Observações estratégicas sobre um período chato e uma comparação estapafúrdia::

A época anda meio chata, do ponto de vista das encrencas internacionais. Hugo Chávez anda inacreditavelmente calado, Juan Manoel Santos está empenhado em estabilizar as relações com a Venezuela, a imprensona nacional se finge de morta sobre o tema… A posse de Santos, no dia 7 de agosto foi um festão, com todos os presidentes sul-americanos, e Chávez teve convite especial. No dia 10, em Caracas, os dois países restabeleceram relações diplomáticas. A boa vontade era tanta que Chávez reiterou que o governo da Venezuela “não apoia, nem permite a presença da guerrilha, do terrorismo ou do narcotráfico” em seu território – e que perseguir essas forças é parte de sua função como presidente. O assunto é interessante – mesmo Chávez parece ter seus limites, e anda às voltas com problemas internos sérios. Assim, a picuinha sobre as bases americanas tornou-se de menor importância. Do outro lado do mundo, as sanções contra o Irã deram em nada, até agora, visto que o país tem na China, apesar da encenação, seu principal parceiro econômico (os nove ou dez assíduos de causa:: podem acessar uma análise estupenda da questão aqui). O melhor assunto é o apedreja-não apedreja da pobre Sakineh Mohammadi Ashtiani. Após o convite de asilo – em torno do qual a imprensa brasileira, como usual, deu verdadeira aula de como provar que urubu é arara -, a diplomacia brasileira parece ter abaixado a bola sobre o tema. Por sinal, parece ter abaixado a bola sobre o Irã todo. Explicável: por mais que o redator:: não esconda sua simpatia pelos países mal-comportados, o companheiro Ahmadijenad é dose. Ali por perto, as tropas norte-americanas retiram-se às pressas do Iraque. As autoridades da antiga pátria de Sadam Hussein, dizem os americanos (depois de quatro mil mortos lá), têm condições de assumir responsabilidades sobre a própria segurança – embora as próprias “autoridades e poderes constituídos” andem dizendo exatamente o contrário. A coisa lembra um pouco a retirada soviética do Afeganistão, diferindo apenas na velocidade das colunas motorizadas. No Afeganistão… Bem… A vidinha continua a mesma: um Vietnã mais modorrento e controlado, embora observadores estejam meio que apostando no relaxamento das instruções de operações, aumentando o risco de “danos colaterais”. Alguns desses observadores têm apostado no endurecimento da posição dos militares norte-americanos, que não estariam muito dispostos (admitamos: milico nunca está…) a aceitar que a campanha deu co´os burros n´água. Dizem esses observadores que a situação estratégica atual aponta para um prolongamento da guerra, e que o atual comandante,  general-de-exécito (no jargão deles, generalDavid Petraeus use sua influência para conseguir este resultado no Congresso. E como causa:: tem boa memória, aproveita para lembrar os assíduos que esse general já sofreu críticas por sua atuação no Iraque, em que foi acusado de ser responsável pelo colapso em Mossul, no ano de 2003 (uma interessante biografia operacional de Petraeus aqui, em inglês, apresenta o caso). Por sinal, é bom lembrar, também, que se o general Petraeus começar a fazer pressão sobre o Executivo e sobre o Legislativo pelo endurecimento, essa iniciativa não será nova:  o comandante anterior, o boquirroto general Stanley A. McChrystal já vinha insinuando o assunto nos ouvidos moucos do presidente Barack Obama. De toda maneira, nove entre nove analalistas concordam que o dilema dos EUA, agora, não é propriamente como resolver o problema afegão, mas que o problema afegão é como os EUA poderão sair de lá mantendo a cara limpa. A guerra já tem nove anos, e ninguém mais parece acreditar no prazo final de permanência das tropas, estabelecido em 2009 pela então popular administração Obama.

Claro que mesmo os assíduos de causa:: interessados em estratégia e questões afins devem estar com a atenção voltada para as eleições presidenciais aqui no Brasil, mesmo. Observar a campanha da oposição é quase como ter uma aula de estratégia e de tática – de como não fazer as coisas, nesses campos. Nessa direção, aponta o redator:: novamente para o excelente Catatau e seu conceito de “economia de verdade”. causa:: aqui sugere aos assíduos que tentem aplicá-lo à estratégia de campanha do “Zé”. “Zé” é mais lulista que todo o PT (esse bando de dinossauros mensaleiros); “Zé” pretende manter tudo de bom que foi feito no último governo, e ainda vai “poder mais” (seja lá o que isto signifique). O que podemos observar é o “Zé” totalmente emparedado: lá embaixo, os eleitores estão sendo alcançados por um regime de transferência de renda como nunca foi visto na história da República; lá em cima, os financiadores de campanha parecem satisfeitos com um amplo programa de financiamento, nem mais nem menos imoral do que o salvamento do sistema bancário, promovido, mais de dez anos atrás, pelo governo FHC. Ambas as ações, em seus contextos, se justificam. Estratégia é tomar decisões – e arcar com as consequências. Digamos assim: na época, a oposição, que era governo, tinha programa, portanto, podia ter estratégia. O governo de ontem virou oposição exatamente pelos limites do programa. Governar é perder oportunidades, e a oportunidade do Plano Real foi magistralmente perdida e aponta os limites da “vocação social do PSDB” – afinal, São Paulo não é a Alemanha Ocidental e nem aconteceu uma guerra por aqui. Por isso causa:: não indica a avaliação do filósofo  Vladimir Safatle, publicada na Folha de São Paulo (se o assíduo tem acesso ao UOL, entre por aqui): possivelmente, o PSDB não se distanciou de um “impulso inicial” socialdemocrata. A trajetória da elite intelectual da USP e de seus aliados desenvolvimentistas pode ser considerada, talvez, só metade socialdemocracia. A outra metade seria talvez tributaria de uma classe produtiva acostumada a se valer do aparelho de Estado para facilitar a promoção da acumulação capitalista. Ou será que todo mundo esqueceu quem foi Sérgio Motta? O PSDB hoje está emparedado pelos limites de seu programa, e a falta de estratégia é apenas decorrência desse fato. Idéia, por sinal, já vislumbrada pelo NPTO, que os assíduos aqui do causa:: já sabem ser leitura obrigatória.  

Curiosamente, a história recente do país parece o desenrolar da 2ª GM – este redator:: lança mão da comparação estapafúrdia apenas do ponto de vista da estratégia. E a idéia ocorreu durante a leitura de excelente posto publicado pelo jornalista João Villaverde em seu blogue. Cito o trecho inspirador:  “O balanço do governo FHC, feito com maestria por outros muito mais preparados que este blogueiro que vos fala, pende terrivelmente mais para o lado financeiro da coisa. Os números positivos que vemos hoje de desemprego baixíssimo, salários em alta e transferências de renda para redução da terrível desigualdade social que (ainda) temos, não vêm de FHC. Se o PSDB sacou o que era preciso no país em 1994, ele perdeu o bonde nos oito anos seguintes. Teve uma bela oportunidade para mudar as coisas, quando as coisas explodiram em 1999, mas as reformas que vieram foram todas conservadoras, que não alteraram radicalmente os fatores, apenas um pequeno tapa no leme do navio, que manteve o mesmo ritmo. Deu uma arejada no excessivo controle exercido pelos puquianos cariocas, mas a ideia era a mesma.” (Na íntegra, o posto está aquicausa:: o recomenda fortemente). O início da 2ª GM marcou a primazia da doutrina da blitzkrieg alemã – um novo estilo de guerra, baseado na velocidade e, sobretudo em nova consciência da dimensão do campo de batalha, forçada por aquela. Os motivos pelos quais os alemães também perderam o bonde não admitem comparações, nem mesmo estapafúridias. Entretanto, cabe lembrar que soviéticos e norte-americanos acabaram copiando e aperfeiçoando a tal doutrina, e a melhoraram. Tal como a Wehrmacht em 1940-41, o PSDB parece ter sido enganado pelo próprio sucesso em 1994-1995, e se iludiu que os horizontes acadêmicos de São Paulo eram os do Brasil. Por sinal, do ponto de vista meramente estratégico, causa:: discorda do João em um ponto apenas: reunir doutrinas diferentes para que uma freie a outra não é solução e nem rima. É burrice: basta lembrar que o exército alemão, em 6 de junho de 1944 poderia ter tido uma chance de lançar a primeira onda de assalto aliada de volta ao mar, já que dispunha de forças blindadas consideráveis, em excelente estado de aprestamento, bem próximas da cabeça-de-praia. Mas essas forças eram reserva estratégica do Alto Comando, que precisava da autorização de Hitler para autorizar que se movessem. E Hitler estava dormindo… Claro, tudo isso não implica que os estrategistas peessedebistas não adorem a idéia de paralisar a própria máquina, já que é exatamente o que têm feito ao longo dos últimos anos::

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Entre tapas e … beijos?..::Colômbia e Venezuela: perspectivas::

Cabe antes de tudo, uma explicação: o “método confuso” de elaboração de postos desenvolvido (???) pelo redator:: implica , em primeiro lugar, ter um insight, que aponte um tema que pareça interessante. Num segundo momento, o dito pesquisador amador começa a levantar material na lista de sítios especializados e blogues, que formam um extensa biblioteca de recursos de pesquisa on-line. O terceiro momento é o do início da redação. Aí a porca começa a torcer o rabo, a onça, a beber água e o macaco, a enfiar a mão na cumbuca. Por não ser jornalista nem escritor de espécie alguma (ou seja, “redator::” é apenas uma liberalidade adotada para com os oito ou nove assíduos…), o redator:: escreve um borrador e, logo em seguida, começa a modificá-lo, tanto em conteúdo quanto em estilo. Por esse motivo, os postos carregados aqui no blogue costumam a ter duas ou três “edições”. Na maior parte das vezes, aos trancos e barrancos, a coisa dá certo (salvo errinhos de digitação e algumas agressões à gramática…). Entretanto, algumas vezes, ocorrem desastres, como o q constatei ontem: a parte2 do posto sobre Colômbia e Venezuela, por algum motivo, saiu totalmente truncada. Na verdade, nem era para ser carregada naquele momento. De toda forma, está indo abaixo a primeira edição. Sugiro aos assíduos que dêem uma olhada na parte1, pois uma “segunda edição” bem ampliada foi carregada. O redador:: pede sentidas desculpas, não apenas aos assíduos, mas a todos que tenham sido incomodados por esse acidente de percurso::

parte2As provocações e vitupérios de Hugo Chávez são exagerados, certamente, mas as ressalvas de governos menos dispostos ao histrionismo, como o Brasil e a Argentina, traduzem a preocupação com a possibilidade de interferência norte-americana nos assuntos internos sul-americanos. O fato é que as forças armadas colombianas, muito bem treinadas nas operações de COIN, não parecem ter grande capacidade quando se trata de enfrentar forças armadas propriamente ditas.

Mas ninguém (possivelmente nem mesmo Chavéz…) imagina uma guerra: afinal, as forças armadas bolivarianas têm sido postas em prontidão com alguma frequência, sem ter, até agora, saído do lugar. As autoridades militares da Venezuela anunciaram ontem que estarão alertas e ofereceram “apoio incondicional” ao presidente Hugo Chavéz, após este ter rompido “todo tipo” de relações com a Colômbia. Até agora, no melhor estilo bolivariano, os militares venezuelanos parecem estar se divertindo em emitir bravatas, tipo “daremos resposta contundente se houver uma incursão militar estrangeira contra o território da Venezuela”. Já o governo colombiano parece ter ficado satisfeito em amolar Chávez: segundo o porta-voz presidencial, César Mauricio Velásquez, “da parte da Colômbia, jamais haverá um movimento de tropas. Sempre haverá fraternidade com a Venezuela” (???).

A Venezuela negou as acusações feitas pelo governo da Colômbia na Organização dos Estados Americanos. Segundo informações do embaixador colombiano, 1.500 guerrilheiros das FARC se refugiariam na Venezuela, em três acampamentos. Não foi a primeira vez que tais acusações foram veiculadas por Bogotá, e sempre foram negadas por Caracas. Esta última edição da crise chegou de modo um tanto inesperado, quando a OEA parecia estar tendo sucesso nas gestões que fazia, em busca da normalização das relações entre Bogotá e Quito, interrompidas desde a Operação Fênix, em março de 2008. As relações do governo colombiano com os EUA também levantam restrições entre todos os governos sul-americanos, e a decisão de Uribe em renovar o “Plano Colômbia”, formalizada durante visita à Washington, em outubro de 2009, não contribuiu para distencionar a situação. Os governos da região não veiculam suas restrições, e quando o fazem, mantêm o tom baixo – menos Chavéz, lógico. As relações entre os dois países não têm sido grande coisa ao longo do mandato de Uribe, mas vêm piorando desde julho de 2009. Foi quando o governo de Bogotá alegou  ter encontrado armas venezuelanas nas mãos as Farc. O acordo Bogotá-Washington piorou a situação, pois Chávez não é tão reservado em suas declarações e sabe que a Venezuela é, depois dos EUA, o principal parceiro econômico da Colômbia. Ele alegou que o acordo é uma intervenção direta na América do Sul e uma ameaça contra a Venezuela. Como se não fosse suficiente, o governo dos EUA, que tem endurecido sua posição na região, resolveu botar lenha na fogueira. Na capital americana, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Phillip J. Crowley, declarou o apoio norte-americano ao envio de uma “missão internacional” para investigar as acusações da Colômbia contra a Venezuela.  

Muitos analistas se perguntados, dariam razão a Chavéz. A Colômbia tem limites com cinco países (Venezuela, Equador, Panamá, Peru e Brasil). Com a Venezuela são 2.200 quilômetros, e uma história de conflitos de limites, que em diversas ocasiões provocaram atritos. Depois da independência, no início do século 19 sob a liderança de Bolívar, a região tornou-se um único país, a República de la Gran Colombia, integrada também pelo Equador e pelo Panamá – na época parte da Colômbia. O território equivalia ao vice-reino de Nova Granada, e o projeto não deu certo, já que haviam diferenças políticas significativas entre as elites que se reuniram para garantir a independência da região, após as guerras napoleônicas. O estabelecimento dos três países, acontecido no final da década de 1830, levantou questões de fronteiras, e algumas persistem até hoje. Colômbia e Venezuela têm um contencioso de fronteiras no Golfo da Venezuela, e quase entraram em guerra em agosto de 1987, em função de alegadas provocações da Colômbia (na época, Chavéz não existia ainda, temos de admitir…). A quase-guerra civil colombiana, que já dura mais de quarenta anos, tornou-se também fonte constante de tensão, visto que a fronteira venezuelana é altamente permeável, e tanto guerrilheiros colombianos quanto criminosos venezuelanos (o tráfico de drogas e os sequestros também são prática comum na Venezuela, só que sem coloração política) transitam de um lado para outro. O problema é que, desde sua chegada ao poder, o coronel Hugo Chavéz não faz questão de ocultar sua simpatia pelas FARC, que classifica como “combatentes da liberdade e do socialismo”; as FARC, por sua vez, se classificam como “bolivarianas”. Washington e Bogotá acusam, com frequência, o presidente venezuelano de apoiar as guerrilhas. Chávez nega, e o fato é que Uribe, que, no início de seu mandato, até que se dava bem com Chavéz, subiu o tom das acusações, sem conseguir apresentar provas indiscutíveis. Em dezembro de 2004, a prisão em Caracas do líder guerrilheiro Rodrigo Granda, representante internacional das FARC, em uma operação encoberta de um comando da polícia colombiana novamente quase levou os dois países à guerra.  O ativista andava tranquilo na Venezuela, que imediatamente alegou não saber o que ele fazia lá, como cidadão privado. Em março de 2008, a incursão aérea em solo equatoriano desencadeou movimentos de tropas de Quito e Caracas, e uma correria de diplomatas de alto nível, dos principais países da região e da Espanha. Chávez convocou seu embaixador em Bogotá e ameaçou congelar o comércio entre os países. Essa, por sinal, seria uma retaliação bem mais efetiva: o comércio entre os dois países, no âmbito do Pacto Andino, sempre foi intenso, chegando, segundo algumas fontes, a mais de 7 bilhões de dólares.

Em julho de 2009, a prova que com que o governo colombiano tanto deveria sonhar apareceu na forma de lançadores de foguetes AT4. Essa arma anti-tanque, supostamente entregue ao exército da Venezuela pela indústria sueca Saab Bofors Dynamics, foi encontrado com as FARC, em território da Colômbia. O governo da Suécia resolveu investigar o caso, que configuraria  tráfico de armas para a guerrilha, e teria comprovado que as armas realmente foram vendidas ao Exército da Venezuela em 2004. A reação de Uribe foi, por outro lado, surpreendentemente moderada: apenas teceu críticas genéricas aos países que vendem armas por fornecer a um “grupo criminoso”  armamento de grande poder de destruição, sem citar nenhum país como fonte das armas. A guerrilha, claro, negou todas as acusações e ainda afirmou não ter nenhuma relação com o o governo do Equador – o governo colombiano veiculava acusações de que a guerrilha teria feito contribuições à campanha de Rafael Correa ao governo do Equador.

É possível que a preocupação do colombiano fosse mais com o comércio bilateral. Chavéz cumpriu sua ameaça no ano passado, depois do acordo firmado entre Washington e Bogotá. O comércio bilateral foi reduzido em 70%, prejudicando as duas economias. A seriedade desse movimento de Chavéz, e o modo como a Colômbia sentiu o golpe ficaria clara nos meses seguintes, ao ponto do atual presidente eleito, então ministro da defesa ter declarado sentir “grande afeto” pelo povo venezuelano. O fato é que os outros países do Pacto Andino simplesmente não têm volume econômico suficiente para absorver os produtos colombianos que a Venezuela.  

Alguns analistas têm dito que o problema talvez não seja exatamente com a Venezuela, mas dentro da estrutura de governo da própria Colômbia. As “provas” apresentadas por Uribe sobre a presença de militantes das FARC na Venezuela são muito pouco consistentes, remontando a relatórios de 1990. As declarações de Santos ainda como ministro de Uribe podem indicar uma intenção de negociar com a Venezuela, de forma a resolver o problema das relações econômicas.

Santos já presidente eleito, demonstrou mais diretamente intenções de entabular negociações com Venezuela e Equador, que classifica como “problemas diplomáticos”. Essa intenção fica ainda mais provável com a escolha, para a pasta das Relações Exteriores de Maria Ángela Honguín. Essa diplomata de carreira foi representante colombiana na ONU, até discordar da política de Uribe para os países vizinhos. Logo após a indicação, Santos enviou Holguín a Quito, para apresentar a seu colega equatoriano, Ricardo Patiño, um convite para que o presidente equatoriano comparecesse à cerimônia de posse. A ministra nomeada também deveria ter uma reunião com o chanceler venezuelano.

Embora tenha feito elogios às iniciativas de seu sucessor, a posição de Uribe, de fato, seria outra, de discordância com as diretrizes de seu sucessor. Analistas na própria Colômbia vêem  na denúncia de Uribe objetivo de marcar posição e, mais além, enviar uma mensagem clara a seu herdeiro político. Durante sua visita a Wasington, Uribe declarou pertencer “… a uma geração que não conheceu um só dia de paz. Minha prioridade é dar manutenção à dinâmica da minha política.” Declarações como essa visam justificar as políticas de segurança adotadas ao longo de seus dois mandatos. No auge de sua popularidade, Uribe chegou a alimentar planos de um terceiro mandato, que não chegaram a entusiasmar nem mesmo seus mais entusiasmados seguidores. Desencorajado de uma segunda modificação na constituição da Colômbia, Uribe parecia esperar que sua “Seguridad Democratica” fosse continuar como diretiva política para os próximos dez anos, pelo menos, ou até as FARC serem totalmente anuladas. As indicações de Santos para o futuro gabinete o teriam desagradado fortemente, e temeria que sua política de enfrentamento com a guerrilha, acabe sendo mitigada em nome da negociação.
Ou seja: Uribe não estaria disposto a ser colocado em segundo plano. Seu objetivo seria, então, entregar ao sucessor um fato consumado, as relações com a Venezuela estremecidas a tal ponto que qualquer negociação acabasse aparecendo como recuo diante do principal adversário. Essas discordâncias internas explicariam a moderação do presidente eleito com relação às denúncias do atual. Resta agora saber como Chavéz reagirá aos acenos colombianos, e se Santos terá jogo de cintura suficiente para transformar o espantalho favorito de seu mentor em “pessoa fantástica” – o que, além de recolocar a economia colombiana nos trilhos e distensionar a região, também poderia apontar Diego Maradona como capaz de reivindicar o cargo de ministro do exterior da Argentina::

Entre tapas e … beijos?…::Colômbia e Venezuela:perspectivas::

parte1Não é mais novidade para ninguém, claro, mas a Colômbia tem novo presidente. Juan Manuel Santos, eleito há duas semanas, é uma figura política envolvida em polêmica, tanto em seu país quanto no resto do continente. Dois anos atrás, ministro da Defesa do governo de Álvaro Uribe, Santos liderou a Operação Fenix, bem planejada special op  realizada em março de 2008, contra um santuário das FARC em solo equatoriano – que quase resultou numa guerra com Equador e seu “irmão maior”, a Venezuela. Essa “operação especial aérea” teve, dentre outros resultados, matar um dos principais planejadores militares das FARC,  Raúl Reyes, e mais dezessete guerrilheiros. Desde então, tramita na própria Colômbia um processo no qual o agora presidente é acusado pelas mortes de vinte e cinco pessoas, registradas nessa operação.

O principal problema, digamos, “diplomático” da Colômbia tem sido com a Venezuela e Hugo Chávez – os constantes entreveros com os “bolivarianos” Equador e Bolívia estão nessa linha de confronto: Uribe acusa, embora não consiga provar, os governos desses países de apoio à “narcoguerrilha”. No caso de Santos, a briga com Chávez remonta ao apoio público daquele a uma tentativa frustrada de golpe na Venezuela, em 2002. Como se não bastasse, o agora presidente defendeu que a Colômbia recebesse o líder golpista Pedro Carmona como “asilado político”. Foi o bastante para que Chávez pusesse Santos no topo de uma lista de supostos inimigos públicos de seu país e (por conseguinte…) aliados do imperialismo ianque, ao lado de Geoge W. Bush e, claro, do próprio Uribe. 

A vocação do novo presidente para a polêmica, entretanto, não se limita aos bate-bocas com o espantalho mais popular entre a grande imprensa brasileira. Em 1997 foi acusado de golpista por ninguém menos que o então presidente colombiano, Ernesto Samper. O motivo da acusação esteve numa reunião clandestina, que pôs  Santos em contato com líderes do Exército de Libertação Nacional da Colômbia (ELN), naquela época o principal grupo de oposição armada ao governo. O atual presidente teria por objetivo provar acusações (dele mesmo…) de que Samper receberia dinheiro do narcotráfico. O resultado mais palpável da tal reunião foi um processo parlamentar – que, é claro, não deu em nada. O fato é que governo Uribe, ainda hoje assombrado por esse evento, divulga uma versão oficial de que a reunião buscava “abrir negociações para uma saída política e pacífica para o país”, muito embora Santos fosse, na época, um dos principais críticos da “falta de pulso” do então presidente Ernesto Samper. Desde então, de improvável “pomba” Santos converteu-se em ativo “falcão”: condena qualquer negociação com as FARC e só aceita o desarmamento incondicional do grupo – pelo menos é o que diz em público. 

Santos não é neófito na política colombiana. Nascido em 1951, em uma tradicional família da oligarquia local, o avô, Eduardo Santos Montejo, presidiu o país entre 1938 e 1942 e ficou conhecido pela oposição às tendências fascistas que então vigoravam no país. Nesse período teve origem o “santismo”, corrente moderada do Partido Liberal, ainda muito ativa e que, até meados da década passada, teve no neto de Santos Montejo um de seus principais animadores. O pai, Enrique Santos Castillo, foi editor do diário conservador El Tiempo, de propriedade da família. O próprio Santos também trabalhou no jornal, durante pouco tempo. A sua entrada na política nacional ocorreu no governo César Gaviria, que em 1991 o nomeou para a pasta do Comércio Exterior. Desde então tem tido intensa atuação na política local. 

Entusiasta dos EUA e do Plano Colômbia, essa simpatia é facilmente explicável – Santos fez toda a sua formação superior naquele país (a parte um período em Londres), inclusive como bolsista de fundações norte-americanas. Antes de decidir-se pelo jornalismo e pela política, o jovem Santos descobriu em si mesmo (ou assim quer que acreditem) forte vocação militar, tendo passado algum tempo como aspirante a oficial da Marinha da Colômbia. Segundo conta, seu interesse pela diplomacia e pelos assuntos militares surgiu no período que passou na Escola Naval de Cartagena. 

Foi no governo do ex-correligionário liberal Álvaro Uribe, quando cumpria mandato de senador, que Santos deu seu maior golpe: desligou-se do partido de seu “amado abuelo” para juntar-se, em 2004, ao governo Uribe, tendo inclusive coordenado a organização de um novo partido, que juntou em uma legenda todos os uribistas – o “Partido de la Unidad Nacional”, conhecido como “Partido de la U”. Nessa época Uribe já tinha se constituído como principal força política da Colômbia, tendo sido eleito presidente pela primeira vez em 2002, concorrendo contra Horacio Serpa. 

Cabe aqui um parêntesis (sempre existem, em política…). O sucesso político de Uribe tem base em sua bem-sucedida política de enfrentamento contra os grupos de oposição armada. Baseado na premissa (não muito distante da realidade) de que a política de apaziguamento seguida por seus antecessores, Samper e o conservador Andrés Pastrana, não tinha dado resultados, Uribe passou a estabelecer pré-condições para negociar com os grupos de oposição armada, independente da coloração política, e o desarmamento tornou-se a base dessas condições. Nos anos seguintes, elas foram recusadas pelas FARC, aceitas de forma relutante pelo ELN e entusiasticamente pelas AUC. Uribe trombeteia, desde então, que trinta mil paramilitares e oito mil guerrilheiros teriam entregue as armas. Sem oferecer outra alternativa à oposição armada, sua política reduz, por todos os meios, os grupos guerrilheiros a meros criminosos armados – basta observar o uso indiscriminado  e pouco explicado da expressão “narcoguerrilha”. Nessa direção não resta outra alternativa que não seja a escalada do conflito militarizado. A nova estratégia não oculta – até ao contrário – a outra face dessa política: o Plano Colômbia.  

Entretanto, não são poucos os analistas que consideram essa política extremamente ambígua.  Denominada, para fins de propaganda, “Política de Segurança Democrática”, sua matriz é a premissa  que a luta do estado e de seus órgãos de segurança contra a insurreição armada e o narcotráfico é problema de toda a sociedade colombiana, e que esta deve ser mobilizada para atuar. A partir dessa premissa, se planeja estratégia: as forças armadas e os órgãos de segurança buscam estabelecer uma rede cobrindo o território nacional, com comunidades e grupos civis atuando como primeira linha de vigilância. A criação de redes de informantes, o estabelecimento de recompensas em dinheiro premiando a deserção e a delação dentro dos grupos armados, a criação de “unidades de autodefesa camponesa”, são algumas das propostas tidas como “fatores de sucesso”. Essa estratégia (nota do redator:: os assíduos de causa:: devem, neste ponto, lembrar que a estratégia é desdobramento da política…) teria, entretanto, sido elaborada com base em canais de informação estabelecidos com o narcotráfico e os violentos grupos paramilitares colombianos, como as Autodefesas Unidas de Colombia, que teriam sido estabelecidos durante seu mandato com prefeito de Medellin. A colaboração com setores do narcotráfico e com os paramilitares de extrema-direita já foi levantada por fontes tão díspares quanto a apresentadora de TV sensacionalista Virgínia Vallejo e o serviço de inteligência do Departamento de Defesa dos EUA. Embora negue com veemência essas ligações, o agora quase ex-presidente nunca as conseguiu explicar direito. Outro aspecto, admitido mas menos propagandeado pelo governo é o aumento exponencial do orçamento de defesa e a aproximação, nunca muito bem esclarecida, com os órgãos de segurança dos EUA. 

Fecha parêntesis. O golpe ideológico espertíssimo, que não se pode deixar de reconhecer, é jogar para a sociedade colombiana parte considerável da responsabilidade de reprimir os grupos armados; embora não pareça, seria uma reestruturação da “política de segurança nacional”, ou seja, segurança de setores de elite como classe dominante do Estado, implementada pelas forças armadas e orgãos de repressão – como era nos anos 1960 e 1970. Parte dessas observações são da escritora Diana Duque Gómez, autora de um livro sobre o governo Uribe, “Uribe: el gran embuste” (uma texto dela sobre a PSD pode ser lido aqui). Segundo Duque, nessa nova abordagem, a política de segurança nacional de triste (e persistente) memória ( e que o vibrante matutino paulistano “Folha de São Paulo” adoraria ver reeditada) pode ser adaptada a um ambiente democrático, sem violar de forma flagrante o estado de direito negociado com a sociedade civil. Com sua “Segurança Democrática” e o forte apoio dos EUA, em termos de treinamento, equipamento e suporte estratégico (fornecimento de equipamento adequado e apoio em Inteligência Eletrônica – ELINT), Uribe conseguiu encurralar a guerrilha em determinadas regiões do país. O apoio dos EUA traduziu-se não apenas em assessoramento militar, mas também em privilégios econômicos e no suporte de instituições acadêmicas e de pesquisa. Políticas urbanas e sociais e projetos de obras públicas, resultantes daí, melhoraram  visivelmente a situação de segurança pública e social, em cidades como Bogotá, Antióquia e Medellin. Não é pouca coisa, reconheçamos: em um país arrasado durante mais duas décadas por uma guerra civil não declarada, a população teria de apoiar quem conseguisse colocar alguma ordem no terreiro. Esse aprovação, que chegou a 95 por cento, tornou o uribismo aparentemente imbatível nas urnas. 

Em 2005, com altíssima popularidade, Uribe obteve da Corte Constitucional mudança na Constituição Nacional, que lhe permitiu apresentar-se para disputar a reeleição. Em 2006 tornou-se o primeiro presidente a ser eleito em primeiro turno, desde a introdução do duplo escrutínio na carta magna colombiana, quinze anos antes. Reeleito, nomeou Santos Ministro de Defesa Nacional, e, como não poderia deixar de ser, a política de confronto escalou. Com apoio crescente dos EUA, as forças armadas aplicaram nas FARC golpe sobre golpe. Além da morte de Raúl Reyes, houve a defecção de Nelly Ávila Moreno, (a líder guerrilheira “Karina”, a mais importante figura feminina da estrutura de comando da FARC), seguida da rendição de centenas de guerrilheiros das FARC. Em julho de 2008, outro golaço: a libertação da senadora Íngrid Betancur, refém das FARC por mais de seis anos. Santos a recebeu pessoalmente, cercado pela imprensa numa base das forças especiais. O sucesso da operação foi possibilitado por um planejamento extremamente cuidadoso e pela infiltração de agentes do governo nos escalões de comando superior das FARC. A integridade dos reféns era considerada como condição não negociável, e a operação deveria ser abortada caso houvesse qualquer sinal de risco para o grupo. 

Foi como executor da “Política de Segurança Democrática” de Uribe que Santos se qualificou para concorrer à sucessão do presidente. A escritora Diana Duque aponta, juntamente com diversos outros analistas, que a guerra interna se tornou, depois de 25 anos, um grande negócio para as elites locais (apesar do radicalismo, exagerado mesmo para o gosto aqui do redator::, o blogue dessa criatura é uma das leituras que causa:: indica aos assíduos). 

Entretanto, é discutível se sucesso da guerra contra a “narcoguerrilha” aconteceria não fosse o “Plano Colômbia” e os enormes recursos aplicados no país pelos EUA. Calcula-se hoje que aproximadamente dez mil operativos, civis e militares, estejam em missão na região, mesmo depois da desmobilização da base de Manta, no Equador. O desgaste político provocado pelo Plano, entretanto, não tem sido pequeno, tanto para os EUA quanto para a Colômbia. As bases operacionais das forças armadas dos EUA acabam, quer se queira ou não, lembrando a história de intervenções norte-americana na região e do uso das forças armadas locais para manter a população sob controle. Entre nós, no Brasil, a questão é menos incisiva – nunca tivemos marines desembarcando na praia de Copacabana -, mas no Caribe e América Central, a memória das intervenções dos EUA é muito marcante, sendo recentes as últimas interferências, diretas ou indiretas na região – basta lembrar o plano Irã-Contras e a manutenção da base naval de Guantanamo, em Cuba, sob pretextos considerados espúrios.  

Além de evocar passado e presente, as bases suscitam, no plano interno local, possibilidades futuras que estão além de qualquer missão militar específica. O “Plano Colômbia” foi originalmente concebido como forma de apoiar e implementar, durante dois anos, ações militares locais, que visavam isolar os territórios sob controle da guerrilha, no sul do país. Para os anos posteriores, eram vagas  e sem prazo claramente fixado as propostas de desmobilização das bases e desengajamento do pessoal norte-americanos.

As instalações não são propriamente militares, quer dizer, não abrigam tropas, não armazenam equipamento de combate, e a maioria dos operativos são civis. Esse é um dos cavalos de batalha usados pelos EUA – e pelas claques conservadoras locais – para alegar a “inocência” e “boa-intenção” do plano.  O problema são as atividades desenvolvidas nas bases: inteligência eletrônica. Monitoramento de comunicações e dados, vigilância por radar e micro-ondas, interferência em ações eletrônicas de possíveis adversários, coordenação e controle, voltados, pelo menos teoricamente (muito teoricamente…), para os movimentos do tráfico de drogas, imigração ilegal para os EUA e “outras atividades ilícitas”. Mas, segundo observações de organizações civis e de setores do próprio governo dos EUA, não são transparentes e nem têm mecanismos que permitam o acompanhamento pela sociedade civil, seja dos EUA, seja dos países onde se encontram. Esse ponto é especialmente delicado: desde 2001, os objetivos da presença dos EUA na Colômbia foram expandidos para incluir “contra-terrorismo”. A partir do início da década passada, tem sido denunciado o envolvimento de militares norte-americanos em operações de campo na Colômbia, o que não é negado nem pelos EUA nem pelo governo colombiano. A proximidade dessas operações com as fronteiras de países como o Equador e a Venezuela é uma das razões para a tensão na região; exagero ou não dos governos desses países, operações como a  “Fênix” ou a “Jaque” não seriam possíveis sem os recursos de ELINT disponibilizados a partir das bases norte-americanas para as unidades de forças especiais colombianas. E essas, por sua vez, dependem, para poder usar eficientemente esses recursos, da colaboração de campo de especialistas militares dos EUA. Durante a campanha eleitoral em 2008, Barack Obama levantou críticas sobre a situação de direitos humanos na Colômbia e apontou a responsabilidade da política dos EUA para a região nessa situação; segundo o então candidato, o Plano Colômbia merecia seu apoio mas talvez precisasse sofrer ajustes. Entretanto, depois de eleito, o novo governo anunciou a instalação de novas bases em território colombiano. Segundo estudos feitos por analistas independentes nos EUA, as novas bases seriam instaladas muito mais perto da fronteira venezuelana do que em locais que permitiriam a compensação da extinta base de Manta (Equador – uma nota sobre o assunto, en inglês, aqui). A seguir, a eletrizante continuação dos tapas e… Bom, por enquanto, tapas, mesmo, entre Santos e Chavez. Fiquem sintonizados::