PRM, PAEMB, FREMM e outros quetais: a Marinha Brasileira também tem seu FX::

O projeto FX foi adiado mais uma vez, como todos sabemos. Em fevereiro, depois de colocar o Ministério do Desenvolvimento Econômico e Comércio Exterior no grupo encarregado de reanalisar as opções relacionadas (na minha terra, isto se chama “começar tudo de novo”, mas… vá lá…), a presidente Dilma Roussef, em função de alegadas necessidades de ajuste econômico, empurrou tudo para 2012. Outro ponto forte que contribuiu para o adiamento foram as discordâncias sobre o modelo a ser escolhido. Até as pedras (francesas, norte-americanas e suecas – bem como as leitoras de causa::) sabem que o comando da FAB mostrou preferência pelo modelo sueco Gripen JC39 enquanto o Ministério da Defesa teria indicado o francês Rafale, em função de o presidente Lula ter revelado sua grande preferência pelos aviões (e pela aliança com…) franceses. Ainda assim, ele deixou a escolha final para o governo que o sucedeu, e a presidente resolveu analisar melhor a compra dos novos equipamentos, investimento que deverá subir a uns 10 bilhões de reais.

Muito dinheiro? Com certeza. Mas o fato é que, do ponto de vista estritamente militar, o adiamento da escolha do caça tem como consequência o aprofundamento do problema de obsolescência do equipamento da FAB. O F5MBR “Tiger” é uma gambiarra (muito bem elaborada pela Embraer, mas ainda assim, uma gambiarra) concebida como solução de emergência para não deixar a FAB no chão. Um problema ainda mais sério é que todos os modelos disponíveis no mercado – as aeronaves chamadas “da geração 4,5” – estarão obsoletos dentro de uns dez a quinze anos. Já começa a entrar no mercado uma variedade de tipos de quinta geração – o F22 Raptor, operacional e em desenvolvimento (agora se começa a falar em uma versão “de exportação”) , o F35 Lightining II (próximo a entrar em produção) e o T50 PAK-FA, este russo, desenvolvido em conjunto com a Índia. Essas novas aeronaves deverão estar plenamente desenvolvidas entre 2020 e 2025. As três têm capacidades que nenhum caça da geração 4,5 (inclusive os dois mais desenvolvidos, o Rafale e o multinacional Typhoon) tem.

Ou seja – existe o risco real de que a FAB enterre algo em torno de 10 bilhões de dólares num modelo de aeronave sem possibilidades de desenvolvimento. Imagino que os planejadores da FAB já tenham colocado esse fator na balança. Mas, balança por balança, o que pesa mesmo é a aparente inexistência de uma política de defesa concebida a longo prazo. Se houvesse tal política, seria decorrência a constatação de que o Brasil não tem forças armadas que correspondam às intenções do país em tornar-se ator global. E que, sem forças armadas, a Estratégia Nacional de Defesa se torna uma falácia.

Uma elocubração interessante aponta que o desenvolvimento do país acaba se tornando resposta para tudo. O país encontra-se em curso para cumprir seu “destino manifesto” de “potência global”. Realizado tal destino, todos os problemas se resolverão. Mas até lá, apela-se a um vago “patriotismo” dos atores envolvidos – classes médias urbanas educadas, servidores públicos e militares -, que significaria oferecer “sacrifícios” em pról do objetivo maior. Tal apelo (que não é feito à outras categorias da sociedade…) tem uma de suas facetas em solicitar essas categorias se virem como for possível, diante da crônica falta de dinheiro. Temos, assim, professores sem escolas equipadas, médicos sem hospitais e militares sem equipamento. 

Contra esse pano-de-fundo, não é estranho constatar que o projeto FX desenrole-se como tem se desenrolado, por duas décadas. E também não é estranho constatar que as outras forças singulares também têm seus “programas FX”, enrolados, para não irmos muito longe, ao longo de todo o atual período democrático. O problema de equipamento da FAB chama mais atenção em função da premência  e do lugar que tem no imaginário tecnológico da atual sociedade. A Marinha Brasileira tem atuado de forma mais discreta que a FAB – vale dizer: tem conseguido manter suas demandas fora dos holofotes da política e dos “especialistas” da imprensa.

O “FX da Marinha” já se chamou “Plano de Reaparelhamento da Marinha” (PRM), e vem, desde os anos 1980, sendo rolado (quando a MB lança o conceito e os estudos decorrentes) e enrolado (quando o governo empurra a dotação de recursos para as calendas gregas, apelando para as mais variadas desculpas) por sucessivos governos. A partir dos anos 1980, a MB teve viu seu planejamento obstaculizado pelos sérios problemas econômicos do país e pela baixíssima disposição doa governos pós-regime militar em lidar com questões militares fora do âmbito de uma verborragia inócua, tipo “discussão do papel das forças armadas em um regime democrático”. No início da década de 1990, os planos da Força, de construir doze corvetas da classe “Inhaúma” modificada e dois submarinos IKL1400 modificados, foram definitivamente abandonados. Manteve-se a construção dos exemplares originais de cada série, a corveta “Barroso” e o submarino “Tikuna”, já iniciada, e que acabou se transformando numa epopéia de mais de dez anos. Tratou a Marinha, então, de se virar com “compras de oportunidade”, navios desativados em seus países de origem, em diferentes estados de aprestamento. O fim da Guerra Fria levou à uma reconceituação das políticas de defesa nos países da OTAN – particularmente na Grã-Bretanha essa reconceituação foi notável – e a diminuição do tamanho das forças armadas colocou no mercado unidades de ótima qualidade em bom estado de conservação, e a preços muito razoáveis. No Brasil, foram adquiridos quatro fragatas britânicas, quatro da classe “Pará”, ex-norte-americanas da classe Garcia (tão ruins que três foram desativadas em menos de dez anos) e um navio-aeródromo ex-francês, recém-reformado pelos ex-donos. Por outro lado, o projeto do Navio de Patrulha Oceânico de 1200 toneladas de deslocamento foi abortado no início, o do submarino nuclear tropeçou em sucessivos cortes de verba e o do submarino convencional nem chegou a entrar na prancheta. Novidade mesmo, apenas a criação da aviação naval de asa fixa, com a compra de 24 caças táticos A4D Skyhawk.

Os anos 2000 também não foram grande coisa. Mesmo com o crescimento do país em níveis de quatro a cinco por cento, o orçamento da Marinha continuou comprimido. A parte destinada por lei à Força, dos royalties do petróleo, foi sucessivamente contingenciada e transformada, nos balanços do governo, em superávits orçamentários. A prática, inventada no governo FHC, foi alegremente adotada nos governos Lula e o resultado é que a MB continuou a ver navios. A crise de 2009 fez todo mundo mudar de assunto, mais uma vez, com a novidade de que se chegou a falar no abandono definitivo do programa do submarino nuclear. A curto e médio prazos, a Marinha tinha, na época, como prioridades a incorporação de navios-patrulha classe “Macaé”, então em fase final de construção, a modernização dos submarinos classe “Tupi”, a compra de novos helicópteros ASW, a modernização das aeronaves de asa fixa e a aquisição de novos navios de escolta. Todo o resto foi colocado em banho-maria.

O “Plano de Articulação e Equipamento da Marinha do Brasil” (PAEMB – um resumo da versão oficial pode ser lido aqui; uma visão não-oficial, de um blog geralmente confiável, aqui) surgiu a partir do lançamento da Estratégia Nacional de Defesa. Claro se trata de mais um programa, e nada impede que seja enrolado pelo governo. Com o desenvolvimento da END, a Marinha foi (como as outras Forças singulares) chamada a informar o Ministério da Defesa sobre quais eram os meios necessários para cumprir de maneira razoável as atribuições que lhes eram destinas na nova política de Estado brasileira. De fato, era o caso de elaborar um programa que previa os meios necessários, as possibilidades de aquisição de tais meios (internas e externas) e como os meios científicos e industriais existentes no país poderiam ser convocados a participar. De fato, era uma forma nova de encarar o problema do planejamento de defesa no país. Até então, a Força (como as outras) tinha apenas uma matriz de planejamento: o orçamento. E não o que lhes é destinado pelo Leis de Diretrizes Orçamentárias, mas uma previsão feita pelos setores especializados sobre quanto seria realmente repassado. Os números previstos no PAEMB são, assim, não os reais, mas os ideais, bem como a relação de equipamento adequado. Mas qualquer um que, como eu (e os assíduos de causa::) acompanhe como são tratadas as questões militares no Brasil, sabe que qualquer previsão implicaria também na previsão média de corte de uns sessenta por cento, e prazos médios de execução de pelo menos dez anos. Assim, o horizonte de realização do plano é de pelo menos duas décadas: 2011-2031.

 Reaparelhamento das forças armadas é decisão política, e o alto investimento de recursos necessário, particularmente num país sem grandes problemas no horizonte das relações internacionais, sempre provocará muita controvérsia. Nos início dos anos 1970, a aquisição de fragatas, submarinos, caça-minas, helicópteros ASW, caças Mirage, caças táticos Xavante, fuzis de assalto, que praticamente obrigaram a criação de novas forças armadas, não provocaram controvérsia por dois motivos. O primeiro é bem lembrado: o governo ditatorial censurava tudo e prendia os críticos; o segundo, a maioria de nós gostaria de esquecer: o clima era o do “Brasil-potência” e a população, particularmente a classe média, achou ótimo ter forças armadas modernas. Num regime democrático, a coisa fica diferente, para bem e para mal. Para bem, porque um investimento de alguns bilhões de reais em dinheiro do contribuinte precisa realmente ser debatido; para mal, porque a maioria dos  debatedores não sabe do que está falando, e a coisa toda acaba num grande e inócuo exercício de “achologia”.

Foi exatamente o caso recente dos submarinos. Altamente controvertido, e (pelo menos segundo certos setores da imprensa…) pouco “debatido com a sociedade”, envolve recursos da ordem de 20 bilhões de reais. Apesar de tudo, será mantido – inclusive, por causa da existência, no contrato, de cláusulas draconianas que tornam muito mais caro suspender (como andou sendo discutido dentro do governo) do que manter.

Além dos custos diretos, a compra dos Scorpéne implica em outros, menos perceptíveis: é quase uma nova Marinha. Algo no nível da aquisição da “esquadra branca” de 1910, da reestruturação da Marinha 1941-1951 e da aquisição das fragatas classe “Niterói” (1970). A aquisição não apenas abrange a construção de parte dessas unidades (inicialmente três, das quatro adquiridas) num estaleiro/base naval que está em construção nas cercanias de Itaguaí (RJ), como a aquisição de um casco destinado ao submarino nuclear. Depois de uma série de experimentos conceituais e modelagens virtuais, ainda não divulgados, e que envolviam o conhecimento adquirido com a operação dos “Tupi”, os especialistas da MB concluíram que melhor seria comprar o casco pronto. Voltaremos ao assunto em outra oportunidade.

Não há dados concretos sobre que custos esse projeto alcançará. Calcula-se que a construção de uma única unidade deverá atingir 1,2 bilhões de dólares. No mínimo, já que também somos todos especialistas em esticar o dinheiro. Mas tomando-se como base o custo do programa de construção do submarino nuclear francês Le Terrible, que está em construção em Cherburgo, dificilmente cada unidade ficará por menos de 2,5 bilhões de dólares (ou 1.52 bilhões de euros, segundo o site especializado – em inglês – NTI). 

Resta saber se o governo brasileiro estará disposto a arcar com tais custos. Uma das alegações mais constantes é que um país “pacífico” não precisaria de tal tipo de despesa. Essa argumentação é espúria – nenhum país mantém forças armadas baseado unicamente na perspectiva de uma guerra. Os interesses nacionais na “Amazônia Azul” são pacíficos mas são estratégicos para o Brasil: “os limites das águas jurisdicionais brasileiras, consagrados em tratados multilaterais, garantem direitos econômicos, porém com a contrapartida dos deveres e das responsabilidades de natureza política, ambiental e de segurança pública sobre uma área de cerca de 4,4 milhões de quilômetros quadrados, que equivalem à metade da superfície do território nacional em terra firme” (vale à pena ler, sobre o assunto, a íntegra deste artigo). Não é difícil (pelo menos não deveria ser…) entender que existem interesses econômicos enormes na plataforma continental brasileira (o “mar de 200 milhas”), a começar pelos recursos pesqueiros – que o Brasil ainda aproveita muito pouco.

Mas como peixe não é algo que as pessoas achem que valha uma guerra, coloquemos outro exemplo: já foram investidas enormes quantidades de recursos na exploração de petróleo em campos sob lâmina d´água, recursos que deram ao país, no período entre 1975 e 1997, a auto-suficiência (vale à pena ler este artigo, uma boa resenha sobre o tema) em produção interna. Atualmente, visto que nos tornamos uma potência tecnológica no que diz respeito à pesquisa e exploração em lâmina d´água ultraprofunda, e as pesquisa sobre os campos do pré-sal mostram um ambiente promissor, existe perspectiva concreta de que, nos próximos vinte anos, o país se torne um dos grandes produtores de petróleo do mundo. Toda a produção virá de plataformas e complexos de apoio situados em alto mar. A defesa desse aparato produtivo exigirá forças navais e aéreas compatíveis. É significativo que o país esteja adquirindo aeronaves de patrulha (outra compra altamente controversa, embora menos conhecida em seus detalhes) com alguma capacidade ofensiva e esteja em debate a aquisição de navios de patrulha oceânicos e navios de escolta.

Tudo no âmbito do PAEMB, só que o “FX da Marinha” também foi posto na geladeira pelo governo Dilma Rousseff, pois está estimado, para início de conversa, em 10 bilhões de reais. A presidente determinou que cinco navios-patrulha oceânicos (NaPaOc) de 1800 toneladas, e cinco fragatas multimissão classe FREMM (acrônimo de Frégate Européenne Multi Mission), um projeto franco-italiano, que deverá ser construído no próprio país, fossem adiados, em princípio para 2012. O projeto da Marinha incluí também os cinco submarinos.

Parece que o atual governo não tem dúvidas sobre a necessidade urgente dos novos navios, visto que a Marinha tem problemas de equipamento tão sérios quanto a FAB e o Exército (estranho seria se não tivesse). Os principais navios de superfície da Esquadra (fragatas classe “Niterói” e “Greenhalgh”, ambos desenhos ingleses dos anos 1960, e as corvetas classe “Inhaúma”) terão atingido o final da sua vida útil dentro de dez anos, mais ou menos, e precisarão ser substituídos. E, tal como na guerra aérea está em curso uma mudança de paradigmas, a mesma coisa ocorre na guerra naval. O fato é que todas as principais marinhas estão aposentando seus principais tipos, em função do surgimento de navios resultantes de novos conceitos. As potências menores têm estudado os denominado (nos EUA) Littoral Combat Ship (LCS)/ High-Speed Surface Ship (se você lê inglês, uma boa apresentação desses novos vasos poderá ser encontrada aqui). As fragatas classe FREMM parecem já ser conceituadas segundo essa nova tendência. Uma dos aspectos mais interessantes desse novo tipo é o fato de poderem ser configuradas rapidamente para diferentes tipos de missão: emprego geral (combate de superfície, antinavio e contra a costa), antiaérea e anti-submarino. Os sistemas de controle digitais adequam os sensores para os diversos empregos. Os sistemas de armas são instalados em containeres, e, conforme a configuração determinada pelos sistemas de controle, podem ser retirados de bordo ou simplesmente desativados. Com um deslocamento de cerca de seis mil toneladas, as FREMM medem 142 metros de comprimento e têm uma guarnição de apenas 108 homens,(para comparação, com 3800 toneladas de deslocamento, uma fragata da classe “Niterói” é guarnecida por 220 tripulantes, em média, e as da classe “Greenhalgh”, por uns 240 oficiais e marinheiros).

Entretanto, ao longo do desenho do programa, surgiram dúvidas entre os planejadores da MB sobre se a classe FREMM seria a mais adequada para as condições brasileiras. As questões relativas ao imbróglio com a extradição de Cesare Battisti tiveram alguma participação já que o Parlamento italiano, em retaliação à recomendação de asilo político para o ativista/terrorista (vamos ver se assim causa:: agrada aos assíduos de todo o espectro político…) não ratificou as cláusulas do acordo militar que implicavam em transferência de tecnologia, sem as quais o Brasil não assinaria nada. Mas essa troca de picuinhas seria, provavelmente, coisa passageira, e o acordo teria saído, pois a indústria italiana certamente não ficaria feliz em ver-se fora de uma venda bilionária em função de um caso que mais tem de folclore do que de política. O problema real é que a Marinha não vê a hegemonia francesa com simpatia, e há resistência aos franceses. Explico: inicialmente, previa-se que as FREMM brasileiras seriam baseadas no tipo concebido para a Marinha Italiana, ou seja – os equipamentos e armamentos, com pequenas modificações, seriam originários da indústria daquele país. Pelo acordo entre Brasil e França, já assinado, toda a flotilha de submarinos da Marinha será baseada em tipos DCNS (a empresa de construções navais militares francesa). A DCNS, ao longo de 2010, tentou pressionar o governo brasileiro para que as FREMM da MB também fossem compradas da França, alegando que o modelo de transferência de tecnologia seria mais completo. É possível, visto que a versão italiana tem uma série de itens baseados em tecnologia originária nos EUA. Isso não seria, entretanto, um obstáculo intransponível, pois a modularidade da classe provavelmente permitiria equipamentos de outras origens (inclusive os que estão sendo desenhados pela indústria nacional). Entretanto, o “chão de fábrica” da MB já demonstrou preferência pelos produtos ingleses, considerados confiáveis e bem conhecidos pelos técnicos nacionais, e alemães, que também já são considerados dominados, em termos tecnológicos, depois de mais de vinte anos de experiência com a classe 209. A oficialidade naval, bem como os engenheiros familiarizados com os problemas de manter uma esquadra funcionando, têm resmungado que, com a “invasão francesa”, seria o caso de começar tudo de novo, visto que os diversos ciclos de manutenção dos novos navios são totalmente desconhecidos.

Outro problema interessante é o fato de que tanto a marinha francesa quanto a italiana são forças concebidas para atuar principalmente no Mar Mediterrâneo, um mar interior composto por diversos golfos, ou seja, sistemas de águas fechadas. A Marinha Brasileira tem, necessariamente, de conceber seus meios para operar no Atlântico. O projeto da corveta “Barroso”, a quinta unidade da classe “Inhaúma”, implicou em modificações originadas exatamente nas más características de mar dos quatro primeiros navios da classe. As “Inhaúma” apresentam problemas de estabilidade em mar alto quando em velocidade, e a proa teve de ser completamente redesenhada de forma a corrigir o problema do embarque excessivo de água. O problema tinha sido identificado desde o início, e é plenamente explicável. O projeto da classe, realizado no início dos anos 1980, teve como parceiros – em função da absoluta falta de experiência dos escritórios de projeto e estaleiros nacionais – os engenheiros da empresa alemã de projetos Marine Technik. O resultado foi um navio aparentemente concebido para águas do Mar Báltico e Mar do Norte. Cochichos têm apontado algumas características da classe FREMM que poderiam criar os mesmos problemas observados, vinte anos atrás, com as “Inhaúma”.

Assim, parece-me que o fato dos principais programas de aquisição de equipamento para as forças armadas terem sido adiados talvez não tenha sido assim tão ruim. Permitirá que sejam examinadas as qualidades e defeitos dos produtos envolvidos, e suas potencialidades de desenvolvimento. Entretanto, a questão dos cortes constantes de orçamento tem de ser vista sob outro prisma – exatamente o do “quinto exemplar” da classe “Inhaúma”. A “Barroso” foi encomendada em 1993, e, embora seja parecida com suas quatro “irmãs”, se trata na verdade, de uma “meia-irmã”: um projeto com diferenças notáveis. O casco foi aumentado em 4,2 metros, de modo a melhorar as qualidades de navegação do navio. Os técnicos brasileiros já tinham notado que, embora o casco das fragatas da classe “Niterói” fosse muito semelhante ao das “Inhaúma”, o desempenho desses navios em “mar grosso” era infinitamente superior ao das corvetas. A Marinha sabia o motivo: a presença, no projeto inglês, de “bochechas” (partes curvas proeminentes do costado em ambos os bordos junto à roda de proa). A proa das “Inhaúma” era uma “proa de fragata”, bastante afilada, concebida para melhorar o desempenho hidrodinâmico do casco. O que a Marinha não sabia era como modificar o projeto do navio, o que foi feito com o auxílio do Centro Sueco de Pesquisa Marítima (SSPA – States Skeppsprovnings Anstalt), em Gotemburgo, Suécia. Outra reclamação sobre o projeto original, a exiquidade do convôo, foi resolvido colocando-se, na “Barroso”, um maior, destinado a receber o Super Lynx, helicóptero orgânico das unidades navais brasileiras. Os sistemas de controle e de armas foram melhorados para se adequarem ao projeto ModFrag. O fato, amplamente reconhecido, é que a “Barroso” foi transformada numa “mini-fragata” desenvolvida pela própria Marinha – e muito barata: o preço final foi de pouco mais de 270 milhões de dólares.

Se a “Barroso” é nacional, tão boa e tão barata, por que não construir mais umas onze ou doze? Porque se trata de um projeto dos anos 1980, e que, como vimos mais acima, não se adequa aos novos paradigmas da guerra naval (seria mais ou menos o mesmo que construir um contratorpedeiro da classe Sumner na década de 1960). O que provocou esse buraco? Ganha uma miniatura da “Inhaúma” (com água à bordo e um “Esquilo” no convôo, incluídos) quem responder: os sucessivos cortes de verbas que obrigaram a sucessivas modificações no cronograma geral do projeto, fazendo a construção se arrastar por mais de dez anos. O navio mais moderno da esquadra já nasceu rumo à obsolescência, embora suas qualidades sejam evidentes. Mas não foi dinheiro totalmente jogado fora: é muito provável que, com a experiência adquirida desse projeto, seus percalços e seu desenvolvimento, seja possível desenvolver um navio nacional, a um preço bem menor que um “pacote fechado”, mesmo que envolvida a transferência de tecnologia. O Brasil tem se saído relativamente bem em comprar projetos franceses e alemães e adaptá-los, ao longo do desenvolvimento. É o caso, por exemplo, dos Navios de Patrulha classe “Macaé”. A Marinha encomendou o projeto ao escritório de projetos/estaleiro francês CMN (Constructions Mécaniques de Normandie), mas, uma vez executado pela Marinha, teve alguns detalhes já modificados, como, por exemplo, uma planta de potência menor, de modo a lhe aumentar a autonomia, a inclusão alguns equipamentos de projeto da própria Marinha, (um sistema digital de controle de máquinas) e a introdução de um sistema de navegação “Sperry Marine” da Northrop Grumman, bem como um canhão de 40 mm Bofors numa torre totalmente automatizada.

Isso significa que, ao contrário do contexto dos anos 1980, já existe uma estrutura de instituições científicas, escritórios de projetos, indústria naval e militar capaz de projetar e produzir navios de guerra modernos. Talvez seja o caso de começar a tentar::

Tecnologia naval::Elektroboot e seus sucessores::Parte4

 Podemos todos detestar os nazistas – mesmo quem tem pedra na cabeça, no lugar de cérebro, detesta. Mas com a engenharia alemã é outra coisa – todos temos certa tendência em apreciar as armas alemãs da 2a GM (as atuais também são bem interessantes…). Em muitos casos, é exagero, mas em outros, os produtos da inventividade e da organização científica alemãs ainda marcam nossa época. E não é só o redator fanático por tecnologia militar que acha… Não estamos falando do Elektroboot? Pois então leiam a parte 4, em seguida::
 
 
 
 

USSPICKEREL

O SS 524 "Pickerel" em treinamento de emersão de emergência, 1952. É notável a semelhança do casco com o desenho dos "Tipo XXI".

 

parte4Nos anos que se seguiram à guerra, o desenho de submarinos foi totalmente revolucionado pelo contacto das principais marinhas aliadas com o Tipo XXI. Das 113 unidades que estavam prontas para incorporação em maio de 1945, e que não foram afundadas pelas tripulações, duas foram transferidas para os EUA, quatro para a URSS (embora existam suspeitas de que o número tenha sido maior), uma para a Inglaterra e uma para a França.

Os exemplares incorporados pela Marinha dos EUA foram exaustivamente examinados e testados entre 1946 e 1949. Os destroços de um desses submarinos foram encontrados recentemente, ao largo da Flórida, onde foi afundado pelos norte-americanos, após o fim do programa, num teste de armas anti-submarino.

O exame das duas unidades levou à conclusão de que toda a frota de submarinos da Marinha dos EUA estava ultrapassada (o *USS Wahoo, comissionado em julho de 1943, típico “submarino de esquadra” norte-americano). Um programa de construção foi proposto, mas como existiam quase duas centenas de unidades construídas nos três anos anteriores, as autoridades navais optaram por modernizar as que estivessem em melhor estado. O primeiro programa foi a instalação de um equipamento equivalente ao esnorquel alemão, para testes, no USS Irex (classe Tench, construído em 1944), em 1947.     

O programa Greater Underwater Propulsion Power (GUPPY – o “y” não quer dizer nada, mas fazia o acrônimo combinar com o nome de um peixinho decorativo muito popular nos EUA…) era muito mais amplo. Foi estabelecido como alternativa de menor custo para modernizar parte dos barcos da força norte-americana de submarinos, os mais modernos, das classes Gato, Balao e Tench. O programa GUPPY acabou resultando em diversas fases. O GUPPY I dotou os barcos selecionados com esnorquel; eliminou a maioria das partes desnecessárias das “obras mortas” (passadiços e instrumentos na  torre, canhões, mastros e outros elementos da coberta); melhorou o desenho das “obras vivas”, de modo a dar maior uniformidade ao casco externo, tornando-o tão hidrodinâmico quanto possível (o *USS Odax, lançado em abril de 1945, cuja conversão completou-se em 1947, depois transferida para a Marinha Brasileira. Observe-se a vela tipo “Eletric Boat”, depois substituídas pelo tipo “Portsmouth” em todas as unidades). Também foram feitas melhorias na motorização, acrescentadas novas baterias e novos equipamentos eletrônicos.

A instalação de novas baterias esteve entre as principais modificações. Quatro unidades acumuladoras (baterias), compostas por 504 células, cada uma delas capaz de sustentar proximadamente 25 por cento a mais de carga que os tipos anteriores, melhoraram significativamente o desempenho subaquático do navio. Entretanto, essas novas baterias tinham um sério problema de durabilidade, além de provocarem problemas ambientais. Apesar dessa desvantagem, o ganho geral mostrou-se compensador: os barcos remodelados chegavam a alcançar 17-18 nós (30-33 km/h) submersos. Um total de 50 unidades foram convertidas.

A segunda parte do programa deu origem à classe Guppy II. Essa era basicamente igual à classe Guppy I, exceto em alguns detalhes da vela, que foi redesenhada para acomodar novos mastros de combate que alojavam os sistemas de admissão de ar e exaustão de gases do esnorquel e as antenas dos equipamentos eletrônicos. Os barcos da série Guppy II tiveram melhorias na motorização, que possibilitavam melhor desempenho, e novos equipamentos eletrônicos, inclusive unidades de radar de última geração. Um total de 24 unidades foi convertido.

Um problema com o programa GUPPY II era o preço – os submarinos veteranos da 2a GM tinham de ser praticamente reconstruídos. O programa GUPPY IA, lançado em 1951, foi uma tentativa de baixar o custo da conversão. O programa GUPPY IIA, lançado em 1954, redesenhou certas partes do casco externo, de modo a melhorar o desempenho subaquático. A essa altura, os engenheiros da Marinha e da indústria tinham descoberto que não adiantava melhorar a motorização se a parte hidrodinâmica também não fosse muito melhorada. Essa derivação do programa instalou uma vela totalmente redesenhada, uma nova proa, e motores iguais aos dos GUPPY II. Mudanças na arquitetura interna permitiram a instalação de novos equipamentos eletrônicos, unidades de refrigeração e condicionadores de ar. A aparência externa da série IIA era, à primeira vista, semelhante à II.

Em meados dos anos 1950, alguns barcos da classe GUPPY IA foram convertidos para a série GUPPY IB, destinados à transferência para marinhas aliadas. Os equipamentos eletrônicos de última geração foram substituídos por “modelos de exportação” muito simplificados, mas, de resto, eram iguais aos IA. Por sinal, esse era um problema que começava a ser observado pelos projetistas: a grande quantidade de equipamento eletrônico que, pelos meados dos anos 1950 começou a ser incorporada aos navios de guerra, em geral, e aos submarinos, em particular. No caso dos submarinos, a questão era particularmente séria, porque os controles de direção, equipamentos de sonar e de direção de tiro computadorizado tomavam muito espaço e consumiam energia extra. Entre 1959 e 1963, até mesmo unidades já convertidas para o padrão GUPPY II tiveram de voltar para a doca seca, para serem cortados e aumentados em uns 4 metros na área da sala de controle. Nesse novo espaço, foram instalados os novo equipamentos de sonar e de direção de tiro. Essas novas unidades tornaram-se a série GUPPY III.

Até o programa GUPPY II e suas variantes, um dos problemas não resolvidos eram as baterias, que não apenas atravancavam o espaço interno como criavam desconforto  ambiental. Em 1959, o programa GUPPY III buscava, dentre outros aperfeiçoamentos, resolver esse problema. Os engenheiros navais optaram por alongar uma das unidades assim como retirar um dos motores diesel, situado à vante da belonave e considerado desnecessário. Desse modo foram criados novos espaços internos, o que possibilitou alterações que, provinham maior área para equipamentos eletrônicos e para a tripulação. Todos as unidades do padrão II foram convertidos para o padrão III.

Os GUPPY III ficaram em atividade até o final dos anos 1970. É interessante observar que, após o programa GUPPY, foram construídos nos EUA os SSK (submarinos convencionais, no jargão da Marinha norte-americana) da classe *Tang, da qual seis unidades, que incorporavam os desenvolvimentos do programa GUPPY, tiveram suas quilhas batidas entre 1946 e 1948, e foram lançadas no início dos anos 1950. Foram os últimos submarinos convencionais que saíram de um estaleiro norte-americano. Desde 1963, quando o programa de conversão completou-se, os EUA desistiram de, de SSK), optando por uma força totalmente composta por submarinos nucleares::

Tecnologia naval::Elektroboote e seus sucessores::Parte3

E eis que já era tempo! Finalmente chegam aos sete leitores (contadinhos…) de causa:: as partes finais da série sobre as origens dos modernos submarinos. Com esta série, o redator pretende fornecer elementos para aumentar a cultura submarinística dos sete leitores, de forma que qualquer um deles possa dar esclarecimentos aos redatores da imprensa escrita, falada e televisada. E se (como é muito provável) o assunto acabar esquecido, diante dos melhores temas para se falar mal do governo, pelo menos servirá para umas duas ou três horas de diversão… Divirtam-se, pois!::

parte3O submarino Tipo XXI, denominado, por seus projetistas, de Elektroboot (“barco elétrico”) é o avô de todos os submarinos atuais. Boa parte dos conceitos usados por todas as nações atualmente fabricantes de submarinos surgiram desse projeto, elaborado a partir da primavera de 1943. Em princípio, o conjunto de ações tinha um objetivo muito simples: devolver à Alemanha a superioridade que sua arma submarina tinha conquistado de 1940 até o início de 1942, e havia perdido fragorosamente.

O Tipo XXI é descendente de um projeto que tinha se arrastado durante anos, com resultados irregulares: o submarino Tipo XVIII. Tratava-se de uma unidade que estava sendo projetada em torno de uma turbina em desenvolvimento pela companhia do engenheiro Helmuth Walter (a mesma que projetou os motor-foguete do caça Me163 Komet). Esse novo tipo de submarino, quando em combate, seria movido por uma turbina de alto desempenho, acionada a peróxido de hidrogênio (que os alemães chamavam de Perhydrol), que lhe possibilitaria alcançar altas velocidades subaquáticas. Como a turbina não alcançou os resultados esperados, a equipe de Walter imaginou a possibilidade de obter oxigênio para mover seus motores diesel a partir da decomposição do Perhydrol, de forma a carregar baterias dos motores elétricos sob a água. A lentidão do desenvolvimento e os problemas observados no projeto, diante das perdas sofridas pelos submarinos entre o final de 1942 e o início de 1943 apontaram a necessidade de outra abordagem (uma explicação sobre os princípios desse projeto aqui).

Para que o desempenho subaquático esperado para o “Tipo XVIII” fosse realmente alcançado, um novo desenho de casco, baseado em nova filosofia foi imaginado: torná-lo altamente hidrodinâmico, planejado para permanecer submerso durante muito tempo sem chegar a ter a manobrabilidade comprometida pelas características híbridas dos “torpedeiros submarinos”.  

Dois engenheiros, Schürer e Bröking, tiveram a idéia de aproveitar os enormes tanques nos quais ficaria, no modelo proposto, o Perhydrol, para alojar baterias. O caso é que, no desenho proposto para o modelo Walter, um outro casco de pressão tinha sido acrescentado ao convencional, de modo a proporcionar armazenagem segura para o combustível altamente instável. O resultado era um casco de cujas seções lembravam um “oito”, feito em chapas de aproximadamente 3 centímetros de espessura, em liga de aço-alumínio, e que podia suportar mergulhos de até 280 metros. A parte inferior do “oito” constituiu uma enorme sala de baterias. Com as células extras acrescentadas, o desempenho do submarino crescia de forma exponencial.

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Seção de um "Tipo XXI" sendo transportada para a montagem. É notável a forma de "oito" do casco de pressão. Também é notável a solução hidrodinâmica do casco externo.

O desenho do novo vaso de guerra completou-se em junho de 1943. Os engenheiros acreditavam que poderia estar pronto para o serviço ativo por volta do inverno de 1944.

Era um desenho concebido para ser um “submarino verdadeiro” (aqui, uma impressionante animação digital pelo artista Jessi Hardin, caso você tenha o Adobe Flashplayer instalado), cujo campo de manobra seria as profundezas do Atlântico. Os conceitos incorporados eram não-convencionais, a começar pelo desempenho, muito além de qualquer coisa disponível, fosse pela Alemanha, fosse por seus inimigos: acreditava-se que a velocidade submersa poderia chegar a 18 nós (33,3 km/h), sob a água, maior do que na superfície, de 12 nós (22,2 km/h). Equipamentos de condicionamento e purificação de ar, chuveiros de água doce e lâmpadas de luz ultra-violeta, incorporados ao projeto, mostravam que o tipo tinha sido pensado para permanecer muito mais tempo submerso do que qualquer outro modelo existente: em certas condições o Tipo XXI podia permanecer até 11 dias sob a água, depois desses emergindo apenas por períodos muito curtos, de até cinco horas, ou usando o tubo esnorquel por tempo equivalente, para recarregar baterias.

Era no desenho do casco, totalmente limpo, sem quaisquer apêndices que não fossem absolutamente necessários, que as características de “submarino” apareciam claramente. Até mesmo os hidroplanos de proa podia ser recolhidos quando não estivesse em uso; não haviam canhões nos conveses e as baterias AAe de 20 mm eram montadas em torres de controle remoto incorporadas à vela. Equipamentos que tinham de se estender para operar (esnorquel, antenas e periscópios) se recolhiam para dentro da vela. Até mesmo esta parte teve seu desenho modificado: ao invés do posto de vigia tradicional, situado no alto daquela estrutura, uma espécie de convés aberto para o exterior, três pequenas aberturas eram fechadas por escotilhas, abrindo-se apenas quando necessário. Essas características “limpas” do desenho também resultavam numa assinatura de sonar mais discreta, e em um desempenho hidrodinâmico silencioso, o que tornava o Tipo XXI muito mais difícil de detectar do que os outros submarinos até então disponíveis.

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O U2540, atualmente em exposição no Museu Marítimo de Bremerhaven. As linhas limpas do casco interno anunciam a nova tendência para o desenho de submarinos.

O Tipo XXI incorporava equipamentos eletrônicos inovadores, inclusive um sonar ativo/passivo capaz de identificar e seguir diversos alvos. Montado na roda-de-proa, esse novo tipo de sonar permitia o lançamento de torpedos sem ter contato visual com o alvo, a partir de uma profundidade de até cinqüenta metros. Essa era outra característica que tornava essa classe de submarinos diversa de todas as outras existentes até então. Novos sistemas constituídos por carregadores automatizados de torpedos tornavam possível o lançamento de seis salvas (até seis torpedos em cada salva) em cerca de vinte minutos. Nos modelos anteriores, recarregar um único tubo podia tomar dez minutos, o que tornava o Tipo XXI muito mais ágil do que seus antecessores, tanto para atacar quanto para desengajar-se do combate. O desenho interno aumentou a capacidade de alojar torpedos de 14, no Tipo VIIC, para 23 unidades.

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Concepção artística de um submarino Tipo XXI submerso. Observe-se a protuberância na roda-de-proa, onde está instalado o moderníssimo sonar ativo-passivo Nibelungen. O trabalho é do artista digital Jessi Hardin.

A situação desesperada da arma submarina, em 1943, tornou o projeto a mais alta prioridade para a Marinha de Guerra, mas os outros tipos disponíveis continuaram sendo produzidos, notadamente os tipos VIIC e IXC, visto que não havia nada para substituí-los. Para acelerar os prazos de entrega, a técnica de construção do novo submarino foi modificada com base nos métodos usados na indústria de automóveis e de aeronaves. Oito seções modulares eram fabricadas em diferentes plantas industriais e, depois de transportadas por hidrovia, eram montadas num estaleiro. Esperavam os engenheiros que, com essa providência, poderiam explorar melhor as capacidades de cada unidade industrial, com a vantagem adicional de tornar mais difícil para os bombardeios aliados influir na produção. As dificuldades de alocação de material e mão-de-obra, combinadas com prazos irrealísticos e providências adicionais temerárias (como a eliminação de testes estáticos e da construção de protótipos) criaram diversos problemas, que se somaram aqueles que derivavam da originalidade do projeto. O novo método de construção não ajudou: fabricadas de maneira apressada, as seções modulares, depois de prontas, não atendiam aos padrões estabelecidos para o projeto. Em alguns casos, nem sequer chegavam a se adaptar direito umas às outras. Essa situação, combinada com a confusão estabelecida pelos bombardeios aliados – que, nessa época, tinham se tornando um problema real – acabou por criar gargalos industriais e logísticos de superação complicada, e atrasar todo o processo. O lançamento da primeira unidade deveria acontecer em maio de 1944, como comemoração da Marinha pelo aniversário de Hitler. Aconteceu, mas foi, no mínimo, um fiasco: o submarino foi mantido flutuando por bóias e rapidamente recolocado em doca seca, para ajustes e reparos. As unidades seguintes apresentaram problemas sérios na soldagem do casco de pressão e dos tanques de lastro, e tiveram de ser praticamente reconstruídas. Na prática, a pressa em completar o projeto fez o ano de 1944 ser perdido e as primeiras unidades aprovadas para serviço ativo foram entregues à Marinha em abril de 1945. Além do mais, os massivos bombardeios aliados freqüentemente danificavam as plantas industriais e os estaleiros, e chegaram até mesmo a destruir unidades prontas. Problemas adicionais foram provocados, curiosamente, pelo sucesso obtido nos testes de mar: a velocidade subaquática e a capacidade de lançar torpedos de grande profundidade exigiram o aperfeiçoamento de novas táticas; as diversas inovações da máquina exigiram outros métodos de treinamento, não apenas para as tripulações como para o pessoal de apoio em terra.

Os alemães esperavam que a produção inicial colocasse 300 unidades no mar, por volta de meados de 1944, alcançando 1000 unidades pelo início do ano seguinte. Dos 120 Tipo XXI que estavam em diferentes estágios de construção, no final do mês de abril de 1945, somente dois chegaram a ser mandados para o mar, em patrulha. Ainda que não tivessem entrado em combate, com o fim da guerra os relatórios apresentados pelos comandantes mostraram claramente as qualidades do projeto. Um desses barcos, o U2511 chegou a 600 metros de um cruzador britânico sem ser notado, armou os torpedos, mas no último momento, fez meia volta e regressou à base. Tinha recebido ordens do BdU (Befehlshaber der U-boote – “Comando dos Submarinos”), para suspender as operações. Essa última ação mostrou que, aquela altura, eles certamente não venceriam a guerra, mas seriam uma grande dor-de-cabeça para os aliados::

Tecnologia naval::Elektroboote e seus sucessores::

Ainda estamos no mês dos submarinos, e causa::, no interesse da cultura submarinística de seus seis leitores (contadinhos…), introduz um assunto que certamente contribuirá para que esses famosos “poucos” possam assessorar, caso necessário (e sempre é…) a grande imprensa, quando nossos vibrantes editores resolverem falar mal do governo recorrendo a temas quetais. É um assunto longo e fascinante. Assim, vamos dividi-lo em três partes, de modo a aprofundá-lo ao máximo. Como o redator (nunca generoso o suficiente para compensar a paciência dos “poucos”) pretende que esse tema se articule aos “Submarinos brasileiros” ( você não é um dos poucos, veja aqui, aqui e aqui), esse texto deve ser lido em conjunto, se possível, antes de uma nova leitura do outro. Divirtam-se, pois::

Parte1A Alemanha entrou na guerra em setembro de 1939 com uma máquina militar em todos os sentidos, discutível. Já apontamos, aqui no blogue das boas causas, como a pusilanimidade das potências ocidentais permitiu que uma liderança sem escrúpulos e plena de ousadia, escorada numa máquina militar de porte apenas mediano e preparação discutível, nocauteasse a Europa e, por um par de anos, encostasse o mundo nas cordas. A vantagem alemã, se sabe atualmente, era uma concepção inovadora de como fazer a guerra e como usar equipamentos conceitualmente inovadores – basicamente o motor a combustão interna e o avião.

Dentre as forças armadas alemãs, a marinha de guerra era, de longe, a mais fraca. Os motivos pelos quais um regime militarista tão agressivo abriu mão do controle dos oceanos é fácil de entender, embora a explicação seja complexa – de modo que abriremos mão de nos enfronharmos nela. Na guerra anterior, uma “corrida naval” travada a partir de 1906 com a Inglaterra resultara numa enorme esquadra de batalha que, no fim das contas, permaneceu “engarrafada” nas águas costeiras do Báltico, tendo travado apenas uma grande batalha naval – a batalha da Jutlândia – em que, embora conquistasse uma vitória tática, permaneceu estrategicamente em xeque. Pelo tratado de Versalhes, a Alemanha não poderia mais ter armas ofensivas, e a enorme esquadra foi dividida entre os vencedores ou simplesmente afundada. A partir do programa de rearmamento de 1935, um ambicioso plano naval projetava que, entre 1947 e 1949, a Alemanha teria uma esquadra de superfície capaz de se opor à Grã-Bretanha e superior à da França. Esse plano, denominado “Plano Z”, foi abandonado em 1939, pouco antes do início das hostilidades. Foi considerado por Hitler como um desperdício de material, potencial industrial e humano. Entretanto, até o final de 1940, a Marinha de Guerra (Kriegsmarine) fazia parte do plano estratégico geral do Reich. Os navios de superfície já construídos ou em fase de incorporação foram mantidos dentro de uma concepção de disputar com os soviéticos a superioridade no Báltico e de manter o controle das águas do Mar do Norte adjacentes à Península da Escandinávia. O desempenho pífio na batalha da Noruega (onde foi perdida a quarta parte da esquadra de superfície de primeira classe) acabou levando ao abandono completo do que restava do re-aparelhamento naval.

Nessa época, a Marinha de Guerra dispunha de 57 submarinos organizados em seis esquadrões, dentre os quais 32 eram do tipo “de esquadra”, com capacidade de patrulha oceânica. Os outros 25 eram do tipo costeiros de 250 toneladas de deslocamento. O limitado número de unidades disponíveis (em junho de 1940 estavam em patrulha seis unidades) limitava a possibilidade de que pressão eficaz fosse exercida pela arma submarina. Em março de 1941, a disponibilidade de 30 novas unidades e a aceleração da produção permitiu que a Alemanha lançasse uma campanha muito intensa contra a navegação oceânica da Grã-Bretanha, iniciando o conjunto de ações que passaria a ser conhecido como “Batalha do Atlântico::

Um sistema de armas às… (Ahhh, quando der… Não tenho tanto tempo quanto gostaria)::A arma submarina alemã: o argumento do mais fraco (no mar)

Nosso amigo Pax, um interessado em sistemas de armas, postou, outro dia, uma interessante nota aqui no causa::  – a “batida”, em pleno oceano, de dois submarinos nucleares, um francês e outro inglês (andam dizendo que os submarinos ingleses rodam Windows… Deve ser maldade, não?..). Eu sempre disse que o sistema de armas estratégicas britânico e francês é, mais que uma política de dissuação, e junto com as ilhas Malvinas e a Guiana Francesa, a última e nostálgica referência ao tempo em que essas duas “potências” não dependiam dos EUA para se defender. Mas submarinos são submarinos, e um submarino nuclear (segundo apurei, a Marinha Real tem 11 deles e a Marine Nationale, 13) não é pouca coisa. Hoje em dia, não são, de modo algum, os sistemas de armas navais mais avançados, mas ainda mantêm uma capacidade de causar danos inversamente proporcional a seu tamanho e custo. Antigamente se dizia que a arma submarina era “a arma do mais fraco”. Não deixa de ser verdade – na guerra das Malvinas, a existência de dois submarinos classe IKL-209 na Marinha Argentina foi a única ameaça que os britânicos não puderam deixar de considerar – o que alterou de forma notável a organização da força tarefa britânica. Vamos, então, falar alguma coisa sobre submarinos. Não os nucleares, nem os convencionais. Falemos daqueles que ainda hoje atraem muita atenção – os da Kriegsmarine, a marinha de guerra alemã. E já que é quase carnaval, podem tomar esse post como homenagem às papagaiadas imperiais franco-britânicas dignas de um bloco de sujos – como uma batida entre submarinos…::

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Qualquer pessoa que conhece alguma coisa sobre a Segunda Guerra Mundial sabe da importância que, nesse conflito, teve a arma submarina. O “barco submarino” era uma arma nova, então – fez sua estréia na Grande Guerra, e, ainda assim, sob as discussões de se as regras do corso, elaboradas no século XVIII, ainda valeriam nesse novo tipo de guerra contra as rotas mercantes.  As “boas normas” até então usuais diziam que um navio suspeito seria abordado, passaria por inspeção e, caso se encontrasse carga de utilidade bélica, tripulação e passageiros seriam desembarcados e só então, afundado o navio. Depois que a Alemanha resolveu mandar às favas esse “costume tradicional e usual da guerra naval”, o resultado foram quase três milhões de toneladas de navios afundados em pouco mais de um ano, por umas 150 unidades de diversas classes.

O Tratado de Versalhes proibiu a Alemanha de fabricar e possuir armas ofensivas, e os submarinos eram considerados, dentre essas, uma das principais.  Curiosamente, as restrições foram parcialmente suspensas com o Tratado Naval Anglo-Germânico, de 1935. A Alemanha pôde restabelecer uma esquadra que incluía certo número de submarinos. No ano seguinte, quando Hitler determinou o rearmamento pleno, militares e industriais aderiram gostosamente à orgia armamentista que se seguiu, mas a Marinha de Guerra era a menor prioridade, em função da complexidade da construção de navios e das limitações econômicas da Alemanha.

A coisa é mais-ou-menos assim: embora não incorporasse diretamente muita tecnologia, a indústria naval da época era dispendiosa, para qualquer sistema econômico. Um vaso de guerra, não importa o tamanho, agregava pouco mais da metade do peso em em ligas metálicas especiais: metais de alta taxa de dureza, materiais resistentes à corrosão, materiais resistentes ao calor, e por aí vai. Além do mais, um estaleiro exige grande aporte de mão-de-obra especializada, uma logística industrial complicada e instalações difíceis de construir e manter. E a marinha de guerra disputava espaço com a marinha mercante, porque os navios de carga, embora muito menos complexos e dispendiosos, também exigiam investimento razoável.

 

 O início da 2a GM pegou a esquadra alemã com apenas 25 por cento dos navios planejados e ficou claro que não seria possível colocar rapidamente um número de vasos de superfície que possibilitasse participação efetiva na guerra. Assim, foi dada prioridade à construção de submarinos. O alto comando nazista considerava que esses poderiam ser muito mais efetivos  contra os interesses britânicos que os navios de superfície. A participação pífia da Marinha na campanha de 1940 mostrou que a avaliação não era absurda.

 

Os submarinos começaram a guerra sem restrições. Poucos dias após o início do conflito, uma ação espetacular mostrou aos britânicos o tamanho da bobagem que tinham feito em 1935: o submarino U-47 penetrou as defesas (frouxas) de Scapa Flow e afundou um couraçado – velho, mas uma unidade da Marinha Real… E na principal base da Esquadra Metropolitana. Quase seis anos depois, 784 afundamentos e cerca de 28.000 marinheiros mortos, a arma submarina alemã afundara junto com a Alemanha nazista. Não é, entretanto, nosso objetivo contar essa história – existem fontes muito boas, na Grande Rede, e o interessado em submarinos e na guerra que eles travaram pode começar a pesquisar aqui.

 

 Entretanto, um dado sempre despertou minha curiosidade: dentre a enorme quantidade de artefatos gerados pela Segunda Guerra Mundial, alguns itens existem aos milhares: por exemplo, armamento portátil, uniformes, equipamentos de campanha. Outros itens são um tanto mais raros, como por exemplo, tanques e outros veículos de combate. Os navios de guerra estão dentre os mais raros.

 

O motivo é simples: navios de uma nação derrotada não tem muita utilidade, uma vez que precisam do apoio constante de uma estrutura industrial (as bases navais são o que de mais próximo existe de um complexo industrial adaptado para fins militares). Encerrada a guerra, os navios inimigos ou são transformados em sucata ou relegados a usos secundários. Ou descartados: usados como alvos de exercício ou simplesmente afundados.

 

Foi o caso de quase todos os submarinos alemães, após a rendição: a operação Deadlight, conjunto de ações planejadas pelas marinhas norte-americana e inglesa, destinou-se a dar fim aos submarinos entregues pelas tripulações. Calcula-se que um número próximo a 220 unidades tenham sido afundadas pelas próprias tripulações. Outros 39 foram usados em diversos tipos de testes.

 

Restam hoje apenas três submarinos alemães dessa época. Um deles, o mais notório, tem a triste memória de ter sido o único a ser render em combate: o U-505, que atualmente repousa no Museu de Ciência e Indústria de Chicago. O U-2540, depois rebatizado “Wilhem Bauer” encontra-se exposto na cidade de Bremen. O terceiro e mais recente é o U-534, retirado do fundo do mar no final os anos 1990 e atualmente transformado no objeto mais importante em exposição no Museu Naval de Birkenhead Docks, em Liverpool:: 

Um sistema de armas às terças::KNM Skjold::

Nosso símbolo sexual de hoje vem diretamente da terra do amor livre, a Escandinávia. A exemplo de outros símbolos sexuais que andam por aí, e chamam atenção pelo bronzeado perfeito, também vai à praia. Ou melhor: chega pertinho da praia, mas prefere ficar dentro d´água. No seu domínio, o mar. Não pega bronzeado, mas… Podem acreditar, quando ela chega, o tempo esquenta. Como esquenta!

Dêem uma chegadinha e conheçam a dama do futuro, hoje::

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Por volta dos meados dos anos 1990, um grupo de trabalho da Departamento da Marinha dos EUA começo a fazer estudos visando determinar quais seriam as características da marinha do futuro. Esses estudos objetivam determinar as características de alguns tipos de navios: um vaso de grande porte (CG-X), com as características de um cruzador, um vaso de porte médio (DD-X), com as características de um contratorpedeiro ou fragata, e um vaso de pequeno porte, com as características de um MPB (Missile Patrol Boat – Navio de Patrulha Porta-Mísseis). Este não seria próximo do conceito europeu de MPB, mas um navio de tamanho maior, capaz de certa autonomia, que foi denominado “navio de combate litorâneo” (LCS – Litoral Combat Ship). Esse tipo de navio seria usado de forma escalonada com os novos contratorpedeiros da classe Zumwalt – então já em projeto – e os navios que começavam a ser concebidos, para, por volta de 2010-2015, substituir os cruzadores porta-mísseis da classe Ticonderoga.

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Em 2000, quando o conceito já estava praticamente pronto, o grupo de trabalho foi informado da existência, na Noruega, de um Navio de Patrulha Rápido (NaPaRa, no jargão da Marinha Brasileira) recém posto em serviço, com características que estavam despertando a atenção das principais marinhas da Europa: eram capazes de alcançar mais de 50 nós de velocidade máxima, velocidade de cruzeiro de 45 nós e tinham capacidade oceânica. Examinados alguns relatórios técnicos através da OTAN, as características do modelo geraram surpresa na comissão, de modo que, em 2002, a Marinha dos EUA patrocinou uma visita do vaso de guerra à America do Norte, com a duração de um ano, para cuidadosa avaliação operacional. Ao fim do período, a surpresa era ainda maior: no dizer de analistas norte-americanos, o barco era “mais evolucionário que revolucionário”, pois não incorporava nem desenho nem tecnologias radicalmente novos, mas conjugava, de maneira brilhante, aspectos de desenho e tecnologia já existentes.

Tratava-se do primeiro exemplar da classe Skjold (em norueguês, “Escudo”).

Lançado ao mar em 1999, como primeiro exemplar de uma encomenda inicialmente planejada para cinco unidades, o KNM Skjold visava atender demandas imediatas e de médio prazo da Marinha Real da Noruega (Kongeliege Noerske Marine, em norueguês). Essa classe de navios, de projeto totalmente nacional, incorpora tecnologia multi-nacional, e não pode ser chamada de “experimental”, visto que todas as suas características já se encontram plenamente testadas e operacionais, e seus projetistas o apresentaram como sendo capaz de entrar em serviço ativo imediatamente após o lançamento.

A Noruega é um país bastante particular, mesmo no panorama da Escandinávia. Tem uma população de aproximadamente 4,5 milhões de habitantes, distribuídos por um território de 386.000 quilômetros quadrados, montanhoso e pouco fértil, com um clima que é tão rigorosos quanto o do Canadá e da Rússia. Embora não possa ser considerado rico, pelos padrões europeus, adota um sistema de cooperativismo que, redistribuindo riquezas pela via da cobrança de impostos e reaplicação dos recursos segundo demanda direta, privilegia necessidades públicas e individuais. O resultado é o mais alto índice de desenvolvimento humano do mundo e um alto padrão de vida para toda a população. Monarquia constitucional desde o século XIX, a Noruega se caracteriza pela estabilidade política, pouca disposição por envolver-se em disputas internacionais e, por outro lado, uma posição estratégica que torna o país ator de peso em todas as disputas internacionais européias desde o século XVII. O motivo é sua longa costa, voltada para o Mar do Norte e por ser área de acesso tanto ao Mar Báltico quanto aos acessos árticos da Rússia. Nos últimos vinte anos, ainda tornou-se produtor e exportador de petróleo, em parceria com o Reino Unido, devido à descoberta de grandes jazidas nos bancos submersos da plataforma que divide como “território comum” com as Ilhas Britânicas. Membro da OTAN desde o estabelecimento dessa aliança militar, a Noruega tem a característica de não permitir, por lei, o aquartelamento de tropas estrangeiras em seu território.

As forças armadas norueguesas sempre tiveram suas capacidades limitadas pela pequena população (cujo índice de crescimento é estável desde os anos 1920). Em tempos de paz, o efetivo total situa-se em torno de 39.000 homens e mulheres (20.000 no exército, 9.000 na marinha e 10.000 na força aérea). Em caso de emergência, são capazes de mobilizar algo em torno de 200.000 reservistas em 48 horas, dos quais 140.000 para o exército. Esses reservistas não podem ficar mobilizados por mais de três semanas, visto que constituem a maior parte da força de trabalho nacional.

Esta questão coloca um limite decisivo na conformação das forças armadas: em tempo de paz, suas tarefas devem ser cumpridas com meios bastante escassos. Outro limite é a possibilidade de projeção – quer dizer, onde elas podem intervir efetivamente. No caso da Marinha, o litoral norueguês, bastante longo (em linha reta, algo em torno de 1700 quilômetros) e extremamente recortado (aproximadamente 400 fiordes podem receber navios de grande porte) é o principal teatro de operações. A defesa dos acessos a esse litoral, sua principal tarefa. A interdição, ou seja, impedir que um inimigo se aproxime dos pontos principais (algumas cidades com capacidade portuária e o acesso marítimo à capital, Oslo, feito pelo estreito de Skagerraek), ou trafegue pelas águas territoriais, é atribuída, primariamente, a submarinos e fragatas. A Real Marinha Norueguesa possui, como elementos de linha de frente seis submarinos e 5 fragatas, que, em caso de guerra, deverão tentar impedir que uma força inimiga se aproxime do litoral. A segunda linha de defesa é composta por esquadrões de MPBs, que deverão negar ao atacante o acesso à costa.

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A classe Skjold foi desenhada com essa função. Adotando uma configuração de catamarã (casco duplo), esse tipo de MPB é construído em materiais leves e absorventes de energia. O desenho do casco visa incorporar o princípio de “efeito de superfície”, ou seja, uma área mínima das obras vivas (no jargão naval, a parte de um navio que fica em contato com a água) se mantêm em contato com a superfície do meio aquático, visando diminuir ao mínimo possível o arrasto. Essa diminuição é conseguida dando-se à quilha uma forma que, conforme aumenta a velocidade, faz o conjunto “subir” num colchão de fluído turbilhonado (misturado com ar). Essa característica possibilita que os vasos da classe Skjold alcancem uma velocidade de até 55 nós (100 km/h), podendo operar em águas com calado de pouco mais de 1 metro.

Com deslocamento de pouco mais de 600 toneladas, o Skjold é capaz de, quando em velocidade, manter até 70 por cento de seu peso fora da água. Mesmo assim, o “efeito de superfície” faz com que parte considerável das obras vivas mantenha-se sempre em contato com o meio aquático. Essa diminuição do coeficiente de contato, ao mesmo tempo que reduz o arrasto, não compromete a dirigibilidade do conjunto. O resultado é que os vasos da classe Skjold, apesar de seu calado reduzido, possuem boas “características marinheiras”, ou seja, se comportam bem em mar aberto, sendo, portanto, capazes de travessias oceânicas.

A propulsão principal é por jato d’água, o que permite o navio operar que em áreas de calado muito raso, mostrando manobrabilidade inimaginável num navio de propulsão à hélice. Os jatos d’água são acionados por turbinas de gás quando em velocidade, e por motores a diesel de baixa rotação, o que reduz a assinatura infravermelha do conjunto. Este sistema de propulsão, denominado CODAG (Combined Diesel And Gas Turbine), reúne dois motores de turbina à gás Rolls Royce Allison 571KF, gerando, cada um, 6.000 kW (8.160 hp), acionando dois jatos d’água Kamewa. Os motores diesel são os alemães MTU 6R 183 TE52, gerando cada um 275 kW. Em testes em águas rasas e superfície de baixa ondulação, a velocidade máxima alcançada chegou a 100 quilômetros por hora. Segundo informações, o grupo moto-propulsor pode ser baseado em sistemas de outras fábricas, o que tornaria o navio um item de potencial interesse para exportação.

Os jatos d´água são projetados por saídas instaladas em aletas escaláveis (podem ter a altura regulada em relação ao casco), de movimento independente, o que permite ao Skjold curvas em ângulo muito fechado, mesmo quando em alta velocidade.

A função do Skjold é o combate litorâneo e de superfície. Conforme declarou seu comandante, capitão-de-corveta Rune Andersen, durante a visita ao EUA, “na atualidade, o poder naval não é mais usado para combater esquadras no mar, mas para projetar poder do mar sobre a costa. E em alguns conflitos, a linha costeira tem se mostrado um desafio.” A capacidade dos MPB Skjold de operar muito próximos da linha costeira pode vir a ser uma contribuição significativa da Noruega à aliança atlântica, de acordo como o comandante Andersen.

Em termos de armamento, a classe Skjold não difere dos MPBs convencionais – dois quais a Real Marinha Norueguesa possuí oito unidades. Seu armamento principal constitui-se de dois lançadores quádruplos de mísseis superfície-superfície e um canhão automático de 76 mm, instalado numa torre a vante; mísseis superfície-ar e dois sistemas de defesa de ponto baseados em canhões giratórios constituem o armamento de autodefesa.

Ou seja: a classe Skjold incorpora tecnologias plenamente testadas – portanto, altamente confiáveis – numa plataforma de alta velocidade, com características “furtivas” (stealth), e dotada de armamento letal. A própria tecnologia q torna esse navio singular, o desenho de duplo casco, não é nova, mas, combinada com certas características do desenho de casco único, oferece possibilidades que não poderiam ser alcançadas com o catamarã clássico.

Os teóricos e planejadores estão, no momento, tendendo a considerar que o desenho convencional de vaso de guerra, de casco único e múltiplas super-estruturas, feitos em metal ou material metálico, tenderão, ao longo do século 21, a dar lugar a navios feitos em material composto, de múltiplos cascos (catamarãs ou trimarãs). Os novos navios deverão ter a capacidade “furtiva” expandida, através da incorporação do armamento e das antenas ao casco. Essa incorporação possibilitaria não apenas a redução do perfil do navio, mas também o “adocicamento” dos ângulos e superfícies verticais, características básicas do desenho “furtivo”.

A classe Skjold, nesse sentido, é quase uma visão do futuro. De acordo com o comandante Andersen, “materiais compostos usados na construção do navio são a chave para o protótipo do projeto e para o próprio conceito dessa classe de navios de combate costeiro. De longe, são os materiais mais fortes e leves existentes.” E ele completa – “Se você viaja tão rápido quanto nós, e o faz com mau tempo, você irá submeter o navio a certa quantidade de stress. Você precisará de um navio que seja muito rápido, que se recupere efetivamente e ainda seja capaz de suportar ainda mais castigo. E os materiais compostos são materiais ´mortos´: eles não estalam, enferrujam ou envelhecem da mesma forma que os metais de todos os tipos.”

As vantagens dos materiais compostos são as mais diversas. Além do menor desgaste, os reparos são mais simples e mesmo um acidente mais grave, como um encalhe ou colisão não significam o afundamento do navio. Mesmo os reparos estruturais, quando necessários, são relativamente simples de fazer.

Armamentos e tecnologia de última geração, embarcados no Skjold, têm de ser suplementados por treinamento constante, baseado no desenvolvimento do conceito de combate litorâneo, coisa que, para a Real Marinha da Noruega, é absolutamente familiar.

O pacote de armamentos projetado para o Skjold é baseado nessa experiência. Os principais armamentos ofensivos do navio são os mísseis superfície-superfície Kongsberg NSM (Nye Sjoemaals Missiler, “Míssil norueguês de ataque”), que foram desenvolvidos para os Skjold e para as novíssimas fragatas classe Fritjof Nansen . Desenhados especialmente para a luta litorânea, esses mísseis, equipados com sensores ativos de alta resolução e passivos de infravermelho, são capazes de discriminar alvos numa área litorânea acidentada, como, por exemplo, um arquipélago. Tem um alcance de aproximadamente 150 quilômetros.

O canhão principal é o Oto Melara Super Rapid 76 mm. Trata-se de uma arma de uso múltiplo (contra alvos de superfície e aéreos), operada por controle remoto, com uma cadência de fogo de 120 salvas por minuto, e alcance superfície-superfície de 16 quilômetros. A defesa anti-aérea é provida por mísseis antiaéreos de longo alcance Mistral, guiados por infravermelho, fabricados pela francesa MBDA, com alcance de 4 quilômetros.  

O armamento é coordenado pelo sistema de controle de fogo SaabTech Ceros 200, que controla os mísseis e o canhão. A Thales Naval, da França, fornecerá o radar MRR3D-NG G-band e os sistemas  IFF (bandas de identificação de indivíduos hostis). O sistema MRR3D-NG é capaz de detectar alvos nivelados de baixo e médio perfil (por exemplo, um míssil anti-navio voando em altitude 0-3, ou seja, até 3 metros sobre a água) num raio de até 140 quilômetros, e em busca de longo alcance (um navio de pequeno porte com capacidade “furtiva” ou uma aeronave), de até 180 quilômetros; na modalidade “autodefesa”, pode detectar e seguir alvos em alta velocidade num raio de 60 quilômetros. Embora o sistema de armas não esteja instalado, notícias indicam que o MRR-3D-NG irá coordenar um sistema de defesa ativa baseado em canhões de fogo ultra-rápido da Rheinmetall (quem quiser informações sobre esse sistema, pode recuar algumas postagens e ler sobre o canhão Oerlikon 35 mm). Essa arma destina-se a deter mísseis anti-navio.

 

Os Skjold serão equipados com sistemas de suporte eletrônico, contra-medidas eletrônicas e alerta anti-radar. Os sensores serão todos acoplados ao casco, de modo a não projetar superfícies angulares. Os principais estarão baseados em antenas circulares fixas.

 

Parece, enfim, ser o navio do futuro, navegando hoje. Certos problemas foram observados, como um alto consumo de combustível quando em modo de propulsão a gás, bem como instabilidade em situações de mar grosso. O pequeno número de tripulantes (4 oficiais e dez graduados e marinheiros) divide alojamentos exíguos, em função da arquitetura “tudo no casco”, e, para além, o grande número de sistemas, embora controlados por computadores, precisam de atenção constante, o que sobrecarrega a tripulação. Outra questão é que o conceito norte-americano de “navio de combate costeiro” exigiria uma unidade maior, com qualidades marinheiras mais desenvolvidas que o Skjold demonstra.A doutrina norueguesa, entretanto, não prevê projeção de poder naval à grande distância da costa nacional. Isso explica as características do projeto.

Mas se trata de um projeto novíssimo, com características não observáveis em nenhum outro vaso de guerra em serviço. Por certo as unidades da classe, que deverão estar todas em serviço até o final de 2008, oferecerão uma soberba plataforma de testes e desenvolvimento de doutrina. É esperar para ver::

Veja em seguida um video repidinho, com um teste de armamento do Skjold.

 

Deslocamento

Máximo: 602 tons; Carga útil: 270 tons

Dimensões

Comprimento total: 47,5 m; Boca: 13,5m; Altura máxima: 15,0 m; Borda livre média: 2,3 m; Calado: 0,9 m

Desempenho

Velocidade máxima: 100 km/h (55 nós); Velocidade econômica: 14.8 km/h (8 nós); Alcance máximo: 1600 milhas náuticas (3000 km)