M-8 Greyhound::O avô do Cascavel::

Passados os “temas polêmicos”, vamos a um menos polêmico… Ou talvez nem tanto. Tanto quanto a Força Aérea e a Marinha – sobre cujas agruras falamos, ao longo dos últimos anos, um pouco mais, o EB costuma a ser tratado pelos governos, sejam militares  ou civis, a pão e água. Sem dispor de fundos para adquirir equipamentos atualizados, o EB costuma a se virar de três maneiras: adquire equipamento de segunda categoria, nos EUA e, muito menos, na Europa; moderniza equipamento obsolescente, de modo a possibilitar seu uso durante mais algum tempo; investe recursos pesquisando formas de produzir equipamento. Ao longo doos últimos 60 anos, algumas instituições como o CTEx (Centro de Tecnologia do Exército) e o IME (Instituto Militar de Engenharia), que se tornaram centros de excelência em pesquisa aplicada. Essas instituições desenvolvem pesquisas que são repassadas, quando da operacionalização, à empresas privadas, que colocam os projetos em produção. Ultimamente, foi exatamente o que aconteceu em relação ao novo veículo blindado que deverá começar a ser distribuído às unidades de infantaria e cavalaria blidada do EB – o “Guarani“. O CTEx desenvolveu o projeto e a empresa IVECO, filial da FIAT, o colocará em produção. O “Guarani”, um VBTB de seis rodas tracionadas, deverá substituir o “Urutu”, também desenvolvido pelo Exército, mais de quarenta anos atrás. Naquela ápoca, os problemas eram semelhantes – o EB estava às voltas com a obsolescência de seu equipamento, que, em boa parte, remontava à segunda Guerra Mundial. Vamos apresentar uma dessas peças. Venerável. E que acabou originando um dos primeiros grandes sucessos da indústria de defesa nacional::

No início da 2ª GM, muitos exércitos faziam uso extensivo de carros blindados sobre rodas. A Blitzkrieg, nova modalidade de doutrina militar desenvolvida nos anos 1930 pela Alemanha, fazia amplo uso de operações motorizadas e tinha introduzido, desde seus primórdios, a utilização de carros blindados sobre rodas como elementos de unidades de reconhecimento. Em 1939 as Divisões Blindadas (Panzer), Divisões Ligeiras (Leichtdivisionen – divisões blindadas com um complemento menor de tanques) e Divisões de Infantaria Blindada (Panzergrenadierendividisonen) estavam amplamente dotadas de carros blindados, chamados Panzerspahwagen  – Leichte (leve) e Schwere (pesado), de até 8 rodas, equipados com metralhadoras e canhões automáticos que variavam entre 2 cm e 3 cm. O desempenho dessas máquinas era considerado excelente para as funções que deviam cumprir – reconhecimento e exploração avançada – dada a alta velocidade e mobilidade, embora a capacidade “fora de estrada” fosse limitada. Os britânicos também faziam extenso uso de carros blindados sobre rodas, particularmente no Norte da África e Oriente Médio, onde a configuração do terreno favorecia, em particular, esses veículos.

Os norte-americanos, que já naquela época, sediavam a mais avançada indústria de veículos automotivos do mundo, paradoxalmente eram o país industrializado que menor uso fazia de carros blindados. O problema era a doutrina. Durante os anos 1920, a doutrina norte-americana de combate motorizado baseava-se no conceito de “cavalaria mecanizada”, que punha demasiada atenção no deslocamento de veículos motorizados por estradas, para enfatizar a velocidade, tida como fator de choque – chegaram a ser distribuídos tanques que, em estrada, se deslocavam sobre rodas, sem as esteiras. Os americanos acreditavam que a velocidade seria uma vantagem, visto que poderia prover proteção adicional a veículos relativamente leves. Como desdobramento dessa doutrina, surgiu, no final dos anos 1920, a idéia de scout car (algo como “carro escoteiro”, “carro que vai na frente”).

A idéia começou a ser desenvolvida pelo Departamento de Munições do Exército dos EUA (US Army Ordnance Department), no início dos anos 1930. Tratava-se de um veículo de reconhecimento, rápido e manobrável, cujas tarefas seriam a exploração da frente e identificação das unidades inimigas, e, eventualmente, apoiar ataques pelos flancos do adversário. Esses veículos de reconhecimento começaram a ser distribuídos em meados dos anos 1930. Referenciados pelo Exército como M1, M2, M3 e M3A1 (o último modelo distribuído, já durante a guerra) , eram, essencialmente, caminhões dotados de blindagem leve e armamento muito fraco (normalmente uma metralhadora Browning cal. .50 não protegida). Tinham 4 rodas tracionadas, mas o sistema, pensado para incorporar o máximo de peças oriundas de veiculos civis, revelou-se bastante ineficaz. Como resultado esse tipo de veículo praticamente só tinha bom desempenho em estrada ou terreno plano. A doutrina de “cavalaria mecanizada” implicava que pudessem conduzir um esquadrão de “infantaria mecanizada”, que seria colocado junto da frente de combate. Essas unidades teriam o apoio de “tanques de cavalaria”, rápidos e levemente armados.

A avaliação da Guerra Civil Espanhola mudou esse quadro, pois os veículos sobre rodas, naquele conflito, foram amplamente superados pelos tracionados a esteiras, em função da rede de estradas deficiente da Espanha. Também ficou claro que os tanques armados com canhões de tiro rápido superavam os tanques “de infantaria”, armados com metralhadoras. Em consequência, a doutrina norte-americana foi modificada, e passou a enfatizar unidades maiores, dotadas de tanques e veículos assemelhados, mais pesados, melhor protegidos e armados. A velocidade passou a ser articulada ao rompimento, ou seja, a capacidade das unidades em superarem o adversário e se manterem em campo até a chegada da infantaria convencional, transportada em caminhões. Com o início da guerra na Europa e o avassalador sucesso das unidades blindadas alemãs, o novo conceito se consolidou, e jogou a  “cavalaria mecanizada” para segundo plano, embora sem chegar a extingui-la.

Scout cars e “carros blindados” eram, essencialmente, veículos de “cavalaria mecanizada”, e os últimos começaram a ser projetados quando aquela arma já estava em decadência. O que os distinguia dos scout cars era o fato de serem totalmente fechados e disporem do armamento instalado em uma torre girante. Nas novas “divisões blindadas”, que começaram a ser organizadas a partir de 1939, o reconhecimento era cumprido por tanques leves, muito rápidos e armados com o canhão M6 de 37mm. Entretanto, diversas iniciativas para conceber um modelo viável de CB começaram a ser tomadas, pois o Exército sentia que ainda precisava desses veículos, principalmente como caçadores de tanques. Seriam, basicamente, plataformas concebidas em torno de uma variação anticarro do canhão M6. Imediatamente antes da entrada dos EUA na guerra foram examinadas propostas, referenciadas como T17 e T17E (o T significa, no caso ,”Test”, sendo que a letra M, de “Model” é adotada apenas depois do produto ser aprovado e adquirido pelo Exército dos EUA), da empresa Chevrolet. Foram rejeitadas pelo Exército como muito grandes e relativamente frágeis (posteriormente, já durante a guerra, cerca de 2000 foram entregues à Grã Bretanha nos termos dos acordos Lend-Lease), mas não chegaram a ver ação no norte da África. Um punhado de T17E veio parar no Brasil.

Quase ao mesmo tempo que o  T17 era testado, o Exército dos EUA recebeu para exame, três outros desenhos, denominados T21, T22 e T23. Os três concorrentes eram parecidos, e o T22 foi adotado em função da capacidade da empresa Ford de entregar uma grande quantidade ainda em 1942, visto que os veículos foram considerados adequados para emprego na campanha da África do Norte. Alguns testes mostraram claramente que a função original pretendida pelo Exército, de caça-tanques, não poderia ser cumprida pois o projétil perfurante de 37 mm não perfurava a blindagem frontal nem mesmo do então obsolescente Panzer III. Como o carro era relativamente veloz, manobrável e guardava certa semelhança com o caminhão médio de 2 ½ toneladas, o que o tornava muito fácil de manter, acabou sendo adotado como carro de reconhecimento, nas unidades de “cavalaria mecanizada”. Na nova doutrina norte-americana, essas unidades, dotadas de veículos mais leves e velozes, deviam deslocar-se nos flancos das unidades blindadas, buscando explorar as linhas inimigas. Isto implicou em dotar o modelo de um rádio de longo alcance e mais um tripulante, sentado do lado direito do motorista. Na torreta ficavam o comandante (geralmente um terceiro-sargento ou cabo), que também cumpria funções de operador da metralhadora.

O novo blindado, referenciado pelo Exército como M8, começou a ser distribuído na primeira metade de 1943. Os ingleses, que desde a 1ª GM denominavam os veículos de cavalaria blindada com nomes de cães, passaram a chama-los de Greyhound (“galgo”, um tipo de cão de caça à raposa muito veloz). O Exército dos EUA os adotou meio de afogadilho, e tinha motivos para tanto. No norte da África, praticamente sem estradas, os scout cars revelaram-se pífios: eram mecanicamente frágeis, gastavam muito combustível, eram mal protegidos e pior armados. Algumas unidades chegaram a experimentá-los como transportadores de tropas, mas a tendência do veículo em atolar na areia acabou por torna-los muito impopulares.

Distribuídos os M8 em quantidades razoáveis, às vésperas da invasão da Sicília, as unidades de combate começaram a descobrir as limitações do veículo. A principal era sua limitada capacidade fora-de-estrada. Em situações que envolvessem terreno mole ou muita lama, o veículo atolava com certa facilidade. O pessoal de tropa atribuía o problema ao motor. Adaptado a partir de um modelo civil, de seis cilindros, com cerca de 110 hps, era considerado fraco para distribuir potência pelos seis rodízios, cujos pneus eram consideravelmente pesados. A distribuição das rodas foi considerada muito boa para rodar em estrada, onde o carro alcançava facilmente os 90 km/h, em quarta marcha, sem perder a estabilidade. Entretanto, esse desenho comprometia o desempenho fora-de-estrada pois, em terreno acidentado, a distância entre as rodas também acabava por se transformar num problema. O resultado é que, em certas condições, o M8 se saía ainda pior que os scout cars que devia substituir.

Outro problema era a proteção. A blindagem era inoperante contra qualquer coisa maior do que o projetil 7.92X57mm (o IS, padrão da Wehrmacht); o projétil alemão de 3 cm perfurante, disparado por uma arma anti aérea introduzida em grandes números a partir de 1944, frequentemente usada em alça zero (com o tubo na horizontal),  atravessava qualquer ponto do casco do veículo. A grande vantagem do M8 era sua torreta girante, acionada por um sistema hidraulico de operação manual, que permitia ao carro atirar com seu canhão em todas as direções, embora o veículo tivesse de parar de rodar para que o disparo fosse realizado. O restante do armamento consistia em uma metralhadora coaxial Browning .30 (cal 7.62X63 mm – a onipresente M1919A4) e outra, pesada de .50 modelo M2,  montada num reparo móvel, junto à escotilha da torreta. Esta que podia cumprir funções anti aéreas e era soberba contra veículos não protegidos e tropas desmontadas. Mas, como se tratava sobreturo  de um veículo de reconhecimento, cuja ênfase estava na velocidade, o armamento acabava sendo secundário.

De qualquer maneira, o M8 era uma plataforma mais versátil, manobrável, melhor protegida e armada que os scout cars White (quase todos eram projetos da fábrica White Motor Co.) e, em 1944 quase não havia mais destes veículos em unidades de primeira linha, estando relegados a funções não-combatentes. Nas unidades de combate mecanizadas e em algumas grandes unidades de infantaria, o CBR M8 foi colocado em tarefas de reconhecimento e patrulha. Na cavalaria mecanizada, o reconhecimento buscava fazer contato com unidades inimigas de modo a estabelecer com segurança sua localização e movimentos e avaliar a composição e potência. O poder de fogo, nesse caso, não precisaria ser muito pesado, pois a unidade, geralmente com força de batalhão ou companhia reforçada, não devia enfrentar o adversário, mas apenas mantê-lo sob contato e observação: o importante era manobrar bem e, se necessário, sair rápido da alça do adversário para avisar os “grandões” da presença e posição deles. Nessas condições, o canhão de 37 mm, de carregamento manual, combinado com as metralhadoras, era considerado suficiente. Assim, embora fosse difícil ver os  M8 atuando em combinação com tanques, seu uso em combate urbano foi bastante frequente, visto que ao contrário dos blindados, manobrava bem nos espaços fechados das pequenas cidades italianas, francesas e alemãs. Nessas condições a infantaria de assalto chegava a preferir contar com os CBR do que com bombardeios prévios de artilharia, pois as cidades arrasadas eram ótimos bastiões para defensores decididos dotados de armas leves. O pequeno canhão do M8 não chegava a derrubar uma casa mas acabava com um bastião, quando usado contra portas e janelas, e a massa do carro provia proteção razoável contra armas de infantaria.

O final da 2ª GM não foi, de modo algum, o final da carreira do M8. Produzido em números bastante grandes (mais de dez mil foram distribuídos), ele podia ser visto em todas as frentes. O interesante é que, se na Europa os CBRs fugiam diante do menor sinal da presença de canhões ou armas AC portáteis (os indefectíveis Panzerfaust e Faustpatronne distribuídos a três por dois na fase final da guerra), no teatro do Pacífico chegaram a cumprir a função original de caça-tanques em divisões de infantaria, em função da inexistência de oponentes razoáveis do lado japonês.

Finda a guerra mundial, o Exército dos EUA começou a descomissionar os seus, mas a Guerra da Coréia, iniciada menos de cinco anos depois de finda a outra, reverteu a tendência. Não que tivessem voltado à ativa, na pátria de origem: depois da 2ª GM, os norte-americanos desistiram de usar CBRs em suas unidades blindadas e mecanizadas, e planejavam distribuir, a partir do início dos anos 1950, uma versão implementada do excelente tanque leve M24 Chafee. Este era o próprio tanque de cavalaria, dentro da noção norte-americana. Começou a ser distribuído em meados de 1944, para substituir o muito obsoleto M5 Stuart. Seu desenho, baseado na experiência de combate e no exame de exemplares alemães capturados, foi considerado excelente: era leve, muito manobrável, tinha baixa silhueta e era o primeiro carro de combate norte-americano que incorporava, desde a prancheta, o conceito de “blindagem escorrida” (sloped armor), blindagem composta por chapas usinadas de tal forma que diminuiam o peso do veículo sem comprometer-lhe a proteção. Entretanto, o canhão de M6 75 mm/39 calibres “aligeirado” (com o tubo feito para ser mais leve), projetado para ser usado em aviões de ataque a navios, foi considerado de baixo desempenho, embora muito mais efetivo do que o velho M3 de 37 mm.  Era uma peça excelente, mas o novo tanque deveria ser um pouco mais:  mais pesado, dotado de um canhão mais eficiente; e também pensado dentro da nova doutrina de aeromobilidade – devia ser leve o suficiente para entrar em avião de transporte. O que surgiu desse esforço foi M41 Walker Bulldog, que entrou em serviço em 1953. Construído aos milhares, durante mais de dez anos, passou a ser considerado o “carma” das forças blindadas brasileiras, que operaram quase 400 deles durante mais de trinta anos: barulhento, mal-cheiroso e viciado em gasolina de avião. Quando foi modificado, por obra dos mágicos do CTEx, continuou barulhento e mal-cheiroso, mas pelo menos passou a consumir óleo diesel.

Mas isso é outra história. Se por um lado a nova doutrina aposentou de vez os M8 nos EUA, o país viu-se, de uma hora para outra, com uma quantidade razoável de unidades em estado de novas para serem distribuídas entre os aliados. Assim, durante o conflito coreano e depois, na Indochina francesa, o “carrinho” continuou a ser visto em grandes números. Os maiores exércitos (a França recebeu mais de 400 deles) somente os descomissionaram no final dos anos 1950 e, ainda assim, foram repassados para países como Vietnam (então começando a mergulhar na guerra contra as guerrilhas revolucionárias), e as repúblicas centro- e sul-americanas.

O EB adquiriu intimidade com os M8 a partir da FEB. Estruturada como uma divisão de infantaria norte-americana de primeira linha, a 1ª DIE (Divisão de Infantaria Expedicionária), o elemento combatente da FEB, tinha mais de 15.000 efetivos em sua ordem de batalha e estava dotada de uma unidade de reconhecimento e escolta organizada à maneira da cavalaria mecanizada norte-americana. Sua origem era uma das unidades do EB cujos elementos tinham recebido equipamento de origem norte-americana: o 2º Regimento Motomecanizado, unidade experimental de infantaria motorizada aquartelado no Rio de Janeiro. O 3º Esquadrão de Reconhecimento e Descoberta foi incorporado à 1ª DIE em fevereiro de 1944, e teve mudada a designação para 1º Esquadrão de Reconhecimento. A pequena unidade embarcou para a Itália em junho de 1944, sem equipamento, e chegada ao teatro em 16 julho de 1944, foi instalada nas cercanias de Nápoles. Pouco depois, recebeu parte do equipamento e treinamento para usá-lo. Em 15 de setembro parte para a primeira missão: fazer o reconhecimento de uma área adjacente à frente para onde tinha sido destacada a FEB. Tinha então a força de pelotão e oito viaturas. Em novembro de 1944 atingiu sua dotação definitiva: em torno de 200 efetivos (inclusive oito oficiais), com 15 M8 no elemento principal, 5 transponrtes meia-lagarta (tipo White M3) e um punhado de outros veículos motorizados, incluídos aí 24 jipes (chamados, no jargão militar, de “viatura de 1/2 ton 4X4”). Sua atuação mais importante foi durante a batalha pela tomada de Montese, única vez em que atuou de modo integrado com toda a grande unidade brasileira. Nessa época, o comandante era o capitão Plínio Pitaluga, cavalariano considerado pelos mentores norte-americanos um dos mais competentes oficiais integrados à FEB, e dos poucos que, no EB daquela época, entendia plenamente o caráter da guerra moderna. Na ofensiva final, entrou em combate várias vezes e conseguiu levar seus CBRs, no final de abril, até as fraldas dos Alpes, onde fez a ligação com as forças francesas.

Não deve ter sido por este motivo que os oficiais brasileiros passaram a adorar o M8. No Brasil já haviam, desde 1942, um punhado de T17, um veículo de três eixos tracionados, projetado em 1940 para atender aos ingleses, que usavam esse tipo de equipamento em grande quantidade, na África do Norte. Convocados pelo governo, os engenheiros da Ford e da GM os projetaram sem fazer idéia de onde e como seriam usados. O resultado foi uma espécie de “caminhão de mudanças” subpotenciado, em função de um motor originalmente projetado para acionar geradores e máquinas estacionárias – o mesmo depois usado no M8, o Hercules JXD. Imaginando melhorar a estabilidade, os engenheiros da Ford projetaram um tipo de seis rodízios tracionados, impulsionado cada grupo de três por um motor, cada motor com a própria caixa de mudanças e sistema de transmissão. Parece piada, mas, segundo consta, os engenheiros imaginaram que essa solução facilitaria a operação do veículo no deserto – que achavam ser o que aparecia nos filmes de Hollywood: uma enorme praia de areia fofa, só que sem água à vista. Não concebiam que em tal paisagem existisse terreno consistente e, muito menos, estradas de terra socada. O resultado foi um pesadelo mecânico, que os ingleses detestaram, mas como não estavam em condições de reclamar, aceitaram assim mesmo. Mas não chegaram a usá-los no deserto, pois a guerra lá acabou antes. Mandados para a Itália, os Staghound (um tipo de cão de caçar veados), muito largos (os engenheiros da Ford não imaginavam como seriam as estradas e aldeias européias) saíram-se pessimamente nas estreitas ruelas italianas. Boa parte ficou nos EUA, que acabaram os usando para treinamento de elementos da Guarda Nacional e em tarefas de segurança interna. Nem notação militar a geringonça recebeu.

Quando o Brasil entrou na guerra, os americanos começaram a enviar equipamento mais atualizado para cá, inclusive blindados, que os militares locais queriam muito, mesmo sem saber o que fazer com eles. Muitos oficiais foram mandados para o estado da Louisiania, fazer cursos de guerra mecanizada – Pitaluga foi um, o então capitão Ernesto Geisel, outro. Durante a guerra, o EB chegou a reivindicar a formação de uma divisão blindada de modelo norte-americano, mas a escassez de equipamento – em 1944, a indústria norte-americana funcionava no limite – fez o projeto ser engavetado. No entanto, algumas quantidades de material moderno ou razoavelmente atualizado foi providenciada. Foram recebidos tanques M3 Grant, um tipo baseado nos desenhos franceses do entreguerras, já obsolescente, Sherman M4 de várias versões, em número suficiente para formar uma unidade denominada Companhia-Escola de Carros de Combate Médios. Nos anos subsequentes à guerra, o EB recebeu carros de segunda mão, revisados, diretamente dos estoques do Exército dos EUA. Também foram recebidos, entre o final dos anos 1940 e início da década seguinte, centenas Shermans, Greyhounds, meias-lagartas White, de tanques leves M3 e vários tipos de viaturas não protegidas e tratores. Esse equipamento foi reunido, principalmente no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, para formar unidades blindadas e mecanizadas, no estilo norte-americano. No entanto, embora a partir de 1947 os norte-americanos tenham passado a instruir o Exército Brasileiro regularmente, a quantidade de equipamento enviada para cá, nos termos dos acordos de defesa mútua e assistência militar, nunca chegou a ser suficiente para formar grandes unidades com o efetivo das norte-americanas. E nem o país, tinha, naquela época, recursos técnicos, indústria ou infra-estrutura para apoiar o funcionamento de grandes formações mecanizadas. A doutrina foi relativamente bem absorvida por aqui – os oficiais brasileiros, oriundos da classe média urbana, eram considerados preparados, no sentido intelectual, e o EB tratou de criar escolas de formação e unidades-escolas, que difundiam os ensinamentos repassados pelos EUA e os adaptavam aos padrões brasileiros. Por exemplo, nos anos 1950, com base nos ensinamentos adquiridos na 2ª GM, os EUA desenvolveram uma doutrina de deslocamento aeromóvel impossível de ser reproduzida em condições brasileiras. Ainda assim, foram enviados para treinamento nos EUA alguns oficiais e graduados, e uma escola de formação foi criada, denominada “Núcleo da Divisão Aeroterrestre“. Com base nessa unidade, cujo efetivo inicial era pouco maior do que uma companhia, foi formada uma unidade paraquedista com força de batalhão reforçado (o Regimento de Infantaria Paraquedista) e uma de infantaria transportada em aviões, dotada de complemento de artilharia e viaturas. A mesma coisa se deu com o uso de mísseis: pequenas quantidades de equipamento eram adquiridas onde estivessem disponíveis e reunidas em unidades-miniatura, destinadas a testar doutrinas de emprego, adaptá-las as condições nacionais e examinar os equipamentos.   

Essa forma de ação revelou-se visionária: durante os anos 1950, em função das tribulações políticas locais, os EUA passaram a limitar o acesso do país a equipamento moderno. O resultado é que em meados dos anos 1960 o EB estava equipado com um inventário de material obsoleto originado nos meados dos anos 1940. Por outro lado, para manter em condições mínimas de aprestamento a ordem de batalha disponível (aproximadamente um corpo blindado e dois de infantaria, num total de mais ou menos 140.000 efetivos), um grande esforço foi feito, a partir dos anos 1950, para dotar o EB de infra estrutura de apoio técnico e logístico. Como o equipamento norte-americano era considerado muito confiável e fácil de manter, em termos mecânicos, os militares brasileiros passaram a fazer uma série de modificações no equipamento disponível, a medida em que este chegava ao limite de sua vida útil. No início dos anos 1960, era o que acontecia com o material rodante, e os norte-americanos faziam ouvidos de mercador à insistência dos militares brasileiros por equipamento atualizado. Quando resolviam despachar equipamento novo, este era considerado leve demais – é o caso dos blindados: o EB queria tanques M60, tiveram de se contentar com os M41A: queria mísseis terra-ar e radares de busca, tiveram de se lambuzar com algumas baterias de canhões semi automáticos Bofors apontados por telemetros visuais. 

Foi então que resolveram tomar providências, no final da década de 1960. Mas onde entra o cascavel EE9, o mais bem sucedido produto da indústria nacional?.. Bem, fiquem com esta pergunta e divirtam-se bastante enquanto aguardam o próximo capítulo desta novela::                

Reequipamento da Força Aérea Indiana::Dinheiro não é problema::

Mesmo se levarmos em conta os meios especializados, nosso país não parece ter dado lá muita bola para o resultado do MMRCA indiano. Está certo que a Índia é muito longe (uma viagem aérea, começando em São Paulo, vai ter duas escalas até Nova Delhi, e demorará 19 horas, pelo menos…) e nossos “formadores de opinião” estão mais interessados em locais civilizados, como Paris e Nova Iorque (qu´eu saiba, nossa Der Ang… – que dizer, nossa intimorata “Veja” não mantém “correspondentes exclusivos” informando a nós, tupiniquins, sobre as lojas de grife e restaurantes da moda em Bombaim…). Mas como o Brasil assinou, recentemente, um tratado com a Índia (o ministro Celso Amorim esteve lá, embora eu não tenha entendido muito bem para fazer o quê…), e, segundo o excelente blogue especializado “Poder Aéreo, os dois países compartilharão a avaliação do concurso MMRCA. Para causa::, foi motivo suficiente para uma pesquisa sobre o concurso. Às voltas com mais essa empreitada, descobri o excelente (e longo) artigo do jornalista austríaco especializado em aviação Georg Marder (sobre o qual não consegui levantar maiores informações). Ao que parece, Marder foi enviado à Índia, em fevereiro de 2011, para cobrir, como correspondente do site especializado ACIG.org (que aconselho os assíduos a colocar nos “favoritos”) a feira de aviação Aero-Índia 2011. Marder tece diversos comentários interessantes em torno da renovação da Força Aérea Indiana, com detalhes que oferecem um quadro bem completo da situação, a começar pelo título da matéria: “Aero-Índia 2011: Dinheiro não é problema.” Este curioso cabeçalho parece traduzir o espanto dele diante do que via – e, serei franco: não foi suficiente para traduzir o meu… Mas vamos ver o que o cara tem a dizer. Não esqueçam que a tradução é livre (trata-se de um austríaco, falante de alemão, escrevendo em inglês), a começar pelo título, editado por mim. O original é uma expressão alemã vertida para o inglês, e que não faz muito sentido em nossa língua. A edição do conteúdo foi feita para torná-lo mais claro e dirimir certas dúvidas, como colocar por extenso algumas abreviaturas que o autor parece nem ter notado; também resolvi converter os postos militares para os equivalentes das FFAA brasileiras, prática que não é consenso entre os tradutores-editores, mas que, para fins de esclarecimento, acho razoável. Por fim, espero não encher o saco dos assíduos mais do que o necessário. O original, para quem esteja disposto a tanto, pode ser conferido aqui::

Desafiada pelo que possível cenário de ser espremida entre os dois rivais, a China, em franca expansão, e seu “procurador militar”, o Paquistão, a Índia está envolvida num grande esforço para fazer equivaler sua capacidade militar e seu crescimento econômico. Na maior exposição aeronáutica e espacial da Ásia, a Aero Índia 2011, realizada no Aeroporto Internacional de Bengalaru, perto da cidade de Bangalore, entre 9 e 13 de fevereiro, a Força Aérea Indiana (Indian Air Force – IAF), apresentou vários de seus projetos. Até 2020, aproximadamente 1000 novos jatos e helicópteros serão adquiridos, fazendo da base aérea de Yelahanka a “feira multibilionária da vez” para a indústria aeroespacial internacional. Todo mundo estará lá. Bem, quase todo mundo…

O ministro indiano da Defesa, Shri A. K. Antony, abriu o evento sob os olhares atentos de uma “galáxia” de embaixadores, funcionários, representantes da indústria aeroespacial, expositores, interessados e jornalistas, procedentes de mais de 40 países. Em seu discurso inaugural, Antony expressou confiança de que o evento irá “aumentar ainda mais a emergência da Índia como um mercado atraente e um hub de terceirização chave para as empresas aeroespaciais globais”.

Para entender o alcance do que ocorre em torno do compromisso dos líderes indianos com a rápida modernização das forças armadas indianas, vejamos alguns números impressionantes fornecidos por Antony à imprensa especilizada presente: “Nosso país foi capaz de manter, entre 2009 e 2010, o crescimento do PIB em 7,2%, acima dos 6,7% registrados no crise dos anos de 2008-2009. O PIB deverá crescer a uma taxa de 8,5% durante 2011 e, portanto, as despesas com a defesa também vão aumentar substancialmente nas próximas duas décadas.” Na verdade, logo após o final da feira, em 28 de fevereiro, o ministro das Finanças Pranab Mukherjee anunciou um aumento de 12% no orçamento de defesa, com relação ao ano anterior – chegando a um total de US$ 36,5 bilhões.

Aos ouvidos dos observadore da “segura” e saturada Europa, isso provavelmente soou como música. No entanto, oficiais militares indianos em Yelahanka informaram ao ACIG que o esforço para aumentar o orçamento de defesa até 2,5% do PIB será, em parte, “neutralizado” pela inflação, que está em alta. É esperado, para o ano fiscal de 2011, que alcance 9,3%. Portanto, os gastos militares indianos poderão reduzir-se para 1,83% do PIB, muito menos do que 3% exigido pelas despesas com as forças armadas. Seria a segunda vez em três décadas que os gastos militares da Índia cairiam abaixo de 2% do PIB.

Então, por que o montante de recursos financeiros, junto com uma farra de compras sem paralelo – ainda que dificultada pela inflação – que, juntos vão dando a impressão de que, se o dinheiro não é problema, ainda não será suficiente? As respostas foram dadas pelo ministro da defesa, juntamente com o tenente-brigadeiro do ar (Air Chief Marshall) PV Naik, da Força Aérea Indiana: “Trata-se de China e do Paquistão – nesta ordem -, mas também a crescente esfera de interesses relativa às linhas de suprimentos que mantém o crescimento econômico da Índia”.

Guerra em duas frentes

“Sim, a modernização das forças armadas da China e seu crescente orçamento militar são questões que despertam grande preocupação”, disse Antony. O brigadeiro Naik confirmou a encomenda de um estudo sobre o novo caça chinês de quinta geração, o Chengdu J-20. Pequim aumentou seu orçamento de defesa para 2011 em 12,7%, para US$ 91,4 bilhões. Na sequência de um aumento de 7,5% em 2010, nos três anos anteriores o orçamento de defesa da China teve crescimento de 14,9%, 17,6% e 17,8%, respectivamente. Um relatório do departamento de Defesa dos EUA sobre o poder militar da China estima que os gastos militares reais nos últimos anos sejam pelo menos duas vezes maiores do que dizem os números oficiais.

Os dois países têm, de longa data, disputas de fronteiras na linha do Himalaia e, apesar de Antony sublinhar a vontade de continuar a trabalhar pela paz junto aos chineses, a Índia diz que a China ocupa ilegalmente 38000 km2 de seu território no noroeste, e Pequim ainda apresenta reivindicação sobre 90000 km2 do estado de Arunachal Pradesh. Em função dessa situação, a Índia tem reforçado sua presença militar ao longo da fronteira com a China. Foram transferidos para a região milhares de efetivos terrestres, equipados com blindados e artilharia, e bases aéreas capazes de receber os Su30MKI, situadas a 9000 pés acima do nível do mar estão sendo ampliadas. A China instalou, no Tibete ocupado, uma base capaz de receber os clones locais do Su27SK, os J11.

Por outro lado, oficiais militares indianos, funcionários da indústria e jornalistas presentes em Bengaluru confirmaram ao ACIG a opinião geral de que o rival Paquistão é “cada vez mais uma colônia militar chinesa.” Para os indianos, parece óbvio que as relações entre Paquistão e China estão se tornando mais estreitas, de modo que os dois países poderiam juntar-se contra a Índia. Segundo essas fontes, as evidências são numerosas, a começar pela crescente presença chinesa na Caxemira, ocupada pelo Paquistão. Assim, uma guerra em duas frentes é vista como possibilidade real e tem influenciado a doutrina indina de defesa, mas a estratégia tem sido manter a moderação e aumentar, de forma segura, suas próprias capacidades militares. Estes dois aspectos foram apresentados como as razões para as recentes aquisições de aeronaves de transporte C17 Globemaster e Hercules C130J, da aeronave de combate leve Tejas, do novo patrulheiro marítimo P-8I Poseidon, e os investimentos no caça de quinta geração russo-indiano PMF, bem como no contrato MMRCA.

Outra ilustração do motivo pelo qual a Índia está no foco de todos os players mundiais do “circo” da indústria aeroespacial é que – sublinhou para o ACIG o brigadeiro Naik – nos vemos como “uma potência regional com interesses globais. Nossa esfera de interesses econômicos, políticos e culturais está em causa, pois se espalha em uma área que, partindo do estreito de Ormuz, vai além do estreito de Málaca. É preciso compreender que as necessidades energéticas indianas também estão crescendo e temos de nos preparar defender os interesses nacionais além de nossas fronteiras… ”

A modernização “Mãe de todos os negócios”

A Índia pretende assinar, por volta de setembro de 2011, um contrato de US$10-12 bilhões, para 126 Aeronaves de Combate Médias Multifunção (Medium Multirole Combat Aircraft – MMRCA), vista por todos os fabricantes de aviões militares como o negócio mais lucrativo da década. Começando com 126 unidades, pode chegar a duzentas. O brigadeiro Naik explicou, durante a feira: “Na sequência das avaliações técnicas feitas nos próprios países de origem, em 2010, o ranking técnico foi estabelecido. Os seis fornecedores atenderam a 95% dos 643 requisitos. Agora espero que a comissão de negociação comercial (CNC) para o MMRCA se reúna em março para começar as avaliações de preço no sentido de selecionar os mais vantajosos, e espero assinar o contrato antes de sair em julho – desde algum fornecedor insatisfeito não jogue areia na máquina e atrase todo o processo ..! ”

No entanto, as considerações estratégicas mencionadas também estão influenciando o concurso. Em 2010, os EUA forneceram ajuda militar de US$ 2,29 bilhões ao Paquistão, levantando sérias preocupações entre o establishment de segurança da Índia. Delhi também está inquieta sobre o fornecimento de F16 lote 52+, a maioria dos quais está baseada em Shahbaz, no sudeste do Paquistão. Por este motivo o Lockheed-Martin F16IN Super Viper pode ter de enfrentar uma “dura batalha” na Índia, agravada pelo fato de ser um conceito que remonta à década de 1970. Ainda assim, dois F16C da USAF, estacionados na base de Misawa, Japão, e dois F16F lote 25, dos anos 1970, pertencentes à Força Aérea dos Emirados Árabes Unidos, foram trazidos para Yelahanka. O astro da versão “bollywoodana” de “Top Gun”, Shahid Kapoor (“Mausam“) puxou alguns Gs nessas aeronaves…

Outro aspecto que comprometem as chances do F16 – e também as dos Boeings 18E/F SuperHornet – é a questão da plena transferência de tecnologia, cláusula pétrea do contrato indiano. O ITAR (International Traffic in Arms Regulations – “Regulação para o Comércio Internacional de Armas”) é uma lei norte-americana que impõe restrições à exportação e importação de artigos relacionados com a defesa. O Departamento de Defesa dos EUA impõe essas regras com o objetivo de salvaguardar a segurança nacional dos EUA e implementar os objetivos de política externa do país. Declarações feitas ao ACIG deixaram clara a disposição do Congresso dos EUA em “interpretar” esses regulamentos do modo como a Índia espera, que pode significar “tudo ou nada” para os dois concorrentes norte-americanos.

O F18E-F tornou-se, na Aero Índia, o primeiro caso de “jato mutante” visto em qualquer linha de vôo. A versão apresentada no primeiro dia da feira foi um modelo “F”, biposto, pertencente ao esquadrão VFA113 da Marinha dos EUA – o industrial indiano Ratan Tata fez um vôo neste avião; no dia seguinte, a aeronave transformou-se num  “Inseto Silencioso” [nota de causa:: tradução livre de “Silent Bug”, possível trocadilho intraduzível resultante da combinação, pelo autor, do nome Silent Hornet, atribuído pela Boeing a nova versão (sem compradores) do SuperHornet, e a expressão bug, que no jargão da área tecnológica significa “problema” – ao pé da letra, Hornet e Bug são insetos]. Não tinha marca alguma, e trazia nos controles o piloto de testes da Boeing, Ricardo Traven. Juntos, tinham a função de explicar o programa SuperHornet International Road Map. Claro, os novos acessórios, como tanques de combustível e pods de armamento conformais para aumentar as capacidades stealthy da aeronave, indicadores de iluminação por laser, um equipamento de IRST (Infra-Red Search Track – “busca e rastramento de ondas infra-vermelhas”) colocado embaixo do nariz, eram apenas mock-ups de plástico, e ainda não existem de fato. Foi dito que não constavam da oferta apresentada ao MMRCA. Estas melhorias estariam disponíveis, posteriormente, para os clientes internacionais, como talvez seja o caso do Japão (que, mais tarde, pode, entretanto, ter outros problemas …).

A impressão geral, para nós do ACIG, em Bengaluru, foi que os concorrentes mais fortes no concurso são os “Eurocanards” – Dassault Rafale, Eurofighter Typhoon e um pouco atrás,  o Gripen NG. Estes seriam as escolha preferidas e que a IAF irá decidir entre eles.

O Rafale foi apresentado como substituto para o Mirage 2000-5, originalmente o concorrente para a ser apresentado ao concurso, mas que foi retirado em função do fechamento das linhas de produção do Mirage e da entrada de aeronaves muito mais avançado na competição. Apresentado na Índia pelo comandante da Armée De l´Air general Jean Paul Palomeros, é um projeto de origem cem por cento da francesa Dassault, o que constitui uma vantagem no que diz respeito à questão da transferência de tecnologia. Alegou o general que o Rafale tem uma vantagem sobre o Typhoon e sobre o Gripen: ao contrário destes, não têm componentes fabricados nos EUA e não está sujeito às restrições dos ITARs. O governo francês autorizou a transferência de tecnologia completa para a Índia, incluindo o radar AESA RBE2-AA, bem como dos códigos-fontes dos softwares da aeronave, o que permitirá a IAF integrar qualquer equipamento, aviônico ou arma, às aeronaves adquiridas.

O Gripen NG impressionou a IAF por suas capacidades de pouso e decolagem em distâncias curtíssimas e certamente terá uma chance, caso a comissão leve em consideração que originalmente o MMRCA seria um concurso para aeronaves de capacidades intermediárias. Por ora o sueco continua a ser um azarão: um candidato consideravelmente mais barato (mas estamos vendo um concurso onde o dinheiro parece não ser problema!). Por outro lado, o radar AESA Selex-Saab ES-05 “Raven” está com seu desenvolvimento atrasado  – e esses radares são um critéiro básico para a IAF. A versão “engordada” do NG é ainda apenas um protótipo e, muito semelhante ao LCA indiano, o Tejas.

O desempenho mais convencional foi o do russo MiG35 – que tem aparecido pouco. Com vários problemas relatados durante os testes da fase de avaliação, é considerado pelo IAF como pouco mais que um upgrade do MiG29. É verdade que o único demonstrador do MiG35 é o ex-MiG29M2 n° 154, no qual o autor voou em 2003 e cujo piloto ele encontrou novamente como pareceiro no seminário que aconteceu em paralelo à Aero Índia. O caça russo parece que efetivamente fora da disputa. Mas, de acordo com as mesmas fontes, a Rússia não estaria muito ofendido com isso. Devido a irritação do Kremlin com o insucesso  do MiG35, o diretor de longo data da estatal United Aircraft Corporation – o legendário projetista do Su30MKI, Alexey Fedorov – teria sido substituído pouco antes do início da feira pelo influente executivo dos projetos Sukhoi e MiG,  Mikhail Pogosian. No entanto, outro grande bolo russo está sendo  assado no forno indiano…

Tentativa de quinta geração

Talvez devido aos temores da Lockheed-Martin e do Pentágono de que o F16IN não seria selecionado – nos meses anteriores à abertura da feira correu um boato sobre a possível participação indiana no programa longo programa F35. Questionado sobre essa idéia, uma obviamente irritado ministro Antony esclareceu: “Já estamos associados a Rússia na produção de um caça de quinta geração. Nenhum outro país ofereceu-nos estas tecnologias no passado, ou para o futuro. Estamos muito à frente agora na parceria com a Rússia. Um recuo está fora de questão..!”

Em dezembro de 2010, as russas UAC  e Sukhoi assinaram um protocolo de intenções com a gigante indiana do setor aeroespaccial HAL (Hindustan Aeronautics Limited), para desenvolver conjuntamente o projeto para um novo caça multifunção de quinta geração, baseado no desenho Sukhoi T50 (PAK FA), cujo segundo protótipo voou em 3 de março de 2011. Os custos globais do projecto podem alcançar US$ 6 bilhões e, de acordo com o executivo-chefe da UAC. Mikhail Pogosyan, “… o trabalho entre a Índia e a Rússia será distribuído na proporção 35/65. Entre 200 e 250 unidades estão previstas para ambas as forças aéreas. “Pogosyan também disse ao ACIG que a demanda indiana volta-se principalmente para a versão biposto, que hoje chamamos PMF (Perspectival Multirole Fighter – “Caça Multifunção em Perspectiva’), que não estava, originalmente, na agenda da Sukhoi. O brigadeiro Naik acrescentou: “Estamos à procura de um avião de quinta geração. Estamos à procura de uma aeronave, que seja capaz de desempenho supercruise, equipado com armas de longo alcance, dotado dos mais avançados sistemas de aviônica, que não existem em uma aeronave de quarta geração. Nós também achamos que em cenários modernos altamente saturados da guerra eletrônica e contramedidas eletrônicas, com o engamento de alvos em tempo real e por enlaçamento de dados, e num ambiente BVR com novos mísseis, você precisará de um segundo tripulante. Nossa data de para começar com este projeto é 2017 … ”

Teimosia local

A Índia se diz a maior democracia do mundo e parece que, de alguma forma, sua burocracia também tem de ser tratada nessa ordem de grandeza. Várias vezes, suas instituições pararam, interromperam ou revisaram aquisições de defesa, e recentemente uma tentativa de adquirir reabastecedores A330 foi cancelada pela burocracia financeira devido à questões de preços (superfaturados). Devido a tais fatores – em alguns casos, justificados – mas também a contratempos técnicos, muitos dos assim chamados “projetos locais” [nota de causa:: tradução livre de um trocadilho intraduzível – e meio besta – entre as palavras “indigenous”  e “indian“], e até  mesmo algumas parcerias internacionais acabaram arrastando-se por anos, até por décadas. Ainda assim, esses projetos foram teimosamente  continuados por vários governos, e dois deles deram eloquente sinal de vida na Aero Índia 2011.

Somente em janeiro o HAL-ADA [nota de causa:: Aeronautical Development Agency – um consórsio governamental estabelecido em 1984 para gerencial o projeto] do LCA (Light Combat Aircraft “Aeronave de Combate Leve”) “Tejas“. Esta aeronave foi homologada pela IAF, abrindo caminho para o recebimento das primeiras 100 unidades do Mark 1, equipado com o propulsor GE404. O projeto remonta a 1990, numa tentativa de substituir uma centena de obsoletos MiG21, mas seu primeiro vôo não aconteceu até 2001. E foi preciso esperar até 2008 para que voasse a versão de produção. Agora, uma versão “Mark 2” muito melhorada, assim como uma versão naval biposto, foram anunciadas para 2014, equipados com o propulsor  GE414. Enquanto o coronel (group captain) Krishna colocava o protótipo PV2 para mostrar suas qualidades, foi explicado que o “Tejas” pode transportar quase 60 por cento ​​de seu peso básico de 7 toneladas em carga bélica, uma relação inigualável por qualquer aeronave moderna. O delta sem cauda indiano é chamado “o menor dos modernos aviões de combate” e incorpora (pelo menos parcialmente) um sistema  quadruplex de controle digital (fly-by-wire), um avançado glass-cockpit e será uma aeronave multimissão para qualquer tempo. O radar é um ELTA EL/M2032 multimodo.

Não menos importantes são alguns dos impressionantes números em torno das aquisições da IAF, que deverão tornar ainda mais eriçada a imagem da Índia: 80 Mi171V5 estão sendo adquiridos e uma outra competição para definir a aquisição de 22 helicópteros de assalto deverá ser vencida pelo AH64 lote III e uma outra, similar, está avaliando helicópteros pesados de transporte, estando entre o Mi26T, CH47F e uma variante do CH53. Claro, esses não tem nada a ver com o novo helicóprtero leve de combate (LCH) da HAL, de 5,5 toneladas, e que voou mais ou menos um ano atrás e deverá ser adquirido pelo Exército Indiano em números de até 180 unidades. O primeiro protótipo voou durante a feira, o outro, apresentado em exposição estática, numa camuflagem pixelizada. Cento e vinte e três jatos de treinamento avançado e ataque leve Hawk, vinte anos depois do processo de seleção, estão em produção na HAL, enquanto 120 Jaguar e 57 Mirage 2000 estão em vários estágios de modernização::

Outras observações estratégicas sobre um período chato::Pode ficar pior sim, senhor Tiririca::

Winston Leonard Spencer Churchill (Blenheim, Woodstock, Oxfordshire, Inglaterra, 1874 – Londres, Inglaterra, 1965) foi um estadista britânico. Isto, dez dentre os nove ou dez leitores assíduos deste blogue:: sabem; também sabem os assíduos que esse inglês, amante de charutos, vinho do porto e do sol mediterrânico, pintor amador e um dos maiores escritores modernos em língua inglesa, é um dos musos de causa:: Não sem razão.

Dizia o grande inglês que “a democracia é o pior sistema de governo, à exclusão de todos os demais.” É uma frase interessante, repetida ad nauseam por todos os conservadores, direitistas e liberticidas. O próprio Churchill era um conservador direitista, embora talvez seja injusto chamá-lo de liberticida – afinal, se nos livramos do fascismo, foi em parte graças à teimosia dele.

Mas, como toda frase, as de Churchill com freqüência precisam ser examinadas contra um contexto mais amplo, para que façam sentido – ou mais sentido. Essa a que se refere o redator:: faz parte de um discurso dirigido à Câmara dos Comuns, em 11 de novembro de 1947. Churchill, então líder dos conservadores, manifestava oposição a que nova limitação aos poderes da Câmara Alta do Parlamento Britânico – a “Câmara dos Lordes” – fosse estabelecida. Esse corpo de representantes, não-eleito, hereditário, representava a si mesmo, e essa representação se expressava na capacidade de interferer fortemente com os assuntos do governo, capacidade estabelecida no século 14 e que desde então vinha se mantendo, contra diversas tentativas de limitá-la. A última tentativa era aquela: o governo trabalhista de Clement Atlee pretendia emendar o Ato do Parlamento, de 1911, de modo a limitar a capacidade daquela câmara em interferir com iniciativas do governo. O contexto, então, era o das reformas radicais que estavam sendo introduzidas na organização econômica britânica, na qual amplos setores da indústria seriam nacionalizados. Temia o governo trabalhista que a Câmara Alta tentasse alterar o processo em que a Inglaterra pós-2ª GM finalmente se reinventava, buscando acomodar, em termos mais justos, os milhões de soldados e operários que, estoicamente, tinham derramado o sangue, suor e lágrimas que pavimentaram o caminho até a vitória. Já para as “classes superiores”, aquelas que desfrutaram, ao longo de dois séculos, os benefícios da transformação econômica, a proposta punha mais amarras a um poder que minguava. Sobre isso, disse o temível polemista e brilhante orador Churchill: “… é o sentimento mais disseminado em nosso país, e que a opinião pública expressa através de todos os meios constitucionais, que o povo deve governar, governar continuamente, e deverá formar, guiar e controlar as ações dos ministros que são seus servos, e não seus senhores.” Ou seja, no entendimento de Churchill – e, podemos subentender, da maioria de seus liderados conservadores –, não seria preciso limitar os poderes das classes superiores, amplamente representados na Câmara Alta do Parlamento Britânico – esses poderes estavam limitados pelos poderes conferidos, por tradição, à opinião pública.

Descrevendo o sistema eleitoral de representação majoritária britânico, o historiador setecentista François Guizot aponta sua origem nas necessidades da sociedade inglesa, nos séculos 13 e 14. O sistema eleitoral decorrente, no século 15, não obedecia nem a regras originárias nas Ciências Políticas, nem aos interesses deste ou daquele grupo. Era um sistema formado observando-se os costumes cotidianos aceitos pela sociedade. Os princípios que regulavam o processo eleitoral eram, assim, absoluta novidade. Daí sua absoluta originalidade.

Dentre as novidades, aquela que parece provocar a advertência de Churchill: no entendimento dele, a sociedade já dispunha de meios para expresser sua opinião e impor sua vontade, meios consolidados em séculos de tradição. Esse longo processo teria tornado a democracia “o menos pior dos sistemas”: a tradição também teria incorporado os defeitos: uma hierarquia reconhecida por lei que cabia ao povo respeitar, pois os mecanismos embutidos no processo contrabalançavam, naturalmente, o desequilíbrio inerente ao mesmo.

Examinar a coisa hoje faz suspeitar que Churchill tivesse razão: esse processo vem sendo crescentemente contestado e, depois de séculos, o sistema é visto com certa desconfiança pelo eleitorado britânico. Sinal dos tempos: o sistema, dito bipartidário, não parece mais suficiente para expressar a opinião do corpo de eleitores, e mostra, através de freqüentes pesquisas de opinião, tendências ao desdobramento. Os mecanismos “tradicionais”  de correção, então, funcionam – inclusive para indicar o clamor pela mudança.

Assim funciona a democracia representativa. Contra os defeitos, os mecanismos de autorregulação. E entre nós? Um dos possíveis defeitos da democracia brasileira seria, na visão de setores bastante amplos da sociedade, sua essência: o amplo direito de votar e ser votado. Não são poucos os cidadãos que reclamam do fato de que “todo mundo vota”, e não é nem preciso ter muito trabalho para encontrar exemplos disso. O redator:: não lembra qual dos ministros de Costa e Silva disse, na época do AI-5, que era absurdo valer o voto dele tanto quanto o de uma empregada doméstica… ou teria sido lavadeira?.. (diria que foi o da Aeronáutica… Algum dos assiduos lembra?..); o general João Figueiredo abriu seu consulado (1979-1985) com a taxativa afirmação: “Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar.” E o negro Edson Arantes dos Nascimento, embranquecido pelo contato purificador das elites? É preciso lembrar a opinião dele?

Em tempos mais recentes, um colunista brindou-nos a todos com esta: “O Brasil é dominado por uma massa de pobres ignorantes. Eles estão decidindo por nós. E estão decidindo muito mal. Isso se não confundirem os algarismos e apertarem os botões errados.

Afirmativas como essas levam o redator:: a pensar quais são os meios de defesa que a democracia brasileira tem contra seus próprios defeitos. Imediatamente surge a figura daquele que, em algum momento futuro, talvez venha a ser lembrado como a figura-símbolo desta eleição: o cidadão Francisco Everaldo Oliveira da Silva. Certamente não conhecemos Francisco Everaldo – mas conhecemos seu alter-ego, o palhaço Tiririca. Sobre Tiririca, diz um blogueiro: “como impedir que uma extravagância como Tiririca (ops, Francisco Everaldo Oliveira Silva) vire deputado federal? Só tem um jeito: não votar nele. Nenhum outro.

Churchill também dizia – e foi essa frase que fez o redator:: elege-lo muso do blogue:: que quem não sabe história, não sabe nada. A perspicácia de Churchill, expressa no monumental “Uma história dos povos de lingual inglesa”, faz o redator:: lembrar de nossa própria história e de seus bons constadores. Por exemplo, o sociólogo Roberto Schwartz. Em ensaio no mínimo tão monumental quanto o de Churchill, Schwartz sugere que, em nosso país, as idéias estão fora do lugar. Em termos muito simplificados (causa:: não pretende ser espaço de resenha das idéias do coração do redator::): baseado em premissas marxianas, Schwarcz, por meio da análise da dinâmica interna de algumas grandes obras literárias do século 19, busca a contradição básica da formação social brasileira. Na opinião dele, é em Machado de Assis que a tal contradição aparece de forma mais perfeita. No Brasil, a estrutura é atrasada e colonial enquanto a superestrutura seria adiantada e liberal. Essa contradição residiria na persistência do regime de produção escravista convivendo com um sistema político de estilo inglês. Schwarz denomina esse método machadiano de “comédia ideológica”, que teria seu momento maior em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Dom Casmurro”: Bentinho e Brás Cubas estariam sendo porta-vozes de uma denúncia de classe. Schwarz postula que Capitu é vítima dessa elite que vence, mas não leva, visto que a contradição, perpetuada pela elite como meio de dominação,  resulta em uma “sociedade pela metade” – tese que é expressa de forma genial no título do livro – “Ao vencedor, as batatas”. (análises mais aprofundada, aqui e aqui). O século 19 é, pois, tão esclarecedor, para nós, quanto o século 14 seria para a Grá-Bretanha – só precisamos conhece-lo melhor.

Voltemos a nossa época e a nosso drama: buscamos a democracia, sistema louvado por dez entre dez liberticidas, mas uma em que um cidadão habilitado pela norma constitucional ao se apresentar para ser votado, possa, por “extravagância”, ser inabilitado por outros cidadãos habilitados. Curiosa democracia, de cujo exame resulta o seguinte: o cidadão Francisco Everaldo deveria não ter direito de ser votado. Centenas de outros cidadãos que se manifestam através da Grande Rede parecem pensar exatamente assim. Deveríamos criar mecanismos que impedissem Tiririca de participar do processo eleitoral – qual seja: aperfeiçoar a democracia é limitá-la, plenamente, à uma parte do corpo de cidadãos. 

Uma tal providência imunizaria a democracia brasileira contra “piadas” como a candidatura do palhaço Tiririca. Motivo: vivemos numa sociedade imperfeita, sofrendo as dores do crescimento. O sistema partidário não exprime, à perfeição, a realidade do país, e os partidos são meros “balcões de negócios”. Cabe reduzi-los. Na Inglaterra são apeenas dois, os que realmente contam, consolidados pela tradição -e pela “educação política”; nos EUA, idem.

Mas, pensando bem… O palhaço Tiririca teria qualquer possibilidade de obter legenda num PT das elites sindicais ou num PSDB da inteligentzia paulista? Ou num PMDB dos grotões? Não é, entretanto, o caso de impedir o cidadão Francisco Everaldo de votar – por sinal, ele e outras extravagâncias têm de votar, para aprender. Algum dia, chegamos lá. Por ora, devemos impedir não que Francisco Everaldo eleja, mas se eleja. A maioria do corpo de cidadãos vota mal, e deve ser defendido de si mesmo. Estaríamos ouvindo aí (ou seria apenas impressão do redator:: admitidamente delirante?..) ecos do sistema de voto censitário, o tal “voto da mandioca“?

Pois se a democracia é imperfeita, aperfeiçoa-la não seria aprofundar a imperfeição, buscando meios de retornar ao século 19. Alguns cidadãos parecem vislumbrar o problema. No momento em que louvou a candidatura de outra “extravagância”, a “Mulher-Pera”, o senador Eduardo Suplicy talvez estivesse tentando, machadianamente, meter o dedo no âmago da contradição – e sabia no que se metia. Sua declaração de apoio à curvilínea candidata atraiu o deboche, desde a elite do jornalismo áulico até blogueiros moderninhos. Puro método machadiano: os democratas manifestam-se contra a democracia…

Talvez Suplicy aceite uma ajudinha – menos machadiana – do redator::: se  a democracia brasileira sobreviver será por arte de seus defeitos, e o principal deles é por outro lado, sua capacidade de se autorregular – a possibilidade de que o direito de assumir mandatos escape da elite “educada” e chegue até as “extravagâncias”. É nesse momento que o drama da sociedade brasileira fica mais evidente, e a teatralização do processo eleitoral apontará uma hierarquização atroz, tida pelas elites – e por seus clientes pequeno-burgueses –, mais do que “natural”, necessária. Pelo menos até o dia que aprendamos.

Esse post não deve, pois, causar estranheza nos nove ou dez leitores. Falamos de estratégia, na versão atualmente conhecida como “grande estratégia”, aquela que mobiliza todos os recursos nacionais. E uma nação partida – como atualmente é dito – em “andar de cima” e “andar de baixo” não se torna potência. Portanto, tirem as patas do direito do proletariado a candidatar-se seja lá ao que for – e se eleger. É estratégico que as extravagâncias obtenham mandatos, pois elas apontam direto para a contradição que nos governa. Ao contrário do que diz Tiririca, pode ficar pior, sim: no dia em que nossas elites e seus clientes derem um jeito de garantir que o grosso da população – os feios, os mal-vestidos, os que vivem na espiral alucinante do trabalho na fábrica – não possam mais se eleger. Nesse dia, a democracia deixará de ser o “menos pior” dos sistemas de governo, para tornar-se apenas mais um entre os piores::

Um outro lado da moeda?..::Venezuela: mais história imediata para curiosos::

A formação política da Venezuela, que gerou a figura amada-odiada e (do ponto de vista de seus “admiradores” da imprensa “democrática”) um tanto pantagruélica (julguem os nove ou dez assíduos de causa:: se a comparação não cabe…) de Hugo Chávez, é particular, na América Latina. O interessante é que o exame dessa trajetória corrobora, totalmente, a máxima de Winston Churchill (e que faz deste conservador e imperialista inglês o “muso” aqui do redator::): “quem não sabe história, não sabe nada”. Churchill também dizia que “a democracia é o pior regime, tirando todos os demais”, máxima  esta não tão apreciada pelo redator::, já que é conhecida e repetida ad nauseam por nove entre dez liberticidas e dez entre dez moderninhos. A questão é – de que democracia estaríamos falando, mesmo?.. Apenas um mergulho na história permite dizer. Assim, causa:: depois de apontar algumas pistas, afirma e prova: Chávez não é diferente de todos os líderes políticos que marcaram a Venezuela, desde o século 19; suas práticas se plantam na história e na cultura política local. A grande diferença entre o tenente-coronel mais falastrão atualmente em ação na América do Sul e os outros líderes políticos venezuelanos é a mudança de foco. Mas… Julguem essa afirmativa do redator:: os nove ou dez leitores deste blogue…::  

A história política da Venezuela é marcada, no século 19, pela figura de líder conhecida como “caudillo“. O termo é espanhol, e surge pela primeira vez na edição de 1729 do Dicionário da Real Academia de España, definido como el más enérgico o el más violento, que se convierte en el primero de su pueblo o de la república. Não é um termo estranho aos outros países do continente, que, em cada lugar, assume formas particulares. De comum caudillos como Perón ou Porfirio Diaz têm os elementos dramáticos, tenebrosos e pitorescos. Podemos entende-los como líderes locais oriundos de regiões específicas, capazes de empalmar o poder central ou desafiá-lo com certa eficácia (causa:: sugere aos nove ou dez leitores que não deixem de ler este artigo). Na Venezuela, marcaram um longo período, que se seguiu à independência, de guerra civil e desordens locais. A base do poder desses líderes era o controle da produção econômica, baseada na monocultura e na relação com grupos comerciais que cuidavam da exportação, ou seja – da relação com as economias centrais. O período após a guerra de independência foi de desorganização econômica e social – o país foi praticamente destruído. Entretanto, a partir dos meados do século 19, a economia passou a avançar, baseada principalmente na produção de café, cacau e em investimentos originados na Inglaterra e nos EUA, em infra-estrutura (portos, estradas de ferro e equipamento urbano). Esse período é marcado pelo governo do general Antonio Guzmán Blanco, que estabeleceu uma ditadura de dezoito anos de duração (1870-1888). Guzmán era um general que se notabilizou por incrementar uma burocracia de estado bastante competente e extremamente fiel, recrutada entre a classe média de Caracas. A queda de seu regime foi motivada pela extrema riqueza acumulada por ele, que começou a incomodar os próprios aliados. Claro, existiram outros motivos, todos tributários do extremo centralismo e do fato de que o general tornou-se especialista em chicanas legislativas, e reformava a constituição de modo a conseguir reeleger-se presidente. Em 1888, eleito pela terceira vez, e tendo adoecido gravemente, foi para a Europa e acabou aconselhado a não retornar.

Guzmán (conheça a cara da figuraça aqui) era um tipo pitoresco: passava boa parte do tempo em Paris, dizia que seu maior prazer era abrir escolas, queria transformar Caracas em uma espécie de “Paris equatorial” e colocou em si mesmo o apelido de “Ilustre Americano”. Embora cobrasse de seus auxiliares “honestidade e austeridade”, levava uma vida de nababo e gastava fortunas para gozar de “pequenos prazeres”, como promover apresentações de ópera que assistia sozinho. Seu governo era fortemente associado à Caracas, que, dadas as devidas diferenças, cumpria o papel político de Buenos Aires, na época das Províncias Unidas do Rio da Prata, ou seja, atrair a implicância do resto do país. 

O sucessor de Guzmán foi eleito em um pleito que ninguém levou a sério, e acabou derrubado, só que o governo militar que assumiu não tinha base política alguma e passou seis anos gastando muita energia e ainda mais dinheiro para manter-se no poder. Derrubado, abriu-se um período de ditaduras de caudillos procedentes do estado de Táchira na região andina da Venezuela. O primeiro deles é emblemático: o militarmente competente (embora não fosse militar…) e – segundo é dito – totalmente maluco (de tanto que gostava de imitar Napoleão, recebeu o apelido de El Cabito –  “O pequeno cabo”…) Cipriano Castro Ruiz. Membro da elite autonomista dominante de Táchira, onde atuava como jornalista e político, Castro organizou um exército privado financiado por aliados e marchou sobre Mérida e  Caracas em 1899. Uma vez no poder, iniciou uma sangrenta repressão sobre a população local. Castro era de tal forma violento e dado a acessos de fúria que chegou a ser chamado  de “doido brutal” pelo então secretário da Guerra dos EUA, advogado, político imperialista e (não é piada – causa:: é um blogue sério…) detentor do prêmio Nobel da Paz,  Elihu Root. É possível que o desgosto do insigne norte-americano mais fosse provocado pelo viés nacionalista revelado pelo ditador do que propriamente por sua índole violenta. Possibilidade bastante possível, assim digamos: Castro passou boa parte de seu governo tentando “enquadrar” as atividades econômicas das empresas estrangeiras que proliferavam na Venezuela, bem como as atividades políticas das grandes colônias de imigrantes que viviam na Venezuela, particularmente espanhóis e italianos. O resultado: um desfile de navios ingleses, alemães e italianos que sucesivamente bombardeavam a costa venezuelana e desembarcavam tropas para “garantir os interesses” de seus cidadãos ofendidos. 

Entretanto, sejamos justos – os problemas venezuelanos com os estrangeiros não se resumiam nem começaram com a maluquice de Castro. A existência de colônia britânicas, francesas e holandesas bem próximas, em Trinidad, Curaçao e Martinica (nas Antilhas) e nas Guianas, (particularmente na Guiana Inglesa), colocava o país ao alcance dos interesses dessas potências, criando intenso tráfego de indivíduos, mercadorias, valores e (nem sempre boas…) idéias – os jornais publicados nessas colônias circulavam livremente na Venezuela. Esses interesses eram fonte constante de pressão sobre o ocupante do governo em Caracas, pois as colônias funcionavam como ponto de apoio para forças navais. Assim, cada vez que um grupo de cidadãos estrangeiros alegava, real ou imaginariamente, estar sendo alvo de perseguição, a costa venezuelana recebia a “visita” de um esquadrão naval. Só que o meio mais eficaz de pressão e desestabilização não era o “bengalão” (tradução para big stick), mas a concessão de “asilo político” a dissidentes venezuelanos, que também recebiam auxílio financeiro e militar para montar incursões contra o território do país. Assim, a implicância que Chávez manifesta pelo “ocidente” não é recente nem invenção dele e, admitamos, nem sem razão (um excelente artigo sobre o tema, em inglês, aqui).

Em 1902 os EUA tentaram colocar ordem naquele canto do quintal, enviando uma delegação de diplomatas a bordo de uma força-tarefa, com a oferta de créditos financeiros e apoio político. O governo norte-americano mediou, em 1903, um acordo entre Castro e as potências européias que bloqueavam a costa venezuelana. O ditador pareceu sossegar durante pouco tempo, mas logo voltou a criar caso com empresas estrangeiras, o que acabou levando ao rompimento de relações diplomáticas com a França e Holanda. O apresamento de navios mercantes holandeses surtos em portos venezuelanos levou à uma intervenção holandesa (!!!). O resultado desse incidente foi a destruição da “marinha venezuelana” (um punhado de navios totalmente obsoletos) por um esquadrão naval baseado em Curaçao. Esse evento, acontecido em 1907, apressou a queda do ditador, substituído por seu ministro da guerra e compadre, Juan Vicente Gómez, talvez a mais tenebrosa figuraça da história venezuelana. Gómez abriu outro período ditatorial, que viria a durar até 1935. 

Politicamente, desde o século 19, a Venezuela tem uma característica única na América Latina. Nos longos períodos ditatoriais, a presidência não era ocupada, necessariamente, pela mesma figura. Desde a ditadura de Guzmán, tornou-se comum que o ditador se alternasse no poder com aliados fiéis, que o substituíam através de “eleições” e nomeavam o antecessor “ministro da guerra” – já que a base da estabilidade era o exército. 

Gómez seguiu essa regra e a aperfeiçoou, não apenas se alternando entre os postos de presidente e ministro da guerra como também empossando legislaturas e juízes “de fantasia”. Não é por outro motivo que o período de vinte e sete anos de sua ditadura foi marcado por seis constituições, promulgadas para permitir sua continuação no governo, como presidente e ministro.  

A base de poder era o exército, cuja oficialidade era recrutada principalmente das regiões de Táchira e Zulia. Essa oficialidade recebia salários desproporcionais e, principalmente, benefícios resultantes do uso da administração pública e da prática da corrupção. O exército, nessa época, era treinado por militares chilenos de formação alemã, e armado com equipamento up-to-date importado da Alemanha. Por outro lado, o período Gómez também inaugurou a prática da vigilância social por uma polícia secreta onipresente. Por outro lado, o presidente entendia perfeitamente o perigo que representava a proximidade das potências imperialistas, a começar pelos EUA. Procurou manter-se em bons termos com os interesses estrangeiros instaladas no país, ao mesmo tempo que impedia a fuga de oponentes para as colônias próximas – estes eram presos e geralmente “morriam na cadeia” durante os longos períodos em que “esperavam julgamento”.

Por outro lado, afirmava que os venezuelanos, “primitivos e miscigenados”, preferiam um governo violento, que os mantivesse em ordem. Seu governo tinha suporte teórico no livro “Cesarismo democrático” (uma interessante resenha analítica, em espanhol, aqui), escrito pelo historiador, jornalista e teórico racista Laureano Vallenilla Lanz (uma biografia crítica desse avô da “democracia” venezuelana, aqui), que se tornou uma espécie de doutrina do regime. Com base nessa doutrina, Gómez também afirmava que o desenvolvimento nacional somente poderia acontecer sob liderança de uma base de criollos (a classe dominante e seus clientes, brancos de origem hispânica), apoiados por estrangeiros tecnologicamente superiores.

O período do  regime de Gómez foi marcado por certa prosperidade econômica, em função da situação internacional que se seguiu à 1ª GM. A partir de 1918, um novo elemento passou a influenciar fortemente os rumos da Venezuela: o início da exploração, por empresas norte-americanas, do petróleo. Embora essa fase só viesse a explodir nos fim dos anos 1920, a exportação de hidrocarbonetos significou o acesso a uma renda inconcebível no século 19. A explosão da economia dos EUA, depois da guerra, e a crise das economias européias ofereceu oportunidades brilhantes (claro que todas perdidas) à América Latina. A  Venezuela equilibrou sua balança de pagamentos e iniciou um programa de obras públicas que mudou a face das principais cidades. Esses programas, bem como o controle das rendas do petróleo, aumentaram e solidificaram uma classe-média branca e urbana e possibilitaram vantagens para as classes proprietárias que tinham suas rendas baseadas nas antigas produções. A expansão da indústria de petróleo criou um tipo de relação entre capital estrangeiro e classes dominantes locais que não se observava em nenhum outro país da América latina. A exploração e exportação de petróleo dependia de uma base técnica mais complexa do que as exportações de produtos agrícolas, que eram base das economias nacionais de Argentina, Uruguai, Brasil e Peru, então as maiores potências econômicas do continente. Por outro lado, a presença do capital estrangeiro em convivência “pacífica” com uma sólida classe média criou uma ilusão de “ambiência liberal” que também não se observava no resto do continente.

Se o leitor de causa:: (que se caracteriza por uma paciência verdadeiramente paulina…) chegou até aqui, já deve estar percebendo que Hugo Chávez reúne, como figura política, diversas características que têm base na cultura política desenvolvida na Venezuela, ao longo dos cento e tantos anos que o precederam. Mas o interessante é que a oposição “democrática” que o demoniza – e é por ele demonizada – também. Fica claro que o pacto de Punto Fijo, que abriu o período de “estabilidade democrática” que marcou os anos 1960 e 1970 planta suas bases na alternância de governantes de fachada, inventada no século 19. Por outro lado, o “ambiente liberal” era outra fachada, visto que o controle das rendas nacionais era solidamente empalmado por uma classe dominante que o usava para manter o poder – exatamenteo que Chávez vem fazendo, desde que foi eleito.

O buraco chavista é, pois, mais embaixo. Vamos voltar a ambos – esse moderno caudillo e ao buraco, sistematicamente cavado pela situação construída na Venezuela ao longo de meio século de alternância no poder da classe dominante criolla. A quebra desse “equilíbrio” é um dos motivos que fazem Chávez aproximar-se do gigante Pantagruel. Por sinal, essa piadinha hermética os cultos nove ou dez assíduos de causa:: devem ter percebido: na língua falada na Bretanha, durante a Idade Média, “pantagruel” quer dizer “tudo alterado”::

Um outro lado da moeda?..::Venezuela: história imediata para curiosos::

Divertida nota do “colunista gracinha”  Ancelmo Gois, do vibrante matutino carioca (aquele mesmo…): “Lula e Kirchner podem voltar ao poder pelo voto soberano. Jogo jogado. Mas Chávez quer se eternizar porque despreza a democracia. Na minha terra, isso se chama ditadura.” (9 de agosto de 2010).

Parece que na terra do jornalista fofolete, “democracia” é a possibilidade de que a grande mídia se esconda atrás de algo vagamente chamado “liberdade de opinião” para emitir sandices em causa própria como aquelas que, em bloco, os empregados de O Globo costumam lavrar. causa::, como já foi dito inúmeras vezes, não tem opinião política (o redator:: tem, mas essa é outra história…) e considera que a dos os nove ou dez assíduos são problemas de fôro íntimo (como se diz por aí…). A função auto-atribuída por este blogue que se pretende “recurso de pesquisa” é veicular informação o mais objetiva possível. E já que amanhã o novo presidente colombiano deverá encontrar-se com o espantalho mais querido de nossa imprensa, causa::, para contribuir com a cultura política geral, publica alguns dados interessantes sobre a história recente da Venezuela, esse exemplo de “democracia assassinada” que tanto comove e indigna nossa grande imprensa e seus empregados…::   

A carreira militar de Hugo Chávez desenrolou-se num período em que a Venezuela esteve, sem interrupção, em “estado de direito” (coisa que, como os nove ou dez assíduos sabem, não significa, necesssariamente, “estado de justiça”) iniciado em 1959. A Venezuela do século 20 é marcada, a  partir dos anos 1930, pela descoberta de enormes jazidas de petróleo na região do lago Maracaibo. A partir de então, tornou-se um país potencialmente rico e politicamente instável. A riqueza surgida com o petróleo criou uma elite aristocrática apartada do resto do país – era comum que membros dessa classe mandassem as famílias viverem no EUA -, ao mesmo tempo que ampliou a classe de despossuídos que historicamente vivia no limite da sobrevivência.  Ao mesmo tempo que os novos ricos, produzidos por níveis sem precedentes de corrupção optavam por viver nos EUA, as cidades creciam de forma descontrolada. É claro que, nesse período, sucederam-se os governos militares. Em janeiro de 1958, depois de seis anos de governo discricionário comandado pelo general Rafael Pérez-Jiménez , sua derrubada do poder produziu as condições para que uma coalizão de grupos políticos tornasse possível a restauração do estado de direito. Essa restauração tomou forma no chamado Pacto de Punto Fijo (residência de Rafael Caldera, em Caracas, e não o porto por onde se escoa o petróleo venezuelano). Basicamente um acordo de cooperação entre partidos políticos em torno de uma agenda comum e da divisão de cargos executivos, o acordo culminou na eleição de Rómulo Betancourt (1959-1964). Em 1961, uma nova constituição foi estabelecida e, desde então, o país tem estado sob uma série não interrompida de governos civis. O fato é que a democracia em moldes liberais, marcada pela alternância no poder de representantes das elites não chegou a contribuir para modificar a situação econômica interna, e os indicadores sociais continuaram entre os mais baixos da América Latina. Alguns especialistas também colocam o período de Punto Fijo como de intensa repressão política e de crescimento no país do ativismo político de esquerda revolucionária. Este foi influenciado pela revolução cubana e alimentado pelas diferenças sociais que se tornaram mais visíveis com a prosperidade possibilitada pelo petróleo. O período “democrático”, era, na verdade, de alternância no poder dos partidos tradicionais e de “tranquilidade”, e teve em Rafael Caldera (1969-1974) sua principal figura. Caldera tentou criar um regime estável com sólida base econômica, baseado na exportação de petróleo.  

Em 1974, a primeira eleição de Carlos Andrés Pérez (1974–1979) da Acción Democrática coincidiu com o aumento dos preços do petróleo, promovido pelos países árabes a partir da OPEP, em 1973. Em seu governo, no ano de 1976, a produção de petróleo foi nacionalizada. Esse foi um importante evento, visto que a nacionalização era reivindicação de praticamente todas as facções políticas. Pérez  assumiu a liderança do processo, tomando a bandeira da oposição, e como tática para auferir maiores ganhos para o estado, visto que a Venezuela, com a crise do petróleo, havia se transformado em principal fornecedor dos EUA. A partir de então, o estado passou a praticar uma política social populista, repassando parte dos ganhos com os preços internacionais para a população sob a forma de benefícios públicos tais como transportes praticamente gratuitos, serviços médicos e auxílios diversos. Por outro lado, a ascendente classe média, composta por funcionários públicos civis e militares e clientes do governo, foi beneficiada por importações subsidiadas e benefícios fiscais. De modo generalizado e fácil de prever, a corrupção, que já era endêmica no país, explodiu. Essas eram as bases da “estabilidade” venezuelana,  e crise econômica local foi apenas postergada. No final dos anos 1970 a crise econômica nos EUA obrigou a um realinhamento, em que os “benefícos sociais” que mantinham os “barrios” tranquilos começaram a ser retirados, enquanto a política de subsídios à classe média e de repasses à elite, foi mantida enquanto possível. A situação política tornou-se, então, de virtal insurreição.

Esse período é considerado como o fim do acordo entre as elites que possibilitou, no apagar dos anos 1950, o restabelecimento da democracia formal na Venezuela. Por outro lado, os dez anos de constantes altas no preço do petróleo encerraram-se de vez quando os produtores alinhados na OPEP começaram a aumentar sua produção, como forma de concorrer com a crescente produção soviética saída dos enormes e recém-abertos campos siberianos. O resultado foi uma baixa generalizada no preço internacional do barril, que acabou de vez com a prosperidade venezuelana – e levou a reboque a estabilidade política. Isso significou a abertura de uma crise econômica sem precedentes, com a renda nacional recuando em mais de 20% em apenas cinco anos. O resultado foi clássico e bem conhecido em toda a América latina: uma crise da balança de pagamentos. Em 1989, a eleição de Pérez para novo mandato abriu-se com medidas de austeridade típicas das “soluções milagrosas” do FMI (bem conhecidas entre nós, por sinal…): “austeridade fiscal”, reajuste linear de 100% no preço dos combustíveis seguido de reajustes em todos os preços relacionados, ao mesmo tempo que facilidades fiscais para a exportação de petróleo foram decretadas. Imediatamente registrou-se aumento brutal nos custos dos transportes públicos e de certos gêneros de primeira necessidade, que fez explodir um levante popular. Pérez decretou a suspensão das garantias constitucionais e convocou o Exército para restaurar a ordem em Caracas – o número de mortos resultante até hoje não foi esclarecido, mas as cifras variam entre duzentos e três mil. As medidas “sugeridas” pelo FMI, claro, não deram em nada que não fosse a rápida deterioração da situação econômica.  

Foi esse o caldo de cultura de uma tentativa de golpe militar, em fevereiro de 1992. Declarando-se dispostos a “salvar o país reagindo à crise econômica” – a Venezuela estava mergulhada numa espiral inflacionária e  com altíssimos índices de desemprego; por outro lado, os preços internacionais do petróleo não davam mostras de reagir -, um grupo de militares tentou um “pronunciamento” (método em que um grupo de militares manifesta-se contra o governo e conta com a adesão do restante das forças armadas para tomar o poder). Eram oficiais militares de patente intermediária (majores e tenentes-coronéis) ligados direta ou indiretamente a um movimento chamado MBR-200. Fracassaram. O líder dessa tentativa de golpe? Precisa dizer?

Mas diremos assim mesmo: tenente-coronel das tropas pára-quedistas Hugo Chávez, então comandante de uma unidade de elite das forças aeroterrestres.

Chávez já tinha, nessa época, forte ativismo político encoberto, dentro do exército. Em 1983, quando ainda instrutor na Academia Militar, lançou, juntamente com o  colega Felipe Acosta Carles, o Ejercito Revolucionario Bolivariano, que tinha por abreviatura EBR-200 — o  “200” em alusão ao bicentenário do nascimento de Simón Bolívar. O programa do movimento foi denominado pelos fundadores como “Bolivarianism0” (uma visão descritiva, aqui; uma mais à esquerda, aqui) que objetivava a Revolução Bolivariana (uma abordagem à esquerda, mas com boa descrição dos fatos, aqui). Em 1989, a jovem oficialidade do Exército tinha ficado bastante traumatizada com a ordem para atirar nas multidões de revoltosos, e Chávez conta ter recebido diversas consultas de oficiais que se declaravam dispostos a não obedecer uma tal ordem outra vez.

Chávez declarou que os acontecimentos de Caracas mostravam a falência de um sistema político que nunca havia servido ao povo venezuelano, por estar comprometido com os interesses da classe dominante, baseados esses na corrupção. Os líderes do MBR-200 e os outros envolvidos foram presos, excluídos do exército, julgados e condenados.

Seja lá como for, o fato é que o movimento sacudiu o panorama político do país. Diante da agitação popular, começaram a surgir protestos na própria elite política contra a corrupção fora de controle, e menos de um anos depois, o Congresso venezuelano votou o impeachment de Pérez, sob acusações de corrupção. Em 1994, o descontentamento público com o regime levou Rafael Caldera, novamente ocupando a presidência para o período1994–1998, a indultar Chávez, já então idolatrado pela população. Do ponto de vista da elite, encurralada pela insatisfação popular e paela agitação nas forças armadas, foi um magnífico tiro no pé. Após a anistia, Chávez abandonou a vida militar e se dedicou à política, sendo favorecido pelo agravamento da crise social e o crescente descrédito nas políticas tradicionais.

Em 1997, fundou o Movimiento V República, movimento de oposição que visava disputar as eleições presidenciais marcadas para 1998. Recebeu o apoio da coligação “Pólo Patriótico”, e acabou eleito com 56% dos votos. Assumiu a presidência em 1999, para um mandato de cinco anos. O problema é que a situação econômica ia de mal a pior, e as constantes baixas no preço do petróleo não permitiram um enfrentamento eficiente da crise. Além do mais, o ano também foi marcao pela promulgação de uma nova constituição, que aumenta os poderes do Executivo. Ao longo dos anos seguintes, o presidente implementou uma série de mudanças que, na prática, visavam diminuir os poderes de importantes parcelas dos setores dominantes, particularmente os proprietários de terras e a burocracia do petróleo, encastelada na PDVSA, a empresa estatal coordenadora da área de produção de óleo.

A partir de então se inicia um enfrentamento que culminará numa tentativa de golpe conservador. O desenvolvimento foi paulatino, iniciando-se num processo chamado goteo militar (“gotejo militar” – uma série de pequenos pronunciamientos, um atrás do outro, de autoridades militares), realizado, ao longo do mês de fevereiro de 2002. Abria-se uma disputa pelo controle do estado. Observou-se a mobilização de classes empresariais, realizada através de associações como a Fedecámaras, Consecomercio, PDVAL (então a federação dos supermercados e atacadistas de alimentos, não a subsidiária da PDVSA criada depois por Chávez…) e por aí vai mobilizando um enorme lockout pelas classes produtoras locais. No dia 7 de abril,  conforme o governo anuncia mudanças na direção da PDVSA, as lideranças de oposição convocam manifestações para o dia 9, e no dia seguinte, após tentativas de lockout e de manifestações de rua, que resultaram em tiroteio (provado por franco-atiradores não-identificados). A oposição e setores do comando militar declararam, diante da situação, que o presidente seria responsável pelas mortes, não tinha “autoridade moral” e passaram a exigir sua renúncia. Com as televisões, rádios e jornais repetindo as acusações praticamente de dez em dez minutos, em 11 de abril um grupo de oficiais-generais, políticos, empresarios, dignitários da Igreja Católica e representantes dos meios de comunicação declararam vaga a presidência com a prisão de Chávez e indicaram o presidente da Fedecámaras, empresário Pedro Carmona como “presidente da República” de um “governo  de transição democrática e unidade nacional”. As atitudes de Carmona surpreenderam até mesmo seus partidários: emitiu um único decreto, destituindo todas os representantes de todos os poderes e anulando todos os decretos do governo anterior. As novas “autoridades” bem que tentaram iniciar um amplo processo de repressão, que começou com a prisão de qualquer pessoa que fosse suspeita, real ou imaginariamente, de ligação com o regime deposto. Segundo os meios de comunicação, totalmente alinhados com o golpe, as milhares de prisões realizadas visavam encontrar os “criminosos chavistas”. O problema é que a atuação de base dos partidários de Chávez no Movimento Bolivariano Revolucionário baseava-se em células denominadas “círculos bolivarianos”, que não tinham sido proibidas depois de 1992, e transformaram o movimento de militar em movimento de massas. Calcula-se que, na época do golpe, o movimento tivesse entre dois e três milhões de ativistas. Sua capilaridade atingia a toda Venezuela.

No terceiro dia do golpe, os golpistas já manifestavam fortes dissensões internas. Sem conseguir apresentar provas convincentes do envolvimento do governo no tal tiroteio, e das ligações dos “assassinos” com o MBR, a cúpula golpista sequer conseguiu colocar o exército na rua, o que provavelmente teria provocado um massacre, dado volume que atingiam as manifestações contrárias ao golpe. Carmona, depois de um pronunciamento destrambelhado feito em rede nacional (em que teve um acesso de raiva e uma crise de choro…), desapareceu.

O que os golpistas não pareceram contar foi com a reação popular. E, principalmente, não contavam que as dissensões dentro das forças armadas fossem tão fortes. Generais e coronéis não tinham a menor simpatia da oficialidade de patente média e dos praças graduados (sargentos e cabos) e, portanto, não tinham controle sobre a tropa. O comando das forças armadas era constituído por oficiais que haviam atingido o generalato no período de governo de Carlos Andres Pérez, cuja marca fora a corrupção descontrolada. A tropa os via como incompetentes e corruptos, jogando em causa própria. Muitos deles, como coronéis, haviam comandado o massadre do Caracazo. As lideranças golpistas subestimaram grosseiramente a penetração do Bolivarianismo entre a tropa. Em 13 de abril, a prisão de alguns generais e coronéis e um pronunciamento militar partido de unidades de elite, como os “tigres de Aragua” encerra o golpe. Chávez voltou ao poder nos braços da tropa.

Continuaremos no assunto… É então que a coisa começa a ficar divertida…::

Um rapaz das Forças Especiais::Tenente-coronel Hugo Chávez::

É uma provocação, mas também é uma solução. Chávez, antes de se transformar em presidente da Venezuela, principal propagandista do “socialismo bolivariano” e espantalho favorito da grande imprensa brasileira, realmente começou sua carreira no Exército Venezuelano. Hugo Rafael Chávez Frías nasceu na cidade de Sabaneta (estado de Barinas, sudoeste da Venezuela), em 28 de julho de 1954. Era o segundo filho de uma família de classe média baixa, que empobreceu com a crise econômica.  Aos dezessete anos, ingressou na Academia Militar de Venezuela, tendo sido nomeado segundo-tenente (subteniente, em espanhol) em 1975, especializado em Comunicações. Sua primeira comissão foi em uma unidade de forças especiais, o Batalhão de Infantaria de Montanha Manuel Caldeño, tendo se envolvido em ações de repressão contra guerrilheiros ligados ao “Partido Bandera Roja”, de linha marxista albanesa, na região de Cumaná. Em 1977, já primeiro-tenente, Chávez foi designado para o Centro de Operações Táticas, em San Mateo, onde recebeu treinamento em operações de contra-insurgência. Segundo sua biografia oficial, foi nessa época que o futuro presidente começou a simpatizar com os movimentos populares, e a observar o alto nível de corrupção disseminado no exército e na política. Em 1978, foi transferido para uma unidade blindada equipada com carros de combate  AMX30, situada na cidade de Maracay (capital do estado de Aragua – não confundir com Maracaibo, principal região petrolífera do país). Em 1980, promovido a capitão, foi destacado para a Academia Militar de Venezuela, onde veio a cumprir as funções de chefe do Departamento de Educação Fìsica e, logo depois, do Departamento de Cultura. Promovido a major e inscrito na Escola de Estado-maior do Exército, em Caracas, Chávez se destacou pelo interesse por política, e eventualmente era indicado como conferencista. Destacava-se pelas palestras longas sobre assuntos diversos, e as opiniões sobre seus talentos de orador são díspares: alguns dizem que suas falas eram interessantes e prendiam a audiência durante horas; outros afirmam serem perorações disparatadas de inspiração esquerdista, ao longo das quais o desafio era permanecer acordado.

Depois da Academia, Chávez serviu em diversas unidades até chegar a comandante do Batallón 422 (Batallón Coronel Antonio Nicholas Briceño) da 42ª Brigada de Infanteria Paracaidista, na cidade de Maracay – os “tigres de Aragua” (o que explica a boina carmim usada por ele em dezenas de fotografias). 

Na atualidade, Hugo Chávez embora já tenha deixado o serviço ativo, ainda se interessa por assuntos militares – tem se esmerado em tornar a Venezuela uma potência militar regional, com o auxílio da Rússia. Presidente da República Bolivariana de Venezuela já por dois mandatos, goste-se ou não do cara, ele se transformou numa personalidade latino-americana e levou a Venezuela ao papel de ator mundial, através de um ativismo contra o capitalismo e contra os EUA que, por vezes, parece meio maluco. Pregando o que ele chama de “socialismo do século 21”, tem sido o principal financiador de Cuba, e utiliza os recursos gerados pela riqueza petrolífera da Venezuela para apoiar regimes que se mostrem dispostos a aderir ao “bolivarianismo”. Chávez tem sido acusado de “acabar com a democracia“, ser um “liberticida“, ser inimigo da “liberdade de imprensa” “estar arrasando a economia da Venezuela“, etc., etc (todas essas inserções foram apanhadas de maneira aleatória, na Internet). Existem, por outro lado, manifestações simpáticas e até mesmo radicais, de apoio, mas geralmente partem de indivíduos e associações de caráter quase privado (por exemplo…).  A implicância, entretanto, ganha de longe.

Assim, a carreira militar do tenente-coronel PQd Chávez nem é tão importante, apesar do homem tê-la cumprido de maneira destacada (ninguém chega a comandante de pára-quedistas por saber manipular talheres, dizia o – insuspeito, no caso – general norte-americano Maxwell D. Taylor). A de presidente da Venezuela… Bem…

Winston Churchill costumava a dizer que quem não sabe história, não sabe nada. Chávez, apesar de pára-quedista, não caiu de pára-quedas na história venezuelana. Nossa grande imprensa o trata como tirano, liberticida e “inimigo da democracia”. Mas como teria sido a democracia venezuelana antes de Chávez? Ou melhor- existia uma “democracia venezuelana” antes de Chávez? Isso, nossos simpáticos jornalões não contam.

Fiquem atentos. Vamos ver – talvez seja possível aclarar um pouco essa história::

Entre tapas e … beijos?…::Colômbia e Venezuela:perspectivas::

parte1Não é mais novidade para ninguém, claro, mas a Colômbia tem novo presidente. Juan Manuel Santos, eleito há duas semanas, é uma figura política envolvida em polêmica, tanto em seu país quanto no resto do continente. Dois anos atrás, ministro da Defesa do governo de Álvaro Uribe, Santos liderou a Operação Fenix, bem planejada special op  realizada em março de 2008, contra um santuário das FARC em solo equatoriano – que quase resultou numa guerra com Equador e seu “irmão maior”, a Venezuela. Essa “operação especial aérea” teve, dentre outros resultados, matar um dos principais planejadores militares das FARC,  Raúl Reyes, e mais dezessete guerrilheiros. Desde então, tramita na própria Colômbia um processo no qual o agora presidente é acusado pelas mortes de vinte e cinco pessoas, registradas nessa operação.

O principal problema, digamos, “diplomático” da Colômbia tem sido com a Venezuela e Hugo Chávez – os constantes entreveros com os “bolivarianos” Equador e Bolívia estão nessa linha de confronto: Uribe acusa, embora não consiga provar, os governos desses países de apoio à “narcoguerrilha”. No caso de Santos, a briga com Chávez remonta ao apoio público daquele a uma tentativa frustrada de golpe na Venezuela, em 2002. Como se não bastasse, o agora presidente defendeu que a Colômbia recebesse o líder golpista Pedro Carmona como “asilado político”. Foi o bastante para que Chávez pusesse Santos no topo de uma lista de supostos inimigos públicos de seu país e (por conseguinte…) aliados do imperialismo ianque, ao lado de Geoge W. Bush e, claro, do próprio Uribe. 

A vocação do novo presidente para a polêmica, entretanto, não se limita aos bate-bocas com o espantalho mais popular entre a grande imprensa brasileira. Em 1997 foi acusado de golpista por ninguém menos que o então presidente colombiano, Ernesto Samper. O motivo da acusação esteve numa reunião clandestina, que pôs  Santos em contato com líderes do Exército de Libertação Nacional da Colômbia (ELN), naquela época o principal grupo de oposição armada ao governo. O atual presidente teria por objetivo provar acusações (dele mesmo…) de que Samper receberia dinheiro do narcotráfico. O resultado mais palpável da tal reunião foi um processo parlamentar – que, é claro, não deu em nada. O fato é que governo Uribe, ainda hoje assombrado por esse evento, divulga uma versão oficial de que a reunião buscava “abrir negociações para uma saída política e pacífica para o país”, muito embora Santos fosse, na época, um dos principais críticos da “falta de pulso” do então presidente Ernesto Samper. Desde então, de improvável “pomba” Santos converteu-se em ativo “falcão”: condena qualquer negociação com as FARC e só aceita o desarmamento incondicional do grupo – pelo menos é o que diz em público. 

Santos não é neófito na política colombiana. Nascido em 1951, em uma tradicional família da oligarquia local, o avô, Eduardo Santos Montejo, presidiu o país entre 1938 e 1942 e ficou conhecido pela oposição às tendências fascistas que então vigoravam no país. Nesse período teve origem o “santismo”, corrente moderada do Partido Liberal, ainda muito ativa e que, até meados da década passada, teve no neto de Santos Montejo um de seus principais animadores. O pai, Enrique Santos Castillo, foi editor do diário conservador El Tiempo, de propriedade da família. O próprio Santos também trabalhou no jornal, durante pouco tempo. A sua entrada na política nacional ocorreu no governo César Gaviria, que em 1991 o nomeou para a pasta do Comércio Exterior. Desde então tem tido intensa atuação na política local. 

Entusiasta dos EUA e do Plano Colômbia, essa simpatia é facilmente explicável – Santos fez toda a sua formação superior naquele país (a parte um período em Londres), inclusive como bolsista de fundações norte-americanas. Antes de decidir-se pelo jornalismo e pela política, o jovem Santos descobriu em si mesmo (ou assim quer que acreditem) forte vocação militar, tendo passado algum tempo como aspirante a oficial da Marinha da Colômbia. Segundo conta, seu interesse pela diplomacia e pelos assuntos militares surgiu no período que passou na Escola Naval de Cartagena. 

Foi no governo do ex-correligionário liberal Álvaro Uribe, quando cumpria mandato de senador, que Santos deu seu maior golpe: desligou-se do partido de seu “amado abuelo” para juntar-se, em 2004, ao governo Uribe, tendo inclusive coordenado a organização de um novo partido, que juntou em uma legenda todos os uribistas – o “Partido de la Unidad Nacional”, conhecido como “Partido de la U”. Nessa época Uribe já tinha se constituído como principal força política da Colômbia, tendo sido eleito presidente pela primeira vez em 2002, concorrendo contra Horacio Serpa. 

Cabe aqui um parêntesis (sempre existem, em política…). O sucesso político de Uribe tem base em sua bem-sucedida política de enfrentamento contra os grupos de oposição armada. Baseado na premissa (não muito distante da realidade) de que a política de apaziguamento seguida por seus antecessores, Samper e o conservador Andrés Pastrana, não tinha dado resultados, Uribe passou a estabelecer pré-condições para negociar com os grupos de oposição armada, independente da coloração política, e o desarmamento tornou-se a base dessas condições. Nos anos seguintes, elas foram recusadas pelas FARC, aceitas de forma relutante pelo ELN e entusiasticamente pelas AUC. Uribe trombeteia, desde então, que trinta mil paramilitares e oito mil guerrilheiros teriam entregue as armas. Sem oferecer outra alternativa à oposição armada, sua política reduz, por todos os meios, os grupos guerrilheiros a meros criminosos armados – basta observar o uso indiscriminado  e pouco explicado da expressão “narcoguerrilha”. Nessa direção não resta outra alternativa que não seja a escalada do conflito militarizado. A nova estratégia não oculta – até ao contrário – a outra face dessa política: o Plano Colômbia.  

Entretanto, não são poucos os analistas que consideram essa política extremamente ambígua.  Denominada, para fins de propaganda, “Política de Segurança Democrática”, sua matriz é a premissa  que a luta do estado e de seus órgãos de segurança contra a insurreição armada e o narcotráfico é problema de toda a sociedade colombiana, e que esta deve ser mobilizada para atuar. A partir dessa premissa, se planeja estratégia: as forças armadas e os órgãos de segurança buscam estabelecer uma rede cobrindo o território nacional, com comunidades e grupos civis atuando como primeira linha de vigilância. A criação de redes de informantes, o estabelecimento de recompensas em dinheiro premiando a deserção e a delação dentro dos grupos armados, a criação de “unidades de autodefesa camponesa”, são algumas das propostas tidas como “fatores de sucesso”. Essa estratégia (nota do redator:: os assíduos de causa:: devem, neste ponto, lembrar que a estratégia é desdobramento da política…) teria, entretanto, sido elaborada com base em canais de informação estabelecidos com o narcotráfico e os violentos grupos paramilitares colombianos, como as Autodefesas Unidas de Colombia, que teriam sido estabelecidos durante seu mandato com prefeito de Medellin. A colaboração com setores do narcotráfico e com os paramilitares de extrema-direita já foi levantada por fontes tão díspares quanto a apresentadora de TV sensacionalista Virgínia Vallejo e o serviço de inteligência do Departamento de Defesa dos EUA. Embora negue com veemência essas ligações, o agora quase ex-presidente nunca as conseguiu explicar direito. Outro aspecto, admitido mas menos propagandeado pelo governo é o aumento exponencial do orçamento de defesa e a aproximação, nunca muito bem esclarecida, com os órgãos de segurança dos EUA. 

Fecha parêntesis. O golpe ideológico espertíssimo, que não se pode deixar de reconhecer, é jogar para a sociedade colombiana parte considerável da responsabilidade de reprimir os grupos armados; embora não pareça, seria uma reestruturação da “política de segurança nacional”, ou seja, segurança de setores de elite como classe dominante do Estado, implementada pelas forças armadas e orgãos de repressão – como era nos anos 1960 e 1970. Parte dessas observações são da escritora Diana Duque Gómez, autora de um livro sobre o governo Uribe, “Uribe: el gran embuste” (uma texto dela sobre a PSD pode ser lido aqui). Segundo Duque, nessa nova abordagem, a política de segurança nacional de triste (e persistente) memória ( e que o vibrante matutino paulistano “Folha de São Paulo” adoraria ver reeditada) pode ser adaptada a um ambiente democrático, sem violar de forma flagrante o estado de direito negociado com a sociedade civil. Com sua “Segurança Democrática” e o forte apoio dos EUA, em termos de treinamento, equipamento e suporte estratégico (fornecimento de equipamento adequado e apoio em Inteligência Eletrônica – ELINT), Uribe conseguiu encurralar a guerrilha em determinadas regiões do país. O apoio dos EUA traduziu-se não apenas em assessoramento militar, mas também em privilégios econômicos e no suporte de instituições acadêmicas e de pesquisa. Políticas urbanas e sociais e projetos de obras públicas, resultantes daí, melhoraram  visivelmente a situação de segurança pública e social, em cidades como Bogotá, Antióquia e Medellin. Não é pouca coisa, reconheçamos: em um país arrasado durante mais duas décadas por uma guerra civil não declarada, a população teria de apoiar quem conseguisse colocar alguma ordem no terreiro. Esse aprovação, que chegou a 95 por cento, tornou o uribismo aparentemente imbatível nas urnas. 

Em 2005, com altíssima popularidade, Uribe obteve da Corte Constitucional mudança na Constituição Nacional, que lhe permitiu apresentar-se para disputar a reeleição. Em 2006 tornou-se o primeiro presidente a ser eleito em primeiro turno, desde a introdução do duplo escrutínio na carta magna colombiana, quinze anos antes. Reeleito, nomeou Santos Ministro de Defesa Nacional, e, como não poderia deixar de ser, a política de confronto escalou. Com apoio crescente dos EUA, as forças armadas aplicaram nas FARC golpe sobre golpe. Além da morte de Raúl Reyes, houve a defecção de Nelly Ávila Moreno, (a líder guerrilheira “Karina”, a mais importante figura feminina da estrutura de comando da FARC), seguida da rendição de centenas de guerrilheiros das FARC. Em julho de 2008, outro golaço: a libertação da senadora Íngrid Betancur, refém das FARC por mais de seis anos. Santos a recebeu pessoalmente, cercado pela imprensa numa base das forças especiais. O sucesso da operação foi possibilitado por um planejamento extremamente cuidadoso e pela infiltração de agentes do governo nos escalões de comando superior das FARC. A integridade dos reféns era considerada como condição não negociável, e a operação deveria ser abortada caso houvesse qualquer sinal de risco para o grupo. 

Foi como executor da “Política de Segurança Democrática” de Uribe que Santos se qualificou para concorrer à sucessão do presidente. A escritora Diana Duque aponta, juntamente com diversos outros analistas, que a guerra interna se tornou, depois de 25 anos, um grande negócio para as elites locais (apesar do radicalismo, exagerado mesmo para o gosto aqui do redator::, o blogue dessa criatura é uma das leituras que causa:: indica aos assíduos). 

Entretanto, é discutível se sucesso da guerra contra a “narcoguerrilha” aconteceria não fosse o “Plano Colômbia” e os enormes recursos aplicados no país pelos EUA. Calcula-se hoje que aproximadamente dez mil operativos, civis e militares, estejam em missão na região, mesmo depois da desmobilização da base de Manta, no Equador. O desgaste político provocado pelo Plano, entretanto, não tem sido pequeno, tanto para os EUA quanto para a Colômbia. As bases operacionais das forças armadas dos EUA acabam, quer se queira ou não, lembrando a história de intervenções norte-americana na região e do uso das forças armadas locais para manter a população sob controle. Entre nós, no Brasil, a questão é menos incisiva – nunca tivemos marines desembarcando na praia de Copacabana -, mas no Caribe e América Central, a memória das intervenções dos EUA é muito marcante, sendo recentes as últimas interferências, diretas ou indiretas na região – basta lembrar o plano Irã-Contras e a manutenção da base naval de Guantanamo, em Cuba, sob pretextos considerados espúrios.  

Além de evocar passado e presente, as bases suscitam, no plano interno local, possibilidades futuras que estão além de qualquer missão militar específica. O “Plano Colômbia” foi originalmente concebido como forma de apoiar e implementar, durante dois anos, ações militares locais, que visavam isolar os territórios sob controle da guerrilha, no sul do país. Para os anos posteriores, eram vagas  e sem prazo claramente fixado as propostas de desmobilização das bases e desengajamento do pessoal norte-americanos.

As instalações não são propriamente militares, quer dizer, não abrigam tropas, não armazenam equipamento de combate, e a maioria dos operativos são civis. Esse é um dos cavalos de batalha usados pelos EUA – e pelas claques conservadoras locais – para alegar a “inocência” e “boa-intenção” do plano.  O problema são as atividades desenvolvidas nas bases: inteligência eletrônica. Monitoramento de comunicações e dados, vigilância por radar e micro-ondas, interferência em ações eletrônicas de possíveis adversários, coordenação e controle, voltados, pelo menos teoricamente (muito teoricamente…), para os movimentos do tráfico de drogas, imigração ilegal para os EUA e “outras atividades ilícitas”. Mas, segundo observações de organizações civis e de setores do próprio governo dos EUA, não são transparentes e nem têm mecanismos que permitam o acompanhamento pela sociedade civil, seja dos EUA, seja dos países onde se encontram. Esse ponto é especialmente delicado: desde 2001, os objetivos da presença dos EUA na Colômbia foram expandidos para incluir “contra-terrorismo”. A partir do início da década passada, tem sido denunciado o envolvimento de militares norte-americanos em operações de campo na Colômbia, o que não é negado nem pelos EUA nem pelo governo colombiano. A proximidade dessas operações com as fronteiras de países como o Equador e a Venezuela é uma das razões para a tensão na região; exagero ou não dos governos desses países, operações como a  “Fênix” ou a “Jaque” não seriam possíveis sem os recursos de ELINT disponibilizados a partir das bases norte-americanas para as unidades de forças especiais colombianas. E essas, por sua vez, dependem, para poder usar eficientemente esses recursos, da colaboração de campo de especialistas militares dos EUA. Durante a campanha eleitoral em 2008, Barack Obama levantou críticas sobre a situação de direitos humanos na Colômbia e apontou a responsabilidade da política dos EUA para a região nessa situação; segundo o então candidato, o Plano Colômbia merecia seu apoio mas talvez precisasse sofrer ajustes. Entretanto, depois de eleito, o novo governo anunciou a instalação de novas bases em território colombiano. Segundo estudos feitos por analistas independentes nos EUA, as novas bases seriam instaladas muito mais perto da fronteira venezuelana do que em locais que permitiriam a compensação da extinta base de Manta (Equador – uma nota sobre o assunto, en inglês, aqui). A seguir, a eletrizante continuação dos tapas e… Bom, por enquanto, tapas, mesmo, entre Santos e Chavez. Fiquem sintonizados::