Muito prazer: meu nome é desinformação, mas pode me chamar de rolo-de-fita crepe::

Ando um tanto enrolado com outras atividades que preciso levar adiante, e em função de uma ordem de prioridades que não é produzida por mim, causa:: está em férias forçadas. Mas agora, não pude resistir – os artigos científicos têm de esperar, porque apareceu algo mais interessante: o atentado/ataque dos terríveis agitadores bolinha de papel/rolo de fita crepe contra o candidato da oposição, José Serra.

Nem é preciso repetir a história: afinal, durante três dias não se falou em outro assunto, até que o impacto começou a diminuir, o debate sobre quem mentia ou deixava de mentir se tornou mais equilibrado, inclusive com sugestões de fratura de objetivo (tudo que a Rede Globo poderia não querer, neste momento). O conglomerado carioca e seus pares paulistas já mudaram de assunto, à esta altura.

Entretanto, para os nove ou dez leitores de causa::, interessados que são (espero que ainda sejam…) em estratégia e assuntos militares, ainda vale à pena espiar o assunto. Sugiro, como introdução, uma passagem na melhor interpretação que encontrei na Grande Rede, não por acaso de meu debatedor favorito, o Catatau (leia, em sequência, todos os posts que o blogueiro tem enviado, sobre o tema – por sinal, o blogue tem me surpreendido com o melhor material analítico sobre as eleições). Com licença do bom Catatau, aproprio-me de um trecho de um dos excelentes textos escritos por ele por ele sobre temas eleitorais: Fim de papo para Dilma. Mas conforme o jornal, não para Serra. A imagem do SBT era uma; a do celular mostrava outro acontecimento diferente. O médico, indignado, declarou que Serra teve um “edema” (sic). O efeito retórico do jornal é nítido em um trend topic do twitter: “lulamente”. O significado da notícia foi bem claro: Lula mentiu (não se enganou ou não se precipitou) e Serra recebeu algo semelhante a um atentado. Dilma foi agredida? Conte-se o tempo, as ênfases, as entonações, o drama empregado pela imagem e som da notícia para concluir

Depois de ler o Catatau, fiquei matutando sobre exatamente o que significou o episódio, enquanto pulava de site em site, procurando interpretações para o acontecido. Nenhuma dizia nada de surpreendente, e todos os bons analistas pareciam curiosamente desmemoriados,dada a “folha corrida” da Globo, quando o assunto envolve política. Depois de algum tempo me veio à cabeça uma única palavra: contra-inteligência.

Certo – não é uma palavra, são duas. Juntas, caem direto no berço da tal “polissemia”, a multiplicidade de sentidos (interpretações) que qualquer expressão da língua, seja falada ou escrita, pode ter. Segundo o quase sempre ótimo NPTO, no caso, “contra-inteligência” significaria mesmo “contra a inteligência”, ou “contra qualquer forma de inteligência”. Tendo a concordar, mas, por fidelidade à temática de causa::, introduzo outro, ao qual se deveria prestar mais atenção: inteligência.

Não propriamente a “inteligência” (ou falta dela…) à qual se refere o Celso Rocha de Barros, mas aquela que diz respeito à “capacidade de apreender e organizar os dados de uma situação”. É a área que as forças armadas chamam de “inteligência militar”. O “setor de inteligência” (no jargão do Exército Brasileiro, conhecido como “G-2”, do norte-americano, “J-2”) tem por função fornecer análises das informações disponíveis sobre o inimigo, recolhidas através de diversos meios em diversos níveis de profundidade. Uma tal análise tem de incluir todos os níveis de informação de que possam necessitar o comandante e seus auxiliares. A atividade de inteligência inclui o recolhimento, a seleção, a análise, a proteção e a disseminação da informação sobre o ambiente operacional, as forças hostis, aliadas, amigáveis e neutras, a área de operações e suas diversas variantes, e a população civil. 

Um livro bastante interessante, que permite ao iniciante (ou não -iniciado, pode ser) em assuntos do gênero ter uma visão bastante abrangente do tema é o do historiador militar inglês John Keegan, Inteligência na guerra (uma boa resenha pode ser lida aqui). “Dispor – ou não – de dados estratégicos sobre o inimigo tem sido um fator importante nas guerras ao longo da história”, diz Keegan, logo no início de seu trabalho. Ora, se você é comandante de um exército e sabe estar o inimigo de olho em suas informações, qual será a decisão mais razoável a tomar? “Esconder as informações” – seria a primeira resposta. No jargão militar, “contra-inteligência”.  Trata-se da atividade de criar barreiras contra o levantamento de informações que sejam úteis à produção de análises do inimigo.

Num sentido amplo, a “contra-inteligência” é definida como o conjunto de atividades que objetiva prevenir, detectar, obstruir e neutralizar a inteligência inimiga, negando-lhe o acesso a informações confiáveis. Inclui ações destinadas não só a recuperar informações que tenham sido subtraídas, e também contra-atacar as ações de inteligência do adversário.

A esta altura o leitor de causa:: deve ter pensado: “Ora, se o inimigo quer minhas informações, porque não fornecê-las a ele, completamente falsas?..” Corretíssimo. Enganar o inimigo é atividade que existe desde que a guerra é guerra. Nesta parte inclue-se a produção e disseminação de informações falsas destinada a convencer o comando adversário de que cachorro responde a bom-dia (ou seja, faze-lo desejar bom dia a cachorro). Essa é a especialidade chamada de “desinformação”.

Inteligência e contra-inteligência existem a mais de 2000 anos. Geralmente sob pretexto de garantir a segurança (interna ou externa, militar e civil), essas atividades buscam antecipar e anular os objetivos inimigos. O interessante é, se a inteligência busca atuar por meio de informações verdadeiras, as atividades de contra-inteligência operam preferencialmente com informações falsas, buscando reduzir qualquer possibilidade de análise lógica, por suas contrapartes inimigas, e forçar a abordagem intuitiva. Mesmo em operações militares, se o comando não dispõe de informações confiáveis, é obrigado a acreditar na intuição, ou seja, a projetar o futuro (foi o que aconteceu, por exemplo, quando os alemães não conseguiram informações que antecipassem o local dos desembarques anglo-americanos na França).

Ações de contra-inteligência apelam, com frequência, para técnicas de comunicação de massas conhecidas como “propaganda”, palavra usada pela primeira vez em 1622, no inicio da Guerra dos Trinta Anos. O papa Gregório XV, percebendo a importância de unificar o discurso dos missionários enviados às regiões pagãs ou afetadas pela Reforma Protestante, criou um comitê de cardeais intitulado Sacra congregatio christiano nomini propaganda, a “Congregação para a Propagação da Palavra Cristã”. A palavra, até então nunca usada, provém do latim vulgar, e quer dizer “para ser espalhado”.

O uso militar sistemático da propaganda como parte das atividades de contra-inteligência data do século 19 e se intensificou na 1ª GM. O objetivo passou a ser a difusão de informações para fortalecer a própria causa e enfraquecer a do adversário. Curiosamente, tanto um quanto o outro objetivos eram (e são) buscados através da divulgação de informações imprecisas ou mesmo totalmente falsas, mas que não possam ser definidas assim pelo inimigo. Uma operação desse gênero estará mais próxima do sucesso, então, se estiver baseada em informações próximas da verdade objetiva. Não é à-toa que Josef Goebbles dizia que “uma meia-verdade é muito mais útil que uma mentira”.

Essas ações são chamadas, no jargão especializado, de “contra-informação”, e têm por objetivo final mudar o curso da informação, que é (pelo menos deveria ser…) possibilitar um juízo racional (não é por outro motivo que a palavra “informação provém do latim informare, “colocar numa forma”). Operações de contra-informação visam manipular a vontade do inimigo – seja militar ou civil – de forma que este entenda a  situação global (e a própria, como decorrência da primeira) ao contrário da realidade objetiva.  Frequentemente, essas operações tem por objetivo “desmoralizar” – no sentido de abater o moral do inimigo ou mesmo inverter sua simpatia pela própria causa, e são chamadas de “desinformação”. Estão, em geral, articuladas à grandes operações de propaganda. 

Os assíduos de causa:: sabem que sou meio delirante – não faço o menor esforço para esconder essa característica de minha personalidade. Mas, delírios à parte, sempre achei que seria interessante observar toda a campanha eleitoral como ação militar, que incluí estratégias, táticas, avanços e recuos. Por este ângulo parece-me mais fácil entender a falta de “política” na campanha eleitoral. Afinal, a guerra é a continuação da política por outros meios, dizia Carl von Clausewitz. No seu grande livro, “Da Guerra”, o então tenente-coronel pomerano servindo no exército prussiano foi o primeiro teórico a tentar explicar os conflitos militares fugindo à análise meramente militar. Os conceitos que elaborou, de “guerra pura”, “recontro” e “aniquilação” podem ser sintetizados na máxima acima. Para Clausewitz, a vitória se materializa na destruição física e moral do inimigo. “A guerra é um ato de violência destinado a forçar o adversário a submeter-se à nossa vontade”, ele afirma. Como o desejo de submissão é mútuo, a rivalidade levará as batalhas a seus extremos. Alguma semelhança com a atual campanha eleitoral?

Seria um tanto longo explicar como a bem-sucedida política de Lula e de setores do PT pode também ser usada como meio de anular o adversário – não fisicamente, claro, mas como obstáculo à realização de objetivos políticos. A reação do adversário será o uso de força na medida em que consideram, diante do contexto, necessária. Assim se explica, facilmente, a ausência de debates: as políticas amplas dos dois governos Lula não apenas tiraram do PSDB suas armas – que podem ser sintetizadas no Plano Real -, como introduziram outras, do tipo “arrasa-quarteirão”: um conjunto de políticas e ações perfeitamente compreendidas no cotidiano das massas que, como disse, de modo brilhante, o Oscar Niemeier, não apenas as entendem perfeitamente, como sorriem diante delas.

O episódio do “rolo-de- fita” não pode, então, ser examinado de modo isolado. Faz parte de um conjunto articulado de ações que incluem as notícias que têm sido divulgadas, segundo as quais, todos os eventos são atribuídos, de alguma forma, à ambição sem limites do PT em manter-se no poder. Assim, até mesmo as diatribes  de Serra acabam sendo atribuídas, em última análise, ao desespero da adversária sem argumentos (como, por exemplo, reduzir a defesa de Dilma contra os insultos de Mônica Serra à “agredir minha família”). Contra-informação.

Cristalina operação de contra-informação é a mobilização, pela coordenação política de Serra, do fundamentalismo religioso como tema de campanha. Desde então, a grande imprensa não parou de replicar opiniões que (como a de três bispos amalucados que acusaram o PT de “partido da mentira”) alimentaram esse debate baseado em uma falsa questão – a do aborto. Note-se que a base da operação não é constituída sobre informações falsas: a questão do aborto vem sendo realmente discutida no contexto das políticas públicas de saúde do atual governo, sempre debaixo de um bombardeio de infâmias da Igreja Católica. Foi dentro desta linha que Dilma Roussef colocou, claramente, que considerava a descriminalização do aborto em certas situações clínicas como questão de saúde pública. O curso normal da informação passa a ser totalmente impedido, e culmina com o violento ataque de Mônica Serra, que utiliza as falas da adversária como forma de levantar uma calúnia extremamente simples de entender – aborto é sinônimo de assassinato, portanto… O assunto desapareceu das “folhas” depois que surgiu uma antiga aluna de Mônica Serra dizendo que ela havia feito a confissão pública de um aborto. No caso, trata-se de uma trapalhada em uma operação mais ampla, e consertar a situação não é difícil – basta mudar o curso da informação, como dizem os bons manuais do ramo. Só que não tinha assunto – a não ser aquele da briga interna do PSDB. Aí surgiu a história da bolinha de papel – que também não é mentira. E a Rede Globo, imediatamente, colocou o bloco na rua.

Estão falando que a coisa toda foi tramada pelo jornalista Ali Kamel. Todos sabem de quem se trata essa figuraça (mas é sempre bom saber mais um pouco…), um descendente de árabes casado com uma judia e cruzado da causa do “anti-racialismo”. Ainda que Kamel tenha tentado armar uma operação de  desinformação que resultou em outra trapalhada, o que realmente importa é lembrar que não é a primeira vez que as Organizações Globo tentam algo semelhante. Por isso me referi, lá no início, um tanto enigmaticamente, aos bons analistas (todos a que me remeto sempre) que me pareceram momentaneamente desmemoriados.

Pois bem – quem não lembra o Escândalo Proconsult? Tudo bem que já se passaram quase três décadas desde que o então “general civil das comunicações” Roberto Marinho tentou, juntamente com um ex-militar dono de uma empresa de auditoria automatizada, contratada para computar os votos da eleição para governador do estado do Rio de Janeiro, tungar a vitória de Leonel Brizola em benefício de um candidato confiável para os interesses do conglomerado. A ligação entre a Globo e a tal empresa nunca chegou a ser esclarecida, mas o fato é que a referência mais longa que se encontra ao caso, hoje me dia, é da própria Globo, que tenta justificar-se no conhecido estilo “dá o pé urubu” e insinuar que a operação teria sido montada pelo próprio governo federal (era o fim do regime militar). Aquela sim, foi uma operação de contra-informação bem montada de cabo a rabo, e é provável que, se não fosse Brizola quem foi, tivesse dado certo. Em 1989, uma outra operação de contra-informação, esta com notáveis características de “desinformação”  – a edição do debate entre Collor e Lula, realizado na véspera, e transmitido pelo Jornal Nacional, então uma plataforma hegemônica de formação de opinião. Também por esta a Globo vem tentando se justificar, já faz duas décadas.

Assim, não é nada estranho, pelo menos para causa:: e seus nove ou dez assíduos, que a campanha eleitoral esteja se caracterizando pelo tom aberto de violência verbal, e que a campanha de Serra, com o apoio de empresas de comunicação de massas com notáveis características monopolistas, tenha tentado criar um fato que desvie a informação de seu curso normal. É muito provável que o planejamento original da operação tenha partido do estado-maior da campanha eleitoral da oposição, já que, como disseram diversos comentaristas, Serra nada teria a fazer em um reduto adversário, a não ser que tivesse realmente a intenção de cavar um incidente de proporções imprevisíveis. A ação da Globo, ao que parece, realmente partiu do voluntarismo do editor Ali Kamel que, é sabido, por motivos desconhecidos odeia o atual governo “com a paixão de um jihadista”, segundo um dos blogues citados aqui.  Mau planejamento e paixão – qualquer conhecedor de história militar sabe que constituem o caminho mais curto para o desastre.

Por último, qualquer um dos leitores eventuais (os nove ou dez assíduos certamente já sabem) que tiver curiosidade em saber os riscos que implica uma operação dessas, pode recorrer aqui mesmo ao blogue das boas causas… Se bem que eu não arriscaria dizer que Ali Kamel inspirou-se na mesma lambança… (o post, como constuma a ser por aqui, é longo e cheio de detalhes. Se o leitor não assíduo carecer de paciência, pode pular logo para os três últimos parágrafos)::

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