidade militar. Ao contrário da República Democrática do Povo da Coréia, as indústrias civis sul-coreanas mantêm linhas de produtos militares como partes separadas e menos importantes de suas atividades corporativas, mas suficientes para manter suas forças armadas totalmente atualizadas com equipamento local de altíssima qualidade.

A independência econômica e militar da República da Coréia remonta à participação na Guerra do Vietnam. Em 1965, o ditador sul-coreano, general Park Chung-hee, decidiu aceitar o pedido de Washington por tropas para o teatro do SE Asiático. Inicialmente, foram despachadas unidades de combate de pequenas proporções, num total de 5.000 efetivos, em caráter experimental. Em fevereiro de 1966, os norte-americanos se comprometeram, através de um termo de compromisso denominado “Memorando Brown” (em função do embaixador dos EUA em Seul, Winthrop G. Brown), a financiar a modernização do exército da República da Coréia, em troca de um maior envolvimento dessa última na guerra indochinesa. O documento, de 14 pontos, não era muito claro em determinar as obrigações norte-americanas, mas especificava uma força sul-coreana que deveria alcançar, em três anos, aproximadamente 300.000 efetivos. Como resultado, os EUA cederam armamentos pesados e rifles M-16 para as tropas sul-coreanas, que funcionaram como cobertura de retaguarda para o exército dos EUA. Nesse meio tempo, começaram uma série de provocações norte-coreanas, culminando com uma tentativa de  tomar o palácio presidencial, em 21 de janeiro de 1968, e o ataque e aprisionamento do navio-espião Pueblo, da Marinha dos EUA. Uma série de incidentes ao longo da ZDC envolvendo tropas dos EUA em mais de uma oportunidade, atravessou todo o ano de 1969. Em abril, uma aeronave de contramedidas eletrônicas EC-121 acabou sendo derrubada sobre o Mar do Japão. Esse período passou a ser conhecido como “Segunda Guerra da Coréia”. O envolvimento sul-coreano no Vietnam, entretanto, tornou-se uma realidade, e em 1972, quando as unidades começaram a ser retiradas, estavam em operação por volta de 200.000 sul-coreanos. Mais de 5.000 deles morreram em combate.

Temendo o surgimento, na Coréia, de um novo Vietnam, o governo dos EUA resolveu atender os apelos dos parceiros sul-coreanos por maior articulação em termos da segurança local. Foi acordada maior colaboração militar com a República da Coréia, assim como assistência para implementar a economia local. Ainda assim, o ditador sul-coreano, antevendo uma possível futura crise, decidiu adotar uma postura mais ativa em relação à defesa nacional. O surgimento da “Doutrina Nixon”, na qual o governo dos EUA, atolado numa crise econômica, postulava que as nações aliadas assumissem maior participação na própria defesa, foi outro momento decisivo: em 1971 a retirada da península, de uma divisão do exército dos EUA pareceu confirmar a importância da estratégia nacional de Park.

Ainda assim, em setembro de 1971 o governo dos EUA assinou um plano no valor de 1,5 bilhões e dólares, destinado a prover, num período de cinco anos, a reestruturação e modernização das forças de defesa da República da Coréia. Esse plano foi visto como decorrência da diminuição radical do aparato militar norte-americano na região. Foi a primeira grande mudança nas forças armadas sul-coreanas desde a Guerra da Coréia.

A situação sul-coreana, na época, era no mínimo curiosa. Park Chung-hee, um general do exército que havia sido oficial do Exército Imperial Japonês e depois da guerra, militante do Partido dos Trabalhadores da Coréia (chegando a ser condenado à prisão perpétua, por traição, em 1949), tomou o poder em 1961, depois de um curto período de agitação política que se seguiu à tentativa de Singman Rhee em assumir um quarto mandato presidencial resultante de uma eleição claramente fraudada. Exilado Rhee, uma junta militar sob comando de Park assumiu e rapidamente fixou-se no poder, conquistando apoio da classe dirigente e da classe média através de um programa de “moralização da vida nacional”, que removeu da vida pública todos os funcionários civis e militares considerados corruptos. Um “Supremo Conselho para a Reconstrução Nacional, com 32 membros, era o principal órgão dirigente do país. O principal projeto da junta era a construção de uma economia próspera baseada em uma “grande revolução humana”. Uma das primeiras providências foi o fechamento da Assembléia Nacional e a substituição de funcionários civis por militares.

Tendo assumido o poder, Park começou uma série de manobras para manter-se no comando do governo, sob normas de exceção e uma aparência de democracia. Um de seus primeiros atos de governo, em junho de 1961, foi a criação de uma “Agência Central de Informações da Coréia” (KCIA, em inglês), com função de polícia política. A Agência estendeu, em 1962, seus poderes aos campos da economia e das relações internacionais, por inspiração do coronel Kim Chong-p’il. Parente da esposa de Park, o coronel revelou-se um planejador original e criativo conspirador político: acabou sendo um dos principais atores do golpe que, em 1979, acabou custando a vida do ditador.

Os planos da junta militar não deram resultados imediatos, o que começou a desgastar a imagem da junta militar. Para piorar, a KCIA envolveu-se em vários escândalos financeiros e políticos. Os militares respondiam prometendo preparar o retorno à normalidade civil – desde que os políticos ligados ao sistema anterior não participassem do processo. Em março de 1963, Park anunciou um referendo popular para decidir se a junta deveria permanecer no poder por mais quatro anos. A intensa oposição interna era esperada, mas a antipatia dos EUA foi um fator com que Park não contava. O referendo foi cancelado.

 Ao contrário de Rhee, que tentava fazer da Coréia do Sul uma potência regional, com o apoio dos EUA, em detrimento do Japão e da China Comunista, o general tentou adotar uma política pragmática: normalizou as relações com o Japão em 1965 e regularizou, no mesmo ano, a situação das forças norte-americanas na península como “convidadas”.

Park usou a aparente estabilidade e a posição estratégica da Coréia como moeda de troca para trazer investimentos externos para seu país. Interessados em estabelecer medidas de contenção para a expansão comunista na Ásia, os EUA autorizaram o Japão a fazer grandes investimentos na península, enquanto garantiam a segurança da área, investindo no desenvolvimento das forças armadas locais.  O governo de Park, entretanto, proibiu a presença de empresas japonesas em território nacional, estabelecendo a política dos chaebol, conglomerados industriais privados que recebiam empréstimos subsidiados do governo, desde que seguissem as regras econômicas e políticas vigentes. Algumas desses conglomerados tornaram-se empresas gigantes, atuando em toda a cadeia produtiva.

Uma reforma agrária foi promovida e, ao mesmo tempo, a classe média rural era incentivada a estabelecer residência em centros urbanos. Uma mão-de-obra qualificada, formada através de programas de educação universal e valorização da competência e o fluxo de investimentos japoneses, coordenado pelo governo, acabaram criando, na segunda metade dos anos 1970, um parque industrial impressionante, voltado para a exportação de produtos semi-acabados para o Japão e os EUA. Ao mesmo tempo, o governo militar incentivava a expansão de universidades locais e de programas de pós-graduação no exterior. O resultado foi a sofisticação da indústria local, que se tornou produtora de tecnologia de ponta. Nos anos 1980 e 1990, a Coréia do Sul tornou-se um dos maiores economias exportadoras do mundo.

Esse surto explosivo de desenvolvimento econômico e a urbanização acelerada acabaram criando tensões políticas, com forte influência de pequenos movimentos estudantis e sindicais extremamente combativos tentando conquistar espaço à força de reivindicações de democratização, que eram postergadas pelo governo sob a justificativa do “perigo interno e externo”. Em 1971, Park tentou uma grande jogada política: interessado em permanecer no poder, declarou “estado de emergência nacional”, em função de manifestações de estudantes e trabalhadores nas grandes cidades. Em julho do ano seguinte, em meio à crise política, anunciou, num espantoso comunicado conjunto com Kim Il-sung, ditador stalinista da Coréia do Norte, planos para a unificação da península. Foi um magnífico tiro no pé. Manifestações de todas as colorações explodiram por todo o país. O projeto foi abandonado rapidamente, em função da oposição dos EUA, e ao fato de que, aparentemente, Kim Il-sung não conseguiu apoio da URSS e da China para levar a proposta adiante.     

Em 19 de abril de 1973, o general Park, enquanto acompanhava exercícios militares, divulgou o propósito de estabelecer uma estratégia militar independente e desenvolver as forças militares. Os projetos decorrentes dessa diretiva, desenvolvidos pela Junta de Chefes de Estado Maior resultaram em Diretrizes para um Programa de Modernização do Equipamento Militar para cada umas das corporações militares, integrados e, um Plano de Defesa Nacional de Oito Anos (1974-1981), aprovado pelo chefe do governo em fevereiro de 1974.

Nessa época, a situação política do país tornava-se cada vez mais tensa. A situação econômica da Coréia do Sul era delicada, em função da crise mundial do petróleo, que tinha feito retrair os investimentos japoneses no país. A instabilidade criou brechas no sistema de governo, sem que os atores envolvidos chegassem a um consenso sobre o que fazer. Park governava através de sucessivas decretações de estados de emergência, mas a oposição não dava sinais de esmorecer. Em 1979, como a situação econômica só fizesse piorar, conselheiros próximos de Park Chung-hee o instavam a ceder a algumas das reivindicações do movimento de oposição estudantil e reduzir a repressão. A discordância entre as principais figuras do governo acabou resultando, por incrível que pareça em um tiroteio, acontecido durante uma reunião de cúpula no refeitório da sede da KCIA, em 26 de outubro de 1979. Nesse incidente, Park e o diretor da agência de informações perderam a vida. O desaparecimento do ditador e de parte de seu staff abriu um vácuo de poder, e o período posterior foi de competição entre setores dominantes, em meio a levantes estudantis, indisciplina militar e intranqüilidade social. Alguns anos se passariam até que a situação viesse a se estabilizar::

O mês da Coréia::Uma análise estratégica ampliada::

Parte 2 O grosso das forças terrestres da Coréia do Norte está posicionado na região imediatamente adjacente à ZDC, em posição de ameaçar o Comando das Forças Combinadas e a cidade de Seul. Especialistas ocidentais estimam que setenta por cento do efetivo total (700.000 soldados, 2.000 tanques e 8.000 sistemas de artilharia de todos os tipos) encontre-se à distância máxima de 150 quilômetros da linha de demarcação. Mesmo durante as conversações entre os dois países, o número de tropas não parou de crescer. Informes de inteligência dão conta de 4.000 instalações subterrâneas: depósitos, centros de comando e comunicação, alojamentos, hospitais e facilidades de manutenção; no país inteiro calcula-se que sejam mais de onze mil. Essas instalações, totalmente aprovisionadas, permitem um ataque quase de uma hora para outra.

Entretanto, a maioria do inventário à disposição de forças armadas norte-coreanas remonta aos meados dos anos 1950, quando o Exército Popular foi reconstruído. Por outro lado, a força terrestre não tem experiência de combate e não realiza manobras conjuntas nem mesmo com seu principal aliado, a China Comunista. Boa parte do equipamento, em alguns aspectos, se assemelha ao set de um filme de guerra antigo (talvez sobre a Guerra da Coréia…). O Exército Popular, em julho de 1953, era estimado em 263.000 efetivos. Informes de inteligência de 1968 davam conta de 350.000 ou mais, crescimento acompanhado por uma série de mudanças organizacionais. Foram formados cinco grupos de exército. Nessa época, observou-se forte aproximação com os soviéticos, o que resultou no surgimento de unidades de defesa anti-aérea dotadas de mísseis e canhões controlados por radar. Artilharia de campanha moderna começou a ser vista nos desfiles militares da data nacional. Tanques *T-54 e *JS-2/3 também foram reportados em maior número, além do surgimento de canhões autopropelidos *SU-76. Esse aumento no poder de fogo no EPRDPC foi atribuído ao envolvimento crescente dos EUA na região.

O Exército Popular foi reorganizado a partir dos anos 1980, de modo a adaptar-se, estratégica e taticamente, às novas circunstâncias políticas vividas na península e no mundo. Os anos 1970 observaram forte desenvolvimento econômico e tecnológico na Coréia do Sul, empurrado por investimentos maciços feitos principalmente pelo Japão; em termos tecnológicos, o país tornou-se vanguarda asiática, a partir de uma inteligente política de investimento em educação básica e formação de mão-de-obra de altíssima qualificação, combinados com um regime de dirigismo econômico suportado por uma ditadura militar pró-americana.  Nessa época, a Coréia do Sul começou a tornar-se um dos “Tigres Asiáticos”. Esses fatores possibilitaram a instalação de uma forte indústria local de alta tecnologia, e acabaram influenciando as forças armadas locais. Em meados dos anos 1980, a República da Coréia tornou-se capaz de suprir quase todas as suas necessidades de defesa com equipamento de ponta.

Esses fatores provavelmente explicam a enorme expansão das forças armadas norte-coreanas que, até o início dos anos 1970 montavam uns 400.000 efetivos. Do ponto de vista de comando e administração, a força terrestre foi completamente reorganizada. Com auxílio chinês e soviético, uma indústria local de armamento pesado foi organizada. O principal produto é uma versão simplificada do tanque soviético *T62. Os informes de inteligência mostravam também que os norte-coreanos faziam modificações notáveis no equipamento soviético e chinês, adaptando-os para as condições locais. A partir dos anos 1980, grande quantidade de veículos motorizados, artilharia auto-propulsada e transportes blindados de pessoal (APCs) começaram a aparecer. Em 1992 o país foi dividido em “corpos geográficos convencionais” e as grandes unidades blindadas e mecanizadas, compostas por brigadas de armas combinadas, foram posicionadas próximas de vias de deslocamento, de modo a possibilitar exploração e contra-ataques rápidos. Embora a força terrestre ainda continue sendo, em larga medida, uma força de infantaria, uma década de modernização e reorganização mostrou, no início dos anos 1990, seus efeitos: a mobilidade e o poder de fogo, bem como o treinamento e aprestamento do potencial humano são hoje considerados muito superiores aqueles observados durante a “Segunda Guerra da Coréia”, no final dos anos 1970.

Atualmente, a ordem de batalha identificada pela inteligência ocidental consiste em 153 divisões e brigadas, incluindo 60 divisões e brigadas de infantaria, 25 brigadas de infantaria mecanizada, 13 brigadas blindadas, 25 brigadas de operações especiais e 30 brigadas de artilharia. A Coréia do Norte  posiciona 10 corpos, com um efetivo de sessenta divisões e brigadas  numa área em formato de leque, ao sul da linha Pyongyang-Wonsan.

De 1996 em diante, as forças terrestres norte-coreanas são compostas por vinte comandos, que incluem  quarto corpos mecanizados e dois de artilharia, um Departamento de Instrução de Tanques, um comando de artilharia, e um Departamento de Instrução de Infantaria Ligeira, que controla as força de operações especiais. O equipamento inclui 3.800 tanques, dos quais 800 são do modelo indígena do T62. Aproximadamente 2.800 *BTRs (transportes blindados sobre lagartas, introduzido pelos soviéticos em 1973) estão à disposição das forças mecanizadas. A artilharia dispõe de cerca de 8.300 canhões calibres 76.2 mm, 100 mm, 122 mm, 130 mm, 152 mm e 170 mm, autopropelidos e auto-rebocados, complementados por  2.700 lançadores de foguetes de 107, 122, 132 e 240 mm. A artilharia anti-aérea alcança o número de 12.500 canhões, principalmente do tipo *ZSU23. A doutrina adotada é principalmente soviética, o que implica na utilização de movimentos massivos de tropas blindadas precedidos por grandes barragens de artilharia.

A indústria norte-coreana produz uma variedade de canhões auto-propulsados e rebocados (howitzers) embora, desde os anos 1980 a ênfase tenha sido colocada nos primeiros, inclusive com a montagem de tubos originalmente auto-rebocados em chassis sobre lagartas . A estratégia norte-coreana parece ser baseada no principio da ofensiva, refletindo provavelmente as experiências da Guerra da Coréia e o treinamento soviético. O poder de fogo superior e altamente concentrado permitiria uma maior possibilidade de defesa para as tropas terrestres em avanço.

Tudo isso pode parecer muito impressionante, à primeira vista. Entretanto, a Coréia do Norte não tem sido assim tão bem sucedida em seus esforços para se tornar uma potência militar de primeira linha. Manobras observadas por reconhecimento de satélite mostram que, apesar da modernização do armamento, este continua sendo baseado principalmente em tecnologia da época soviética. Os limitados avanços tecnológicos, que parecem ter dotado o exército de corpos de artilharia relativamente bem-equipados, provendo certa superioridade sobre os adversários do sul, não alcançaram outras áreas. Os anos 1990 parecem diminuir ainda mais as chances de que a Coréia do Norte alcance os padrões militares do Ocidente. O nível tecnológico da indústria local aponta para a crescente obsolescência do equipamento, principalmente a partir do momento em que a China não parece mais disposta a ceder tecnologia de ponta a um aliado que tem se mostrado bastante recalcitrante. Um exemplo dessa dificuldade está na área de defesa anti-aérea. Não há indicação de que sistemas móveis de mísseis ar-superfície (SAM) tenham sido introduzidos. Em paradas, *SA7 Strela 2 (Grail, para a OTAN, sistema “de ombro”, buscador de calor, distribuído a partir de 1970) e SA14/16 Strela 3 (Gremlin e Gimlet, aperfeiçoamentos do anterior, distribuídos a partir de 1974) têm sido vistos, o que sem dúvida aumenta a capacidade defensiva contra alvos próximos. Entretanto, os sistemas de defesa de ponto são ainda baseados principalmente em canhões, e as poucas baterias do obsoleto SA2 Guideline estão distribuídas em torno da capital.

A aviação também é totalmente obsoleta. Ao longo dos últimos anos, o país investiu a quase totalidade dos recursos materiais e humanos no aperfeiçoamento de vetores táticos e estratégicos para explosivo nuclear, com sucesso limitado. Não foram observados investimentos em outros ramos da indústria aeronáutica, o que tornou dramática, em relação ao Ocidente, a disparidade de meios aéreos, tanto em número quanto em tecnologia. Em 1992, a Força Aérea Popular da República Democrática da Coréia (FARDC) dispunha de aproximadamente 1,650 aeronaves de todos os tipos e 70.000 efetivos. Nessa época existiam três comandos de combate aéreo subordinados a um Comando Aéreo, sediado na cidade de Chunghwa; uma divisão aérea abrangia o nordeste do país e o Departamento de Aviação Civil, administrado pelo Conselho de Administração Civil, era considerado reserva de contingência da estrutura militar. Em meados dos anos 1980, uma forte reorganização, coincidindo com o recebimento de novas aeronaves e baterias de mísseis terra-ar, buscou integrar e reorganizar as divisões aéreas com o objetivo de descentralizar e dar maior autoridade e flexibilidade tática aos comandos regionais.

O equipamento, de origem soviética e chinesa, compreende tipos obsoletos, não-compatíveis com o moderno campo de batalha aéreo. Em números, o principal tipo é o MiG21 (Fishbed, para a OTAN, aeronave multifuncional ativa desde o final dos anos 1950), do qual existem cerca de 150 unidades, embora o estado de disponibilidade seja um incógnita. Nos anos 1980 a FARDC recebeu da então União Soviética um lote de caças-bombardeiros táticos MiG23P   e aeronaves de suporte aproximado MiG23ML (ambos derivados do MiG23S, Flogger A para a OTAN, caça multifuncional de geometria variável, surgido em 1969-70)  num total de umas 60 unidades. Da China vieram entre 40 e 150 Nanchang Q5 (Fantan para a OTAN, aperfeiçoamento chinês do MiG19) – o número correto nunca foi determinado exatamente. As principais aquisições foram, entretanto, 35 MiG29 e 35 MiG23, que foram estacionados nas proximidades de Pyongyang, em diversas pequenas bases aéreas.

Durante os anos 1980 também houve grande incremento no número de helicópteros disponíveis para a FARDC. Atualmente, calcula-se que existam aproximadamente 300, a maioria dos quais são Mi2 (Hoplite, na denominação da OTAN), Mi4 (Hound) e Mi8 (Hip), procedentes da URSS e da China. Em 1985, a FARDC conseguiu adquirir, por meio de empresas de fachada, 87 Hughes fabricados nos EUA, modelo Cayuse, que foram adaptados para ataque ao solo. Não se sabe o estado atual de disponibilidade dessas aeronaves, mas são as mais avançadas disponíveis na Coréia do Norte. Hoje em dia, a inteligência sul-coreana acredita que tenham sido disponibilizadas para as forças de infiltração norte-coreanas, pois a Coréia do Sul possui centenas desse modelo em seu inventário.

A Força Naval do Exército Popular da República Democrática do Povo da Coréia é a menos significativa dentre as três forças armadas é uma força naval costeira. Seus principais elementos são 3 fragatas, 10 contratorpedeiros, 23 submarinos costeiros e aproximadamente 100 barcos de patrulha, a maioria equipados com torpedos, e por volta de 340 barcos de apoio, inclusive submarinos-miniatura destinados a operar com as forças especiais do exército. O efetivo é calculado em algo em torno de 150.000 homens. Não existe infantaria naval nem aviação. A função da FNEP é, principalmente, a interdição das águas costeiras, num raio não maior do que 75 quilômetros a partir de suas bases. Os submarinos são a principal arma de ataque. Informes da Marinha dos EUA dão conta de 4 unidades da classe Whiskey, soviéticos, 22 da classe Romeo, chineses e talvez 5 de uma versão local da mesma classe. Esses submarinos são complementados por um número desconhecido de submarnos-minaturas, inclusive os da classe *Sang-O (“Tubarão”), de 277 toneladas, destinado a tarefas de infiltração de forças especiais no território da República da Coréia::