Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Idéias absurdas que ajudaram a vencer a guerra3::Lugares esquisitos que puderam ser visitados durante a Guerra: Islândia::

Em setembro de 1940, o presidente Roosevelt negociava com a Inglaterra o famoso acordo “destróieres-por-bases”, no qual cinquenta obsoletos “flush deckers-four pipes” mantidos na reserva pela Marinha dos EUA foram cedidos à Marinha Real. Os “flush deckers” (algo como “convés reto”, ou “convés livre”) de fato eram três classes de navios, deslocando cerca de 1200 toneladas cada um, construídos em massa (273 foram lançados ao mar) no final da Grande Guerra, entre 1917 e 1918. Em troca, a Grã-Bretanha cedia, por 99 anos, a concessão de diversas bases navais britânicas no Hemisfério Ocidental. O acordo causou surpresa não apenas nos círculos políticos londrinos, mas até mesmo nos EUA. Não foram poucas as observações tipo “a Inglaterra cedeu seu império em troca de alguns navios obsoletos”. Para a opinião pública nos EUA, os motivos também eram um tanto obscuros, já que qualquer participação em uma “guerra estrangeira” era alvo de grande implicância. Políticos, diplomatas e militares viam a coisa de modo diferente: as bases, situadas principalmente na região do Caribe, poderiam, rapidamente, ser estratégicas para a defesa dos EUA.

Para a Grã-Bretanha, por outro lado, a coisa era simples assim: a cessão dos contratorpedeiros, naquele momento, era vital para a sobrevivência da Inglaterra, cujas linhas de comunicação com a América do Norte – Canadá e EUA – estavam sendo esmigalhadas pela campanha submarina dos nazistas. Os destróieres (ou “contratorpedeiros”, em nossa língua) permitiriam aos britânicos montar um sistema de comboios mais eficaz, principalmente depois que os nazistas estenderam a zona de guerra até águas próximas da Islândia, em 11 de março de 1941.

Era um lugar literamente perdido no meio do Atlântico Norte, varrido por ventos cortantes e banhado por águas escuras e geladas, mas, naquele momento interessava aos EUA tanto quanto as paradisíacas ilhas do Caribe. A ilha, desde 1919 uma província soberana do Reino da Dinamarca, tinha sido ocupada pela Marinha Real, seguida por tropas canadenses, quase um ano antes, em maio de 1940. O ataque alemão contra o Reino da Dinamarca, em abril de 1940, resultou em uma campanha militar de seis horas de duração, com doze guardas-fronteiras dinamarqueses mortos e seis alemães feridos. Curiosamente, o estado  dinamarquês não foi dissolvido pelos nazistas, com o rei Cristiano sendo mantido formalmente como chefe de estado e o governo, de posições surpreendentemente anti-nazista, continuando no cargo, lógico que sob supervisão de funcionários diplomáticos nazistas, da Gestapo (“Polícia Secreta do Estado”, subordinada ao Ministério do Interior do Reich) e do sinistro Serviço de Segurança da SS (Sicherheitdienst, ou SD, chefiado pelo mais-que-sinistro gruppenführer Reinhardt Heindrich). A defesa, as relações exteriores e a econômia passaram a ser controladas pelos nazistas. Um dos principais motivos para a inédita atitude alemã foi o interesse em manter o fluxo de alimentos que vinha da produtiva zona rural dinamarquesa, com a qual os alemães mantinham intensa relação econômica. Mas, imediatamente, o OKW (Estado-maior das Forças Militares alemãs), preocupado com as linhas de suprimentos do ataque contra a Noruega, estava interessado em uma enorme base aérea situada na província da Jutlândia, que colocava quase todo o território e a costa noruegueses ao alcance da Luftwaffe. Um dos termos diante dos quais o rei Cristiano foi colocado, ao ser retirado da cama, na madrugada do dia 9 de abril, pelo embaixador alemão junto à Corte, foi que “posições de interesse militar” fossem abertas às Forças Armadas alemãs. A Islândia certamente cabia nessas “posições de interesse militar”, mas era muito longe, e entre ela e o continente estava a “Esquadra Metropolitana” da Marinha Real, a competentíssima Home Fleet. Embora os alemães confiassem em sua superioridade aérea como forma de superar o domínio dos mares britânico, era um projeto para o futuro.

A insistência do governo da Islândia em manter a posição de neutralidade que a Dinamarca tinha tentado adotar até ser invadida pela Wehrmacht foi a razão para a invasão britânica. A população local tinha diferenças culturais e políticas significativas com relação à metrópole dinamarquesa, e não queria tropas estrangeiras em seu solo, fossem quais fossem. A província dinamarquesa resolveu manter o status de “província independente” do governo metropolitano poucos dias depois da neutralidade dinamarquesa ser “colocada sob a proteção do Reich“. Ainda assim, as autoridades britânicas e norte-americanas manifestavam grande preocupação com um hipotética presença alemã na ilha, que fica a cerca de 1650 quilômetros da costa norueguesa e mais ou menos a mesma coisa da Escócia.  Uma razão para essas preocupações era a posição estratégica da Islândia, situada bem no meio do chamado GIUK Gap (“Greenland-Iceland-United Kingdom” – “Brecha Groenlândia-Islândia-Reino Unido”). Esse espaço de centenas de milhares de quilômetros quadrados de água gelada constitui uma passagem muito pouco frequentada entre o Mar do Norte e Atlântico Norte. Ainda hoje, os EUA mantèm uma base naval na ilha por este motivo. Com a ocupação da Noruega, os fiordes, um tipo de enseada longa, estreita e com águas calmas e profundas, tornaram-se lares adoráveis para os U-boats alemães, que, através do GIUK penetravam o Atlântico Norte – e a festança entre 1940 e 1942, não sem razão, foi chamada pelos submarinistas alemães de “tempos felizes”. Entretanto, a “neutralidade” norte-americana impedia qualquer ação que violasse a neutralidade islandesa. Os ingleses resolveram agir e enviaram um regimento de fuzileiros navais para a ilha, em uma flotilha de contratorpedeiros comandada por um cruzador ligeiro (naquele momento, era o máximo de que podiam dispor). Essa pequena força ocupou a capital, Reykjavik, em aproximadamente 12 horas, sem encontrar resistência.

Este ato, por outro lado, deu tanto a Roosevelt quanto a Hitler a desculpa de que precisavam para estender a todo o Atlântico Norte. No caso dos alemães, em setembro de 1940 a campanha submarina só não tinha interrompido as linhas de suprimento entre a Terra Nova e a Grã-Bretanha devido à falta de submarinos aptos a atuar em mar aberto – em setembro de 1939 a Marinha de Guerra Alemã dispunha de apenas uma dúzia capazes de sair em patrulha oceânica; em setembro de 1940, eram uns 40, mas dificilmente a metade estava operacional. Quanto ao governo norte-americano (o povo queria manter-se longe da guerra “européia”), este estava resolvido, após o desastre de Dunquerque, a rearmar as forças armadas britânicas e prover aos britânicos todo apoio que fosse possível sem ter que explicar ao Congresso e aos eleitores.

A permanência dos britânicos na Islândia mostrou-se problemática por diversos motivos. Embora as autoridades locais tenham se dirigido à população para que considerassem os britânicos como “convidados”, os ilhéus não demonstraram grande simpatia pelos ocupantes, e surgiram vários problemas com a população civil. A situação iria piorar conforme chegaram outras tropas para consolidar o controle britânico sobre a ilha. A população da ilha era de mais ou menos 120.000 pessoas, e os britânicos colocaram lá duas brigada do exército inglês, outra canadense, unidades de artilharia antiaérea, da Marinha, do Comando Costeiro da RAF e pessoal civis, chegando o total, cerca de seis meses depois, a quase 25.000 pessoas, o que provocou a necessidade de construir instalações em diversos lugares da ilha, a principal das quais o complexo de Hvalfjordhur. O ambiente não era agradável para as tropas birtânicas. A paisagem local era inóspita, com um clima frio e ventoso e praticamente não haviam árvores. A língua falada lá era difícil de entender por ser muito diferente do inglês – de fato, fala-se na Islândia uma versão do norueguês medieval, difícil até mesmo para dinamarqueses.

Mas o maior problema é que os britânicos precisavam das tropas estacionadas lá em outros lugares, e assim ficou estabelecido que a manutenção da ilha passaria para a responsabilidade dos EUA. As relações com os EUA já existiam, visto que, desde o rompimento com a Dinamarca, a Islândia tinha aberto uma legação em Nova York. Embora não houvessem propriamente planos em nenhum dos lados, os diplomatas islandeses chegaram a consultar os norte-americanos em torno da colocação da ilha sob proteção norte-americana. A invasão britânica interrompeu as conversações, embora tenham acontecido consultas entre britânicos e norte-americanos sobre o destino da ilha, em caso da entrada dos EUA na guerra. Em abril de 1941 funcionários norte-americanos procuraram a representação islandesa, pois o crescente envolvimento dos EUA na guerra – principalmente no combate à camapanha submarina alemã contra a navegação no Atlântico voltou a colocar ilha sob o foco dos EUA.  O presidente Roosevelt ofereceu, em 28 de mio para que os EUA assumissem a responsabilidade pela defesa da ilha, oferta que foi prontamente aceita por Churchill, que via no fato mais uma oportunidade  para trazer os EUA para perto das hostilidades. O problema maior era, como sempre, a posição isolacionista da opinião pública norte-americana, que ressoava fortemente no comportamento dos políticos locais. O gabinete d Rooselvelt resolveu que qualquer movimentação de tropas para a ilha só seria feita caso precedida de um pedido formal por parte dos locais.  Após o estabelecimento de termos que incluiam o total respeito à soberania islandesa, autodeterminação em termos administrativos e garantia de retirada logo que terminassem as hostilidades, o convite foi feito no final junho, e uma brigada de fuzileiros navais da Marinha dos EUA foi preparada para deslocar-se para a Islândia. Embora os britânicos não escondessem que estavam doidos para sair de lá, problemas com a preparação de uma grande unidade de infantaria, a 5ª Divisão acabaram por adiar a partida. A 5ª Divisão substituiu os fuzileiros navais na ilha, e foi seguida por uma série de outras unidades militares norte-americanas.

Em abril de 1942 as forças britânicas estavam quase totalmente fora da ilha, e no início do verão, a maioria daqueles já tinha sido removida, restando apenas elementos do Quartel general, que foram desmobilizados em agosto de 1942. Permaneceram, entretanto, unidades da RAF e da Marinha Real, envolvidos com o patrulhamento do GIUK e escolta de comboios – estes permaneceriam até o final da guerra. Conforme a maré da guerra ia mudando, até mesmo as autoridades britânicas em Londres pararam de falar em “ataque alemão” – ataque que, mesmo em 1940 tinha sido tão provável quanto o vôo de um porco. Os norte-americanos se convenceram, em 1943, que não eram necessários 15.000 infantes e um batalhão de tanques leves para defender a ilha, e despacharam a maioria dos elementos da 5ª Infantaria (três regimentos) para a Inglaterra. Ainda permaneceram por lá unidades de combate terrestre, de artilharia antiaérea, de artilharia costeira engenharia e tropas de apoio, bem como a maioria das unidades de patrulha aérea da Aviação Naval e vasos de superfície da Marinha dos EUA. Estes ficariam até o final da guerra. Embora a “Batalha do Atlântico” tenha sido incontestavelmente vencida pelos aliados em 1943, os U-boats continuariam a ser uma ameaça nada desprezível durante o restante da guerra.  

Quanto à Islândia, o acordo de soberania com a Dinamarca, estabelecido em 1919, deveria passar por revisão 25 anos depois, mas a invasão alemã colocou a questão sob outro foco. Em 1943, as autoridades locais, após consulta à população, resolveram romper unilateralmente com o governo dinamarquês, repudiando a monarquia e estabelecendo uma república. O novo estado foi oficialmente estabelecido em 17 de junho de 1944. Uma pequena força militar foi criada, sob a supervisão dos EUA. Os principais elementos dessa força eram (e ainda são) a Polícia Nacional, que pode ser convocada em caso de necessidade, e uma Guarda Costeira, composta de vasos de patrulha costeira e uma pequena dotação de aeronaves de patrulha.

Os ingleses deixaram a ilha em meados de 1945, quando os últimos elementos da Marinha Real voltaram à Grã-Bretenha. Alguns elementos da RAF foram deixados na ilha em função de necesidades de controle de tráfego aéreo. Os norte-americanos, apesar do acordo assinado com os islandeses, permaneceram. A Guerra Fria criou um novo panorama estratégico, e a “brecha GIUK” continuava lá – apenas os submarinos eram outros. Em 1946 um novo acordo foi assinado, garantindo aos norte-americanos a utilização das instalações militares e a presença de efetivos militares da marinha e da Força Aérea. Em 1949 a Islândia juntou-se ao Tratado do Atlântico Norte::

Anúncios

Reequipamento da Força Aérea Indiana::Dinheiro não é problema::

Mesmo se levarmos em conta os meios especializados, nosso país não parece ter dado lá muita bola para o resultado do MMRCA indiano. Está certo que a Índia é muito longe (uma viagem aérea, começando em São Paulo, vai ter duas escalas até Nova Delhi, e demorará 19 horas, pelo menos…) e nossos “formadores de opinião” estão mais interessados em locais civilizados, como Paris e Nova Iorque (qu´eu saiba, nossa Der Ang… – que dizer, nossa intimorata “Veja” não mantém “correspondentes exclusivos” informando a nós, tupiniquins, sobre as lojas de grife e restaurantes da moda em Bombaim…). Mas como o Brasil assinou, recentemente, um tratado com a Índia (o ministro Celso Amorim esteve lá, embora eu não tenha entendido muito bem para fazer o quê…), e, segundo o excelente blogue especializado “Poder Aéreo, os dois países compartilharão a avaliação do concurso MMRCA. Para causa::, foi motivo suficiente para uma pesquisa sobre o concurso. Às voltas com mais essa empreitada, descobri o excelente (e longo) artigo do jornalista austríaco especializado em aviação Georg Marder (sobre o qual não consegui levantar maiores informações). Ao que parece, Marder foi enviado à Índia, em fevereiro de 2011, para cobrir, como correspondente do site especializado ACIG.org (que aconselho os assíduos a colocar nos “favoritos”) a feira de aviação Aero-Índia 2011. Marder tece diversos comentários interessantes em torno da renovação da Força Aérea Indiana, com detalhes que oferecem um quadro bem completo da situação, a começar pelo título da matéria: “Aero-Índia 2011: Dinheiro não é problema.” Este curioso cabeçalho parece traduzir o espanto dele diante do que via – e, serei franco: não foi suficiente para traduzir o meu… Mas vamos ver o que o cara tem a dizer. Não esqueçam que a tradução é livre (trata-se de um austríaco, falante de alemão, escrevendo em inglês), a começar pelo título, editado por mim. O original é uma expressão alemã vertida para o inglês, e que não faz muito sentido em nossa língua. A edição do conteúdo foi feita para torná-lo mais claro e dirimir certas dúvidas, como colocar por extenso algumas abreviaturas que o autor parece nem ter notado; também resolvi converter os postos militares para os equivalentes das FFAA brasileiras, prática que não é consenso entre os tradutores-editores, mas que, para fins de esclarecimento, acho razoável. Por fim, espero não encher o saco dos assíduos mais do que o necessário. O original, para quem esteja disposto a tanto, pode ser conferido aqui::

Desafiada pelo que possível cenário de ser espremida entre os dois rivais, a China, em franca expansão, e seu “procurador militar”, o Paquistão, a Índia está envolvida num grande esforço para fazer equivaler sua capacidade militar e seu crescimento econômico. Na maior exposição aeronáutica e espacial da Ásia, a Aero Índia 2011, realizada no Aeroporto Internacional de Bengalaru, perto da cidade de Bangalore, entre 9 e 13 de fevereiro, a Força Aérea Indiana (Indian Air Force – IAF), apresentou vários de seus projetos. Até 2020, aproximadamente 1000 novos jatos e helicópteros serão adquiridos, fazendo da base aérea de Yelahanka a “feira multibilionária da vez” para a indústria aeroespacial internacional. Todo mundo estará lá. Bem, quase todo mundo…

O ministro indiano da Defesa, Shri A. K. Antony, abriu o evento sob os olhares atentos de uma “galáxia” de embaixadores, funcionários, representantes da indústria aeroespacial, expositores, interessados e jornalistas, procedentes de mais de 40 países. Em seu discurso inaugural, Antony expressou confiança de que o evento irá “aumentar ainda mais a emergência da Índia como um mercado atraente e um hub de terceirização chave para as empresas aeroespaciais globais”.

Para entender o alcance do que ocorre em torno do compromisso dos líderes indianos com a rápida modernização das forças armadas indianas, vejamos alguns números impressionantes fornecidos por Antony à imprensa especilizada presente: “Nosso país foi capaz de manter, entre 2009 e 2010, o crescimento do PIB em 7,2%, acima dos 6,7% registrados no crise dos anos de 2008-2009. O PIB deverá crescer a uma taxa de 8,5% durante 2011 e, portanto, as despesas com a defesa também vão aumentar substancialmente nas próximas duas décadas.” Na verdade, logo após o final da feira, em 28 de fevereiro, o ministro das Finanças Pranab Mukherjee anunciou um aumento de 12% no orçamento de defesa, com relação ao ano anterior – chegando a um total de US$ 36,5 bilhões.

Aos ouvidos dos observadore da “segura” e saturada Europa, isso provavelmente soou como música. No entanto, oficiais militares indianos em Yelahanka informaram ao ACIG que o esforço para aumentar o orçamento de defesa até 2,5% do PIB será, em parte, “neutralizado” pela inflação, que está em alta. É esperado, para o ano fiscal de 2011, que alcance 9,3%. Portanto, os gastos militares indianos poderão reduzir-se para 1,83% do PIB, muito menos do que 3% exigido pelas despesas com as forças armadas. Seria a segunda vez em três décadas que os gastos militares da Índia cairiam abaixo de 2% do PIB.

Então, por que o montante de recursos financeiros, junto com uma farra de compras sem paralelo – ainda que dificultada pela inflação – que, juntos vão dando a impressão de que, se o dinheiro não é problema, ainda não será suficiente? As respostas foram dadas pelo ministro da defesa, juntamente com o tenente-brigadeiro do ar (Air Chief Marshall) PV Naik, da Força Aérea Indiana: “Trata-se de China e do Paquistão – nesta ordem -, mas também a crescente esfera de interesses relativa às linhas de suprimentos que mantém o crescimento econômico da Índia”.

Guerra em duas frentes

“Sim, a modernização das forças armadas da China e seu crescente orçamento militar são questões que despertam grande preocupação”, disse Antony. O brigadeiro Naik confirmou a encomenda de um estudo sobre o novo caça chinês de quinta geração, o Chengdu J-20. Pequim aumentou seu orçamento de defesa para 2011 em 12,7%, para US$ 91,4 bilhões. Na sequência de um aumento de 7,5% em 2010, nos três anos anteriores o orçamento de defesa da China teve crescimento de 14,9%, 17,6% e 17,8%, respectivamente. Um relatório do departamento de Defesa dos EUA sobre o poder militar da China estima que os gastos militares reais nos últimos anos sejam pelo menos duas vezes maiores do que dizem os números oficiais.

Os dois países têm, de longa data, disputas de fronteiras na linha do Himalaia e, apesar de Antony sublinhar a vontade de continuar a trabalhar pela paz junto aos chineses, a Índia diz que a China ocupa ilegalmente 38000 km2 de seu território no noroeste, e Pequim ainda apresenta reivindicação sobre 90000 km2 do estado de Arunachal Pradesh. Em função dessa situação, a Índia tem reforçado sua presença militar ao longo da fronteira com a China. Foram transferidos para a região milhares de efetivos terrestres, equipados com blindados e artilharia, e bases aéreas capazes de receber os Su30MKI, situadas a 9000 pés acima do nível do mar estão sendo ampliadas. A China instalou, no Tibete ocupado, uma base capaz de receber os clones locais do Su27SK, os J11.

Por outro lado, oficiais militares indianos, funcionários da indústria e jornalistas presentes em Bengaluru confirmaram ao ACIG a opinião geral de que o rival Paquistão é “cada vez mais uma colônia militar chinesa.” Para os indianos, parece óbvio que as relações entre Paquistão e China estão se tornando mais estreitas, de modo que os dois países poderiam juntar-se contra a Índia. Segundo essas fontes, as evidências são numerosas, a começar pela crescente presença chinesa na Caxemira, ocupada pelo Paquistão. Assim, uma guerra em duas frentes é vista como possibilidade real e tem influenciado a doutrina indina de defesa, mas a estratégia tem sido manter a moderação e aumentar, de forma segura, suas próprias capacidades militares. Estes dois aspectos foram apresentados como as razões para as recentes aquisições de aeronaves de transporte C17 Globemaster e Hercules C130J, da aeronave de combate leve Tejas, do novo patrulheiro marítimo P-8I Poseidon, e os investimentos no caça de quinta geração russo-indiano PMF, bem como no contrato MMRCA.

Outra ilustração do motivo pelo qual a Índia está no foco de todos os players mundiais do “circo” da indústria aeroespacial é que – sublinhou para o ACIG o brigadeiro Naik – nos vemos como “uma potência regional com interesses globais. Nossa esfera de interesses econômicos, políticos e culturais está em causa, pois se espalha em uma área que, partindo do estreito de Ormuz, vai além do estreito de Málaca. É preciso compreender que as necessidades energéticas indianas também estão crescendo e temos de nos preparar defender os interesses nacionais além de nossas fronteiras… ”

A modernização “Mãe de todos os negócios”

A Índia pretende assinar, por volta de setembro de 2011, um contrato de US$10-12 bilhões, para 126 Aeronaves de Combate Médias Multifunção (Medium Multirole Combat Aircraft – MMRCA), vista por todos os fabricantes de aviões militares como o negócio mais lucrativo da década. Começando com 126 unidades, pode chegar a duzentas. O brigadeiro Naik explicou, durante a feira: “Na sequência das avaliações técnicas feitas nos próprios países de origem, em 2010, o ranking técnico foi estabelecido. Os seis fornecedores atenderam a 95% dos 643 requisitos. Agora espero que a comissão de negociação comercial (CNC) para o MMRCA se reúna em março para começar as avaliações de preço no sentido de selecionar os mais vantajosos, e espero assinar o contrato antes de sair em julho – desde algum fornecedor insatisfeito não jogue areia na máquina e atrase todo o processo ..! ”

No entanto, as considerações estratégicas mencionadas também estão influenciando o concurso. Em 2010, os EUA forneceram ajuda militar de US$ 2,29 bilhões ao Paquistão, levantando sérias preocupações entre o establishment de segurança da Índia. Delhi também está inquieta sobre o fornecimento de F16 lote 52+, a maioria dos quais está baseada em Shahbaz, no sudeste do Paquistão. Por este motivo o Lockheed-Martin F16IN Super Viper pode ter de enfrentar uma “dura batalha” na Índia, agravada pelo fato de ser um conceito que remonta à década de 1970. Ainda assim, dois F16C da USAF, estacionados na base de Misawa, Japão, e dois F16F lote 25, dos anos 1970, pertencentes à Força Aérea dos Emirados Árabes Unidos, foram trazidos para Yelahanka. O astro da versão “bollywoodana” de “Top Gun”, Shahid Kapoor (“Mausam“) puxou alguns Gs nessas aeronaves…

Outro aspecto que comprometem as chances do F16 – e também as dos Boeings 18E/F SuperHornet – é a questão da plena transferência de tecnologia, cláusula pétrea do contrato indiano. O ITAR (International Traffic in Arms Regulations – “Regulação para o Comércio Internacional de Armas”) é uma lei norte-americana que impõe restrições à exportação e importação de artigos relacionados com a defesa. O Departamento de Defesa dos EUA impõe essas regras com o objetivo de salvaguardar a segurança nacional dos EUA e implementar os objetivos de política externa do país. Declarações feitas ao ACIG deixaram clara a disposição do Congresso dos EUA em “interpretar” esses regulamentos do modo como a Índia espera, que pode significar “tudo ou nada” para os dois concorrentes norte-americanos.

O F18E-F tornou-se, na Aero Índia, o primeiro caso de “jato mutante” visto em qualquer linha de vôo. A versão apresentada no primeiro dia da feira foi um modelo “F”, biposto, pertencente ao esquadrão VFA113 da Marinha dos EUA – o industrial indiano Ratan Tata fez um vôo neste avião; no dia seguinte, a aeronave transformou-se num  “Inseto Silencioso” [nota de causa:: tradução livre de “Silent Bug”, possível trocadilho intraduzível resultante da combinação, pelo autor, do nome Silent Hornet, atribuído pela Boeing a nova versão (sem compradores) do SuperHornet, e a expressão bug, que no jargão da área tecnológica significa “problema” – ao pé da letra, Hornet e Bug são insetos]. Não tinha marca alguma, e trazia nos controles o piloto de testes da Boeing, Ricardo Traven. Juntos, tinham a função de explicar o programa SuperHornet International Road Map. Claro, os novos acessórios, como tanques de combustível e pods de armamento conformais para aumentar as capacidades stealthy da aeronave, indicadores de iluminação por laser, um equipamento de IRST (Infra-Red Search Track – “busca e rastramento de ondas infra-vermelhas”) colocado embaixo do nariz, eram apenas mock-ups de plástico, e ainda não existem de fato. Foi dito que não constavam da oferta apresentada ao MMRCA. Estas melhorias estariam disponíveis, posteriormente, para os clientes internacionais, como talvez seja o caso do Japão (que, mais tarde, pode, entretanto, ter outros problemas …).

A impressão geral, para nós do ACIG, em Bengaluru, foi que os concorrentes mais fortes no concurso são os “Eurocanards” – Dassault Rafale, Eurofighter Typhoon e um pouco atrás,  o Gripen NG. Estes seriam as escolha preferidas e que a IAF irá decidir entre eles.

O Rafale foi apresentado como substituto para o Mirage 2000-5, originalmente o concorrente para a ser apresentado ao concurso, mas que foi retirado em função do fechamento das linhas de produção do Mirage e da entrada de aeronaves muito mais avançado na competição. Apresentado na Índia pelo comandante da Armée De l´Air general Jean Paul Palomeros, é um projeto de origem cem por cento da francesa Dassault, o que constitui uma vantagem no que diz respeito à questão da transferência de tecnologia. Alegou o general que o Rafale tem uma vantagem sobre o Typhoon e sobre o Gripen: ao contrário destes, não têm componentes fabricados nos EUA e não está sujeito às restrições dos ITARs. O governo francês autorizou a transferência de tecnologia completa para a Índia, incluindo o radar AESA RBE2-AA, bem como dos códigos-fontes dos softwares da aeronave, o que permitirá a IAF integrar qualquer equipamento, aviônico ou arma, às aeronaves adquiridas.

O Gripen NG impressionou a IAF por suas capacidades de pouso e decolagem em distâncias curtíssimas e certamente terá uma chance, caso a comissão leve em consideração que originalmente o MMRCA seria um concurso para aeronaves de capacidades intermediárias. Por ora o sueco continua a ser um azarão: um candidato consideravelmente mais barato (mas estamos vendo um concurso onde o dinheiro parece não ser problema!). Por outro lado, o radar AESA Selex-Saab ES-05 “Raven” está com seu desenvolvimento atrasado  – e esses radares são um critéiro básico para a IAF. A versão “engordada” do NG é ainda apenas um protótipo e, muito semelhante ao LCA indiano, o Tejas.

O desempenho mais convencional foi o do russo MiG35 – que tem aparecido pouco. Com vários problemas relatados durante os testes da fase de avaliação, é considerado pelo IAF como pouco mais que um upgrade do MiG29. É verdade que o único demonstrador do MiG35 é o ex-MiG29M2 n° 154, no qual o autor voou em 2003 e cujo piloto ele encontrou novamente como pareceiro no seminário que aconteceu em paralelo à Aero Índia. O caça russo parece que efetivamente fora da disputa. Mas, de acordo com as mesmas fontes, a Rússia não estaria muito ofendido com isso. Devido a irritação do Kremlin com o insucesso  do MiG35, o diretor de longo data da estatal United Aircraft Corporation – o legendário projetista do Su30MKI, Alexey Fedorov – teria sido substituído pouco antes do início da feira pelo influente executivo dos projetos Sukhoi e MiG,  Mikhail Pogosian. No entanto, outro grande bolo russo está sendo  assado no forno indiano…

Tentativa de quinta geração

Talvez devido aos temores da Lockheed-Martin e do Pentágono de que o F16IN não seria selecionado – nos meses anteriores à abertura da feira correu um boato sobre a possível participação indiana no programa longo programa F35. Questionado sobre essa idéia, uma obviamente irritado ministro Antony esclareceu: “Já estamos associados a Rússia na produção de um caça de quinta geração. Nenhum outro país ofereceu-nos estas tecnologias no passado, ou para o futuro. Estamos muito à frente agora na parceria com a Rússia. Um recuo está fora de questão..!”

Em dezembro de 2010, as russas UAC  e Sukhoi assinaram um protocolo de intenções com a gigante indiana do setor aeroespaccial HAL (Hindustan Aeronautics Limited), para desenvolver conjuntamente o projeto para um novo caça multifunção de quinta geração, baseado no desenho Sukhoi T50 (PAK FA), cujo segundo protótipo voou em 3 de março de 2011. Os custos globais do projecto podem alcançar US$ 6 bilhões e, de acordo com o executivo-chefe da UAC. Mikhail Pogosyan, “… o trabalho entre a Índia e a Rússia será distribuído na proporção 35/65. Entre 200 e 250 unidades estão previstas para ambas as forças aéreas. “Pogosyan também disse ao ACIG que a demanda indiana volta-se principalmente para a versão biposto, que hoje chamamos PMF (Perspectival Multirole Fighter – “Caça Multifunção em Perspectiva’), que não estava, originalmente, na agenda da Sukhoi. O brigadeiro Naik acrescentou: “Estamos à procura de um avião de quinta geração. Estamos à procura de uma aeronave, que seja capaz de desempenho supercruise, equipado com armas de longo alcance, dotado dos mais avançados sistemas de aviônica, que não existem em uma aeronave de quarta geração. Nós também achamos que em cenários modernos altamente saturados da guerra eletrônica e contramedidas eletrônicas, com o engamento de alvos em tempo real e por enlaçamento de dados, e num ambiente BVR com novos mísseis, você precisará de um segundo tripulante. Nossa data de para começar com este projeto é 2017 … ”

Teimosia local

A Índia se diz a maior democracia do mundo e parece que, de alguma forma, sua burocracia também tem de ser tratada nessa ordem de grandeza. Várias vezes, suas instituições pararam, interromperam ou revisaram aquisições de defesa, e recentemente uma tentativa de adquirir reabastecedores A330 foi cancelada pela burocracia financeira devido à questões de preços (superfaturados). Devido a tais fatores – em alguns casos, justificados – mas também a contratempos técnicos, muitos dos assim chamados “projetos locais” [nota de causa:: tradução livre de um trocadilho intraduzível – e meio besta – entre as palavras “indigenous”  e “indian“], e até  mesmo algumas parcerias internacionais acabaram arrastando-se por anos, até por décadas. Ainda assim, esses projetos foram teimosamente  continuados por vários governos, e dois deles deram eloquente sinal de vida na Aero Índia 2011.

Somente em janeiro o HAL-ADA [nota de causa:: Aeronautical Development Agency – um consórsio governamental estabelecido em 1984 para gerencial o projeto] do LCA (Light Combat Aircraft “Aeronave de Combate Leve”) “Tejas“. Esta aeronave foi homologada pela IAF, abrindo caminho para o recebimento das primeiras 100 unidades do Mark 1, equipado com o propulsor GE404. O projeto remonta a 1990, numa tentativa de substituir uma centena de obsoletos MiG21, mas seu primeiro vôo não aconteceu até 2001. E foi preciso esperar até 2008 para que voasse a versão de produção. Agora, uma versão “Mark 2” muito melhorada, assim como uma versão naval biposto, foram anunciadas para 2014, equipados com o propulsor  GE414. Enquanto o coronel (group captain) Krishna colocava o protótipo PV2 para mostrar suas qualidades, foi explicado que o “Tejas” pode transportar quase 60 por cento ​​de seu peso básico de 7 toneladas em carga bélica, uma relação inigualável por qualquer aeronave moderna. O delta sem cauda indiano é chamado “o menor dos modernos aviões de combate” e incorpora (pelo menos parcialmente) um sistema  quadruplex de controle digital (fly-by-wire), um avançado glass-cockpit e será uma aeronave multimissão para qualquer tempo. O radar é um ELTA EL/M2032 multimodo.

Não menos importantes são alguns dos impressionantes números em torno das aquisições da IAF, que deverão tornar ainda mais eriçada a imagem da Índia: 80 Mi171V5 estão sendo adquiridos e uma outra competição para definir a aquisição de 22 helicópteros de assalto deverá ser vencida pelo AH64 lote III e uma outra, similar, está avaliando helicópteros pesados de transporte, estando entre o Mi26T, CH47F e uma variante do CH53. Claro, esses não tem nada a ver com o novo helicóprtero leve de combate (LCH) da HAL, de 5,5 toneladas, e que voou mais ou menos um ano atrás e deverá ser adquirido pelo Exército Indiano em números de até 180 unidades. O primeiro protótipo voou durante a feira, o outro, apresentado em exposição estática, numa camuflagem pixelizada. Cento e vinte e três jatos de treinamento avançado e ataque leve Hawk, vinte anos depois do processo de seleção, estão em produção na HAL, enquanto 120 Jaguar e 57 Mirage 2000 estão em vários estágios de modernização::

Uma foto curiosa, um navio mais curioso ainda::

De fato, não se chegou a um acordo, até agora sobre a real nacionalidade do navio fotografado no Mar da China (embora alguns blogues refiram-se ao local como sendo o “Mar Amarelo”). O diretor da empresa de análise estratégica DigitalGlobe, dona da fotografia, Stephen Wood, disse estar certo de ter apanhado, em testes de mar, o navio-aeródromo de ataque (NAeA) Shi Lang, destinado a tornar-se capitânea da renovada e crescente esquadra da Marinha do Exército de Libertação do Povo (é este o curioso nome da marinha de guerra chinesa). O NAeA estaria conduzindo a segunda bateria de testes de mar, que duraram aproximadamente duas semanas, entre novembro e dezembro do ano passado. A análise da foto indica, pela intensidade da trilha de espuma, que deveria estar desenvolvendo dois terços de sua velocidade máxima, ou seja, uns 25 kts (a máxima seria de uns 33 kts). Depois do retorno às docas do Estaleiro Naval de Dalian, informes de inteligência dizem que começaram a ser instalados os cabos de parada, o que significa que os próximos testes serão de decolagem e pouso de aeronaves, embora seja impossível dizer ser esses testes já incluirão os pesados caças multifunção navais J15.

Este navio tem gerado crescente interesse por parte dos analistas ocidentais, pois é indicativo de que a China pretende, a médio prazo, tornar-se uma potência naval. Os  chineses tem estado, nos últimos dez anos, engajados num ambicioso programa de modernização naval. A Marinha do Exército de Libertação do Povo sempre foi uma força de grandes proporções, organizada com auxílio dos soviéticos a partir da vitória da Revolução Comunista, no Final dos anos 1940. Entretanto, oitenta por cento de seus navios, durante a Guerra Fria, eram barcos-patrulhas de pequeno porte e submarinos costeiros convencionais, cedidos pelos soviéticos ou construídos localmente, com base em tipos soviéticos da Segunda Guerra Mundial. Nos últimos anos, esses barcos estão sendo retirados de serviço e substuituídos por tipos modernos, desenhados por técnicos formados em univerisdades e estaleiros da Rússia, Ucrânia e Polônia. As novas aquisições incluem todos os tipos necessários para criar um grupo de batalha centrado em navios-aeródromos. Isso inclui contratorpedeiros porta-mísseis da nova classe 052C, Lanzhou e um tipo de fragata multitarefa, a classe Jiangkai II . Estão  também no foco dos planejadores chineses submarinos nucleares, mas parece que estes têm sido mais difíceis de desenvolver. A tecnologia naval não é algo que se consiga da noite para o  dia, e, em certos casos, tem de ser formada ao ongo de muito tempo… ou copiada. No caso de navios-aeródromos, é exatamente este o caso: são poucos os países que sabem construí-los e os que sabem hesitam em ensinar, visto que se trata de uma arma de dissuação estratégica “limpa”.

Temos, então, uma longa história. O navio começou a ser construído na época da antiga URSS. Suas origens remontam a 1981, quando o ministro da defesa soviético, marechal Dmitri Ustinov, visto como antipático a gastos com belonaves de grande porte, embarcou no “cruzador pesado porta-aviões e porta-mísseis” Kiev para assistir aos exercícios navais West 81, que reuniam os principais elementos da Esquadra Soviética do Atlântico Norte. Parece que, na ocasião, Ustinov convenceu-se da necessidade de dotar a esquadra soviética de uma arma aérea, com aviões de fato, e não apenas helicópteros e o espúrio Yakovlev Yak 38 “Forger”, um caça de decolagem vertical cujo desempenho era nada mais que pífio. Ainda em 1981 foi decidido que uma nova classe de “cruzadores pesados porta-aviões e porta-mísseis” seria desenhada pelo PKB (escritório de projetos navais) Nevsky, de Leningrado, e que a classe teria duas unidades: o Tsibili e o Riga. Contratados pouco depois, os dois navios foram construídos em estareiro ucraniano (a Ucrânia era então uma República Socialista Soviética). O Almirante Kuznetsov foi lançado ao mar em 1985 e somente tornou-se operacional em 1995, estando ainda em serviço na Marinha da Rússia. Por motivos políticos (após o fim da URSS, tanto Tsibili, na Georgia, quanto a letoniana Riga passaram a ser cidades estrangeiras com relação à Rússia) os nomes dos navios foram mudados para Almirante Kuznetsov (ministro da marinha durante a Segunda Guerra Mundial) e Varyag (“Varego”, um dos povos nórdicos conhecidos de forma genérica como vikings, que colonizaram porções do atual território europeu da Rússia).

Nessa mesma época, os soviéticos decidiram dotar sua marinha de um avião naval de verdade. A melhor opção pareceu criar uma versão navalizada da melhor aeronave multifunção então disponível, o Sukhoi Su27. A aeronave resultante foi o Su33 “Flanker D”, projetado a partir da primeira metade dos anos 1980, paralelamente à construção dos Kuznetsov. A característica interessante dessas aeronaves era que decolavam através de sky-jump, um curto ressalto de cerca de 7° positivos na porção de vante do convés de vôo dessas belonaves. Os ingleses também adotaram o mesmo desenho nos navios adaptados ao uso da versão navalizada da aeronave VTOL (Vertical Take-Off and Landing) Harrier (a que combateu nas Falklands/Malvinas). O sky-jump foi incorporado pelos russos aos “cruzadores etc.-etc” da classe Kiev, que usavam o Yak38, de peso bem menor que os SU33. Esse recurso tem a vantagem de dispensar a catapulta, mecanismo que pode aumentar o peso do navio em até 8 por cento, além de diminuir o estresse sobre a estrutura da aeronave. Por outro lado, uma aeronave convencional não consegue decolar a partir de um sky-jump com toda a carga útil, que, no caso do Su33 pode reduzir-se a pouco mais da metade. Os russos perceberam que uma das maneiras de implementar a performance da aeronave na decolagem seria acrescentar-lhe canards, pois estes ajudam a elevar o nariz, e tornam a superfície alar maior sem a necessidade de redesenhar radicalmente os aerofólios. A inserção dos canards também reduz substancialmente a velocidade de aterrissagem, devido ao aumento do arrasto aerodinâmico, além de aumentar a performance da aeronave em velocidade supersônica.

Os Su33 formariam os grupos aéreos dos novos “cruzadores pesados etc. – etc.”. O primeiro da classe, o Kuznetsov, entrou em serviço, ainda que meio aos trancos e barrancos, no prazo; o segundo da classe, o Varyag, teve um destino nada glamuroso. Começou a ser construído alguns meses depois de seu irmão mais velho, mas acabou sendo atingido em cheio pela crise da União Soviética, sofrendo diversos atrasos até ser abandonado em definitivo em 1992. O casco ficou encostado numa doca na cidade de portuária ucraniana de Nikolayev por anos, até ser vendido “no estado”, em 1998, para um “consórsio” de investidores chineses denominado Chinluck Holding, que para todos os efeitos, operava hotéis e parques aquáticos a partir de Hong Kong – embora não se soubesse do endereço dos hotéis e muito menos de alguém que tivesse dado um mergulho em suas piscinas. Entretanto, os “investidores” insistiam que pretendiam usar o casco enferrujado como “centro de diversões flutuante” na cidade de Macau, para onde a coisa foi rebocada, numa jornada rocambolesca de (acreditem ou não… ) mais de três anos. Para complicar, as autoridades de Macau, então ainda uma colônia portuguesa, recusaram-se a admitir o casco na baía da cidade, considerada muito rasa para as características daquele tipo de navio, de modo que o comboio foi desviado para a planta naval da cidade de Dalian, no nordeste da República Popular da China. Nada tão estranho: posteriormente foi revelado que o tal “consórsio” era uma empresa testa-de-ferro da Marinha do Exército de Libertação do Povo, e já tinha adquirido outros NAe desativados, inclusive o ex-HMAS Melbourne (NAeL – navio aeródromo ligeiro – da Marinha Real Australiana, da classe Majestic, igual ao brasileiro Minas Gerais) para estudos. A história acabou virando piada nos meios de inteligência, como “o segredo militar menos secreto da China”. Entretanto, e sabe-se lá o motivo, as autoridades do país guardaram silêncio sobre os planos para o navio, fotografado com frequência, por satélites de reconhecimento, sendo reformado. O tal “consórsio” chegou a distribuir notas sobre a inauguração do “cassino flutuante”.

Somente no ano passado a China admitiu estar construindo um navio aeródromo,  e que estavam sendo programados testes de mar para “muito breve”. Já que o Varyag tem um deslocamento de umas 65000 toneladas, estima-se que possa receber um grupo aéreo de umas 40 aeronaves, pelo menos. Ou seja, são bem menores do que os NAeA nucleares da classe Nimitz, de 100000 toneladas de deslocamento e com um complemento aéreo de 70 aeronaves de asa fixa. Por outro lado, é bem maior do que o NAe nuclear francês Charles DeGaulle e equivalente aos britânicos da classe Queen Elizabeth. É bem provável que o grupo aéreo do Shi Lang seja formado por caças navais J15 “Tubarão Voador”, uma cópia obtida por engenharia reversa do Sukhoi Su33. A China tentou comprar alguns SU33 novos de fábrica por volta de 2001, mas os russos já estavam desconfiados do interesse chinês em comprar pequenas quantidades de aeronaves prometendo comprar mais depois, e não fizeram a venda. Segundo consta, pouco depois os chineses conseguiram um protótipo incompleto da aeronave que tinha sido deixado na Ucrânia, e a completaram com propulssores e aviônicos produzidos localmente, de desempenho muito inferior aos dos originais russos.

A China tem tido problemas com a indústria aeronáutica russa desde que a empresa Shenyang Aircraft Corporation conseguiu copiar, sem permissão  o Su27SK, denominado lá J11B. A aquisição do Su27SK, foi feita no início dos anos 1990, diretamente da fábrica, e, em 2007, os chineses alegaram que tinham produzido uma “nova estrutura”, que “apenas se parecia” com a aeronave russa. Desde então, os dois países tem estado envolvidos numa disputa sobre quem tem razão. Não se sabe quantos J15 foram produzidos, mas certamente será esse avião que decolará do sky-jump do Shi Lang.

O fato é que a China parece empenhada em contituir uma marinha moderna, capaz de manter a superioridade sobre as águas proximas de seu litoral e sobre os acessos á essas águas. As águas próximas consideradas pela China como zonas de defesa estão cercadas por um arco de potências rivais que dispõem de alguma capacidade naval: Coréia do Sul, Taiwan e Japão. Mas a ameaça mais seriamente considerada é a base naval norte-americana de Yokosuka, a única fora dos EUA que tem um NAeA permanentemente estacionado, o USS Kitty Hawk. Em 2010, um exercício naval envolvendo uma força tarefa norte-americana liderada pelo NAeA nuclear George Washington, envolvendo dois cruzadores e dois contratorpedeiros e dez belonaves da bem organizada marinha sul-coreana foi considerado pelos chineses como uma afronta. O golpe foi ainda mais sentido pelo simples fato de que a China não possuí, por ora, meios para opôr-se eficazmente à presença de potências estrangeiras em “suas” águas. Se o Shi Lang já estivesse operacional, um força-tarefa liderada pelo NAeA chinês seria certamente enviada para “sombrear” o exercício dos EUA. E talvez tivesse feito diplomatas e militares norte-americanos considerarem se o risco de um incidente com a China valia à pena. Na época da Guerra Fria, era comum que tanto EUA quanto a URSS realizassem exercícios navais nas águas ribeirinhas (mar aberto adjacente à costa de um país) dos outros, mas nunca navios de um fizeram exercícos em frente à costa do outro. Para isso servem as FFAA – para “dissuadir”, como dizem os diplomatas.

Por isso analistas especializados têm afirmado que a China terá de criar uma força naval considerável, caso ambicione torna-se uma potência global. Esses analistas apostam que o Shi Lang  estará operacional por volta de 2015, e que nos proximos anos, os chineses irão construir pelo menos mais três desses navios. A corrida naval que parece se avizinhar envolve também a Índia, uma potência militar de bom porte, mas que se vê pressionada pela aparente disposição chinesa em estender sua presença até o Oceano Índico e a Costa Oriental Africana. A Índia tem ampliado seus gastos militares e se diz disposta a ampliá-los ainda mais, ao longo dos próximos dez anos. A Marinha Indiana deve contar, em 2016, com o primeiro de dois novos NAe’s (chamados lá de “navios de defesa aérea”) da classe Vikrant, de 40000 toneladas, construídos pela indústria local com forte apoio russo.

Tudo isso mostra como estava certo o ex-presidente norte-americano Bill Clinton, que durante uma visita ao USS Theodor Rooselvelt, afirmou que, “quando chega a Washington a notícia de uma crise, não é por acaso que a primeira pergunta que vem à boca de todo mundo é: onde está o porta-aviões mais próximo?::