Uma outra visão – não tão agradável – sobre o dilema brasileiro::

TENHO OPTADO por postar meus delírios no Facebook, de modo que quase abandonei – quase não: abandonei mesmo – o blogue das boas causas durante anos. A agilidade do FB, que descobri tem pouco tempo, é bem maior, e posso ter a ilusão de que serei lido. Entretanto, tenho de reconhecer que o FB também tem lá suas limitações. A agilidade é justamente, e paradoxalmente, uma delas. Aquela plataforma não parece feita para textos muito longos. causa:: não: aqui já publiquei textos de dez páginas, sem o menor pudor, e os leitores sempre foram poucos mas fiéis. Assim, tomei a decisão (tentarei cumprir) de usar o Facebook como uma espécie de letreiro para os textos maiores, que publicarei aqui. Assim, posso ter a certeza de que não encherei o saco de ninguém lá::

Um exercício interessante a leitura de A tolice da inteligência brasileira (São Paulo: Casa da Palavra, 2015, 220 p.) do advogado e doutor em sociólogo e atual presidente do IPEA Jessé Souza. O doutor Souza é professor de Sociologia Política da Universidade Federal Fluminense, e suas teses são bastante polêmicas, embora relativamente pouco conhecidas entre nós – ele passou boa parte de sua carreira em universidades alemãs, onde conseguiu seu doutorado, em 1991. Modéstia à parte, eu conheço bem as teses dele, e até já as levantei anos atrás, em um dos posts aqui no causa:: juntamente com a tese dos professores (e contemporâneos, com toda honra) João Fragoso e Manolo Florentino, sobre o “arcaísmo como projeto”. No momento, não resisto a, respeitosamente, colocar Fragoso e Florentino de lado e comentar sobre as  teses do doutor Souza. Considero indispensável, neste momento, chama-lo para o debate sobre o momento pelo qual o Brasil passa.

Em resumo, é mais ou menos o seguinte: diz Souza que indivíduos inteligentes, bem formados e informados, e os grupos sociais a que pertencem são feitos de tolos (eu diria “idiotas”, mas respeitemos a letra do autor…) como parte da estratégia usada pela elite para reproduzir os privilégios injustos com que convivemos e que – sejamos precisos – também nos atingem e nos vitimam. É a tese central do livro: a classe média, da qual faz parte a inteligência, se deixa enganar por falácias como a da “meritocracia”. Se crê (no sentido, acho eu, religioso do conceito) como o extrato social cujos membros se fizeram por “mérito próprio”, conquistado através do esforço e do trabalho. Por outro lado, tende a negar os seus privilégios culturais que lhes são concedidos, e como tais previlégios resultam de benefícios que são negados ao resto da população. Essa elite intelectual, ocupando a universidade, os laboratórios e parte da burocracia estatal, tende a buscar integra-se a um projeto político que, pensam, os beneficia, e constroem uma imagem distorcida do Brasil. Essa imagem tira o foco dos problemas de fundo – que residem  justamente no sistema  de privilégios que o projeto político da elite visa manter e ilumina problemas que são meras decorrências: conforme Souza, a corrupção é uma dessas decorrências.

Plutocratas e oligarcas precisam, na atualidade, desse “exército de intelectuais”. Estes, principalmente na burocracia do Estado, na produção e reprodução do conhecimento, nos meios de comunicação (as hoje ditas “mídias”) e na industria cultural irão burilar e aperfeiçoar o discurso que ilumina as decorrências e oculta a questão de fundo. É assim que a contradição de base desaparece da tela e as decorrências mantém a sociedade no estado em que está: 1 por cento da população brasileira consegue se apropriar do resultado do trabalho dos outros 99 por cento.

Não é que os intelectuais façam isso de caso pensado – é uma questão de acabar enredado na própria teia, a visão de mundo que orienta o pensamento e a ação. Essa teia tem um nome: ideologia. Considero este um dos pontos em que o livro de Souza deixa a desejar.

A democracia formal vigente é uma dessas distorções: é essa uma conclusão inevitável e dramática, quando começamos a entrar na vibe de Souza (quero dizer que as reflexões a seguir são enfeitadas com algumas de minhas pérolas). A “democracia formal” é instituída por um processo histórico, mas desse regime se torna parte um processo de violência simbólica, que se disfarça em convencimento pelo “melhor argumento” e pela prevalência do “debate civilizado” – parlamentar e civil. Em teoria, toda a sociedade organizada e regulada, a “sociedade civil”, participa desse “debate civilizado” (“civil”, “cidadão” e “civilizado” têm a mesma raiz, o vocábulo latino “civis” – a cidade política). Só que cabe, neste momento, perguntar quais são os canais de manifestação de que dispõem as categorias periféricas, os grupos cuja cidadania se expressa mais em deveres do que em direitos. Via de regra, os movimentos sociais são demonizados em suas reivindicações (um exemplo? Lembram-se do MST?..) ou mesmo criminalizados.

Tal violência simbólica só consegue vigir porque os tais 1 por cento aparelham e usam as estruturas políticas – a tal “democracia formal, liberal e parlamentar”, para controlar todas as estruturas, não apenas do poder “de vara” – estruturas judiciárias. militares e policiais –, mas também – e talvez principalmente, diria eu – da produção de conhecimento, de formação da população e da informação. A construção da sociedade política em um regime como o nosso, a construção da exclusão, inclusive da classe média. Os detentores dos privilégios monopolizam recursos que deveriam estar ao alcance de todos, como, por exemplo, o acesso à educação básica de qualidade, enquanto escamoteiam a questão da qualidade da educação. Como fachada programática disseminam a ideia de que “a educação resolverá todos os problemas” e, num futuro perdido no tempo mítico, instituirá a meritocracia – enquanto o que a realidade do tempo presente mostra que a “educação de qualidade” nunca é posta a disposição das classes periféricas. Outro ponto onde tal violência simbólica fica evidente é o que tenta apresentar nossa sociedade como “sem racismo”. Não é que os intelectuais acreditem nisso, mas Ali Kamel e William Waack, que disseminam essa ideia através das Organizações Globo, contam com a colaboração involuntária de milhares de professores universitários que, meio envergonhadamente, dizem que “as cotas vão acabar com a universidade pública”.

Discursos como os que temos visto nos meios de comunicação, que legitimam tamanha violência simbólica, só são possíveis em função do “sequestro” (eu diria “desapropriação”, mas já e outro debate…)  de boa parte da inteligência brasileira que, mesmo sem saber, são postos a trabalhar em prol do 1% de detentores de bens e recursos, sejam materiais ou simbólicos. A tal “democracia formal” é o sistema que permite a manutenção da exploração do trabalho sob a capa de um “estado de direito”, “liberdade de expressão”, “direitos individuais” e outras belas construções erguidas ao longo da trajetória da sociedade ocidental, que o sistema político liberal transformou em meras falácias. Esse sistema mostra sua face cheia de dentes toda vez que suas bases são, de alguma forma – mesmo que inócua – postas em questão. Ou dizendo de outra forma – toda vez que um Lula aparece e tenta arranhar os privilégios seculares que nos mantém a beira do pântano que no momento vemos transbordar.

O livro está à venda na amazon.com.br por 29 reais, e em e-book por 25. Diria que é uma leitura indispensável.

Para quem estiver disposto a saber um pouco mais sobre o pensamento de Souza, uma entrevista com o autor publicada em 11 de março de 2016 pelo jornal Gazeta do Povo, e uma resenha muito mais completa que o texto acima, recolhida no Cidadania e cultura, do professor Fernando Nogueira da Costa.

Divirtam-se! E pensem no assunto::

 

 

 

Muito prazer: meu nome é desinformação, mas pode me chamar de rolo-de-fita crepe::

Ando um tanto enrolado com outras atividades que preciso levar adiante, e em função de uma ordem de prioridades que não é produzida por mim, causa:: está em férias forçadas. Mas agora, não pude resistir – os artigos científicos têm de esperar, porque apareceu algo mais interessante: o atentado/ataque dos terríveis agitadores bolinha de papel/rolo de fita crepe contra o candidato da oposição, José Serra.

Nem é preciso repetir a história: afinal, durante três dias não se falou em outro assunto, até que o impacto começou a diminuir, o debate sobre quem mentia ou deixava de mentir se tornou mais equilibrado, inclusive com sugestões de fratura de objetivo (tudo que a Rede Globo poderia não querer, neste momento). O conglomerado carioca e seus pares paulistas já mudaram de assunto, à esta altura.

Entretanto, para os nove ou dez leitores de causa::, interessados que são (espero que ainda sejam…) em estratégia e assuntos militares, ainda vale à pena espiar o assunto. Sugiro, como introdução, uma passagem na melhor interpretação que encontrei na Grande Rede, não por acaso de meu debatedor favorito, o Catatau (leia, em sequência, todos os posts que o blogueiro tem enviado, sobre o tema – por sinal, o blogue tem me surpreendido com o melhor material analítico sobre as eleições). Com licença do bom Catatau, aproprio-me de um trecho de um dos excelentes textos escritos por ele por ele sobre temas eleitorais: Fim de papo para Dilma. Mas conforme o jornal, não para Serra. A imagem do SBT era uma; a do celular mostrava outro acontecimento diferente. O médico, indignado, declarou que Serra teve um “edema” (sic). O efeito retórico do jornal é nítido em um trend topic do twitter: “lulamente”. O significado da notícia foi bem claro: Lula mentiu (não se enganou ou não se precipitou) e Serra recebeu algo semelhante a um atentado. Dilma foi agredida? Conte-se o tempo, as ênfases, as entonações, o drama empregado pela imagem e som da notícia para concluir

Depois de ler o Catatau, fiquei matutando sobre exatamente o que significou o episódio, enquanto pulava de site em site, procurando interpretações para o acontecido. Nenhuma dizia nada de surpreendente, e todos os bons analistas pareciam curiosamente desmemoriados,dada a “folha corrida” da Globo, quando o assunto envolve política. Depois de algum tempo me veio à cabeça uma única palavra: contra-inteligência.

Certo – não é uma palavra, são duas. Juntas, caem direto no berço da tal “polissemia”, a multiplicidade de sentidos (interpretações) que qualquer expressão da língua, seja falada ou escrita, pode ter. Segundo o quase sempre ótimo NPTO, no caso, “contra-inteligência” significaria mesmo “contra a inteligência”, ou “contra qualquer forma de inteligência”. Tendo a concordar, mas, por fidelidade à temática de causa::, introduzo outro, ao qual se deveria prestar mais atenção: inteligência.

Não propriamente a “inteligência” (ou falta dela…) à qual se refere o Celso Rocha de Barros, mas aquela que diz respeito à “capacidade de apreender e organizar os dados de uma situação”. É a área que as forças armadas chamam de “inteligência militar”. O “setor de inteligência” (no jargão do Exército Brasileiro, conhecido como “G-2”, do norte-americano, “J-2”) tem por função fornecer análises das informações disponíveis sobre o inimigo, recolhidas através de diversos meios em diversos níveis de profundidade. Uma tal análise tem de incluir todos os níveis de informação de que possam necessitar o comandante e seus auxiliares. A atividade de inteligência inclui o recolhimento, a seleção, a análise, a proteção e a disseminação da informação sobre o ambiente operacional, as forças hostis, aliadas, amigáveis e neutras, a área de operações e suas diversas variantes, e a população civil. 

Um livro bastante interessante, que permite ao iniciante (ou não -iniciado, pode ser) em assuntos do gênero ter uma visão bastante abrangente do tema é o do historiador militar inglês John Keegan, Inteligência na guerra (uma boa resenha pode ser lida aqui). “Dispor – ou não – de dados estratégicos sobre o inimigo tem sido um fator importante nas guerras ao longo da história”, diz Keegan, logo no início de seu trabalho. Ora, se você é comandante de um exército e sabe estar o inimigo de olho em suas informações, qual será a decisão mais razoável a tomar? “Esconder as informações” – seria a primeira resposta. No jargão militar, “contra-inteligência”.  Trata-se da atividade de criar barreiras contra o levantamento de informações que sejam úteis à produção de análises do inimigo.

Num sentido amplo, a “contra-inteligência” é definida como o conjunto de atividades que objetiva prevenir, detectar, obstruir e neutralizar a inteligência inimiga, negando-lhe o acesso a informações confiáveis. Inclui ações destinadas não só a recuperar informações que tenham sido subtraídas, e também contra-atacar as ações de inteligência do adversário.

A esta altura o leitor de causa:: deve ter pensado: “Ora, se o inimigo quer minhas informações, porque não fornecê-las a ele, completamente falsas?..” Corretíssimo. Enganar o inimigo é atividade que existe desde que a guerra é guerra. Nesta parte inclue-se a produção e disseminação de informações falsas destinada a convencer o comando adversário de que cachorro responde a bom-dia (ou seja, faze-lo desejar bom dia a cachorro). Essa é a especialidade chamada de “desinformação”.

Inteligência e contra-inteligência existem a mais de 2000 anos. Geralmente sob pretexto de garantir a segurança (interna ou externa, militar e civil), essas atividades buscam antecipar e anular os objetivos inimigos. O interessante é, se a inteligência busca atuar por meio de informações verdadeiras, as atividades de contra-inteligência operam preferencialmente com informações falsas, buscando reduzir qualquer possibilidade de análise lógica, por suas contrapartes inimigas, e forçar a abordagem intuitiva. Mesmo em operações militares, se o comando não dispõe de informações confiáveis, é obrigado a acreditar na intuição, ou seja, a projetar o futuro (foi o que aconteceu, por exemplo, quando os alemães não conseguiram informações que antecipassem o local dos desembarques anglo-americanos na França).

Ações de contra-inteligência apelam, com frequência, para técnicas de comunicação de massas conhecidas como “propaganda”, palavra usada pela primeira vez em 1622, no inicio da Guerra dos Trinta Anos. O papa Gregório XV, percebendo a importância de unificar o discurso dos missionários enviados às regiões pagãs ou afetadas pela Reforma Protestante, criou um comitê de cardeais intitulado Sacra congregatio christiano nomini propaganda, a “Congregação para a Propagação da Palavra Cristã”. A palavra, até então nunca usada, provém do latim vulgar, e quer dizer “para ser espalhado”.

O uso militar sistemático da propaganda como parte das atividades de contra-inteligência data do século 19 e se intensificou na 1ª GM. O objetivo passou a ser a difusão de informações para fortalecer a própria causa e enfraquecer a do adversário. Curiosamente, tanto um quanto o outro objetivos eram (e são) buscados através da divulgação de informações imprecisas ou mesmo totalmente falsas, mas que não possam ser definidas assim pelo inimigo. Uma operação desse gênero estará mais próxima do sucesso, então, se estiver baseada em informações próximas da verdade objetiva. Não é à-toa que Josef Goebbles dizia que “uma meia-verdade é muito mais útil que uma mentira”.

Essas ações são chamadas, no jargão especializado, de “contra-informação”, e têm por objetivo final mudar o curso da informação, que é (pelo menos deveria ser…) possibilitar um juízo racional (não é por outro motivo que a palavra “informação provém do latim informare, “colocar numa forma”). Operações de contra-informação visam manipular a vontade do inimigo – seja militar ou civil – de forma que este entenda a  situação global (e a própria, como decorrência da primeira) ao contrário da realidade objetiva.  Frequentemente, essas operações tem por objetivo “desmoralizar” – no sentido de abater o moral do inimigo ou mesmo inverter sua simpatia pela própria causa, e são chamadas de “desinformação”. Estão, em geral, articuladas à grandes operações de propaganda. 

Os assíduos de causa:: sabem que sou meio delirante – não faço o menor esforço para esconder essa característica de minha personalidade. Mas, delírios à parte, sempre achei que seria interessante observar toda a campanha eleitoral como ação militar, que incluí estratégias, táticas, avanços e recuos. Por este ângulo parece-me mais fácil entender a falta de “política” na campanha eleitoral. Afinal, a guerra é a continuação da política por outros meios, dizia Carl von Clausewitz. No seu grande livro, “Da Guerra”, o então tenente-coronel pomerano servindo no exército prussiano foi o primeiro teórico a tentar explicar os conflitos militares fugindo à análise meramente militar. Os conceitos que elaborou, de “guerra pura”, “recontro” e “aniquilação” podem ser sintetizados na máxima acima. Para Clausewitz, a vitória se materializa na destruição física e moral do inimigo. “A guerra é um ato de violência destinado a forçar o adversário a submeter-se à nossa vontade”, ele afirma. Como o desejo de submissão é mútuo, a rivalidade levará as batalhas a seus extremos. Alguma semelhança com a atual campanha eleitoral?

Seria um tanto longo explicar como a bem-sucedida política de Lula e de setores do PT pode também ser usada como meio de anular o adversário – não fisicamente, claro, mas como obstáculo à realização de objetivos políticos. A reação do adversário será o uso de força na medida em que consideram, diante do contexto, necessária. Assim se explica, facilmente, a ausência de debates: as políticas amplas dos dois governos Lula não apenas tiraram do PSDB suas armas – que podem ser sintetizadas no Plano Real -, como introduziram outras, do tipo “arrasa-quarteirão”: um conjunto de políticas e ações perfeitamente compreendidas no cotidiano das massas que, como disse, de modo brilhante, o Oscar Niemeier, não apenas as entendem perfeitamente, como sorriem diante delas.

O episódio do “rolo-de- fita” não pode, então, ser examinado de modo isolado. Faz parte de um conjunto articulado de ações que incluem as notícias que têm sido divulgadas, segundo as quais, todos os eventos são atribuídos, de alguma forma, à ambição sem limites do PT em manter-se no poder. Assim, até mesmo as diatribes  de Serra acabam sendo atribuídas, em última análise, ao desespero da adversária sem argumentos (como, por exemplo, reduzir a defesa de Dilma contra os insultos de Mônica Serra à “agredir minha família”). Contra-informação.

Cristalina operação de contra-informação é a mobilização, pela coordenação política de Serra, do fundamentalismo religioso como tema de campanha. Desde então, a grande imprensa não parou de replicar opiniões que (como a de três bispos amalucados que acusaram o PT de “partido da mentira”) alimentaram esse debate baseado em uma falsa questão – a do aborto. Note-se que a base da operação não é constituída sobre informações falsas: a questão do aborto vem sendo realmente discutida no contexto das políticas públicas de saúde do atual governo, sempre debaixo de um bombardeio de infâmias da Igreja Católica. Foi dentro desta linha que Dilma Roussef colocou, claramente, que considerava a descriminalização do aborto em certas situações clínicas como questão de saúde pública. O curso normal da informação passa a ser totalmente impedido, e culmina com o violento ataque de Mônica Serra, que utiliza as falas da adversária como forma de levantar uma calúnia extremamente simples de entender – aborto é sinônimo de assassinato, portanto… O assunto desapareceu das “folhas” depois que surgiu uma antiga aluna de Mônica Serra dizendo que ela havia feito a confissão pública de um aborto. No caso, trata-se de uma trapalhada em uma operação mais ampla, e consertar a situação não é difícil – basta mudar o curso da informação, como dizem os bons manuais do ramo. Só que não tinha assunto – a não ser aquele da briga interna do PSDB. Aí surgiu a história da bolinha de papel – que também não é mentira. E a Rede Globo, imediatamente, colocou o bloco na rua.

Estão falando que a coisa toda foi tramada pelo jornalista Ali Kamel. Todos sabem de quem se trata essa figuraça (mas é sempre bom saber mais um pouco…), um descendente de árabes casado com uma judia e cruzado da causa do “anti-racialismo”. Ainda que Kamel tenha tentado armar uma operação de  desinformação que resultou em outra trapalhada, o que realmente importa é lembrar que não é a primeira vez que as Organizações Globo tentam algo semelhante. Por isso me referi, lá no início, um tanto enigmaticamente, aos bons analistas (todos a que me remeto sempre) que me pareceram momentaneamente desmemoriados.

Pois bem – quem não lembra o Escândalo Proconsult? Tudo bem que já se passaram quase três décadas desde que o então “general civil das comunicações” Roberto Marinho tentou, juntamente com um ex-militar dono de uma empresa de auditoria automatizada, contratada para computar os votos da eleição para governador do estado do Rio de Janeiro, tungar a vitória de Leonel Brizola em benefício de um candidato confiável para os interesses do conglomerado. A ligação entre a Globo e a tal empresa nunca chegou a ser esclarecida, mas o fato é que a referência mais longa que se encontra ao caso, hoje me dia, é da própria Globo, que tenta justificar-se no conhecido estilo “dá o pé urubu” e insinuar que a operação teria sido montada pelo próprio governo federal (era o fim do regime militar). Aquela sim, foi uma operação de contra-informação bem montada de cabo a rabo, e é provável que, se não fosse Brizola quem foi, tivesse dado certo. Em 1989, uma outra operação de contra-informação, esta com notáveis características de “desinformação”  – a edição do debate entre Collor e Lula, realizado na véspera, e transmitido pelo Jornal Nacional, então uma plataforma hegemônica de formação de opinião. Também por esta a Globo vem tentando se justificar, já faz duas décadas.

Assim, não é nada estranho, pelo menos para causa:: e seus nove ou dez assíduos, que a campanha eleitoral esteja se caracterizando pelo tom aberto de violência verbal, e que a campanha de Serra, com o apoio de empresas de comunicação de massas com notáveis características monopolistas, tenha tentado criar um fato que desvie a informação de seu curso normal. É muito provável que o planejamento original da operação tenha partido do estado-maior da campanha eleitoral da oposição, já que, como disseram diversos comentaristas, Serra nada teria a fazer em um reduto adversário, a não ser que tivesse realmente a intenção de cavar um incidente de proporções imprevisíveis. A ação da Globo, ao que parece, realmente partiu do voluntarismo do editor Ali Kamel que, é sabido, por motivos desconhecidos odeia o atual governo “com a paixão de um jihadista”, segundo um dos blogues citados aqui.  Mau planejamento e paixão – qualquer conhecedor de história militar sabe que constituem o caminho mais curto para o desastre.

Por último, qualquer um dos leitores eventuais (os nove ou dez assíduos certamente já sabem) que tiver curiosidade em saber os riscos que implica uma operação dessas, pode recorrer aqui mesmo ao blogue das boas causas… Se bem que eu não arriscaria dizer que Ali Kamel inspirou-se na mesma lambança… (o post, como constuma a ser por aqui, é longo e cheio de detalhes. Se o leitor não assíduo carecer de paciência, pode pular logo para os três últimos parágrafos)::

causa:: procura assunto::uma sugestão e cinco possibilidades::

O redator:: sempre tem disposição para publicar seus delírios em causa::, mas nem sempre (para ser honesto, quase nunca…) tem boas idéias (a última talvez tenha sido a análise histórica da trajetória do espantalho favorito de nossa vibrante imprensa – para conferir, aqui, aqui  e aqui). Desde então, os assíduos têm demonstrado paciência adiante do dever, reconheçamos todos.

Mas como o redator:: continua sem idéias razoáveis, resolveu fazer mais uma pequena mudança neste blogue que, aos trancos e barrancos, vai se agüentando já faz quase quatro anos: vai parar com essa bobagem de falar em terceira pessoa. Passará a falar diretamente ao possível leitor, e irá parar com esse delírio megalomaníaco de citar a si mesmo em negrito. Afinal, não há no mundo redator:: tão importante assim: nem mesmo os ínclitos Reinaldo Azevedo e Merval Pereira – que certamente se superam  este redator:: em megalomania e egolatria referem-se a si mesmos como “este importante colunista” ou este “brilhante intelectual” (por mais que saibamos que Se acham exatamente assim…)::

Pois está posto. Vamos ver agora se descolamos algum assunto.

Em primeiro lugar – já que toquei no tema: quando é que alguém vai comentar o “painel em defesa da democracia”, realizado semana passada no templo do senilidade liberticida, também conhecido como Clube Militar? Será que o Celso Barros, o Idelber Avelar ou o João Villaverde não se habilitam? Fica a sugestão.

Em segundo lugar – tem um tempão que as colunas de causa:: não saem. A mais popular entre os nove ou dez leitores – Cultura material militar:: – colocou, meses atrás, um estudo sobre a submetralhadora Erma MP38 e MP40, e parou. Pois a coluna irá voltar logo, com um texto que já está sendo escrito sobre um dos mais impressionantes veículos blindados já concebidos, até por ter sido (em opinião – ei! Olha eu aqui falando como gente!..), relativamente, um fracasso. Relativamente porque traduz, de certa forma, os limites da doutrina alemã da primeira fase da Segunda Guerra Mundial (em vou dizer qual é: exijo que os assíduos saibam, na ponta da língua). De que carro de combate (jargão do EB, herdado da Missão Francesa) estou falando? Claro, quem conhece o assunto sabe – o PzKpfW VI.

Também voltará, depois de longa ausência, Um rapaz (das Forças Especiais)::, no formato original: uma foto interessante e um pequeno comentário. A coluna surgiu inicialmente para que o blogue tivesse assunto mesmo quando eu não tivesse tempo para escrever coisas mais saborosas e substanciosas.

Os textos sobre estratégia e história também continuarão, porque certamente divertem os assíduos e talvez sejam úteis para estudantes do Segundo Grau e de graduação universitária que precisam fazer trabalhos escolares e não estejam querendo ter trabalho (o trocadilho infame é intencional). Afinal, já recebi muitos agradecimentos/elogios ao longo destes quatro anos, de meninos e meninas que tiveram o pescoço salvo pelos posts de causa::

Em terceiro lugar – para quem gosta do assunto, e lê inglês, recomento fortemente que dê uma passada por aqui. Trata-se do relatório final do Grupo de Trabalho – OTAN 2020 Assured Security; Dynamic Engagement. Com o fim da Guerra Fria, a OTAN tem procurado novos inimigos – afinal, para que serve uma aliança militar sem inimigos?.. A tentativa de apresentar o velho Pacto do Atlântico numa nova roupagem – que pode ser entendida como um novo conceito estratégico para a aliança. No relatório transparecem problemas que não foram identificados mais não estão bem dimensionados, e o principal deles é como serão as forças armadas voltadas para “ameaças não-convencionais”. Uma outra questão interessante é que os europeus bem que tentam, mas não conseguem deixar de se enxergar como estados nacionais. Essa dificuldade se reflete na tentativa de definir as “ameaças transnacionais” e de “Segurança Cooperativa”, um conceito que, por menos que fique claro, ainda deixa subjacente que a noção “fronteira” baliza toda a conceituação da aliança. Quem não tiver paciência para o jargão um tanto empolado desse tipo de relatório, pode ter uma idéia geral lendo este bom (mas não ótimo) resumo.

Em quarto lugar – coisa de um mês atrás fiz um longo comentário sobre o papel que imputo ao candidato Tiririca na consolidação de nossa democracia. Não sei que repercussão teve o texto, mas algumas opiniões contra e a favor foram levantadas. Pois bem: recomendo a leitura deste ótimo texto, que, por sinal, apresenta, em seu centro, um dos argumentos então levantados nos comentários que o post suscitou. É claro que suponho não ser a a argumentação levantada pelo texto de Alan Souza novidade para quem acompanhe o processo político brasileiro – e saque seus meandros. O argumento é resumido de maneira cartesiana neste trecho (o reproduzo como aperitivo, para que os assíduos se sintam incentivados): Em suma, Tiririca não é o problema maior desta campanha eleitoral. Aliás, penso mesmo que alguns dos que tão avidamente o consideram problema estejam bastante satisfeitos, pois enquanto se perde tempo criticando a candidatura de um palhaço, inúmeros mágicos, especialistas em tirar coelhos da cartola e em números de desaparecimento, continuam a circular livremente por trás e ao redor do picadeiro, livres dos holofotes. De fato, Alan, Tiririca não é o problema – o problema é o caráter da democracia brasileira, uma democracia excludente que divide o cenário (ou “picadeiro”, como você coloca) em atores e platéia, sendo que a platéia é geralmente admitida apenas como coadjuvante.

Em quinto lugar – impossível esquecer que no próximo dia 3 tem eleição presidencial. Gostaria de dizer que, vontade de votar, eu não tenho, mas se disser isto, estou desmerecendo a frase lapidar do muso de causa::, Winston Churchill (“a democracia é o pior sistema de governo”… etc., etc.). Assim, vamos às eleições, e que vença o menos pior. causa::, como bem sabem os nove ou dez assíduos, não tem posição política (ninguém é discriminado aqui pela sua, a não ser criptofascistas, escancaradofascistas e reacionários em geral). Assim, recomento a leitura dos quatro textos publicados no coletivo em rede Amálgama, onde quatro competentes analistas declaram, justificando, o próprio voto. Claro que declaração de voto não muda voto de ninguém (pelo menos ninguém que tenha juízo…) mas serve para como argumento para aqueles que já têm voto se convencerem do acerto da própria opção. Clique aqui, aqui, aqui e aqui e fique feliz por ter bom senso, ao contrário do resto do colégio eleitoral que optou por outro candidato.

Em sexto (e último, para não abusar do direito de encher a paciência dos pacientes nove ou dez assíduas) lugar – muito breve teremos a continuação do post sobre a os militares que a sociedade brasileira é capaz de prover a si mesma::

Continuam as observações estratégicas… Ah, todo mundo já sabe::Droga! Acontece!::

Plano esquemático do "bunker glocal" de causa:: O redator convida os assíduos a identificar o posto de combate onde se encontra.

Depois de passar umas duas horas lendo uns dez posts que têm as eleições e o processo político como tema, o redator:: sem chegar a se surpreender em nada com o conteúdo, ficou um bom tempo imaginando por que não comentários como os do Catatau não repercutam como aqueles do NPTO, do Biscoito Fino, do Mosca Azul (dentre outros de leitura obrigatória aqui de causa::). O motivo talvez seja porque os citados, independente de serem muito bons, são militantes. Chamam para a briga. Catatau tem um tom que poderia ser denominado “tipo bola-baixa”, o que torna a leitura mais complexa. Uma idéia dentre as veiculadas lá é a de “economia de viabilidade das denúncias”. causa:: não irá comentar o conceito, mas o fato é que  redator de Catatau (que, este redator:: supõe, também deve ser Catatau…) toca no ponto com uma elegância à toda prova. É claro, também tem um problema. Depois de passar alguns dias imaginando todo um setor da “blogosfera” (se os assíduos querem ver uma coisa realmente engraçada, cliquem aqui) entrincheirado nos “bunkers glocais” trocando intenso e entusiasmado fogo de bateria e contrabateria, foi, para o redator:: uma surpresa desagradável descobrir um bunker cujo ocupante parece observar a coisa toda com certa curiosidade e nenhum espírito exterminador. Droga! Acontece!

De toda forma, ocorreu ao dito redator:: que talvez, como naquele seriado, “a verdade está lá fora” – fora dos blogbusters (trocadilho infame em mau inglês). De sua posição militante, simpática a todos as idéias, regimes políticos e redatores mal-comportados, este redator:: não resiste a disparar um ATGW (piada hermética, para o fino humor técnico dos assíduos de causa::) contra o simpático blogueiro: gostaria de ler no Catatau um comentário sobre as candidaturas Tiririca, Mulher-Pera, Ronaldo Esper, etc. É sabido, a posição de causa:: é que se já é difícil falar em “democracia” num contexto como o do Ocidente (com algumas excessões, cada vez mais excessões), ficará mais difícil ainda falar nisso (seja lá o que for que signifique…) caso se dê um jeito de impedir que essas pessoas se canditatem por serem o que são::

Adendo de última hora, já que o NPTO não aceita comentários longos (isso sim é uma ameaça contra a democracia): O ótimo blogue político do sociólogo Celso Rocha de Barros, o popular NPTO repicou, um pouco mais cedo, uma matéria da lavra do excelente (nisso concorda inteiramente com ele o redator::) Jânio de Freitas. O tema da coluna de JF são os perigos que oferece a radicalização do processo político-eleitoral. O primeiro desses perigos seria o golpismo que a grande imprensa tenta enxergar no comportamente algo desmedido do Presidente da República. Sobre  esse perigo, causa:: não tem nada a comentar, visto que JF foi enfático o suficiente. Dos outros dois “perigos”, um deles merece uma espiada – o “painel” no qual devem ter estado, hoje, os vibrantes jornalistas Merval Pereira e Reinaldo Azevedo.

É preciso conhecer muito pouco a realidade das FA, hoje em dia para achar que possa se encontrar nelas algum resquício do golpismo que se observava meio século atrás. E, daquele golpismo, nem se pode culpar somente as FA. Naquela época, a burguesia não podia ver uma porta de quartel que corria a se reunir em torno dela (parecia coisa de cachorro com televisão de cachorro), e o Ministro da Guerra estava, sempre sorridente, nos eventos “em desagravo da democracia”. A conversa hoje é outra. Assim, resta saber se alguém acha q os comandantes do exército ou da marinha perderiam tempo com “painéis” assistidos por síndicos e ex-síndicos de edifícios na Tijuca e no Leme. As forças armadas tem sido, aos trancos e barrancos, reestruturadas, e o grau de profissionalismo é hoje muito mais alto do que era no século passado. No século passado, o contexto era o da Guerra Fria, fator que não pode ser eliminado de qualquer consideração que envolva os milicos. Hoje em dia, boa parte dos militares vê os EUA com tanta desconfiança quanto enxergam Hugo Chávez (será que Merval Pereira, o ilustre intelectual, já se preocupou em saber o que a milicada acha do espantalho favorito de nossa vibrante imprensa?). Outra questão interessante é que os milicos não têm a menor simpatia pela turma do PSDB – a maioria daqueles com que o redator:: conversa lembra da situação negra das FA na época FHC, quando as horas de instrução de vôo para cadetes chegaram a ser diminuídas em 60 por cento devido a cortes de verba; os milicos também falam muito da intenção de FHC em “alugar” a base aérea de Alcântara ao norte-americanos. Atualmente, bem ou mal, as FA estão recebendo equipamentos novos em folha (por exemplo) ou adequados (por exemplo), a indústria de defesa começa a ser posta outra vez a funcionar e os programas de treinamento se desenvolvem sem problemas. 

Ainda existem entraves administrativos sérios, mas a jóia da coroa, a Estratégia Nacional de Defesa está aí, e foi produzida por consultas bastante longas às forças.  Assinada pelo Presidente da República emdezembro de 2008, o decreto determinou aos órgãos da administração federal que passem a considerar, em seus planejamentos, ações destinadas ao fortalecimento da Defesa Nacional. A END leva em consideração a participação da sociedade civil no debate sobre a defesa nacional (tendo como articulador e interlocutor o Ministério da Defesa) e pôs de lado, em definitivo, inclusive nos currículos de formação militar em todos os níveis, a Doutrina de Segurança Nacional, substituída por uma noção de estratégia mais ampla e com visão multilateral. A END tem como um dos focos a modernização, a longo prazo, da infraestrutura de defesa do país, sendo as FA a principal dentre essas. A modernização está articulada em três eixos: reorganização das forças singulares, reestruturação da indústria brasileira de material de defesa e política de composição dos efetivos das Forças Armadas. As ações decorrentes desses “eixos estruturantes” devem se alinhar às estratégia de desenvolvimento nacional, incentivando a pesquisa científica e tecnológica de modo a aumentar a autonomia do país em relação ao exterior – tanto em atividades civis quanto em militares.

Assim, qualquer um que conheça as FA um pouco mais de perto (e sem os preconceitos de praze…) sabe que os coronéis e generais reformados que frequentam as salas de sinuca e salões de barbeiro do Clube Militar são, em geral, tratados com enfadada condescendência pelos oficiais superiores da ativa, e com impaciência pela turma da tropa (os oficiais intermediários e inferiores). São homens cuja idade média é de setenta anos, com cabeças sintonizadas à época da Guerra Fria. Muitos deles não conseguem entender o anacronismo de reuniões do gênero; outros ainda acham que Lula é “comunista”.  Não é o caso do pessoal da ativa e, principalmente, dos novos oficiais que estão saindo das academias militares. A cabeça desses jovens é hoje a mesma da pequena-burguesia de que fazem parte. É exatamente o que preocupa, no texto do JF (de acordo com ele, o “segundo perigo”): a pequena burguesia equivocada como sempre, armando suas marchas. Provavelmente no Leblon, no Morumbi ou na Savassi. O Presidente da República de fato se equivocou ao falar que é preciso “extinguir o DEM”. Eles nõ precisam de ajuda para isso: desse jeito se extinguirão sozinhos::

 

Mais observações estratégicas sobre um período chato::O fim da Guerra Fria e o quadro político brasileiro(outro delírio do redator::)::

 Depois de um tempo sem postar nada, pelos motivos de sempre, o redator:: teve a ótima notícia deque o Idelber Avelar, o popular “Biscoito Fino”, andou lendo Paul Virilio. Não tenho idéia de quais Virilio (conheço pelo menos seis…) – ele não informou. Mas como o objetivo é um livro sobre a violência, certamente esperarei ansioso. Não sei se o sócio-fundador do clube dos blogueiros favoritos de causa::  passou pelos seminais “Guerra pura – A militarização do cotidiano” e “Guerra e cinema”, mas esses dois textos, dos anos 1980 – são de abalar. Supõe este despretencioso redator:: (“despretencioso” a ponto de pretender pautar livros escritos pelos outros…) que ambos os títulos devam ter estado no meio das matutações do “Biscoito Fino”. Mas de qualquer maneira, é interessante trazer a questão da velocidade para o debate sobre a violência, visto que estamos todos envolvidos numa guerra, e cada estação de trabalho virou um “bunker glocal”. Por sinal, vale recomendar atenção nesse conceito “heterodoxo” bolado pelo professor Eugênio Trivinho, em artigo que aconselho a todos os membros de outro clube: o dos amadores de estratégia. Analisando o fundamento mediático do processo civilizatório contemporâneo, o professor Trivinho  busca entender uma das principais, dentre as que ele identifica como suas múltiplas significações sociais-históricas: a “militarização velada” da vida cotidiana na era digital. Ele funde três noções, a de “bunkerização ampliada”, de “imaginário social” e “fenômeno glocal” – este um cruzamento de “global” e “local” possibilitado pelo surgimento da Internet. O “bunker glocal” é uma consequência do surgimento da cultura marginal digital, conhecida como “cibercultura”, e acaba sendo uma espécie de linguagem – que todos nós, praticantes de  blogues, estamos aprendendo e praticando. Dentre o turbilhão de idéias do professor Trivinho, vale destacar algumas, que ele aponta como mitificações e/ou ingenuidades que acompanham a proliferação social dos media digitais:  a de que o argumento mais apropriado às condições social-históricas do presente era aquele bifurcado entre global e local; a de que o espaço geográfico foi completamente superado em favor do tempo real; a de que a comunicação, sendo sustentáculo do regime democrático e da liberdade de expressão, constituiria processo absolutamente civil; a de que o contexto de interface interativa, prevalecendo civil, seria total e indiscutivelmente inofensivo, “lavado” de qualquer problema, fadado a vigorar como reduto exclusivo de homeostase lúdica, de condutibilidade pré-simbólica entre ente humano, objeto tecnológico e rede em tempo real (o redator:: confessa, candidamente, que não entendeu direito esta última parte, mas… vá lá.).

Ainda assim, as quatro teses do professor parecem caber como uma luva em nosso panorama político. Estamos em uma guerra, enfim, e o que observamos é um amplo movimento, no qual agentes com posturas estratégicas e táticas se movem num contexto onde o local – o bunker – se projeta para o global, tendo a velocidade como paradigma. A guerra se transforma em uma espécie de diversão para essa gente ocupando os ”bunkers glocais”, à direita e à esquerda. Aí parece residir um processo de militarização da vida civil. Os fundamentos da vida militar – disciplina, unidade de princípios e de doutrinas, hierarquia verticalizada, coordenação de ações – tornam-se princípios da vida dentro dos bunkers. E o amplo domínio dessa tecnologia – democrática ao ponto de poder ser operada por exércitos amadores de internautas e blogueiros em tempo real – constituiu abalo não previsto pelas elites convencionais.

Claro que gente como o Pedro Dória tem chamado atenção para esse fenômeno, e multidões de acadêmicos pensam sobre ele nas universidades.  Mas este redator:: acha que as considerações têm de ser ampliadas, e a idéia de exércitos que se divertem fazendo a guerra se torna… digamos… fascinante. Por exemplo, o panorama internacional dos últimos vinte ou trinta anos pode nos acrescentar alguma coisa? Vejamos como: um outro livrinho bastante razoável: “O belo futuro da guerra“, de Phillipe Delmas (uma resenha bastante enxuta, aqui), publicado nos anos 1990.

Em resumo, Delmas defende que, a Guerra Fria, uma ameaça de destruição apocaliptica  produziu, paradoxalmente, estabilidade porque engendrou uma ordem mundial, que soviéticos e americanos reconheciam, pois seriam destruídos caso tentassem rompê-la pela simples imposição da força. Optaram pela diplomacia baseada no próprio poder de dissuasão ao invés da guerra aberta. O apocalipse em caso de conflito entre as duas superpotências e os alinhamentos com um dos blocos tiveram por conseqüência suprimir, na Europa, diversas disputas menores porque estas poderiam descambar em conflitos potencialmente mais perigosos. As superpotências transferiram seus embates para a periferia, de forma indireta: as guerras limitadas na Ásia e na África e o “desfile de bandeira” nos mares e ares. A GF terminou de forma repentina e inesperada para quase todos os analistas e aí começa o paradoxo: a ordem mundial baseada na supremacia absoluta americana não gerou estabilidade, e  idéia de um direito internacional ampliado e do desenvolvimento econômico resultando em estabilidade duradoura revelou-se uma falácia. A tese de que a supremacia econômica e militar americana produziriam um tipo de “Pax Brittanica” modernizada e “justa” não custou a mostrar seus limites. Os conflitos decorrentes da fragilidade dos estados ex-Socialismo Real, as guerras na África, a narcoguerrilha latino-americana, a multipolarização da política constituíram e o surgimento de agentes não-estatais com capacidade de ação ofensiva, geraram um cenário onde os focos de tensão se mostram muito mais difíceis de dissolver, e o aparato diplomático se mostra de pouca utilidade. 

Na época que escreveu o livro, Delmas se preocupava com a difusão da tecnologia nuclear e de mísseis balísticos nesse ambiente. Durante a GF apenas as cinco potências – as que tinham assento no Conselho de Segurança da ONU –  detinham tecnologia de explosivo nuclear e condições de empregá-la. Isso ajudou a impedir a deflagração de uma guerra generalizada e obrigou as potênias a criarem um sistema global. No momento em que se dissolveu a estabilidade criada nesse contexto, o monopólio de armas nucleares e mísseis balísticos deixa de ser um fator estabilizador: vários paises em condições de adquirir artefatos nucleares se vêem desimpedidos de fazê-lo. Isto aumentou os riscos de um conflito nuclearizado localizado, de conseqüências até agora não modeláveis.

Lendo o  texto do Idelber, o redator:: ficou matutando: esse conjunto de condições não se reproduz, de modo miniaturizado, na política brasileira atual? O crescimento, lento e seguro, do PT – com um programa estratégico de longo prazo que trouxe à cena grupos sociais que antes eram considerados apenas como massa de manobra -, somado à crise das mídias convencionais e à difusão dos meios telemáticos (a tal “burkerização”) não constituiriam fatores de mudança que, no nível do quadro político brasileiro, constituiriam fator de desestabilização semelhante aqueles surgidos com o fim da GF?

A questão  do surgimento do PT como partido dominante merece umas palavrinhas. Ao que parece, a elite brasileira tradicional não tinha elementos para projetar os possíveis cursos de ação do novo agente. No primeiro governo Lula, um fator complicador a mais: a estratégia econômica daquele momento resultou na tese de que o partido, no governo, teria de abandonar seu programa – o que, em 2002, alguns analistas chamavam de “desapropriação de Lula pelas elites”. A estabilidade começou a se romper com a aplicação do princípio de distribuição de renda, e parece que a elite conservadora levou certo tempo até notar que o PT continuava onde sempre esteve. E parece que, como na época do “fim do socialismo” quando a esquerda ficou com as calças na mão, aqui foram os conservadores que não tiveram ferramentas para elaborar uma resposta funcional. É uma visão um tanto simplista, esse redator:: admite, mas o simplismo aqui tem a função de deixar em primeiro plano o quadro geral, e o quadro geral aponta uma mudança de paradigmas.

Como se lê no “Biscoito”: “A coisa ali é de uma velocidade estonteante. Facilita a circulação de informações, mas nem sempre estimula o raciocínio mais sofisticado e crítico.” Por “ali” o blogueiro quer dizer o Twitter, mas este redator:: amplia – por “ali”, temos de entender  uma multidão de formadores de opinião “bunkerizados”, e a diversidade de agentes permite, em princípio, o “raciocínio mais sofisticado e crítico”. Mas, por outro lado, esse raciocínio é, de imediato, necessário? Parece a este redator:: (cujo raciocínio é muito pouco sofisticado…) que não. Afinal, numa guerra, o objetivo inicial é derrotar o inimigo. As tratativas ficam para depois. E, neste ponto, nosso general tem razão – o objetivo deve ser eliminar o outro lado.

É uma constatação dura? É. No fundo, essa não é uma brincadeira para mocinhas de colégio de freiras. No momento em que se dispõe a exterminar reputações e figuras públicas, convocando ao linchamento público, a “oposição” – incluído aí o “partido grande imprensa” – está jogando exatamente esse jogo. Tal como durante a GF, parece que, até dez anos atrás, os padrões de confronto estavam estabelecidos, ainda que com alguma vantagem para o lado conservador. É interessante, neste momento, lembrar da época da imprensa alternativa – o redator:: já encanecido, não saberia dizer se existe alguma contigüidade com as mídias digitais de hoje, mas lembra a proliferação de tablóides e as táticas para mantê-los circulando – que faziam surgir, às vezes, dois ou três títulos por semanas, impressos em gráficas cuja principal característica era a capacidade de serem escondidas. Circular era crucial, pois implicava em criar canais de difusão de informação e debate. A época era outra, e o aspecto militar, mais evidente – na época a “oposição” era outra e a situação, também.

Assim, o redator:: tem certeza que testemunhamos e participamos de uma guerra, se pergunta se dela não resultará o fim da política tradicional. Um tipo de democracia ainda difícil de projetar, mas que tem por base uma multidão de agentes altamente disciplinados, formados em torno de princípios, aplicando táticas baseadas na difusão de informação em tempo real (seria o princípio do movimento levado ao paroxismo – o exército não para nunca de se deslocar, procurando posições de vantagem). A indisciplina que se fala imperar na Internet (a tal “homeostase lúdica” de que fala o professor Trivinho) é uma falácia: um blogueiro tem de ser disciplinado ao ponto de reordenar seu tempo para incluir nele uma atividade extra, e saber medir as vantagens de manter essa atividade.

Essa incapacidade das elites responderem à onda Lula e ao movimento PT é interessante e certamente dará o que falar por gente mais qualificada. Mas faz todo o sentido as invocações a espantalhos sacados, pela direita, da esquerda tradicional – Hugo Chávez e o “ataque à liberdade de imprensa”, os principais. Por sinal, observem que Reinaldo Azevedo e Merval Pereira não irão ao Clube Militar falar sobre “o perigo totalitário” – eles irão falar da “restrição à liberdade de imprensa”. Claro – RA e MP não são idiotas, longe disso. Eles sabem muito bem o que significa “liberdade de imprensa” – até aqui, tem sido das principais armas do arsenal das elites . Neste ponto, o redator:: concorda (outra vez) com a avaliação de Idelber: “Discordo dos camaradas que dizem que o governo contemporizou demais com os conglomerados máfio-midiáticos. O governo agiu corretamente com eles: 1) Garantiu a liberdade de imprensa: Globo, Veja, Folha e Estadão jamais foram censurados, apesar das insistentes referências a Hitler e Mussolini na imprensa brasileira; 2) Iniciou a comunicação direta com a população, através de órgãos como o Blog do Planalto e o Blog da Petrobras; 3) Democratizou a circulação das verbas de publicidade, o que realmente enfureceu os caras; 4) Realizou a Confecom, que envolveu a sociedade civil e estabeleceu as bases para um outro modelo de comunicação.“

Observe-se que o “Biscoito Fino” aponta exatamente para o que pode constituir ameaça de fato ao “bunker” da elite – o governo meter-se no “bunker glocal” do professor Trivinho e, de lá, passar a fazer guerra de “movimento paradoxal”. Esse movimento teria como principal vantagem acelerar uma mudança de paradigma da política tradicional. Vamos esperar para ver, mas parece que, entre velocidade, burkers e paradigmas,  essa guerra tem um belo futuro pela frente::

Um adendo (às vezes o redator:: dá uma dentro): Conferindo os “bunkers glocais” (nunca mais a palavra “blogue” aparecerá aqui no causa::), o redator acabou tendo a atenção chamada para o toque do “Biscoito Fino” sobre uma manifestação surgida no sítio da CNBB, de autoria de um bispo filofascista). Parece que o doutor Idelber absorveu bem os ensinamentos do Virilio. Não poderia ser de outra maneira. Como não dá para dirigir diretamente ao tópico que interessa, causa:: reproduz – e aproveita, já que perguntar não ofende… Ô Biscoito, não dá prá você dar um jeito de linkar cada um dos tópicos? “A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil manteve em seu portal, durante 72 horas, uma carta hidrófoba do Bispo Luiz Gonzaga Bergonzini que fazia explícita campanha contra Dilma Rousseff e acusava o PT de ser “contra os valores da família”. A carta foi retirada quando o dano já havia sido causado. Agora está lá uma nota genérica e neutra sobre as eleições. No entanto, a carta hidrófoba circula em vários fóruns da internet assinada por Dom Bergonzini, mas apresentada como se fosse a palavra da CNBB (como se vê aqui ou aqui). Digamos que, nos dias de hoje, se eu demorar 72 horas para corrigir algo no blog, é melhor deixar o erro lá. A correção não faz muita diferença se for tão lenta.”

Outras observações estratégicas (agora visuais) sobre um período chato::O fim da oposição?..(versão delirante)::

Assumidamente delirante, o redator:: deixou-se envolver pela observação de Idelber Avelar, aquele do biscoito fino, sobre o salto alto dos petistas, nos últimos tempos, e pela puxada de orelha decorrente, pelo enepê, nos petistas que estão se achando. Ainda com a orelha vermelhinha, o redator:: resolveu dividir com os nove ou dez assíduos seus derílios, como uma espécie de “teste de realidade” para todos os que, petistas ou simpatizantes, precisam saber se subiram  excessivamente no salto ou continuam montados em humildes botas de marcha.Vamos a ele (marque a opção correta)::

1. (    ) Infante alemão (reconhecível pelo estilo das botas), em estado de choque, diante de um obus 10,5 cm, inutilizado por um impacto direto; à direita, um artilheiro morto pelo impacto, Kursk, 1943.

2. (    ) Militante do PSDB após a divulgação da última pesquisa “tracking” pela Bandnews, com a informação de que até o “Zé” resolveu voltar em Dilma; ao fundo, o último factóide plantado pelo Folha de São Paulo, inutilizado pelo eleitorado ignorante; à direita, Diogo Mainardi, morto de raiva, São Paulo, 2010.

1. (    ) Efetivo alemão, tropa de reserva de unidade blindada – Batalhão de Granadeiros de Choque 189 – armado com um fuzil de assalto modelo 1944 (StuG44) cal 7.92X33 mm (Kurz), provavelmente na Prússia Oriental, outono de 1944.

2. (    ) Antônio Anastasia e Aécio Neves (infelizmente a qualidade da foto, tomada durante o último “comício da vitória”, torna algo complicado distinguir quem é um e quem é outro) prontos para salvar a cara da oposição em Minas Gerais. Belo Horizonte, 2010.

1. (    ) Tanquistas soviéticas condecoradas após a batalha de Kursk, 1943.

2. (    ) Dilma Rouseff (no centro) vangloria-se diante da imprensa, um mês antes da eleição: à direita, Miriam Leitão, à esquerda, Eliane Cantanhede, planejam a próxima coluna sobre o vazamento da declaração de Verônica Serra, Curitiba, 2010.

O redator:: escolheu as opções 2, 2 e 2, mesmo achando que o penteado de Dilma não saiu muito bem na foto::

Outras observações estratégicas sobre um período chato::Pode ficar pior sim, senhor Tiririca::

Winston Leonard Spencer Churchill (Blenheim, Woodstock, Oxfordshire, Inglaterra, 1874 – Londres, Inglaterra, 1965) foi um estadista britânico. Isto, dez dentre os nove ou dez leitores assíduos deste blogue:: sabem; também sabem os assíduos que esse inglês, amante de charutos, vinho do porto e do sol mediterrânico, pintor amador e um dos maiores escritores modernos em língua inglesa, é um dos musos de causa:: Não sem razão.

Dizia o grande inglês que “a democracia é o pior sistema de governo, à exclusão de todos os demais.” É uma frase interessante, repetida ad nauseam por todos os conservadores, direitistas e liberticidas. O próprio Churchill era um conservador direitista, embora talvez seja injusto chamá-lo de liberticida – afinal, se nos livramos do fascismo, foi em parte graças à teimosia dele.

Mas, como toda frase, as de Churchill com freqüência precisam ser examinadas contra um contexto mais amplo, para que façam sentido – ou mais sentido. Essa a que se refere o redator:: faz parte de um discurso dirigido à Câmara dos Comuns, em 11 de novembro de 1947. Churchill, então líder dos conservadores, manifestava oposição a que nova limitação aos poderes da Câmara Alta do Parlamento Britânico – a “Câmara dos Lordes” – fosse estabelecida. Esse corpo de representantes, não-eleito, hereditário, representava a si mesmo, e essa representação se expressava na capacidade de interferer fortemente com os assuntos do governo, capacidade estabelecida no século 14 e que desde então vinha se mantendo, contra diversas tentativas de limitá-la. A última tentativa era aquela: o governo trabalhista de Clement Atlee pretendia emendar o Ato do Parlamento, de 1911, de modo a limitar a capacidade daquela câmara em interferir com iniciativas do governo. O contexto, então, era o das reformas radicais que estavam sendo introduzidas na organização econômica britânica, na qual amplos setores da indústria seriam nacionalizados. Temia o governo trabalhista que a Câmara Alta tentasse alterar o processo em que a Inglaterra pós-2ª GM finalmente se reinventava, buscando acomodar, em termos mais justos, os milhões de soldados e operários que, estoicamente, tinham derramado o sangue, suor e lágrimas que pavimentaram o caminho até a vitória. Já para as “classes superiores”, aquelas que desfrutaram, ao longo de dois séculos, os benefícios da transformação econômica, a proposta punha mais amarras a um poder que minguava. Sobre isso, disse o temível polemista e brilhante orador Churchill: “… é o sentimento mais disseminado em nosso país, e que a opinião pública expressa através de todos os meios constitucionais, que o povo deve governar, governar continuamente, e deverá formar, guiar e controlar as ações dos ministros que são seus servos, e não seus senhores.” Ou seja, no entendimento de Churchill – e, podemos subentender, da maioria de seus liderados conservadores –, não seria preciso limitar os poderes das classes superiores, amplamente representados na Câmara Alta do Parlamento Britânico – esses poderes estavam limitados pelos poderes conferidos, por tradição, à opinião pública.

Descrevendo o sistema eleitoral de representação majoritária britânico, o historiador setecentista François Guizot aponta sua origem nas necessidades da sociedade inglesa, nos séculos 13 e 14. O sistema eleitoral decorrente, no século 15, não obedecia nem a regras originárias nas Ciências Políticas, nem aos interesses deste ou daquele grupo. Era um sistema formado observando-se os costumes cotidianos aceitos pela sociedade. Os princípios que regulavam o processo eleitoral eram, assim, absoluta novidade. Daí sua absoluta originalidade.

Dentre as novidades, aquela que parece provocar a advertência de Churchill: no entendimento dele, a sociedade já dispunha de meios para expresser sua opinião e impor sua vontade, meios consolidados em séculos de tradição. Esse longo processo teria tornado a democracia “o menos pior dos sistemas”: a tradição também teria incorporado os defeitos: uma hierarquia reconhecida por lei que cabia ao povo respeitar, pois os mecanismos embutidos no processo contrabalançavam, naturalmente, o desequilíbrio inerente ao mesmo.

Examinar a coisa hoje faz suspeitar que Churchill tivesse razão: esse processo vem sendo crescentemente contestado e, depois de séculos, o sistema é visto com certa desconfiança pelo eleitorado britânico. Sinal dos tempos: o sistema, dito bipartidário, não parece mais suficiente para expressar a opinião do corpo de eleitores, e mostra, através de freqüentes pesquisas de opinião, tendências ao desdobramento. Os mecanismos “tradicionais”  de correção, então, funcionam – inclusive para indicar o clamor pela mudança.

Assim funciona a democracia representativa. Contra os defeitos, os mecanismos de autorregulação. E entre nós? Um dos possíveis defeitos da democracia brasileira seria, na visão de setores bastante amplos da sociedade, sua essência: o amplo direito de votar e ser votado. Não são poucos os cidadãos que reclamam do fato de que “todo mundo vota”, e não é nem preciso ter muito trabalho para encontrar exemplos disso. O redator:: não lembra qual dos ministros de Costa e Silva disse, na época do AI-5, que era absurdo valer o voto dele tanto quanto o de uma empregada doméstica… ou teria sido lavadeira?.. (diria que foi o da Aeronáutica… Algum dos assiduos lembra?..); o general João Figueiredo abriu seu consulado (1979-1985) com a taxativa afirmação: “Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar.” E o negro Edson Arantes dos Nascimento, embranquecido pelo contato purificador das elites? É preciso lembrar a opinião dele?

Em tempos mais recentes, um colunista brindou-nos a todos com esta: “O Brasil é dominado por uma massa de pobres ignorantes. Eles estão decidindo por nós. E estão decidindo muito mal. Isso se não confundirem os algarismos e apertarem os botões errados.

Afirmativas como essas levam o redator:: a pensar quais são os meios de defesa que a democracia brasileira tem contra seus próprios defeitos. Imediatamente surge a figura daquele que, em algum momento futuro, talvez venha a ser lembrado como a figura-símbolo desta eleição: o cidadão Francisco Everaldo Oliveira da Silva. Certamente não conhecemos Francisco Everaldo – mas conhecemos seu alter-ego, o palhaço Tiririca. Sobre Tiririca, diz um blogueiro: “como impedir que uma extravagância como Tiririca (ops, Francisco Everaldo Oliveira Silva) vire deputado federal? Só tem um jeito: não votar nele. Nenhum outro.

Churchill também dizia – e foi essa frase que fez o redator:: elege-lo muso do blogue:: que quem não sabe história, não sabe nada. A perspicácia de Churchill, expressa no monumental “Uma história dos povos de lingual inglesa”, faz o redator:: lembrar de nossa própria história e de seus bons constadores. Por exemplo, o sociólogo Roberto Schwartz. Em ensaio no mínimo tão monumental quanto o de Churchill, Schwartz sugere que, em nosso país, as idéias estão fora do lugar. Em termos muito simplificados (causa:: não pretende ser espaço de resenha das idéias do coração do redator::): baseado em premissas marxianas, Schwarcz, por meio da análise da dinâmica interna de algumas grandes obras literárias do século 19, busca a contradição básica da formação social brasileira. Na opinião dele, é em Machado de Assis que a tal contradição aparece de forma mais perfeita. No Brasil, a estrutura é atrasada e colonial enquanto a superestrutura seria adiantada e liberal. Essa contradição residiria na persistência do regime de produção escravista convivendo com um sistema político de estilo inglês. Schwarz denomina esse método machadiano de “comédia ideológica”, que teria seu momento maior em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Dom Casmurro”: Bentinho e Brás Cubas estariam sendo porta-vozes de uma denúncia de classe. Schwarz postula que Capitu é vítima dessa elite que vence, mas não leva, visto que a contradição, perpetuada pela elite como meio de dominação,  resulta em uma “sociedade pela metade” – tese que é expressa de forma genial no título do livro – “Ao vencedor, as batatas”. (análises mais aprofundada, aqui e aqui). O século 19 é, pois, tão esclarecedor, para nós, quanto o século 14 seria para a Grá-Bretanha – só precisamos conhece-lo melhor.

Voltemos a nossa época e a nosso drama: buscamos a democracia, sistema louvado por dez entre dez liberticidas, mas uma em que um cidadão habilitado pela norma constitucional ao se apresentar para ser votado, possa, por “extravagância”, ser inabilitado por outros cidadãos habilitados. Curiosa democracia, de cujo exame resulta o seguinte: o cidadão Francisco Everaldo deveria não ter direito de ser votado. Centenas de outros cidadãos que se manifestam através da Grande Rede parecem pensar exatamente assim. Deveríamos criar mecanismos que impedissem Tiririca de participar do processo eleitoral – qual seja: aperfeiçoar a democracia é limitá-la, plenamente, à uma parte do corpo de cidadãos. 

Uma tal providência imunizaria a democracia brasileira contra “piadas” como a candidatura do palhaço Tiririca. Motivo: vivemos numa sociedade imperfeita, sofrendo as dores do crescimento. O sistema partidário não exprime, à perfeição, a realidade do país, e os partidos são meros “balcões de negócios”. Cabe reduzi-los. Na Inglaterra são apeenas dois, os que realmente contam, consolidados pela tradição -e pela “educação política”; nos EUA, idem.

Mas, pensando bem… O palhaço Tiririca teria qualquer possibilidade de obter legenda num PT das elites sindicais ou num PSDB da inteligentzia paulista? Ou num PMDB dos grotões? Não é, entretanto, o caso de impedir o cidadão Francisco Everaldo de votar – por sinal, ele e outras extravagâncias têm de votar, para aprender. Algum dia, chegamos lá. Por ora, devemos impedir não que Francisco Everaldo eleja, mas se eleja. A maioria do corpo de cidadãos vota mal, e deve ser defendido de si mesmo. Estaríamos ouvindo aí (ou seria apenas impressão do redator:: admitidamente delirante?..) ecos do sistema de voto censitário, o tal “voto da mandioca“?

Pois se a democracia é imperfeita, aperfeiçoa-la não seria aprofundar a imperfeição, buscando meios de retornar ao século 19. Alguns cidadãos parecem vislumbrar o problema. No momento em que louvou a candidatura de outra “extravagância”, a “Mulher-Pera”, o senador Eduardo Suplicy talvez estivesse tentando, machadianamente, meter o dedo no âmago da contradição – e sabia no que se metia. Sua declaração de apoio à curvilínea candidata atraiu o deboche, desde a elite do jornalismo áulico até blogueiros moderninhos. Puro método machadiano: os democratas manifestam-se contra a democracia…

Talvez Suplicy aceite uma ajudinha – menos machadiana – do redator::: se  a democracia brasileira sobreviver será por arte de seus defeitos, e o principal deles é por outro lado, sua capacidade de se autorregular – a possibilidade de que o direito de assumir mandatos escape da elite “educada” e chegue até as “extravagâncias”. É nesse momento que o drama da sociedade brasileira fica mais evidente, e a teatralização do processo eleitoral apontará uma hierarquização atroz, tida pelas elites – e por seus clientes pequeno-burgueses –, mais do que “natural”, necessária. Pelo menos até o dia que aprendamos.

Esse post não deve, pois, causar estranheza nos nove ou dez leitores. Falamos de estratégia, na versão atualmente conhecida como “grande estratégia”, aquela que mobiliza todos os recursos nacionais. E uma nação partida – como atualmente é dito – em “andar de cima” e “andar de baixo” não se torna potência. Portanto, tirem as patas do direito do proletariado a candidatar-se seja lá ao que for – e se eleger. É estratégico que as extravagâncias obtenham mandatos, pois elas apontam direto para a contradição que nos governa. Ao contrário do que diz Tiririca, pode ficar pior, sim: no dia em que nossas elites e seus clientes derem um jeito de garantir que o grosso da população – os feios, os mal-vestidos, os que vivem na espiral alucinante do trabalho na fábrica – não possam mais se eleger. Nesse dia, a democracia deixará de ser o “menos pior” dos sistemas de governo, para tornar-se apenas mais um entre os piores::