Um sistema de armas às terças::XB70 Valkyrie::Mais rápido que uma bala de fuzil::

Em 1945, o surgimento da bomba atômica não significou, de imediato, qualquer modificação de vulto nas doutrinas de bombardeio estratégico desenvolvidas, nos três anos anteriores, pela Força Aérea do Exército dos EUA. De fato, a utilização da bomba-A não passava de um desenvolvimento da chamada “regra de área”, um conjunto de fórmulas matemáticas e estatísticas destinadas a projetar a destruição infligida ao inimigo. A reação nuclear não era vista como uma arma em si, mas como um explosivo, só que de poder exponencial. A “entrega” do explosivo era totalmente convencional: o número adequado de aeronaves especializadas era calculado, despachado para o alvo e uma delas largava lá um artefato de queda livre. O diferencial era a potência do explosivo detonado no alvo.

Usar uma arma não é tão fácil quanto pode parecer. O mínimo é que se saiba como operá-la, individualmente, ou seja, saber como usar (dar um tiro, por exemplo). Mesmo assim, 10.000 ótimos atiradores não formam um exército, e quanto maior a estrutura, mais complicada sua colocação em funcionamento. É assim com as forças armadas, desde sempre: colocá-las em ação exige mobilização, treinamento e acionamento. E antes, exige que muita gente pense qual a melhor maneira de fazê-lo. O que isso tem a ver com sistemas de armas? Tudo. Porque um sistema de armas – ou seja, um conjunto de partes combinadas destinadas a superar oposição inulilizando-a – é elaborado por projetistas militares e não-militares tendo em vista uma forma de usar que é elaborada antes do projeto, por pensadores teóricos. Esse “modo de usar” é chamado de “doutrina”. Nesta terça-feira, vamos examinar como a mudança de uma doutrina pode tornar obsoleto um sistema de armas, mesmo que este seja a última palavra, o “estado da arte”, em termos de tecnologia::

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Ainda hoje, o problema da “entrega” continua sendo a preocupação dos formuladores envolvidos com a questão. Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, logo ficou claro que a utilização de artefatos nucleares implicava na concepção de técnicas de bombardeio que envolviam penetração muito profunda no território inimigo, para alcançar áreas industriais  ou centros de comando, que nunca são totalmente acessíveis, ainda mais no caso dos dois principais inimigos da vez, União Soviética e depois, a China Vermelha. Uma série de bombardeiros a jato, iniciada no final da década de 1940, como o Boeing B-47 Stratojet, foi concebida para operar como primeira linha de ataque estratégico, a partir de bases, situadas em torno da União Soviética. O aperfeiçoamento do reabastecimento em vôo, na primeira metade dos anos 1950 aumentou o alcance dos bombardeiros convencionais, que eram mantidos em vôo por períodos cada vez maiores, em estado de alerta. Esse conceito, desenvolvido a partir da criação do Comando Aero-estratégico da Força Aérea dos EUA (Strategic Air Command, ou SAC-USAF) acabou resultando no modelo B-52 Stratofortress, construído com a função específica de conduzir armamento nuclear. Essas aeronaves eram mantidas no ar, com quatro artefatos nucleares embarcados, 24 horas por dia, orbitando em torno de pontos situados a no máximo seis horas de seus alvos. Entretanto, os planejadores estratégicos norte-americanos imaginavam que uma aeronave subsônica dificilmente conseguiria ultrapassar as defesas soviéticas. Esses planejadores introduziram dois conceitos. O primeiro foi desenvolvido pela própria força aérea, e acabou resultando, no fim dos anos 1950, no Convair B-58 Hustler, capaz de voar a duas vezes a velocidade do som. O Hustler, uma obra-prima tecnológica, foi ao mesmo tempo um fracasso operacional (é um bom tema para outro post desses…). O segundo, o  de “bombardeiro nuclear de penetração profunda”, propunha uma aeronave capaz de desenvolver, durante longo tempo, velocidade quase supersônica e, durante algum tempo, velocidade superior à Mach 2.2, chegando, por pouquíssimo tempo, até Mach 3.0 – tempo que seria usado para escapar ao sopro da explosão nuclear. Essa aeronave deveria poder chegar a uma altitude superior a 20.000 metros e manter-se lá na maior parte do trajeto.

Os estudos desse conceito começaram em 1954, conduzidos pela Boeing e pela Rand Corporation (um think tank voltado especificamente para o desenvolvimento das forças armadas dos EUA). A primeira idéia foi de um bombardeiro impulsionado a propulsão nuclear, mas foi abandonada em função do surgimento de combustíveis convencionais quimicamente melhorados (High Energy Fuel, apelidado de zip-fuel).    

Depois de uma série de propostas consideradas insatisfatórias, em 1957 as empresas Boeing e North American apresentaram projetos que preenchiam os requerimentos da USAF – principalmente que fossem usadas as instalações das bases aéreas existentes. O problema é que as primeira propostas apresentadas ao escritório de projetos da USAF resultariam em aeronaves de tamanho tal que não poderiam usar as bases aéreas existentes. A velocidade deveria superar Mach 3.0, com alcance de até 18.000 quilômetros, conduzindo até 35 toneladas de armamento.

A proposta vencedora foi a da North American Aviation, empresa do sul da Califórnia. A aeronave proposta era denominada XB-70.xb-70 Dotado de seis grandes motores turbojatos GE YJ93, instalados em casulos sob uma fuselagem estruturada por uma “colmeia” feita de aço inoxidável, recoberta por uma “pele” de ligas de titânio excepcionalmente delgadas, seria capaz de voar tão alto e tão rápido que evitaria interceptadores soviéticos, então a única arma realmente eficaz contra bombardeiros. Um conceito interessante era o de aproveitar as ondas de choque criadas pelo vôo supersônico para aumentar a velocidade final. Por esse motivo, o XB-70 tinha uma fuselagem excepcionalmente longa e asas em delta que podiam ter sua geometria alterada conforme a velocidade.

Foram construídos dois protótipos, nos dois anos seguintes e, em 1958, a aeronave recebeu o nome de xb-70_2Valkyrie. Era esperado que, por volta de 1965, duas alas, com um total de 30 aparelhos, estivesse operacional. Entretanto, o número de novos conceitos e novas tecnologias contidos no avião fizeram com que os custos de desenvolvimento se tornassem  astronômicos, atraindo alta antipatia dos políticos que teriam de explicar aos contribuintes  os gastos exigidos por um sistema que não garantia superioridade sobre os soviéticos. O desenvolvimento de mísseis anti-aéros de alta altitude e performance, orientados por radar e voando mais de 4 vezes mais rápido que o som introduziam um fator não previsto em meados dos anos 1950. Quando em 1962 os soviéticos derrubaram um avião de reconhecimento U-2 voando a quase 19.000 metros de altura, não derrubaram apenas o projeto secreto da CIA, mas também o XB-70, que nunca se tornaria operacional.

 

Um outro fator que na primeira metade dos anos 1950 não estava na equação eram os mísseis balísticos intercontinentais, os ICBM. Baseados nos projetos alemães desenvolvidos pelos nazistas no final da Segunda Guerra Mundial, essas aeronaves, desenvolvidas ao mesmo tempo por norte-americanos e soviéticos ofereciam uma nova abordagem para a guerra estratégica. Eram muito mais rápidos e, pelas características de vôo (a trajetória balística), impossíveis de interceptar, na época em que surgiram (o final dos anos 1950). Ainda que utilizado apenas uma vez, eram muito mais baratos do que os XB-70. Ao longo dos dez anos seguinte, a confiabilidade dos sistemas de navegação e direção de trajetória aumentou de tal forma que não se justificava o gasto com um sistema de armas como o Valkyrie. Até mesmo o B-58 b-58_hustler1já plenamente operacional, cheio de equipamento eletrônico de última geração, não veria a década de 1970. As últimas das 62 unidades construídas foram desativadas no final daquele ano. 

 

 

E, como sempre, divirtam-se com o filminho recolhido no You-Tube.

 

 

 

 

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