O caso da concorrência indiana::Um festival de sandices do mau perdedor::

O “rafalista juramentado” continua soltando foguetes pela escolha do Rafale, em primeira instância, na concorrência MMRCA. Digo “em primeira instância” porque, por enquanto, o Rafale foi escolhido em função de qualidades técnicas, amplitude do pacote de armamentos e vantagens da oferta financeira. O concurso pode dar para trás? Pode, pois, na Índia, como cá, o relatório técnico pode ser posto de lado em função de questões políticas. Mas dificilmente a Grã-Bretanha poderá oferecer um pacote financeiro mais atraente do que o pacote francês, principalmente porque este implica em preços definitivos, o que não acontece com relação ao concorrente. Essa questão surge, junto com outras, nas entrelinhas de um artigo assinado pelo jornalista britânico Andrew Gilligan, publicado ontem pelo blogue do matutino “The Sunday Telegraph”. O ótimo blogue “Plano Brasil” publicou uma tradução da matéria, um tanto descuidada, ontem mesmo. Mas vamos dar um desconto pr´o pessoal do Edilson M. Pinto: sabemos bem o que é manter um blogue informativo diário como é o PBr. Assim, independente da qualidade da tradução (que deve ter sido feita com auxílio do Google Translator), vale á pena ler, para quem acompanha o assunto. E também vale à pena ler os comentários que vamos fazer, adiante (como eu sempre disse, causa:: é um blogue modesto…). Por sinal, sempre modestamente, deixemos claro – este posto vai ilustrado, abaixo, com a belíssima foto do melhor caça de 4ª geração da atualidade… Que os assíduos certamente já sabem qual é…::

Parece que os britânicos, principais interessados na concorrência MMRCA, estão perdendo o tradicional elan, e começam a comer seus chapéus-côcos e guardas-chuvas.  O artigo apresentado pelo Plano Brasil é, antes de mais nada, um festival de sandices, arrogância e wishful thinking (eles parecem convencidos que, no final, a decisão indiana será mudada). No quesito “arrogância”, acho que podemos dar logo nota dez para os descendentes de John Bull: David Cameron, primeiro-ministro conservador e adepto de cortes financeiros, só faltou dizer que os indianos teriam a obrigação de adquirir o produto multinacional por causa da Inglaterra. Por sinal, o ministro britânico do Desenvolvimento, Andrew Mitchell, perdeu a fleuma e disse isso mesmo: segundo ele, o auxílio britânico dirigido à Índia, voltado para atender problemas sociais locais e ultimamente ampliado para mais de US$ 2 bilhões, devia-se ao fato de que a Grã-Bretanha esperava que, como demonstração de agradecimento, a ex-colônia comprasse o produto da ex-metrópole – o que levou um irado ministro indiano a dizer – segundo o mesmo “The Telegraph”, que “a Índia não quer a ajuda britânica”. No quesito marquetingue, os britânicos também enfiaram o pé na jaca. Apesar dos “laços históricos” entre os países e suas forças aéreas (segundo o texto, a Força Aérea Indiana é quase uma cópia da RAF…), mandaram, para os testes, aeronaves alemãs, com equipamento alemão e pilotos alemães. Que, se eu conheço os alemães, devem ter passado o tempo todo reclamando da comida e da “falta de higîene”.

Essa é a parte engraçada da história. Por outro lado, fica patente que os próprios britânicos estão reconhecendo que o Typhoon é inferior ao Rafale em todos os pontos, talvez excetuando-se a velocidade final e manobrabilidade. No restante dos quesitos, a aeronave multinacional teria sido prejudicada, conforme apurou o jornalista britânico, pela crença conservadora de que, em época de crise, cortes de verba resolvem desde lumbago até desemprego e problemas sociais. Claro que faz todo sentido que os britânicos acreditem em seu produto, mas o fato é que, até onde pude entender do material que tenho acompanhado, os indianos não querem uma aeronave de superioridade aérea – para isso eles já tem mais de 200 Su30 MKI, que dentro em breve começaram a passar por extenso programa de modernização de meia vida (MLU). Este incluirá um radar categoria AESA e um conceito ainda em fase de testes denominado Smart Skin, ou Active Neural Membrane (seja lá o que for isto, deve ser muito complicado…). O projeto também prevê pods conformais para armamento e aviônicos e um novo propulsor. Os melhoramentos, combinados, converterão o Su30 MKI (e, certamente, também as diversas variantes russas do Su27) em uma aeronave Stealthy. Certamente, quem viver, verá, mas se os próprios norte-americanos dizem que os Sukhoi são as melhores aeronaves de 4ª geração em atividade, quem sou eu para dizer o contrário?..

Os ingleses dizem. Mais exatamente, quem disse foi o editor de defesa de uma revista chamada Arabian Aerospace (da qual eu nunca ouvi falar…). A revista pode ser sobre assuntos árabes, mas o editor não deixa de mostrar suas origens: para começar a conversa, declarou que os indianos tomaram uma decisão “claramente maluca, dados os laços históricos que mantêm com a Grã-Bretanha” (!!!). Também afiirmou que o Rafale pode ser superior ao inventário paquistanês, mas se o adversário forem os chineses, então eles estarão dependentes do Su30 MKI pelos próximos trinta anos, pois a Força Aérea do Exército de Libertação do Povo dispõe da mesma aeronave – o que é errado: os chineses dispõem de uma versão anterior, o Su27SK. Trata-se da versão de exportação do Su27 Flanker. E, para completar, boa parte dessas aeronaves são, de fato, o Shenyang J11, um clone local da aeronave russa. Os chineses também dispõe de uma versão referenciada como Su30MKK, que é semelhante às aeronaves indianas, em números que não excedem 50 unidades. Mas, independente dos números, quais os testes que estabeleceram a superioridade do Typhoon (e, sejamos justos, do Rafale) sobre o Su30?

A questão básica é o fato de que, com a crise econômica, parece que a EADS, empresa multinacional de aeronáutica e espaço que está por trás da Eurofighter, estava esperando que a encomenda indiana, a maior compra de armamento de todos os tempos, pagasse o desenvolvimento do caça europeu. Segundo o “Telegraph”, especialistas em aviação militar disseram que os cortes britânicos no orçamento de defesa desempenharam papel fundamental na opção francesa dos indianos. Embora esses especialistas mantenham alguma esperança de que o jogo possa ser virado no médio prazo (o contrato ainda não foi fechado), a maior parte deles parece meio desanimada. O problema é que o Typhoon, tanto quanto o Rafale, é uma aeronave ainda em desenvolvimento. No Typhoon, este desenvolvimento está claramente atrasado em função da crise econômica européia. Esses especialistas, inclusive o tal Jon Lake, vêem no multieuropeu maiores potencialidades do que enxergam no Rafale (talvez estejam usando óculos como esses aqui para olhar a situação…), mas a aeronave européia, para atingir seu máximo potencial, terá de ser dotada de armamentos e equipamentos cujo aperfeiçoamento dependerá de investimentos razoáveis – investimentos que a Inglaterra não quer fazer.

Os indianos pretendem adquirir um pacote completo, inclusive com um radar AESA e a suíte de armamentos o mais completa possível, itens que, no Rafale, já estão plenamente operacionais. Como nós já sabemos, aqui no causa::, a aeronave francesa opera um set de armas inteligentes que inclui mísseis de cruzeiro, antinavio, e até mesmo capacidade de entrega de armamento nuclear (não podemos esquecer que a Índia dispõe de um pequeno arsenal nuclear). Armas, como dissemos, operacionais e, ainda por cima com o selo “combat proven”, sonho dourado de qualquer fabricante de armas: é bem provável que todo o arsenal já tenha sido testado em combate, tanto no Afeganistão quanto na Líbia. O pacote do Rafale também incluí vários tipos de pods especializados e a suíte de autodefesa SPECTRA – que, aparentemente, é superior a qualquer coisa atualmente disponível.

O Typhoon não tem nada disso, e não por culpa de qualquer incompetência da empresa que o projetou. Dos quatro países que tocam o empreendimento, apenas a Alemanha ainda está firme sobre as próprias pernas. A Grã-Bretanha vai se aguentando e, quanto à Espanha e Itália… Isso significa que os investimentos no avião estão minguados. Segundo a reportagem, só falta a RAF implorar para que o míssil de cruzeiro Storm Shadow, o antitanque Brimstone sejam integrados à aeronave, o que talvez obrigue o desenvolvimento da versão AESA do radar CAPTOR e de pods de reconhecimento e iluminação de alvo. De fato, tirando-se o radar, que não existe, esses recursos já estão integrados ao Tornado ADF, são plenamente operacionais e foram usados nas patrulhas da Líbia. Só que precisam ser integrados ao Typhoon, coisa que o governo adiou, devido aos amplos cortes realizados, ano passado, no orçamento de defesa. Sejamos mais exatos: o que o governo pretende fazer é descontinuar os Tornado e Harrier (depois que este se mostrou extremamente eficaz no teatro afegão – deve significar alguma coisa…). Os britânicos teriam dito aos indianos que, em 2018, o Typhoon fará tudo que o Rafale faz, e mais um pouco. Só o wishful thinking britânico deve tê-los feito imaginar que essa afirmação convenceria alguém, mas, como esclarece o jornalista, “parece que os indianos não acreditaram, pois o histórico de atrasos e estouros de orçamento falam por si.” Segundo o editor da revista (esta eu conheço muito bem…) Jane’s Defence Weekly, Tim Ripley, se os britânicos argumentarem que os indianos deveriam optar pelo Typhoon, esses poderiam retrucar perguntando porque deveriam comprar uma suíte de armamento e aviônicos que os ingleses não parecem ter a menor intenção de usar. Por sinal, este é um problema que a indústria de defesa brasileira conhece bem – como se vende armamento para terceiros, se o próprio governo do país fabricante não o adquire para suas forças armadas?::

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Um outro lado da moeda?..::Venezuela: mais história imediata para curiosos::

A formação política da Venezuela, que gerou a figura amada-odiada e (do ponto de vista de seus “admiradores” da imprensa “democrática”) um tanto pantagruélica (julguem os nove ou dez assíduos de causa:: se a comparação não cabe…) de Hugo Chávez, é particular, na América Latina. O interessante é que o exame dessa trajetória corrobora, totalmente, a máxima de Winston Churchill (e que faz deste conservador e imperialista inglês o “muso” aqui do redator::): “quem não sabe história, não sabe nada”. Churchill também dizia que “a democracia é o pior regime, tirando todos os demais”, máxima  esta não tão apreciada pelo redator::, já que é conhecida e repetida ad nauseam por nove entre dez liberticidas e dez entre dez moderninhos. A questão é – de que democracia estaríamos falando, mesmo?.. Apenas um mergulho na história permite dizer. Assim, causa:: depois de apontar algumas pistas, afirma e prova: Chávez não é diferente de todos os líderes políticos que marcaram a Venezuela, desde o século 19; suas práticas se plantam na história e na cultura política local. A grande diferença entre o tenente-coronel mais falastrão atualmente em ação na América do Sul e os outros líderes políticos venezuelanos é a mudança de foco. Mas… Julguem essa afirmativa do redator:: os nove ou dez leitores deste blogue…::  

A história política da Venezuela é marcada, no século 19, pela figura de líder conhecida como “caudillo“. O termo é espanhol, e surge pela primeira vez na edição de 1729 do Dicionário da Real Academia de España, definido como el más enérgico o el más violento, que se convierte en el primero de su pueblo o de la república. Não é um termo estranho aos outros países do continente, que, em cada lugar, assume formas particulares. De comum caudillos como Perón ou Porfirio Diaz têm os elementos dramáticos, tenebrosos e pitorescos. Podemos entende-los como líderes locais oriundos de regiões específicas, capazes de empalmar o poder central ou desafiá-lo com certa eficácia (causa:: sugere aos nove ou dez leitores que não deixem de ler este artigo). Na Venezuela, marcaram um longo período, que se seguiu à independência, de guerra civil e desordens locais. A base do poder desses líderes era o controle da produção econômica, baseada na monocultura e na relação com grupos comerciais que cuidavam da exportação, ou seja – da relação com as economias centrais. O período após a guerra de independência foi de desorganização econômica e social – o país foi praticamente destruído. Entretanto, a partir dos meados do século 19, a economia passou a avançar, baseada principalmente na produção de café, cacau e em investimentos originados na Inglaterra e nos EUA, em infra-estrutura (portos, estradas de ferro e equipamento urbano). Esse período é marcado pelo governo do general Antonio Guzmán Blanco, que estabeleceu uma ditadura de dezoito anos de duração (1870-1888). Guzmán era um general que se notabilizou por incrementar uma burocracia de estado bastante competente e extremamente fiel, recrutada entre a classe média de Caracas. A queda de seu regime foi motivada pela extrema riqueza acumulada por ele, que começou a incomodar os próprios aliados. Claro, existiram outros motivos, todos tributários do extremo centralismo e do fato de que o general tornou-se especialista em chicanas legislativas, e reformava a constituição de modo a conseguir reeleger-se presidente. Em 1888, eleito pela terceira vez, e tendo adoecido gravemente, foi para a Europa e acabou aconselhado a não retornar.

Guzmán (conheça a cara da figuraça aqui) era um tipo pitoresco: passava boa parte do tempo em Paris, dizia que seu maior prazer era abrir escolas, queria transformar Caracas em uma espécie de “Paris equatorial” e colocou em si mesmo o apelido de “Ilustre Americano”. Embora cobrasse de seus auxiliares “honestidade e austeridade”, levava uma vida de nababo e gastava fortunas para gozar de “pequenos prazeres”, como promover apresentações de ópera que assistia sozinho. Seu governo era fortemente associado à Caracas, que, dadas as devidas diferenças, cumpria o papel político de Buenos Aires, na época das Províncias Unidas do Rio da Prata, ou seja, atrair a implicância do resto do país. 

O sucessor de Guzmán foi eleito em um pleito que ninguém levou a sério, e acabou derrubado, só que o governo militar que assumiu não tinha base política alguma e passou seis anos gastando muita energia e ainda mais dinheiro para manter-se no poder. Derrubado, abriu-se um período de ditaduras de caudillos procedentes do estado de Táchira na região andina da Venezuela. O primeiro deles é emblemático: o militarmente competente (embora não fosse militar…) e – segundo é dito – totalmente maluco (de tanto que gostava de imitar Napoleão, recebeu o apelido de El Cabito –  “O pequeno cabo”…) Cipriano Castro Ruiz. Membro da elite autonomista dominante de Táchira, onde atuava como jornalista e político, Castro organizou um exército privado financiado por aliados e marchou sobre Mérida e  Caracas em 1899. Uma vez no poder, iniciou uma sangrenta repressão sobre a população local. Castro era de tal forma violento e dado a acessos de fúria que chegou a ser chamado  de “doido brutal” pelo então secretário da Guerra dos EUA, advogado, político imperialista e (não é piada – causa:: é um blogue sério…) detentor do prêmio Nobel da Paz,  Elihu Root. É possível que o desgosto do insigne norte-americano mais fosse provocado pelo viés nacionalista revelado pelo ditador do que propriamente por sua índole violenta. Possibilidade bastante possível, assim digamos: Castro passou boa parte de seu governo tentando “enquadrar” as atividades econômicas das empresas estrangeiras que proliferavam na Venezuela, bem como as atividades políticas das grandes colônias de imigrantes que viviam na Venezuela, particularmente espanhóis e italianos. O resultado: um desfile de navios ingleses, alemães e italianos que sucesivamente bombardeavam a costa venezuelana e desembarcavam tropas para “garantir os interesses” de seus cidadãos ofendidos. 

Entretanto, sejamos justos – os problemas venezuelanos com os estrangeiros não se resumiam nem começaram com a maluquice de Castro. A existência de colônia britânicas, francesas e holandesas bem próximas, em Trinidad, Curaçao e Martinica (nas Antilhas) e nas Guianas, (particularmente na Guiana Inglesa), colocava o país ao alcance dos interesses dessas potências, criando intenso tráfego de indivíduos, mercadorias, valores e (nem sempre boas…) idéias – os jornais publicados nessas colônias circulavam livremente na Venezuela. Esses interesses eram fonte constante de pressão sobre o ocupante do governo em Caracas, pois as colônias funcionavam como ponto de apoio para forças navais. Assim, cada vez que um grupo de cidadãos estrangeiros alegava, real ou imaginariamente, estar sendo alvo de perseguição, a costa venezuelana recebia a “visita” de um esquadrão naval. Só que o meio mais eficaz de pressão e desestabilização não era o “bengalão” (tradução para big stick), mas a concessão de “asilo político” a dissidentes venezuelanos, que também recebiam auxílio financeiro e militar para montar incursões contra o território do país. Assim, a implicância que Chávez manifesta pelo “ocidente” não é recente nem invenção dele e, admitamos, nem sem razão (um excelente artigo sobre o tema, em inglês, aqui).

Em 1902 os EUA tentaram colocar ordem naquele canto do quintal, enviando uma delegação de diplomatas a bordo de uma força-tarefa, com a oferta de créditos financeiros e apoio político. O governo norte-americano mediou, em 1903, um acordo entre Castro e as potências européias que bloqueavam a costa venezuelana. O ditador pareceu sossegar durante pouco tempo, mas logo voltou a criar caso com empresas estrangeiras, o que acabou levando ao rompimento de relações diplomáticas com a França e Holanda. O apresamento de navios mercantes holandeses surtos em portos venezuelanos levou à uma intervenção holandesa (!!!). O resultado desse incidente foi a destruição da “marinha venezuelana” (um punhado de navios totalmente obsoletos) por um esquadrão naval baseado em Curaçao. Esse evento, acontecido em 1907, apressou a queda do ditador, substituído por seu ministro da guerra e compadre, Juan Vicente Gómez, talvez a mais tenebrosa figuraça da história venezuelana. Gómez abriu outro período ditatorial, que viria a durar até 1935. 

Politicamente, desde o século 19, a Venezuela tem uma característica única na América Latina. Nos longos períodos ditatoriais, a presidência não era ocupada, necessariamente, pela mesma figura. Desde a ditadura de Guzmán, tornou-se comum que o ditador se alternasse no poder com aliados fiéis, que o substituíam através de “eleições” e nomeavam o antecessor “ministro da guerra” – já que a base da estabilidade era o exército. 

Gómez seguiu essa regra e a aperfeiçoou, não apenas se alternando entre os postos de presidente e ministro da guerra como também empossando legislaturas e juízes “de fantasia”. Não é por outro motivo que o período de vinte e sete anos de sua ditadura foi marcado por seis constituições, promulgadas para permitir sua continuação no governo, como presidente e ministro.  

A base de poder era o exército, cuja oficialidade era recrutada principalmente das regiões de Táchira e Zulia. Essa oficialidade recebia salários desproporcionais e, principalmente, benefícios resultantes do uso da administração pública e da prática da corrupção. O exército, nessa época, era treinado por militares chilenos de formação alemã, e armado com equipamento up-to-date importado da Alemanha. Por outro lado, o período Gómez também inaugurou a prática da vigilância social por uma polícia secreta onipresente. Por outro lado, o presidente entendia perfeitamente o perigo que representava a proximidade das potências imperialistas, a começar pelos EUA. Procurou manter-se em bons termos com os interesses estrangeiros instaladas no país, ao mesmo tempo que impedia a fuga de oponentes para as colônias próximas – estes eram presos e geralmente “morriam na cadeia” durante os longos períodos em que “esperavam julgamento”.

Por outro lado, afirmava que os venezuelanos, “primitivos e miscigenados”, preferiam um governo violento, que os mantivesse em ordem. Seu governo tinha suporte teórico no livro “Cesarismo democrático” (uma interessante resenha analítica, em espanhol, aqui), escrito pelo historiador, jornalista e teórico racista Laureano Vallenilla Lanz (uma biografia crítica desse avô da “democracia” venezuelana, aqui), que se tornou uma espécie de doutrina do regime. Com base nessa doutrina, Gómez também afirmava que o desenvolvimento nacional somente poderia acontecer sob liderança de uma base de criollos (a classe dominante e seus clientes, brancos de origem hispânica), apoiados por estrangeiros tecnologicamente superiores.

O período do  regime de Gómez foi marcado por certa prosperidade econômica, em função da situação internacional que se seguiu à 1ª GM. A partir de 1918, um novo elemento passou a influenciar fortemente os rumos da Venezuela: o início da exploração, por empresas norte-americanas, do petróleo. Embora essa fase só viesse a explodir nos fim dos anos 1920, a exportação de hidrocarbonetos significou o acesso a uma renda inconcebível no século 19. A explosão da economia dos EUA, depois da guerra, e a crise das economias européias ofereceu oportunidades brilhantes (claro que todas perdidas) à América Latina. A  Venezuela equilibrou sua balança de pagamentos e iniciou um programa de obras públicas que mudou a face das principais cidades. Esses programas, bem como o controle das rendas do petróleo, aumentaram e solidificaram uma classe-média branca e urbana e possibilitaram vantagens para as classes proprietárias que tinham suas rendas baseadas nas antigas produções. A expansão da indústria de petróleo criou um tipo de relação entre capital estrangeiro e classes dominantes locais que não se observava em nenhum outro país da América latina. A exploração e exportação de petróleo dependia de uma base técnica mais complexa do que as exportações de produtos agrícolas, que eram base das economias nacionais de Argentina, Uruguai, Brasil e Peru, então as maiores potências econômicas do continente. Por outro lado, a presença do capital estrangeiro em convivência “pacífica” com uma sólida classe média criou uma ilusão de “ambiência liberal” que também não se observava no resto do continente.

Se o leitor de causa:: (que se caracteriza por uma paciência verdadeiramente paulina…) chegou até aqui, já deve estar percebendo que Hugo Chávez reúne, como figura política, diversas características que têm base na cultura política desenvolvida na Venezuela, ao longo dos cento e tantos anos que o precederam. Mas o interessante é que a oposição “democrática” que o demoniza – e é por ele demonizada – também. Fica claro que o pacto de Punto Fijo, que abriu o período de “estabilidade democrática” que marcou os anos 1960 e 1970 planta suas bases na alternância de governantes de fachada, inventada no século 19. Por outro lado, o “ambiente liberal” era outra fachada, visto que o controle das rendas nacionais era solidamente empalmado por uma classe dominante que o usava para manter o poder – exatamenteo que Chávez vem fazendo, desde que foi eleito.

O buraco chavista é, pois, mais embaixo. Vamos voltar a ambos – esse moderno caudillo e ao buraco, sistematicamente cavado pela situação construída na Venezuela ao longo de meio século de alternância no poder da classe dominante criolla. A quebra desse “equilíbrio” é um dos motivos que fazem Chávez aproximar-se do gigante Pantagruel. Por sinal, essa piadinha hermética os cultos nove ou dez assíduos de causa:: devem ter percebido: na língua falada na Bretanha, durante a Idade Média, “pantagruel” quer dizer “tudo alterado”::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Prussianos antes, alemães depois e a aceleração da História::

 parte2/2Falávamos da “aceleração da história”, e o redator:: está tentando argumentar que a 2ª GM teria sido a culminância de um processo desses, característico da modernidade. Claro que, produzidos por um historiador amador, os argumentos parecerão capengas, mas pelo menos devem ser suficientes para mostrar como a sociedade alemã que produziu Hitler e seus comparsas foi a mesma formação conservadora que optou, sessenta anos antes, por um processo de unificação que desse à nova nação a cara organizada, burocrática e militarista da Prússia.

Outros sessenta anos antes, o período em que os exércitos franceses levaram a transformação social na ponta de seus estandartes e baionetas, talvez possa ser identificado como outro processo de “aceleração da história”. Embora tivesse mitigado as transformações revolucionárias na França, Napoleão contribuiu para abalar as estruturas tradicionais por toda a Europa. Apesar do conservadorismo, tradicional nos estados da região hoje chamada de “Alemanha”, as idéias liberais introduzidas lá durante a guerra pegaram. Baseada na difusão de pequenas manufaturas e companhias de comércio, certas regiões viram a formação de forte classe empresarialque influenciou o resto da região reivindicando reformas de caráter econômico e administrativo – por exemplo, unificação de padrões de medida e eliminação de restrições à circulação. Essa gente, quando teve de procurar aliados, buscou a burocracia do estado, formada por membros da empobrecida aristocracia rural e (nos extratos mais baixos) por homens de letras, professores e advogados.

A Prússia, desde o final do século 18 vinha passando por forte industrialização, baseada em certos ramos da indústria pesada. Tinha, junto com a região do Reno (também em processo acelerado de mudança econômica), interesse nessas reformas. Só não queria (de fato, seus governantes tinham arrepios diante de tal perspectiva) que elas saíssem do controle da elite política: uma coisa era fazer mudanças no regime de aduanas; outra, muito diferente, era liberalizar o regime de propriedade de terras (lá, o feudalismo só foi abolido de vez em 1900) ou de acesso e progressão no serviço público. Por outro lado, as lideranças empresariais viam na rigidez política uma vantagem, já que a unidade de princípios no governo aumentava a eficiência e prevenia que as reivindicações por mudanças políticas acabassem se desdobrando em demandas por mudanças sociais (um artigo sobre o tema aqui). Curiosamente, ambos os lados – liberais e conservadores – viam na unificação a solução para a fraqueza crônica da região, pela qual tinham desfilado, quase sem oposição, os exércitos franceses do período revolucionário. Entretanto, as diferenças políticas não eram pequenas e eram de difícil conciliação. No ano de 1848, o caldeirão ferveu: diversos Estados alemães viram estourar revoltas civis.

No início, as manifestações juntaram vários segmentos políticos num movimento por um parlamento nacional eleito, que elaborasse a constituição de uma Alemanha unificada. Uma Assembléia Nacional de deputados eleitos em todo o território germânico – o Deutscher Bund – se reuniu para a elaboração da nova constituição nacional. Parte da assembléia defendia uma união que incluísse a Áustria, enquanto outra parte defendia a liderança prussiana e a exclusão da Áustria. A solução encontrada foi entregar o governo aos Hohenzollern (a dinastia prussiana). O problema é que o rei Frederico Guilherme IV não aceitou, nem a Coroa nem a constituição, mesma atitude da casa da Áustria. A carta magna proposta teve o condão de desagradar todo mundo, inclusive a sociedade, que pretendia ver diminuído o poder da nobreza, como na França e Inglaterra. A violenta repressão ao movimento popular acabou por suspender as reformas políticas.

A Revolução de 1848 apontou o caminho que passou a ser visto como mais viável: a unificação alemã liderada pela Prússia e pelos Hohenzollern. A violência dos conflitos de rua e a agitação nas cidades acabou por aumentar a desconfiança das classes empresariais e da classe média urbana, que passaram a ver os ativistas liberais e o operariado como politicamente inconfiáveis. 

E nem todos viam a unificação com simpatia. Aristocratas dos pequenos estados anteviam seus interesses facilmente postos de lado, numa Alemanha unificada; a Áustria, predominantemente católica, temia ver sua predominância no sul da Alemanha questionada. A Prússia não via a Áustria com simpatia, pois esta tinha um peso político inegável, além de economia relativamente próspera. Além do mais, Viena era cabeça de um império multinacional e multi-étnico, onde a língua oficial podia ser o alemão, mas tinham peso grupos culturalmente diversos, que certamente não caberiam numa formação política que via na língua e na cultura mais-ou-menos uniformes sua identidade (um excelente artigo – um  tanto longo – sobre o tema aqui).

Por esses motivos a unificação alemã sob a regência dos prussianos não era projeto sem problemas, mesmo que tal formato fosse visto como mais-ou-menos natural: por volta de 1850, a Prússia, potência militar, superou economicamente a Áustria. A liderança política veio em 1862, com a ascensão ao trono de Guilherme I. O novo rei era também especialista em questões militares, e logo promoveu uma reforma nas forças armadas prussianas, particularmente no Exército Real (Königsheer) – o país tornou-se a principal potência militar centro-européia. Os industriais foram convocados a desenvolver uma forte indústria de armamentos, que se destacou na Europa e  abriu uma tradição de suporte do Estado às indústrias militares e de máquinas.

O projeto conservador de unificação foi de fato coordenado por Otto von Bismarck, ex-embaixador na Rússia e na França, nomeado kanzeller (primeiro-ministro) pelo rei no dia seguinte à coroação. Membro da aristocracia rural alemã favorável a uma monarquia forte, Bismarck sabia muito bem que a aliança com a nobreza rural (junkers), era o esteio da monarquia. Por outro lado, percebeu que a grande burguesia industrial não podia ser ignorada. Assim sua política era bipolar: internamente, apoiou a posição da nobreza rural, garantindo-lhes as prebendas – acesso automático ao Exército e ao funcionalismo público; externamente, implementou os interesses da classe empresarial, por fortalecer a união das aduanas, forma segura e já consolidada de integrar os Estados alemães. O kanzeller também estendeu as reformas militares, além oferecer os métodos prussianos a outros Estados. Exacerbando o sentimento nacionalista, reuniu os Estados contra inimigos externos, em três rápidas guerras, decisivas para consolidar a unificação: A Guerra dos Ducados (1864), contra  Dinamarca, a Guerra Austro-Prussiana (1866) e a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871). Bismarck e seu principal assessor militar, o ministro von Möltke (ainda hoje considerado um dos grandes pensadores militares do século 19) promoviam uma estratégia geral de dividir o adversário através de movimentos amplos que buscavam pressioná-los pelos flancos (manobra conhecida como “desbordamento”). Esses procedimentos mostravam grande compreensão, por parte dos prussianos, do espírito da guerra moderna.

É interessante observar que, estruturalmente, as reformas militares de 1862-63 reforçaram a posição da nobreza rural prussiana. Esta comandava camponeses mobilizados na Prússia Oriental, na Silésia e no Brandenburgo. Depois da unificação parte considerável do efetivo passou a ser convocada na Baviera e no Würtemberg, mas o grosso da oficialidade de carreira, assim como o Estado-Maior Geral (de onde saía o comandando do exército), continuou a ser majoritariamente prussiana. Após a unificação, a Prússia – agora 2° Reich -, engajou-se na corrida imperialista, em grande desvantagem para a Inglaterra e a França, e até mesmo para a Itália. O controle de colônias era visto como condição sine-quae-non para a continuidade da expansão capitalista (esse processo foi descrito, de forma magistral, por Lenin, no opúsculo Imperialismo, fase superior do capitalismo) e a guerra imperialista é a resposta para tal impasse, conseqüência lógica do desenvolvimento capitalista em sua fase superior, a dos monopólios e domínio do capital financeiro (mais sobre o tema aqui).

Esta guerra foi a 1a GM, que o Império Alemão lutou com a estrutura organizativa e administrativa prussiana, principalmente o Exército. O enorme esforço representado pelo conflito acabou forçando a estrutura política, depois de 1915, para um regime semelhante a uma ditadura militar. Nenhuma espécie de oposição ou obstáculo aos objetivos militares era tolerada. A coordenação geral era exercida por Hindenburg e principalmente por Ludendorff (que eram ambos prussianos), com o Kaiser aparecendo como figura de proa. A história da “facada nas costas” (que é uma fantasia, mas não inventada pelos nazistas) vem daí – em dado momento, por volta de setembro de 1918, começaram a surgir revoltas e indisciplina principalmente na Marinha (um excelente – e longo… – artigo sobre o tema aqui), por causa da mobilização total que estava provocando escassez de alimentos e de combustíveis. O Kaiser e a estrutura civil agiram rapidamente para tirar a Alemanha da guerra. Claro, isso não seria feito sem a anuência do comando do exército, e não é à toa q os SA diziam, na ascensão do nazismo, que “esses aristocratas de merda perderam uma guerra e com certeza vão perder outra”.

Os nazistas herdaram a estrutura civil e militar prussiana, sem nenhuma mudança. O fim repentino da guerra – o armistício de novembro – e o  fato de que o exército não foi totalmente derrotado (de fato, a situação era de impasse estratégico) fizeram com que a Alemanha não chegasse a ser ocupada. A desmobilização imposta à Alemanha, que entregou seu armamento sem dissolver as forças armadas, acabou, de certa forma, preservando a estrutura militar. O período de agitação política inaugurado em 1919 acabou fazendo com que os aliados aceitassem que a repressão fosse conduzida pelos próprios alemães. Os exércitos privados que lutaram pelo controle das ruas, na década seguinte, se formaram nessa conjuntura, com base na estrutura dos “Corpos Francos”, unidades formadas por combatentes desmobilizados em 1918, mantidos juntos como tropas paramilitares.

Foi o caldo de cultura no qual se alastrou o radicalismo. As SA (Sturm Abteilugen – “Seções de Assalto”) tropa de rua do Partido Nacional-Socialista foram um dos muitos exércitos privados, reforçados, depois de 1929, pela crise geral. Esse período observou intensa disputa entre movimentos que, no panorama da instável democracia liberal, pretendiam mudar o Estado de modo revolucionário. Todos (inclusive os comunistas) pretendiam herdar a estrutura prussiana, embora quisessem se livrar da tradição prussiana. Ernst Röhm, radical militarista, um dos personagens mais interessantes da primeira fase do nazismo, era um desses divergentes. Tinha idéias de formar um exército popular baseado em mobilização massiva e treinamento constante, com as SA no comando da formação de reservas e do treinamento de recrutas, o que significava tirar o poder da aristocracia militar. Acabou assassinado em 1934 por seus comparsas.

No artigo acima (talvez um pouco longo…) vimos diversos exemplos da “aceleração da história”. Trata-se de um conceito decorrente de uma teoria – o “materialismo dialético”, tentativa de tornar científica a disciplina da história. O conjunto de fatores derivados de um determinado movimento histórico combinados, levam à sua superação (para uma introcução bastante completa, clique aqui). O materialismo dialético pretende ser, ao mesmo tempo, o fim da filosofia e o início de uma nova filosofia, que não se limita a pensar o mundo, mas pretende transformá-lo. Esse tipo de ativismo é bastante característico da “modernidade”: o homem se torna sujeito da ação.

Os nazistas pretendiam superar o que sua doutrina via como obstáculos estruturais da sociedade alemã, e assim acelerar a chegada a um objetivo de longo prazo – uma utopia.  Através do equilíbrio forçado e mesmo da eliminação, de contradições inerentes à formação histórica e organização política da Alemanha, visavam uma sociedade sem tensão, uma espécie de formigueiro no qual cada um sabia seu lugar e o futuro seria apenas algo a ser aguardado, e não uma incógnita decorrente do caos inerente à realidade objetiva (os pensadores iluministas já reclamavam disso). A aceleração desse processo seria buscada via rompimento institucional, mas contradições dificilmente são superadas dessa forma, pois a superação cria outras contradições, e acaba determinando a necessidade de novos movimentos de aceleração. O exemplo objetivo desse limite foi a mantenção da estrutura do Estado prussiano, com suas instituições autoritárias por formação (o serviço público) e militaristas (o exército prussiano). A remilitarização de 1935 foi o ponto de chegada de uma série de concessões aos prussianos, que assumiram o processo. A “parte nazista” dizia respeito à coordenação da economia e da produção. O partido tornou-se parte da máquina de Estado, e não apenas coordenação da máquina de Estado, e seus agentes passaram a dizer diretamente às classes empresariais o que fazer. Por outro lado, a estrutura de base continuou a mesma, ou seja, o serviço público se organizando em torno e com a finalidade de servir aos interesses do Estado, e não propriamente ao público (característica do serviço público alemão que Marx, muito tempo antes, já tinha percebido, quando ainda era estudante de doutorado). Os servidores públicos não eram obrigados a se filiar ao partido – apenas se esperava que servissem ao Estado sem discussão. Trata-se de uma espécie de “processo revolucionário pela metade”, mas ainda assim, a característica de rompimento era importante, tanto que os primeiros membros do movimento – Gregor e Otto Strasser, Enst Röhn, Viktor Lütze, se diziam revolucionários lutando contra a sociedade “burguesa”.  

Como não se pode esperar que todo mundo concorde conosco (outra característica inerente ao homem), a única coisa que os nazistas realmente mudaram foi a polícia, por motivos óbvios. Essa instituição passou a ser diretamente subordinada aos governos das “Ländern” (algo como “províncias”, com certo grau de autonomia local – Himmler foi chefe de polícia da lande Prússia). Os nazistas esperavam mudar as estruturas do Estado a partir de uma posição interna, mas sem chegar a mudar as estruturas da sociedade alemã. Foi assim com o Exército: os nazistas não confiavam totalmente nos “aristocratas prussianos”, mas dependiam deles, inclusive para manter a disciplina. Mas, ao mesmo tempo que mantinham e ampliavam os privilégios dos militares, criavam uma estrutura paralela, a Waffen SS – apesar do nome e ter Himmler por comandante nominal , na prática separada da SS policial – que emulava a estrutura do exército. Não se pode afirmar que, com a vitória, essa estrutura acabasse por substituir o Exército tradicional. E nem se pode afirmar o contrário. Por sorte, podemos agora apenas especular:: 

Essa é uma indicação de que os nazistas tinham em mente uma espécie de revolução conservadora, baseada na reestruturação, sem modificações radicais, da sociedade e de suas instituições. Sua ascensão é evento característico da modernidade.  Talvez seja também o ápice da crise de uma modernidade que, como todos os processos humanos, surgiu cheia de defeitos, mas também teve algumas qualidades. E – na opinião do redator:: um tanto pessimista – como em todo processo humano, os defeitos prevaleceram sobre as qualidades…::

Coroação de Guilherme I Hohenzoller como Kaiser do Império da Alemanha em Versalhes (Paris, 1871). Último ato de uma curta guerra (contra os franceses) e de um longo processo. Alegenda em alemão diz "Nós levamos o reino prussiano para a cova". O tempo mostraria que nem tanto...

Recordar é viver::Como o Ocidente constuma a tratar as nações árabes::

Agora que os EUA parecem dispostos a abrir negociações com Irã, e agora que Israel, desde sempre, vitupera tendo como fundo musical o tiroteio de suas armas de última geração (em boa parte financiadas pelos EUA), talvez algumas pessoas tenham a curiosidade aguçada por saber quais são os antecedentes históricos dessa situação. Já falamos alguma coisa em torno da Guerra dos Seis Dias, quando todos os problemas da região parecem ter começado. Digamos que começou uma espécie de “segundo capítulo” uma vez que Israel, então, conseguiu aquilo que os especialistas militares chamam de “vitória decisiva”. O primeiro capítulo começa em 1948, e o enredo apresenta a nação judia “lutando pela sobrevivência” contra vizinhos reconhecidos (ainda hoje, por grande parte da imprensa ocidental…) como odientos e incivilizados. Esse “primeiro capítulo” teve várias “cenas”. Escolhemos uma delas. Recordar é viver…::

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A descolonização do Império Britânico veio relativamente rápido após a Segunda Guerra Mundial. Em 1947 foi concedida a independência a Índia, ao Paquistão e a Birmânia; no ano seguinte, foi a vez do Ceilão. O processo não deixou de ser sangrento – milhões de hindus e mulçumanos foram massacrados em faxinas étnicas e nos subseqüentes deslocamentos populacionais -, mas a potência colonial em si recuou relativamente ilesa. Um levante comunista, na vizinha Malásia, no entanto, levou o governo britânico, em junho de 1948, a declarar um estado de emergência que só seria suspenso doze anos mais tarde, com a derrota dos rebeldes. Mas, de modo geral, e apesar da retirada de residentes e administradores coloniais da Índia e de países vizinhos, a saída da Grã-Bretanha do sul da Ásia foi menos traumática do que se poderia esperar.

No Oriente Médio, a situação foi mais complicada. No território da Palestina, sob mandato britânico, a Grã-Bretanha, em 1948, declinou de suas responsabilidades – ainda que sem grandes tribulações. No Iraque, Grã-Bretanha e EUA tinham interesses em comum, relacionados ao petróleo, mas, finda a guerra, os EUA, progressivamente  substituíram o Reino Unido na condição de potência dominante. Mas foi num país que jamais tinha sido colônia britânica onde a Grã-Bretanha, paradoxalmente, vivenciou todas as ironias dramas da descolonização, colhendo, como “cereja do bolo”, uma derrota acachapante: o Egito. Essa história toda se passou ao longo de alguns anos, entre 1954 e 1956, e recebeu o nome de “Crise do Canal de Suez”. Foi quando a Grã-Bretanha, pela primeira vez, passou por um tipo de humilhação internacional que já era bem conhecida pelos franceses.

O interesse britânico no Egito tinha dois nomes (talvez “tags”, como dizemos nesses blogues…): subcontinente indiano e necessidade de petróleo. Os britânicos tomaram o Cairo em 1882, em plena época de ouro do imperialismo, treze anos depois da abertura do Canal de Suez. Até a Primeira Guerra Mundial, o Egito foi comandado, de fato, por um residente britânico (durante a maior parte do período o temível lorde Cromer). De 1914 a 1922, o Egito foi protetorado britânico, antes de se tornar independente. As relações entre os dois países permaneceram estáveis, por algum tempo, sendo formalizadas através de um tratado em 1936. Todavia, em outubro de 1952, o novo governo do Cairo revogou o referido tratado. Em resposta, os britânicos, receosos de perder o acesso privilegiado a um curso de água, estrategicamente crucial, reocuparam a Zona do Canal.

Dois anos depois, o então tenente-coronel Gamal Abdel Nasser, tornou-se chefe de governo e passou a exigir a retirada dos britânicos do Egito. Cada vez mais dependente do petróleo barato e pago em libras, transportado através do Canal , os britânicos tentaram transigir. Conforme Anthony Eden, então ministro das Relações Exteriores, advertiu em fevereiro de 1953, ao Conselho Ministerial Britânico, “a ocupação militar pode ser mantida à força, mas, no caso do Egito, a base que apóia tal ocupação será de pouca utilidade, se não houver mão-de-obra local que a sustente.”

O resultado foi que, em outubro de 1954, Londres assinou um acordo para evacuar a base militar de Suez em dois anos. Mas o acordo previa que a presença militar britânica no Egito poderia ser retomada caso seus interesses na região fossem ameaçados. O acordo foi cumprido e em 13 de junho de 1956 os últimos soldados britânicos deixaram Suez. Aquela altura, o Nasser já se tornava um problema. Seu carisma funcionava como um imã para os radicais árabes da região. Como se isto já não fosse suficiente, apareceram os soviéticos: em setembro de 1955, o Egito anunciou uma grande transação de armas com a Tchecoslováquia, satélite da URSS. Eden e seus assessores começaram a comparar Nasser a Hitler: uma ameaça diante que era preciso enfrentar, e não se curvar. Paris tinha a mesma visão, embora a insatisfação francesa tivesse motivos diversos: Nasser era um a influência negativa sobre os súditos franceses do norte da África. Os americanos também não nutriam nenhuma simpatia pelo presidente do Egito. Durante uma reunião com Tito, na Iugoslávia, em julho de 1956, Nasser lançou uma declaração de “não-alinhamento”, explicitamente declarando o Egito independente do Ocidente. Os norte-americanos sentiram-se ofendidos,e interromperam as conversações sobre o financiamento para a represa de Assuan, a ser construída no Nilo. Uma semana depois, Nasser nacionalizou a Companhia do Canal de Suez. O motivo é fácil de entender: o Canal era em território egípcio, porém a maior parte das receitas recolhidas nele destinava-se à companhia de capital estrangeiro com sede em Londres. A reação das potências ocidentais foi o estabelecimento de uma frente, convocando uma reunião em Londres para decidir a resposta a Nasser. Realizada em 23 de agosto, dela resultou um “plano”, a ser apresentado ao governo egípcio pelo primeiro-ministro australiano Robert Menzies, um liberal extremamente pró-britânico e pró-ocidental (em seu segundo período d governo, a Austrália envolveu-se na Guerra do Vietnam). Todos pareciam esperar que a proposta fosse rejeitada, como de fato, foi. Os delegados que haviam comparecido ao encontro em Londres voltaram a se reunir entre 19 e 21 de setembro, e criaram a Associação dos Usuários do Canal de Suez. Nesse ínterim os britânicos anunciaram que encaminhariam a disputa à plenária das Nações Unidas.

Até aquela altura os britânicos procuravam alinhar sua reação às posições de Washington, mas suspeitavam, desde antes da Segunda Guerra, das motivações  norte-americanas quanto à região e ao império, como um todo. Era crença corrente em Londres que Washington pretendia substituir a Grã-Bretanha no Oriente Médio, e a retórica norte-americana sobre a “autodeterminação dos povos” e o “livre comércio” era interpretada pelos britânicos como recurso para seduzir elites locais. Ainda assim as relações entre os dois países mantinham-se, de modo geral, boas. A dinâmica da Guerra Fria encobria os ressentimentos mútuos e os britânicos achavam que a conversa de Eisenhower sobre um “excesso de preocupação com Nasser” era retórica para o público externo mas, na hora do “ora, veja”, poderiam contar com a simpatia dos EUA.

Foi nesse contexto que o primeiro-ministro britânico  resolveu dar uma lição no egípcio mal-comportado. Até então, a ONU vinha sendo vista como fórum para discussão da questão, e tanto britânicos como franceses levavam a suas querelas à Assembléia Geral. Mas de fato as duas potências não queriam uma solução diplomática – consideravam a organização internacional morosa, pouco enérgica e incapaz de entender os interesses dos dois países. O governo britânico então, deu início a conversações secretas com a França, para buscar uma solução militar conjunta: a invasão do Egito. Em 21 de outubro, os planos foram ampliados com a inclusão dos israelenses. Estes tinham interesses bastante claros: uma linha precária de cessar-fogo tinha sido estabelecida entre Egito e Israel, em fevereiro de 1949, através de um armistício. Ambos os lados, entretanto, a consideravam inaceitável, e as hostilidades eram freqüentes principalmente na região de Gaza. Desde julho de 1951 os egípcios bloqueavam o golfo de Aqaba, restringindo o comércio e a locomoção dos israelenses. Israel pretendia reduzir a esfera de ação de Nasser e garantir os interesses territoriais e de segurança nacional do país, no Sinai e nas áreas circunvizinhas. O grupo reunido secretamente chegou a um acordo. Israel atacaria o exército egípcio no Sinai, avançando para ocupar toda a península, inclusive o Canal de Suez, no limite ocidental. Franceses e britânicos expediriam um ultimato, exigindo que os dois lados recuassem e então, comoforças neutras, em nome da comunidade internacional, atacariam o Egito. A ofensiva começaria pelo ar e continuaria por mar. Assumiriam o controle do Canal, sob a alegação de que o Egito não tinha competêcia para controlar um recurso tão importante. O plano foi mantido em absoluto segredo. A princípio, tudo pareceu correr bem. Em 29 de outubro, as forças israelenses avançaram pelo Sinai. Ao mesmo tempo, de Malta, uma força tarefa britânica que incluía dois navios-aeródromos e forças aeromóveis zarpou em direção ao Egito. A agressão israelense foi levada ao Conselho de Segurança em 30 de outubro, e, no dia seguinte, Grã-Bretanha e França vetaram uma moção que determinava o recuo de Israel. Ao mesmo tempo, expediram ultimato conjunto aos beligerantes, exigindo que  cessassem as hostilidades e aceitassem a ocupação militar anglo-francesa da Zona do Canal. No outro dia, aviões britânicos e franceses atacaram campos de aviação egípcios. Em 48 horas os israelenses concluíram a ocupação do Sinai e de Gaza, ignorando a determinação de cessar-fogo expedida pela Assembléia Geral da ONU. Por sua vez, os egípcios afundaram navios no Canal de Suez, impedindo qualquer navegação. Dois dias depois, em 5 de novembro, as primeiras tropas anglo-francesas de infantaria desembarcaram na região. Aí as coisas então começaram a dar errado. A resistência egípcia foi maior do que o esperado, e apesar dos ataques aéreos vindos de três direções, aeronaves egípcias, provavelmente pilotadas por soviéticos e tcheco-eslovacos, teimavam em contra-atacar. Para piorar, os israelenses não conseguiram alcançar todos os objetivos propostos. A coisa acabou de azedar depois de 6 de novembro, quando Eisenhower foi reeleito presidente dos EUA. Não demorou dois dias para que Washington reagisse com indignação inesperada, e declarasse a operação anglo-franco-israelense como uma conspiração. Londres e Paris haviam intencionalmente violado a carta e o espírito da Declaração Tripartite de 1950, tratado que comprometia Grã-Bretanha, França e EUA a agirem contra o agressor, na eventualidade de qualquer conflito entre Israel e os árabes. Os EUA passaram a exercer dura pressão sobre os britânicos, exigindo que  sustassem a invasão do Egito. Para desgosto dos britânicos, chegaram a ameaçar suspender o apoio a libra esterlina. Uma eventual desvalorização de sua moeda os britânicos não poderiam encarar, pois traria conseqüências internas e possivelmente derrubaria o governo.  Eden teve de ceder e em 7 de novembro, apenas dois dias após a descida de tropas aero-transportadas britânicas em Port Said, as hostilidades cessaram. No mesmo dia, a ONU autorizou o embarque de uma Força de Paz para o Egito, aceita por Nasser, em 12 de novembro, desde que a soberania egípcia não fosse violada. Três dias depois, a Força de Paz da ONU chegou ao Egito, e em 4 de dezembro avançou para o Sinai. Lá permaneceria durante 10 anos.

O Brasil integrou, ao longo desse tempo, a Força de Emergência das Nações Unidas, com o 3° Batalhão do 2º Regimento de Iinfantaria, cuja base ficava na Vila Militar, Rio de Janeiro. A unidade integrava a 1ª Força de Emergência das Nações Unidas (UNEF 1). Foi a primeira experiência das Forças Armadas brasileiras em uma missão de paz da ONU. O batalhão, que, pelas regras da organização, não tinha armamento pesado, ficou baseado na Faixa de Gaza, entre 1957 e 1967. Sua missão era patrulhar a linha de cessar-fogo, monitorando o trânsito de pessoas e equipamentos. Era  integrado por aproximadamente 600 efetivos, que se revezavam em períodos de aproximadamente 6 meses. Passaram por Suez uns 6.000 oficiais e praças brasileiros. O Brasil exerceu o comando operacional da UNEF 1 em duas oportunidades: de janeiro a agosto de 1964, com o general-de-brigada Carlos Paiva Chaves, e de janeiro de 1965 a janeiro de 1966, com o general-de-divisão Sizeno Sarmento::

A estratégia da guerra pós-clausewitziana::

(NYTimes.com)A jihad em imagens(15 de outubro)

Quando Osama Bin Laden divulgou mensagem de vídeo para o povo americano, mês passado, um jovem entusiasta da jihad ajudou a espalhar o conteúdo. “A América precisa ouvir o xeque Usaamah e levar sua mensagem a sério”, escreveu ele em seu blog.

O blogueiro é Samir Khan, um americano de 21 anos, morador na Carolina do Norte, onde montou uma espécie estação distribuidora para produções de grupos islâmicos radicais. Nos últimos dias, a estação de Samir distribuiu as “alegres notícias” sobre a morte de 31 soldados argelinos por um grupo radical do norte da África. Também pode ser baixado um tratado acadêmico que defende a jihad violenta, devidamente traduzido para o inglês. Também estão lá centenas de links para sites violentos contendo imagens da insurgência no Iraque. Nascido na Arábia Saudita e criado em Queens, Nova Iorque, Khan é um soldado do que a al Qaeda chama “mídia jihadista”.

Não há nada que sugira que Khan esteja agindo de forma coordenada com líderes radicais ou infringindo qualquer lei. Ele é parte de um grupo crescente de operadores de mídia que estão transmitindo a mensagem da al Qaeda e de outros grupos, uma mensagem que se dirige cada vez mais ao publico ocidental.

Especialistas em terrorismo da Academia Militar dos Estados Unidos dizem que há cerca de cem sites em inglês, que oferecem a visão de radicais islâmicos. Esses parecem estar criando um canal com jovens muçulmanos americanos e europeus ao jogarem com o ódio que a guerra no Iraque desperta e com a imagem de um Islã sob ataque.

Os textos originais árabes, longos e tediosos para os padrões ocidentais, são retrabalhados, usando técnicas de publicidade. Folhetos de recrutamento são distribuídos e encontra-se até novelas online, todas com temas sobre a jihad. Sites como o YouTube também tem servido como veículo para esse matarial.

A al Qaeda usa a Internet há anos, mas quem acompanha as novas produções concorda que o material melhorou muito em qualidade, e se tornou atraente para um público acostumado com a rapidez da Internet.

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Segundo Rohan Gunaratna, pesquisador-chefe do Centro Internacional de Pesquisa sobre Violência Política e Terrorismo da Universidade Técnica Nanyang, de Singapura, “a al Qaeda é uma organização essencialmente moderna”. É uma declaração surpreendente, embora saibamos que a organização já demonstrou grande habilidade no uso de meios de comunicação de massa e do sistema financeiro internacional da era da globalização. Mas, segundo Gunaratna, não são essas habilidades que demonstram o caráter moderno da al Qaeda, mas o fato de que a organização demonstrou entender perfeitamente que as guerras do século XXI tem na disseminação de imagens espetaculares em tempo real uma estratégia central. No ataque às Torres Gêmeas, a organização de Bin Laden mostrou uma capacidade surpreendente de conceber o uso da televisão via satélite para mobilizar o apoio dos países muçulmanos.

A modernidade da al Qaeda também fica patente conforme sua organização se mostra distante da estrutura centralizada e burocrática dos partidos revolucionários do século XX, e mais próxima da organização celular dos cartéis de distribuição de drogas e das redes planas das empresas virtuais. A al Qaeda assemelha-se à uma multinacional, sugere Gunaratna. Surgida na fase final da Guerra Fria, financiada pelos sauditas e com beneplácito dos EUA e dos governos europeus, terminada a guerra contra os soviéticos, tornou-se o primeiro praticante da guerra não convencional capaz de dar escala mundial às suas operações. “Em vez de resistir à globalização, suas forças estão sendo reunidas por grupos islâmicos contemporâneos, constantemente atrás de novas bases e novos alvos pelo mundo”, diz o pesquisador.

A guerra pós-clausewitziana parece que será travada por pequenas unidades com alto grau de iniciativa, dependendo essas unidades de sua capacidade utilizar localmente recursos levantados em escala global, inclusive comunicando-se através da Internet. Essa aparente flexibilidade, que lança mão tanto da motivação individual mobilizada pela ideologia quanto de recursos tecnológicos bastante sofisticados, mas, ao mesmo tempo, acessíveis a qualquer um com certo grau de conhecimento técnico, mostra sua face na capacidade dos pequenos grupos em colocar forças bem maiores em posição de defesa. O grau de iniciativa também fica patente na capacidade que a rede al Qaeda demonstra em sobreviver ao isolamento de seu líder.

Outra demonstração recente do caráter da guerra pós-clausewitziana foi dada durante a invasão de Israel ao sul do Líbano, com o objetivo de anular o grupo militante xiita Hezbolá. Israel declarou que a responsabilidade sobre as ações do grupo xiita era do governo do Líbano, que estaria permitindo o uso de seu território. Isso demonstrou uma curiosa incapacidade em entender o caráter assimétrico por excelência da guerra pós-clausewitziana. Após mais de 40 dias de operações que provocaram sérios danos à infra-estrutura civil do Líbano, as forças armadas de Israel se retiraram do Líbano sem alcançar nenhum dos objetivos a que haviam sido propostos.

A milícia do Hezbolá mostrou grau de treinamento e disciplina que surpreendeu os israelenses e a maioria dos analistas ocidentais. De fato, alguns falaram em uma vitória parcial do Hezbolá, enquanto outros apontaram uma espécie de “empate técnico”. Usando armas convencionais provavelmente fornecidas pelo Irã e pela Síria, os milicianos xiitas conseguiram ,em algumas ocasiões, interditar o terreno às unidades blindadas de Israel. A utilização de equipamentos como o lança-rojão RPG-29 e óculos de visão noturna mostraram um novo estilo de guerra assimétrica, na qual o lado mais fraco mostra-se capaz de colocar em xeque o lado mais forte. A vulnerabilidade israelense residia exatamente no uso de forças convencionais de difícil operação. Os milicianos, dispersos pelo território, dotados de uma perfeita consciência do terreno e armas adequadas, demonstraram capacidade de tomar decisões mais rapidamente que o exército de Israel.

O uso da população civil como escudo, embora seja bastante cruel, em sua essência, é extremamente eficaz, já que torna as ações militares, principalmente as que envolvem aviação, extremamente antipáticas, e obrigam o adversário a justificar-se perante seus aliados.

A guerra pós-clausewitziana pode significar um retorno à noção de estratégia indireta, teoria formalizada pelo analista inglês Basil Lidell-Hart. Essa idéia faz um certo sentido, diante da posição ocupada hoje pelos EUA, no panorama militar. Após a Segunda Guerra Mundia, a adesão ao princípio de “revolução em questões militares” deu aos EUA a supremacia inquestionável sobre o campo de batalha. Enfrentar uma estrutura assim organizada, diretamente, é impossível. Mas enfrentá-la indiretamente é possível, como temos visto em algumas situações, caso recorramos à história militar. Talvez outro aspecto da guerra pós-clausewitiziana seja exatamente o fato de que forças armadas convencionais estejam se encaminhando para o declínio – estruturas muito dispendiosas, em todos os sentidos, e inúteis, diante da assimetria de poder. Entretanto, não deixa de ser interessante pensar que, aquilo que a URSS não conseguiu (e desapareceu tentando…), bin Laden e seus ativistas têm conseguido. A al Qaeda é o futuro da guerra? Se for, talvez já estejamos vivendo o futuro.