Algumas reflexões sobre o Exército Brasileiro::Direto a um tema polêmico::

O último post, ao que parece, deve ter provocado muitas reflexões em algumas pessoas, visto que o número de acessos ao blogue das boas causas aumentou de forma surpreendente. Posso então supor que  o tema deve ter tido alguma ressonância entre os leitores interessados nos assuntos abordados por aqui. Temas polêmicos sempre têm.

Exércitos estão entre as instituições das quais as nações mais se orgulham. Pergunte a um norte-americano o que ele acha dos “homens que os protegem” (boa parte da população civil dos EUA referem-se assim aos homens das fileiras); pergunte a um russo o que pensa do Exército Vermelho – “por eles , eles que nos salvaram”, disse certa vez o compositor Dmitri Shostakovich, quando lhe perguntaram porque compôs a Sinfonia Leningrado. Poderíamos continuar relacionando exemplos, e, quando chegar a vez do Brasil, não será diferente. Os brasileiros orgulham-se de seu Exército. Afinal, sempre que necessário, a instituição não fugiu à luta – exatamente como diz o Hino Nacional.

O que não implica que a instituição não tenha cometido erros, em sua longa trajetória. Os cometeu. Não foram poucos e, muitas vezes, não foram pequenos. Examiná-los é tarefa complicada, tanto para o militar quanto para o civil. Assim como os acertos também os erros só podem ser examinados tendo o contexto histórico como pano de fundo. O problema é que, para o exame de certos fatos, é preciso que o tempo crie certa distância entre o calor da hora e o presente. E certos fatos exigem distância muito maior – e difícil de percorrer.

Existe uma explicação razoavelmente simples para essa relatividade da distância e do espaço de tempo. Para começo de conversa, sejamos claros: estamos falando sobre o golpe militar de 1964. Quando se tenta refletir sobre fatos como os que se desenrolaram a partir de então, a reflexão envolve múltiplas dimensões, todas subordinadas a três, mais amplas: a política, a ideológica e a militar.

As duas primeiras são fáceis de entender, por mais que se observem discordâncias sobre a natureza delas com relação aos fatos examinados. Mas a terceira… Provavelmente muita gente discordará, com argumentos desdobrados a partir da idéia de que aqueles fatos não são de natureza militar, visto que não havia uma guerra. Historiadores, sociólogos, cientistas políticos, militares profissionais e outros membros da sociedade civil podem levantar diversos aspectos dessa questão. A este blogue, somente importa um desses muitos aspectos: houve ou não houve uma guerra?

Os militares são os primeiros a afirmar que sim – não uma guerra convencional, mas de outra natureza, a “guerra revolucionária”. O problema é que se trata de uma guerra travada entre fantasmagorias –aquelas plantadas pela ascensão das utopias do século 20 e outras, criadas pela reação às utopias. Em certos momentos, essas fantasmagorias criaram guerras muito reais, e levaram o mundo à beira do abismo. Em outros momentos, as guerras eram reais, mas menores. E em diversos momentos, foram guerras travadas de modo subterrâneo – muito reais, embora menos destrutivas. Nessas guerras não se usou armamento pesado, não houve bombardeios nem enfrentamentos entre exércitos. Ainda assim, algumas provocaram tantos mortos quanto uma guerra de verdade, e deixaram seqüelas tão profundas quanto as guerras de verdade.

Talvez até mais profundas, mas não impossíveis de serem aplainadas. Profundas porque muitas dessas guerras foram travadas dentro de países, entre grupos cujos projetos para a sociedade foram, em dado momento, irreconciliáveis. Nessas condições a ideologia assume o caráter de motor dos atos. O que está em disputa, tanto quanto nas guerras de verdade, é o futuro. E a guerra, mesmo subterrânea, se torna uma guerra total. A única vitória possível é a aniquilação do adversário – militar, política e mesmo física.

Os governos militares que se abriram em 1964 persistiram por duas décadas, até 1985. Durante pelo menos dez anos, os militares enxergavam-se numa dessas guerras, travada para “salvar o Brasil e seus valores” contra o ataque de uma “ideologia exótica”. A “pré-guerra” vinha desde os meados dos anos 1950, crise política após crise política. Em primeiro lugar, havia o fato de que, na visão dos militares, em particular, a Nação tinha de ser salva de si mesma. Em 1956, um pequeno grupo de oficiais da Força Aérea rebelou-se, num movimento quixotesto que beirava o ridículo, contra … o grupo que nunca teve o direito de [governar o país], como ficou cabalmente provado pela sua conduta à frente dos destinos da Nação, e que, aliás, foi a causa de sua queda. Era lógico, portanto, que não nos conformássemos com sua volta ao poder. A declaração, emitida por um tenente-coronel, tentava explicar um grave ato de insubordinação como motivado pela eleição de um grupo político impatriótico e oportunista, liderado pelo presidente eleito Juscelino Kubistchek de Oliveira. Os motivos alegados então eram os mesmos que continuam a ser alegados por parte dos militares e também dos civis – “o povo não sabe votar”, “não está preparado para a democracia”.

Kubistchek não era comunista, assim como não era seu sucessor, Jânio Quadros. O que não impediu que este último deflagrasse a “grande crise” – a amalucada renúncia de 1961. Já o vice de Jânio era outra história: os militares acreditavam que fosse pelo menos simpatizante. Em 29 de agosto de 1961, um “pronunciamento”, no melhor estilo latino americano, afirmava, em seu manifesto que…  João Goulart, quando Ministro do Trabalho, já demonstrava, claramente, sua tendência ideológica, ao encorajar e mesmo promover constante e sucessiva agitação na área sindical, com claros objetivos políticos que, na realidade, eram contra os interesses das classes trabalhadoras. Era também comprovada a grande infiltração de conhecidos agentes do Comunismo internacional, bem como de numerosos elementos esquerdistas, em vários setores do Ministério do Trabalho, inclusive em funções importantes na sua administração e nos sindicatos. Goulart era apenas um líder vacilante, cujo mandato foi marcado pela abertura um tanto desordenada às organizações da sociedade civil: estudantes, organização populares e de trabalhadores ganharam espaço, no contexto de uma situação internacional de confronto. Um presidente oportunista, outro louco e um terceiro fraco fizeram aquilo que os militares tanto temiam: transformaram o país em um dos campos de batalha da guerra global que se travava. Interesses estrangeiros queriam impor ao Brasil. Seus agentes constituíam um exército, disciplinado, bem treinado, disposto para a luta – e infiltrado. É preciso lembrar? O mundo vivia o auge da Guerra Fria. O golpe militar de 1964, que seu perpetradores inicialmente chamaram de “revolução” e que, em nossa época, tem sido chamado, pelos simpatizantes, de “contrarrevolução”.

Os fatos acima são de conhecimento de todo mundo que tenha um mínimo de informação sobre a história recente de nosso país. Mas é preciso citá-los como forma de voltar a questão que proponho que seja discutida: se é que teve algum, qual o valor militar da “guerra” travada a partir de 1964? Já levantamos dois pontos que podem ser trazidos a esta reflexão: se é que havia uma “guerra”, ela se travava no contexto de uma guerra maior, global (um) e (dois) o conceito atualmente adotado pelos simpatizantes do golpe de 1964, “contrarrevolução”, parece inserido em uma tentativa de dar legimidade militar ao ato de quebra da legalidade. Na medida em que sucessivos governos eleitos estavam tornando o país campo de batalha para as “forças inimigas”, a intervenção militar pode ser vista como forma de negar ao adversário o uso do terreno e da infra estrutura nele localizada – ou seja, uma ação militar transposta para o campo da política. Nesta visão, o golpe pode ser inserido numa sequência de manobras destinadas a tirar do adversário a vantagem estratégica.

A questão é que essa manobra tem lugar no contexto de uma “guerra irregular”, uma outra forma de guerra. Conforme a análise do general alemão ocidental von der Heydte, recuperada por um analista de extrema-direita contemporânea… A guerra irregular é não-convencional por natureza. É a guerra promovida fora dos quadros das “convenções“, na qual “leis e normas” criadas para a guerra ‘convencional’ não são aplicáveis ou só são aplicáveis a um nível periférico.

Ou seja, os atos dos agentes envolvidos na “guerra” se justificam visto que as “convenções”, os chamados “usos e costumes da guerra entre nações” não são aplicáveis numa “guerra irregular”. Não é uma guerra entre grandes unidades formais, mas entre pequenas frações, com alto grau de iniciativa. Ainda segundo o mesmo Von der Heydte… A guerra irregular é normalmente concebida como o conflito armado, no qual as partes não constituem grandes unidades, mas pequenos e muito pequenos grupos de ação, e cujo desfecho não é decidido em poucas e grandes batalhas; ao contrário, a decisão é buscada e afinal concretizada através de um número muito grande de pequenas operações individuais, roubos, atos, de terrorismo e sabotagem, bombardeios e incursões.

Ao que parece, o texto de von der Heydte serve como uma luva para justificar a atuação de agentes que estariam, no lado das forças do Estado, em posições intermediárias da cadeia de comando. O “inimigo” atua em pequenas frações, com alto grau de iniciativa, buscando a vantagem através de ações tipo “golpe de mão” (roubo, sabotagem, etc.), e são capazes de se ocultar no meio da população civil. Ou seja, pratica uma espécie de guerra de guerrilhas seja no ambiente urbano, seja no rural. Essa nova forma de guerra torna os procedimentos militares convencionais inúteis ou, para além, passíveis de releitura. É preciso que o “lado de cá” seja liberado do formalismo das guerras convencionais e do corolário de regras daí decorrente. Neste ponto justificam-se todos os atos de exceção, desde a suspensão das liberdades democráticas até a existência de agentes cuja liberdade de ação por vezes fazia supor que não estivessem submetidos a nenhuma cadeia de comando.

A existência desses agentes é também explicável pelo fato de que, se a guerra é não convencional, os métodos também tem de ser, de modo a aumentar a velocidade da reação. Segundo um analista, em artigo recenteNessas circunstancias, torturar para obter informações voltou a ser uma opcâo tentadora. E as grandes democracias ocidentais, as mesmas que promoveram o Julgamento de Nuremberg, caíram nos anos seguintes a Segunda Guerra Mundial, uma a uma, na mesma tentação de empregar métodos pelos quais condenaram os vencidos da véspera:os franceses na Indochina e na Argélia, os ingleses na Irlanda do Norte, os norte-americanos no Vietnã,e assim por diante.

O problema é que a “guerra” um dia acaba. Não sendo uma guerra convencional, parece que as normas aplicáveis às guerras convencionais em torno de vencedores e vencidos também não se aplicam. Afinal, foi uma guerra travada sob a superfície, com o Estado e seus agentes negando qualquer situação de exceção. Mas sempre acaba chegando o momento em que as regras mandadas para o espaço cobram seu preço.

A “paz” é conquistada pela submissão do inimigo. Só que, no caso, este não pode ser claramente declarado inimigo e os atos do Estado e de seus agentes passam a ser vistos como moralmente condenáveis ou, no limite, criminosos. Quando a “paz” volta, não há como purificar atos abomináveis apresentando-os como da ordem da situação de exceção que é uma guerra convencional.

Por exemplo: durante muitos anos, a vasta literatura que, no Ocidente, esmiuçou todos os detalhes da 2ª GM apresentava atrocidades contra civis e militares como existentes apenas do lado dos nazistas. Mais recentemente, a literatura especializada começou a apresentar situações em que atrocidades de toda ordem recaiam sobre militares ingleses e norte americanos. Tal literatura possibilita ao leitor um julgamento pessoal, apresentando-as como atos decorrentes da situação de guerra, ainda que moralmente condenáveis. Assim, massacres de prisioneiros, morte de civis colhidos entre dois fogos, o arrasamento desnecessário de cidades e mesmo da zona rural, no ETO (sigla em inglês de “Teatro Europeu de Operações”), inicialmente omitidos ou negados, foram sendo levantados ao longo da revisão das análises das operações, principalmente a partir da emergência de uma nova história militar, na Europa e nos EUA. Com o Vietnã foi mais ou menos a mesma coisa, uma revisão apressada pelo fato de que aquela campanha, que chegou a envolver seiscentos mil militares norte-americanos (calcula-se que dois e meio milhões de efetivos tenham estado envolvidos diretamente na guerra, entre 1961 e 1973), era vista como guerra injusta por boa parte da sociedade norte-americana. A revisão em ambos os casos, permitiu separar as ações militares das ações questionáveis e, curiosamente, até mesmo encontrar o valor das ações da Wehrmacht. É curioso como as publicações, hoje em dia, omitem o fato de que as Forças Armadas alemãs foram levadas ao banco dos réus, em Nuremberg…

Porque os militares brasileiros, então, não juntam forças com especialistas treinados para tentar uma revisão da “guerra não convencional” brasileira? Se houve uma guerra, então, que se admita claramente que foi uma guerra, na qual brasileiros “colocaram a própria vida em risco no combate ao terrorismo e à subversão”, como disse, certa vez, o general de exército Leônidas Pires Gonçalves, ministro do Exército no governo Sarney. Segundo os militares, por volta de cem brasileiros morreram em ações promovidas pelo “outro lado”, inclusive um “soldado inocente” (???).

Nunca houve tal proposta, nem por parte das áreas de história das FFAA, nem por parte de especialistas universitários vacilantemente simpáticos ao regime militar (com exceção de Olavo de Carvalho, não lembro de nenhum intelectual que se declare abertamente simpático à Redentora, mesmo durante as palestras feitas no Clube Militar…). Certamente um especialista poderia facilmente dar um nó de marinheiro – ou até algum mais complicado – em pingo d´água, com base nos escritos teóricos que, desde os anos 1950, procuram conceituar a tal “guerra não convencional”.

Seria, sem dúvida, uma experiência interessante. Mas o que se vê, de fato, são os chefes militares tentando negar os fatos. Durante os anos 1990, entrevistas com oficiais-generais das FFAA, promovidas por um projeto de documentação do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas, abriu o que teria sido uma “oportunidade de ouro” em fazer aquilo que um dos antigos chefes do CIE (Centro de Informações do Exército, junto com a EsNI – Escola Nacional de Informações – o mais ativo sanctu-sanctorum da “guerra não convencional”, dentro da Força Terrestre), general de divisão Agnaldo Del Nero Augusto, viria a propor, em 2001. Disse o general, em entrevista publicada na imprensa: Em toda ação de guerra, e eu acho que a Revolução errou muito por não ter expressado à população que vivíamos um estado de guerra, acontecem injustiças. Basta olhar, hoje, o Afeganistão. É possível se ter atingido inocentes, agora, existiam stalinistas, marxistas-leninistas, maoístas, fidelistas… Entretanto, aqueles que foram comandantes na “guerra” falaram sobre a luta, sobre os dissabores, sobre o “sacrifício”, mas sobre as ações subterrâneas, nada. Um dos entrevistados, general de brigada Adyr Fiuza de Castro, primeiro comandante do CIE, em 1967, chegou a chutar o balde, segundo um dos artigos que consultei: Guerra e guerra. […] Agora, não sou um homem mau, não me considero um homem mau. Mas não sou contra a tortura. Acho que ela e válida em certas circunstâncias – para adquirir informações. […] E todo mundo acha. Desde os esquimós até a China, todo mundo usa, quando necessário.

É mais ou menos o que achava o general de exército Jacques Massu, quando admitiu que a prática seria bastante comum, embora “não difundida nem institucionalizada”, durante a guerra colonial francesa na Argélia, da qual foi o comandante. De fato, a única justificativa que os militares parecem admitir para a tortura é a “obtenção de informações”. Entretanto, admitir a tortura seria o primeiro passo para admitir que o objetivo buscado pela corporação foi mesmo a eliminação, pura e simples, do adversário – fato que, apesar das “injustiças” do general Del Nero, dificilmente é admitido como objetivo aceitável para uma guerra.

Outro ponto que provavelmente teria de ser discutido é o que mostra que virtualmente todas as operações, mesmo as que poderiam ser vagamente admitidas como “campanhas militares” (por exemplo, a “guerrilha do Araguaia”), começaram, foram levadas e se concluíram com tortura e eliminação de adversários. Existe valor militar possível em operações assim? Podem ser erguidos monumentos aos vencedores de tais operações? Dificilmente. A honra militar admite enganos no calor do combate, como a execução sumária de civis franceses inocentes, confundidos com colaboradores por norte americanos e canadenses. Mas dificilmente pode admitir o assassinato premeditado de combatentes “do outro lado”, se este qual lado for. Ainda que a eliminação seja o destino do vencido, esta não pode ser posta claramente.

Ficou claro então que dificilmente poderá um especialista extrair valor militar da “guerra não convencional” brasileira sem uma operação revisionista de consequências imprevisíveis. Numa coisa estão certos os antigos chefes – as FFAA perderam a “guerra da memória”, embora esses chefes se vejam como “vencedores” da guerra de fato. Ações como a do famigerado “Orvil” (“livro”, escrito ao contrário, projeto engendrado pelo general Leônidas Pires Gonçalves), que pretenderam “desmistificar” as ações dos “subversivos” não deram em nada por tentar a tática, de difícil execução, de “culpar a vítima” (ou, diria eu, no caso, o “vencido”, que acaba responsável pela própria morte), sem admitir quais seriam, afinal as responsabilidades dos militares – ou melhor, de antemão negando todas.

Existem mais alguns tópicos a comentar, mas acho que este post está… muito longo. Não quero ser acusado de torturador…::

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Algumas reflexões sobre o Exército Brasileiro::Colinas, cavernas, esqueletos::

Um mês atrás (ou talvez mais…) começamos a discutir algumas questões sobre o Exército Brasileiro, uma dentre as mais antigas instituições de estado de nosso país. O EB, para bem ou para mal – em geral as duas coisas – esteve envolvido em praticamente todos os grandes eventos históricos que marcam nossa trajetória como Nação. História é história, e nem tudo que está nela é brilhante. Mas, por vezes, tendo a concluir que nosso EB (ou “GEB”, como diz, de modo estudadamente irônico, meu amigo Adler Homero Castro – ganha um FAL com munição fora da data de validade quem adivinhar o que significa isto…) pensa diferente.. Por exemplo, essa questão da “Comissão Nacional da Verdade”.

Em teoria, a “Comissão” é um desdobramento da Lei do Acesso à Informação (que regulamenta o acesso a documentos públicos). Trata-se, em última análise, de uma lei bem chinfrim, pois buscará (se é que vai mesmo ser implantada…), levantar fatos obscuros ocorridos durante o regime militar e esclarece-los. Não irá apurar nem punir nada. O que, então, faz com que Exército (e as outras FFAA, deve-se pontuar) se feche em copas toda vez que o assunto é trazido à baila? Por que é tão complicado debater os fatos acontecidos durante a “guerra suja” brasileira? Por que alguns oficiais-generais da reserva se dispõem ao papel um tanto ridículo de tentar dar nó em pingo d´água e justificar certos atos militarmente injustificáveis?

O general de exército Rocha Paiva é um desses voluntários. Depois de sua entrevista à jornalista Miriam Leitão, virou um “popstar” dos blogues de extrema direita. Com um discurso intelectualmente pouco sofisticado, o general, na reserva há poucos anos, utiliza alguns truques retóricos rasteiros para tentar, dentre outras coisas, culpar as vítimas. Ele se diz “contra a Comissão Nacional da Verdade”, com o argumento de que será “parcial e maniqueísta”.

A manifestação do general Rocha Paiva poderia ser tratada com base no regulamento, visto que aos militares, sejam da ativa ou da reserva, não cabe assuntar sobre tema da estrita alçada do Legislativo e do Executivo. Por outro lado, as manifestações dos chamados “milicos de pijama” ou “síndicos da reserva” – o general ocupa, atualmente, um desses postos honoríficos – são interessantes por expressarem o pensamento de certos setores da sociedade, dos quais os militares fazem parte – alguns dos tais “setores médios urbanos da população brasileira”.

Não é difícil encontrar tais manifestações na Internet. Ao procurar informações sobre a tal “Comissão”, encontrei muitas delas, boa parte emitidas por anciãos respeitáveis (outros, nem tanto, é verdade…). Uma das  que me pareceu mais interessantes é a do general-de-divisão Francisco Batista Torres de Melo, de 87 anos, residente em Fortaleza, Ceará. Em uma “Carta ao Presidente das organizações Globo“, o general manifesta seu estupor em uma longa diatribe, aparentemente redigida no final de outubro do ano passado. O problema, lógico, é a “Comissão da Verdade”.

A carta do general, provavelmente fora da ativa já deve fazer mais de vinte anos, não é uma peça lá muito bem escrita. Tampouco é conceitualmente rigorosa ou historicamente precisa. Afinal, o general não é um literato, nem historiador, e muito menos filósofo político. É um homem de armas, naquilo que, em nosso país, a expressão significa. Exatamente por isso vale à pena examinar o texto: se o soubermos ler, encontraremos lá a expressão do pensamento de um militar profissional que viveu toda a sua carreira em meio às efervescências do século passado. Nasceu em um Brasil e morrerá em outro, que não consegue entender direito.

A primeira questão é o valor da democracia, para essas pessoas. Para alguns desses anciãos é difícil, se não impossivel, olhar o mundo atual com olhos que não sejam aqueles que, na juventude, viam na ordem-unida a solução para o país. Afinal, Luís Carlos Prestes, se vivo fosse, provavelmente também continuaria pensando que numa ditadura stalinista se encontraria a melhor solução para o mundo e, principalmente, para uma sociedade “tumultuária” como a nossa (a expressão é de Gustavo Barroso, político cearense, pensador integralista e historiador militar, morto em 1959). Certa vez um poeta escreveu que “na juventude, nossos ideais são colinas do alto das quais olhamos o mundo; na velhice, são cavernas no fundo das quais nos escondemos do mundo”. É totalmente compreensível que, depois de uma vida passada no mundo até certo ponto tranquilo dos quartéis, o general ache que o regime democrático não passe de desordem. Para além: tendo passado a vida numa instituição que só admite idéias unívocas, e que divide o mundo, de modo absolutamente cartesiano, entre vitoriosos e derrotados (e, no dicionário da tropa, “derrotar” é sinônimo de “subjugar”), um mundo no qual os derrotados estejam no poder só pode estar virado de ponta-cabeça. Diz o bom general, em sua “Carta”:

No dia 28, no Bom Dia Brasil, veio o atual senador Aloysio Nunes Ferreira pregar mentira, quando, deveria encontrar-se preso, por ser assaltante do trem pagador. Se ele fosse um pé-de-chinelo da vida estaria preso, mas, como é comunista e ladrão, e o nosso povo, em sua maioria, ainda não sabe eleger seus legisladores, acaba chegando a senador da república. Pobre Senado. Onde ele gastou o dinheiro roubado? Deve ter sido nos cabarés de PARIS para onde fugiu. Agora, vem dar uma de democrata, quando era motorista do senhor Carlos Marighella, autor da CARTILHA DO GUERRILHEIRO URBANO. Não leu? Só um pouco: “Este é o núcleo doutrinado e disciplinado com uma estratégia de longo alcance e uma visão tática consistente com a aplicação da teoria Marxista, dos desenvolvimentos do Leninismo e Castro—Guevaristas, aplicados às condições específicas da situação revolucionária. Este é o núcleo que dirigirá a rebelião à fase da guerra de guerrilha.” Este é um dos democratas da guerrilha que lutou contra a sociedade brasileira.

Nesse curto trecho é fácil notar que o general não consegue descolar a figura do senador do PSDB, paladino neoliberal, daquela do militante da ALN, guerrilheiro urbano com origem no movimento estudantil e na classe média paulista. O general continua vivendo uma guerra, a guerra contra os “subversivos”, na qual o povo brasileiro, ignorante, por não saber votar elege os derrotados que, agora disfarçados de democratas, chegaram ao poder. Povo de “boa índole” mas, mal-preparado, não sabe que aos derrotados resta danação perpétua, como foi feito com nazistas alemães e comunistas soviéticos, ambos derrotados em guerras e “guerras”, “contra a sociedade brasileira”.

A guerra desses homens é outra questão interessante. Por vezes parece espantoso como alguns militares da geração de 1964 afirmam ter estado em uma guerra, travada contra o “Movimento Comunista Internacional”. O general foi um dos combatentes. Ao longo de uma longa vida, foi disciplinado soldado em uma longa guerra – a Guerra Fria. A guerra dos blocos, na qual o Brasil posicionou-se do lado da “liberdade”. Embora eu não tenha levantado sua biografia, imagino que ele tenha saído aspirante a oficial em meados dos anos 1940, por volta do final da 2ª GM; viveu a redemocratização de 1946, a sucessão de eleições, de crises e de quarteladas, a transformação do país em uma sociedade urbana, múltipla em agentes e posições políticas – fato tido por muitos militares e por setores da sociedade civil como raiz da “desordem”. Destes setores esses anciãos fazem parte, e com um carma a mais que seus confrades civis da classe média: “injustiçados”. Afinal, são frequentemente acusados de responsáveis por parte da desordem que por aí campeia. Neste sentido, o general é muito claro. Em uma entrevista replicada em um bom blogue de assuntos militares, diz ele:

… os militares estavam sempre … ao lado dos governos. É muita injustiça, portanto, dizer que nós éramos contra o governo. O militar, normalmente, é sempre governo. … em 30 não foram os militares que fizeram a revolta que levou à queda de Washington Luis. Houve, de fato, militares que fizeram parte daquele movimento, mas, na verdade, quem fez a revolta foi Minas Gerais, foi o Rio Grande do Sul, foi a Paraíba, foram os políticos que revoltaram-se contra Washington Luis. Não foram os militares os responsáveis pela revolta de 32, em São Paulo, foram os políticos paulistas em reação ao … Getúlio Vargas, que era um ditador. Os militares não fizeram a revolta de 35, consequência da ação de pessoas de fora … o senhor sabe que a coisa nasce lá pela União Soviética … Em 45, quando o Getúlio caiu … não foram os militares que o derrubaram, foram os mineiros, lembremos do grande Manifesto Mineiro, que balançou o sistema político. Se o senhor for em 54, não foram os militares que mataram Getúlio, foram os elementos que o cercavam, o exploravam …. Eram elementos podres cercando-o e que levaram àquela explosão. No caso do Jânio, ele, na sua loucura, … largou o governo e foi embora, não fomos nós. Da mesma maneira que não fomos nós, militares, que botamos o João Goulart pra fora do governo. Ninguém fala, ninguém diz, todo mundo permanece calado, mas Magalhães Pinto, Carlos Lacerda, Meneghetti , no Rio Grande do Sul, Ney Braga, no Paraná…

Está aí um outra questão: a relação dos militares com a política. A culpa, então, é sempre dos políticos. Este era, por sinal, o discurso dos militares que, no final do século 19, resolveram meter-se na política que mantinha o país no atraso – e o atraso era representado pela monarquia; também era o discurso dos tenentes dos anos 1920, os que promoveram levantes dos mais diversos matizes políticos, mas tendo sempre no egoísmo e corrupção dos “casacas” a explicação de todos os males.

Temos, então, dois cenários que se cruzam: por um lado, a “guerra contra a sociedade brasileira”, que obrigou os militares a tantos sacrifícios;  por outro, a sociedade “tumultuária”, composta por um povo bom mas ignorante e por “casacas” mal-intencionados. A guerra não foi provocada pelos militares brasileiros – afinal, qualquer criança sabe da “índole pacífica” de nosso povo. A “guerra” foi iniciada pela União Soviética, “contra a sociedade brasileira”. Os atos que agora esses políticos querem atribuir aos militares foram necessários (um) e justificados (dois), e estiveram integrados ao único momento em que as classes armadas se manifestaram – cumprindo seu dever. Afinal, havia uma guerra contra a sociedade brasileira, guerra disfarçada de política. Assim, os desaparecidos nada mais foram que soldados do outro lado, “mortos em combate”. Não foram atos ignóbeis , pois mortos houveram dos dois lados. C´est la guerre... Por que, então, esclarecer apenas os de um lado? Coisa da esquerda, que, segundo o general, perdeu a guerra e …  precisa, até hoje, justificar a situação e investe na tese de que os militares não prestam, os militares são os causadores de tudo. No entanto, o senhor não vê, nessa confusão toda que está ai, nesses roubos todos, nenhum militar envolvido.

A “Comissão da Verdade” não irá resolver essas questões, pois elas são da ordem da ideologia. As posições dos militares podem ser explicadas, em parte, pelo espírito de corpo, ou seja, pelo apelo à uma tradição que alimenta a identidade e reforça a coesão de uma corporação, seja civil ou militar. Quando o general invoca o espírito progressista do militar brasileiro, que participou de todo o processo de evolução desse País, apela à uma tradição que remonta aos militares positivistas do últimos quartel do século 19. Partidários do progresso, os militares se vêem como essencialmente patriotas e amantes da paz. Como na “Canção do Exército”: “A paz, amamos com fervor, a guerra só nos causa dor. Porém se a Pátria amada for um dia ultrajada lutaremos sem temor”. Quase como se ecoasse a canção, diz o general… eles é que começaram a matar. Quem jogou a bomba no aeroporto de Guararapes? Fomos nós? Não! Lá, mataram um almirante reformado, mataram um jornalista e um pobre de um jogador de futebol, um grande jogador de futebol, perdeu uma perna. Se eles estavam na disposição de tomar o poder pela força, por isso criaram a Guerrilha do Araguaia, na certeza de que teriam um território livre para atuar. Como eles estavam na teoria da força, a reação só poderia se dar na base, também, da força.

Todo discurso ideológico tem fraturas e neste, o problema é que os fatos “militares” ocorridos durante o regime militar não se justificam militarmente – e os militares sabem disso. Em seu imaginário está outro tipo de guerra, como a do Paraguai ou da campanha da Itália. Nessas ecoam as canções, a “glória refulgente”. Mas o treinamento que os milicos receberam a partir dos anos 1950 foi para outro tipo de guerra. Nesta, o inimigo é insidioso, e não aceita a derrota. Os atos que deveriam ser comemorados viram esqueletos a serem escondidos.

Neste ponto é que, possivelmente, iniciativas como a “Comissão da Verdade” talvez abram a possibilidade de soldar a fratura. Os norte-americanos, na formação de seus militares, estudam a Guerra do Vietnã. Foi uma guerra tão suja quanto nossa miniatura, a “Guerrilha do Araguaia”. Gerou fatos abomináveis como o massacre de My Lay, e pobres figuras como o tenente William Calley e seu comandante, o tenente-coronel Frank Barker, que ordenou o massacre. Mas também foi a guerra em que uma doutrina, então ainda nascente, amadureceu – a das tropas aeromóveis. Foi lá que o helicóptero turbo-eixo começou a adquirir o papel que tem hoje em dia; foi lá que se inventou o helicóptero “canhoneiro”; foi lá que o apoio aéreo aproximado foi reinventado. Execrada nos anos 1960 e 1970, a guerra do Vietnã foi transformada num evento militar porque os fatos abomináveis foram separados dos fatos militares. Claro que ainda gera muita controvérsia, e claro que o Exército dos EUA não frisa os fatos abomináveis, e nem mesmo admite claramente que foram abomináveis. Quando da apuração do massacre de My Lai, o único condenado foi o segundo tenente Calley, quando até mesmo o general comandante da divisão (a 23ª Infantaria, a “Americal“, uma das mais tradicionais grandes unidades do Exército dos EUA) no episódio, meteu os pés pelas mãos.

Algum dia se poderá dizer, por aqui, que a “Guerrilha do Araguaia” foi uma campanha militar? Algum dia, não sei, mas tenho certeza que hoje não se pode, porque se é que a “Campanha do Araguaia” foi uma campanha militar, se é que deixou algum ensinamento militar, foi também uma campanha suja. Quaisquer que sejam seus aspectos militares, não poderão ser invocados, estudados ou lembrados (deixemos claro, aqui: nunca com a ressonância da campanha da Itália…) caso a sujeirada não militar, ainda que cometida por militares, não venha a ser esclarecida.

Muito bem – acham nosso militares que foi uma guerra? Então talvez o Exército Brasileiro devesse admitir que nas guerras também se cometem os piores erros, e que os militares, por serem militares, não estiveram imunes a comete-los. É uma desculpa um tanto capenga, mas é melhor do que tentar negar os fatos. Esclarecidos esses, talvez se possa dizer que os militares brasileiros não veneram figuras como a do tenente-coronel Rodrigues de Moura… E a “guerrilha do Araguaia” poderia virar uma campanha. Não tão comemorada quanto a da Itália, mas pelo menos lembrada, se pouco, nas salas de aula dos cursos de formação.

Pensando bem, talvez fosse o caso de invocar Golbery do Couto e Silva. General da reserva, figura ambigua da política brasileira, Golbery era favorável à apuração dos atos da “guerra suja”, particularmente os da era Médici. Dizia ele que caso se tirasse os equeletos do armário, eles ficariam em cima do tabete durante algum tempo, mas acabariam sendo enterrados de vez, mais cedo ou mais tarde. Entretanto, se forem mantidos no armário persistirão fedendo. E, digo eu, assombrando. A todos nós. Tirar os esqueletos do armário, através de iniciativas como a “Comissão da Verdade” permitirá devolve-los, finalmente, às suas famílias. Traze-los de volta para serem enterrados em casa. E também talvez possibilitasse aos últimos remanescentes de uma geração que se considera injustiçada sair de suas cavernas para morrer em paz no alto de suas colinas.

Voltaremos ao assunto, qualquer hora dessas::

Já ouviram a “Canção do Exército”? Pois aí está uma chance.

FO, FAL, IA, TAVOR e outras histórias sobre armas de infantaria no Brasil::

Corre na Internet a notícia de que o Exército Brasileiro decidiu, depois de anos discutindo o assunto, substituir o Fz M964 (para os milhares de militares que não têm como não ter uma relação de amor e ódio com essa peça clássica de equipamento, simplesmente o FAL). Segundo consta, o escolhido foi o fuzil IMBEL IA2. Ao longo de 2010 surgiram rumores (não consegui confirmar nenhum deles) que o EB havia adquirido, de uma vez, 180.000 unidades dessa nova arma (não, você não leu, nem eu escrevi, errado: cento e oitenta mil). Ao longo dos próximos anos, se destinaria substituir também os HK G33 e SIG SAUER da Infantaria da Aeronáutica e os M16A2 do CFN. Em duas versões, 7,62X51 mm e 5,56X45 mm (o que significa que são duas armas diferentes…), o novo tipo foi, de fato, apresentado na LAAD 2011, realizada no Rio de Janeiro em abril último e já teria passado pelos testes de campo do EB, realizados no polígono de provas da Marambaia, zona Oeste do Rio de Janeiro. De fato, não é uma arma propriamente diferente em relação ao FAL ou aos fuzis de assalto convencionais que adotam o calibre 5,56. A versão calibre 7,62 continua usando a munição NATO, o que significa que a mecânica da arma não deve ter sido alterada. Significativo, entretanto, é o encurtamento do cano, notável nas fotografias divulgadas, e a adoção de partes manufaturadas em polímero de alto impacto, o que deve significar uma diminuição considerável no peso do conjunto.

Algum tempo antes, foi divulgada a notícia de que as Forjas Taurus, empresa privada do Rio Grande do Sul, teria fechado acordo com a empresa IWI (Israel Military Industries – surgida depois da privatização da estatal IDF – Israel Defense Industries) para produzir, sob licença, o modelo israelense TAVOR TAR 21, fuzil do tipo bullpup. (Para quem estranhar, trata-se de uma configuração em que o receptor e o ferrolho estão localizados atrás do gatilho/punho de pistola, resultando daí um conjunto apenas um pouco mais longo e pesado do que uma submetralhadora.) A negociação, ao que parece, foi iniciativa de risco da Taurus, e nada indica que vá resultar em aquisições significativas pelo EB (se é que resultará em alguma…), pois essa empresa gaúcha, embora seja uma das grandes exportadoras mundiais de armas curtas para o mercado civil e policial, tem pouca tradição em armas militares. Entretanto, tais iniciativas são indicativas da existência real do debate, no interior do Exército. 

Mas o fato é que a tropa continua portando o FAL. Esta arma, por bem e por mal, já entrou para a história do Brasil, e, por este motivo, em 2009 causa:: publicou uma série de postos denominada “A linhagem FAL“. Essa série completou-se com um texto que levou o título de “O FAL no Brasil”, texto que, como todos os que faço, teve partes boas e partes ruins. Sempre tive a intenção de publicar uma revisão, principalmente para incorporar as correções feitas pelo leitor (não sei se assíduo, mas certamente entendido) Carlos Quáglio, o “General de Pijama”, cujo blogue, embora inativo, ainda é uma ótima leitura para interessados. Essa revisão, ampliada, mantém as preciosas observações do historiador militar Adler Homero Castro e do coronel (QEMA-R1) José Paulo Lopes Lima. Devo a estes dois cientistas as informações sobre o “causo” do fuzil semi-automático M954 e sobre a ordem de batalha do Exército Brasileiro no fim dos anos 1950. Faltam, em nosso país, fontes públicas confiáveis sobre a história e dinâmica de nossas Forças Armadas, assunto que não parece interessar ninguém. A documentação do próprio Exército não é facilmente acessível, e as pesquisas acadêmicas sobre o tema embora não sejam mais tão ralas quanto há trinta anos, ainda não são, propriamente, pesquisas de história militar, mas de história social da guerra e de história política das forças armadas. Na Internet, embora se encontrem alguns bons recursos de pesquisa, estes dificilmente passam dos temas da atualidade. O tema ainda é, enfim, campo virgem. Mas vamos ao texto, então::

Em 1960, o Exército Brasileiro era uma força relativamente grande. Sua ordem de batalha podia colocar em campo uns 140.000 efetivos, dos quais talvez uns 40.000 pudessem ser considerados – por padrões algo lenientes… – tropas de primeira linha. No final dos anos 1950,  a força terrestre brasileira podia alinhar algo como um corpo blindado – uma divisão blindada e duas de infantaria motorizada, uma divisão convencional de cavalaria (com cavalos, acreditem ou não…) e cinco divisões de infantaria. Em torno destas, as tropas especializadas convencionais: unidades logísticas, de comunicação, de armamentos, de engenharia, corpos de saúde, seções de formação e administrativas.

Desde a 2ª GM, a intensa relação com o exército dos EUA tinha moldado o Exército Brasileiro, pelo menos do ponto de vista estritamente técnico, à imagem do norte-americano. As doutrinas francesas foram definitivamente abandonadas e  a instrução era feita, em grande parte, por militares dos EUA, que ensinavam a seus colegas brasileiros as doutrinas e práticas desenvolvidas durante a guerra e, logo depois, na Guerra da Coréia. Entretanto, certas práticas norte-americanas eram de difícil assimilação em um país pobre e pouco industrializado.  

O armamento com que o Exército Brasileiro contava em seu inventário passou, em conseqüência da 2ª GM, por um notável salto tecnológico, visto que, nas unidades “de elite” (de fato, as unidades aquarteladas na capital da República, no Rio Grande do Sul e em algumas das principais cidades) tiveram, a partir da entrada na guerra, e, principalmente, do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (O “Tratado do Rio de Janeiro”, assinado em 1947), seu armamento parcialmente padronizado com o armamento norte-americano. Parte considerável  do armamento individual ainda continuou a ser, depois de 1945,  o fuzil de carregamento manual Mauser DWM calibre 7X57 mm, o “Mauser brasileiro“. O armamento de infantaria – além do Mauser, por exemplo, a metralhadora Madsen – era todo adaptado para o calibre 7 mm. Continuaria a ser, durante um bom tempo.

A aquisição do DWM 7 mm se deu em 1908, em números que, segundo alguns especialistas, alcançavam dezenas de milhares de unidades. Ao longo da primeira metade do século 20, em função dos conflitos que frequentemente fechavam as fontes de armas, o FO (“Fuzil Ordinário”, no jargão militar) 1908 continuou a ser a principal arma de infantaria do Exército, e providenciou-se para que uma versão indígena, desenvolvida pelo própria força, começasse a ser fabricada na recém-inaugurada fábrica de Itajubá, Minas Gerais. Essa versão, denominada “Modelo 1908/34” foi uma tentativa de modernizar o tal “mauser brasileiro”: a arma foi encurtada para se equiparar a uma “carabina”, ou seja, equipamento geralmente disponível para as tropas de cavalaria. No jargão do Exército Brasileiro, esse item é denominado “mosquetão”, e tem o comprimento de cerca de 100 centímetros, enquanto o fuzil teria cerca de 120 centímetros.

Tais tentativas não encobriam o problema de que o calibre 7X57 mm se tornou obsoleto para uso militar antes da 2ª GM. Assim, em diversos momentos, essas armas passaram por adaptações em arsenais nacionais para utilizar cartuchos mais modernos. O envio de uma tropa para combater no Teatro Europeu do Mediterrâneo, por outro lado, catapultou o EB para a modernidade. Na Itália, organizada a FEB como uma divisão de infantaria norte-americana, o armamento que seus efetivos receberam era padronizado. A arma distribuída aos pracinhas foi o US Rifle M903, calibre .30-06 (7,62X63 mm) “Springfield”. Isso teve conseqüências duradouras: depois da guerra, boa parte do armamento de infantaria disponível para o EB usava calibres norte-americanos. O BAR (Browning Automatic Rifle, uma espécie de metralhadora ligeira usada como apoio da esquadra de infantaria), alguns rifles Springfield e *Garand e a metralhadora ligeira Browning M919, o .30-06; a pistola Colt M911, as submetralhadoras M3 e INA o .45 ACP. Essas munições passaram a ser fabricadas no país no início dos anos 1950.

Em função dessa disponibilidade de armamento norte-americano, no final dos anos 1940 houve uma tentativa de tornar o calibre .30-06 padrão das forças militares brasileiras. O resultado foi um mosquetão, baseado no “mauser brasileiro”, distribuído em pequenas quantidades a partir de 1949. Em 1951, nova tentativa geraria uma arma não muito diferente – ambas as experiências foram feitas no Arsenal de Itajubá. Mas ainda não era o que o Exército pretendia. Nessa época, já era evidente a tendência mundial para a adoção de armas automáticas e semi-automáticas. O acaso então entrou no jogo – só não se pode dizer se contra ou a favor do Brasil.

Por sinal, o acaso começou a conspirar no segundo semestre de 1945, quando a FEB foi repatriada. Embora a tropa brasileira tenha deixado para trás todo seu equipamento, pôde conservar certa quantidade de canhões alemães e italianos de diversos tipos, várias peças de equipamento de campanha de nossos adversários, os arquivos da FEB e alguns documentos alemães e italianos. O item mais numeroso trazido para o Brasil eram armas portáteis capturadas aos alemães e seus aliados. Não se sabe exatamente quantas vieram, mas calcula-se um número de alguns milhares. Muitos desses itens eram exemplares do que os alemães tinham de mais moderno, inclusive os fuzis automáticos MKb42 e StuG44 (que seriam a origem dos fuzis de assalto) e metralhadoras de uso geral MG42 (a “Lurdinha”). Também haviam alguns exemplares das duas versões do Gewehr 43 (versões Mauser e Walther), uma tentativa frustrada dos alemães em criar um fuzil semelhante ao Garand norte-americano.

As armas alemãs foram examinadas pelas áreas técnicas do Exército e, em 1952, o arsenal de Itajubá recebeu ordens de fazer uma cópia do G43(M), o exemplar que, durante a guerra, tinha sido apresentado pelo escritório de projetos Mauser, de Berlim. O produto resultante, considerado por todos que o examinaram como extremamente tosco, foi denominado “Mosquetão M954”. Era um G43(M) adaptado para usar o cartucho Springfield.

Não se sabe exatamente porque as autoridades locais resolveram que copiar o G43(M) era uma boa idéia. Acredita-se que dois fatores tenham se combinado para gerar o equívoco: a existência, em Itajubá, de máquinas-ferramentas de origem alemã, adquiridas em 1934, um, e dois, o fato de que a patente do G43(M) tivesse perdido a validade, por ser arma militar – as de armas civis e de polícia continuaram valendo. Outro fato relevante é que, embora faltasse Garand, em função da Guerra da Coréia, outras armas “calibre pontotrinta” foram generosamente distribuídas: o BAR, a metralhadora M1919 e boa quantidade de fuzis M903. Assim, era natural que a tentativa de uma arma indígena visasse o cartucho .30-06 (cuja patente fora cedida ao Exército, pelos norte-americanos, a preço de banana), e que essa arma tentasse adaptar um Mauser, com o qual os militares brasileiros tinham intimidade de mais de 40 anos.

O terceiro e mais relevante ponto do equívoco: nessa época, as principais autoridades, aqui, acompanhavam o debate sobre o novo calibre de armas de infantaria, que se travava na Europa e nos EUA. A doutrina norte-americana, amplamente repassada aqui, privilegiava a concentração de fogo em detrimento do tiro individual, de modo que, era esperado, os EUA acabariam mantendo a tradição de um cartucho mais potente. O que os militares brasileiros pareciam não saber é que o M1, mesmo considerado excelente, por volta do início dos anos 1950, já era considerável passível de substituição – falaremos mais do assunto mais abaixo. A substituição foi atrasada pela Guerra da Coréia e pelo debate, na Europa, sobre a adoção do cartucho 7.62X51 NATO, já que os europeus insistiam que toda a munição usada em armas de infantaria fosse padronizada. 

O Corpo de Fuzileiros Navais parece ter estado mais seguro em suas decisões. Em 1954, foi comprado um lote de aproximadamente 5000 unidades do SAFN-49, adquirido diretamente do arsenal Herstal. Um dos prováveis motivos para a aquisição desse modelo era o uso do calibre .30-06, embora a arma em si fosse muito diferente do Garand norte-americano; outro possível motivo talvez tenha sido a aquisição da mesma arma pela Armada Argentina, em 1953. O modelo remontava a um projeto dos anos 1930 e antecipava muitas das características que depois seriam as do FAL, particularmente o ferrolho basculante.

Na época, a discussão sobre o “calibre NATO” estava comendo solta.. Acho que as autoridades militares brasileiras estavam apostando que os EUA manteriam o calibre .30-06 e conseguiriam produzir uma versão automática do M-1, que tinha se saído muito bem na Guerra da Coréia. A questão é que os acordos da NATO implicavam em certo grau de padronização, e um dos pontos em que insistiam os europeus era a adoção do cartucho 7.62 NATO. Outro ponto interessante (e aí é especulação minha) é porque foram adquiridas as armas belgas. Suponho que tenha sido porque essas estavam disponíveis para pronta-entrega. A Guerra da Coréia tinha acabado em 1951, e deixou os americanos totalmente “curtos” de material para entregar aos aliados. O fato do Brasil ter recebido a licença para produzir uma cópia local do cartucho 30-06 indica que havia certa concordância de que as FAs brasileiras receberiam equipamento dos EUA, mas o problema é que, na primeira metade dos anos 1950, a arma a ser adotada lá ainda estava em testes – ou seja: não havia alternativa a oferecer. O problema foi empurrado com a barriga ao longo do resto da década, com o exame de diversos tipos de armas que estavam sendo lançadas no mercado, inclusive o FAL, que teve um pequeno lote adquirido para avaliação em 1954. A tendência mundial apontava para o 7.62X51 NATO, e o FAL FN, no final dos anos 1950, já era adotado pelas forças armadas da Bélgica, Grã-Bretanha, República Federal da Alemanha, Canadá e Áustria. Em 1955, a Argentina anunciou a adoção do modelo e a intenção de fabricá-lo localmente. A empresa belga FN Herstal, dona da patente, antecipou-se à concorrência e ofereceu a licença para a fabricação de seu desenho também no Brasil. A contrapartida era o fornecimento do ferramental e o respeito ao projeto do fuzil. À primeira vista, parecia “mamão com açúcar”: uma arma moderna, de graça e sem necessidade de investimento em pesquisa; na prática, a longo prazo as forças armadas brasileiras se viram novamente atreladas às decisões de um fornecedor externo.

Embora não existam ainda provas conclusivas, é possível que a decisão belga tenha sido motivada pelo exame, pelos militares brasileiros, do Heckler-Koch G3, fabricado na Alemanha com base no desenho espanhol CETME – era outro 7.62 NATO. Pouco depois (no início dos anos 1970) o HK acabou adquirido pela Aeronáutica, para sua infantaria de guarda. O fato de que, num espaço de uma década, três modelos de armamento tenham sido adquiridos no mínimo indica certa falta de planejamento no que diz respeito à questões de defesa, em nosso país.

Em 1967, a chegada dos novos fuzis automáticos, em números que alcançavam 30.000 exemplares, entre os primeiro (diretamente importado) e segundo (fabricado em Itajubá) lotes já tinha se completado. Foi então tomada uma decisão surpreendente: o Exército resolveu converter uns 10.000 Mauser calibre .30 em uma arma aparentada com o FAL, só que numa versão de ferrolho. Essa nova arma, destinada ao treinamento de recrutas, foi denominada ”Mosquetão M968 7.62“. O cano foi substituído por uma versão idêntica à do FAL e a câmara, adaptada para o novo calibre. O conjunto era um pouco mais leve, tinha o cano mais curto e a alavanca de manejo, recurvada. O modelo foi fabricado em Itajubá e distribuído entre as unidades consideradas “de segunda linha”. O “Mosquefal”  empregava munição (inclusive granadas de bocal e munição especial para atiradores de escol), baioneta e material de manutenção de primeiro escalão iguais às do M964 (notação do FAL brasileiro). A arma era destinada ao adestramento básico de fuzileiros da infantaria, e também foi distribuída pelas polícias militares em todo o país.

Outro fuzil de assalto que surgiu por aqui foi o norte-americano M-14. Trata-se de outro clássico, bem conhecido entre os interessados no assunto, cujo surgimento resultou da experiência das tropas norte-americanas com o excelente M-1. No entanto, essa arma também tinha problemas, em particular o sistema de alimentação, centrado num clip de oito cargas, que tinha de ser esvaziado para que a arma pudesse ser recarregada. Os Gis também reclamavam do comprimento e peso da arma, ambos considerados excessivos. O cartucho .30-06, passada a guerra, começou a ser considerado muito longo e muito pesado, o que limitava gravemente a quantidade de munição que cada soldado podia transportar. Na fase final da guerra, foram feitas algumas tentativas de melhorar o M-1, inclusive a adaptação da arma para usar o carregador de 20 cargas do fuzil metralhador BAR.  Esse modelo, denominado T-20, também ganhou a capacidade de disparar em rajadas. O movimento seguinte gerou o T-36, um T-20 adaptado para utilizar um novo carregador, baseado naquele do BAR, mas mais fácil de produzir e mais leve. O problema do peso da munição, entretanto, persistia, e os projetistas tiveram a idéia de aplicar ao 30-06 a solução utilizada pelo alemães: encurtar o .30-06. Os projetistas norte-americanos esperavam que o novo cartucho mantivesse a potência do .30-06, mas com um menor peso e maior economia de material , além, é claro, de diminuir o peso da arma. Paralelamente, um série de modificações no T-36 gerou o T-37. No entanto, os militares não gostaram da idéia,  e, em meados dos anos 1950, uma arma totalmente nova foi apresentada para testes: o T-44. Nesta, o sistema de acionamento operado por recuperação de gás tinha sido completamente redesenhado, utilizando um cilindro de trajeto encurtado, o que diminuiu de forma significativa o comprimento do conjunto. A arma foi projetada em torno do cartucho T-65, que tinha sido adotado pela OTAN como 7.62X51 mm NATO. O T-44 ainda apresentava uma vantagem que acabou se mostrando decisiva: sua fabricação lançava mão de quase os mesmos processos e ferramental que o Garand. Em 1957, essa arma foi adotada pelo Exército dos EUA sob a notação M-14.

Embora ainda seja considerado uma arma excelente, surgiu na época em que já estava sendo debatido o problema do peso da munição e das armas. O problema foi o fato de que o 7,62X51 ainda era um cartucho muito pesado e muito potente, que espelhava, basicamente, a doutrina norte-americana: o fogo contínuo deveria ser provido por uma arma de esquadra, com características de metralhadora ligeira; os fuzileiros deveriam continuar atirando em modo semi-automático, para poder (pelo menos em teoria) apontar a arma e aumentar a precisão do tiro. A experiência no Vietnam mostrou que tal doutrina era passível de crítica, visto que a arma-padrão disponível era muito pesada, longa e difícil de usar em movimento. Operações em que o soldado tivesse de ser lançado sobre o objetivo (como, por exemplo, assalto a partir de transportes blindados) se tornavam quase inviáveis com uma arma com as características do M-14.

A produção desse equipamento durou entre 1957 e 1964, quando o governo dos EUA decidiu investir no desenvovimento do M-16 da Colt Firearms. Os estoques de M-14 foram sendo relegados a funções secundárias ou especializadas. Durante certo tempo, muitos deles foram repassados à Marinha dos EUA, como armamento da dotação orgânica de navios de guerra.

A Marinha Brasileira recebeu entre 1968 e 1973, lotes sucessivos de contratorpedeiross das classes Fletcher, Allen M. Sumner e Gearing (acho q foram 11, no total), e cada um deles vinha com uns 60 FAs M-14. Também vieram, em quantidades menores, com os NDCC, Garcia D´Ávila e Duque de Caxias, Suponho que no total, tenham chegado umas 1000 dessas armas, o que não seria problema, visto que o Brasil já usava, nessa época, o calibre M1964, que é o 7.62NATO fabricado aqui. Como essas armas foram substituídas, nos meados dos anos 1970, pelo IMBEL M1964, os M-14 acabaram no paiol da Escola Naval, como arma de parada. Na segunda metade dos anos 1980 ainda estavam em uso, assim como pela Polícia Naval do AMRJ.

No Brasil, o FAL gerou toda uma linhagem industrial. A atual IMBEL – empresa de economia mista pertencente ao Ministério da Defesa – fabricou três modelos da arma: o Fuzil Automático Leve (FAL), o Fuzil Automático Pesado (FAP – uma versão dotada de bipé, que só dispara em modo automático) – e a versão ”Para-FAL”, com coronha rebatível, e cano encurtado, para emprego de unidades aerotransportadas, de selva e de forças especiais. A produção local começou no início de 1965 e continuou até 1983, subindo a mais de 200.000 unidades deste fuzil. Em 1997 foi apresentada uma versão local, denominada “MD97“, adaptada ao calibre 5.45 NATO. Hoje em dia, calcula-se que, entre todas as versões, as forças armadas e forças policiais brasileiras tenham por volta de 400.000 FAL em seus estoques – o que é uma quantidade surpreendentemente pequena, considerando que essas forças sobem – se computada a reserva de emprego imediato (reservistas com menos de cinco anos de baixa, sexo masculino e idade até 34 anos) – a mais de um milhão de efetivos::

O Natal de causa::Uma questão nada natalina::

De fato, uma questão muito pouco natalina… Mas vá lá…

Anos atrás, conversando com um veterano que havia passado um “tour” (como eles chamam o período de serviço em campanha) no Vietnam, entre os anos de 1967 e 1968, a certa altura, notei que o cara se referia frequentemente ao inimigo como “charlie”. Perguntei ao sujeito se essa denominação teria relação com o alfabeto de fonético usado pela OTAN e pela ICAO (Organização Internacional de Aviação Civil), e adotado por quase todas as instituições ocidentais que utilizam comunicações  de voz. Imaginei que essa fosse, para um ex-militar, fácil de responter. Nada. O antigo cabo-de-esquadra (lance corporal, em inglês, posto inexistente nas forças armadas brasileiras) dos Marines não fazia a menor idéia do que eu falava. Quando perguntei se “charlie” seria uma contração de “victor-charlie”, só então ele entendeu.

A forma atual (e bastante conhecida), desta representação fonética do alfabeto latino moderno difundiu-se a partir de sua adoção pela OTAN, na instrução intitulada “Publicação Tática Aliada 1, Volume II: Livro de Sinais Marítimos e de Manobra”, divulgada no início dos anos 1950. Essa instrução regulou a forma de vocalização de expressões codificadas, em mensagens por telecomunicaçãoes, e foi adotada pelas marinhas dos países da Aliança Atlântica. Mesmo tendo o inglês como língua de trabalho, a pronúncia variava grandemente, caso estivessem se comunicando um norueguês e um canadense, por exemplo. O alfabeto fonético usa, para relacionar letras e números, palavras cuja pronúncia varie pouco, seja lá qual for a língua natural usada pelo emissor. A primeira experiência data de 1927, numa forma bem diversa da atualmente difundida. A iniciativa foi formalizada em uma instrução da União Internacional de Telecomunicações (ITU), adotada por todos os países membros. Tornou-se mais difundida conforme o uso de comunicações com modulação de voz (rádio falado, inexistente na 1ª GM) se tornou comum e o problema da diferença de línguas e pronúncias aumentou (mesmo uma língua comum, como o inglês ou o protuguês, por exemplo, tem pronúncia muito diferente, dependendo do país que se considere).  

No Vietnam, os militares norte-americanos costumavam a utilizar abreviaturas e acrônimos, como forma de diminuir a ambiguidade da comunicação oral. Assim, referiam-se às forças armadas dos EUA como Uniform-Sierra-Mike, querendo dizer US Military; aos militares locais como Alfa-Romeo-Victor-November (Army, Republic of VietNam); pediam apoio aéreo usando a abreviatura Alfa-Sierra-November (Air Support Needed); e por aí vai. O inimigo era tratado por Victor-Charlie, querendo dizer VietCong.

Isto se referia a qualquer pessoa tida como simpatizante dos comunistas e que aceitasse o comando da Frente de Libertação Nacional do Vietnam do Sul (organização política estabelecida no Vietnam do Sul a partir de 1960). Os irregulares armados do Sul eram chamados, genericamente, de “vietcongs”. Essa palavra era uma contração de Việt Nam Cộng-sản, (comunista vietnamita), embora outras interpretações a dêem como contração de Việt gian cộng sản (“traidor comunista do Vietnam”). Segundo diversos historiadores, a imprensa sul-vietnamita situacionista começou a usar essa palavra como um pejorativo, em 1956, mas logo documentos diplomáticos e militares norte-americanos passaram a usar a expressão para referir insurgentes presos ou mortos nas ações de guerrilha que começavam então a se tornar comuns. A difusão da abreviatura Victor-Charlie ou VC, e do uso  da contração “Charlie” deve-se aos assessores militares enviados em grandes números ao Vietnam do Sul a partir de 1961, durante o governo Kennedy. O curioso é que os norte-americanos não faziam distinção entre combatentes sul-vietnamitas e militares norte-vietnamitas (que estava presentes em grandes números no Vietnam do Sul, durante toda a guerra, embora essa presença não fosse admitida pelo governo do Vietnam do Norte.

Que relação isso tem  com o Natal? Nenhuma, a não ser o fato de que a foto lá em cima mostra um show realizado em um hospital militar, no ano de 1970… E é tambem uma forma de causa:: agradecer aos aos assíduos as visitas que me dão vontade de continuar escrevendo estas notas…:: 

Recordar é viver::Anos 70:Deténte, SALT e outros quetais::

Parte 2/2:: Não parece fazer sentido, mas fazia, na conjuntura da época. Significava admitir, por via transversa, a afirmação feita, muitos anos antes, por Winston Churchill, de que “uma nação não tem amigos, tem interesses”, e que a busca desses acaba por criar tensão. Pragmaticamente, as nações poderiam viver em tensão permanente, desde que fossem criados e aperfeiçoados mecanismos para que esse estado de coisas fosse mantido sob controle.

Para definir essa visão política, a tal pessoa de 1968 poderia usar uma expressão criada algum tempo depois pela diplomacia brasileira: “pragmatismo responsável”. A comparação faz todo o sentido. O projeto brasileiro, na época, de “potência emergente”, recusava mecanismos que implicassem na aceitação a priori das estruturas do

poder em nível internacional – embora visasse sua reprodução, tanto quanto possível, no interior do país. Defendia a diplomacia brasileira que o Brasil tivesse reconhecidos seus interesses. Nesse sentido, uma das linhas prioritárias da política exterior foi a “correção de rumos” nas relações com os EUA, visando a colocá-las em bases vistas como “mais realistas”. Os conflitos que fatalmente surgiriam deveriam ser encarados como decorrência do relacionamento entre estados soberanos na defesa de seus interesses nacionais. De fato, esse “pragmatismo” era o mesmo que os arquitetos do sistema de poder internacional admitiam como inerente às relações entre as grandes potências. A política internacional não deveria ser excessivamente pragmática a ponto de deixar-se dirigir pelo cinismo, mas também não deveria ser ditada pelo moralismo, sob pena de tornar-se ineficaz ou mesmo temerária. Por outro lado, reações como a do Brasil, na época sob regime autoritário de extrema direita, freqüentemente aplaudido pelos EUA, indicavam as tensões que poderiam resultar dessa linha pragmática de relações internacionais.

Havia, claro, motivos que podem ser considerados, mais do que pragmáticos, práticos, para que fosse adotada uma política de busca da estabilização. No início dos anos 1970, o panorama econômico já não era tão favorável, para os EUA. O longo ciclo de prosperidade apontava o próprio fim. O horizonte internacional não é feito apenas de silhuetas de tanques, aeronaves e mísseis balísticos. É feito também de fábricas, minas, entrepostos de comércio e casas bancárias. A fase excepcional pós 2ª GM, a “Era do Ouro” da visão anglo-americana começava a perder o brilho. Os 25 anos anteriores a 1970 tinham sido estupendos, até mesmo para a URSS e seus parceiros.

O surto de crescimento econômico parecia mundial – embora não fosse. Durante algum tempo, pareceu até mesmo que, economicamente, os regimes socialistas estariam levando vantagem. Nos anos 1950, a URSS e a Europa Oriental cresciam mais rapidamente do que o Ocidente. Até mesmo o Terceiro Mundo colheu rebarbas desse surto: nos 20 anos entre 1950 e 1970, a fome continuou endêmica na África e em certas partes da Ásia, mas diminuiu; a população do Terceiro Mundo dobrou, e na América Latina, mais do que isso; a expectativa de vida aumentou, em média, 7 anos – em certas regiões, 10 anos ou mais. Entretanto, a “Era do Ouro” foi, sobretudo, enganosa, até mesmo para os observadores mais argutos. Aquela pessoa de que falo, se pertencesse à emergente classe média brasileira, teria chances que seus pais jamais teriam sonhado: acesso amplo è educação, um sistema de saúde pública relativamente estruturado, pleno emprego e subsídios à mancheias. Cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro eram, de certa forma, miniaturas em crescimento da economia mundial. Essa pessoa certamente não saberia que os EUA estavam crescendo menos do que seus parceiros europeus e japoneses, e que URSS e seus clientes industrializavam-se rapidamente sem que a industrialização significasse melhorias visíveis de padrão de vida. No mundo socialista, cidadãos bem formados e saudáveis olhavam com inveja para a liberdade e afluência de suas contrapartes ocidentais. Já no Ocidente, os cidadãos dirigiam-se para suas residências subsidiadas, cheias de bens de consumo financiados, em automóveis movidos a combustível excepcionalmente barato. Ouviam rock no rádio e, em casa, se revoltavam diante das notícias sobre as ditaduras latino-americanas e asiáticas, fossem de direita ou de esquerda. Entretanto, nenhum deles duvidava que, dentro de dez anos, a vida seria a mesma. E que, dentro de dez anos, ainda estariam debaixo do guarda-chuva nuclear norte-americano, desfrutando da vantagem adicional de orçamentos de defesa ridiculamente reduzidos em relação ao tamanho que tinham alcançado as economias de seus países.

O fato é que, durante a Guerra Fria, as superpotências assumiram o ônus da defesa de suas esferas de influência. Em ambos os lados, a expansão do chamado “complexo industrial-militar” foi exponencial, mesmo diante do notável crescimento econômico geral. Ainda que os estados ocidentais tenham desviado mais recursos para o buraco estéril dos gastos militares, não o fizeram na proporção de EUA e URSS. No longo prazo, essa opção, decorrência da opção pela estabilidade, seria fatal para a URSS e teria conseqüências notáveis para os EUA: estes trocaram força militar superior por enfraquecimento econômico crescente, frente aos aliados que se viam na obrigação de defender.

Mas não foram esses os motivos que levaram os líderes mundiais a uma improvável mesa de negociações, no início dos anos 1970. De um lado, o dos EUA, foi a condução do problema de como continuar a Guerra Fria quando esta “guerra sem barulho” deixasse, na frente interna, de ser popular – e ela era popular exatamente porque não tinha barulho, nem mortos. Passou a ter no final da década, em função de um conflito localizado, do tipo que deveria ser mantido “empacotado” pela busca da estabilidade. Em 1968, esse brasileiro da classe média que estou imaginando saberia exatamente de que guerra se tratava: o Vietnam.  

No lado soviético, foi o problema de como lidar com o fato de que o bloco comunista, desde meados da década de 1960, já não apresentava a unidade que a “justeza da causa proletária no mundo” deveria solidificar. Ao contrário, as duas potências do bloco socialista tinham deixado de se entender muito antes, em função de diferenças ideológicas e da recusa chinesa em alinhar-se aos interesses soviéticos. Comunistas russos e comunistas chineses andaram, em 1969, se estranhando, ao longo da enorme fronteira entre os dois países. Dois exércitos “vermelhos” foram postos frente a frente, o que até então parecia inimaginável. Mais inimaginável ainda foi o perigo de que a briga por uma ilhota fluvial insignificante degenerasse e um confronto nuclear. Certamente a China não era páreo para a URSS, apesar de dispor de certa quantidade de armas estratégicas. Em 1968, em torno de 300 dos 2000 ICBMs disponíveis pela URSS tinham sido programados para voar em direção à China, e um exército soviético de quase um milhão de efetivos, dispondo de capacidade nuclear tática estava posicionado nas fronteiras sino-soviéticas. Segundo análises da época, o Exército da República Popular da China era mal-treinado, mal-equipado e pior comandado; não dispunha de artilharia e blindados suficientes nem de apoio aéreo, e sua logística era baseada em animais de tração, e, por mais incrível que possa parecer, em braços humanos.

É provável que fosse verdade, e talvez a realidade fosse até pior. Anos antes, o próprio Mao Tsé-tung, o “presidente Mao”, “Grande Timoneiro” da revolução socialista, tinha deslanchado a “grande revolução cultural proletária”, golpe político destinado a compensar a perda de poder observada em função do fracasso do “grande salto para a frente” (eufemismo para a coletivização da agricultura) de 1958-1961. A Revolução Cultural revelou-se uma maluquice tenebrosa, e desorganizou a sociedade chinesa e suas instituições, inclusive o exército. Em 1951, as disciplinadas forças chineses, armadas e treinadas pelos soviéticos desequilibraram a guerra da Coréia, obrigando o Exército e o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA a uma humilhante retirada que quase degenerou em confronto nuclear; em 1968, jovens soldados agitando um livrinho vermelho e disparando para cima suas armas, o “Exército do Povo”, não admitiam a supremacia dos oficiais e impunham “decisões democráticas”. A hierarquia militar, “desvio burguês inaceitável”, foi quase abolida, e os comandantes até o nível de regimento eram escolhidos pela tropa; as grandes unidades e corpos de exército continuavam tendo seus comandantes designados, o que na prática não significava nada, visto que as decisões eram tomadas em “conselhos populares”.

O problema soviético não era, pois, a China, mas o partido que os adversários norte-americanos tomariam, no caso de um confronto entre as duas potências comunistas. Os EUA seriam um aliado desejável, embora a situação da “frente interna” também não era nada fácil. Estavam atolados até o pescoço em uma guerra que deveria ter sido resolvida “em alguns meses, no máximo em um ano”, segundo o general comandante – e, em 1969, isso já fazia mais de 4 anos. Todos os dias a televisão colocava dentro dos lares americanos um vasto cardápio de revolta e contestação, das universidades ao guetos urbanos, dos festivais de rock às Olimpíadas. A juventude ocidental, inclusive – por incrível que pareça, até mesmo a norte-americana – mostrava-se seduzida por líderes como Mao Tsé-tung e Ernesto “Che” Guevara.

Se o problema da URSS não era a China, mas a perspectiva de problemas com os EUA, o da China era estar cercada por dois inimigos poderosos e agressivos – a URSS e a Índia – e um imprevisível – o Japão (nos quais os chineses nunca confiaram).

E, naquela altura, China e EUA tinham alguns pontos em comum. O primeiro deles era a preocupação com a União Soviética, aos olhos de ambos cada vez mais ameaçadora. Em 1968, a rápida mobilização e deslocamento de tropas motorizadas e aerotransportadas contra a Tchecoslováquia lançara uma sombra de preocupação sobre a Europa Ocidental. A invasão fora o primeiro movimento da “doutrina de Brejnev: os países socialistas da Europa (leia-se URSS) teriam direito de intervir em qualquer país que se julgasse no direito de romper o compromisso “democrático” e “político” com o marxismo-leninismo. Em 1967, a União Soviética tinha alcançado a paridade com os EUA, em termos de armas estratégicas. Embora os EUA ainda tivessem alguma vantagem em ogivas múltiplas e mísseis lançados se submarinos, os soviéticos dispunham de mais mísseis, com ogivas de maior poder destrutivo (por exemplo, ogivas termonucleares de 40 megatons, enquanto as dos EUA eram, na maioria, de 2 a 5 megatons).

O Vietnam era outro interesse comum. Aos governantes e ao establishmenth militar norte-americanos aquela se tornaram uma guerra infeliz, na qual aproximadamente 800.000 militares das três corporações lutavam contra fantasmas, ao custo de 40 bilhões de dólares e 12.000 mortos somente em 1968. Nixon queria sair dela, mas não de maneira humilhante. Para os chineses, a “guerra de libertação” do Vietnam e das guerrilhas comunistas já não parecia um ganho político, diante da ameaça soviética. Além do mais, os Guardas Vermelhos tinham, apenas uns dois anos antes, desorganizado o país e obrigado Mao a intervir para deter o caos que se espalhava pelo país.

Assim, EUA e China tinham pontos que os aproximavam, e restaurar a ordem interna era o primeiro deles. Sair do Vietnam, para os norte-americanos significa apaziguar a frente interna; para a China, garantir uma posição favorável diante da URSS.

O caminho estava aberto. Em 1971, Henry Kissinger realizou uma visita secreta a Pequim, na qual ouviu de Chu En-lai que a China faria o que fosse possível para ter Nixon numa visita ao país.

E teria. Cerca de um ano depois. E o mundo não seria mais o mesmo…::

“Tropa de elite” ou “Bandido se combate com forças especiais?”::Parte 2::

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Estávamos falando do BOPE e de suas “táticas de combate urbano”. E eis que o ex-prefeito César Maia divulgou, ontem (31 de março), a foto que tomei a liberdade de reproduzir. Mostra algumas das “baixas em combate” do “outro lado”. Segundo notícia do jornal “O Globo”, 11 (isso mesmo, o-n-z-e) “corpos de homens”, supostos traficantes, mortos pela polícia nos acontecimentos do fim-de-semana passado, no bairro carioca de Copacabana. Segundo a notícia, uma outra foto mostraria policiais sorridentes diante de 4 corpos, um deles mutilado. O ex-prefeito chama atenção para “evidentes sinais de sadismo”. Ora, quem pretende se meter em casa de maribomdo e não ser picado não sabe o que faz: mutilar corpos de adversários mortos é, simbolicamente, uma forma de subjugá-los de maneira absoluta – aprisionar-lhes o poder. Era prática comum nas guerras antigas, e nunca foi eliminada, na guerra moderna, principalmente nas formas de contra-insurgência. Basta lembrar o coronel Jaime Nevese seus “Caçadores Especiais”, que faziam colares com as orelhas dos guerrilheiros do MPLA; ou talvez dos ingleses cortando cabeças de guerrilheiros malaios para enfeitas seus veículos… Por que seria diferente, com a PM carioca? É onde está nos levando a opção repressiva e a militarização do problema da segurança pública. O interessante é que nem mesmo em áreas de guerra aberta, como a Colômbia, essa solução mostrou-se efetiva. As autoridades cariocas parecem agora interessadas nas práticas adotadas em centros urbanos colombianos, como Bogotá e Medellin, nos quais a inclusão cidadã das populações das periferias mostrou-se bastane eficaz. Por outro lado, desmilitarizar a polícia, instituir ações conjuntas tanto de inteligência quanto de enfrentamento, realizar campanhas de esclarecimento – enfim, adotar políticas inteligentes na abordagem do problema das drogas é outro lado da moeda. São essas as operações especiais de que precisamos.    

Mas, enquanto não acontecem, vejamos alguma coisa das outras operações especiais, as militares. São operações não-convencionais destinadas a obter o máximo de ganhos com o mínimo de custos. Operações geralmente planejadas sem levar em consideração os aspectos formais da guerra: manobra, emassamento, desdobramento, buscando submeter o adversário e seu território. As operações que buscam esse objetivo são operações convencionais, travadas por forças convencionais: infantaria, artilharia, cavalaria (claro, hoje em dia, isso quer dizer veículos motorizados, terrestres ou voadores). As “forças especiais” não buscam, em princípio, submeter nada; não manobram como as tropas convencionais; não contam com apoio de artilharia ou aéreo. Atuam com base na ação furtiva e na surpresa, na velocidade e na improvisação. Chegam até o inimigo se infiltrando, buscando provocar-lhe danos e então se retirar – fugir mesmo. “Bata e corra”, diz um dos motes das Forças Especiais; “rápido, silencioso, mortífero”, diz outro.

Para isso, usam meios não-convencionais. O treinamento de tropas especiais dá ênfase à criatividade e ao inesperado. O soldado dessas forças é, geralmente, voluntário, selecionado por características físicas e intelectuais acima da média. Como as OpEsp buscam o máximo de ganhos com o mínimo de custos, isso significa muito “investimento”, ou seja, treinamento contínuo, visando prever situações de ação, imprevistos, riscos e dispor de táticas para cada uma das eventualidades. A hierarquia é, para essas forças, é mais do que o elemento estruturador da cadeia de comando: é o catalisador que possibilita à equipe agir como equipe.

As Forças Especiais surgiram, sem esse nome e nem o conceito, na 1ª GM, com a criação das “Tropas de Choque” (Stosstrüppen), ramo especializado da engenharia de combate do Exército do Kaiser. Essas tropas, que geralmente alistavam à força presidiários militares, surgiram na fase final do conflito, com a função de infiltrar linhas de trincheiras e abrir brechas por onde a infantaria convencional pudesse penetrar. Na 2ª GM, o Exército Britânico formou companhias independentes, denominadas commandos. Essas tropas foram formadas logo após a expulsão dos ingleses do continente, e originalmente tinham por função executar operações de reconhecimento e assédio. Os Commandos do Exército Britânico eram unidades de pequena dimensão, altamente treinadas e móveis, capazes de transportar todo o armamento, equipamento e suprimentos. As operações dessas unidades eram planejadas para durar não mais de 36 horas. Por volta de 1942, norte-americanos, canadenses e australianos formaram suas tropas especiais, cujos métodos eram copiados dos commandos britânicos.

Depois da 2ª GM, praticamente todos os exércitos do mundo formaram unidades de forças especiais. O Exército dos EUA, ainda durante a guerra, tinha formado unidades destinadas a “operações cobertas”, por determinação do “Departamento de Serviços Especiais” (em inglês, Office of Special Services – OSS), órgão supramilitar cuja função era coordenar as atividades de informações e inteligência das diversas agências do governo dos EUA. Isso significa que o OSS (que viria a ser o embrião da CIA) recolhia e analisava informações, e, com base nelas, estabelecia diretrizes que pudessem contribuir para a vitória. Englobava órgãos de inteligência militares e civis, e estava diretamente subordinado ao comando conjunto das forças armadas dos EUA. Entre 1943 e 1945, o OSS recrutou espiões, recolheu informações e treinou líderes politicos da resistência em países ocupados. Mas também organizava o treinamento de forces militares em Guerra contra os japoneses, enfatizando ações de guerrilha, sabotagem e guerra psicológica. Foram atendidas até mesmo as guerrilhas comunistas do Exército Popular de Mao Tse-tung e do Viet Mihn.

O contato com esses irregulares mostrou aos estrategistas do Serviço a eficácia das táticas não convencionais. Algumas das unidades do OSS foram criadas e treinadas para ações diretas similares às cumpridas pelas unidades especiais do exército. Eram essas unidades que se infiltravam no território inimigo para treinar e liderar guerrilhas. Entre essas, os “Grupos Operacionais” do OSS , geralmente empregados em missões de resgate de prisioneiros e ações diretas, são considerados os antecedentes diretos das Forças Especiais do Exército dos EUA.

As Forças Especiais foram amplamente usadas durante a Guerra do Vietnam, passando a ser conhecidas como “Boinas Verdes”, embora não exista uma unidade com esse nome ou peça de uniforme (a boina das SFU é, em geral, preta ou, no caso de tropas pára-quedistas, carmim). Essas tropas eram usadas em operações de reconhecimento, guerra não-convencional, contra-guerrilha e operações psicológicas. Era comum que suas missões tivessem aberto caráter político e buscassem infiltrar observadores e recrutar colaboradores.

As táticas não-convencionais das Forças Especiais chegaram, de forma indireta, ao meio civil com a criação, em 1968, de unidade especial de intervenção, inicialmente chamada Special Weapons Atack Team, nome depois modificado para Special Weapons, Arms And Tatics. O acrônimo, entretanto, continuou o mesmo – SWAT.

De fato, não existe continuidade entre as Forças Especiais e a unidade SWAT criada no estado da Califórnia, para lidar com eventos em que suspeitos portassem armas militares. Alguns dos policiais das primeiras unidades SWAT eram, de fato, veteranos do Vietnam, e os armamentos postos à disposição da unidade eram armas militares adaptadas. Entretanto, o treinamento era bem diferente do treinamento militar e levava em consideração o fato de que o teatro de operações (no caso policial, chamado de “cenário”) era o meio urbano e os adversários, civis. O que se assemelhava era o regime de treinamento, extremamente rigoroso.O primeiro emprego da SWAT que se tornou amplamente conhecido foi um enfrentamento, acontecido em dezembro de 1969, contra um grupo de ativistas “Panteras Negras”. O tiroteio durou 4 horas, mais de 5000 tiros foram disparados, mas ninguém morreu (três guerrilheiros e três policiais ficaram feridos). Entretanto, as táticas usadas pela SWAT foram consideradas ineficientes, parcialmente porque alguns dos ativistas tinham treinamento militar e os policiais temiam perder o controle da situação. Após esse incidente, ficou claro que o SWAT era uma boa aquisição para a polícia, mas que suas táticas e armas teriam de ser repensadas. Embora as unidades SWAT sejam parte, atualmente, das polícias de quase todas as grandes cidades dos EUA (nos EUA, os departamentos de polícia são responsabilidade municipal, com custos divididos entre governo estadual e municipal), nos últimos anos o caráter militar dessas unidades tem sido fortemente criticado. Incidentes recentes, como o massacre de Columbine, tem levado algumas cidades a experimentar treinar todos os policiais em táticas especiais. Existem divergências quanto a eficácia dessa solução; alguns especialistas tem proposto que unidades especiais sejam postas sob responsabilidade estadual, solução ainda mais polêmica.::

 

 

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::

Pois é… Meu blog inspirador, o WebLog (morro de inveja daqueles livrinhos no texto…) tem uma “coluna” chamada “Uma moça às Segundas”. Como esse blog aqui só se interessa por quem use uniforme (moça ou rapaz), resolvi mais uma vez copiar as idéias do PD (morro de inveja daqueles livrinhos no texto…) com essa nova coluna, que aparecerá nas terças. Quero ver se nosso amigo Pax vai gostar…::

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Ranger Team 75 (Forças Especiais do Exército dos EUA), sharpshooter (atirador de elite)

Vietnam, março de 1972