A batalha do Rio de Janeiro::Não é uma “guerra”, é uma “batalha”::

causa:: dá o braço a torcer e, com ele, os parabéns à administração e à polícia do Rio de Janeiro. Estas, numa demonstração inusitada de vigor, restauraram a cadeia de autoridade na “Cidade Maravilhosa”. Sem hesitar, responderam à altura a um bando de pés-rapados que, protegidos pelas paredes de presídios de segurança máxima e pelas garantias que são inerentes ao estado de direito, insistem em desafiar o Estado. Não havia outra coisa a fazer, a não ser agir. O que impressionou a mim e a todos quantos prestem atenção no assunto foi a competência com que as autoridades e os planejadores distribuídos pela cadeia de comando, demonstraram – coisa que nem sempre acontece.

Vários dos aspectos que se observa na “batalha do Rio” já foram cantados, em diversos momentos, aqui no causa:: Por exemplo, a lapidar declaração do secretário de segurança do Rio de Janeiro, o delegado da Polícia Federal José Mariano Beltrame: ”Se tirou dessas pessoas o que nunca foi tirado: o território”. Essa é a base da questão, e todas as outras devem decorrer daí: não importa se o adversário for um Estado ou um grupo radical de oposição, derrotá-lo significará, antes de tudo, negar-lhe o uso do próprio território, por interdição ou ocupação, e desta forma, impedi-lo de fazer uso organizado da força. Só que a negação do terrotório fala de parte do território nacional. Não é o caso de “interditar” ou “ocupar”, mas “recuperar” através da presença do Estado como organizador da sociedade. É exatamente o que a estratégia das Unidades de Polícia Pacificadora está fazendo. E foi essa estratégia que motivou a reação desproporcional do “crime organizado” – que, no confronto, mostrou seus limites.

A estratégia de que os governantes lançaram mão está sendo de tal maneira inteligente que até mesmo a fuga do “exército do tráfico” (como se referiu a jornalista Fátima Bernardes, musa da desinformação das Organizações Globo, à turba de criminosos que corria para se salvar dos Fuzileiros Navais e da Polícia Militar) e suas “armas pesadas” (idem, idem) pode ser considerada produto dela. O tráfico, expulso dos morros e das “zonas de influência” em que, de modo informal e desorganizado dividiu a cidade durante anos, tinha transformado as enormes favelas da Vila Cruzeiro e do Alemão em um tipo de “santuário”. As forças policiais-militares poderiam entrar lá? Claro, mas a questão é que um confronto dentro de uma área fechada como é uma favela implicaria numa possibilidade considerável de que o lugar acabasse destruído ou muito danificado. Não podemos, em momento algum, esquecer que não estamos em guerra, que as favelas cariocas não são território inimigo e os cidadãos que lá residem são nossos compatriotas. Até mesmo numa guerra entre Estados, em certas situações são feitas considerações sobre a intensidade do emprego da força em função da segurança dos civis.

Isso leva à uma outra questão que está se respondendo por si mesma, e de forma cristalina – e é pedra que também já foi cantada aqui no causa:: – o  “crime organizado” tem, de fato, certa capacidade de organização, mas essa capacidade tem limites que agora estão ficando bem perceptíveis. A capacidade do tráfico, como organização, em estabelecer, perseguir e realizar objetivos está toda centrada em manter a venda drogas. Através da venda de drogas, os agentes da organização conseguem recursos para obter armas e bens de ostentação, além de prestar alguns serviços às comunidades que controlam – embora o controle, mesmo se dê pelo terror. Não existe nenhuma espécie de planejamento de longo prazo, estabelecimento de estratégias e determinação de prioridades; não existe intenção de formar quadros e aperfeiçoar as atividades. Tudo se resume a vender drogas e ostentar armas como forma de ostentar poder. Isso é determinado por um fato que ninguém parece querer examinar: trata-se de um movimento pré-político.

Ainda bem – se fosse um movimento político, estaríamos todos lascados, pois só um movimento político tem condições de praticar a guerra. O motivo, simples (e sempre atual), é que “a guerra é a continuação da política por outros meios”. Em contextos nos quais o Estado funciona (e o Estado ou funciona ou não funciona – não há meio-termo) movimentos pré-políticos não têm condições de oferecer-lhe oposição com qualquer possibilidade de sucesso. Neste sentido, é interessante a postulação do historiador Marco Pamplona: “os grupos que tomavam parte nos movimentos ditos pré-políticos não se apresentavam unificados, isto é, não possuíam um Estado nem partilhavam uma unidade cultural forte, como acontecia com os grupos e classes dominantes. Estes últimos estavam, na maioria das vezes, em posições de mando ou governo na sociedade e, não raro, se encontravam em condições, também, de fazer a história aparecer como sua história, isto é, do ’seu’ Estado e dos grupos pertencentes a esse Estado.” (se o assíduo estiver interessado em ler o artigo todo, clique aqui). Parece complicado, mas não é: os traficantes são produzidos por uma sociedade desbalanceada e fazem parte das chamadas “classes subalternas”, econômica e culturalmente submetidas. Não conseguem ver a própria história, e nem se situar num movimento mais geral. Sua história é a história das classes subordinadas, sejam elas denominadas “campesinato”, “proletariado”, ou como se quiser dizer. Não possuem uma ideologia que condicione a articulação das informações que consomem (e – acreditem – essa gente consome muita informação): a deles é a mesma dos grupos que controlam o Estado, devidamente amplificada pelos meios de comunicação de massa. Ou seja – traficante também vê a Globo. Essas informações fazem com que as classes subalternas transportem para sua vida privada contradições que não podem ser resolvidas.

“Coisa de esquerdista”, alguém já deve estar pensando… Querem ver? Aspirar ter bens de consumo, como roupas de marca e TVs de plasma é absolutamente legítimo. Mas, caso não se possa comprá-los, não se pode roubá-los (seja diretamente, seja roubando dinheiro para comprá-los no mercado), portanto, se deve continuar apenas aspirando a tê-los, algum dia, ainda que não seja nesta vida. Da mesma forma, consumir drogas é considerado por diversas categorias de formadores de opinião (que já têm bens de consumo para distingui-los) como decisão particular de foro íntimo, na qual ninguém pode se meter; por outro lado, vender drogas é crime que deve ser enfrentado com a força do Estado. Curiosamente, nesses dois exemplos mixurucas que mobilizei, subjaz a questão do mercado como lugar de interação e legitimação social – quando deveria ser a sociedade.

Antes que alguém aponte o dedo, a resposta é “não”. “Não” sou comunista (comunista é o Roberto Freire, o que significa que já não existem mais comunistas…) e “não” estou tentando demonizar o mercado. O que estou afirmando é que essas – e inúmeras outras – contradições são vividas dentro dos limites da ideologia dominante e que só serão resolvidas na esfera política, com o objetivo de reformar a sociedade.

Portanto, um grupo de marginais armados não trava guerra porque nunca fez política, e como a guerra é a continuação da política por outros meios, para travar uma um grupo precisa, antes de mais nada, de uma ideologia que os faça encontrar sentido na própria história. E não é coisa apenas de Estados. Como já foi dito, aqui mesmo no causa:: – “No Oriente Médio, na Caxemira, no Afeganistão e em diversas outras zonas de conflito, a guerra não é travada apenas por Estados organizados. Organizações políticas, milícias organizadas e redes fundamentalistas adquiriram poder suficiente para começar e dar continuidade à guerras. Podemos chamar essa nova fase de guerra pós-clausewitiziana.” Portanto, independente da intensidade, guerra, para ser guerra, pressupõe uma organização política, coisa que os traficantes cariocas não têm. Eles não são uma “narcoguerrilha”, termo inventado nos EUA, para justificar a intervenção na Colômbia e, eventualmente, em outros pontos da América Latina. O que define a “narcoguerrilha” é a existência, por trás do qualificativo “narco”, de uma ideologia. A apropriação dos recursos dos cartéis está a serviço de um objetivo maior – mudar a história. É a mesma coisa com os fundamentalistas islâmicos. Seus objetivos não são meramente continuar a ler o Corão ou a obrigar as mulheres a usar aquelas roupas horrorosas. Eles se explodem (e aos outros) porque estão buscando a reforma do mundo, dentro de padrões que consideram “justos”.

Não é o caso dos traficantes cariocas: esses não querem mudar coisa alguma. Se lhes for permitido continuar vendendo substâncias ilegais, comprando (ou roubando) armamento de infantaria e assim adquirir meios para comprar (ou se apoderar) de bens de ostentação, os problemas terminam e a cidade volta ao equilíbrio – que é um equilíbrio, além de precário, perverso, no qual o crime é tolerado pelas autoridades, tem consequências desastrosas (por exemplo, milhares de horas de trabalho e milhões de reais perdidos pela morte e ferimentos provocados por ações criminosas) e, à população, resta se virar num ambiente de insegurança perene. Não há política nem ideologia nisso, e quem disser que vê “fundo político” nas ações criminosas – como foi o caso do professor Tião Santos, coordenador da ONG Viva Rio – está equivocado e mistura alhos e bugalhos (mistura extremamente difícil de desfazer…). Mais espantosa é a declaração do professor Francisco Carlos Teixeira da Silva, que encontra semelhanças entre a batalha do Rio e as guerras do Iraque e do Afeganistão. Digo “espantosa” porque o site pilotado pelo doutor Francisco e seus alunos de pós-graduação é uma das leituras obrigatórias de causa::. Mas confesso que fiquei sem entender uma declaração de tal forma estapafúrdia feita por alguém que eu pensava ser especialista: “O que se assiste é uma guerra assimétrica que consiste em ações de grupos não estatais contra o Estado. Eles usam métodos terroristas. Ainda é um conflito de baixa intensidade porque não usa artilharia pesada, mas equivale ao que se vê hoje no Afeganistão e no Iraque. Nosso erro foi reconhecer tardiamente a situação…” (Leia a íntegra da matéria publicada em O Globo, aqui).

Devagar com o andor: não existe guerra nem isso aqui é a Faixa de Gaza ou a cidade de Falujah (onde o exército dos EUA suou sangue para entrar). Alguém precisa explicar ao professor Francisco que “guerra assimétrica”, na origem do conceito (que remonta a um estudo feito pelo Estado-maior conjunto das Forças Armadas dos EUA em 1955) refere-se a um conflito generalizado no qual se observa uma diferença notável de capacidade entre os dois lados. Atualmente, entende-se que em conflitos assimétricos a resposta de um dos lados, ao enfrentar o outro, assume que não há igualdade de forças, e emprega táticas não convencionais. Essa forma de operar implica em grande diferença, no que refere à organização, treinamento e mobilização de sistemas de armas. O teórico militar Steven Metz soma a tudo isso a indicação de que um dos lados tentará, com choque ou confusão, produzir tal impacto psicológico que chegue a afetar a iniciativa, a liberdade de ação ou os desejos do oponente. Até aí, certamente podemos ver na ação do tráfico carioca táticas assimétricas. A questão é que a determinação das vulnerabilidades do adversário, dos métodos, táticas e sistemas de armas requer estudos anteriores  sobre o oponente e implicará no emprego de armas e tecnologias inovadoras e não-tradicionais. Volto a repetir: esse tipo de guerra, como qualquer guerra, pressupõe uma ideologia e uma organização política que as quadrilhas cariocas não têm. Eles são meros subprodutos de uma sociedade hierarquizada e desigual, e são direcionados à ação pela mesma ideologia que cimenta o conjunto da sociedade. Não pretendem implodir a sociedade da qual são parte integrante: pretendem, tão-somente continuar levando a própria vidinha.

As cenas vistas na televisão são impressionantes para o leigo que vive a insegurança diária provocada pelo descontrole urbano. Um especialista veria no “exército do tráfico” um efetivo de companhia de infantaria, sem nenhuma organização militar e simplesmente debandando; um especialista também saberia a diferença entre um tanque e um transporte blindado de pessoal; sabe que seis TBPs consistem força em nível de pelotão, e que esse nível de força só é empregado em situação de oposição quase nula – que era exatamente o caso. A aplicação de força foi clássica: destinou-se exclusivamente a prevenir baixas no lado das forças policiais.

É também muito provável que a decisão de não fechar a tal “rota de fuga” tenha sido intencional. Não seria difícil para a polícia desembarcar vinte ou trinta policiais do BOPE em algum ponto, com armas automáticas e uns cinco ou dez atiradores de elite, e garanto que o “exército do tráfico” teria permanecido engarrafado na Vila Cruzeiro. Os planejadores devem ter levado dois fatores em consideração.

O primeiro: a possibilidade de que a população da Vila acabasse refém dos traficantes. Este seria o pior dos mundos, visto que ou se aplica força total, com a possível destruição do lugar e número imprevisível de baixas colaterais, ou se negocia com os chefes do tráfico – e, em qualquer dos casos, o governo teria um enorme abacaxi político para descascar. A grande imprensa, que está pisando em ovos, pois é visível o apoio da população às medidas do governo, cairia em cima da “incompetência das autoridades”, o governador Cabral – em fim de mandato e prestes a iniciar outro – na frente de todas.

O segundo: engarrafar os traficantes e suas armas no Complexo do Alemão. A mobilização no dia 26 de novembro, de força em nível de batalhão de infantaria, e de grande número de policiais federais, permitiu que os inúmeros acessos do aglomerado de favelas fossem isolados. Os traficantes poderão, eventualmente, sair, misturados à população, mas terão de abandonar armas, munições e drogas. Muitos serão, provavelmente, identificados e presos. Neste caso, a entrada das forças policiais poderá se dar sem oposição, ou com oposição mínima.

Resta enfrentar as ações terroristas que estão sendo conduzidas nas ruas do Rio de Janeiro. Elas certamente têm essas características. Como foi dito acima, visam semear a confusão e o pânico e produzir impacto psicológico que afete a iniciativa, a liberdade de ação ou os objetivos do oponente. O que os líderes do tráfico não contaram foi com a decisão das autoridades em resistir e a intensidade da resposta. Talvez o governador do Rio de Janeiro tenha elaborado seus planos com base no exame da decisão do governo de São Paulo, em 2006, de negociar com a liderança da organização criminosa “Primeiro Comando da Capital”. A situação lá era semelhante, e essa decisão só não se transformou num desastre político de grandes proporções em função do abafamento dos fatos e de sua persistente negação pelo governo paulista (um ótimo exemplo aqui), desde então. Provavelmente, Cabral não quis repetir o erro, já que não tem o mesmo apoio da imprensa que o então potencial candidato a presidente pelo PSDB desfrutava.

Resumo da ópera: todas as providências tomadas pelas autoridades têm sido corretas e, por ser corretas, estão todas funcionando – exatamente por não caracterizarem um ambiente de guerra, mas de controle urbano. O Estado mobilizou, dentro de condições de respeito ao limites impostos pelo estado de direito em que vive o país, a intensidade adequada de aplicação de força; o uso de pessoal e equipamento militares se dá sob comando e supervisão das autoridades de segurança pública estaduais.

Vamos esperar, porque a operação policial-militar é muito impressionante, mas o que realmente importa é o “depois”. Medidas que resgatem as centenas de milhares de cidadãos brasileiros vivendo nessas comunidades urbanas, não para o Estado, mas para a Nação. Só assim deixaremos de ter de repetir o óbvio: não existe guerra::

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Uma ótima sacada de um ótimo blogue::Economia de (ou “da”?..) verdade: considerações::

O excelente blogue do excelente Catatau é passagem obrigatória deste redator::. Os postos que aparecem lá são, geralmente, estimulantes. Mas este aqui é duas vezes estimulante: além de um ensaio de avaliação do fenômeno midiático da hora, o Wikileaks, traz um interessante conceito: “economia de verdade”. Uma primeira leitura engana: o posto parece um tanto superficial e até algo pueril (sem ofensa – as opiniões colocadas aqui no causa:: com frequência também devem despertar sentimentos assim, nos leitores…). Entretanto, uma segunda leitura – e, diria, uma terceira… – é necessária para aclarar o conteúdo – principalmente quando já se passou pelo outro posto, que está logo em seguida e complementa o anterior. Catatau parece ter por objetivo levantar questão interessantíssima – a forma como a imprensa lida com tema, na opinião deste redator::, quentíssimo, e espinhosíssimo: a liberdade de expressão, e sua relativização por um lado, pela autoridade de Estado e, por outro, pela grande imprensa.

Comecemos pelo conceito de “economia de verdade” (eu mudaria para “da verdade”). Parece ser necessário, para a discussão que causa:: quer introduzir o que se pode entender, fora do senso comum, por “economia” e por “verdade”. A definição de “economia” (para um não-economista), diz respeito a “guardar” – por exemplo, para ficar perto do tema deste blogue, “economizar munição”. Para os especialistas, por outro lado, trata-se do “estudo do homem na atividade ordinária da vida; exame do componente da ação individual e social mais estreitamente ligado à obtenção e utilização dos requisitos materiais necessários ao bem estar” (definição do Dicionário das Ciências Sociais, publicado pela Fundação Getúlio Vargas). O mesmo verbete ensina que, num sentido originário, “economia” diz respeito à administração doméstica (a raiz do termo vem do grego oikós, “um estabelecimento doméstico”, “moradia”). De fato, esse teor de “administração”, “organização”, ainda está presente na definição: a econômia, hoje em dia, é entendida por muitos especialistas como “relação entre demandas amplas e restritas e meios escassos” . O uso da expressão, por outro lado, se disseminou: fala-se em “economia do inconsciente“; em “economia da teoria semiótica” (quem quiser saber o que diabo vem a ser isso, pode arriscar-se aqui), “economia do erotismo”, e por aí vai. O redator:: não muito versado em filosofia imagina que todas essas variações se remetam as formas como determinados recursos são mobilizados e administrados num determinado contexto (energia pulsional, no caso do inconsciente; signos, no caso da semiótica; no caso do erotismo, bem… Sabe-se lá…). Então, a “economia de verdade”… Aqui, o problema é a difícil definição de “verdade”. As ditas definições são, elas mesmas, complicadas, mas uma parece caber no texto do Catatau: “Referente ao que realmente existe, ou que realmente aconteceu” – o que “realmente existe” é, pois, verdade (consta do verbete “Verdadeiro”, do Vocabulário técnico e crítico da Filosofia, obra de referência publicada pela Editora Martins Fontes).

Os documentos que têm sido publicados no site Wikileaks exprimiriam, então, a verdade – expressam o que realmente acontedeu. A difusão desse material está, pois, relacionada à exposição do que “é verdade”, por ter “realmente acontecido”, independente de “não deveria ter acontecido”. O juízo sobre tais “acontecimentos reais” diz respeito à questões morais. Assim, a “economia de verdade” apontada pelo Catatau falaria da “administração do que realmente aconteceu” – por todos os lados, governo norte-americano, Wikileaks e imprensa formal.  

Neste ponto, poderíamos perfeitamente apelar para outra definição: “Nenhum fato poderia ser verdadeiro ou existente, nenhuma enunciação, verdadeira, sem que existisse uma razão suficiente para que fosse assim e não de outro modo…”. Essa postulação foi elaborada no século 17 pelo filósofo e matemático Leibnitz, e é apontada pelo “Vocabulário” como “antiquada”. Pois no caso da “economia de verdade”, é atualíssima. A ocultação de documentos ou sua revelação – e, portanto, da informação e, daí, dos fatos expressos por ela – acontece porque existe uma razão suficiente para que seja assim, e não de outro modo. Ocultação e revelação são, desse ponto de vista, ainda que moralmente  justificáveis ou injustificáveis, necessárias.

Razão suficiente para que seja assim… O governo dos EUA, ao vedar o acesso aos documentos alega estar agindo em benefício da sociedade e de seus interesses – a começar pelos soldados em campanha. Afirma que a difusão do material é uma ameaça e, ao lutar contra ela, está cuidando do interesse da sociedade, ameaçado, inclusive fisicamente, pelo teor da informação. A lógica das autoridades é que a liberdade de expressão está, nesse caso, limitada por um bem maior. A exceção desta última postulação, os meios de comunicação (não parece haver diferença entre Wikileaks e imprensa formal) dizem exatamente o mesmo. Entretanto, Catatau chama a atenção para a mudança de foco acontecida no momento em que o volumoso material chegou aos jornais: o conteúdo, “a verdade”, parece passar para segundo plano. O processo do qual Julian Assange e seus colaboradores são centro (bem como os próprios) parece tornar-se o sujeito do interesse dos jornais. O motivo é fácil de entender: é o quê de teoria conspiratória que cercou o surgimento do material no Wikileaks, o quê de sensacionalismo que vaza deles. E a existência de um herói solitário lutando contra o sistema, contra o governo em que ninguém confia totalmente. O conteúdo? Muito possivelmente, os jornalistas que escreveram as matérias citadas por Catatau sequer se deram ao trabalho de olhar o conteúdo.   

causa:: foi lá olhar. A surpresa inicial do redator:: não foi propriamente a divulgação dos documentos – isso sempre aconteceu nos EUA. A surpresa maior foi em torno da quantidade de documentos – mais de 75.000 (a maioria das fontes indica 92.000 – seria interessante saber de onde Catatau tirou esse número). É – noventa e dois mil! Uma biblioteca com mais de 400 livros de 200 páginas (calculando q cada documento tenha uma página, o que é a média dos relatórios de operação de uma fração de tropa). A análise desse tipo de documento é uma das tarefas mais cansativas que se pode conceber. Já o filme referido pelo Catatau é um filme, algo mais palatável para nossas mentes moldadas pela era da informação. Estamos acostumados com imagens – já com textos é outra coisa.

TF Bayonet relatou um acidente com veículo três quilômetros ao Norte de Camp Wolverine. Em 0335Z, dado elemento relatou a capotagem de veículo (M1114) que feriu um soldado americano. A capotagem foi causada pelo estado da rodovia. Um total de cinco pessoas estava no veículo. Como resultado do acidente, TF Bayonet requisitou MEDEVAC para um US-MIL.  PT foi listado como prioridade.  O PZ é FOB Lagmans HLZ e não será marcado.  Não há presença de inimigos e o PT será repassado ao KAF.  CJTF76 aprovou MEDEVAC 10-07C at 0719Z. W/D 1110Z

A tradução é do redator::, que não tem como esclarecer o significado das abreviaturas, mas é possível notar que se trata de um acidente com uma viatura militar. “TF Bayonet” diz respeito, provavelmente, ao código de uma base ou de um operativo, utilizado para radiocomunicações. Dentro da “economia de verdade”, esse evento não interessaria a ninguém, apenas aos militares que administram o cotidiano das tropas em campanha por lá. Nota-se que o próprio Luís Nassif, um jornalista de cuja seriedade ninguém duvida, parece não saber do que fala. É dele a afirmativa (ou pelo menos a veiculou): Estes documentos não descrevem a realidade no terreno, mas constituem um testemunho do grau de auto-envenenamento das forças americanas. Os relatos de inteligência afegãos, nas quais se baseam as operações das tropas da aliança no Afeganistão apenas relatam fofocas tão estúpidas, que não se pode deixar de perguntar como é possível que esses informantes tenham sido recrutados. Ele parece esperar que incidentes de campanha ou informações de combate sejam vazadas em tom de roteiro de cinema. Não é o que acontece: qualquer um que conheça arquivos militares sabe que a linguagem é exatamente essa.

Mas porque eventos bestas como esse têm de ser escondidos? Simples: porque quando avaliados em conjunto com muitos outros, fornecem informações sobre localização e procedimentos dos militares. Um analista bem treinado consegue retirar de uma série desses textos informações que estão totalmente opacas ao leigo. Provavelmente, dentro de duas décadas – caso a guerra no Afeganistão termine logo – essa categoria de documentos será aberta sem restrições. Os historiadores de operações militares trabalham principalmente com eles.

Mas não só em torno de acidentes de carro gira o cotidiano de um exército em guerra. Existem também os aliados (no caso do Afeganistão, é bem verdade, não devem ser muitos, mas eles existem…). Por exemplo, na categoria emboscadas:

Em 0200Z, o chefe de polícia de WAZA KHWA e 20 policiais foram emboscados IVO 42S VB 298 853 (GAZNI), quando voltavam de verificação (VIC. 42S VB 306 117) a 6 caminhões carregados com CERP que o governador tinha doado a eles. O engajamento durou 30 minutos . O chefe de polícia supõe que a força inimiga fosse de umas 20 pessoas em motocicletas. Houveram dois mortos e um ferido entre as forças amigas. Houve um possível ferido entre o inimigo, e uma uma motocicleta foi capturada. As forças dos EUA ouviram essa comunicação monitorando o rádio, mas estavam muito longe para reagir por terra.

Querem saber? Essa o redator:: gostaria de ter assistido – vinte caras em motocicletas?.. Parece coisa de filme, mas nota-se que também é comunicação de rotina entre as tropas dos EUA, sem nada de tão escuso.

Missões de campo, conduzidas por patrulhas preparadas para contato direto (ou seja, para cair no fogo) podem ser mais interessantes

USSF [Forças especiais dos EUA] encontram um depósito na vila de WALU TANGAY: USSF conduzem um encontro e saudação na vila de WALU TANGAY.  Membros das USSF se aproximaram de um garoto local que falou de um depósito numa caverna, numa colina próxima.  Membros das USSF investigaram e encontraram um depósito consistindo de treze granadas de morteiro 82MM, sessenta foguetes RPG, quinze caixas de munição 12.7X108MM (85 cargas por caixa), cinco caixas de correias para munição 12.7X108MM e um cano de DSHK localizados numa caverna 350107.26N 0705513.00E. USSF confiscaram a munição. O resto foi explodido numa praça.

O interessante desse relatório é a pequena quantidade de munição (daria, com boa vontade, para meia hora de tiroteio) e a origem – provavelmente soviética (os calibres todos são de armamento de infantaria ainda hoje usados pelos russos), dos enormes arsenais deixados para trás quando da retirada, quase vinte anos atrás.  Mas essas  informações não indicam nada de ilegal – a guerra em si e a intrusão de uma patrulha de combate no cotidiano de uma vila no meio de lugar nenhum podem até ser. Os procedimentos reportados, não. Ainda assim, um especialista pode, por exemplo, analisar um conjunto dessas notas e descobrir regularidades de espaçamento entre as patrulhas, o que permitiria armar emboscadas.

Claro que deve existir relatórios escabrosos, no meio desses chatos. Mais de mil entradas dizem respeito a prisões de civis, muitos deles por promoverem reuniões nas quais o maior crime deve ter sido falar mal do governo. A sugestão do redator:: é que quem quiser conferir, dê uma passeada na página disponibilizada por Wikileaks, nas abas browse by. Será preciso muita paciência para descobrir algo que valha à pena, um incidente que o governo norte-americano esteja se esmerando em ocultar. Uma sugestão? O interessado deve ir direto à aba air mission – é onde geralmente se aplica uma quantidade totalmente desnecessária de poder destrutivo, como foi no caso do tal filme iraquiano.

Portanto, é muito improvável que os 92.000 documentos venham a fazer sucesso, a não ser entre especialistas. Para estes, o conjunto pode constituir verdadeira mina de ouro. Para a imprensa, é de duvidar: a análise é árdua, tediosa e, pior, pode induzir ao erro. Isso porque muitos dos “incidentes” relatados podem constituir apenas e não mais que eventos de combate. Numa guerra onde o outro lado não usa uniforme e desaparece no terreno com a maior facilidade, como distinguir combatentes de não-combatentes? O incidente do helicóptero constituiu exatamente isso: o operador de uma plataforma extremamente letal (um helicóptero de ataque AH-64) viu um grupo de civis se reunindo: um dele “parecia” portar uma arma. “Por via das dúvidas, neutralize a ameaça”, disse o operador no centro de informações de combate ao qual a unidade se reportava (era isso que estava no áudio do filme). E tome  outro erro, como já foram reportados dezenas, no Afeganistão (por exemplo, o ataque a uma perigosa festa de casamento pela aviação dos EUA).

Essa idéia de “economia de verdade”, então, nos permite entender algumas das questões contidas nos postos do Catatau. Existe uma razão objetiva para a não divulgação dos relatórios, para além do fato de que podem ocultar incidentes não justificáveis. Por outro lado, a massa de informação, por si só, não é ilegal nem imoral – e aí reside o “xis” da questão: bastaria aos jornalões consultar um especialista para saber exatamente o que tinham em mãos. E eles certamente o fizeram, porque não são idiotas. Esse esclarecimento aos leitores foi negado, e o foco então deslocou-se para o herói solitário – economia de verdade.

Mas o administrador do Weakleaks estaria exercendo seu direito sagrado de divulgar informação. Só que todo mundo – inclusive a parte dele (e não é pequena, sejamos justos) que quer matar americanos – terá acesso ao material. É perfeitamente possível que o horário de vôo de um helicóptero de transporte possa ser levantado através da análise do material, ou a rotina de reunião de uma patrulha de campo. Nesse caso, não terá sido exagero das autoridades dos EUA dizer que vidas foram postas em risco.

“Economia” quer dizer “viver debaixo de regras”. Se existe mesmo (e o redator:: pode estar apenas delirando…) uma “economia de verdade”, então essa implica em  regras, e parece que essa discussão subjaz a procedimentos como o do Weakleaks. Se a ocupação do Afeganistão é ou não é aceitável, é fato a determinar em outros fóruns; se os atos do governo dos EUA são ou não legítimos, idem. Mas o fato é que houve um ato de guerra contra os EUA em 2001 e o Afeganistão era a base da organização agressora.  “Economia de verdade” – por vezes, ela também atinge nossas convicções…::

Entre tapas e … beijos?..::Colômbia e Venezuela: perspectivas::

Cabe antes de tudo, uma explicação: o “método confuso” de elaboração de postos desenvolvido (???) pelo redator:: implica , em primeiro lugar, ter um insight, que aponte um tema que pareça interessante. Num segundo momento, o dito pesquisador amador começa a levantar material na lista de sítios especializados e blogues, que formam um extensa biblioteca de recursos de pesquisa on-line. O terceiro momento é o do início da redação. Aí a porca começa a torcer o rabo, a onça, a beber água e o macaco, a enfiar a mão na cumbuca. Por não ser jornalista nem escritor de espécie alguma (ou seja, “redator::” é apenas uma liberalidade adotada para com os oito ou nove assíduos…), o redator:: escreve um borrador e, logo em seguida, começa a modificá-lo, tanto em conteúdo quanto em estilo. Por esse motivo, os postos carregados aqui no blogue costumam a ter duas ou três “edições”. Na maior parte das vezes, aos trancos e barrancos, a coisa dá certo (salvo errinhos de digitação e algumas agressões à gramática…). Entretanto, algumas vezes, ocorrem desastres, como o q constatei ontem: a parte2 do posto sobre Colômbia e Venezuela, por algum motivo, saiu totalmente truncada. Na verdade, nem era para ser carregada naquele momento. De toda forma, está indo abaixo a primeira edição. Sugiro aos assíduos que dêem uma olhada na parte1, pois uma “segunda edição” bem ampliada foi carregada. O redador:: pede sentidas desculpas, não apenas aos assíduos, mas a todos que tenham sido incomodados por esse acidente de percurso::

parte2As provocações e vitupérios de Hugo Chávez são exagerados, certamente, mas as ressalvas de governos menos dispostos ao histrionismo, como o Brasil e a Argentina, traduzem a preocupação com a possibilidade de interferência norte-americana nos assuntos internos sul-americanos. O fato é que as forças armadas colombianas, muito bem treinadas nas operações de COIN, não parecem ter grande capacidade quando se trata de enfrentar forças armadas propriamente ditas.

Mas ninguém (possivelmente nem mesmo Chavéz…) imagina uma guerra: afinal, as forças armadas bolivarianas têm sido postas em prontidão com alguma frequência, sem ter, até agora, saído do lugar. As autoridades militares da Venezuela anunciaram ontem que estarão alertas e ofereceram “apoio incondicional” ao presidente Hugo Chavéz, após este ter rompido “todo tipo” de relações com a Colômbia. Até agora, no melhor estilo bolivariano, os militares venezuelanos parecem estar se divertindo em emitir bravatas, tipo “daremos resposta contundente se houver uma incursão militar estrangeira contra o território da Venezuela”. Já o governo colombiano parece ter ficado satisfeito em amolar Chávez: segundo o porta-voz presidencial, César Mauricio Velásquez, “da parte da Colômbia, jamais haverá um movimento de tropas. Sempre haverá fraternidade com a Venezuela” (???).

A Venezuela negou as acusações feitas pelo governo da Colômbia na Organização dos Estados Americanos. Segundo informações do embaixador colombiano, 1.500 guerrilheiros das FARC se refugiariam na Venezuela, em três acampamentos. Não foi a primeira vez que tais acusações foram veiculadas por Bogotá, e sempre foram negadas por Caracas. Esta última edição da crise chegou de modo um tanto inesperado, quando a OEA parecia estar tendo sucesso nas gestões que fazia, em busca da normalização das relações entre Bogotá e Quito, interrompidas desde a Operação Fênix, em março de 2008. As relações do governo colombiano com os EUA também levantam restrições entre todos os governos sul-americanos, e a decisão de Uribe em renovar o “Plano Colômbia”, formalizada durante visita à Washington, em outubro de 2009, não contribuiu para distencionar a situação. Os governos da região não veiculam suas restrições, e quando o fazem, mantêm o tom baixo – menos Chavéz, lógico. As relações entre os dois países não têm sido grande coisa ao longo do mandato de Uribe, mas vêm piorando desde julho de 2009. Foi quando o governo de Bogotá alegou  ter encontrado armas venezuelanas nas mãos as Farc. O acordo Bogotá-Washington piorou a situação, pois Chávez não é tão reservado em suas declarações e sabe que a Venezuela é, depois dos EUA, o principal parceiro econômico da Colômbia. Ele alegou que o acordo é uma intervenção direta na América do Sul e uma ameaça contra a Venezuela. Como se não fosse suficiente, o governo dos EUA, que tem endurecido sua posição na região, resolveu botar lenha na fogueira. Na capital americana, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Phillip J. Crowley, declarou o apoio norte-americano ao envio de uma “missão internacional” para investigar as acusações da Colômbia contra a Venezuela.  

Muitos analistas se perguntados, dariam razão a Chavéz. A Colômbia tem limites com cinco países (Venezuela, Equador, Panamá, Peru e Brasil). Com a Venezuela são 2.200 quilômetros, e uma história de conflitos de limites, que em diversas ocasiões provocaram atritos. Depois da independência, no início do século 19 sob a liderança de Bolívar, a região tornou-se um único país, a República de la Gran Colombia, integrada também pelo Equador e pelo Panamá – na época parte da Colômbia. O território equivalia ao vice-reino de Nova Granada, e o projeto não deu certo, já que haviam diferenças políticas significativas entre as elites que se reuniram para garantir a independência da região, após as guerras napoleônicas. O estabelecimento dos três países, acontecido no final da década de 1830, levantou questões de fronteiras, e algumas persistem até hoje. Colômbia e Venezuela têm um contencioso de fronteiras no Golfo da Venezuela, e quase entraram em guerra em agosto de 1987, em função de alegadas provocações da Colômbia (na época, Chavéz não existia ainda, temos de admitir…). A quase-guerra civil colombiana, que já dura mais de quarenta anos, tornou-se também fonte constante de tensão, visto que a fronteira venezuelana é altamente permeável, e tanto guerrilheiros colombianos quanto criminosos venezuelanos (o tráfico de drogas e os sequestros também são prática comum na Venezuela, só que sem coloração política) transitam de um lado para outro. O problema é que, desde sua chegada ao poder, o coronel Hugo Chavéz não faz questão de ocultar sua simpatia pelas FARC, que classifica como “combatentes da liberdade e do socialismo”; as FARC, por sua vez, se classificam como “bolivarianas”. Washington e Bogotá acusam, com frequência, o presidente venezuelano de apoiar as guerrilhas. Chávez nega, e o fato é que Uribe, que, no início de seu mandato, até que se dava bem com Chavéz, subiu o tom das acusações, sem conseguir apresentar provas indiscutíveis. Em dezembro de 2004, a prisão em Caracas do líder guerrilheiro Rodrigo Granda, representante internacional das FARC, em uma operação encoberta de um comando da polícia colombiana novamente quase levou os dois países à guerra.  O ativista andava tranquilo na Venezuela, que imediatamente alegou não saber o que ele fazia lá, como cidadão privado. Em março de 2008, a incursão aérea em solo equatoriano desencadeou movimentos de tropas de Quito e Caracas, e uma correria de diplomatas de alto nível, dos principais países da região e da Espanha. Chávez convocou seu embaixador em Bogotá e ameaçou congelar o comércio entre os países. Essa, por sinal, seria uma retaliação bem mais efetiva: o comércio entre os dois países, no âmbito do Pacto Andino, sempre foi intenso, chegando, segundo algumas fontes, a mais de 7 bilhões de dólares.

Em julho de 2009, a prova que com que o governo colombiano tanto deveria sonhar apareceu na forma de lançadores de foguetes AT4. Essa arma anti-tanque, supostamente entregue ao exército da Venezuela pela indústria sueca Saab Bofors Dynamics, foi encontrado com as FARC, em território da Colômbia. O governo da Suécia resolveu investigar o caso, que configuraria  tráfico de armas para a guerrilha, e teria comprovado que as armas realmente foram vendidas ao Exército da Venezuela em 2004. A reação de Uribe foi, por outro lado, surpreendentemente moderada: apenas teceu críticas genéricas aos países que vendem armas por fornecer a um “grupo criminoso”  armamento de grande poder de destruição, sem citar nenhum país como fonte das armas. A guerrilha, claro, negou todas as acusações e ainda afirmou não ter nenhuma relação com o o governo do Equador – o governo colombiano veiculava acusações de que a guerrilha teria feito contribuições à campanha de Rafael Correa ao governo do Equador.

É possível que a preocupação do colombiano fosse mais com o comércio bilateral. Chavéz cumpriu sua ameaça no ano passado, depois do acordo firmado entre Washington e Bogotá. O comércio bilateral foi reduzido em 70%, prejudicando as duas economias. A seriedade desse movimento de Chavéz, e o modo como a Colômbia sentiu o golpe ficaria clara nos meses seguintes, ao ponto do atual presidente eleito, então ministro da defesa ter declarado sentir “grande afeto” pelo povo venezuelano. O fato é que os outros países do Pacto Andino simplesmente não têm volume econômico suficiente para absorver os produtos colombianos que a Venezuela.  

Alguns analistas têm dito que o problema talvez não seja exatamente com a Venezuela, mas dentro da estrutura de governo da própria Colômbia. As “provas” apresentadas por Uribe sobre a presença de militantes das FARC na Venezuela são muito pouco consistentes, remontando a relatórios de 1990. As declarações de Santos ainda como ministro de Uribe podem indicar uma intenção de negociar com a Venezuela, de forma a resolver o problema das relações econômicas.

Santos já presidente eleito, demonstrou mais diretamente intenções de entabular negociações com Venezuela e Equador, que classifica como “problemas diplomáticos”. Essa intenção fica ainda mais provável com a escolha, para a pasta das Relações Exteriores de Maria Ángela Honguín. Essa diplomata de carreira foi representante colombiana na ONU, até discordar da política de Uribe para os países vizinhos. Logo após a indicação, Santos enviou Holguín a Quito, para apresentar a seu colega equatoriano, Ricardo Patiño, um convite para que o presidente equatoriano comparecesse à cerimônia de posse. A ministra nomeada também deveria ter uma reunião com o chanceler venezuelano.

Embora tenha feito elogios às iniciativas de seu sucessor, a posição de Uribe, de fato, seria outra, de discordância com as diretrizes de seu sucessor. Analistas na própria Colômbia vêem  na denúncia de Uribe objetivo de marcar posição e, mais além, enviar uma mensagem clara a seu herdeiro político. Durante sua visita a Wasington, Uribe declarou pertencer “… a uma geração que não conheceu um só dia de paz. Minha prioridade é dar manutenção à dinâmica da minha política.” Declarações como essa visam justificar as políticas de segurança adotadas ao longo de seus dois mandatos. No auge de sua popularidade, Uribe chegou a alimentar planos de um terceiro mandato, que não chegaram a entusiasmar nem mesmo seus mais entusiasmados seguidores. Desencorajado de uma segunda modificação na constituição da Colômbia, Uribe parecia esperar que sua “Seguridad Democratica” fosse continuar como diretiva política para os próximos dez anos, pelo menos, ou até as FARC serem totalmente anuladas. As indicações de Santos para o futuro gabinete o teriam desagradado fortemente, e temeria que sua política de enfrentamento com a guerrilha, acabe sendo mitigada em nome da negociação.
Ou seja: Uribe não estaria disposto a ser colocado em segundo plano. Seu objetivo seria, então, entregar ao sucessor um fato consumado, as relações com a Venezuela estremecidas a tal ponto que qualquer negociação acabasse aparecendo como recuo diante do principal adversário. Essas discordâncias internas explicariam a moderação do presidente eleito com relação às denúncias do atual. Resta agora saber como Chavéz reagirá aos acenos colombianos, e se Santos terá jogo de cintura suficiente para transformar o espantalho favorito de seu mentor em “pessoa fantástica” – o que, além de recolocar a economia colombiana nos trilhos e distensionar a região, também poderia apontar Diego Maradona como capaz de reivindicar o cargo de ministro do exterior da Argentina::

A estratégia da guerra pós-clausewitziana::

(NYTimes.com)A jihad em imagens(15 de outubro)

Quando Osama Bin Laden divulgou mensagem de vídeo para o povo americano, mês passado, um jovem entusiasta da jihad ajudou a espalhar o conteúdo. “A América precisa ouvir o xeque Usaamah e levar sua mensagem a sério”, escreveu ele em seu blog.

O blogueiro é Samir Khan, um americano de 21 anos, morador na Carolina do Norte, onde montou uma espécie estação distribuidora para produções de grupos islâmicos radicais. Nos últimos dias, a estação de Samir distribuiu as “alegres notícias” sobre a morte de 31 soldados argelinos por um grupo radical do norte da África. Também pode ser baixado um tratado acadêmico que defende a jihad violenta, devidamente traduzido para o inglês. Também estão lá centenas de links para sites violentos contendo imagens da insurgência no Iraque. Nascido na Arábia Saudita e criado em Queens, Nova Iorque, Khan é um soldado do que a al Qaeda chama “mídia jihadista”.

Não há nada que sugira que Khan esteja agindo de forma coordenada com líderes radicais ou infringindo qualquer lei. Ele é parte de um grupo crescente de operadores de mídia que estão transmitindo a mensagem da al Qaeda e de outros grupos, uma mensagem que se dirige cada vez mais ao publico ocidental.

Especialistas em terrorismo da Academia Militar dos Estados Unidos dizem que há cerca de cem sites em inglês, que oferecem a visão de radicais islâmicos. Esses parecem estar criando um canal com jovens muçulmanos americanos e europeus ao jogarem com o ódio que a guerra no Iraque desperta e com a imagem de um Islã sob ataque.

Os textos originais árabes, longos e tediosos para os padrões ocidentais, são retrabalhados, usando técnicas de publicidade. Folhetos de recrutamento são distribuídos e encontra-se até novelas online, todas com temas sobre a jihad. Sites como o YouTube também tem servido como veículo para esse matarial.

A al Qaeda usa a Internet há anos, mas quem acompanha as novas produções concorda que o material melhorou muito em qualidade, e se tornou atraente para um público acostumado com a rapidez da Internet.

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Segundo Rohan Gunaratna, pesquisador-chefe do Centro Internacional de Pesquisa sobre Violência Política e Terrorismo da Universidade Técnica Nanyang, de Singapura, “a al Qaeda é uma organização essencialmente moderna”. É uma declaração surpreendente, embora saibamos que a organização já demonstrou grande habilidade no uso de meios de comunicação de massa e do sistema financeiro internacional da era da globalização. Mas, segundo Gunaratna, não são essas habilidades que demonstram o caráter moderno da al Qaeda, mas o fato de que a organização demonstrou entender perfeitamente que as guerras do século XXI tem na disseminação de imagens espetaculares em tempo real uma estratégia central. No ataque às Torres Gêmeas, a organização de Bin Laden mostrou uma capacidade surpreendente de conceber o uso da televisão via satélite para mobilizar o apoio dos países muçulmanos.

A modernidade da al Qaeda também fica patente conforme sua organização se mostra distante da estrutura centralizada e burocrática dos partidos revolucionários do século XX, e mais próxima da organização celular dos cartéis de distribuição de drogas e das redes planas das empresas virtuais. A al Qaeda assemelha-se à uma multinacional, sugere Gunaratna. Surgida na fase final da Guerra Fria, financiada pelos sauditas e com beneplácito dos EUA e dos governos europeus, terminada a guerra contra os soviéticos, tornou-se o primeiro praticante da guerra não convencional capaz de dar escala mundial às suas operações. “Em vez de resistir à globalização, suas forças estão sendo reunidas por grupos islâmicos contemporâneos, constantemente atrás de novas bases e novos alvos pelo mundo”, diz o pesquisador.

A guerra pós-clausewitziana parece que será travada por pequenas unidades com alto grau de iniciativa, dependendo essas unidades de sua capacidade utilizar localmente recursos levantados em escala global, inclusive comunicando-se através da Internet. Essa aparente flexibilidade, que lança mão tanto da motivação individual mobilizada pela ideologia quanto de recursos tecnológicos bastante sofisticados, mas, ao mesmo tempo, acessíveis a qualquer um com certo grau de conhecimento técnico, mostra sua face na capacidade dos pequenos grupos em colocar forças bem maiores em posição de defesa. O grau de iniciativa também fica patente na capacidade que a rede al Qaeda demonstra em sobreviver ao isolamento de seu líder.

Outra demonstração recente do caráter da guerra pós-clausewitziana foi dada durante a invasão de Israel ao sul do Líbano, com o objetivo de anular o grupo militante xiita Hezbolá. Israel declarou que a responsabilidade sobre as ações do grupo xiita era do governo do Líbano, que estaria permitindo o uso de seu território. Isso demonstrou uma curiosa incapacidade em entender o caráter assimétrico por excelência da guerra pós-clausewitziana. Após mais de 40 dias de operações que provocaram sérios danos à infra-estrutura civil do Líbano, as forças armadas de Israel se retiraram do Líbano sem alcançar nenhum dos objetivos a que haviam sido propostos.

A milícia do Hezbolá mostrou grau de treinamento e disciplina que surpreendeu os israelenses e a maioria dos analistas ocidentais. De fato, alguns falaram em uma vitória parcial do Hezbolá, enquanto outros apontaram uma espécie de “empate técnico”. Usando armas convencionais provavelmente fornecidas pelo Irã e pela Síria, os milicianos xiitas conseguiram ,em algumas ocasiões, interditar o terreno às unidades blindadas de Israel. A utilização de equipamentos como o lança-rojão RPG-29 e óculos de visão noturna mostraram um novo estilo de guerra assimétrica, na qual o lado mais fraco mostra-se capaz de colocar em xeque o lado mais forte. A vulnerabilidade israelense residia exatamente no uso de forças convencionais de difícil operação. Os milicianos, dispersos pelo território, dotados de uma perfeita consciência do terreno e armas adequadas, demonstraram capacidade de tomar decisões mais rapidamente que o exército de Israel.

O uso da população civil como escudo, embora seja bastante cruel, em sua essência, é extremamente eficaz, já que torna as ações militares, principalmente as que envolvem aviação, extremamente antipáticas, e obrigam o adversário a justificar-se perante seus aliados.

A guerra pós-clausewitziana pode significar um retorno à noção de estratégia indireta, teoria formalizada pelo analista inglês Basil Lidell-Hart. Essa idéia faz um certo sentido, diante da posição ocupada hoje pelos EUA, no panorama militar. Após a Segunda Guerra Mundia, a adesão ao princípio de “revolução em questões militares” deu aos EUA a supremacia inquestionável sobre o campo de batalha. Enfrentar uma estrutura assim organizada, diretamente, é impossível. Mas enfrentá-la indiretamente é possível, como temos visto em algumas situações, caso recorramos à história militar. Talvez outro aspecto da guerra pós-clausewitiziana seja exatamente o fato de que forças armadas convencionais estejam se encaminhando para o declínio – estruturas muito dispendiosas, em todos os sentidos, e inúteis, diante da assimetria de poder. Entretanto, não deixa de ser interessante pensar que, aquilo que a URSS não conseguiu (e desapareceu tentando…), bin Laden e seus ativistas têm conseguido. A al Qaeda é o futuro da guerra? Se for, talvez já estejamos vivendo o futuro.

A Guerra do Vietnam – Sobre boas e más analogias::

Ao que parece, Geoge W. resolveu extrapolar. Talvez tenha tido um dia pior dos que os habituais; talvez tenha se engasgado com algum pretzel. Engasgado, certamente ele está, com sua confusa “guerra contra o terror”. Tão engasgado que saiu-se com uma que dificilmente conseguirá superar: mexer com o vespeiro do Vietnam.

Porque o Vietnam, mesmo passados mais de 30 anos desde o fim da guerra, ainda é um vespeiro: um vespeiro do imaginário nacional norte-americano. Basta dizer que sucessivas presidências, republicanas e democratas, não conseguiram provar ao país o argumento de que foi uma causa nobre. Ao contrário da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coréia, últimos conflitos legais em que o país se envolveu, o Vietnam continua sendo a guerra injusta que os EUA perdeu.

Não é pouca coisa, visto que até mesmo o historiador Arthur Schlesinger Jr., modelo, nos anos 1960, de crítica liberal ao governo norte-americano, afirmava que os EUA nunca tinham perdido uma guerra. Schlesinger passou anos clamando pela necessidade de uma saída negociada para o envolvimento norte-americano no Vietnam, e se tornou, no final dos anos 60, um dos principais ativistas contra a guerra. Porque o Vietnam não era uma guerra justa.

A noção de “guerra justa” é muito forte entre os norte-americanos. Além do persistente mito de que “os EUA nunca começaram uma guerra” (veiculado desde o século XIX por políticos e historiadores acadêmicos, e tornado assunto público durante a campanha de Hearst pela intervenção em Cuba), é extremamente arraigada a idéia de que, representando os mais fortes valores do Ocidente e da cristandade, a nação norte-americana pega em armas sempre que esses valores estão ameaçados. Foi assim na Segunda Guerra; foi assim na Coréia, foi assim até mesmo na invasão do Kwait por Sadam.

O fato é que o uso de analogias, pelos governantes dos EUA não é novidade. Certamente George W., nisso, não está inovando em nada. Os políticos de lá invocam, com freqüência, as “lições da história”, como já explicou, de forma brilhante, o historiador Yuen Foong Khong, autor de um livro quase definitivo sobre o assunto. Khong argumenta que o levantamento de analogias tem mais do que a função de justificar políticas de difícil explicação pública. Trata-se de um processo mental destinado a facilitar o processamento cognitivo e informacional presente na tomada de decisões políticas. Assim, analogias com a Segunda Guerra Mundial, a Guerra da Coréia e a derrocada francesa na Indochina tiveram lugar fundamental na decisão norte-americana de intervir no Vietnam e, depois, não apenas na de permanecer, mas de escalar a intervenção. O uso da analogia entretanto, tende a resultar em uma argumentação pobre. Para ser eficaz, deveria levantar fatos de amplo transito entre aqueles que serão alcançados pela mensagem. Desta forma, nem sempre podem ser mobilizadas as melhores comparações, ou por não existirem ou por não apresentarem similaridades perfeitas com a situação que está posta em pauta.

Ou seja, a analogia faz parte de um processo mental normalmente presente na tomada de decisão dos políticos norte-americanos e pode virar uma enorme casca de banana. Aparentemente, foi exatamente nessa que George W. escorregou, embora não possa ser acusado de inventar um absurdo ou ser o primeiro a distorcer a história.

A armadilha fica bem clara na análise feita no dia 23 passado, no NY Times por Thom Shanker. Sumarizada em um de meus blogs do coração, por Thomas de Zengotita, a conversa de George W. com veteranos de guerra (outra importante figura do imaginário nacional norte-americano), mostra uma tentativa de “manipular o patriotismo nato [dos veteranos]”. Segundo Zengotita, “Shanker corretamente chama atenção para a ridícula afirmação de Bush de que a carnificina promovida pelo Khmer Vermelho no Camboja foi conseqüência da retirada Americana do Vietnam, quando, de fato, foi a invasão americana que, em primeiro lugar, inspirou a formação daquela quadrilha insana.” E nem mesmo os argumentos que levaram ao envolvimento norte-americano, que formavam a “teoria do dominó”, mostraram-se corretos, no fim. “Bush disse que nós tínhamos de vencer porque se falhássemos, os comunistas tomariam o poder na Indonésia e nas Filipinas, e quem sabe onde mais. Talvez no Havaí. Foi o que disseram na época. Eu estava lá. Eu lembro. De fato, quando nós finalmente nos retiramos, nada disso aconteceu. O que de fato ocorreu foi que as diferenças sino-soviéticas, postas artificialmente de lado por nossa invasão, explodiram. O que aconteceu foi que a China comunista evoluiu para o bizarro híbrido entre tirania e capitalismo que conhecemos hoje em dia e a União Soviética, para o auto-inflingido copapso.”

Parece que George W. buscava uma analogia que mobilizasse o patriotismo dos veteranos como uma espécie de expressão amplificada do patriotismo nacional, um valor absoluto que conteria a boa disposição do povo norte-americano para as “guerras justas”. Ainda segundo Zengotita, Bush contava com a ignorância sobre história, característica marcante da maioria da população dos EUA. Não acho que tenha sido apenas isso. O presidente ao tentar mobilizar uma analogia, não contava com o fato de que o Vietnam é um vespeiro imaginário. Para o resto da sociedade norte-americana, uma péssima analogia.

Mas, de fato, o que é o Vietnam? Para os norte-americanos, claro, uma lembrança amarga – uma guerra que não resultou em nada. Para George W. deveria ser uma lição de história política.

Pensando bem, talvez George W. leia esse blog… Ahnnnn… Vamos lhe oferecer, então, uma lição de história do Vietnam…

Em seguida::