O estranho caso do aviãozinho iraniano::De como a vontade política é a chave para a aquisição de tecnologia::

Quando um país está preparado para “absorver tecnologia”? Essa idéia me ocorreu quando a partir do comentário do assíduo Renato Berlim1, em torno de observação do último post sobre a novela FX. Escreveu ele que “entre o F-5 iraniano e nossos F-5M creio que sou mais a versão brazuca. Os iranianos sào geniais para manter equipamento funcionando, mas não faço a menor idéia da eficiência dos projetos deles.” Boa observação, mas… O aviãozinho iraniano é um projeto novo, fruto de “engenharia reversa” feita no F5E, dos quais eles ainda devem ter talvez menos de uma centena de exemplares, remanescentes do tempo em que o Irã simpatizava com Israel – ou seja, põe tempo nisso. O que significa que Renato tem razão ao dizer que os iranianos são ótimos em manter equipamento de alta tecnologia funcionando. Mas o que é preciso para tanto? E o que é preciso para praticar “engenharia reversa”? Antes de mais nada, uma infra estrutura científica e tecnológica razoável – o que nós também temos. Mas também é preciso vontade política… Esta, bem… Resolvi, como sempre, e às custas de meu quase-inexistente tempo livre, pesquisar um pouco, e acabei levantando informações interessantes de como funciona a “vontade política”, e como são seus resultados. E, de quebra, acabei aprendendo muita coisa interessante sobre o F5 e sobre a Guerra Fria. A pergunta que eu não soube responder (e isto sempre acontece…) é se temos alguma lição a retirar daí. Espero que os dez assíduos se divirtam e tirem alguma conclusão::

Durante a primeira metade dos anos 1960, Reza Pahlevi, Xá do Irã desde os início dos anos 1950, mantinha estreito controle sobre o país. Pahlevi suprimiu a oposição organizada, matou ou baniu seus membros, eliminou a liberdade de imprensa e atribuiu poderes excepcionais à SAVAK, sua (para variar…) temida polícia secreta. O processo político era estritamente controlado, e tanto eleições quanto candidatos ao legislativo iraniano – o “Majlis” – eram supervisionados pelo governo. Naqueles tempos de Guerra Fria, nada disso era problema para o principal aliado do Xá, os EUA. A partir do fim da década, tendo como pano de fundo a “paz dos cemitérios” que reinava lá e com o beneplácito de sucessivos governos da superpotência, abriram-se anos de desenvolvimento econômico. Ao longo deste período, e sempre com apoio dos EUA, o regime iraniano fez grandes esforços para tornar-se potência regional.

Essa ambição não era novidade. No momento em que os britânicos, diante do esgotamento do império colonial e pressionados pelos EUA, começaram a deixar a região, o Xá deu trânsito, na segunda metade dos anos 1950, à suas intenções de substituir os antigos mandatários como fiadores da segurança da região do Golfo Pérsico. Desde o fim do regime nacionalista de Mohammed Mosaddeq (que tanta dor-de-cabeça deu ao Ocidente), os EUA viam no regime iraniano um aliado confiável. Essa confiança culminou, em 1972, com a decisão de Nixon de torná-los “parceiros preferenciais”, em função do crescente nacionalismo de países como o Iraque, da instabilidade dos regimes dos “estados do Golfo” e do pragmatismo do regime saudita. Somava-se a tudo isso o fato de que, dentre os regimes da região, o iraniano era o único a não antipatizar abertamente com Israel. Parte dessa aliança incluiu um plano do Xá em tornar o “Império Persa renovado” uma potência militar capaz de apoiar e implementar seus planos políticos para a região, assumindo papel de liderança na CENTO2. A partir de 1965, grandes compras de todos os tipos de armamento foram planejadas junto com os EUA, dentro de uma completa reestruturação das forças armadas. Até então essas eram organizadas em moldes britânicos: pouco mais que uma polícia colonial e, na prática, de baixissimo grau de aprestamento. No início dos anos 1970, um projeto de reestruturação da Imperial Força Aérea Iraniana foi elaborado com a assessoria direta dos EUA e base em produtos “de exportação” da indústria norte-americana. Naquela época, as considerações doutrinárias sobre a guerra em ambiência nuclear estavam levando à crescente especialização dos tipos de aeronaves postos em serviço3. Entre esses produtos “de exportação”estavam grandes números dos então novos Northrop F-5E “Tiger II”.

Este avião é um dos mais interessantes subprodutos da Guerra Fria. Seu desenvolvimento recua até 1954, quando a empresa Northrop foi consultada pelo governo dos EUA sobre a possibilidade de desenvolver uma aeronave capaz de atender às necessidades dos aliados menores, na Europa e Ásia. O objetivo era padronizar parcialmente o equipamento distribuído a esses países, sem sobrecarregar a indústria aeronáutica norte-americana. O estudo, entregue pela empresa após visitas a diversas forças aéreas, identificou a necessidade de uma aeronave “multifunção” de baixo custo e baixa complexidade, se materializou no projeto N-156F. Entretanto, um erro de avaliação da empresa levou a que o projeto fosse desenvolvido também para ser apresentado ao Exército dos EUA como aeronave de interdição. Em 1959, entretanto, o governo dos EUA, diante da disputa que de desenhou entre Exército e Força Aérea, vetou a utilização pela força terrestre de aeronaves de asa fixas, a não ser em funções altamente específicas. A Força Aérea, por sua vez, declarou não precisar de um caça tático com aquelas características. A aeronave acabou sendo desenvolvida em duas direções: o treinador avançado T-38 Talon (1961) e um projeto desenvolvido pela empresa como “iniciativa privada”: o programa “F5”. Em 1962, o Departamento de Defesa dos EUA escolheu o F5 para ser entregue a aliados estrangeiros periféricos, notadamente países sem indústria aeronáutica e com forças aéreas de porte pequeno/médio, através dos programas “de Assistência Militar” (MAP, em inglês Military Assistance Program) e “de Vendas Militares para o Estrangeiro” (FMS, em inglês, Foreign Military Sales Program). A aeronave resultante foi apresentada ao aliados secundários no âmbito da OTAN e da SEATO (Ásia), como moderna, versátil e de baixo custo: o F-5A Freedom Fighter (“Lutador da Liberdade”, trocadilho intraduzível com o sentido técnico de “caça” atribuído à palavra, em inglês).

O problema é que o F-5A tinha capacidade de combate ar-ar muito limitada e sequer chegou a ser concebido para receber um radar de controle de fogo – tratava-se, de fato, de um “caça-tático” (aeronave ligeira com funções de ataque ao solo). A versão “B”, biplace, foi apresentada como primariamente de treinamento, mas capaz de receber, no segundo posto, equipamento para missões mais sofisticadas de ataque. Em função do pequeno interesse internacional despertado pela aeronave, já que estavam disponíveis, no mercado, modelos mais poderosos e pouco mais caros (como o inglês Hawker “Hunter” e o francês Dassault “Super Mystére”), em 1965 a USAF decidiu aperfeiçoar uma doutrina para a aeronave, e enviou uma pequena quantidade de F-5A arrendados da fábrica para o Vietnã do Sul.

O programa foi chamado de “Operação  Skoshi Tiger” (a palavra japonesa Skosh significa “espaço restrito” ou “tempo restrito”). Os pilotos, que ficaram fascinados com a manobrabilidade do F-5 e sua capacidade de carregar armamento convencional, rapidamente passaram a se referir ao avião como “Tiger”. O programa “Tigre temporário” (era mais ou menos isso que a expressão queria dizer) teve, entretanto, implemento provocado por uma situação inesperada: a imprevista eficiência da defesa anti aérea do Vietnã do Norte, coordenada por especialistas soviéticos4. A USAF resolveu, repentinamente, adquirir todas as aeronaves previstas para abastecer o MAP/FMS, e que estavam encalhadas nos EUA. Era a solução possível para continuar as tarefas de contra insurgência (como as operações militares no Vietnã do Sul eram consideradas), e liberando aeronaves mais poderosas para os ataques ao Vietnã do Norte, sem desguarner postos de primeira linha no Japão e na Europa.

A aeronave foi preparada para utilizar os armamentos e a munição de uso mais comum no teatro do Vietnã do Sul: bombas de queda livre, de alto arrasto e lançadores de foguetes. Mas mesmo para os padrões das operações aéreas de contra-insurgência, os sistemas de transporte e entrega de bombas do F5 eram toscos, quando comparados aos de outras tipos utilizadas lá. A maior parte das missões era realizada com o piloto colocando o avião em mergulho suave sobre o alvo, e calculando a distância do alvo através da calculadora acoplada à mira ótica Norsight padrão, pouco diferente das adotadas durante a guerra da Coréia. Como o avião não tinha tomadas para reabastecimento aéreo, as missões eram realizadas com três tanques externo de 680 litros – o que comprometia fortemente a capacidade da aeronave em transportar armamento.

A experiência no Vietnã apontou que o F5A necessitava de maiores capacidades, inclusive de combate aéreo, que lhe dessem possibilidade de enfrentar adversários como o MiG17 e o MiG21, principais equipamentos fornecidos pela URSS a seus aliados e aos países sob sua influência econômica e militar. Ainda no Vietnã a aeronave recebeu uma tomada de reabastecimento sobre o nariz, placas de blindagem na barriga e pilones extras, que podiam ser removidos, sob as asas. Posteriormente, foram feitas importantes modificações nos aviônicos. A mira ótica fixa deu lugar a um computador de controle de armamentos, similar ao instalado nos A4 “Skyhawk”, e alguns aviônicos foram relacionados como equipamento potencial, embora não tivessem sido instalados. Algumas mudanças estruturais foram feitas, para aumentar a manobrabilidade. Essa aeronave foi redesignada “F5C”.

No final dos anos 1960, a Northrop apresentou um projeto que acrescentava ao F5A capacidade limitada de superioridade aérea: uma versão avançada designada F-5E “Tiger II”. Tratava-se de um programa denominado International Fighter Aircraft (IFA), que deveria rapidamente substituir os F-5A/C, principalmente na Força Aérea do Vietnã do Sul e em outras forças aéreas de aliados periféricos dos EUA. Neste novo tipo foi introduzido um turbojato mais potente, o General Electric J85-21, dotado de pós-queimador e com o desempenho implementado. Essa inovação, baseada na experiência de combate (o desempenho do F5A era considerado muito pobre) implicou em um completo redesenho da fuselagem, para receber o turbojato maior e tanques de combustível internos de capacidade aumentada. As asas também foram redesenhadas, tendo a superfície alar aumentada para suportar o maior peso do conjunto e implementar a manobrabilidade (que já era considerada muito boa). Uma modificação crucial foi a introdução de um radar semi-ativo tipo AN/APQ-153, “versão econômica” dos radares “pulso Doppler” em uso. Esta novidade deu ao caça a capacidade de utilizar o míssil de curto alcance AIM9 Sidewinder, mas não o AIM7 “Sparrow5, na época já considerado armamento de segunda linha.  Os dois canhões orgânicos Cadillac de 30 mm foram mantidos, dentro da filosofia, renascida na Força Aérea dos EUA depois do Vietnã, da capacidade de combate aéreo à curtíssima distância – o “dogfighting”. Uma versão biplace de treinamento/conversão, o F5F, também foi posta em produção, com menor capacidade interna de combustível e aviônicos menos sofisticados. Essa aeronave seria em princípio destinada à Força Aérea do Vietnã do Sul, mas com a retirada apressada dos norte-americanos da guerra, em 1973, o programa gorou, e os EUA ficaram atolados com mais de 300 unidades encomendadas – e pagas – em 1972. A solução foi oferece-las aos aliados periféricos, com uma novidade: aos capazes de produzir aviões foi oferecido o projeto completo e assistência para a instalação de linhas de produção – Canadá, Espanha e Suíça. À Coréia do Sul e Taiwan foi aberta a oportunidade de iniciar uma indústria local de aeronaves militares, com beneplácito, financiamento e tecnologia norte-americanos.

O Irã esteve entre as primeiras “potências regionais” a receber os F5E/F “Tiger II”. As primeiras unidades foram entregues em janeiro de 1974, vinte e oito F-5F, destinados a treinamento avançado e conversão. Nessa época, o Irã se desfez dos modelos F-5A e B, repassados a outras nações, com permissão dos EUA. Um total de 166 F-5E/F foram fornecidos ao regime do Xá, ao longo dos dois anos seguintes, compondo quase metade das vendas de aeronaves de combate feitas pela indústria dos EUA. Os caças e treinadores iranianos foram equipados com os mais avançados aviônicos disponíveis para o modelo: um sistema Litton de navegação inercial e um computador de controle de armamento.

Por volta de 1977, depois de 15 anos de resultados brilhantes, a economia iraniana começou a ter problemas. As tentativas de converter as rendas obtidas com o petróleo em um parque industrial, ao lado dos maciços investimentos na ampliação das forças armadas, acabaram por resultar em sérios problemas sociais. O programa de modernização do Xá também criou tensões com a sociedade tradicional iraniana, cuja cultura e valores eram baseados no Islamismo de vertente xiita. O aumento da repressão não chegou a diminuir a tensão, e as reformas políticas de 1975, que estabeleceram, por determinação de Pahlevi, um regime de partido único, resultaram na alienação das classes médias do processo político, empurrando largos setores de pequenos-burgueses educados para a oposição. Pahlevi estava consciente dos riscos que corria, mas contava com o apoio norte-americano. Em 1976, a eleição de Jimmy Carter para a presidência dos EUA e sua política de apoio e promoção dos direitos humanos acabou privando o regime iraniano de seu maior – e possivelmente único – apoio externo, tornando o regime ainda mais vulnerável à pressão internacional. Paralelamente a todos esses problemas, a oposição interna crescia, alimentada pelo aprofundamento da crise econômica.

Foi nessa época que começou a voltar à baila um nome que não era abertamente pronunciado no Irã desde 1963: o Ayatollah Sayyid Ruhollah Musavi Khomeini. Lider da elite sacerdotal instalada em Qom, a cidade sagrada da vertente xiita do Islãmismo, Khomeini tinha sido preso naquele ano, após pronuciar violento discurso contra o Xá e seu regime. Depois de quase dez meses em prisão domiciliar, o religioso foi solto, apenas para ser novamente preso por “atividades subversivas” e “perturbação da paz”, praticadas durante suas pregações. Desta feita, o aiatolá acabou despachado para a Turquia. Cerca de um ano depois, em 1965, o regime iraquiano permitiu que ele se instalasse na cidade de sagrada de Najaf, onde permaneceu por treze anos. Apesar do compromisso de silêncio, logo Khomeini começou a atacar o governo iraniano, que considerava anti islâmico. Uma rede de opositores religiosos, apoiada por cléricos e fortemente baseada em mesquitas e comunidades religiosas começou a promover propaganda, que se tornava mais radical conforme a crise econômica se agravava. Khomeini começou a ser apresentado como líder de um estado islâmico reivindicado com cada vez maior intensidade, por todo o país. A situação foi se agravando até o ponto em que o Xá, no final de 1978, tentou abrir discussões com setores de oposição, sem sucesso, e acabou deixando o Irã, que viu a ascensão de um regime moderado liderado pelo político Shapour Bakhthiar. Entretanto, esse regime de transição durou apenas 36 dias, e acabou substituído pelo regime islâmico que perdura até hoje.

É interessante observar que a Imperial Força Aérea do Irã foi a primeira dentre as forças singulares a declarar abertamente adesão ao novo regime. No final do mês de janeiro de 1979, técnicos da Base Aérea de Khatami (sede dos F14 da IIAF) envolveram-se em uma conforntação com oficiais e, em 8 de fevereiro, graduados da Força declaram-se aliados de Khomeini; no dia seguinte, técnicos da Base Aérea de Doshan Tappeh, nas proximidades da capital iraniana, Teerã, se amotinaram. Em fevereiro de 1979, o regime de transição caiu e foi implantado um regime revolucionário. Em dezembro de 1979, junto com a aprovação de uma nova constituição, foi instituída a República Islãmica do Irã6.

O regime fundamentalista iraniano adotou uma rígida postura anti ocidental, o que resultou na proibição de comércio de armas, pela mioria dos países ocidentais. Esse embargo estendia-se ao fornecimento de peças de reposição de qualquer espécie para todos os equipamentos já entregues, o que causou problemas imediatos de manutenção para a frota de F-5E/F. O país não tinha capacidade, naquela época, de operar suas aeronaves mais modernas sem apoio dos fornecedores ocidentais, e os poucos técnicos iranianos qualificados no Ocidente passaram a ser vistos como não confiáveis. O regime islâmico promoveu diversas “limpezas” nas forças armadas, que as privaram de alguns dos quadros de maior especialização. Na força aérea, transformada em “Força Aérea da República Islâmica do Irã”, a decisão, tomada por muitos oficiais, de seguir o Xá para o exílio, praticamente a deixou sem condições de voar.

A República Islâmica do Irã logo se tornou um criador de problemas regional, já que o regime dos aiatolás não escondia sua intenção de exportar a revolução religiosa para outros países na área do Golfo Pérsico. O Iraque, com sua maioria xiita submetida à uma pretensa ditadura “socialista”, tornou-se alvo preferencial da propaganda iraniana, e o Irã se tornou um perigo de grandes proporções para o regime ba´athista. Logo começaram a ocorrer incidentes de fronteira, e em 22 de setembro de 1980, Saddam Hussein, sem aviso, lançou suas aparentemente bem organizadas forças armadas contra o Irã, realizando ataques aéreos contra bases da aviação e do exército iraniano, e abrindo uma frente da batalha de 700 quilômetros, ao longo da fronteira comum. Sadam, bem como seus apoiadores ocidentais, acreditava numa rápida vitória. O equívoco não poderia ter sido maior, E a guerra se arrastaria por oito anos.

Ambos os lados mostraram notável incompetência militar, e, neste quadro, o poderio aéreo não chegou a fazer diferença. O Irã, nesse particular, mostrou, de início, alguma superioridade, embora ambos os lados não tivessem sido capazes de estabelecer o domínio dos ares. Embora os pilotos iranianos mostrassem treinamento e motivação superiores aos de seus adversários, a desconfiança do regime xiita com relação a seus próprios militares acabou por provocar mais baixas do que conseguiram os iraquianos. Outra grande dificuldade do Irã era encontrar fornecedores de peças de reposição e munições para seu equipamento majoritariamente norte-americano. O número de F5E/F, como também dos McDonnell-Douglas F4 “Phantom” (por volta de 1980, o número de F4 e RF4 das versões D e E em disponibilidade, era calculado em 220 unidades) tornou-se crítico e, em 1983, caiu para algo em torno de 35 por cento do total original7.

A história do “aviãozinho iraniano” começa aí. Por volta de 1986, apenas 10 por cento dos F5E/F iranianos estavam em condições de vôo, e o Irã buscava peças de reposição onde quer que fosse possível, através de operações que envolviam contrabando de petróleo ou pagamento à vista. No fim da guerra, em 1988, talvez menos de uma dúzia dos “Tiger” estivesse em condições de vôo, mas haviam dezenas deles, danificados ou canibalizados, em estoque. Os técnicos iranianos começaram, então, a reconstruí-los. No processo, as peças eram revisadas e algumas delas, em mau estado, particularmente da fuselagem, asas e estabilizadores, começaram a ser refeitas. Não existem maiores informações de como os iranianos conseguiram desenvolver o projeto, mas é possível que tenham tido apoio dos chineses, que já foram bem sucedidos em praticar engenharia reversa com aeronaves de fabricação soviética. De fato, em 1997 foi noticiado que o Irã teria realizado testes de vôo com um caça tático similar ao F5E, denominado “Azarakhsh” (Em farsi, “relâmpago”). As informações sobre essa aeronave são desencontradas, e não existem sequer fotografias que a mostrem. Segundo informações divulgadas no Ocidente em 2000, trata-se de uma cópia em tamanho aumentado do F5E, equipada com aviônicos e radar russos. A revista especializada “Jane’s Internetional Defense Weekly” sugeriu que o protótipo iraniano parecia ser entre dez e quize por cento maior do um F5F e teria por função primária operações ar-terra. Entretanto, a análise de fotografias e material de TV divulgados pelos iranianos mostra que essa aeronave, de fato, não chegou a entrar em produção, e, possivelmente, não mais que dez unidades tenham saído da fábrica.

O “Saegheh 80” (“Trovão”, em farsi) é dado pelas publicações especializadas como um aperfeiçoamento do “Azarakhsh”. O sítio “não oficial” da Força Aérea da República Islâmica do Irã não fornece detalhes, apenas uma curiosa informação de que o desempenho da aeronave é semelhante ao do YF17. Esta é a notação do protótipo que deu origem ao caça naval F/A18, e poderia ser verificada em qualquer sítio especializado da Internet. Para além, mesmo os mais entusiasmados simpatizantes do Irã devem saber que uma tal proeza é impossível, nas bases que deve ter se dado o aperfeiçoamento do avião iraniano. Países bem mais capazes, cientifica e tecnicamente, que o Irã, e sem os problemas políticos deste, tiveram dificuldades em desenvolver aeronaves de primeira linha. Um exemplo que poderia ser estudado inclusive entre nós, aqui no Brasil, é o do desenvolvimento do F-CK de Taiwan8. A experiência dos chineses encontrou inúmeros obstáculos, ainda que Taiwan seja aliado preferencial dos EUA.

Não existem informações que esclareçam a introdução da empenagem dupla e das asas montadas sobre as tomadas de ar, com inclusão aletas estabilizadoras. Embora não sejam especificados exatametne quais são, é dado como certo que tenham sido introduzidos novos aviônicos, projetados com auxílio russo ou chinês, inclusive um radar de controle de fogo. A colaboração com esses países pode ter resultado em um produto que, mesmo não sendo de primeira linha, poderia tornar-se bastante eficaz, caso utilizado em conjunto com sistemas remotos de monitomento e controle. Não é possível, entretanto, estabelecer se a indústria iraniana teria capacidade de conduzir um projeto desses, ainda que com assistência estrangeira.  

Mesmo que o resultado do programa “Saegheh” seja apenas um desenvolvimento do F-5E com aviônicos e armamento melhorados, isso indica que o Irã estaria criando a capacidade de eventualmente romper com a dependência completa de fornecedores estrangeiros – porque independência total, esta é difícil de conseguir. Entretanto, o desenvolvimento de um setor de alta tecnologia é um passo a ser dado que começa, sem dúvida, com uma decisão política, dada a quantidade de recursos humanos e financeiros em que implica sua realização. E não é só isto: o estabelecimento de laboratórios e unidades industriais que compõem um setor de indústrias aeronáuticas, em um país, sempre será projeto difícil de coodenar e apresentando resultados apenas a longo prazo. Um primeiro passo precisa, entretanto, ser dado. O Irá o deu. O resto do caminho é uma incógnita.

 Notas notáveis para serem notadas e anotadas:: 

1. Operador de um blogue cujo único defeito, em minha opinião, é mudar de nome com demasiada frequência… (Na lista de indicações de causa:: ainda consta como “Um lugar para expor e trocar idéias”.) O blogue do Renato é mais voltado para especialistas em educação, mas sempre merece uma olhada devido às reflexões lá apresentadas sobre tecnologia da informação e cotidiano. O último abordou, tangencialmente, uma de minhas paixões: jogos de peças de montar. Ainda sou do tempo em que todo garoto de oito ou dez anos sonhava com um Mecbras, anunciado pelo “Tio Hélio” nas tardes televisivas-em-preto-e-branco de sábado. Era um brinquedo fabricado pela Estrela sob licença, caríssimo, cuja filosofia era mais ou menos a mesma dos trenzinhos elétricos Märklin e Leonel – o adulto compra para a criança e não deixa a coitadinha brincar.

2. Doutrina que enfatizava a necessidade de entregar armamento nuclear em alvos situados à grandes distâncias e fortemente defendidos, bem como interditar o espaço aéreo nacional contra incursões do mesmo tipo. O crescimento do tamanho e complexidade dos bombardeiros estratégicos, observado durante a Segunda Guerra Mundial, acentuou-se ao longo dos anos 1950, culminando com o surgimento de sistemas capazes manter-se em vôo durante períodos de 24 horas, desde que com reabastecimento aéreo. A existência desses sistemas no lado adversário levou ao aperfeiçoamento de interceptadores “de longa distância”, destinados a interditar o espaço aéreo dos EUA à aeronaves inimigas voando a grande altitude. Nessa época, a doutrina desenvolvida pelo Pentágono, sob supervisão de oficiais que haviam conduzido, em postos executivos (mas não no comando superior) a guerra aérea contra Alemanha e Japão, considerava que a próxima guerra seria rápida, utilizaria armas de destruição em massa e relegaria as operações de caráter tático ao segundo plano – o plano dos aliados periféricos. Essa doutrina, desenvolvida a partir da segunda metade dos anos 1950, desdobrou-se em dois eixos – por um lado o Pentágono, dirigido por Robert MacNamara, e por outro, a Força Aérea, comandada pelo general-de-exército Curtis E. LeMay – e acabou resultando em uma disputa entre duas visões, uma “econômica”, outra “militar”: a primeira enfatizava a “entrega” por mísseis de ataque instalados nos EUA e em submarinos; a segunda, a “entrega” por bombardeiros supersônicos extremamente complexos, capazes de atingir alvos dentro da União Soviética a partir do território dos EUA e a inviolabilidade dos EUA através de interceptadores “estratégicos”, que combateriam possíveis atacantes sobre o norte do Canadá e a região ártica. Exemplos interessantes e bastante acessíveis do pensamento estratégico e das doutrinas militares durante a Guerra Fria são os filmes “Limite de segurança” (Failsafe, de Sydney Lumet, 1964) e “Doutor Fantástico” (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, de Stanley Kubrik, 1964). O primeiro mostra, de modo tangencial, o debate entre “políticos” (os civis) e “militares”. Também é chocante, tanto quanto esclarecedor o documentário “Névoa da guerra” (Fogs of war, de Errol Morris, 2003),uma biografia intelectual e política de Robert McNamara. A compreensão dos desdobramentos da estratégia norte-americana nesse período é impossível sem a leitura dos livros de LeMay, que chegou a ser considerado “psicopata” por seus adversários: America is in Danger, de 1968 (publicado em português sob o título de “USA em perigo”) e Superfortress: The Story of the B-29 and American Air Power, de 1988.

3. A Organização do Tratado Central (em inglês, Central Treaty Organization, ou CENTO) originou-se no Pacto de Bagdá, que reuniu, em 1955, o Irã, o Iraque, Paquistão, Turquia e o Reino Unido. Seu principal objetivo era conter o avanço da União Soviética na região, constituindo uma linha de estados pró-ocidentais ao longo da fronteira sul da URSS. Embora os EUA não tivessem participado inicialmente, é possível dizer que foi a pressão norte-americana, traduzida em promessas de ajuda econômica e militar, que impulsionou a constituição da aliança. O pacto foi marcado, desde o primeiro momento por dissensões internas, pontuadas pelo forte nacionalismo que caracterizava os países membros, todos eles ex-colônias cuja autonomia era então recente. A principal dessas era a oposição contra a presença da Grã-Bretanha entre os membros, mas haviam também diferenças pontuais entre entre eles. Esses problemas internos contribuíram para que a CENTO nunca chegasse a se organizar de forma eficaz, e assim torna-la a menos bem-sucedida entre as alianças militares e políticas do período constituídas com base no modelo da OTAN. Diferente da Aliança do Atlântico, a CENTO não constituiu um comando militar unificado, e os membros não chegaram a permitir a instalação de bases militares ou de tropas estrangeiras em seus territórios nacionais. Era este um dos objetivos dos EUA e da Grã-Bretanha, e constituiu um entrave à efetividade da aliança. O quartel-general da CENTO deveria ser instalado em Bagdá, mas, em 1958, o regime monárquico iraquiano, que gozava de forte apoio britânico, foi derrubado por um golpe militar. O governo que se seguiu mostrou, desde o início, fortes traços nacionalistas e uma intransigente oposição à Grá-Bretanha, aos EUA e ao Irã. Dentre seus primeiros atos estiveram uma declaração de posição política “não-alinhada” e o estabelecimento de relações formais com a URSS, ao mesmo tempo que promovia a própria saída do pacto. Nesse momento, a cúpula da organização modificou o nome do tratado (até então “Organização do Tratado do Oriente Médio” ou METO, do inglês Middle East Treaty Organization), adotando a sigla CENTO. A sede foi então deslocada para Ancara (Turquia). Entretanto, as deficiências da aliança ficaram dramaticamente evidentes diante das crescentes tensões entre árabes e israelenses, ao longo dos anos 1960, e das rivalidades entre Índia e Paquistão. A CENTO mostrou-se incapaz de assumir um papel sequer moderador, nas duas situações. Em 1965 e 1971, o Paquistão tentou invocar a cláusula do tratado de Bagdá que estabelecia responsabilidades de defesa mútua entre os membros, mas o conselho da Aliança recusou-se a deliberar pela ajuda militar, sob o argumento que a aliança tinha como objeto a URSS, não a Índia. Quanto aos problemas com Israel nunca houve manifestação, visto que os principais estados-membros – EUA, Irã e Turquia – eram claramente simpáticos ao estado judeu. Em janeiro de 1979, com a Revolução Iraniana, uma das primeiras atitudes do regime moderado laico, que, liderado por Shapour Bakhtiar, tentou uma transição controlada, foi retirar o Irã da CENTO. Na prática, isso significou o fim da aliança, que acabou dissolvida pouco meses depois.

4. Em 1965 se iniciaram os ataques aéreos dos EUA contra o Vietnã do Norte, como represália pelo apoio deste último à insurreição no Vietnã do Sul. Entretanto, a capacidade anti aérea norte-vietnamita surpreendeu os norte-americanos e provocou, entre 1965 e 1967 três vezes mais perdas de caças-bombardeiros – e até mesmo dos enormes bombardeiros estratégicos B52 – do que tinha sido planejado. Os primeiros jatos a serem empregados foram os Republic F105 “Thunderchief”, grandes caças táticos com manobrabilidade muito limitada e enorme capacidade de transporte de armamento. A vulnerabilidade do F105 em altitudes baixas os tornou presas fáceis tanto da artilharia quanto dos MiG17 e 21. Logo essas aeronaves foram substituídas na primeira linha McDonnell-Douglar F-4H “Phantom II”. Originalmente uma aeronave multifunção embarcada, seu projeto baseava-se no McDonnell FH-1 “Phantom”, primeira aeronave a jato a ser operado a partir de navios aeródromos, em 1948. Os “Phantom II” eram configurados como aeronaves de dois lugares, com a maioria do armamento operado por um “oficial de sistema de armas” (WSO, do inglês “Weapons Systems Officer”), encarregado de operar os sistemas baseados no radar pulso Doppler AN/APQ72, e os mísseis ar-ar AIM7 “Sparrow” e AIM9 “Sidewinder”. Os “Phantom” mostraram-se capazes de engajar todos os tipos de aeronaves soviéticas fornecidas à Força Aérea da República Democrática do Vietnã.

5. O AIM7 Sparrow (“Pardal”) é um míssil de superioridade aérea projetado entre o final da década de 1940 e o início dos anos 1950. Adota a tecnologia de guiamento por radar semi-ativo (SARH, ou “Semi-Active Homing Radar”). O modo SARH implica que a aeronave perseguidora ilumine o alvo durante todo o vôo do míssil, mantendo o curso mais ou menos estável durante esse período. A aeronave se torna vulnerável, pois qualquer manobra mais brusca faz o míssil perder o alvo. O modo SARH não permite engajar alvos múltiplos, mas, ainda assim, foi, inicialmente considerado vantajoso, visto que o quase permanente mau tempo do teatro europeu, para o qual foi projetado, fornecia cobertura para a aeronave perseguidora. Ainda assim, o sistema nunca se mostrou ideal. No teatro aéreo do Vietnã, atuando contra oponentes bem-treinados, decididos e utilizando aeronaves altamente manobráveis, a porcentagem de acertos pelo Sparrow foi extremamente baixa, o que indicou com clareza os limites dessa tecnologia. Testes extensivos realizados entre 1974 e 1978 pela USAF, denominados AIMVAL/ACEVAL (Multiple Air-to-Air Combat/Short Range Air-to Air Missile), conduzidos em seqüência para avaliar conceitos de mísseis que apontariam o substituto do AIM-9L “Sidewinder” mostraram que o problema não era o AIM9, mas o Sparrow, considerado bastante ineficiente. Também ficou clara a necessidade de sistemas de engajamento múltiplo ou mísseis “inteligentes”, da categoria “atire e esqueça”, armamentos capazes de voar até o alvo utilizando meios incorporados ao próprio vetor.

6. A nova constituição do Irã, aprovada em dezembro de 1979, colocava a suprema autoridade na figura do “faqih”, “jurista justo e piedoso”. Este é escolhido pelo povo de Deus – representado pelo clero (os mullahs) –, entre os clérigos mais qualificados (os ayatollahs). O “faqih” teoricamente não intervém no governo civil, mas indica o “Conselho de  Guardiões”, que, por sua vez, supervisiona a indicação dos governantes –juízes supremos, comando das forças armadas, comando da Guarda Revolucionária e alguns dos ministros. Embora a chefia do Estado seja destinada a um Presidente, o “faqih” deve aprovar os candidatos, às eleições presidenciais e pode demitir o Presidente durante seu mandato, desde que este tenha sofrido impeachment pelo impeached by the “Majlis”.  O chefe do governo civil é o Primeiro Ministro, indicado pelo Presidente com a aprovação do “Majlis”.   Embora o “Mahjlis” tenha seja o poder supremo da República, na prática esse poder é dividido com o Conselho de Guardiões, que examina toda a legislação aprovada naquela câmara, de modo a assegurar que esteja de acordo como a lei islâmica.

7.  O apoio declarado do Ocidente ao regime iraquiano traduziu-se em treinamento e fornecimento de armamentos up-to-date. Os franceses viram a oportunidade e, aproveitando-se da relutância dos EUA em fornecer material de primeira linha ao Iraque, em função da proximidade do regime ba´athista com Moscou, entregaram dezenas de caças táticos Super Etendard e interceptadores Mirage F1. O F1 era em tudo superior aos MiG21, 23 e Sukhoi 20/22, tipos soviéticos mais comuns na Força Aérea do Iraque. Seu principal armamento era o míssil Matra R-550 “Magic”, capaz de alcançar alvos situados em angulo aberto com relação ao atacante, e alcance de até 10 quilômetros. Os Mirage iraquianos logo se mostraram superiores em qualquer condição, e as aeronaves iranianas começaram a evitar travar combate, situação inversa à do início do conflito.

8. O projeto “IDF” (do inglês Indigenous Defense Fighter, algo como “Caça de Defesa de Origem Nacional”) começou em 1982. Taiwan buscava modernizar sua força aérea, e mostrou interesse em receber o então recente General Dynamics F16 e o projetado Northop F20. Diante da recusa dos EUA, o AIDC (Centro de Desenvolvimento da Indústria Aeronáutica), entidade governamental destinada a implementar a indústria aeronáutica nacional, abriu o programa “IDF” em 1983. Este consistia em quatro projetos, desenvolvidos de modo coordenado, para desenvolver a estrutura (fuselagem, asas, estabilizadores e partes relacionadas), o turbojato, os aviônicos e um míssil ar-ar. Embora o governo norte-americano tivesse cedido à pressões do governo da China comunista para não vender armamento aos chineses de Formosa, permitiram e até indicaram que indústrias do parque aeronáutico estabelecessem acordos de coperação com a AIDC, inclusive para o desenvolvimento de um radar pulso Doppler. O primeiro protótipo voou em 1989, designado pelo Ministério da Defesa Nacional como “F-CK1”. O desenvolvimento mostrou-se muito mais problemático do que o previsto, com a indústria local se mostrando incapaz de fabricar alguns dos itens projetados com auxílio dos norte-americanos. Posteriormente, especulou-se, diante dos problemas encontrados no processo, que o governo dos EUA indicou os participantes do processo como forma de não permitir que Taiwan recorresse a outros parceiros, como Israel ou a França, o que implicaria na possibilidade de que o produto final excedesse as especificações apresentadas à China comunista como “seguras”: alcance e capacidade de armamento ar-solo similares às do F5E e do F16. O item que mais provocou problemas foi o Sistema Digital de Controle de Vôo, um conjunto integrado de hardware-software destinado a gerenciar a planta de potência, sistema “fly-by-wire”, sensores e armamento. O projeto acabou se arrastando por mais de dez anos, e resultou numa aeronave multifunção com similaridades ao F16 e F/A18, devido à assistência dada ao projeto pelas empresas fabricantes dessas aeronaves. As primeiras unidades fossem entreque à Força Aérea da República da China (ROCAF) em meados de 1994::

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A batalha do Rio de Janeiro::Planejando para depois::

Eis aí uma bela foto, pelo menos para quem se preocupa com os assuntos geralmente tratados aqui no causa:: Pois é… Não consigo parar de falar na “batalha do Rio de Janeiro”, mas confesso: começo a mudar de opinião… É uma guerra, sim. E uma guerra com um detalhe interessante: planejada, desde o começo.  Talvez pelo fato de que não é propriamente uma “guerra”, mas uma ação decidida do estado, ou seja, das autoridades constituídas, para retomar o controle de porções significativas do território formal.

Até o momento tem sido bem sucedido. O motivo, me parece, é o fato de que as populações que habitam esses territórios querem ser tratadas como cidadãos, e não propriamente como habitantes de uma região ocupada. Alguns dias atrás, prestei atenção em uma cena transmitida pela TV, na qual um helicóptero Agusta Bell 212 voa sobre o Complexo do Alemão, com atiradores de escol posionados em ambas as portas laterais. O cenário de fundo era o panorama interminável de casinhas, e a função dos policiais posicionados não era, de fato, dar tiros – até porque o complexo está totalmente pacificado. A função desses policiais – altamente especializados – seria vigiar as atividades no chão. Abre parentese: o AB 212 é aquela aeronave adquirida diante da situação de pânico criada pela má qualidade das informações disseminadas na época  em que um helicóptero Esquilo foi derrubado por tiros disparados durante uma operação policial; na época, fiquei esperando o momento em que os jornais exigiriam a aquisição de helicópteros de ataque “Apache” para a polícia carioca, embora, pessoalmente, se o negócio é tanque voador, prefiro o Mil Mi24. Fecha parentese.  

Encontrei um bom texto num dos foruns especializados da Internet. É claro, como não podia deixar de ser, o infográfico da notícia dava informações estapafúrdias, que foram corrigidas pelo editor do fórum – paciência, não se pode esperar nada melhor. O texto, um pouco cortado, é o seguinte…

“De olho na Copa do Mundo de 2014 e na Olimpíada de 2016, uma frota de helicópteros comuns e blindados, já em processo de compra, vai reforçar o patrulhamento aéreo da Região Metropolitana da cidade. O projeto prevê a aquisição para o Grupamento Aéreo e Marítimo (GAM) da Polícia Militar de 16 aeronaves, que vão permitir vigiar as vias expressas, bairros e favelas. ´O uso do helicóptero no patrulhamento permite baixar os índices de violência, já que a presença dele inibe a ação de criminosos. Sem contar que este recurso como apoio permite a redistribuição das viaturas, aumentando a área de atuação e a eficácia do policiamento´, define o comandante do GAM, tenente-coronel Eduardo Ribeiro. Semana passada, O DIA acompanhou uma manhã de patrulhamento do GAM nas zonas Norte e Oeste e no Centro. Saindo da base do grupamento, em Niterói, a aeronave modelo Esquilo chegou à Avenida Brasil em poucos segundos. Em apenas dois minutos, já sobrevoava Bangu e, na sequência, foi para o Méier checar informação recebida pelo rádio sobre o bloqueio numa rua onde ocorria manifestação. Pendurados nas laterais do helicóptero, que transporta até seis passageiros, PMs armados com fuzis ficavam atentos à movimentação lá embaixo. ´Passamos próximos para ter melhor visualização e compreensão do que se passa. Dá para ver as pessoas, as casas, a movimentação nas ruas e carros, tudo´, frisou um dos sargentos que monitoram a cidade do alto. Outra novidade atende pelo nome de ‘PMCop’. Serão aeronaves equipadas com câmeras de alta definição, capazes de monitorar vários pontos da cidade. A ideia é que esses helicópteros façam uma espécie de ‘Big Brother’ aéreo, captando imagens para identificar, ainda mais rápido, os crimes ocorridos. Os aparelhos também são blindados.”

Um dado é interessante de ser observado: a ampliação da dimensão de abordagem da cidade, que agora inclui a vigilância aeromóvel em tempo real. Vale à pena lembrar o fato de que um dos intelectuais chamados a comentar a “batalha do Rio de Janeiro” tentou estabelecer uma comparação entre a operação planejada pelas autoridades cariocas e a Blitzkrieg. O engano do respeitável professor, um dos grandes especialistas acadêmicos em  Guerra do Paraguai, em atuação, foi achar que Blitzkrieg é necessariamente algo que envolve tanques. Eu diria que, mais do que isso, a Blitzkrieg, como doutrina, envolve uma ampliação exponencial das dimensões do teatro tático, possibilitada, inicialmente, pela introdução da “busca da iniciativa” como fator definidor dos limites do campo de batalha. É interessante pensar que as “Tropas de choque” alemãs, durante a 1ª GM, buscavam na iniciativa uma forma de romper o impasse da “perda do movimento” – o fenômeno que resultou, no final de 1914, na guerra de trincheiras. 

Certamente não posso dizer se a guerra européia do início do século 20 teria estado na cabeça dos planejadores cariocas. Eu duvido: nossas autoridades não tem o hábito de estudar história. Mas que alguns aspectos daquela guerra estiveram presentes nos dias memoráveis que vivemos por aqui, estiveram. A começar pela negação às quadrilhas cariocas, do uso do território (seria o de outra pergunta, ainda mais esdrúxula: as autoridades cariocas leram Clausewitz?..). Também é interessante lembrar que Rommel, ao fim de sua experiência como comandante da 7ª Divisão Panzer, no teatro ocidental, declarou que a única forma de comandar uma unidade dessas seria com um rádio no ouvido… de dentro de um avião. Isso permitiria ao comandante estar em todos os lugares ao mesmo tempo. É isso que permitem, agora, os helicópteros, e a experiência dos repórteres de O DIA, apresenada acima, mostra como muda a capacidade de intervenção das forças de segurança, quando lhes são dadas asas.

Também é interessante observar como se estrutura a “guerra em rede”: informações em tempo real são alticuladas em postos de comando, que redirigem os agentes envolvidos para os pontos do “teatro” onde eles poderão ser mais necessários. É claro que o piloto de um helicóptero Apache, pairando sobre um bairro de Bagdad, observando uma tela minúscula na qual apareciam homens que “pareciam portar armas” deve vir à cabeça de todo mundo, neste momento (essa imagem foi um dos primeiros golaços do site Wikileaks). A questão é que, em Bagdad, os militares norte-americanos estavam em uma situação de confronto aberto, e este não é o caso do Rio de Janeiro. No caso de Bagdad, foi dado aos tripulantes do “Apache” o direito de decidir se abriam fogo, com um canhão de 30 mm (capaz de derrubar uma casa com uma rajada padrão de três segundos), contra um grupo mal-identificado. No Rio de Janeiro, não deve ser dado este direito aos tripulantes de helicópteros – ou seja: a cadeia de comando não pode ser rompida em hipótese alguma. Por sinal, Bagdad não lembra o Complexo?.. Vamos miniaturizar: boa parte das centenas de “baixas colaterais” observadas nos enfrentamentos entre policiais e traficantes pode ser atribuídas à liberdade de ação dada aos policiais em campo. Numa operação militar, essa é a via mais curta para o desastre::

Observações estratégicas sobre um período chato e uma comparação estapafúrdia::

A época anda meio chata, do ponto de vista das encrencas internacionais. Hugo Chávez anda inacreditavelmente calado, Juan Manoel Santos está empenhado em estabilizar as relações com a Venezuela, a imprensona nacional se finge de morta sobre o tema… A posse de Santos, no dia 7 de agosto foi um festão, com todos os presidentes sul-americanos, e Chávez teve convite especial. No dia 10, em Caracas, os dois países restabeleceram relações diplomáticas. A boa vontade era tanta que Chávez reiterou que o governo da Venezuela “não apoia, nem permite a presença da guerrilha, do terrorismo ou do narcotráfico” em seu território – e que perseguir essas forças é parte de sua função como presidente. O assunto é interessante – mesmo Chávez parece ter seus limites, e anda às voltas com problemas internos sérios. Assim, a picuinha sobre as bases americanas tornou-se de menor importância. Do outro lado do mundo, as sanções contra o Irã deram em nada, até agora, visto que o país tem na China, apesar da encenação, seu principal parceiro econômico (os nove ou dez assíduos de causa:: podem acessar uma análise estupenda da questão aqui). O melhor assunto é o apedreja-não apedreja da pobre Sakineh Mohammadi Ashtiani. Após o convite de asilo – em torno do qual a imprensa brasileira, como usual, deu verdadeira aula de como provar que urubu é arara -, a diplomacia brasileira parece ter abaixado a bola sobre o tema. Por sinal, parece ter abaixado a bola sobre o Irã todo. Explicável: por mais que o redator:: não esconda sua simpatia pelos países mal-comportados, o companheiro Ahmadijenad é dose. Ali por perto, as tropas norte-americanas retiram-se às pressas do Iraque. As autoridades da antiga pátria de Sadam Hussein, dizem os americanos (depois de quatro mil mortos lá), têm condições de assumir responsabilidades sobre a própria segurança – embora as próprias “autoridades e poderes constituídos” andem dizendo exatamente o contrário. A coisa lembra um pouco a retirada soviética do Afeganistão, diferindo apenas na velocidade das colunas motorizadas. No Afeganistão… Bem… A vidinha continua a mesma: um Vietnã mais modorrento e controlado, embora observadores estejam meio que apostando no relaxamento das instruções de operações, aumentando o risco de “danos colaterais”. Alguns desses observadores têm apostado no endurecimento da posição dos militares norte-americanos, que não estariam muito dispostos (admitamos: milico nunca está…) a aceitar que a campanha deu co´os burros n´água. Dizem esses observadores que a situação estratégica atual aponta para um prolongamento da guerra, e que o atual comandante,  general-de-exécito (no jargão deles, generalDavid Petraeus use sua influência para conseguir este resultado no Congresso. E como causa:: tem boa memória, aproveita para lembrar os assíduos que esse general já sofreu críticas por sua atuação no Iraque, em que foi acusado de ser responsável pelo colapso em Mossul, no ano de 2003 (uma interessante biografia operacional de Petraeus aqui, em inglês, apresenta o caso). Por sinal, é bom lembrar, também, que se o general Petraeus começar a fazer pressão sobre o Executivo e sobre o Legislativo pelo endurecimento, essa iniciativa não será nova:  o comandante anterior, o boquirroto general Stanley A. McChrystal já vinha insinuando o assunto nos ouvidos moucos do presidente Barack Obama. De toda maneira, nove entre nove analalistas concordam que o dilema dos EUA, agora, não é propriamente como resolver o problema afegão, mas que o problema afegão é como os EUA poderão sair de lá mantendo a cara limpa. A guerra já tem nove anos, e ninguém mais parece acreditar no prazo final de permanência das tropas, estabelecido em 2009 pela então popular administração Obama.

Claro que mesmo os assíduos de causa:: interessados em estratégia e questões afins devem estar com a atenção voltada para as eleições presidenciais aqui no Brasil, mesmo. Observar a campanha da oposição é quase como ter uma aula de estratégia e de tática – de como não fazer as coisas, nesses campos. Nessa direção, aponta o redator:: novamente para o excelente Catatau e seu conceito de “economia de verdade”. causa:: aqui sugere aos assíduos que tentem aplicá-lo à estratégia de campanha do “Zé”. “Zé” é mais lulista que todo o PT (esse bando de dinossauros mensaleiros); “Zé” pretende manter tudo de bom que foi feito no último governo, e ainda vai “poder mais” (seja lá o que isto signifique). O que podemos observar é o “Zé” totalmente emparedado: lá embaixo, os eleitores estão sendo alcançados por um regime de transferência de renda como nunca foi visto na história da República; lá em cima, os financiadores de campanha parecem satisfeitos com um amplo programa de financiamento, nem mais nem menos imoral do que o salvamento do sistema bancário, promovido, mais de dez anos atrás, pelo governo FHC. Ambas as ações, em seus contextos, se justificam. Estratégia é tomar decisões – e arcar com as consequências. Digamos assim: na época, a oposição, que era governo, tinha programa, portanto, podia ter estratégia. O governo de ontem virou oposição exatamente pelos limites do programa. Governar é perder oportunidades, e a oportunidade do Plano Real foi magistralmente perdida e aponta os limites da “vocação social do PSDB” – afinal, São Paulo não é a Alemanha Ocidental e nem aconteceu uma guerra por aqui. Por isso causa:: não indica a avaliação do filósofo  Vladimir Safatle, publicada na Folha de São Paulo (se o assíduo tem acesso ao UOL, entre por aqui): possivelmente, o PSDB não se distanciou de um “impulso inicial” socialdemocrata. A trajetória da elite intelectual da USP e de seus aliados desenvolvimentistas pode ser considerada, talvez, só metade socialdemocracia. A outra metade seria talvez tributaria de uma classe produtiva acostumada a se valer do aparelho de Estado para facilitar a promoção da acumulação capitalista. Ou será que todo mundo esqueceu quem foi Sérgio Motta? O PSDB hoje está emparedado pelos limites de seu programa, e a falta de estratégia é apenas decorrência desse fato. Idéia, por sinal, já vislumbrada pelo NPTO, que os assíduos aqui do causa:: já sabem ser leitura obrigatória.  

Curiosamente, a história recente do país parece o desenrolar da 2ª GM – este redator:: lança mão da comparação estapafúrdia apenas do ponto de vista da estratégia. E a idéia ocorreu durante a leitura de excelente posto publicado pelo jornalista João Villaverde em seu blogue. Cito o trecho inspirador:  “O balanço do governo FHC, feito com maestria por outros muito mais preparados que este blogueiro que vos fala, pende terrivelmente mais para o lado financeiro da coisa. Os números positivos que vemos hoje de desemprego baixíssimo, salários em alta e transferências de renda para redução da terrível desigualdade social que (ainda) temos, não vêm de FHC. Se o PSDB sacou o que era preciso no país em 1994, ele perdeu o bonde nos oito anos seguintes. Teve uma bela oportunidade para mudar as coisas, quando as coisas explodiram em 1999, mas as reformas que vieram foram todas conservadoras, que não alteraram radicalmente os fatores, apenas um pequeno tapa no leme do navio, que manteve o mesmo ritmo. Deu uma arejada no excessivo controle exercido pelos puquianos cariocas, mas a ideia era a mesma.” (Na íntegra, o posto está aquicausa:: o recomenda fortemente). O início da 2ª GM marcou a primazia da doutrina da blitzkrieg alemã – um novo estilo de guerra, baseado na velocidade e, sobretudo em nova consciência da dimensão do campo de batalha, forçada por aquela. Os motivos pelos quais os alemães também perderam o bonde não admitem comparações, nem mesmo estapafúridias. Entretanto, cabe lembrar que soviéticos e norte-americanos acabaram copiando e aperfeiçoando a tal doutrina, e a melhoraram. Tal como a Wehrmacht em 1940-41, o PSDB parece ter sido enganado pelo próprio sucesso em 1994-1995, e se iludiu que os horizontes acadêmicos de São Paulo eram os do Brasil. Por sinal, do ponto de vista meramente estratégico, causa:: discorda do João em um ponto apenas: reunir doutrinas diferentes para que uma freie a outra não é solução e nem rima. É burrice: basta lembrar que o exército alemão, em 6 de junho de 1944 poderia ter tido uma chance de lançar a primeira onda de assalto aliada de volta ao mar, já que dispunha de forças blindadas consideráveis, em excelente estado de aprestamento, bem próximas da cabeça-de-praia. Mas essas forças eram reserva estratégica do Alto Comando, que precisava da autorização de Hitler para autorizar que se movessem. E Hitler estava dormindo… Claro, tudo isso não implica que os estrategistas peessedebistas não adorem a idéia de paralisar a própria máquina, já que é exatamente o que têm feito ao longo dos últimos anos::

Não tinha pensado nisso::Quer entender o Islã moderno? Asabiyyah, então::

Não sei se é uma boa idéia (e o redator:: apela para essa figura apenas como exagero explicativo…), o mundo islâmico encontra-se, politicamente, num momento semelhante ao que passou a Europa, principalmente a Ocidental, no final da Idade Média, quando a Reforma protestante jogou lenha na fogueira da formação dos estados unificados politicamente. Essa trajetória acabou por resultar (nos séculos 18 e 19), nos estados nacionais. Desde os tempos dos debates com o Chesterton, o Mr X, o Dino, o Elias, e outros direitobas e esquerdobas, no velho e bom WebLog, o redator:: acreditava que, se dessem uns duzentos ou trezentos anos para o mundo islâmico, ele acabaria evoluindo, talvez não na direção da “democracia”, mas de alguma outra coisa… E desde então, causa:: tem procurado imaginar como será essa coisa… 

parte2/4Só que o ambiente hoje em dia não tem nada de parecido com o do século 15 na Cristandade, e os líderes políticos dessas formações são obrigados, ora a lutar contra, ora a fazer alianças com lideranças laicas e religiosas. Alguns são mais bem-sucedidos, como vimos (muito superficialmente…) por condições específicas; outros têm menos sucesso também por condições específicas. Não se trata de repressão pura e simples, como às vezes podemos crer.

De fato, talvez o momento histórico e político vivido pelas sociedades islâmicas (com a possível exceção do Irã, mas vamos deixar essa parte para depois…) possa ser explicado, como pretente o historiador Albert Hourani. Este faz uma interpretação monumental do pensamento do filósofo Ibn Khaldun (1332-1406), cuja teoria da “renovação cíclica” introduz o conceito de “asabiyyah“, que Hourani interpreta como “um espírito corporativo orientado para a obtenção e manutenção do poder”. Na teoria de Khaldoun, asabiyyah (uma definição bastante clara, mas, infelizmente em inglês, pode ser lida aqui) é a principal força que move a história. As primeiras sociedades humanas bem-sucedidas foram os povos das estepes e das montanhas, entre os quais a autoridade se formava a partir de laços de parentesco que estabeleciam a coesão social, um conceito chamado asabiyyah – “espírito de parentesco”. Os interesses do clã eram o interesse de cada um de seus membros (na biografia de Átila – um líder de povos das estepes –, escrita pelo bizantino Prisco, essa qualidade fica bem evidente). Um líder com asabiyyah estava em boas condições de fundar uma dinastia e poderia impor-se sobre a cidade, uma vez que os habitantes urbanos careciam dessa qualidade. Enquanto o domínio dinástico fosse próspero, gerando estabilidade e justiça, a vida da cidade floresceria. Mas ainda segundo Khaldun cada dinastia trazia consigo a semente de seu declínio, pois os governantes degeneravam em tiranos ou eram corrompidos pela vida fácil (as virtudes da vida simples dos líderes dos nômades das estepes também ficam evidentes na biografia de Átila). No tempo devido o poder acabaria passando para um novo grupo de governantes valentes, vigorosos, não-corrompidos, e vindos de alguma região periférica, onde a Fé no Islã ainda fosse pura e a Lei, aplicada.

De acordo com Hourani, a teoria de Khaldun ainda pode propiciar uma interessante base para a análise política das sociedades árabes modernas. Por sinal, agora os oito ou nove leitores devem ter entendido também porque o delirante redator:: fez a comparação delirante entre o mundo cristão do séculos 14 e 15 e o mundo árabe atual. Poderíamos mesmo falar em um choque cultural – também fazendo as devidas relativizações.   Lá, eram os príncipes norte-europeus, cortados em suas rendas pela Igreja e pelo regime de vassalagem, e mobilizados por um padre casado que dizia não ser pecado ler a Bíblia por conta própria; cá, foi o choque maciço sofrido pelo mundo muçulmano com a dominação européia e seu pensamento racional, que o aporrinhou a partir de 1830. Assim como a Cristandade defendeu-se como pôde diante do avanço do Protestantismo, o mundo islâmico também, tentando manter suas concepções culturais e políticas. O núcleo da sociedade islâmica manteve seus padrões sócio-culturais, adaptando ou simplesmente recusando as práticas ocidentais. O período pós-colonial encontrou formas híbridas, que moldaram os estados nacionais formados desde entre os meados da década de 1950 e o início dos anos 1960. Observou-se, desde então, pouca mudança na natureza geral da maioria dos regimes árabes: na Arábia Saudita, nos países do Golfo, na Jordânia, na Tunísia e no Marrocos, não houve mudança substancial por mais de uma geração; na Líbia, Síria e Iraque, onde os governantes originais foram apeados do poder, os grupos que os substituíram embora adotassem um discurso nacionalista e laico, não chegaram a propor mudanças estruturais, e mantiveram as práticas anteriores.

Mas haviam fatores de tensão que eram – e são – diversos. O contato com interesses econômicos e empresas ocidentais, que traziam recursos e tecnologias modernas indisponíveis nesses estados ampliou de forma exponencial as fontes de poder das elites tradicionais. Por outro lado, gerou instabilidade social em face da estrutura social tradicional e religiosa. Para essas tensões, as elites, laicas ou religiosas, não tinham resposta. O crescimento da população, em função da introdução, ainda que lenta e errática, de práticas alimentares e de saúde modernas, inclinou a balança demográfica para o lado da juventude; o ritmo da urbanização, provocado pela mudança econômica, a melhoria da educação e das comunicações, exigida pelas práticas administrativas herdadas dos governos coloniais despertaram grau de consciência sobre o local e o mundo até então desconhecidos. A cereja do bolo são os contínuos conflitos armados na região: do Saara ocidental à Palestina e ao Golfo Pérsico, a montagem de uma estrutura militar com base na tecnologia ocidental criou uma classe de funcionários públicos e militares relativamente educados e competentes, capaz de formular projetos alternativos para suas sociedades.

Qual a resposta oferecida à crise? Asabiyyah. A idéia de Khaldun/Hourani sugere que a estabilidade de um regime político dependia de uma combinação de três fatores. Era estável, primeiro, quando um grupo governante coeso conseguia ligar os interesses dos elementos poderosos da sociedade – inclusive os religiosos, que não podem ser ignorados –, aos seus (o que significa dizer “de seu clã”); segundo, quando essa aliança de interesses se expressasse numa idéia política, e, terceiro, que essa idéia política tornasse legítimo o poder dos governantes aos olhos de, no mínimo, boa parte da sociedade, ou seja, dos outros clãs.

Átila, o Huno, podia manter os líderes dos clãs de sua tribo sob suas vistas; Maomé comunicava as palavras do Profeta a seus parentes diretos, e esses repassavam aos próprios, que repassavam ao restante da tribo. Os regimes modernos não têm tal capacidade, porque suas alianças de clãs reúnem milhões de pessoas. Cria-se  instrumentos novos, como o culto à personalidade, a propaganda do regime e ubíquos serviços de informação e segurança. Paralelamente as formas novas, as tradicionais são mantidas, os conselhos de líderes de clã. Como a Loia Jirga, que se reúne periodicamente no Afeganistão e ao qual o “presidente” Hamid Karzai não ousa deixar de comparecer… Os líderes do passado tinham seus aliados políticos nas proximidades, e eram legitimados pela capacidade de cooptar as lideranças locais, através inclusive da ligação entre estado e religião, sendo que a religião levava a proposta política até as regiões mais remotas. Os líderes modernos mesclam formas novas e antigas, de forma a estender suas capacidade políticas.

Na maioria dos países, o poder do governo estende-se agora às partes mais remotas do interior, onde seu domínio era outrora, fraco, quase ignorado ou totalmente dependente de líderes locais. O que não significa que, na moderna política árabe, a asabiyyah do grupo governante não seja fator talvez crucial na aquisição e manutenção do poder. 

Por exemplo, Sadam Hussein. Ele deveria ter caído após o fracasso militar na guerra contra o Irã, entre 1980 a 1988. Não caiu, e, ao contrário, reforçou seu poder. A humilhação nacional imposta pela derrota diante da coalizão internacional, que resultou na Desert Storm, em 1991, comprometeu até mesmo a soberania do país sobre o que seria o território nacional. A imposição de zonas de interdição policiadas por forças americanas e britânicas, e do estabelecimento no nordeste do Iraque, do governo regional autônomo curdo, sob proteção da coalizão, entretanto, não chegou a abalar-lhe a posição. Ao contrário. A oposição iraquiana não foi capaz de formar um governo, nem mesmo na esteira dos tanques aliados. Onde estava a fonte da capacidade de Sadam em sustentar-se no poder? Asabiyyah. Seu clã, estabelecido na região de Tikrit, ao norte de Bagdá, controlava uma ampla rede de clãs e tribos com origens nessa área. Nessa região, de maioria sunita, era recrutada parte significativa dos oficiais e funcionários do regime defenestrado pelo golpe militar que levou Sadam ao poder, em 1968. Embora aderindo formalmente ao nacionalismo árabe-secular do baathismo, a asabiyyah do grupo revelou-se mais duradoura, por mais eficaz, do que sua orientação política. Manipulando lealdades e rivalidades dos clãs, Sadam montou um formidável sistema baseado não só na coerção e no medo, mas principalmente no clientelismo.

A distribuição das terras dos oponentes apeados do poder e os gastos da receita do petróleo, promovidos pelo ditador, estão no centro dessa teia de relações. Num estado moderno como o implantado no Iraque, desde 1920, numerosos outros benefícios podem ser mobilizados, além de petróleo e terras. No caso do Iraque baathista, foi montada uma estrutura civil e militar movida não apenas, e nem mesmo principalmente, pela preocupação geral de melhorar as condições econômicas do país, mas pela preocupação de criar redes de clientelismo que reforçariam a posição daqueles que estavam no poder.

A Guarda Republicana, dominada por gente de Tikrit, preservada por Sadam durante e após Desert Storm era um exemplo da asabiyyah de seu clã. Jamais chegou a ser afetada pelo espírito de revolta que se espalhou pelo país depois de 1991. Ao contrário, a prática sunita de seus integrantes atuou como fator a mais da ferocidade contra os levantes dos curdos, no norte, e dos xiitas na região meridional de Basra, Najaf e Karbala, de maioria xiita. Os mullahs sunitas convocavam os habitantes da região de Bagdá, que incluía Tikrit, a resistir contra o infiel, como tinham feito na guerra contra o Irã, conclamando a resistência contra os persas. A asabiyyah de Sadam permaneceu intocada, visto que ele usava os recursos obtidos com o contrabando de petróleo para manter privilégios de seus aliados laicos e também dos religiosos sunitas. Os interesses políticos nacionalistas e religiosos sunnis podem vir, inclusive, a explicar a simpatia observada na Jordânia e na Palestina, para onde Sadam enviava quantidades substanciais de dinheiro. Foi preciso uma operação política de desdobramentos imprevisíveis, em que foram falsificadas informações pelos serviços secretos norte-americanos e britânicos, com a conivência das lideranças desses países, para inventar uma desculpa para a operação militar que afinal removeu Sadam do poder. Funcionou para colocar os exércitos aliados lá, mas o líder da coalizão “pela liberdade” e seu principal aliado, perderam a paz, na medida em que, removido Sadam, afragilidade institucional do Iraque tornou-se evidente.

E a rede de asabiyyah manteve-se, intocada, no centro da teia de relações clientelistas que predomina na maior parte do mundo árabe-muçulmano. Outro exemplo acabado dessa eficácia – e de como o Ocidente não tem meios de lidar com ela – é a Arábia Saudita e seus “proprietários”, a família nobre al´Saud. Tendo conquistado o poder na década de 1920, com a conivência dos britânicos,  a família al Saud talvez nos proporcione lição ainda mais exemplar de como, no mundo muçulmano, a banda toca por outro compasso. Bom, a conversa sobre os al Saud e suas peripécias, que incluem um diabrete chamado Osama bin Laden, fica para depois… Morram de curiosidade…::

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::Um AK de ouro::

Na foto aquele que é, possivelmente, um dos AKs mais famosos, dentre os mais de 50 milhões fabricados (de fato, um AKS da primeira versão, o que se pode notar em função da ausência de freio de boca e de rebites na caixa da culatra): o AK de ouro de Saddam Hussein. Foi encontrado durante a operação Endurance Freedom, depositado num museu saqueado pelos militares norte-americanos, na capital iraquiana. Existem diversas explicações para a origem da arma: a mais plausível diz que teria sido presente dos soviéticos. Faz sentido: Saddam foi um dos melhores clientes dos armamentos oferecidos pela URSS. Na empunhadura dianteira da arma pode-se ver uma chapa de prata com as armas iraquianas e a inscrição “Ao senhor presidente da República do Iraque”. Na realidade o fuzil é folheado a ouro por processo eletroquímico, e não poderia ser de outra forma. O ouro não serve como material para armas de fogo, já que derrete em uma temperatura relativamente baixa. De fato, o ditador iraquiano parecia a-do-rar armas de ouro; foram tantas as encontradas lá que os americanos puderam até presentear seus aliados com algumas delas::

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::Todo mundo ama um atirador de escol::

Pelo menos é o que parece, em função do interesse que os (poucos ) cometadores aqui do causa:: demonstram ter pelo assunto…

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Dois militares da Força Aérea dos EUA demonstram a “posição de amigo para atiradores de escol”. Os dois são membros do 506º Esquadrão de Segurança das Forças Expedicionárias, estacionado na Base Aérea de Kirkuk, Iraque. Essa instalação aloja uma “equipe de engajamento aproximado de precisão”,  composta por atiradores de escol da Força Aérea. Esses caras são especialista em “ações anti-sniper”, que buscam “anular” (ou seja, “matar”, na língua dos não-militares) atiradores terroristas  que ataquem forças dos EUA ou da coalizão. Cada base aérea dos EUA no Iraque aloja uma equipe dessas, geralmente composta por seis grupos. O número de atiradores de escol (jargão do Exército Brasileiro, claro) empenhado no Iraque é, proporcionalmente, muito maior do que o empenhado na 2a GM – tentem adivinhar o porquê… A arma é um rifle M24SWS (Sniper Weapon System), versão militar do rifle esportivo Remington, cal. 7.62X51 NATO. Essa arma já foi retirada do inventário do Exército dos EUA, mas continua muito popular, devido ao peso, considerado relativamente baixo (5,571 quilos, descarregado, sem o telescópio). A munição 7.62 é considerada excelente para a função, devido à potência do cartucho. O “amigo”  procura o alvo com um telêmetro ótico portátil::

Uma moça (de uniforme) às Segundas::

Agora que a moça do Pedro Doria se foi…

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Terceiro-sargento Theresa Lynn Flannery, infantaria do Exército dos EUA.  A sargento Flannery, que, na adolescência foi “Miss Teen” do condado de Madison, largou os estudos ginasiais aos 17 anos para alistar-se no Exército, onde permaneceu por 4 anos. Em 2003, se voluntariou para o Iraque, e, aos 26 anos, após uma operação realizada em Najaf, Iraque, em abril de 2004, tornou-se portadora das condecorações Estrela de BronzeCoração Púrpura.