Uma lambança às quartas::Uma flotilha de problemas::

Oficialmente, causa:: ainda não encerrou o mês de comemorações do final da 2ª GM. Os maiores especialistas no tema dizem que a configuração do mundo atual é produto, dentre outros motivos, do resultado da 2ª GM. Se é verdade, eis mais um motivo para amaldiçoarmos, em alto e bom som, o fascismo. Se Hitler tivesse feito sucesso como arquiteto ou pintor, é possível que hoje não estivéssemos tendo de aturar os frequentes insultos dos governantes do estado de Israel contra nossa inteligência. Os mais recentes dizem respeito à lambança praticada por seus estrategistas em águas internacionais, tendo como móvel meia-dúzia de navios mercantes carregados de carga não-bélica e boas intenções. E o redator:: não estaria tendo de rever um de seus mais preciosos conceitos: a competência das IDF (sigla de Forças de Defesa de Israel, em inglês). Mas como causa:: é, sobretudo, um blogue carregado de wishful thinking, tentemos fazer desse limão, uma limonada: estamos lançando uma nova coluna (que provavelmente se juntará à todas as outras que não deram certo…): Uma lambança às quartas:: (que, como é de praxe, pode sair – se sair – quinta, sexta… Sábado…). Claro que assunto não faltará: da Baía de Baffin ao Estreito de Magalhães, das ilhas Sacalinas à Baía de Guantánamo, lambança é o que as potências, reais ou pretensas, mais aprontam… 

Em diversas oportunidades, este blogue/recurso de pesquisa já explicitou que não tem posição política. Nos damos bem com blogues de todo o espectro político, desde a direita hidrófoba (que, claro, nunca se admite como tal) até a esquerda mais delirante (que claro, faz questão de se admitir como tal). Assim, causa:: se limita aos assuntos técnicos em torno dos grandes temas de interesse de estrategistas amadores, pesquisadores de história militar amadores, bem como outros amadores das mais diversas categorias que passam por aqui. Já apareceram nessas páginas virtuais muitos textos que abordam questões ligadas ao Oriente Médio e, por certo, Israel aparece em alguns. Nenhum, entretanto, tem por objetivo tomar posição, contra ou a favor. Entretanto, como observador (amador, claro) de política e relações internacionais, o redator:: não consegue deixar de se perguntar: onde estavam com a cabeça os governantes de Israel ao permitir que suas forças “de defesa” cometessem tal desastre? 

É certo que a Marinha de Israel (alguns dados gerais sobre a força, aqui) sempre foi, dentre os três ramos das IDF, o mais fraco. Sua história se inicia na época em que a Agência Judaica tentava enviar, da Europa, colonos judeus que se fixariam na Palestina e buscariam uma posição de força para o momento em que o Mandato Britânico se encerrasse. Lá ia o ano de 1938. Durante a 2ª GM, cento e poucos voluntários se juntaram à Marinha Britânica, atuando principalmente em ramos técnicos (eletrônica e mecânica, principalmente) – poucos estiveram em combate. Depois da fundação do estado de Israel, em 1948, a força naval israelense manteve-se como uma força de defesa costeira, com capacidade ofensiva quase nula. Durante a Guerra dos Seis Dias sua atuação limitou-se a algumas incursões contra a costa do Egito. Poucos meses depois, o “incidente Eilat” seria marcante na trajetória da Marinha de Israel: sua principal unidade, o contratorpedeiro-de-escolta “Eilat“, foi afundado numa ação de lanchas-patrulhas egípcias, ao largo de Port Said. Embora o incidente tenha sido abafado na época, com a ajuda das agências de imprensa norte-americanas, teve forte impacto na população em geral e na Marinha de Israel. Até então, população e governo israelenses davam pouca importância ao poder naval, visto que a principal influência, na região, era das marinhas norte-americana e soviética. A principal potência naval regional, a Turquia, mantinha, então, boas relações com o estado judeu. O “incidente Eilat” mostrou que, no estado em que se encontrava sua marinha, Israel não tinha o controle nem mesmo das águas adjacentes. O estado-maior das IDF começou, então, a desenvolver planos que focavam navios de pequeno porte, adequados ao combate de mísseis, capazes de bloquear a costa israelense e incursionar contra a costa dos principais estados árabes adversários – na época, Síria e Egito. Táticas e técnicas que possibilitassem esse tipo de atuação começaram a ser desenvolvidas, bem como vetores de armas capazes de cumpri-las. Foram adquiridos na França alguns navios-patrulha rápidos classe Sa´ar 2 (concebidos em Israel com base em um desenho alemão) e projetado, no próprio país, o míssil superfície-superfície Rafael. Em 1973, a mudança de foco mostrou resultados no encontro de Baltim-Damietta, contra um grande grupo de lanchas-patrulhas egípcias, durante a guerra do Yom-Kippur. Essa “mini-batalha naval” marcou uma espécie de redenção do “incidente Eilat”. Desde então, a Marinha de Israel transformou-se numa força de porte médio, dotada de meios modernos, centrados em corvetas e submarios. A ação diante de Gaza mostrou que a força naval tornou-se agente ativo na execução da “política de defesa” de Israel.

O problema é que essas políticas começam a se tornar contraproducentes. Atualmente, um dos eixos dessa política é o bloqueio de Gaza (maiores informações aqui), estabelecido em 2007. Inicialmente, essa ação tinha como alegação a tomada do poder na região pelo grupo islâmico fundamentalista de orientação sunita Ha´mas (acrônimo de Harakat Al-Muqawama al-IslamiaMovimento de Resitência do Islã), considerado por quase todos os governos interessados na questão como terrorista. Desde os anos 1980 gente ativo da questão da autonomia palestina, ora opositor, ora aliado do partido laico Fatah, o Ha´mas é visto com grande desconfiança pelas principais potências ocidentais, que não o aceitam como interlocutor político. Isolado, o Ha´mas acabou por abrir uma brecha para o aumento da influência iraniana sobre as atividades da militância palestina. O governo da Fatah na Cisjordânia mantem-se prudentemente distante dos iranianos, visto que busca o apoio da comunidade internacional para a causa do estado palestino. Em função dessa busca de apoio, o partido Fatah já aceita a convivência pacífica com o estado de Israel. O que não é o bastante – essa questão é mais ampla e problemática. Desde os anos 1960, e particularmente, da Guerra dos Seis Dias, os setores conservadores política israelense apoiam-se nos partidos religiosos que vêem com grandes ressalvas a criação de um estado árabe ocupando o que é, em geral, considerado como “a terra de Israel” (Eretz Israel), a região de Canaã, prometida por Deus ao “povo escolhido”. Esse é um fator que leva a questão palestina a um impasse, em função da exigência dos fundamentalistas judeus que parte da região fique sob controle de cidadãos de Israel, na forma de colônias povoadas por ortodoxos ligados aos partidos religiosos. Em Gaza o problema se torna mais sério: se o partido Fatah se dispõe a negociar uma saída política, a região um estreita faixa de terra de 41 kms de comprimento por 12 kms de largura, que consegue ser ainda mais pobre do que a Cisjordânia, o Ha´mas é o governo de fato – e não se mostra disposto à negociação, mas ao confronto (basta citar o caso dos foguetes Qassam). O governo de Israel, por outro lado, parece sentir-se autorizado, em função das restrições internacionais ao Ha´mas, a aplicar uma política que acaba por penalizar um povo que já vive no limite da sobrevivência.

No último dia 31 de maio, essa política de busca do confronto teve um desdobramento inesperado: pelo menos nove pessoas morreram  em uma ação militar israelense contra um grupo de pequenas embarcações que tentava desembarcar em Gaza gêneros de primeira necessidade. As versões são totalmente contraditórias, mas de concreto foi estabelecido, pelo autópsia realizada na Turquia, que os mortos foram atingidos por disparos de armas automáticas, pelo menos dois deles atingidos à queima-roupa. Embora Israel tenha, inicialmente, mostrado intenção de tratar todos os presos como potenciais terroristas, a falta de elementos e a ação injustificada diante do direito marítimo internacional, bem como a arrogância da postura das autoridades locais acabou por levantar uma onda, aparentemente inesperada em Israel, de protestos internacionais. Aparentemente incapaz de responder satisfatoriamente aos pedidos de explicação de inúmeros governos estrangeiros, o governo de Israel acabou por decidir pela atitude menos danosa: centenas de ativistas presos foram rapidamente deportados. Essa atitude não impediu o Conselho de Segurança da ONU de emitir declaração pedindo que o caso seja investigado de forma “imparcial, crível e transparente”.

Ao que parece, a abordagem dos navios visava dar reforçar a posição de Israel quanto ao bloqueio e à sua política palestina – não admitir nenhum tipo de apoio aos partidos palestinos que não passe por seu próprio projeto: um estado palestino com autonomia apenas parcial. Também parece ter buscado mostrar a admissão de interlocução apenas com governos. O uso de meios e força desproporcionais parece que visava reforçar a política de bloqueio total a Gaza, e marcar que qualquer tentativa de contato direto seria encarada como ato hostil, independente da procedência e das proporções. O ataque à “Flotilha da Liberdade” teve, proporcionalmente, a mesma intencidade da operação militar contra Gaza, em janeiro de 2009. Mas se o resultado daquela ação já foi duvidoso, o dessa foi um desastre. O ataque trouxe resultados inversos aos pretendidos, e abriu espaço para uma debate internacional totalmente indesejado, mesmo entre os aliados de Israel, que começaram a fazer associações diretas entre o bloqueio e a realidade observada em Gaza. Pior: as ações militares do governo de Israel passaram a ser tratados abertamente como “terrorismo de Estado”. Israel passou a ser cobrado pela situação de direitos humanos naquela região, até mesmo – ainda que, nesse caso, de forma ainda tímida – pelo governo dos EUA. Aliados tradicionais de Israel, tais como a Turquia, ameaçaram rever acordos de parceria e o apoio diplomático ao estado judeu, em fóruns internacionais. Segundo alguns analistas, o principal erro de avaliação de Israel foi a demonstração de indiferença ao Direito internacional, que se caracterizou com a abordagem não avisada dos navios em águas internacionais. Os acordos observados em tempo de paz negam tal autoridade a qualquer estado, salvo alguns casos específicos. Analistas, inclusive alguns reverberados pela própria imprensa de Israel, afirmaram que a “Flotilha da liberdade” não se enquadra em nenhuma dessas excessões. Segundo analista norte-americano, a operação visava provocar danos letais pois o uso de armas automáticas em locais restritos não é observada em método de controle de multidões. Essa constatação é agravada pelo fato de que dificilmente tiros instintivos atingem o alvo na cabeça. Qualquer força militar medianamente treinada e disciplinada dispõe de meios não letais que preservam, sem perder a eficiência, a integridade física de ambos os lados – munição de borracha, gás lacrimogênio, gás de pimenta, armas paralisantes, bombas de efeito moral – a lista é imensa e a força atacante não levava nenhum deles.

Foi, pois, um tiro no pé. Qualquer um que leia jornais diários sabe o quanto é difícil fazer cobranças ao estado de Israel, dado o apoio incondicional que esse país tem dos EUA. Entretanto, o atual governo norte-americano parece empenhado em recuperar, pelo menos parcialmente, a credibilidade internacional, perdida ao longo dos anos da presidência Bush. Além das relações com a Turquia, país por onde passam a maior parte das linhas de suprimento para as forças dos EUA no Afeganistão, além do perigo de tais atitudes fornecerem munição aos movimentos fundamentalistas, os norte-americanos se encontram empenhados em conseguir fazer passar na ONU sanções ao Irã, em função de suposto programa  de pesquisas nucleares bélicas. A antipatia internacional por Israel, proclamada em alto e bom som por dezenas de nações que viram seus cidadãos inculpados como terroristas e seus apelos arrogantemente descartados pelas autoridades judias certamente não ajuda a diplomacia norte-americana, principalmente considerando-se o fato de que a Turquia é um dos principais opositores as sanções pretendidas::

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